24 fevereiro 2012

futuros (im)possíveis...

"A sucessão das crises financeiras conduziu à emergência de uma figura subjectiva que ocupa agora todo o espaço público: a do homem endividado."

Assim começa o artigo de Maurizio Lazzarato, intitulado "A dívida ou o roubo do tempo" e publicado na edição do mês de Fevereiro do Jornal Le Monde Diplomatique - edição portuguesa. De facto, uma das consequências das sucessivas crises que temos vindo a experimentar é a consciencialização generalizada de uma real existência (vida) endividada. A reflexão deste sociólogo e filósofo incide sobre a relação entre credor (proprietário) e devedor (não-proprietário) e como esta relação é extremamente assimétrica e intensifica os mecanismos de exploração e dominação próprios do capitalismo. A "dívida" é entendida não só como uma manifestação económica, mas também como elemento operatório de uma tripla despossessão: despossessão de poder político, despossessão de uma parte da riqueza e o seu regresso à acumulação capitalista e despossessão do futuro, enquanto tempo como portador de escolha, de possíveis. Para além disso, "a dívida produz uma moral que lhe é própria, (...) complementar à moral do trabalho. O par esforço-recompensa oriundo da ideologia do trabalho é reforçado pela moral da promessa (a de honrar a dívida) e da culpa (a de a ter contraído)".
No fundo, e tristemente, digo eu, o devedor comportar-se-á sempre por relação à sua dívida e ao respectivo pagamento e só se poderá considerar livre na medida em que o seu modo de vida - consumos, trabalho, pagamento de impostos, etc., lhe permite fazer face aos compromissos assumidos. E assim, o todo poderoso sistema capitalista esmaga e reduz o que será, o futuro e os seus possíveis não serão mais do que as relações de poder da actualidade. Esta ideia remete-me para uma aproximação ao conceito de sociologia das emergências, de Boaventura de Sousa Santos (2002) e àquilo que ele identifica como o "Ainda-Não" (proposto por Ernst Bloch, 1995), ou seja, o modo como o futuro se inscreve no presente e o dilata. Não é um futuro indeterminado nem infinito, mas sim uma possibilidade e uma capacidade concretas.

19 fevereiro 2012

18 fevereiro 2012

cuidar da memória

Recebi um email dando-me a conhecer o projecto de e-museu da memória imaterial. Muito bonito e, principalmente, muito interessante. Para pesquisar e apreciar aqui ou então depois nos meus "atalhos partilhados".

15 fevereiro 2012

dictum et factum

A notícia é já do dia de ontem, mas eu só agora cheguei perto do meu "apurriar", e por isso só agora posso escrevo sobre...
Segundo essa notícia o governo e mais concretamente, o ministro Miguel Relvas (quem mais poderia ser?!...), decidiu mandar imprimir o seu programa numa edição especial de 100 exemplares e de luxo, em papel couché semimate, para distribuir exclusivamente pelos membros do governo. Por adjudicação directa os 100 livros vão custar 12 mil euros, ou seja, nós todos pagaremos 120 euros por cada um desses especiais e espectaculares exemplares que os ministros ofertarão a quem lhes apetecer.
Bem, isto é a mesma coisa que admitirem que limpam o seu súpero ânus a notas de muitos euros, só porque sim e também para provocarem um tantinho a malta.

11 fevereiro 2012

mais e mais, sempre a somar

Só agora, quando já entramos num novo dia, consigo folhear o jornal Público de Sexta-Feira, dia 10 de Fevereiro. Jornal que chegou aqui a casa por esquecimento de alguém. Alertado, há uns minutos atrás, por telefone amigo e igualmente simpatizante da "cruzada" e, principalmente, preocupado com o bem escrever em Português de Portugal, pude apreciar mais dois preciosos e brilhantes contributos:


10 fevereiro 2012

primeiras linhas...

O regresso à leitura de Rousseau encontra logo no seu primeiro passeio*, palavras que são sempre para mim, inexplicavelmente, próximas e de tamanha afinidade... "Eis-me sozinho na terra, sem irmão, parente próximo, amigo, ou companhia a não ser eu próprio. O mais sociável e o mais afectuoso dos homens foi proscrito da sociedade por um acordo unânime."

