16 novembro 2011

para reflexão...


(com rabiscos meus e redacção minha das linhas não fotocopiadas - Jornal Le Monde Diplomatique, edição Portuguesa, Novembro 2011)

15 novembro 2011

feriados

A divulgação dos feriados nacionais que serão castrados ao calendário anual deve estar eminente. Partindo do princípio que considero esses dias de descanso, independentemente das suas origens e razões, um direito inalienável de todos os portugueses, ponderei acerca da pertinência da manutenção ou não de cada um desses feriados. Essa reflexão, obriga-me, desde logo, a declarar o meu respeito pelos portugueses e portuguesas que em cada uma destas datas vivênciam, experimentam e partilham as suas simbologias. Depois, obriga-me a afirmar que sejam eles de cariz religioso ou de cariz civil, todos eles representam muito, espacial e temporalmente, da nossa condição - do nosso ethos - enquanto país e seus nacionais. Por outro lado, importa reflectir sobre a verdadeira dimensão social desses dias na actualidade do nosso país.
O calendário anual tem treze dias (excluindo o Carnaval) considerados, desde há muitos anos, feriados nacionais, dos quais seis são de raiz civil e sete com motivações religiosas. 
Os feriados civis:
1 de Janeiro - primeiro dia do ano, normalmente de ressaca nacional e, por isso, para o bem da salubridade e saúde públicas, intocável; 
25 de Abril - último grande momento de refundação nacional e, por isso, ainda intocável; 
1 de Maio - conquista civilizacional do povo que trabalha em todo o mundo e por isso, espera-se intocável;
10 de Junho - dia das comunidades da diáspora e da portugalidade globalizada e, por isso, simbolicamente intocável;
5 de Outubro - dia da nossa República que atingiu uma idade que já nenhuma memória alcança e, por isso, descartável;
1 de Dezembro - praticamente com a idade do mito sebastiânico, já ninguém consegue alcançar a importância da restauração da independência nacional e poucos saberão a razão da dedicação deste dia e, por isso, dispensável;
Os feriados religiosos:
6ª Feira Santa (Março ou Abril) - encostado a um fim-de-semana de referência para o universo cristão e não só, que assinala a crucificação de Jesus e por isso, jamais a Igreja e os cristãos aceitarão o seu desaparecimento;
Corpo de Deus (Maio ou Junho) - dia de exultação popular à Eucaristia, celebra-se no 60º dia após a Páscoa. Na actualidade sem grande expressão litúrgica, é sempre uma das pontes de eleição para rumar às praias do Sul do país e, por isso, dispensável;
15 de Agosto - dia em que a igreja católica celebra ou assinala a elevação de Maria em corpo e alma ao céu, mas aquilo que se percebe por todos o país é um dia de grandes festividades e arraiais populares, aproveitando o facto de ser o mês de retorno dos emigrantes e, por isso, já sendo tempo, maioritariamente, de férias seria facilmente descartável do calendário;
1 de Novembro - dia de todos os santos e defuntos fiéis. Provavelmente, o dia com maior adesão da população crente e não-crente e que motiva as maiores deslocações a nível nacional e, por isso, dificilmente se conseguiria acabar com ele;
8 de Dezembro - dia que a igreja católica dedica à Imaculada Conceição que é também a padroeira de Portugal. Em teoria seria um feriado directamente ligado ao ethos nacional, mas não me parece que já assim seja e, por isso, perfeitamente dispensável;
25 de Dezembro - Natal e, por isso, nada a dizer;
Portanto, já que é para mexer e é, vamos lá propor acabar com os feriados dos dias: Corpo de Deus, 15 de Agosto, 5 de Outubro, 1 de Dezembro e 8 de Dezembro. Eliminaríamos assim e com alguma razoabilidade cinco feriados ao calendário anual. 

14 novembro 2011

muito interessante

(Le Monde diplomatique, edição portuguesa, Novembro 2011)

