06 maio 2011

jarolda de jogos populares

apresentação
Num jornal eminentemente dedicado ao desporto pareceu-nos importante e enriquecedor incluir um espaço semanalmente dedicado à recolha das manifestações lúdicas populares. Procuraremos recolher informações junto das populações da região transmontana - distrito de Bragança, acerca daquilo que são e, principalmente, eram as suas práticas de jogo. Práticas recreativas, mais ou menos espontâneas, cuja finalidade era e é o prazer e o divertimento, estão quase exclusivamente associadas à jarolda, ou seja, ao tempo-livre e ao tempo de descanso dos indivíduos. Contudo, também poderemos encontrar e registar jogos associados ao tempo do trabalho, mormente agrícola e pecuário, assim como a actividades fortemente imbuídas de sacralidade, quando associadas a qualquer culto ou ritual religioso. Todas estas actividades lúdicas estavam, e em muitos dos casos, estão ainda, carregadas de simbologias e significados que importa conhecer. Muito daquilo que é o ethos local, pode ser percepcionado também através do acto de jogar…
Sem qualquer intenção de procurar ou encontrar o único ou o autêntico e sem qualquer ordem pré-estabelecida ou qualquer hierarquia geográfica ou simbólica, tentaremos associar os jogos à época do ano ou período em que originalmente se joga e assim serão aqui apresentados. Objectivo último deste espaço, para além do seu carácter informativo, será a recolha etnográfica que, consideramos, importa fazer.
Procurando uma maior interactividade entre o jornal e os seus leitores, gostaríamos de vos desafiar para contribuírem e nos enviarem informações acerca dos jogos que jogam ou jogavam nos seus tempos livres e de descanso. Teremos todo o gosto em conhecer práticas lúdicas singulares e/ou extintas. Poderão sempre entrar em contacto connosco através do email jaroldeiros@gmail.com ou do nº de telefone 273300500/273329600.
A Direcção.
(publicado no Jornal Informativo Desporto, dia 3 de Maio de 2011)

03 maio 2011

road to nowhere

A propósito de uma recta de estrada fotografada e bem pelo amigo Rui Batista, sentindo a sua imensidão e a sua liberdade, permitiu-me ausentar deste lugar onde estou. De imediato veio-me também à memória a letra desta música dos Talking Heads. Verdade é que, amiúde, me dá vontade de ir, simplesmente ir, sem tino ou destino. A propósito, gostava de copiar para aqui a tal fotografia, mas o copyright não me permite, portanto espreitem aqui.

ROAD TO NOWHERE

Well we know where we're goin'
But we don't know where we've been
And we know what we're knowin'
But we can't say what we've seen
And we're not little children
And we know what we want
And the future is certain
Give us time to work it out

We're on a road to nowhere
Come on inside
Takin' that ride to nowhere
We'll take that ride

I'm feelin' okay this mornin'
And you know,
We're on the road to paradise
Here we go, here we go

We're on a road to nowhere
Come on inside
Takin' that ride to nowhere
We'll take that ride

Maybe you wonder where you are
I don't care
Here is where time is on our side
Take you there...take you there

We're on a road to nowhere
We're on a road to nowhere
We're on a road to nowhere

There's a city in my mind
Come along and take that ride
and it's all right, baby, it's all right

And it's very far away
But it's growing day by day
And it's all right, baby, it's all right

They can tell you what to do
But they'll make a fool of you
And it's all right, baby, it's all right
We're on a road to nowhere

30 abril 2011

a lenda das giestas

Hoje desde manhã cedo, quando saí à rua, reparei que por todo o lado, várias pessoas procuravam nas bermas das estradas e transportavam ao colo ramos de giestas floridas. Num primeiro momento nem sequer me lembrei que hoje era o último dia do mês de Abril e amanhã, dia primeiro de Maio. Claro que logo depois me lembrei da velha prática popular que consiste em colocar esses ramos nas fechaduras das portas e janelas das habitações durante toda esta noite. Desde sempre me lembro de isso acontecer, tanto na região do Porto como em Trás-os-Montes, mas só hoje fui tentar encontrar a origem de tal ritual. Segundo reza a lenda, conhecida como "lenda das Maias", estas foram utilizadas pelos judeus para identificarem a casa onde Jesus Cristo, ainda bebé, pernoitava, quando a sua família tentava escapar à morte decretada por Herodes. Pelos vistos, inexplicavelmente, na manhã seguinte todas as portas dessa localidade tinham um ramo de Maias nas suas fechaduras, impossibilitando assim aos soldados de Herodes identificar o local onde estava Jesus. Segundo a mesma lenda, nasce aí o velho ritual que ainda hoje podemos encontrar um pouco por todo o país, mas principalmente nas localidades do norte. Dizem também que se colocam as giestas (conhecidas em muitos locais como Maias, devido a florirem normalmente no mês de Maio) em todas as fechaduras de portas e janelas para defender a casa e impedir que os espíritos maus, as bruxas e toda a maldade possa invadir o espaço "sagrado" por excelência que é o lar, a habitação familiar. Neste rito, ciclicamente praticado, encontramos uma forte componente da crença e religiosidade popular que, apesar da sistemática e histórica sensura exercida pela Igreja, conseguiu sobreviver até hoje nas práticas populares da experiência do sagrado. Para além desta crença, que eu não tenho, devo dizer que gosto da giesta e que quando florida é muito bonita e cheira bem.
(ao alto, imagem retirada da internet, mas que bem retrata a paisagem predominante, nesta época, de grande parte do monte no norte do país)

27 abril 2011

em flagrante delito...

... e não me avisaram.

iniciativa mais sociedade

O Jornal de Negócios publicou algumas propostas para o programa eleitoral do PSD elaboradas pelo movimento da sociedade civil "Mais Sociedade", movimento promovido pelo presidente do PSD e constituido por ilustres pensantes da área social democrática, que se propõem reflectir sobre Portugal e apresentar soluções e propostas para todas as nossas maleitas. Um dos mais proeminentes e mediáticos pensadores desse grupo é o guru dos planos inclinados, o professor João Duque que veio agora defender a proposta de que o recurso ao fundo de desemprego deverá implicar uma redução da pensão de reforma. Inacreditável até onde vai a voragem económica e social desta gente. Num plano superior e prismaticamente inclinado, estes senhores consideram que é uma questão de justiça social penalizar os malandros dos desempregados, que só assim estão porque não gostam de trabalhar. Pois claro.
Em vésperas de eleições legislativas propostas para programas de governo como esta só nos podem deixar perplexos e preocupados com a possibilidade destas mentes brilhantes chegarem ao governo e aos diferentes ministérios da nação. Com iniciativas e propostas como esta, ficamos é com a sensação de que a real ambição deste movimento é menos sociedade, e se possível acabar de vez com essa coisa incómoda que são os portugueses, acabar com essa maçada que é o estado social e também, já agora, com essa invenção anacrónica que são os direitos dos trabalhadores e dos cidadãos. Afinal para que servem!?

exclamação

"Santa cona do assobio."

26 abril 2011

especialmente do brasil e outros...

Nalguns casos perdendo a cabeça, noutros à pesca de etnografias locais e, por fim, o resultado do esforço de amigos do outro lado do Oceano. Obrigado. Muito bom.
- Foucault, Michel, 1994, A vontade de saber - história da sexualidade I, Lisboa, Relógio D'Água;
- Foucault, Michel, 1994, O uso dos prazeres - história da sexualidade II, Lisboa, Relógio D'Água;
- Foucault, Michel, 1994, O cuidado de si - história da sexualidade III, Lisboa, Relógio D'Água;
- Afonso, Belarmino (introdução), 1985, Raízes da Nossa Terra - Cancioneiro Transmontano, Bragança, Delegação da Junta Central das Casas do Povo de Bragança;
- Junior, Santos e Mourinho, António, 1980, Coreografia Popular Transmontana (extracto do fascículo IV do vol. XXIII dos Trabalhos de Antropologia e Etnologia), Lisboa, Sociedade Portuguesa de Antropologia;
- Ferreira, Marieta de Moraes e Amado, Janaína (org.), 2006, Usos e Abusos da História Oral, Rio de Janeiro, Fundação Getulio Vargas;
- Geertz, Clifford, 2006, O Saber Local, Petrópolis, Editora Vozes;

25 abril 2011

pois é...

