28 abril 2012

24 abril 2012

Miguel Portas R I P

Fui surpreendido ao final da tarde com a triste notícia da morte do Miguel Portas. Não que não soubesse da sua doença, do seu estado debilitado e da gravidade da doença, mas não tinha conhecimento ou notícias desta última recaída. Conheci o Miguel algures em 2005, numa conversa "Um café com Miguel Portas", promovida pelo BE Bragança, no café Pátio. Foi uma noite prolongada, de conversa e debate, onde o Miguel com a sua educação e cordialidade foi respondendo às perguntas e provocações lançadas por todos quantos quiseram participar. Apesar de não haver uma relação de grande proximidade, nos vários e diferentes momentos em que nos encontrámos - encontros temáticos, Mesas Nacionais ou Convenções - tinha sempre uma palavra simpática e de incentivo para a "luta" difícil no interior do país. Daquilo que pude testemunhar, o Miguel foi, de facto e apesar da sua simplicidade, um dirigente e um activista político de grande competência, firme nas suas convicções e, acima de tudo, capaz de ouvir e de dialogar com todos os outros. A última vez que falei com ele foi na Mesa Nacional de 4 de Fevereiro e estava aparentemente bem. Foi um honra e uma sorte conhecer o Miguel e aprender com o Miguel. Até sempre.

20 abril 2012

estado de negação, arrogância intelectual e pretensiosismo provinciano

Foi notícia no dia de ontem, aqui, que a "Europa está a criar um movimento alternativo ao pensamento que levou à crise actual". Muito bem, pensei eu. Problema desta notícia é que essas palavras vêem da boca do líder parlamentar do PS, Carlos Zorrinho. Mas diz mais. A partir de Roma, onde, segundo o próprio, está para participar na segunda Conferência de Líderes Parlamentares Progressistas, afirma que foi convidado (?!) para "fazer sessão de abertura" e que o objectivo é, passo a citar:
“É um encontro que visa constituir uma base, uma rede, de partidos progressistas à escala europeia, mas também à escala global, para conjuntamente formarem uma resposta às políticas neoliberais que têm vindo a criar tantos problemas em Portugal e também na Europa e no mundo”
Curioso o estado de negação no raciocínio deste "novo" iluminado, acabado de sair das trevas de um governo socialista, quando diz:“Julgo que se está aqui a iniciar um importante movimento alternativo ao, digamos, pensamento único que nos conduziu ao beco difícil em que estamos hoje.
Carlos Zorrinho termina a sua auto-elegia dizendo:o facto de o Partido Socialista português ter sido convidado” para estar na sessão abertura deste encontro de Roma, onde estão presentes “altas personalidades como Elisabeth Guigou [ex-ministra das Finanças francesa] ou Massimo D’Alema [ex-primeiro-ministro italiano]” e de António José Seguro estar presente no encerramento, também ao lado de “altas personalidades” europeias, “mostra bem importância que neste momento as posições do Partido Socialista português têm. Aqui, já estamos todos a rir à gargalhada, pois não só o PS não tem tido qualquer posição, quanto mais relevância nacional ou europeia, como essas ditas "altas personalidades" foram, tal como o PS, igualmente responsáveis pelo estado a que chegámos.
Por fim, digo eu, que raio de autoridade terá este senhor para se promover a arauto dos pensamentos alternativos para a Europa?... Será que estes iluminados não têm vergonha na cara e se apercebem que o seu cu, não cabe nestas calças, ou como se diz na minha terra, a sua cara não bate certo com esta careta?! Pudor, senhores, pudor...
(negritos meus reforçando a minha percepção da palhaçada)

o regresso à cruzada...

(No Jornal Público de ontem, dia 19 de Abril)

17 abril 2012

tomates

A propósito da nacionalização de uma empresa petrolífera na Argentina, Sérgio Lavos no Arrastão escreveu e bem o seguinte:
«Cristina Kirchner, insatisfeita com os investimentos da maior empresa petrolífera argentina no seu país, decidiu nacionalizá-la. A Espanha não gostou, porque a empresa é detida em parte pela Repsol. A resposta da Presidente argentina esteve à altura: "Esta Presidente não responderá a qualquer ameaça", disse ainda. "Sou um chefe de Estado, não uma vendedora de legumes", frisou. "Todas as empresas presentes no país, e mesmo que o acionista seja estrangeiro, são empresas argentinas". Simples e directo; em questões de economia, o interesse nacional terá sempre de se sobrepôr aos interesses estrangeiros, sobretudo quando se trata de sectores estratégicos. Qualquer semelhança com a realidade portuguesa é pura coincidência.»