momento singular

Era com grande expectativa que aguardava a Revista LER deste mês de Novembro, pois tinha sido tornado público antecipadamente o encontro entre António Lobo Antunes (A.L.A.) e George Steiner (G.S.), na casa deste último em Cambridge e a publicação das conversas entre ambos nessa manhã de Outubro. O resultado do encontro destes dois génios é interessante. Sem ser magnífico, podemos verificar a magnanimidade intelectual de um e de outro, que apesar de estilos e artes distintas conseguem convergir naquilo que consideram interessante e importante. Dessa longa conversa, colijo alguns momentos:
A.L.A. - há uma coisa em que me detenho a pensar muitas vezes: que será dos meus livros quando eu já não andar por cá?
G.S. - Acabam de colocar um retrato meu na Universidade de Londres, um retrato que, a meu pedido, ficou com o nome de «il Postino» (o carteiro). Define-me em absoluto. Eu sou o postino. (...) É maravilhoso poder levar cartas! Não fui banqueiro, não vendi casacos de peles; de todos os desastres possíveis, fui postino. É isto ser professor. O bom professor abre livros aos outros, abre momentos aos outros.
G.S. - Bem, deixe-me que lhe agradeça de todo o coração.
A.L.A. - Eu é que agradeço, isto foi muito, muito emocionante para mim. As pessoas já não fazem isto.
G.S. - Agora, faço questão, nós temos vinho para servir. Bebe um copo de vinho?
A.L.A. - Só um pouco.
G.S. - Tinto ou branco?
A.L.A. - Branco. 
(George Steiner e António Lobo Antunes. Fotografia retirada da Revista Ler, nº 107, de Novembro de 2011)

09 novembro 2011

instante urbano xvi

Numa sala de espera da pediatria de um hospital privado da cidade do Porto, enquanto aguardava que a minha criança fosse consultada, pude observar a brincadeira dos petizes e confirmar que não há pais que resistam ao ajuntamento de mais do que uma criança. A sala ampla, estava bem ocupada com os pais sentados nas cadeiras encostadas às paredes. No centro da sala, desocupado, uma máquina colocada no tecto, projectava imagens no chão, permitindo às crianças interagir, pintando desenhos, chutando uma bola, vendo uns peixinhos a nadar, entre outras brincadeiras virtuais. Impressionante, pois nesse mesmo espaço estavam disponíveis duas mesas com actividades de desenho e pintura e quase nenhum miúdo se interessou por elas. Como facilmente perceberão, a concentração da canalha, com idades compreendidas entre 1 e 2 anos, era em cima das tais projecções. A determinada altura, uma miúda diz:
- Papá, olha a água.
- Sim filha, é uma piscina. Nada nessa piscina...
A miúda não se fez esquisita e de imediato se atirou para "dentro da água" da piscina, dizendo alto e em bom som que estava a nadar na piscina. Outros miúdos ao ouvirem isso, logo a imitaram nos gestos, transformando o espaço desta piscina virtual exíguo para tantos nadadores. Alguns, por pressão demográfica, nadavam mesmo fora da projecção, mas não importava, pois a água estava boa e quentinha, apesar de um se queixar do frio... Um outro, provavelmente mais viajado, afirmava e repetia com convicção:
- Este rio é muito giro...
Assim vai o mundo encantado da criançada. Bom ou mau, melhor ou pior do que outros, não sei. É o deles.

protocolos

"Se perguntássemos a um bom número de escritores de hoje (mas este importante inquérito nunca se tentou fazer) iríamos perceber sem dúvida que eles não podem começar a escrever sem um certo conjunto de hábitos e de instrumentos: a predilecção de certos horários, de alguns lugares, o gosto pelos materiais de papelaria, tudo isso desenvolvido, por vezes, até à obsessão, comporta um conjunto inextricável de motivações: medo da página em branco, temor da esterilidade possível (atrasada por intermináveis protocolos preparatórios), sacralização da escrita como verdade (ou como divindade prestigiosa), fascínio do prazer que é atribuído ao exercício manual do grafismo." (Roland Barthes, 2009:95)

04 novembro 2011

R.I.P.