Depois da hipotética polémica, o exclarecimento que me parece devido e que desmonta determinadas construções do mundo... (só agora publicado por ausência de digitalizador)

abril de fmi

Quando estruturei e alinhavei esta intervenção, a vontade era chegar aqui e dizer-vos simplesmente que acabou, que todos os valores do 25 de Abril afinal de contas apenas têm servido determinada retórica e que neste Abril de FMI, este ritual seria pífio e comprovadamente inconsequente. Depois, a própria realidade se encarregou de me dar materiais e, acima de tudo, alento para resistir e persistir na defesa desses mesmos valores. Agora, mais do que nunca.
A vertigem do tempo actual precipitou-nos num carrossel catastrófico. Têm sido assim os últimos meses, em Portugal, na Europa e no mundo. Quem pressentiria a tempestade, não de areia mas de liberdade, gerada nos desertos do Norte de África de onde sopra o familiar vento suão? E a onda não parou: apesar de o povo líbio estar encurralado entre os tanques de Kadhafi e os mísseis da NATO, ela expande-se até à Síria, Iémen e Arábia Saudita, governadas por reis e déspotas petrolíferos, todos “bons amigos do Ocidente”. Recentes são as ondas sísmicas e o tsunami japonês que abalaram o mundo, sobretudo pela catástrofe nuclear de Fukushima, cujo alcance ninguém hoje consegue medir…onde param os arautos do nuclear!!!!???
Também o velho continente foi abalado por tempestades, mas de outro tipo, que já colheram a Islândia, a Grécia, Irlanda e agora Portugal. Mas não vão ficar por aqui… Não se trata de catástrofes naturais, mas provocadas pela ganância financeira num mundo desgovernado pelo neoliberalismo. A bolha especulativa da economia de casino estava programada para rebentar, como alertavam há mais de uma década vários prémios Nobel da economia. Desde finais de 2008, os Estados cuja intervenção nos mercados foi diabolizada ao longo de décadas, injectaram triliões para salvar bancos cujos activos estavam ao nível do lixo, apesar de receberem notas elevadas das agências de rating. As mesmas ratazanas e os mesmos bancos que, a partir de 2010, lançaram a gigantesca operação especulativa contra as dívidas soberanas dos Estados que os salvaram. Eis o capitalismo neoliberal em todo o seu esplendor!
Nos 37 anos da madrugada libertadora do 25 de Abril, Portugal está colocado perante desafios que tocam directamente os fundamentos da celebrada “revolução dos cravos”. QUE DIA É HOJE? Citando “FMI” de José Mário Branco, um clássico cada vez mais actual, “o FMI não aterrou na Portela, coisa nenhuma”… Mas a dura realidade é que eles aí estão! E, ao contrário do que nos querem fazer crer, nem todos perdem com a sua chegada: os bancos, por exemplo, já sonham com o seu quinhão de liquidez dos 80 mil milhões de euros a baixo juro para subirem as taxas que impõem à economia produtiva e a dezenas de milhares de cidadãos ameaçados de despejo por já não conseguirem pagar a prestação da casa.
A grande questão hoje é: quem ganha e quem perde com o FMI? Quem paga a dívida externa e a enorme dívida social aos trabalhadores e aos dois milhões abaixo do limiar da pobreza? A esta pergunta crucial, só há duas respostas: a do bloco FMI, e a do bloco anti-FMI, consubstanciada pela esquerda nacional. Há alternativas em Portugal e na Europa, indiciadas no processo judicial contra as agências de rating, interposto pelo grupo de economistas encabeçado pelo professor José Reis. Não é caso inédito: a Islândia varreu do poder os políticos responsáveis pela crise, elegeu uma nova Constituinte e meteu os banqueiros corruptos na prisão. Mais ainda: recusa, e bem, pagar a dívida aos bancos ingleses e aos agiotas que especulam sobre a dívida soberana.
Nos ásperos tempos que vivemos, Abril volta a ser tempo de luta, volta a ser tempo de resistência, volta a ser tempo de afirmação nacional.
Recuperemos a velha lírica de Sérgio Godinho: “Só há Liberdade a sério quando houver a Paz, o Pão, Habitação, Saúde, Educação, quando houver liberdade de mudar e decidir, quando pertencer ao povo o que o povo produzir…”
Obrigado.
(intervenção na Assembleia Municipal de Bragança, mais ou menos a esta hora...)

23 abril 2011

pelos oprimidos...

"Caras amigas e amigos,
Depois de 30 anos de governos PS / PSD / CDS, não estará na altura de mudar?
Vamos continuar a aceitar o estado ladrão? Ou vamos escolher um novo caminho?
O povo vai acordar...
Disperto pelos oprimidos em revolução!
Abraços,"
(de um amigo, hoje na minha caixa de correio electrónico)

pelo dia mundial do livro e dos direitos de autor

21 abril 2011

conversa para as famílias

Esta declaração de Páscoa de Passos Coelho transmitida através do Facebook e conhecida hoje é um perfeito anacronismo visual e comunicacional. Aquele cenário e a presença da mulher, a mão dada e o ambiente familiar, o conteúdo da mensagem e os votos finais, tudo transpira a antanho, a nostalgia por um outro tempo e um outro país. O que pretende esta gente com este tipo de iniciativa!?.. É que em pleno século XXI, utilizando as novas tecnologias, assistirmos a um momento como este (já houve outros idênticos, do mesmo interveniente e também de Cavaco Silva), assim muito de repente, remete-me imediatamente para as conversas em família que Marcelo Caetano, enquanto Presidente do Conselho, impunha aos portugueses, através da televisão e da rádio, onde paternalmente explicava as opções do Governo, desde o mais pequeno e insignificante pormenor até às questões de Estado. Ficou célebre aquilo que Marcelo Caetano disse no primeiro desses serões:
"Nem sempre as circunstâncias proporcionam ao chefe do Governo oportunidade para, num discurso, esclarecer o seu pensamento ou elucidar o público sobre problemas correntes ou objectivos a atingir. Mas os actuais meios de comunicação permitem conversar directamente com as pessoas, sem formalismos, sem solenidades, sempre que seja julgado oportuno ou necessário".
Conseguem imaginar, ainda que fosse possível, Salazar a utilizar o Facebook para comunicar com os portugueses!? Eu não. E neste caso de Passos Coelho, sinto que há muito de ideológico neste tipo de estratégia comunicacional, quase que um ideal refundador de um determinado tipo de sociedade. Para além do desenquadramento espacial e do desfasamento temporal, considero-a civilizacionalmente perigosa.

19 abril 2011

18 abril 2011

as minhas vacas, ou uma conversa de merda

Depois de almoço e durante um par de horas, na taberna, agora café do Lexinho, estive a jogar à Blota – jogo de cartas consignado a duas ou três aldeias e que um dia eu ainda hei-de trabalhar, depois disso e enquanto acabava a última Superbock, estive à conversa com alguns conterrâneos mais velhos. É sempre um prazer ouvir esta gente, as suas histórias, as suas aventuras, as suas vidas, as suas mágoas, enfim, as suas memórias. Falava-se de vacas e outros gados e do seu progressivo desaparecimento da paisagem da aldeia. Outrora foram às centenas, depois às dezenas e por fim, antes do seu total desaparecimento, apenas algumas unidades. Hoje não existe uma única vaca em toda a aldeia. Esta gente fala-me com notória nostalgia e saudade desse tempo, em que a aldeia tinha mais animais e, também, mais gente. Eles bem sabem que a vida era dura e mais difícil do que a de hoje, mas percebo-lhes a preferência por esse outro tempo. A propósito dessa convivência diária com os vários gados, recorda-se a imundice permanente das bosteiras, especialmente no Inverno, nas ruas e canelhas da aldeia – parece que estou a sentir o cheiro intenso das bostas de vaca a fermentarem no calor do pino do Verão, ou a ver-me, no Inverno, a caminhar pela aldeia, saltitando nas pontas dos pés, para evitar a merdice lamacenta. Relembra-se também a importância que tinham essas bosteiras para algumas das actividades agrícolas, tais como estrumar as terras e malhar o pão -nas eiras onde se malhava o trigo e o centeio. Por essas alturas, os mais velhos mandavam os miúdos, munidos com pás e carretas, procurarem pela aldeia as bosteiras frescas (recém-defecadas), recolherem-nas e trazerem-nas para as eiras, onde eram espalhadas, de forma a forrar o chão. Deixava-se secar e então depois podiam os homens malhar as espigas de cereal. Os grãos ficavam presos na bosta, os cuanhos e as palhas esvoaçavam, depois bastava varrer… Por fim, demos por nós a recordar alguns dos nomes dados às vacas. Não havia uma vaca que não tivesse um nome próprio. Um e outro iam recordando os nomes que, ao longo da vida, foram dando aos seus animais e o que é certo é que esse nome permitiu-lhes guardar na memória algumas das características desses animais. A atribuição de um nome a uma vaca serviria não só para as distinguir, como também para o próprio diálogo entre o lavrador e as suas vacas. Dizem-me que elas reconheciam o seu nome e respondiam a esse estímulo. A verdade é que a lista de nomes possíveis é imensa e a atribuição era sempre feita enquanto vitelas, sendo da exclusiva responsabilidade dos seus donos. Pontualmente, eram as crianças dessa casa quem escolhia o nome dos seus animais. Quando havia a compra ou venda de vitelas ou de vacas, uma das preocupações era conhecer e manter o nome que o anterior dono atribuia a esse animal. A escolha do nome obedecia em muitos casos a características físicas (ruiva, clara, amarela, morena, menina, roliça), ou temperamentais (castiça, malandra) do animal em questão, noutros casos a escolha era feita por relação com a época do ano em que nasceram (cereja, laranja, castanha), noutros casos ainda acontecia dar-se o mesmo nome da progenitora, ou de uma outra vaca de boa memória que esse lavrador tenha tido. Convém recordar que o sustento de cada casa, de cada família, dependia fortemente da sorte e saúde dos animais de trabalho. Normalmente, na mesma casa não havia vacas com os mesmos nomes. Este exercício de memória realizado por estes lavradores, traz-me à memória alguns momentos da minha infância, em que também eu convivia com esses animais e conhecia pelo nome as vacas da família. Momentos inesquecíveis de “ir” com as vacas para o lameiro, ou conduzir um carro-de-bois, ficarão registados para sempre. Agora que penso nisso, recordo com especial carinho a Cereja, uma vaca corpulenta, escura e temperamental, mas muito trabalhadora. Aproveitando o bom tempo que teremos pela frente, aqui está uma imaterialidade engraçada que irei estudar com mais atenção e trabalhar com cuidado redobrado, no meu futuro próximo. Boa.
(Ao alto, um belo par de exemplares da raça mirandesa, a trabalhar algures no Parque Natural de Montesinho.)

16 abril 2011

solilóquio

Tu sorris e o teu sorriso irradia até mim. Tu ficas pensativa e eu, em pânico, sério me torno.