13 abril 2012

um galo de barcelos

Amanhã, dia 14 de Abril, acontece a final da Taça da Liga em Coimbra e que será disputada pelas equipas do Benfica e do Gil Vicente. Como não poderia deixar de ser, no Portugal de hoje, durante este dias que antecedem esse jogo de futebol, foram vários os momentos e os apontamentos de reportagem, com directos televisivos e afins, acerca da preparação das duas equipas e acerca do pulsar das respectivas massas adeptas e simpatizantes. Aqui, uma nota para a clara distinção naquilo que é a relação entre cada um dos clubes e a cidade que os acolhe. Em relação ao Benfica, não me apercebi de qualquer esforço ou tentativa jornalística junto da população da cidade de Lisboa, enquanto que em Barcelos, pelo contrário, foram vários os momentos em que os seus habitantes foram confrontados com as câmaras de televisão e a curiosidade de um(a) jornalista, numa clara imputação de um estatuto de inferiodade destes perante o "Golias" que teriam que enfrentar...
Foi precisamente numa dessas preciosidades jornalísticas, de imenso interesse para o país, que pude assistir à boçal e maior imbecialidade dos últimos tempos. O senhor que tem o nome esquisito e, não por acaso, é presidente do Gil Vicente, perante todo o país, fez questão de anunciar a sua promessa para o caso de o seu clube vier a trazer o "caneco" para Barcelos. Este senhor, iluminado não pelo santo Galo de Barcelos, mas pelos euros que lhe sobram nos bolsos, comprometeu-se em caso de vitória do Gil Vicente a dar champanhe aos sem-abrigo da cidade de Barcelos durante uma semana. Espectacular ideia e, acima de tudo, a demonstração da sensibilidade e do cuidado para com o bem estar dos mais desfavorecidos. Assim de repente, não me ocorre outra necessidade que esses infelizes possam ter a não ser a embrieguez pelo "caneco" do generoso espumante. Aliás, já estou a ver as equipas de jovens voluntários locais, devidamente equipados e patrocinados, bem dispostos e sorridentes, a distribuirem garrafas ou copos do generoso e refrescante champanhe pelas ruas da cidade. Isto, claro é, seguidos bem de perto pelas equipas de reportagem de todos os órgãos de comunicação social nacionais. Adivinho até que esse mesmo bom samarinato não perderá a oportunidade para tirar mais um retrato, naquilo que é a sua promoção em direcção ao rídículo.
Poderia dizer-se que este é o triste mundo do futebol em Portugal, mas não. Teremos que admitir que este é o triste mundo português.

10 abril 2012

pela boca morre o... homem

Pois é. Hoje na edição de papel do Jornal Público, Alexandra Prado Coelho a propósito de uma conferência da Gulbenkian sobre o futuro da alimentação, escreve sobre o pensamento de Tim Lang, inglês especialista em Política Alimentar que amanhã será orador convidado. Muito interessante aquilo que este autor afirma acerca da realidade mundial e nacional no que aos alimentos diz respeito.
Começa por desconstruir a ideia estabelecida que num futuro próximo os chineses irão ser os responsáveis pela insustentabilidade do sistema alimentar mundial, afirmando que o problema não são os chineses, somos nós, os ocidentais que consumimos por gula e prazer e não por necessidade... "No Reino Unido comemos como se houvesse três planetas, Nos EUA, eles comem como se houvesse cinco planetas".
Lang já há muito vem alertando para a necessidade de uma mudança de paradigma alimentar, apresentando precisamente a China como exemplo de como com pouco se pode fazer muito: "Uma imensa população vive apenas com 9% da terra disponível. E como é que o conseguiram? Comendo plantas".
A propósito de Portugal, afirma que nós tínhamos "uma dieta mediterrânica, barata, muito simples, baseada em produtos locais e da estação, mas uma série de mudanças - capitalismo, indústria alimentar, alterações de estilo de vida, aumento da riqueza, influências americanas, nos afastaram desse padrão alimentar".
Pedro Graça, outros dos oradores desta conferência, afirma que os estilos de vida mudaram, que o know how que se transmitia de geração em geração foi desaparecendo, assim como desapareceu o tempo que era necessário para confeccionar esse tipo de comida. "Era uma alimentação muito feita em casa, e pelas mulheres. hoje as mulheres saíram de casa para trabalhar. Há uma série de factores agressivos para a manutenção deste padrão alimentar". Por outro lado, a dieta tradicional baseava-se na produção local, ou mesmo auto-produção e, actualmente, os produtos frescos e locais adquiriram um estatuto e um carisma que os afasta economicamente da maioria das pessoas. O mesmo orador explica que a dieta mediterrânica é quase vegetariana... "os pratos são formas de enganar a escassez de carne, em que os enchidos ou o bacalhau, muito condimentados, dão um sabor mais forte, dando ideia da presença de carne e peixe".
Outra ideia muito interessante é a questão política e de educação das novas gerações, onde poderá e deverá ser realizado um esforço pedagógico para alterar esta situação, pois mesmo em Portugal a obesidade aumentou exponencialmente nos últimos anos. Actualmente em Portugal existem cerca de 1 milhão de obesos e 3,5 milhões de pré-obesos - preocupante.
Este apetite insaciável do mundo ocidental terá a sua explicação na II Guerra Mundial e na memória que muitos têm ainda da fome e da escassez. "Foi em resposta a esses medos que se deu a revolução alimentar que permitiu, através da tecnologia, produzir plantas mais resistentes e assim alimentar mais animais, e mais pessoas. Até se chegar ao ponto de fartura em que estamos hoje".
Pertinente é igualmente a questão que Tim Lang coloca: "Precisamos de ter trinta mil produtos no hipermercado?". É a altura de reflectir sobre o que queremos para o futuro. Este autor, que em meados dos anos 90 criou a expressão food miles para explicar os efeitos da globalização da comida: "quantos kms um alimento tem que viajar, e que pegada ecológica é que esse transporte deixa, para que possamos ter frutas tropicais à nossa mesa todo o ano?" Termina dizendo: "O vosso país não tem um sistema alimentar sustentável. Mas tem uma cultura e uma tradição fantásticas a partir da qual pode recomeçar. Só que tem que o fazer muito rapidamente".
Ora aqui está um tratado condensado de antropologia gastronómica, abrangente e assertivo. Pena é, amanhã, eu não estar em Lisboa.