Apesar do fim espectável ao longo dos últimos dias, é sempre com tristeza que se sabe da partida de alguém que, com a sua presença, marcou o nosso, ou parte do nosso percurso de vida. Hoje foi o dia em que mais um velho e muito querido amigo partiu de vez. O Tio Evangelista - assim o tratava mesmo sabendo que nunca fora meu tio... - sem ser meu avô, sempre se comportou como tal e, para mim, era, e é, aquilo que de mais parecido se pode ser no desempenho de tal papel. Neste momento reflexivo, proporcionado pelo conhecimento da nossa "morte" inevitável, o que torna o tempo finito para nós, percebemos como só dispomos de uma certa quantidade de tempo para as nossas realizações pessoais. Essa consciência afecta sempre a nossa atitude perante esse projecto que é a vida.
As recordações deste amigo remontam à infância e a grande parte da juventude, tempo durante o qual convivi de bem perto com ele. Do seu convívio recordo a forma como adivinhava as horas do dia e o tempo que faria nos dias seguintes; vantagem premonitória para um bom lavrador. Terá sido o maior e, provavelmente, melhor lavrador que conheci. Foi um escravo do trabalho, incansável de dia e de noite com os cuidados com os animais e as fazendas. Era também muito afável e de sorriso fácil. Gostava de crianças e sabia brincar com elas. No final de um vida, longa vida de 93 anos, completados no mês de Setembro, tenho para mim que o Evangelista dos Santos teve uma vida boa, pois apesar das suas humildes origens, fez-se homem pelo trabalho na lavoura e na emigração, construiu uma casa e uma família com considerável descendência. Em sua casa, que muito frequentei e vivi, nunca faltou comida. Talvez por trauma de juventude - "o tempo da fome e da miséria já lá vai...", dizia - gostava de ver sempre a mesa farta e com muito açúcar... aliás, os mais próximos bem diziam que ele não punha açúcar nos alimentos ou bebidas, ele fazia o inverso, acrescentava qualquer coisa ao açúcar para dar algum sabor. Dizia-nos que o doce nunca era demais.
Foi já depois de ter ultrapassado largamente as oito décadas de vida, que o Tio Evangelista se deixou vencer pelo peso dos anos e foi largando progressivamente as lides da lavoura até que, nos últimos anos, se reduziu às pequenas coisas da casa. É pois com carinho e amizade que me irei despedir dele.


Fotografias - O Tio Evangelista a trabalhar, sempre a fazer alguma coisa... (fotografias da exposição "Lugares e Olhares")

Livros & Leitores nº 107

Para um bom fim-de-semana...

02 novembro 2011

mas quem lhe disse a ele?!...

"...o nortenho frequenta a taberna para beber; o alentejano, para conviver. O nortenho bebe, o mais das vezes, sozinho; o alentejano bebe praticamente sempre com os amigos. O nortenho sai da taberna aos baldões e acabrunhado; o alentejano sai firme e vivificado de espírito. Em suma: o frequentador de tabernas do Norte é mais dado à carraspana; o alentejano, ao convívio e à participação nos cantes dolentes da sua planície..." (J. A. David de Morais, 2006:206)

Pergunto eu, enquanto nortenho: o que merecia um gajo que assim escreve e assim cristaliza a "realidade"?!...

01 novembro 2011

assim é a democracia


Bastou George Papandreou, o Primeiro Ministro grego (ao centro na fotografia), dizer que pretende referendar e devolver aos gregos a decisão de aceitar ou não um novo pacote de medidas de austeridade para poderem aceder a novas ajudas comunitárias e o mundo, pelo menos o ocidental e em particular o europeu, entrou numa espiral de pânico. O cariz e fundamento ideológico anti-democrático dos líderes europeus finalmente foi descoberto e admitido pelo receio de dar aos cidadãos europeus o poder de decidir o futuro. Assim se percebe de que "massa" é feita e que propósitos almeja esta gente que conduz os destinos da UE e da Zona Euro. Muito bem feito na Grécia. Assim sim. É a democracia a funcionar, é a liberdade de poder escolher um futuro, o seu futuro. Pena que tenha sido tão tarde, mas ainda bem que aconteceu. Está a acontecer.

dia de romaria nacional

Hoje é o dia de todos os santos para o universo da igreja católica. Por esse país não faltam manifestações mais ou menos semelhantes de celebração cultual aos mortos. Este é também o dia que traz consigo o chamado ciclo de Inverno do calendário anual. Por todo o lado este momento é, igualmente, assinalado com as mais estranhas, impressionantes, singulares e peculiares manifestações tradicionais. Conheço algumas delas e, dado o seu valor patrimonial e simbólico, prezo que possam resistir e sobreviver ao passar do tempo e não se transformar na estrangeirice do Halloween que por todo o lado tentam impor. Mas regressando ao culto dos mortos e à sua materialização oficial, será aceitável e até compreensível que pela proximidade, pela convivência e pelo amor, choremos de saudades e sintamos a falta de cada um dos nossos ante-queridos, mas aquilo que não é nada racional é acreditarmos que todos e cada um deles, com sua morte, adquiriu o estatuto de "santo". Assim, algo estará mal na nomeação deste dia, pois se assinalamos o dia de todos os finados, não se deveria nomear "dia de todos os santos", mas enfim. Numa atitude reflexiva e num período em que tudo e todos são questionados, a propósito da intensão do governo alterar o calendário dos feriados, pois eis um que poderia muito bem ser alterado ou suprimido. Porque não se passa esta "festa" católica para um Sábado ou Domingo?!.. Como ainda ontem João Quadros escrevia no seu Twitter, "ponham flores de plástico nos mortos e acabem com o feriado de amanhã, santa paciência". Com um pouco mais de sensibilidade, eu tenderia a concordar com ele.

