27 março 2012

tranquilidade

Gosto muito de aqui vir, ou melhor, sempre que aqui tenho que vir - e é sempre pela pior das razões - por algum problema de saúde daqueles que me rodeiam, sento-me nesta esplanada, sossegada, envolvida por velhas e frondosas árvores, pelo chilrear dos pássaros, longe da agitação da rua e com vistas para o edifício do hospital. O contraste é para mim abismal, pois no mesmo instante que aqui estou, tranquilo e com saúde, para lá das paredes e janelas que avisto, perscruto sofrimentos atrozes, adivinho a angústia de veredictos variados e sei da agonia das horas do fim. Mas aqui estou bem, muito bem. Aqui leio e aqui escrevo, sempre. Mas quero ir-me embora rápido, não por mim, mas por aqueles que sofrem e me fizeram aqui vir.

viver assim

Tarde estranha a de ontem. Enfiado em casa e tentando cumprir datas de entregas de textos, estive às voltas com artigo sobre as novas ruralidades para publicação espanhola. Acompanhou-me sempre um som bem alto que, de espaços a espaços, ia trocando, o que me permitiu não perceber qualquer outro ruído e manter-me focado no que fazia. Eis senão, quando estava absorvido por um qualquer raciocínio e não troquei de cd, deixando-me ficar em total silêncio, ouvi clara e distintamente um som vindo da casa ao lado e percebi que a minha vizinha estava a ter um prolongado e estridente orgasmo. Eram 16 horas e à minha volta pessoas a fazer sexo. Bonito. Só é pena eu não. Não escrevi mais. Saí.

26 março 2012

ideia romântica...

No Jornal Público de ontem (Domingo), lido já muito tarde e já 2ª feira, encontrei uma entrevista a Francisco Avillez, um dos mais conceituados economistas agrários portugueses que, entre outras e muitas coisas interessantes, diz que o nosso mundo rural, actualmente, depende muito pouco da agricultura e no futuro dependerá menos. Afirma também que inverter este estado actual é muito difícil. Concorda com o cadastro das terras abandonadas e entende-o como decisivo nas áreas florestais, mas tem dúvidas quanto ao projecto de as entregar a quem as queira trabalhar. A este propósito diz:
"Não há maneira nenhuma de resolver o problema dos fogos sem conhecer um bocadinho melhor o território. Aproveitar áreas abandonadas, nomeadamente as que são do Estado, e eu não sei quais são, acho que é uma boa ideia. Não sei quais são os resultados práticos disso. O retomar a actividade agrícola, de que toda a gente fala, mostra que muitas vezes o que existe é uma ideia quase romântica do que é a agricultura. Depois, há o choque com a realidade. Depois de passarem lá algum tempo, apercebem-se de que aquilo é muito mais duro, excepto em sectores específicos..."

19 março 2012

comprei hoje...

dezanove de março...

Ao contrário do que seria expectável ser dito, ou neste caso escrito, não me parece nada que tenha sido ontem. Este ano rendeu muito. Foi um ano muito extenso. Um ano bonito e muito preenchido. Ainda bem.

13 março 2012

novos registos

Finalmente informatizei completamente o meu acervo bibliográfico. Tarefa que iniciei no início do mês de Fevereiro e terminei por estes dias. Agora que tudo está devidamente registado, numerado e catalogado, sempre que adquirir um novo livro, será muito mais simples incluí-lo. A grande conclusão a que cheguei é que não tenho tantos livros como pensara e que tenho uma bibliografia de ciências sociais muito razoável e com tendência para crescer. Aliás, ainda tem, certamente, uma larga margem de crescimento. Tantos e tantos que ainda faltam por cá. Bem, mas nos últimos tempos chegaram mais meia-dúzia desses, a saber:
- Antunes, João Lobo (2012), A nova medicina, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Pereira, Paulo Trigo (2012), Portugal: dívida pública e défice democrático, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Estanque, Elísio (2012), A Classe Média: ascensão e declínio, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Fernandes, Hirondino (2012), Bibliografia do Distrito de Bragança - série escritores, jornalistas, artistas (volume I), Bragança, Câmara Municipal de Bragança;
- Fernandes, Pêra (2008), O sumo das pedras de Bragança, Bragança, Junta de Freguesia de Santa Maria;
- André, Susana (2010), Mitos Urbanos e Boatos, Lisboa, A Esfera dos Livros;
- Baudrillard, Jean (2011), A Sociedade de Consumo, Lisboa, Edições 70;