* Jean-Jacques Rousseau, in Os Devaneios do Caminhante Solitário.

frívolas presunções

A conversa percorreu todo o jantar e durou muito para além dele. À mesa três, nos seus copos um branco estranhamente transmontano que digeriu a alheira assada. Depois o café e um vulgar digestivo. Agora, depois das despedidas e já sozinho, registo uma parcela daquilo que se falou.
Às tantas, falava-se de contas bancárias e das fidelidades estabelecidas com determinadas instituições bancárias e das relações de amor/ódio que, muitas vezes, sem razão plausível, se estabelecem. Isto fez-me recuar ao tempo da invenção dos prodigiosos cartões de plástico colorido que se inseriam numas máquinas de rua e, com isso, se conseguia receber dinheiro vivo. Extraordinário. Claro que também eu só descansei quando consegui ter uma coisas dessas...
Corria um dos últimos anos da década de oitenta e, provavelmente, por altura de um aniversário meu, consegui juntar cinco contos. Com eles resolvi então abrir uma conta jovem, no Crédito Predial Português, com o único propósito de ter acesso a um desses cartões cheios de pinta. Assim foi. Passados alguns dias (talvez semanas) recebi o dito cartão e logo o experimentei para consultar o saldo da minha espectacular conta bancária. O destino dado a esses cinco contos já não recordo, mas lembro-me perfeitamente de um dia, em plena cidade Invicta, sem qualquer real necessidade, ter levantado mil escudos (...que loucura!), só para impressionar e "meter estilo" junto daquelas que me acompanhavam... "- Esperem lá, tenho que ir aqui ao Multibanco levantar dinheiro..." Impressionante e muito à frente. E mais impressionante e não tanto à frente, foi nenhuma delas ter ficado demasiadamente impressionada, ao ponto de tal acto poder ser uma mais valia no meu estatuto e na minha "pinta". Relembro também que não sempre, mas quase sempre que passava por uma dessas, ainda estranhas, mas prodigiosas maquinetas, utilizava-as para ver o saldo da minha conta. A atracção e o fascínio por aquela tecnologia ultrapassava-me e levava-me a utilizá-la sem qualquer nexo, pois dinheiro eu quase não tinha. Pois não.

Nota: com esta lembrança, a minha primeira reacção foi ir ao meu arquivo arqueológico em busca desse cartão para aqui partilhar. Não encontrei.

07 fevereiro 2012

lucrar com a morte, dos outros...

Acabo de ler a notícia no jornal Expresso online (aqui) e não quero acreditar. Eu até já tinha visto isto num filme hollywoodesco, mas imaginar que isto poderia ser transformado num negócio real, será sempre para lá dos meus limites da tolerância moral. Segundo a notícia, o esquema deste negócio é simples e acessível a qualquer investidor.
"O banco compra apólices de seguros de vida de norte-americanos e assume a responsabilidade pelo pagamento dos seus futuros prémios. Quando o segurado morre, o dinheiro da apólice vai para o fundo do Deutsche Bank. São escolhidos norte-americanos com idades compreendidas entre os 70 e os 90 anos. Se as pessoas de referência viverem muito tempo, ganha o banco. Se morrerem prematuramente, ganha o investidor."
Num esforço premonitório, imagino já grandes investimentos em determinadas pessoas (aleatoriamente escolhidas) e muitas inexplicáveis e misteriosas mortes... é só especular, especular com essas vidas, pois o importante é o lucro, o lucro exponencial com a morte alheia. Como é que nunca ninguém se tinha lembrado disto?!