grande malha...

09 abril 2012

consequências do novo acordo ortográfico

num lugar perto de si, de nós todos...

tragédia dos comuns

Em mão nas minhas mãos e com muito bom aspecto.

coisas simples...

Ele: - Onde queres ir nas férias?
Ela: - A qualquer lugar onde não tenha sequer que pensar em cozinhar.

03 abril 2012

LER de Abril

Neste número a surpresa veio da "anormalidade" de Hélia Correia. Leiam.

30 março 2012

a miséria...

Ao olhar para as previsões ou antevisões daquilo que será a taxa de desemprego nos próximos anos em Portugal, vêm-me à memória imagens da notícia do encerramento do Gaia Hotel. Nessa peça jornalística eram entrevistados alguns dos funcionários, agora sem função. Um desses testemunhos foi uma senhora que admitia a miséria da sua posição e a tristeza que lhe ia na alma por ficar sem emprego, mas afirmava que o que mais lhe custava era deixar os colegas, pois gostava muito de trabalhar com eles. Não sei se consciente ou inconscientemente, esta ex-funcionária na simplicidade e franqueza de suas palavras referiu-se à enorme relatividade da sua miséria de posição face à grande miséria de condição, que é estar ou ser desempregado em Portugal. Muito triste.

27 março 2012

tranquilidade

Gosto muito de aqui vir, ou melhor, sempre que aqui tenho que vir - e é sempre pela pior das razões - por algum problema de saúde daqueles que me rodeiam, sento-me nesta esplanada, sossegada, envolvida por velhas e frondosas árvores, pelo chilrear dos pássaros, longe da agitação da rua e com vistas para o edifício do hospital. O contraste é para mim abismal, pois no mesmo instante que aqui estou, tranquilo e com saúde, para lá das paredes e janelas que avisto, perscruto sofrimentos atrozes, adivinho a angústia de veredictos variados e sei da agonia das horas do fim. Mas aqui estou bem, muito bem. Aqui leio e aqui escrevo, sempre. Mas quero ir-me embora rápido, não por mim, mas por aqueles que sofrem e me fizeram aqui vir.

viver assim

Tarde estranha a de ontem. Enfiado em casa e tentando cumprir datas de entregas de textos, estive às voltas com artigo sobre as novas ruralidades para publicação espanhola. Acompanhou-me sempre um som bem alto que, de espaços a espaços, ia trocando, o que me permitiu não perceber qualquer outro ruído e manter-me focado no que fazia. Eis senão, quando estava absorvido por um qualquer raciocínio e não troquei de cd, deixando-me ficar em total silêncio, ouvi clara e distintamente um som vindo da casa ao lado e percebi que a minha vizinha estava a ter um prolongado e estridente orgasmo. Eram 16 horas e à minha volta pessoas a fazer sexo. Bonito. Só é pena eu não. Não escrevi mais. Saí.

26 março 2012

ideia romântica...