28 outubro 2011

portismos, eufemismos e outros ismos...

Eu sou do Porto (FCP) desde pequenino. Sim, com propriedade, posso afirmar que desde que tenho consciência de mim (I, Me and Myself) sempre me identifiquei como portista. O primeiro grande momento que recordo é a final da Taça das Taças que o FCP perdeu para a Juventus em 1984. Ainda me lembro de, no início da década de oitenta, ver na TV e ouvir no Rádio nomes de jogadores como: Romeu, Oliveira, Vieirinha, Fonseca, Rodolfo, Gabriel, Simões, Freitas, Murça e o, para mim grande, Costa.
As primeiras vezes que fui ao estádio das Antas ainda era miúdo e ele ainda não tinha sofrido o rebaixamento das bancadas (1986) e – não tenho a certeza, mas penso que ainda tinha a pista de ciclismo - lembro-me bem de, por ser criança, poder circular por todas as bancadas: dos peões nas superiores, ao relvado em frente à bancada central, onde a criançada jogava à bola, sonhando um dia poder ser um craque do Porto, até aos cativos, onde entrávamos à socapa, entre as pernas dos adultos.
Esta liberdade, estranha para quem conhece os meus pais, decorreu do facto de um vizinho à época, o Sr. Pereira, ser um fervoroso adepto e a determinada altura, percebendo o meu entusiasmo pelo Porto, pediu autorização ao meu pai para me levar com ele e com o filho dele, o Paulo, que tinha a minha idade. A partir daí passei a ir quase sempre com eles. Foi assim que me associei. Eles já eram sócios e como a quota para as crianças era barata, o meu pai lá acedeu. Tornei-me sócio de bancada pela primeira vez, se não estou em erro, em 1985. Nessa altura ia ao estádio sempre que havia bola, ainda que fosse de andebol, de basquetebol, ou mesmo de hóquei em patins.
No ano de 1987 em que o FCP conquistou a Taça dos Campeões Europeus, fui ao estádio assistir a todos os jogos desse magnífico trajecto que terminou em Viena. Recordo como se hoje, o brilho das camisolas dos jogadores do Dínamo de Kiev, à época um clube muito respeitado na Europa do futebol. No final dessa época e perante tamanho incremento desportivo e consequente euforia, eu e o Paulo, por iniciativa dele – aliás, era tudo e sempre iniciativa do Paulo… - inscrevemo-nos como Super Dragões, para assim podermos entrar de graça no estádio das Antas, por uma “porta exclusiva” aos associados dessa claque e para podermos viajar com a equipa a preços reduzidos, eu diria mesmo, insignificantes – a esta parte os meus pais nunca acharam grande piada. Assim embarquei eu em autênticas cruzadas à conquista dos territórios inimigos. E que cruzadas! Estive lá, participei ou testemunhei (n)aquilo que jamais imaginara ser real ou existir. Regressei sempre.
Com o passar dos anos e à medida que outros interesses e distracções foram surgindo, o meu clubismo funcional perdeu vigor e entusiasmo. Deixei de ir assiduamente ao estádio e deixei de pagar as quotas, se não estou confundido, algures em 1992 – que pena não ter a vinheta no cartão de sócio… Esse afastamento físico não significou o esquecimento ou abandono da “tribo”, mas transformou-se num sentimento de pertença mais adulto, mais racional a um clube e a uma narrativa que se afirmava como bairrista e regionalista, que muitos entendiam como negativa e socialmente perigosa, mas que para mim e para os adeptos e simpatizantes do clube e da própria região era límpido e, qual contra-cultura, combatia a hegemonia e centralismo do Benfica e da própria capital.