06 fevereiro 2012

mudanças

Com o natural crescimento do rebento mais novo vejo-me na necessidade de lhe libertar uma divisão da casa para seu quarto. Uma vez mais perco o espaço, habitualmente chamado "escritório", onde a família e, em particular, eu, passávamos grande parte do tempo em casa. Desta vez, ao contrário das anteriores, não regresso à despensa, mas isso também só não acontece, porque o seu espaço é impraticável. Vejo-me assim na obrigação de reorganizar as minhas tralhas e, tendo em conta as limitações do lar, na terrível missão de seleccionar, separar e eliminar "coisas"...
Por outro lado, o bom da mudança, para além de si mesma, é o facto de poder rever "coisas" e poder trazê-las para mais perto dos olhos. Nesta reorganização, em particular, espero poder organizar definitivamente a base de dados dos meus livros - algo que tenho vindo a fazer nos últimos anos, mas sempre com muita parcimónia e sem muita paciência. Estou motivado para actualizar os seus dados, mas receio que amanhã ou depois e com tamanha confusão, esse entusiasmo se esboroe. A ver vamos.

03 fevereiro 2012

ainda na cruzada...

Também hoje acabei a leitura da revista LER e, sem nada o prever, eis que, num pé página, o escritor Joel Neto fala acerca do Acordo Ortográfico. Fica esse momento.

a nossa cruzada...

Bem cedo, mal abro o jornal Público e chego à página 4 e logo um largo sorriso me invade o rosto. As letras gordas anunciam que o novo senhor do CCB deu instruções aos serviços para não aplicarem o Acordo Ortográfico. Que boa notícia. Na mesma página 4, em caixa, ficamos a saber que alguns deputados do PSD, dos quais se destaca Mota Amaral, escreveram uma carta ao ministro Paulo Portas questionando-o se o governo admite suspender de imediato o acordo... Mas o jornal Público (como eu gosto dele...) faz mais, realça em editorial ("Actos corajosos contra o embuste ortográfico") e publica mais um artigo de opinião ("Um acto político de empobrecimento cultural") acerca desta nossa cruzada. Como não tenho dinheiro para assinar a versão digital, a única hipótese para partilhar com o mundo é digitalizar a versão papel (para a qual também já não tenho dinheiro, pois as restrições orçamentais familiares assim o exigem...). Ficam então os recortes possíveis.



02 fevereiro 2012

a ver o mar

Bem longe, onde nos conhecemos e aprendemos tudo ou quase sobre nós, falavas-me do mar com alegria e sempre com saudade. Houve um dia em que vieste ver-me e eu sem te preparar levei-te a ver o mar. Recordo o brilho dos teus olhos ao avistares o imenso oceano. Depois, disseste-me que era aí que gostavas de ficar. Não sei, mas tentei fazer-te a vontade.

01 fevereiro 2012

citação:

(José Pacheco Pereira no seu Abrupto a propósito das manifestações dos indignados)
“A primeira manifestação da chamada "geração à rasca" (a designação de "indignados" era ainda muito minoritária) foi um grande sucesso. Mas é o caso típico de uma manifestação unanimista, que desde a JSD à extrema-direita, de grupos de "artistas" à extrema-esquerda, do PSD ao BE ao PCP, teve todo o mundo e ninguém a apoiar e uma comunicação social activa e ultra-simpática a divulgá-la. Só quem não era patriota é que não saía à rua. Ah! E havia um pequeno pormenor - era contra José Sócrates no clímax da sua impopularidade. Tinha que ser um sucesso e foi, mas gerou a ilusão de que poderia dar origem a um novo tipo de movimentos, o que também entusiasmou muitas redacções sempre prontas a encontrar "novos" movimentos sociais e depreciar os "antigos".”

icónico...

Fernando Assis Pacheco

em dia de folga...

LER para Fevereiro

Ao contrário do que é habitual, dia 1 do mês e já cá está. Número dedicado a Fernando Assis Pacheco.

31 janeiro 2012

da imprensa...


Eu nem aprecio muito o estilo e o ideário deste senhor jurista, mas hoje e aqui esteve particularmente bem.