13 abril 2011

solilóquio

Com tanto para ler e reler para depois escrever e reescrever, gastar tempo com tricas e trucas intestinas e orgânicas apurria-me. Ser responsável e interveniente nesse cenário, deixa-me desgastado. No entanto, o situacionismo forçado, impõe-me a disposição necessária para esse activismo. Vamos lá.

11 abril 2011

bravo

Hoje cheguei a Bragança e reencontrei a minha criança, que tinha vindo uns dias antes para casa dos avós. Quando me sentei com ela, perguntando-lhe pelo que tinha feito, logo me quis mostrar as novidades, que segundo o seu juízo, são exclusivamente as novas "coisas" que lhe ofereceram. Mostrou-me várias bugigangas apropriadas para uma miúda de nove anos, mas mostrou-me também uma revista Bravo, versão portuguesa, que pedira à Avó. Nesse momento fiquei incomodado, uma vez que me lembro perfeitamente de também a ter comprado na minha, cada vez mais longinqua, adolescência. Nunca me passara pela cabeça que os jovens de hoje, em Portugal, ainda se sentissem atraídos por esta publicação, cuja origem, se não estou em erro, era e é alemã. Muito menos imaginei que mesmo em Português esta revista atraísse crianças e pré-adolescentes. No meu tempo, que aconteceu na segunda metade da década de oitenta, apenas existia em Alemão, portanto, bem se pode perceber que apenas nos interessavam as imagens, os posters e uns pequenos autocolantes que colávamos nas capas da escola. São vagas as memórias dos seus conteúdos, mas recordo bem uma secção, que presumo, seria de sexologia e onde algumas imagens a cinzentos nos permitiam ver alguns pares de mamitas desnudadas. Que excitação, meu deus...

adenda - Ao escrever este texto, senti-me tal e qual o Nuno Markl na sua rúbrica Caderneta de Cromos. Tenho quase a certeza que ele já falou do cromo "Bravo". O que disse já não recordo, mas tal como eu, também ele na sua adolescência foi um assíduo cliente.

10 abril 2011

verbo, polarizar

Aquilo que está a acontecer em Portugal é muito triste e perigoso. Nunca como nos dias de agora se assistiu a tamanha campanha de difusão ideológica, tamanho esforço por mentalizar as "massas" para a inevitabilidade do projecto neoliberal e tamanha concertação opinativa nos média. O esforço é comum: fazerem crer que a intervenção do FEEF e do FMI é solução única para resolver os problemas financeiros actuais da nação. É MENTIRA. Foram já várias as opiniões defendendo outras soluções menos penosas para o país e seus cidadãos - é preciso saber qual é a verdadeira dívida; é preciso saber quem pagará que parte dessa dívida. Por outro lado, é patente o receio que as entidades europeias e outras manifestam relativamente ao resultado das eleições em Portugal. Por isso querem acordo pré-eleitoral e por isso impõem pressão sobre os responsáveis políticos nacionais. Vejam até onde já chegou o pânico quando se subscrevem documentos como este, que se intitula de "Um Compromisso Nacional"...
Num tempo breve, como aquele que teremos até às eleições legislativas impõe-se uma polarização séria, clarificadora e bem visível entre aqueles que defendem o "bloco" FMI e aqueles que defendem o "bloco" anti-FMI. Será a intervenção do FMI o elemento que separará aqueles que aceitam a bancarrota do país e aqueles que acreditam e defendem uma alternativa credível de governação à esquerda e que permita aos portugueses a soberania de dizer que NÃO. Será esse o esforço, será essa a luta, para mim também.

07 abril 2011

FMI e o Estado de Excepção

“A ideia é destruir o que tem sobretudo valor de uso e favorecer a apropriação privada, a preço de saldo, do que tem valor de uso e muito valor de troca.” João Rodrigues

A anunciação de um pedido nacional para uma intervenção externa (curioso como alguns teimam em chamar-lhe ajuda…) da FEEF e do FMI não terá sido propriamente uma surpresa para a maioria dos portugueses. A dúvida que poderia restar seria o timming dessa iniciativa, o que nos obrigou a viver os últimos meses numa espécie de limbo existencial, misto de ansiedade e de suspensão pelos dias que hão-de vir, num futuro próximo.
É disparatada, quanto a mim, a teimosia dos média em estabelecer comparações económicas e sociológicas com aquilo que aconteceu ao país em 1983, aquando da última intervenção externa do FMI, pois não me parece razoável comparar o Portugal de então com aquele que hoje somos. Também não me preocupa serem “outros” a fazer aquilo que “nós” não soubemos fazer. Aquilo que me preocupa é saber como poderão sobreviver os portugueses à pressão deste torniquete transnacional, que transforma os indivíduos em números e, por isso, insensível é aos seus problemas e às suas condições de vida. Nesta lógica, não importará até quando e até onde nos vão retorcer para conseguirem aquilo que já há muito procuram.
Convém não esquecer que se aqui chegamos é porque fizemos determinado caminho. Caminho esse que percorremos, alegres e sorridentes, mas ignorantes do verdadeiro sentido e objectivo daqueles que nos conduziam por aí. Não terá sido por falta de avisos e alertas de alguns eminentes especialistas, entretanto enxovalhados na praça pública e mediática, nem por falta de democracia que os portugueses teimaram em eleger os mesmos de sempre para nos governar. Tal como alguns afirmam, teremos aquilo que merecemos, mas não sejamos inocentes, pois não esteve propriamente nas mãos e nos votos dos portugueses a possibilidade de arrepiar caminho e escolher outro destino que não este. Senão vejamos:
A escalada globalizante acompanhou a apropriação da palavra “globalização”, que, supostamente, deveria explicar a dialéctica fragmentação/globalização. Esta palavra veio directamente das teorias japonesas da gestão pós-fordista e, inicialmente, começa por ser utilizada pelos especialistas de marketing para designar a segmentação dos públicos-alvo ou a divisão de grandes segmentos transfronteiriços de comunidades de consumidores com os mesmos sócio-estilos, os mesmos modelos de consumo. Foram os “evangelistas do mercado” e os think tanks neoliberais, tais como o Adam Smith Institute, em Inglaterra, cujo objectivo consistiu em desenvolver uma reflexão capaz de pesar sobre as políticas públicas, quem concorreram explicitamente para o sucesso da sociedade prometida pela “revolução neoliberal”, projecto de uma nova ordem em que o mercado se torna o principal árbitro de todas as transacções, quem trouxeram para primeiro plano um fascínio vanguardista pela figura do consumidor, relegando para planos inferiores a figura do cidadão. A doutrina do livre-câmbio da “soberania absoluta do consumidor” reconheceu-se no perfil de um telespectador que se tornou autónomo graças ao seu poder intangível de determinar o sentido dos programas.
A marginalização do cidadão pelo consumidor realizou-se à custa da interrogação sobre os agentes de produção, o mercado, o Estado e a decomposição/recomposição do Estado-Nação, mas também sobre o novo estatuto do consumo, cada vez mais integrado nas matrizes industriais do pós-fordismo. O consumo torna-se ele próprio em produção de informações para o produtor. A relevância que irá ser gradualmente atribuída ao termo “sociedade civil” exprime, igualmente, essa necessidade de uma “caixa-negra”, tapa-misérias de um vazio de problematizações. Mistificada como espaço liberto da diversidade, da pluralização das identidades fragmentadas, esta sociedade civil surge como antítese do Estado-Nação. Este culto da sociedade civil deslegitimou o próprio princípio de políticas públicas.
Finalmente o esforço neoliberal parece ter alcançado o seu fim (!?) com a desregulamentação total dos mercados, com o esvaziamento dos estados soberanos e com o despojamento da cidadania individual, naquilo que Giorgio Agamben (2010) designa de identidade sem pessoa. O mesmo autor tem razão quando afirma que as democracias ocidentais - a própria civilização ocidental contemporânea - criaram voluntariamente um estado de emergência permanente que, progressiva e metodicamente, tem vindo a despir de cidadania os seus indivíduos. Paradigma vigente desde então e até ao presente.
Mesmo perante a perspectiva bem realista de virmos a viver, durante um período ilimitado, num estado de excepção - com abolição ainda que provisória do poder legislativo e do poder executivo, num vazio de direito e numa zona de anomia onde a distinção entre o que é público e o que é privado é desactivada, onde a norma se tornará indiscernível da excepção e as liberdades individuais poderão ser suspensas – prefiro acreditar que a presença de forças estranhas e ilegítimas não determinará o nosso humilhante aprisionamento nesse estado de excepção.
Não posso terminar sem antes referir o ridículo que esta infeliz situação significa para todos aqueles que nos têm governado nas últimas décadas. É soberba a incompetência e é também magnífica a desresponsabilização desses ilustres intervenientes. E engraçado seria, se não demasiado triste e vergonhoso, todos eles não perderem a face e, qual imaculadas, apresentarem-se sempre impolutos e como fazendo parte da solução, outra e outra vez. Até quando vão os portugueses aturar isto?
(texto enviado para o Jornal Nordeste)

05 abril 2011

urbanidade

A propósito de alguns debates transmitidos pelas televisões nos últimos tempos, apercebi-me da utilização recorrente do termo "urbanidade", enquanto locução adverbial qualitativa, ou seja, "com urbanidade" dos seus intervenientes. Essa insistente verbalização incomodou-me, até porque não me era familiar e soava-me a anacronismo. Logo parti para os dicionários disponíveis e encontrei: "(do latim urbanitas), enquanto substantivo: qualidade do que é da cidade, da urbe, do que é urbano; diferente da ruralidade; delicadeza requintada, observação das boas maneiras no relacionamento com os outros, acompanhadas geralmente de finura e elegância na linguagem, distinção no porte, nas atitudes; Parecido com civilidade, cortesia, polidez; diferente grosseria, rusticidade. Enquanto adverbio, modo polido, delicado, atencioso."
Num tempo em que as ancestrais oposições entre o rural e o urbano se esbateram e em que assistimos a uma permeabilidade social e demográfica entre estes dois, cada vez menos, distintos "universos" parece-me que a utilização deste qualificativo se cingirá a uma qualidade essencialmente social, verificável numa espécie de esteticismo social com certo sabor a dandismo, bem característico de determinados ambientes urbanos e com laivos de elitismo ou pseudo-elitismo. Considero assim que a atribuição desse virtuosismo não poderá ser um exclusivo desse reduto da condição urbana e ofenderá todos os demais.