No Jornal Público de ontem (Domingo), lido já muito tarde e já 2ª feira, encontrei uma entrevista a Francisco Avillez, um dos mais conceituados economistas agrários portugueses que, entre outras e muitas coisas interessantes, diz que o nosso mundo rural, actualmente, depende muito pouco da agricultura e no futuro dependerá menos. Afirma também que inverter este estado actual é muito difícil. Concorda com o cadastro das terras abandonadas e entende-o como decisivo nas áreas florestais, mas tem dúvidas quanto ao projecto de as entregar a quem as queira trabalhar. A este propósito diz:
"Não há maneira nenhuma de resolver o problema dos fogos sem conhecer um bocadinho melhor o território. Aproveitar áreas abandonadas, nomeadamente as que são do Estado, e eu não sei quais são, acho que é uma boa ideia. Não sei quais são os resultados práticos disso. O retomar a actividade agrícola, de que toda a gente fala, mostra que muitas vezes o que existe é uma ideia quase romântica do que é a agricultura. Depois, há o choque com a realidade. Depois de passarem lá algum tempo, apercebem-se de que aquilo é muito mais duro, excepto em sectores específicos..."

19 março 2012

comprei hoje...

dezanove de março...

Ao contrário do que seria expectável ser dito, ou neste caso escrito, não me parece nada que tenha sido ontem. Este ano rendeu muito. Foi um ano muito extenso. Um ano bonito e muito preenchido. Ainda bem.

13 março 2012

novos registos

Finalmente informatizei completamente o meu acervo bibliográfico. Tarefa que iniciei no início do mês de Fevereiro e terminei por estes dias. Agora que tudo está devidamente registado, numerado e catalogado, sempre que adquirir um novo livro, será muito mais simples incluí-lo. A grande conclusão a que cheguei é que não tenho tantos livros como pensara e que tenho uma bibliografia de ciências sociais muito razoável e com tendência para crescer. Aliás, ainda tem, certamente, uma larga margem de crescimento. Tantos e tantos que ainda faltam por cá. Bem, mas nos últimos tempos chegaram mais meia-dúzia desses, a saber:
- Antunes, João Lobo (2012), A nova medicina, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Pereira, Paulo Trigo (2012), Portugal: dívida pública e défice democrático, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Estanque, Elísio (2012), A Classe Média: ascensão e declínio, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Fernandes, Hirondino (2012), Bibliografia do Distrito de Bragança - série escritores, jornalistas, artistas (volume I), Bragança, Câmara Municipal de Bragança;
- Fernandes, Pêra (2008), O sumo das pedras de Bragança, Bragança, Junta de Freguesia de Santa Maria;
- André, Susana (2010), Mitos Urbanos e Boatos, Lisboa, A Esfera dos Livros;
- Baudrillard, Jean (2011), A Sociedade de Consumo, Lisboa, Edições 70;

10 março 2012

"a semântica das atitudes"


A edição do mês de Março do jornal Le Monde Diplomatique saiu ontem, dia 9, com cara lavada, outro papel e, digo eu, melhor aspecto. Ainda quase não li nada, mas dando seguimento ao meu inconsciente hábito de ler os jornais e revistas de trás para a frente, encontrei e li, na última página, um texto do escritor Mário de Carvalho, o que me deixou por si só satisfeito e a dizer para com os meus Fechos Eclair, que botões não transportava, que já valera a pena comprar o jornal deste mês. Pronto, já nem precisaria de ler mais nada...
Gostaria aqui de transcrever todo o texto, mas como o novo layout do blogue não publica as fotografias num formato legível, nem me vou dar ao trabalho de o digitalizar. Apesar das tiradas que aqui reescrevo e descontextualizo, aconselho vivamente a sua leitura do princípio ao fim.
"Qualquer negociante de secos e molhados ou vendedor de electrodomésticos profere impunemente a sua galegada. Desde que seja riquíssimo. Os ricos não se contentam só com o acatamento. Querem servilismo. Exigem veneração. Chão lambido. Têm-no garantido. Meia dúzia de economistas oficiosos - sempre os mesmos - aprestam-se ao culto público de «os Mercados» com o fervor genuflectido duma adoração ao Espírito Santo."
"Tudo são apelos ao conformismo e à submissão, convites à obediência e ao redil. O povo, quando presente é constituído em populaça. A ralé sempre fez o jeito às contra-revoluções. (...) Com os da ralé pode a ganhuça bem. É travesti-los de consumidores. O consumidor por natureza é dócil. «Para ver já a seguir. Não saia daí». Já o cidadão tende a complicar. É antipático e incómodo. Toma distâncias e faz escolhas. Há que silenciá-lo, ridicularizá-lo ou desacreditá-lo.
"Como pode uma economia colonial saudável funcionar sem escravos? Coisa de otários."