28 janeiro 2012

bons vizinhos

O Horácio vivia numa moradia nos arredores de uma pequena cidade do interior do país e tinha por vizinho um jovem casal de bancários que habitavam a casa ao lado. Sem grandes entusiasmos ou empatias, os dois casais coabitavam em sã e cordial vizinhança. O Horácio tinha um cão de Gado Transmontano que passava os dias pelas extensas áreas exteriores da casa, numa típica e pachorrenta vida de cão, ladrando apenas quando alguém tocava à campainha ou a quem se aproximava demasiado do seu território. Na casa ao lado vivia também um cão que, apesar de rafeiro, tinha acesso privilegiado a toda a casa, onde aliás passava maior parte do seu tempo. Este rafeiro, apesar do seu aspecto franzino, era temperamental e muito agressivo para com estranhos e, especialmente, para com outros animais. Escusado será dizer que sempre que se via livre, o seu passatempo predilecto era ir provocar o cão da casa ao lado, reclamando sempre o seu imenso território, mas sem nunca ter motivado mais do que alguns rosnares de aviso. O Cão de Gado não reagia nem se importunava com tais provocações. Os seus donos sabiam disso e viviam tranquilos. 
Certo dia, para espanto de Horácio, o seu cão aparece com o outro entre os dentes, sangrado e todo sujo, já morto. Surpreendido com a atitude do seu próprio cão e sem saber como reagir, até porque Horácio sabia perfeitamente a estima que os vizinhos tinham pelo rafeiro, resolve omitir tal acontecimento. Primeiro, decide lavar e tratar das feridas do cão morto. Depois, esperando pelo cair da noite, leva o cão ao colo até ao muro das traseiras que divide as duas propriedades, verifica se ainda há luzes na casa vizinha e atira o cão morto, por cima do muro, para o outro lado e regressa em silêncio para dentro de casa. 
Passados não muitos dias, os dois vizinhos encontram-se à porta de casa e cumprimentam-se. Horácio, receoso que o vizinho o questione acerca do seu cão, tenta esquivar-se, mas o vizinho logo o interpela:
- Sr. Horácio, nem sabe o que me aconteceu... Deve andar por aqui algum espírito mau, alguma bruxa ou mau olhado!
- Aí sim?!.. Não me diga?!... - questiona o Horácio, ensaiando uma expressão de admiração, mas consciente que já não irá escapar e que terá que admitir o sucedido.
- Pois é. Então não é que aqui há dias, o meu cão morreu e eu enterrei-o lá trás no quintal da casa e passados dois dias ele apareceu-me lavado, deitado em cima da relva do quintal. 
- Ah! Que estranho. Isso é muito estranho. - comentou Horácio aliviado e ao mesmo tempo certo da asneira que tinha cometido.

24 janeiro 2012

cinco anos depois...

No dia em que assinalo o quinto ano completo de existência deste meu lugar, para além de registar o facto e manifestar a satisfação e o prazer que tem sido manter o Apurriar, gostaria de reflectir acerca de uma outra dimensão que está inerente à condição de blogger e à condição do próprio acto de escrever. Falo da responsabilidade por tudo aquilo que aqui é escrito e registado e da necessidade de estar permanentemente consciente de que aquilo que é publicado, será lido, interpretado e compreendido heterogeneamente por cada um dos seus leitores. E aquilo que à partida - momento solitário na ideia, egoísta na escolha das palavras e, muitas vezes, misantropo na escrita - é claro e objectivo, transforma-se à chegada - momento de leitura - em objecto extremamente difuso.
Decorre esta reflexão do facto de ter sido, neste último ano e pela primeira vez, confrontado com sentimentos de ofensa e indignação por palavras aqui escritas. De facto, nunca até agora tinha reflectido sobre a ténue fronteira que pode existir entre a opinião e a agressão. De qualquer forma, sei, porque sou o único responsável por tudo o que aqui está depositado, que em nenhum momento escrevi com a consciência e a intenção de ferir, magoar ou ofender quem quer que seja. Se aquilo que afirmo e escrevo agrada ou não, se é recebido por unânime concordância ou não, nunca foi preocupação, pois até gosto de uma boa dose de polémica e de um aceso contraditório, mas ao contrário daquilo que o próprio nome do blogue indica, nunca foi objectivo apurriar alguém. Se o fiz peço desculpa, sabendo sempre que tal, ainda que involuntariamente, poderá voltar a acontecer. Obrigado.