10 março 2012

"a semântica das atitudes"


A edição do mês de Março do jornal Le Monde Diplomatique saiu ontem, dia 9, com cara lavada, outro papel e, digo eu, melhor aspecto. Ainda quase não li nada, mas dando seguimento ao meu inconsciente hábito de ler os jornais e revistas de trás para a frente, encontrei e li, na última página, um texto do escritor Mário de Carvalho, o que me deixou por si só satisfeito e a dizer para com os meus Fechos Eclair, que botões não transportava, que já valera a pena comprar o jornal deste mês. Pronto, já nem precisaria de ler mais nada...
Gostaria aqui de transcrever todo o texto, mas como o novo layout do blogue não publica as fotografias num formato legível, nem me vou dar ao trabalho de o digitalizar. Apesar das tiradas que aqui reescrevo e descontextualizo, aconselho vivamente a sua leitura do princípio ao fim.
"Qualquer negociante de secos e molhados ou vendedor de electrodomésticos profere impunemente a sua galegada. Desde que seja riquíssimo. Os ricos não se contentam só com o acatamento. Querem servilismo. Exigem veneração. Chão lambido. Têm-no garantido. Meia dúzia de economistas oficiosos - sempre os mesmos - aprestam-se ao culto público de «os Mercados» com o fervor genuflectido duma adoração ao Espírito Santo."
"Tudo são apelos ao conformismo e à submissão, convites à obediência e ao redil. O povo, quando presente é constituído em populaça. A ralé sempre fez o jeito às contra-revoluções. (...) Com os da ralé pode a ganhuça bem. É travesti-los de consumidores. O consumidor por natureza é dócil. «Para ver já a seguir. Não saia daí». Já o cidadão tende a complicar. É antipático e incómodo. Toma distâncias e faz escolhas. Há que silenciá-lo, ridicularizá-lo ou desacreditá-lo.
"Como pode uma economia colonial saudável funcionar sem escravos? Coisa de otários."

07 março 2012

um processo

Ler muito para depois escrever;
Escrever para depois reler;
Reler para depois reescrever;
Ou seja,
Ler muito será bem escrever.

06 março 2012

slowfood


Um destes dias algo na rede me chamou a atenção para este nome. Nunca ouvira falar desta coisa - coisa porque não sabia rigorosamente nada acerca de..., mas bastou-me uma rápida consulta no google (detectou 10.600.000 resultados em 0,40 segundos para o termo slowfood) para ficar logo curioso e interessado em saber mais sobre. Na página de busca as apresentações dos resultados, podemos ler: 
"...é um movimento internacional que reúne pessoas apaixonadas por gastronomia, celebra o alimento de qualidade e o prazer da alimentação..."
"...com o objectivo de promover uma maior apreciação da comida..."
"...is a eco-gastronomic that was founded to counteract fast food and fast life..."
Parti à descoberta e foi uma completa surpresa, não só pela filosofia da organização, ou movimento como se auto-definem, como também pela dimensão e seu crescimento, contando actualmente com mais de cem mil membros espalhados por todo o mundo e apoiantes em cerca de cento e cinquenta países. Foi fundada em 1986 pelo jornalista italiano Carlo Petrini com o objectivo de promover uma maior apreciação da comida, melhorar a qualidade das refeições e uma produção que valorize o produto, o produtor e o meio ambiente. Acreditam, os seus membros, que todos têm o direito fundamental ao prazer de comer bem e optaram para lema "bom, limpo e justo" e para logótipo, só podia, um caracol. Sem ser ingénuo, pois julgo alcançar o seu propósito político ou ideológico, devo dizer que tudo, ou quase tudo nesta associação, me agrada.
Ena pá, como eu gosto de estar à mesa e ficar por lá. É tão bom. Vamos lá dar força ao movimento. Não custa nada e pode saber muito bem.
(para conhecer o movimento clicar no título deste texto)

04 março 2012

muito cuidado...

