27 março 2012

tranquilidade

Gosto muito de aqui vir, ou melhor, sempre que aqui tenho que vir - e é sempre pela pior das razões - por algum problema de saúde daqueles que me rodeiam, sento-me nesta esplanada, sossegada, envolvida por velhas e frondosas árvores, pelo chilrear dos pássaros, longe da agitação da rua e com vistas para o edifício do hospital. O contraste é para mim abismal, pois no mesmo instante que aqui estou, tranquilo e com saúde, para lá das paredes e janelas que avisto, perscruto sofrimentos atrozes, adivinho a angústia de veredictos variados e sei da agonia das horas do fim. Mas aqui estou bem, muito bem. Aqui leio e aqui escrevo, sempre. Mas quero ir-me embora rápido, não por mim, mas por aqueles que sofrem e me fizeram aqui vir.

viver assim

Tarde estranha a de ontem. Enfiado em casa e tentando cumprir datas de entregas de textos, estive às voltas com artigo sobre as novas ruralidades para publicação espanhola. Acompanhou-me sempre um som bem alto que, de espaços a espaços, ia trocando, o que me permitiu não perceber qualquer outro ruído e manter-me focado no que fazia. Eis senão, quando estava absorvido por um qualquer raciocínio e não troquei de cd, deixando-me ficar em total silêncio, ouvi clara e distintamente um som vindo da casa ao lado e percebi que a minha vizinha estava a ter um prolongado e estridente orgasmo. Eram 16 horas e à minha volta pessoas a fazer sexo. Bonito. Só é pena eu não. Não escrevi mais. Saí.

26 março 2012

ideia romântica...

No Jornal Público de ontem (Domingo), lido já muito tarde e já 2ª feira, encontrei uma entrevista a Francisco Avillez, um dos mais conceituados economistas agrários portugueses que, entre outras e muitas coisas interessantes, diz que o nosso mundo rural, actualmente, depende muito pouco da agricultura e no futuro dependerá menos. Afirma também que inverter este estado actual é muito difícil. Concorda com o cadastro das terras abandonadas e entende-o como decisivo nas áreas florestais, mas tem dúvidas quanto ao projecto de as entregar a quem as queira trabalhar. A este propósito diz:
"Não há maneira nenhuma de resolver o problema dos fogos sem conhecer um bocadinho melhor o território. Aproveitar áreas abandonadas, nomeadamente as que são do Estado, e eu não sei quais são, acho que é uma boa ideia. Não sei quais são os resultados práticos disso. O retomar a actividade agrícola, de que toda a gente fala, mostra que muitas vezes o que existe é uma ideia quase romântica do que é a agricultura. Depois, há o choque com a realidade. Depois de passarem lá algum tempo, apercebem-se de que aquilo é muito mais duro, excepto em sectores específicos..."

19 março 2012

comprei hoje...

dezanove de março...

Ao contrário do que seria expectável ser dito, ou neste caso escrito, não me parece nada que tenha sido ontem. Este ano rendeu muito. Foi um ano muito extenso. Um ano bonito e muito preenchido. Ainda bem.

13 março 2012

novos registos

Finalmente informatizei completamente o meu acervo bibliográfico. Tarefa que iniciei no início do mês de Fevereiro e terminei por estes dias. Agora que tudo está devidamente registado, numerado e catalogado, sempre que adquirir um novo livro, será muito mais simples incluí-lo. A grande conclusão a que cheguei é que não tenho tantos livros como pensara e que tenho uma bibliografia de ciências sociais muito razoável e com tendência para crescer. Aliás, ainda tem, certamente, uma larga margem de crescimento. Tantos e tantos que ainda faltam por cá. Bem, mas nos últimos tempos chegaram mais meia-dúzia desses, a saber:
- Antunes, João Lobo (2012), A nova medicina, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Pereira, Paulo Trigo (2012), Portugal: dívida pública e défice democrático, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Estanque, Elísio (2012), A Classe Média: ascensão e declínio, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Fernandes, Hirondino (2012), Bibliografia do Distrito de Bragança - série escritores, jornalistas, artistas (volume I), Bragança, Câmara Municipal de Bragança;
- Fernandes, Pêra (2008), O sumo das pedras de Bragança, Bragança, Junta de Freguesia de Santa Maria;
- André, Susana (2010), Mitos Urbanos e Boatos, Lisboa, A Esfera dos Livros;
- Baudrillard, Jean (2011), A Sociedade de Consumo, Lisboa, Edições 70;

10 março 2012

"a semântica das atitudes"