Assim permaneci até 2003, altura em que voltei a inscrever-me como associado. Uma vez mais numa altura em que se avizinhavam grandes feitos e grandes alegrias. A final da Taça UEFA foi em Sevilha e eu na altura estava em Vinhais a dar aulas. O núcleo portista reuniu-se num restaurante para assistir ao jogo e depois de intensa ansiedade e sofrimento, que alegria… Em 2004 foi a vez de conquistar a Liga dos Campeões Europeus, a 26 de Maio festejei como nunca o meu aniversário, no café Penedo em Valadares. Entretanto, em Julho de 2005 deixei novamente de pagar as quotas, e desta vez foram razões meramente económicas a exigir a renúncia ao prazer de estar e sentir as vibrações in loco. Paciência.
Até hoje, nunca mais voltei a associar-me, pois entendi que o esforço financeiro seria enorme e não se justificaria pagar os valores exigidos pela actual indústria do futebol. Esta consciência de que houve uma evolução impressionante no mundo do futebol e que de actividade desportiva e clubística se transformou numa actividade eminentemente financeira, difusa, de activos e passivos, de cotações e de sociedades anónimas, de saldos e exercícios, permitiram-me adaptar à nova realidade do futebol e, em particular do meu clube. Sem perder o Norte, ou seja, querer sempre a vitória, sempre, importa entender que mais importante do que qualquer actor ou interveniente, importa o clube, importará vencer, sempre vencer, ganhar, sempre ganhar. Foi à luz desta candeia que percebi, aceitei e apoiei a saída de Mourinho em 2004; foi à luz dessa mesma candeia que, apesar de não ter gostado, percebi a necessidade de Villas-Boas sair. Afinal que mais poderiam estes dois ganhadores acrescentar ao FCP!? Nada ou quase. Sempre gostei da ideia ou do estereótipo de “jogador à Porto”, ambicioso, lutador, fiel e conquistador. Mourinho e Villas-Boas encarnaram e representaram excelentemente essa personagem. Ganharam para o Porto o que havia a ganhar e como nunca havia sido ganho. Sem grandes mesuras, reconhecido estou a ambos. Foram embora, boa viagem e boa sorte. O Porto, o meu Porto continua o mesmo e continua a querer ganhar. É o importante para mim. Sinto-me confortável com essa circunstância e ao sentir que assim é.
A mesma candeia que me tem iluminado, não me permite alcançar o sentimento de alguns, se calhar muitos, adeptos e simpatizantes do Porto em relação a esses dois treinadores. Que ilusões poderiam ter em relação a eles. Que iriam ficar no clube ad eternum(!?) Sendo ou não adeptos do FCP, acima de tudo são profissionais e precisam de ambição de ganhar e de conquistar para terem sucesso desportivo e, principalmente, reconhecimento, fama e dinheiro. Lembrem-se da tal indústria, pois é ela a ditar as suas leis. Juras de eterno amor e fidelidade, isso é para nós, para os crentes e para os adeptos. Confesso que me custa a perceber como é que em pleno século XXI havia, há(?), encantamentos ou dogmas clubísticos. Reacções, discursos ou palavras que não revelam mais do que um desencantamento virginal e ofendido. Enfim.
Tenho ido ao Dragão regularmente, por convite ou por iniciativa própria e nada, absolutamente nada, no meu fervor clubista se alterou. Este sentimento, mais próximo ou mais longínquo, mais ou menos alegre, mais ou menos satisfeito, está cá e, sei, por aqui permanecerá sempre. Ninguém o reclamará. Estando consciente das perigosas significâncias latentes de todos os “ismos”, por oposição eterna ao Benfica – e não ao Sul, outrora terras de Belzebus e de Infiéis – mantenho o meu propósito de vida: ver sempre o Benfica a perder e, se possível, a ser humilhado, seja com quem for e onde for e, depois, espero viver e poder celebrar o meu Porto como a equipa com mais campeonatos nacionais conquistados. Já faltou muito mais tempo e eu estava lá, estava aqui. Assim.