02 abril 2011

desejos e placebos

Agora que tentamos habituarmo-nos à nova realidade demográfica (e sonora) familiar e quando atento no interesse, na curiosidade e no cuidado com que a irmã olha para o recém-chegado irmão, relembro o longo caminho, ou pelo menos partes desse percurso que foi necessário fazer para aqui chegarmos.
Depois de um período de nojo a criança retomou o discurso reinvindicativo em relação ao seu direito, e nossa obrigação de pais, de ter um irmão ou uma irmã. A sua persistência tem sido vigorosa, principalmente junto da mãe, a quem diariamente tem perguntado se já está grávida e/ou porque não está ainda.
Em tempos, a mãe tentando dar a resposta adequada à clássica pergunta da inocência infantil, resolveu dizer-lhe que se engravida tomando um comprimido. Desde então, e agora particularmente, a pergunta é diária:
- Já tomaste o comprimido?
- Não, ainda não. Tenho que ir à farmácia comprá-lo.
- Então vamos lá. Quando vamos?

E assim a mãe foi conseguindo adiar a tomada de tal comprimido. Acontece que nos últimos dias a miúda regressou violenta e expressivamente ao assunto e, neste último fim-de-semana, "obrigou" mesmo a mãe a tomar o milagroso comprimido. Como sabia (a mãe tinha-lhe dito) que a toma era feita antes de dormir, não adormeceu enquanto tal não aconteceu. Num estado eufórico e ansioso, deitada ao lado da mãe, chamou-me para ir buscar o comprimido. Eu e a mãe, cúmplices neste engodo, trocámos olhares embaraçados, como quem não sabe como proceder...
Lá fui à busca de algo que a mãe pudesse simular ingerir. A escolha racaiu no anti-inflamatório Voltaren. Regressei ao quarto com o dito comprimido e um copo de água. Fora de sí, a criança controlava bem de perto todos os movimentos. Não havia qualquer hipótese de a enganar e a mãe teve mesmo que meter à boca o comprimido, ao qual juntou um pouco de água. Depois disto a criança agarrou-se à barriga da mãe e encheu-a de beijinhos enquanto dizia que já estava... virei costa e sorri, certo que a mãe tinha retido a dragueia algures na boca e não o tinha ingerido. Puro engano. Ela ingeriu-o mesmo e com isso ficou agoniada o resto da noite. A miúda depressa adormeceu a seu lado, concerteza certa de missão cumprida e, quiçá, a sonhar com a barriga da mãe a crescer e com as brincadeiras que um dia fará com seu irmão ou sua irmã.
Agora, nova missão pedagógica, explicar-lhe que nem sempre o comprimido dá resultado.

01 abril 2011

sectarismo verbal

Não gosto de ouvir e ler os políticos e os arautos da opinião publicada referirem-se aos portugueses utilizando o substantivo colectivo "o povo". Prismaticamente, soa-me sempre a desprezo social. A sua pronunciação traz sempre uma carga simbólica pejorativa enorme e é soberbo o plano inclinado de quem assim fala. Afinal, quem vota não é o povo, são os indivíduos portugueses enquanto cidadãos de Portugal.

31 março 2011

aniversário

I think I was once
I think we were

Your milk is my wine
My silk is your shine
(Jim Morrison)

escritos para ti... (primeiras linhas)

Meu querido,
Ainda nem sequer te conheço e já escrevo para ti. Falta muito pouco para nasceres e a ansiedade vai tomando conta de mim, de nós. Decidi fazer este registo para que, um dia e de alguma forma, possas conhecer o ambiente e os sentimentos daqueles que te irão receber e acompanhar durante parte da tua vida. (...) Tens uma irmã mais velha que esteve este tempo todo muito ansiosa e expectante. Tem para ti uma quantidade de presentes e surpresas que foi preparando nestes últimos tempos. Irá dividir contigo o quarto, o que aceitou com relativa boa vontade, mas desconfio que quando vieres a ocupar o teu lugar, rapidamente ela mudará de opinião e reclamará a independência do seu espaço. (...)
Estás prestes a nascer e aquilo que me preocupa é que o teu primeiro sopro na vida seja um momento bom. Estou feliz e não trocaria este meu presente por qualquer outro.
Do teu pai.

inside job

Acabei de ver este filme-documentário e estou indignado. Como puderam, podem, meia-dúzia de espertos brincar com a vida de milhões de cidadãos e, depois de desregularem financeiramente e especularem até ao tutano os mercados, saírem incólumes, ilibados e ainda mais ricos. É revoltante. Dá vontade de partir completamente para a ignorante violência. E agora apelam-nos à compreensão e ao esforço para ultrapassar a "crise". Badamerda.

28 março 2011

compras e ofertas recentes

- Jacob, João e Alves, Victor, 2010, Bragança - roteiros repúblicanos, Bragança, Quidnovi (oferta);
- Murcho, Desidério, 2011, Filosofia em Directo, Lísboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Mendes, Fernando Ribeiro, 2011, Segurança Social - o futuro hipotecado, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Actas Colóquios da Lusofonia, 2007, Bragança, Câmara Municipal de Bragança (oferta);
- Beattie, John, 1999, Other Cultures, Londres, Routledge;
- Dentinho, Tomaz e Rodrigues, Orlando, 2007, Periferias e Espaços Rurais - comunicações do II congresso de estudos rurais, Estoril, Princípia Editora;
- Hessel, Stéphane, 2011, Indignai-vos!, Carnaxide, Objectiva Editora;
- Bourdieu, Pierre (org.), 1997 (7ª edição), A Miséria do Mundo, Petrópolis, Editora Vozes;

colo

Tenho em casa um recém-nascido com nove dias de vida. Neste tipo de reclusão a que nos submetemos e em que temos vivido, ele tem sido o nosso sol. Para além dos momentos parafernálicos - mamar, fraldar e banhar, passa o seu tempo a dormir, o que faz com real prazer e tranquilidade, principalmente, no colo de alguém. Tenho passado horas com ele no meu colo, com satisfação por poder admirá-lo e, ao mesmo tempo, por não me impedir de fazer aquilo que tenho/quero/gosto, como agora enquanto escrevo estas linhas. São muitas as advertências e os avisos para não o habituarmos ao colo, porque faz-lhes mal e depois eles não querem outra coisa. Mal faz-lhes não terem carinho e a nós, não os poder acarinhar. E eu, a tudo isso, faço ouvidos moucos, pois gosto é de o ter no meu colo e sempre que puder assim vai estar.

25 março 2011

solilóquio

A nova vida trouxe-me vida nova. Estupidamente caótica. O desencontro com o tempo tem sido tal que não consigo atinar. Vivo assim estes dias num estado alterado de consciência e nem a cafeína e as outras drogas me conseguem valer. Até quando?

24 março 2011

epitáfio do tamanho de Portugal

Desconfiava que iria escrever estas palavras em breve. Não sabia o dia, é certo, mas desde o discurso de Cavaco Silva na tomada de posse deste seu segundo mandato na Presidência da República, que sentia que todos, incluindo o próprio e suas hostes, pretendiam por um ponto final nesta longa e martirizante agonia nacional. Curioso, Sócrates sai pelo seu próprio pé, tal como já fizera o socialista António Guterres. Parece ser este um "fado" socialista... Abrindo assim a porta da rua, Sócrates leva com consigo, e ainda bem, toda a comandita pária e acrítica, que se instalara há largos anos e que já se servia da coisa pública com direito e pertença, como se lhes estivesse destinado ad eternum tais direitos e regalias.
Neste virar de página, motiva-me escrever umas palavras acerca daquilo que considero ter sido a governação socialista, personificada neste personagem principal bipolar, que em boa verdade nunca conseguiu merecer a total confiança dos portugueses. Em seis anos de mandatos, com maioria e, depois, sem maioria, conseguiu desbaratar e desconstruir todo o património social, cultural e económico que, bem ou mal, tínhamos acumulado nas últimas três décadas. Não houve sector da sociedade portuguesa ou actividade económica com o qual o engenheiro Sócrates não conflituasse. No final de contas e fazendo um esforço de memória, de tudo aquilo que foi produzido e/ou introduzido na sociedade portuguesa sob a sua governação, sobrevive à minha sensibilidade toda a legislação relativa aos significativos avanços civilizacionais, e em particular, o acesso ao casamento de pessoas do mesmo sexo (género).
No fim de mais um ciclo, importará perguntar: Haverá algum português triste ou insatisfeito com este desfecho!? Haverá alguém neste país que voltará a acreditar no engenheiro Sócrates, ou mesmo no Partido Socialista!? Não sei, mas a sua (Sócrates) sobrevivência política dependerá, única e exclusivamente, da inteligência dos eleitores. Espero. Na sua lápide, o meu epitáfio político diria apenas que este foi o homem que decretou, e bem, a proibição de fumar em locais públicos fechados.