A edição do mês de Março do jornal Le Monde Diplomatique saiu ontem, dia 9, com cara lavada, outro papel e, digo eu, melhor aspecto. Ainda quase não li nada, mas dando seguimento ao meu inconsciente hábito de ler os jornais e revistas de trás para a frente, encontrei e li, na última página, um texto do escritor Mário de Carvalho, o que me deixou por si só satisfeito e a dizer para com os meus Fechos Eclair, que botões não transportava, que já valera a pena comprar o jornal deste mês. Pronto, já nem precisaria de ler mais nada...
Gostaria aqui de transcrever todo o texto, mas como o novo layout do blogue não publica as fotografias num formato legível, nem me vou dar ao trabalho de o digitalizar. Apesar das tiradas que aqui reescrevo e descontextualizo, aconselho vivamente a sua leitura do princípio ao fim.
"Qualquer negociante de secos e molhados ou vendedor de electrodomésticos profere impunemente a sua galegada. Desde que seja riquíssimo. Os ricos não se contentam só com o acatamento. Querem servilismo. Exigem veneração. Chão lambido. Têm-no garantido. Meia dúzia de economistas oficiosos - sempre os mesmos - aprestam-se ao culto público de «os Mercados» com o fervor genuflectido duma adoração ao Espírito Santo."
"Tudo são apelos ao conformismo e à submissão, convites à obediência e ao redil. O povo, quando presente é constituído em populaça. A ralé sempre fez o jeito às contra-revoluções. (...) Com os da ralé pode a ganhuça bem. É travesti-los de consumidores. O consumidor por natureza é dócil. «Para ver já a seguir. Não saia daí». Já o cidadão tende a complicar. É antipático e incómodo. Toma distâncias e faz escolhas. Há que silenciá-lo, ridicularizá-lo ou desacreditá-lo.
"Como pode uma economia colonial saudável funcionar sem escravos? Coisa de otários."

07 março 2012

um processo

Ler muito para depois escrever;
Escrever para depois reler;
Reler para depois reescrever;
Ou seja,
Ler muito será bem escrever.

06 março 2012

slowfood


Um destes dias algo na rede me chamou a atenção para este nome. Nunca ouvira falar desta coisa - coisa porque não sabia rigorosamente nada acerca de..., mas bastou-me uma rápida consulta no google (detectou 10.600.000 resultados em 0,40 segundos para o termo slowfood) para ficar logo curioso e interessado em saber mais sobre. Na página de busca as apresentações dos resultados, podemos ler: 
"...é um movimento internacional que reúne pessoas apaixonadas por gastronomia, celebra o alimento de qualidade e o prazer da alimentação..."
"...com o objectivo de promover uma maior apreciação da comida..."
"...is a eco-gastronomic that was founded to counteract fast food and fast life..."
Parti à descoberta e foi uma completa surpresa, não só pela filosofia da organização, ou movimento como se auto-definem, como também pela dimensão e seu crescimento, contando actualmente com mais de cem mil membros espalhados por todo o mundo e apoiantes em cerca de cento e cinquenta países. Foi fundada em 1986 pelo jornalista italiano Carlo Petrini com o objectivo de promover uma maior apreciação da comida, melhorar a qualidade das refeições e uma produção que valorize o produto, o produtor e o meio ambiente. Acreditam, os seus membros, que todos têm o direito fundamental ao prazer de comer bem e optaram para lema "bom, limpo e justo" e para logótipo, só podia, um caracol. Sem ser ingénuo, pois julgo alcançar o seu propósito político ou ideológico, devo dizer que tudo, ou quase tudo nesta associação, me agrada.
Ena pá, como eu gosto de estar à mesa e ficar por lá. É tão bom. Vamos lá dar força ao movimento. Não custa nada e pode saber muito bem.
(para conhecer o movimento clicar no título deste texto)

04 março 2012

muito cuidado...

(encontrada no meio de um livro qualquer, a servir de marcador de página)

01 março 2012

Estás bem?

Num encontro fugidio, perguntei-lhe se estava bem. A desculpa de um atraso para um compromisso impediu a devida e merecida atenção. Resta este sentimento de culpa. Repito: que estejas bem.

LER em Março

24 fevereiro 2012

futuros (im)possíveis...

"A sucessão das crises financeiras conduziu à emergência de uma figura subjectiva que ocupa agora todo o espaço público: a do homem endividado."

Assim começa o artigo de Maurizio Lazzarato, intitulado "A dívida ou o roubo do tempo" e publicado na edição do mês de Fevereiro do Jornal Le Monde Diplomatique - edição portuguesa. De facto, uma das consequências das sucessivas crises que temos vindo a experimentar é a consciencialização generalizada de uma real existência (vida) endividada. A reflexão deste sociólogo e filósofo incide sobre a relação entre credor (proprietário) e devedor (não-proprietário) e como esta relação é extremamente assimétrica e intensifica os mecanismos de exploração e dominação próprios do capitalismo. A "dívida" é entendida não só como uma manifestação económica, mas também como elemento operatório de uma tripla despossessão: despossessão de poder político, despossessão de uma parte da riqueza e o seu regresso à acumulação capitalista e despossessão do futuro, enquanto tempo como portador de escolha, de possíveis. Para além disso, "a dívida produz uma moral que lhe é própria, (...) complementar à moral do trabalho. O par esforço-recompensa oriundo da ideologia do trabalho é reforçado pela moral da promessa (a de honrar a dívida) e da culpa (a de a ter contraído)".
No fundo, e tristemente, digo eu, o devedor comportar-se-á sempre por relação à sua dívida e ao respectivo pagamento e só se poderá considerar livre na medida em que o seu modo de vida - consumos, trabalho, pagamento de impostos, etc., lhe permite fazer face aos compromissos assumidos. E assim, o todo poderoso sistema capitalista esmaga e reduz o que será, o futuro e os seus possíveis não serão mais do que as relações de poder da actualidade. Esta ideia remete-me para uma aproximação ao conceito de sociologia das emergências, de Boaventura de Sousa Santos (2002) e àquilo que ele identifica como o "Ainda-Não" (proposto por Ernst Bloch, 1995), ou seja, o modo como o futuro se inscreve no presente e o dilata. Não é um futuro indeterminado nem infinito, mas sim uma possibilidade e uma capacidade concretas.