27 outubro 2011

ambiguidade

O desconforto de um recanto aconchegante ou o aconchego de um recanto desconfortável...

23 outubro 2011

húmidas saudades

Finalmente chegados a um dia de invernia, e depois de mais de seis meses de temperaturas tropicais e ambientes estivais, foi ver toda a gente a cobrir-se dos pés à cabeça com peles e mantas, há muito guardadas nas arcas e/ou arrumadas nos roupeiros e protegidas com a eterna naftalina, para sairem à rua, ainda que sem qualquer destino ou propósito, apenas para sentirem o ar fresco e a humidade no corpo. E com que alegria se faziam abrigar debaixo dos guarda-chuvas, ainda empoeirados, pelos passeios molhados e escorregadios da cidade. Neste Domingo, muitos terão saído de casa apenas por saudade do tempo frio e húmido. Quanto a mim, satisfeito estou também, e isso reflectiu-se no humor e na disposição. Afinal, estávamos era todos ansiosos pela chegada do frio e da chuva. Bem haja e por muito tempo.

22 outubro 2011

já demoravam...

Não sou um leitor habitual de São José Almeida. Aliás, raramente perco mais tempo do que ler as suas palavras "gordas". Mas hoje, esta colaboradora do jornal Público, fez-me lê-la do princípio ao fim e, aí chegado, considerar que tem razão naquilo que escreve. Mais, inaugura (pelo menos para as minhas leituras) um novo tema que, a seu e breve tempo, será uma inevitabilidade para o bem da nação, mas que por hora ainda é tabu. A escravidão. Desassombradamente falemos dessa solução como um dos objectivos últimos das forças que nos governam. Será para isso que cá estão...

17 outubro 2011

coincidências de escroto

Fotografia (copiada deste lugar) do momento da detenção de manifestantes em Roma, no passado Sábado. Aquele modelo de botas deve ser um sucesso lá por terras de Augusto César, que é como quem diz, de Sílvio Berlusconi... Coincidências entre polícias e ladrões!?...

desglobalização

Pois é um palavrão e ainda muitos dos profetas Keynesianos nem sequer querem ouvir falar dele. Aqui e acolá começa-se a tentar abordar o tema, ainda que teorica e academicamente. Quando estive pela última vez nas cadeiras de aluno na universidade, ensinaram-me tudo o que havia para saber sobre os movimentos globalizantes e globalizadores e de como estes promovem diferentes e vários localismos. Será agora fascinante poder abordar o percurso inverso desses mesmos movimentos...
Por cá não é fácil encontrar quem discorra sobre estes cenários e a imprensa está demasiadamente hipnotizada pela retórica do Gaspar ministro. É por essas e outras mais que continuo a ser um comprador e leitor assíduo da edição portuguesa do Le Monde Diplomatique. Neste caso, Jean-Marie Harribey apresenta-nos um caminho alternativo para sairmos da crise. Esse caminho poderia ser "aquilo que se chama alterglobalismo, que não abandona rigorosamente nada da crítica da globalização, mas não recomenda o seu aparente oposto."

(A digitalização possível do Le Monde Diplomatique edição portuguesa, Outubro 2011)

16 outubro 2011

vozes de crianças que ressoam...

Hoje viajei no tempo, literalmente. Não sonhei, não experimentei qualquer estado alterado de consciência, não acordei. Regressei, pura e simplesmente, à minha infância e aos lugares que, enquanto menino, vivi e experimentei. Esse tempo e espaço que um dia cristalizei na minha memória. Em cada rosto que revi, reencontrei as crianças que fomos. Não me esqueci de nenhuma delas. Reconheci-as pelo nome e, tal, alguns surpreendeu. Estranharam falar-lhes pelo nome. Claro, ali era eu o estranho e isso, compreensivamente, percebeu-se na expressão de alguns.
São duas da madrugada dessa mesma noite e tenho por companhia um Logan e, nos ouvidos, os Elbow que me vão embalando a escrita, cantando “on a day like this” e “friends of ours”. Segredei ao ouvido de alguns que aqui estaria. Estou. Escrever aquilo que aconteceu não será necessário, importará registar aquilo que trouxe comigo. Qualquer coisa como me terem trazido, gratuitamente, directamente da década de oitenta, pedaços de mim, de nós.
Com pena minha alguns faltaram. Rapazes e raparigas que farão sempre parte dessa rua, desse passado comum. E que serão sempre miúdos para mim. O tempo e a vida de cada um seguiu os seus cambiantes e não deixa de ser impressionante como as memórias de cada um coincidem, passados tantos anos, com a memória de tantos outros. Isso será tanto mais perturbador quanto reflectirmos sobre a improbabilidade deste encontro: nada, mas mesmo nada, faria pressentir para o meu presente, um encontro desta natureza. Mais, guardo comigo a vontade e o interesse demonstrado e percebido por todos para estar. Trouxe para mim a saudade e o carinho renovado de uma nostalgia amarga. Que bom.
Dizer-vos que, afinal de contas, e depois de todos ou quase termos deixado a rua, ainda por lá andamos a jogar à bola ou ao trinca-cevada, as nossas vozes ainda ressoam pelos pátios e pelo pinhal onde brincámos e crescemos. Foi bom estar convosco. Obrigado. Havemos de voltar, estou certo.
Uma mágoa final… não ter levado comigo o irmão mais novo. Afinal, teria feito todo o sentido lá ter estado também.

a minha manifestação foi esta...

Foi no Porto e foi assim.

13 outubro 2011

a luta...

Ou nós ou eles! Agora é de vez!