22 março 2011

wordscape

A palavra projectada no tempo e no espaço. Impressionante.

reorganização doméstica

Com a chegada do novo elemento é tempo de nos arrumarmos cá em casa. Este é o dia que marca o regresso às rotinas das fraldas e dos biberons. É tempo de prescindirmos do nosso tempo e espaço em favor do bem estar do rebento. Custará a habituar mas será um enorme prazer vê-lo crescer e desenvolver.

19 março 2011

a felicidade

Se existe e se é possível senti-la, então hoje é o dia em que isso me acontece. Todo eu sou felicidade. Idêntico sentimento aconteceu há muitos anos atrás, precisamente no dia 1 de Dezembro de 2001.

solilóquio

Na alvorada de um dia especial, a beleza da vida a nascer. No crespúsculo de um dia grande, o tamanho de uma vida toda. As nossas vidas.

18 março 2011

intersticial

Desde que descobri este pequeno recanto, tenho lá regressado amiúde para o contemplar e saborear. Repetidamente deste prisma, tenho passado horas em tranquila contemplação, silenciosa reflexão e, por vezes, profícua criação. Nesta paisagem conurbana do grande Porto podemos encontrar alguns caracteres estranhos à ainda predominante ruralidade e será, precisamente, essa tíbia invasão da urbanidade no espaço rural que me transmite o sentimento de perda e de esquecimento de todo um ambiente que transporto no meu imaginário. Muitos poderão considerá-la um hiato de espaço esquecido, ou um oásis paisagístico a prazo, mas para mim é apenas um lugar bonito e bucólico, onde não me importaria ficar. Assim neste intervalo.

Bucólica
A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caiadas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra duma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma Mãe que faz a trança à filha.
(Miguel Torga)

17 março 2011

a grande nobreza do estado

A recente notícia do pedido de demissão de Almerindo Marques da presidência do Conselho de Administração das Estradas de Portugal, cujas motivações e pormenores ainda não são conhecidas, mas que estará de alguma forma relacionada com indefinição do Governo quanto ao modelo de financiamento da empresa, conduz-me a memória para um texto de Pierre Bourdieu (1993) que a propósito da Demissão do Estado escreveu: são esses novos mandarins, gulosos por gratificações e sempre prontos a deixar o serviço público pelo sector privado, que - cansados de pregar o espírito de "serviço público" (para os outros), como nos anos 60, ou celebrar o culto da empresa privada, sobretudo após 80 - pretendem administrar os serviços públicos como se fossem empresas privadas, mantendo-se ao abrigo das obrigações e riscos, financeiros e pessoais, que estão associados às instituições cujos (maus) costumes procuram macaquear, principalmente em matéria de gestão do pessoal; são esses que, em nome de imperativos da modernização, atacam o pessoal da execução, como beneficiados da função pública, protegidos contra os riscos da livre empresa por meio de estatutos rígidos e agarrados à defesa corporativista das regalias sociais; são esses que vangloriam os méritos da flexibilidade do trabalho a não ser que, em nome da produtividade, preconizem a redução progressiva dos efectivos.
adenda: a este propósito poderiam também e ainda ser referidos outros digníssimos e ilustres administradores da coisa pública que, nos últimos tempos, foram notícia, tais como Horta e Costa (CTT), Júlio Santos (ex-presidente da Câmara Municipal de Celorico da Beira), Armando Vara (ex-administrador da CGD e Millennium BCP), José Penedos (ex-administrador da REN), entre tantos outros.

16 março 2011

doxósofos

Procurar estar actualizado obriga a um permanente acompanhamento da vertiginosa cadência informativa, o que acontece, fundamentalmente, através dos meios de comunicação social e, em especial, através dos canais de televisão. Ao percorrer os vários canais informativos não posso deixar de reparar que, nunca como nos dias de hoje, saturados estão de programação especializada, principalmente em política e em desporto. Não há um único dia da semana em que não haja uma panóplia de polifonias relativas a cada acontecimento da vida política e/ou desportiva nacional e/ou internacional. Não percebo como há espaço, como há audiências, como há financiamento e publicidade para tanta verborreia de spin doctors, opinion makers, politólogos e futeboleiros!?... ainda por cima quando grande parte desses pseudo-especialistas não vão além dos lugares-comuns e de aparentes manifestações de conhecimentos. Já Platão, há muitos séculos atrás, lhes tirou a pinta, designando-os doxósofos e definindo-os como técnicos de opinião que se julgam sábios e que para conseguirem notoriedade não hesitam em engalfinhar-se no espaço público. Assim é ainda hoje.

15 março 2011

preocupações

Primeira, para além da desgraça causada pelo sismo e consequente tsunami, a população japonesa e, depois, o mundo vêem-se agora confrontados com o eminente acidente nuclear em algumas das centrais nucleares espalhadas pelo território nipónico. Acredito que os responsáveis técnicos e políticos estarão em pânico perante os cenários horrendos e as consequências catastróficas possíveis decorrentes deste acidente. Para além de todos os riscos e problemas associados à implantação e existência destes complexos, parece-me razoável reflectir sobre a opção por este tipo de fonte de energia. Sempre que se debate acerca da existência ou não de energia nuclear em Portugal, deveriamos ponderar também estes cenários. Com outras fontes de tanto potencial energético, mais limpas e mais seguras, ainda bem que não existe energia nuclear em Portugal.
Segunda, é uma vergonha aquilo que temos assistido nas estradas nacionais, com os bloqueios dos camionistas. Podemos até estar de acordo com os seus problemas e com as suas reivindicações, mas não podemos tolerar que haja terrorismo nas nossas estradas. As notícias que nos chegam de piquetes de camionistas que intimidam e ofendem colegas de profissão que não têm a mesma opinião, não são possíveis num estado de direito. Esta intolerância e este radicalismo, para além de não serem dignos de uma democracia, revelam bem as bestas que são e confirmam a atitude estereotipada e ignorante que reina nos volantes dos pesados portugueses.

13 março 2011

estado: ansioso

Num dia por defeito calmo e propício aos vagares da vida, estou ansioso. A verdade é que esta contagem decrescente, principalmente nestes últimos dias, tem sido um martírio. O tédio ocupacional potência a ansiedade. Querer que o tempo avance célere, mas ele, teimoso, resiste e prossegue o seu ritmo a vinte e quatro horas por dia. Mesmo sendo um Domingo, por mais que me tente abstrair de certos e determinados pensamentos, não consigo. São fortes e mantêm-se latentes o tempo todo.

12 março 2011

manifestação no porto

...afinal, são muitas as gerações à rasca...

verbo, indignar

"A minha longa vida deu-me uma série de motivos para me indignar."
Li pela primeira vez aqui acerca deste pequeno livro de Stéphane Hessel. Fiquei curioso e esta manhã (só podia ser esta manhã...), aproveitando um café no Fórum da Fnac, procurei-o e rapidamente, mesmo antes de o pagar, o li, sublinhei, rabisquei e reli. Dividido em três partes distintas - prefácio de Mário Soares, o manifesto do autor e, por fim, um posfácio do editor com nota biográfica do autor. Este homem, para mim completamente desconhecido, é um verdadeiro compêndio da história do século XX. Por favor não deixem de ler o apelo "a uma verdadeira insurreição pacífica contra os meios de comunicação de massas que só apresentam como horizonte à nossa juventude uma sociedade de consumo, o desprezo pelos mais fracos e pela cultura, a amnésia generalizada e a competição renhida de todos contra todos".

11 março 2011

a propósito da geração à rasca...

Interessante texto de opinião, hoje no Jornal Público. Desculpem-me os rabiscos egoístas... (vícios).

solilóquio

Não sei explicar muito bem porquê, mas hoje sinto-me estranho. Não sei explicar muito bem o quê, mas hoje sinto-me metrossexual...

precariedade

Sente-se um enorme burburinho na sociedade portuguesa em relação às manifestações que se irão realizar amanhã em várias cidades portuguesas. Esta é a primeira manifestação organizada, estruturada e convocada a partir das redes sociais em Portugal e, talvez também por isso, está o país expectante em relação à capacidade e ao sucesso dessa mesma convocatória. Para além da particularidade das redes sociais, esta manifestação tem por fundamento a degradante condição social e económica em que as gerações mais jovens vivem e a sua participação será um acto de participação cidadã, de indignação contra essa condição e de censura às políticas que os governos impuseram e que, consequentemente, nos trouxeram para esta realidade. É, concerteza, por isso que os costumeiros arautos do situacionismo, do alto do seu conforto social e da sua estabilidade económica, não se conformam com este "atrevimento" dos mais novos. Por outro lado, agrada-me a ideia de se tratar de uma manifestação política, mas apartidária, apesar de alguns partidos terem já manifestado a sua intensão de se fazerem representar. Esperemos que assim se mantenha e se concretize. É bom saber que os jovens de hoje não correspondem aos estereótipos e reagem aos pré-conceitos nomeados pelas gerações mais velhas e, essas sim, acomodadas.
Também eu estou com elevadas expectativas em relação ao dia de amanhã. Lí o manifesto e concordo com as posições assumidas pela organização. Não estou à rasca, mas muito provavelmente por considerar que a minha condição nunca foi além dessa mesma precariedade, vou participar na manifestação de amanhã na cidade do Porto.

10 março 2011

moção de censura

Eu gostava mesmo que a moção de censura que o Bloco de Esquerda apresentou e que hoje será discutida e votada na Assembleia da República fosse aprovada. Apesar das conhecidas e pré-anunciadas posições do PSD e do CDS, a conjuntura degradante e humilhante da economia e das finanças nacionais e o próprio discurso do Presidente da República, de ontem, na sua tomada de posse, permitiriam aos partidos da direita votarem favoravelmente esta iniciativa do BE e assim, não só clarificar definitivamente a situação política, como arredar do poder, por muitos e longos anos, este PS. É sabido, está visto e percebe-se a cada sopro de vida que este governo agonia e definha. Acabemos com o seu sofrimento.