19 fevereiro 2012

18 fevereiro 2012

cuidar da memória

Recebi um email dando-me a conhecer o projecto de e-museu da memória imaterial. Muito bonito e, principalmente, muito interessante. Para pesquisar e apreciar aqui ou então depois nos meus "atalhos partilhados".

15 fevereiro 2012

dictum et factum

A notícia é já do dia de ontem, mas eu só agora cheguei perto do meu "apurriar", e por isso só agora posso escrevo sobre...
Segundo essa notícia o governo e mais concretamente, o ministro Miguel Relvas (quem mais poderia ser?!...), decidiu mandar imprimir o seu programa numa edição especial de 100 exemplares e de luxo, em papel couché semimate, para distribuir exclusivamente pelos membros do governo. Por adjudicação directa os 100 livros vão custar 12 mil euros, ou seja, nós todos pagaremos 120 euros por cada um desses especiais e espectaculares exemplares que os ministros ofertarão a quem lhes apetecer.
Bem, isto é a mesma coisa que admitirem que limpam o seu súpero ânus a notas de muitos euros, só porque sim e também para provocarem um tantinho a malta.

11 fevereiro 2012

mais e mais, sempre a somar

Só agora, quando já entramos num novo dia, consigo folhear o jornal Público de Sexta-Feira, dia 10 de Fevereiro. Jornal que chegou aqui a casa por esquecimento de alguém. Alertado, há uns minutos atrás, por telefone amigo e igualmente simpatizante da "cruzada" e, principalmente, preocupado com o bem escrever em Português de Portugal, pude apreciar mais dois preciosos e brilhantes contributos:


10 fevereiro 2012

primeiras linhas...

O regresso à leitura de Rousseau encontra logo no seu primeiro passeio*, palavras que são sempre para mim, inexplicavelmente, próximas e de tamanha afinidade... "Eis-me sozinho na terra, sem irmão, parente próximo, amigo, ou companhia a não ser eu próprio. O mais sociável e o mais afectuoso dos homens foi proscrito da sociedade por um acordo unânime."

* Jean-Jacques Rousseau, in Os Devaneios do Caminhante Solitário.

frívolas presunções

A conversa percorreu todo o jantar e durou muito para além dele. À mesa três, nos seus copos um branco estranhamente transmontano que digeriu a alheira assada. Depois o café e um vulgar digestivo. Agora, depois das despedidas e já sozinho, registo uma parcela daquilo que se falou.
Às tantas, falava-se de contas bancárias e das fidelidades estabelecidas com determinadas instituições bancárias e das relações de amor/ódio que, muitas vezes, sem razão plausível, se estabelecem. Isto fez-me recuar ao tempo da invenção dos prodigiosos cartões de plástico colorido que se inseriam numas máquinas de rua e, com isso, se conseguia receber dinheiro vivo. Extraordinário. Claro que também eu só descansei quando consegui ter uma coisas dessas...
Corria um dos últimos anos da década de oitenta e, provavelmente, por altura de um aniversário meu, consegui juntar cinco contos. Com eles resolvi então abrir uma conta jovem, no Crédito Predial Português, com o único propósito de ter acesso a um desses cartões cheios de pinta. Assim foi. Passados alguns dias (talvez semanas) recebi o dito cartão e logo o experimentei para consultar o saldo da minha espectacular conta bancária. O destino dado a esses cinco contos já não recordo, mas lembro-me perfeitamente de um dia, em plena cidade Invicta, sem qualquer real necessidade, ter levantado mil escudos (...que loucura!), só para impressionar e "meter estilo" junto daquelas que me acompanhavam... "- Esperem lá, tenho que ir aqui ao Multibanco levantar dinheiro..." Impressionante e muito à frente. E mais impressionante e não tanto à frente, foi nenhuma delas ter ficado demasiadamente impressionada, ao ponto de tal acto poder ser uma mais valia no meu estatuto e na minha "pinta". Relembro também que não sempre, mas quase sempre que passava por uma dessas, ainda estranhas, mas prodigiosas maquinetas, utilizava-as para ver o saldo da minha conta. A atracção e o fascínio por aquela tecnologia ultrapassava-me e levava-me a utilizá-la sem qualquer nexo, pois dinheiro eu quase não tinha. Pois não.

Nota: com esta lembrança, a minha primeira reacção foi ir ao meu arquivo arqueológico em busca desse cartão para aqui partilhar. Não encontrei.