08 março 2011

do pior que me podem pedir

"Estimado Luís Vale,
Espero que esteja tudo bem contigo. Era para te pedir que reduzas o texto da FAAEE para 32.000 caracteres com espaços, de acordo com as normas do congresso. Actualmente tens 50.000.
Um abraço, "

carnavais

Como se diz: "É Carnaval, ninguém leva a mal", eu aproveito para dizer que não percebo como se gasta tanto tempo e dinheiro com esta festa. Será, apesar da sua diversidade, praticamente um dado universal. Considero legitimo e até importante que os indivíduos e as comunidades queiram manter aquilo que julgam ser as suas tradições e os seus rituais, agregadores e potenciadores de sentimentos de pertença à respectiva comunidade. Aquilo que me custa ver e ouvir são as ridículas manifestações que por todo o país acontecem e que não são mais do que tentativas falhadas de imitar o carnaval brasileiro. É isso mesmo, e bem, o carnaval brasileiro acontece no Brasil. Em Portugal temos tradições antigas relativas ao dia que assinala o final do ciclo de Inverno e a passagem para um outro tempo, o da eterna renovação da natureza. Essa diversidade ritual é constituida por inúmeros, bonitos e ricos, momentos. Imagens de Carnaval como aquelas que enchem as TVs (Ovar, Torres Vedras, entre outras localidades) são ridículas, não fazem qualquer sentido.

07 março 2011

Talvez há 4 ou 5 anos joguei pela 1ª vez o Mafia I. Foi o irmão mais novo que me apresentou o ambiente ganster de Nova Iorque e desde logo fiquei fã do jogo. Naquele tempo joguei-o no velhinho pc que havia cá em casa. Agora, já com uma PlayStation 3 em casa, terminei a aventura de Vito Scaletta, enquanto membro de uma família mafiosa de Nova Iorque em meados do século XX, no Mafia II. Ao longo de quinze episódios e na pele do protagonista somos confrontados com os meandros e intrigas próprias das rivalidades entre famílias mafiosas que lutavam pelo controle do submundo daquela cidade. Acabei a aventura com a sensação que ainda poderia ter mais alguns episódios e aventuras. Concerteza, haverá mais Mafia, aguardemos as cenas de outros capítulos. Entretanto, procurarei outro jogo que me distraia, de preferência algo que me permita dar muitos tiros e matar muitos "inimigos" e "adversários". Tudo isto, claro, no conforto do meu sofá.

06 março 2011

é o povo contra a reacção



Não gosto do Festival da Canção. Acho que já há muito tempo perdeu qualidade e valor. Mas porque um amigo tem participado enquanto produtor, todos os anos vou espreitando para ouvir a sua música. Este ano calhou ouvir, para surpresa minha, a participação dos Homens da Luta. Brincadeira, pensei eu... O certo é que no final da noite foram eles os grandes vencedores e graças aos votos, via SMS, do público. Eu não votei em nenhuma música, mas se tivesse votado teria sido na música deles - pela irreverência, pela coragem e pela frontalidade. Este resultado foi mais um espinho para Pacheco Pereira, Isabel Stilwell, José Manuel Fernandes e outros que muito se têm importunado a favor da manutênção da precariedade em Portugal. Os Homens da Luta ganharam e desestabilizaram todo o mainstream vigente na produção deste evento. Não sei quem votou neles, mas desconfio que a insatisfação social do país valeu bem os 60 cêntimos + iva que custou cada voto. Muito provavelmente, este foi o último Festival da Canção em que o público votou. Até ao dia 12 de Março.

05 março 2011

dísticos e afins

Nenhuma objecção relativa à manifestação pública dos ideais civilizacionais, das crenças religiosas, das filiações partidárias ou desportivas ou outras por parte dos indivíduos. Mesmo não compreendendo o que leva alguém a fazê-lo, aceito pacificamente que outros sintam essa necessidade e o façam. Eu nunca senti qualquer necessidade de o fazer, nem nunca achei grande piada à decoração de automóveis com elementos estranhos ao seu fabrico e comercialização. Claro é que a culpa não é dos automóveis, mas sim dos seus proprietários que, por qualquer razão que a psicologia explicaria muito facilmente, projectam nos seus automóveis a sua imagem.
Houve um tempo em que era obrigatória a inclusão de determinada informação suplementar nos veículos, estou a lembrar-me dos limitadores de velocidade, das placas de localidade e raio de distância para os pesados e das placas de identificação de propriedade dos ligeiros - curiosas placas que para além do nome e morada do proprietário, incluiam uma imagem de S. Cristovão, o santo propector de qualquer viajante e, nalguns casos, havia ainda espaço para as fotografias dos respectivos proprietários -normalmente colocadas num suporte com íman nos tabliers para estarem visíveis do exterior.
No meio de toda a panóplia de acessórios, aplicações, autocolantes e placas que por aí circulam agarradas aos carros, há um tipo de autocolantes que me intriga especialmente. Falo daqueles que são, normalmente, oferecidos pelas marcas de produtos para bebés e crianças e que se destinam a colar no vidro traseiro. Através deles ficamos todos, os demais e estranhos, a saber que a bordo daquela viatura circula um bebé, nalguns exemplares ficamos a saber, inclusivé, o nome de tais bebés e, noutros ainda e complementando, é-nos comunicado para termos cuidado!.. porque ali vai um bebé. Para além de não perceber o que leva alguns progenitores a publicitarem assim o nome dos seus rebentos, importa questionar: Mas que raio de advertência é esta!? Até parece que o cuidado que devemos ter na estrada varia consoante o tipo de ocupante dos outros veículos. É pois uma informação palerma e estupidificante que, in loco, me incita a adjectivações várias aos seus promotores.
Desconfio que tudo isto não seja mais do que um possível caminho para aqueles que se querem dedicar ao transformismo automóvel. Para além de todas as questões de estética, relativas e subjectivas, sobre as quais não farei juízos de valor, talvez um dia também eu me converta definitivamente ao famoso tuning.

04 março 2011

100

PARABÉNS!

Também eu me sinto feliz, enquanto leitor, pelo facto a LER ter chegado ao número 100, de existir desde 1987 e de me permitir aceder a um universo muito interessante. Sou leitor assíduo desde o seu nº 43 de 1998. É com grande expectativa e alguma ansiedade que ainda hoje, mensalmente, vou ao quiosque à procura da LER. Espero que este seja apenas um momento especial e bonito de um percurso que se quer longo e cada vez melhor. Um outro objectivo pessoal será conseguir os números anteriores ao nº 43. Calculo que não seja tarefa fácil, até porque alguns números devem estar esgotados. Entranto, fica a certeza de algumas horas bem passadas apreciando esta edição especial, que nos oferece as imagens, as entrevistas, as citações, os textos, os momentos e os livros que marcaram as cem revistas.

03 março 2011

salas de espera

Serão sempre lugares interessantes para algum trabalho de campo, mais ou menos discreto, mais ou menos participante, que permitem exercitar as capacidades de observação e de registo. Numa madrugada destas noites frias, na sala de espera de acompanhantes do serviço de urgência do Hospital Santos Silva, em Vila Nova de Gaia:
A sala, tipo aquário, é uma transparência, sem privacidade e com excelente iluminação, por contraste com toda a envolvência exterior. Três filas de cadeiras disponíveis em cada lado da sala, viradas para o seu centro, obrigam os presentes a um permanente contacto visual, duas máquinas de vending vão servindo bebidas e comidas, e roubando nos trocos aqueles que não lhe dão a quantia certa. É a murros e alguns pontapés que os lesados compensam a sua perda. Por cima de todo o burburinho permanente de vozes, o som estridente de uma TV que, pendurada numa parede, transmite (presumo uma gravação) uma telenovela da TVI. Enquanto aguardo pela minha criança e sentado numa extremidade da sala, entretenho-me observando os deliciosos pormenores destes estranhos que me envolvem. Neste corrupio de gente que entra e sai e sai e entra, por enquanto, ainda ninguém se chegou sequer perto de mim. Estranharão o meu aspecto? Desconfiarão da minha aparente alienação? Ou não querem saber e apenas assim calhou? Não me interessa. Importa-me ver como, enquanto alguns dormitam e depois são abruptamente despertos pelo som ranhoso do altifalante que lhes pedem a presença na porta da urgência, e outros aproveitam a espera para fazerem a higiene pessoal, como um indivíduo ali no canto que descontraído vai limpando o nariz aos dedos, a generalidade destes estranhos - também entre si - muito facilmente se dão ao conhecimento, parecendo-me que passados alguns instantes estão já a trocar contactos e confidências. Há aqueles(as), mais impacientes, que mal se sentam logo se levantam, numa impaciência aflitiva que quero atribuir à preocupação para com os seus doentes. Depois há ainda aqueles que como eu gostam de observar, mas indiscretos e incisivos, violentam-nos as mais recônditas entranhas com os seus (feios) olhares. O que pensará toda esta gente? O que irá na alma de cada um deles? Que dores sentirão?.. E é no meio destas divagações que ouço, num som estranho, o meu nome. É a minha vez de sair.

02 março 2011

fidelidade

Não sei se é comum ou não, se o mesmo acontece com os outros, mas no que toca a escrever gosto de utilizar sempre a mesma caneta. É com especial irritação que me apercebo que perdi uma caneta. Sempre gostei de utilizar a cor preta e é com relutância que escrevo a outra cor. Nalguns suportes o preto é mesmo exclusivo. Sempre gostei e sempre usei a BIC Cristal, a tal da escrita normal, de cor preta cujo traço mais forte consegue ser muito suave. Entretanto, descobri a Uniball de tinta preta permanente, gostei e passei a usá-la. Pena ser tão cara. Trago sempre comigo duas ou três iguais e é delas que faço uso. Serei assim um fiel à caneta.

01 março 2011

a reforma administrativa

Não sei quais foram as reais razões ou necessidades que trouxeram para a actualidade do debate político a questão da reforma administrativa portuguesa, mas a verdade é que este debate é necessário e viverá sempre sob o espectro de tardio e de urgente. Como podemos, em pleno Século XXI, viver ainda num esquema pensado e aplicado em meados do século XIX!? Mais, porque se demorou tanto tempo para apenas se pensar no assunto!? Já em meados do século XX, principalmente na sua segunda metade, a realidade do território e da população portuguesa deveriam ter motivado tal reflexão.
A dimensão das autarquias locais é fundamental na perspectiva da sua autonomia. Sem uma dimensão crítica da autarquia local não se pode verdadeiramente falar em autonomia do poder local, na medida em que as autarquias locais ficam desprovidas de meios suficientes para assegurarem a prossecução das suas atribuições e o exercício das suas competências.
Actualmente existem em Portugal 39 municípios com menos de 5000 eleitores, o que corresponde a 12,66 % do número total de municípios. Quando se fala em freguesias, a realidade é ainda mais avassaladora, tendo a esmagadora maioria das mais de 4000 freguesias, um número de eleitores inferior a 1000.
Este argumento serviu de base ao veto do Presidente Jorge Sampaio ao Decreto da Assembleia da República n.º 76/IX, que visava alterar a Lei Quadro de Criação de Municípios, aprovada pela Lei n.º 142/85, de 19 de Novembro, permitindo a criação de novos municípios, mesmo que não se verificassem os requisitos previstos na lei, caso existissem reconhecidas razões de interesse nacional, fundamentadas numa particular relevância de ordem histórico-cultural, ou desde que fosse recolhido o parecer favorável de todos os órgãos autárquicos envolvidos.
Conforme então afirmava o Presidente Jorge Sampaio, “Neste âmbito assumem especial relevância as questões relacionadas com a fixação ou alteração dos limites da circunscrição territorial dos municípios, não apenas porque dela depende, em larga medida, a adequação e eficiência da administração autárquica na prestação de serviços às populações,...”.
A Câmara Municipal de Lisboa tem em curso uma discussão pública sobre a reorganização do mapa administrativo da cidade, visando a redução de 54 para 24 freguesias, homogeneizando a sua dimensão territorial e demográfica, em nome de uma maior eficiência da acção das autarquias locais. Este facto e a actual crise financeira tem inspirado várias vozes, designadamente a do Secretário de Estado da Administração Local para a realização de uma Reforma Administrativa assente na redução do número de municípios e freguesias.
Aproveitando o facto de este ser o ano de novo Recenseamento Geral da População (Census 2011), poderemos aproveitar esse novo retrato da distribuição da população portuguesa para elaborar um novo esquema administrativo. O que não devemos é a) aceitar que sejam critérios meramente contabilísticos e financeiros a motivar e nortear esta nova “vontade” de mudar, e b) que esta súbita e drástica vontade de reduzir seja o caminho para um efectivo reforço da centralização do poder em Portugal.
Não sei se devemos ou não reduzir o número de freguesias. Contudo, parece-me que não se devem extinguir freguesias com relativa dimensão (3.000 ou mais eleitores), nem fazer fusões das grandes freguesias (mais de 40.000 eleitores). Se é verdade que não devemos aceitar a imposição da concentração de poderes em meia-dúzia de autarcas, também me parece que não devemos aceitar que existam em Portugal tantas freguesias que, tendo em conta o reduzido número de eleitores, são administradas por plenários. Não deveremos, por princípio, ter reservas e deveremos aceitar que se reduza ou aumente o número de freguesias e de concelhos, no sentido de alcançar o desejado equilíbrio entre a população e seu território.
Bem sei, sabemos, que o politicamente correcto é afirmar que as Juntas de Freguesia e, em concreto, os seus presidentes, são os pilares fundamentais da democracia portuguesa. Mas será verdade!? Será mesmo assim!?... Aceitar, concordar e defender esses pilares não é manter a actual situação, pois todos bem conhecemos a realidade de muitas autarquias e o desempenho de muitos presidentes de Junta de Freguesia: por um lado, estão presos pelo cimento e pelo tijolo ao respectivo presidente da Câmara Municipal, por outro lado, entendem o seu território como um feudo, onde gostam de se considerar donos e senhores. Temos que acabar com estas lógicas, com estes laivos medievais…
Não deveremos, sob o pretexto de defesa da democratização do poder local, defender o atavismo das lógicas enraizadas no poder local em Portugal, que aliás já existiam antes do 25 de Abril. Não será por acaso que, embora todos admitam a necessidade de reformar administrativamente o país, todos os discursos são extremamente cautelosos. É que uma coisa é teorizar e debater, outra coisa é implementar e explicar. Não tenho dúvidas que aí as resistências serão enormes. Não deveremos pois, também, menosprezar as questões imateriais: de identidades difusas e de sentimentos de pertença heterogéneos, que nalgumas localidades e regiões adquirem dimensões consideráveis e bem perceptíveis.
Um novo modelo administrativo, bem pensado, bem estruturado e bem reflectido poderá, para além do mais, acabar com os monopólios e os senhorios, e permitir novos espaços de influência e de novas e boas práticas de gestão autárquica.
(artigo enviado para o Jornal Nordeste)

27 fevereiro 2011

caros brinquedos

O Jornal Expesso revelou na sua edição de ontem um conjunto de documentos provenientes da WikiLeaks e relativos a Portugal. De todos eles, destacam-se os documentos relativos às nossas forças armadas e ao ministério da defesa. A correspondência entre o antigo embaixador dos EUA em Lisboa e o seu governo revela considerações pouco abonatórias e até mesmo insultuosas acerca dos nossos políticos e das nossas instituições militares. Contudo, importa salientar também o embaraçoso silêncio que tomou conta dos representantes dessas mesmas instituições. Não sei se significa a assunção da situação e o reconhecimento em tais palavras e adjectivações, ou se significa puro desprezo e perfeito alheamento dessas instituições pelo país civil. Em todo o caso, parece-me apropriado dizer que, para lá da actual celeuma, os nossos militares gostam de brincar com brinquedos caros, ainda por cima inúteis. Como bem afirma hoje em editorial o Jornal Público "...o silêncio significa que, mesmo sem ser integralmente rigoroso, o telegrama do embaixador Stephenson passará a ser integralmente verdadeiro".

23 fevereiro 2011

suburbana

Um destes dias, um amigo que pela primeira vez me visitava em casa, pediu-me para conhecer o local onde eu normalmente produzia o meu trabalho, o espaço que me permitia criar e a paisagem que me inspirava. Sem qualquer pudor e sem qualquer reflexão não hesitei em satisfazer-lhe a curiosidade. Depois, algum tempos depois, reflecti sobre esse estranho pedido. Num recurso a clichés quotidianos, seria bonito poder apresentar-lhe um espaço amplo, arejado e estupidamente limpo e arrumado, com abertura para um qualquer pedaço de céu relvado e com o mar ou a serra no horizonte. Mas não. Isso não está ao meu alcance. Apenas e só uma paisagem suburbana, recheada de elementos comuns e anónimos de grande urbe.
Em cima, a paisagem possível... que nunca me inspira, antes me desanima. Mas não me queixo.

22 fevereiro 2011

um dia hei-de lá ir...

Começa amanhã o 12º Encontro de Escritores de Expressão Ibérica na Póvoa de Varzim. Apesar da "crise", o município mantém a feliz iniciativa. Nunca estive presente, mas sei que um dia vou lá...

03 fevereiro 2011

querer mas não poder ficar...

No inicio desta semana foi notícia o encerramento simultâneo de oito Serviços de Atendimento Permanente (SAP's) nocturnos na região de Trás-os-Montes. É lamentável. Portugal desistiu de substancial parte do seu território e, principalmente, desistiu dos portugueses que aí vivem - "a porta da rua é a serventia da casa" e as populações desta região, se não sabiam já, sabem que podem e devem procurar novos lugares para fazerem suas vidas. É triste que os critérios que justificam esta atitude do Ministério da Saúde sejam a lógica da racionalização dos recursos e meios e a lógica dos raciocínios económicos e financeiros, quando o que deveria acontecer era uma permanente e evidente preocupação com a qualidade e proximidade dos equipamentos e serviços de saúde junto de cada um e de todos os cidadãos de Portugal. Se o governo e o Estado querem rentabilidade que a procurem nos impostos que todos, repito, todos os cidadãos e também os transmontanos equitativamente pagam.
O cenário é desolador e cada vez mais deprimente. Mais deprimente fica quando se percebe a apatia, a indiferença e o silêncio da generalidade dos autarcas da região que de forma alguma se insurgiram perante esta atitude que ostensivamente prejudica as populações desta região. Muito mais deprimente fica quando se percebe que alguns desses mesmos autarcas, eleitos pelas populações, proferem declarações justificativas e desculpabilizadoras, tentanto argumentar acerca da sua (não)posição ou regateando com a tutela medidas compensatórias tais como ambulâncias, macas, lencóis, pensos e adesivos. Ridículo.

"que mundo tão parvo onde para ser escravo é preciso estudar"

01 fevereiro 2011

já estou a Ler

solilóquio

[sms]
Pequenos nadas que me invadem o espírito e te trazem para bem perto e obrigam tua permanente presença. Sinto-te em cada nada e em todos os nadas. Isso faz-me bem.

29 janeiro 2011

é por isto que estamos como estamos...

A teoria do pós-imperialismo fala de uma emergente burguesia de executivos, uma nova classe social saída das relações entre o sector administrativo do Estado e as grandes empresas privadas ou privatizadas. Esta nova classe é composta por um ramo local e por um ramo internacional. O ramo local, a burguesia nacional, é uma categoria socialmente ampla que envolve a elite empresarial, os directores de empresas, os altos funcionários do Estado, lideres políticos e profissionais influentes. Apesar de toda a heterogeneidade, estes diferentes grupos constituem uma classe, "porque os seus membros, apesar da diversidade dos seus interesses sectoriais, partilham uma situação comum de privilégio socioeconómico e um interesse comum de classse nas relações do poder político e do controlo social que são intrínsecas ao modo de produção capitalista". O ramo internacional, a burguesia internacional, é composta pelos gestores das empresas multinacionais e pelos dirigentes das instituições financeiras internacionais. As novas desigualdades sociais produzidas por esta estrutura de classe têm vindo a ser amplamente reconhecidas mesmo pelas agências multilaterais que têm liderado este modelo de globalização, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. (Becket e Sklar, 1987, in Boaventura de Sousa Santos, 2005)
(negritos meus...)

28 janeiro 2011

de feiras e afins

- Edfeldt, Chatarina e Couto, Anabela Galhardo (org.), 2008, Mulheres que escrevem, mulheres que lêem, Lisboa, 101 noites;
- Silva, Rui Pedro, 2003, Contigo torno-me real, Porto, Edições Afrontamento;
- Menget, Patrick, 2001, Em Nome dos Outros, Lisboa, Museu Nacional de Etnologia e Assírio & Alvim;
- Revista da FCSH, 2006, Ciências Sociais (nº 18), Lisboa, Universidade Nova de Lisboa e Edições Colibri;
- Martins, Maria de Fátima da Silva Vieira, 2007, Mitos e Crenças na Gravidez, Lisboa, Edições Colibri;

25 janeiro 2011

especialidade da casa

Conhecido por estar aberto 24 horas por dia e durante praticamente todo o ano, tem fama de ser um templo para os invertebrados do jogo e para os rastejantes do álcool. O Dom Mário, localizado bem no centro de Macedo de Cavaleiros, é também famoso pelo seu ambiente acolhedor e pela qualidade e eficiência no atendimento a clientes e fregueses. Desconhecendo esta realidade, numa recente deslocação a Macedo, precisamente num dia em que toda a cidade descansava, entrei neste café para reconfortar o estômago. Mal encostado ao balcão fui de imediato atendido pelo, presumivelmente, "Dom" Mário. Tive apenas tempo de olhar para a pequena vitrine onde estavam expostos meia-dúzia de rissóis com aspecto razoavelmente apetitoso. Pedi então um rissol e uma cerveja. Solícito e comigo a apreciar saca de uma Superbock da arca, pegou num prato onde colocou um guardanapo e aproximou-o da vitrine. Acto contínuo, puxou do palito que trazia entre os dentes e com a extremidade humedecida por suas cáries dentárias, espetou com afinco um dos rissóis e colocou-o no prato, fazendo regressar ao aconchego da boca o dito palito, enquanto comenta:
- Ora aqui está! Estão muito bons...
- Ora pois. Quanto é?
- perguntei eu, sabendo que jamais iria comer tal petisco.

24 janeiro 2011

quatro anos de viagem

No dia do quarto aniversário deste blogue, resolvi inventar e tentar alterar a sua imagem. Não pretendia nada radicalmente diferentes. Maldita hora em que tive estapafurdia ideia, pois ao actualizar o layout perdi todas as formatações anteriores. Fiquei apurriado!.. De qualquer forma, consegui manter o essencial e todos os amigos e todas amigas que por aqui continuarem a passar não vão, com certeza, estranhar. Aproveitei para fazer uma limpeza geral, pois é sempre muito o pó inutil que se vai juntando com o passar do tempo. Assim, espero que possam continuar a partilhar comigo o meu e o vosso tempo. Obrigado. 

20 janeiro 2011

"Às vezes interrogo-me se não estarei a escrever romances só para me dar ao luxo destas referências apenas compreensíveis para mim mesmo, mas sinto-me como um pintor que retrate um pano adamascado e no meio das volutas, flores e corimbos, ponha - quase invisíveis - as iniciais da sua amada. Não importa se nem ela própria as note, os actos de amor são gratuitos." (Umberto Eco, 2003)

17 janeiro 2011

protagonismos

“A mudança pode começar aqui”
É lugar-comum dizer-se que vivemos um tempo de enormes dificuldades sociais e económicas, verdade indesmentível e dramaticamente sentida por milhares e milhares de portugueses, mas permitam-me que reajuste esse lugar-comum, dizendo que em Bragança vivemos um espaço de enormes dificuldades sociais e económicas, verdade indesmentível pelo abandono e desprezo geracional e crónico de Lisboa para com esta região, pelas estatísticas do desemprego regional e local, pela falta de investimento no sector agrícola, pecuário e florestal, pela falta de equipamentos e infra-estruturas e, principalmente, pela indiferença face ao drama humano e nacional que são os novos movimentos de emigração, que nos levam as novas gerações, criadas e formadas com o esforço colectivo, mas que agora não perspectivam qualquer hipótese de futuro em Portugal, tão-pouco em Bragança.
Deste lugar, distanciado do Terreiro do Paço, é por demais evidente e sentido este drama. É a tristeza de um presente precário. Sabermos que um dia teremos que partir porque pouco mais que nada deixaremos para trás. É triste. Mas estarmos aqui reunidos é sinónimo da nossa perseverança; nós não desistimos, continuamos a acreditar na nossa gente, na nossa cidade, no nosso concelho, na nossa região e no nosso país. Acreditamos num futuro…
Dr. Manuel Alegre,
Estamos aqui reunidos consigo porque se comprometeu com o Estado Social e nós defendemos o Estado Social e não aceitamos, nem sequer toleramos o ataque que alguns lhe pretendem infligir. Lutaremos sem fim pela sua manutenção ou existência;
Estamos aqui reunidos consigo porque partilhamos da visão de um país regionalizado e da necessidade de uma reforma administrativa;
Estamos aqui reunidos consigo porque queremos um Serviço Nacional de Saúde que garanta a universalidade e a qualidade dos serviços a prestar aos portugueses e às portuguesas;
Estamos aqui reunidos consigo porque acreditamos na Escola Pública com diversidade e propriedade, na qual o ensino é entendido e praticado com exigência e como garantia de justiça social e de igualdade de oportunidades para as novas gerações de todo Portugal;
Estamos aqui reunidos consigo porque é o único candidato que tem declarado com clareza e sem qualquer subterfúgio e sem ambiguidades o seu entendimento do que é ser Presidente da República no Portugal actual; Estamos aqui reunidos consigo porque sabemos que é necessário unir as esquerdas para conseguirmos uma segunda volta nestas eleições e assim derrotarmos a direita e o seu programa para o País – é que temos a memória e a consciência de que o nosso adversário da direita é o político português que mais contribuiu para termos chegado ao estado actual. Cavaco Silva é responsável, é político e tem escrito nas suas mãos o declínio social e económico do país nas últimas três décadas;
Estamos aqui reunidos consigo, acima de tudo, porque é necessário inverter o actual estado de total falta de credibilidade institucional com que as instituições nacionais, em geral, e os órgãos de soberania, em particular, são vistos e sentidos pelas ruas e seus cidadãos.
Precisamos de uma urgente e profunda alteração de paradigma nas ideias, nas políticas e na gestão da coisa pública. É tempo de relativizar e afastar dos centros de poder e de decisão a tecnocracia, a especulação e seus mercados - uma soberania nacional não pode, não deve estar manietada por tais lógicas e interesses; É tempo de recolocar no seu lugar, por direito e pela democracia republicana, a política, a ética, a cidadania, enfim as pessoas.
Para nós, Manuel Alegre é o cidadão, mais do que indicado, talhado para personificar esse desafio, essa vontade. Tal como diz o nosso candidato: “A grande arma de um Presidente é a palavra. As palavras ajudam a mudar a vida, ajudam a criar confiança e esperança.” É nosso dever, já no próximo dia 23, dar a essa arma um verdadeiro Presidente, dar a essa palavra a devida importância, a sua verdadeira dimensão. Vamos então, todos, elegê-la para a Presidência da República Portuguesa.
(intervenção no almoço de campanha de Manuel Alegre - Bragança, 17 de Janeiro de 2011)

(alguns desses momentos - em actualização)

R.I.P. Gaspar

As palavras ficam para depois.

solilóquio

O cachimbo é o símbolo da solidariedade social. Bem dizem que devemos ser solidários, portanto há que fazer uso do cachimbo. Eu uso-o, sou solidário.

16 janeiro 2011

instante urbano XIII

Pára-Arranca-Pára
Num qualquer parque de estacionamento presenciei o seguinte: dois automóveis estacionados frente um do outro prestam-se para sair dos seus lugares. Arrancam com toda a vontade, mas de imediato, apercebem-se do outro veículo e param repentinamente. Educadamente ambos dão prioridade, passe a redondância, um ao outro e voltam a arrancar os dois ao mesmo tempo, ficando, desta feita, praticamente encostados. Com um outro semblante voltam a dar-se prioridade um ao outro através de veementes sinaléticas. Ambos recuam uns centímetros e, a julgar pelo peso em cima dos aceleradores, já irritados e pela última vez, arrancam violentamente um contra o outro. Os danos não terão sido significativos, mas digno de registo foram as palavras que ouvi da boca das magníficas condutoras:
- Ó meu Deus!
- Meu Deus!? Não! Ó minha Senhora!...