(encontrada no meio de um livro qualquer, a servir de marcador de página)

01 março 2012

Estás bem?

Num encontro fugidio, perguntei-lhe se estava bem. A desculpa de um atraso para um compromisso impediu a devida e merecida atenção. Resta este sentimento de culpa. Repito: que estejas bem.

LER em Março

24 fevereiro 2012

futuros (im)possíveis...

"A sucessão das crises financeiras conduziu à emergência de uma figura subjectiva que ocupa agora todo o espaço público: a do homem endividado."

Assim começa o artigo de Maurizio Lazzarato, intitulado "A dívida ou o roubo do tempo" e publicado na edição do mês de Fevereiro do Jornal Le Monde Diplomatique - edição portuguesa. De facto, uma das consequências das sucessivas crises que temos vindo a experimentar é a consciencialização generalizada de uma real existência (vida) endividada. A reflexão deste sociólogo e filósofo incide sobre a relação entre credor (proprietário) e devedor (não-proprietário) e como esta relação é extremamente assimétrica e intensifica os mecanismos de exploração e dominação próprios do capitalismo. A "dívida" é entendida não só como uma manifestação económica, mas também como elemento operatório de uma tripla despossessão: despossessão de poder político, despossessão de uma parte da riqueza e o seu regresso à acumulação capitalista e despossessão do futuro, enquanto tempo como portador de escolha, de possíveis. Para além disso, "a dívida produz uma moral que lhe é própria, (...) complementar à moral do trabalho. O par esforço-recompensa oriundo da ideologia do trabalho é reforçado pela moral da promessa (a de honrar a dívida) e da culpa (a de a ter contraído)".
No fundo, e tristemente, digo eu, o devedor comportar-se-á sempre por relação à sua dívida e ao respectivo pagamento e só se poderá considerar livre na medida em que o seu modo de vida - consumos, trabalho, pagamento de impostos, etc., lhe permite fazer face aos compromissos assumidos. E assim, o todo poderoso sistema capitalista esmaga e reduz o que será, o futuro e os seus possíveis não serão mais do que as relações de poder da actualidade. Esta ideia remete-me para uma aproximação ao conceito de sociologia das emergências, de Boaventura de Sousa Santos (2002) e àquilo que ele identifica como o "Ainda-Não" (proposto por Ernst Bloch, 1995), ou seja, o modo como o futuro se inscreve no presente e o dilata. Não é um futuro indeterminado nem infinito, mas sim uma possibilidade e uma capacidade concretas.

19 fevereiro 2012

18 fevereiro 2012

cuidar da memória

Recebi um email dando-me a conhecer o projecto de e-museu da memória imaterial. Muito bonito e, principalmente, muito interessante. Para pesquisar e apreciar aqui ou então depois nos meus "atalhos partilhados".

15 fevereiro 2012

dictum et factum

A notícia é já do dia de ontem, mas eu só agora cheguei perto do meu "apurriar", e por isso só agora posso escrevo sobre...
Segundo essa notícia o governo e mais concretamente, o ministro Miguel Relvas (quem mais poderia ser?!...), decidiu mandar imprimir o seu programa numa edição especial de 100 exemplares e de luxo, em papel couché semimate, para distribuir exclusivamente pelos membros do governo. Por adjudicação directa os 100 livros vão custar 12 mil euros, ou seja, nós todos pagaremos 120 euros por cada um desses especiais e espectaculares exemplares que os ministros ofertarão a quem lhes apetecer.
Bem, isto é a mesma coisa que admitirem que limpam o seu súpero ânus a notas de muitos euros, só porque sim e também para provocarem um tantinho a malta.

11 fevereiro 2012

mais e mais, sempre a somar

Só agora, quando já entramos num novo dia, consigo folhear o jornal Público de Sexta-Feira, dia 10 de Fevereiro. Jornal que chegou aqui a casa por esquecimento de alguém. Alertado, há uns minutos atrás, por telefone amigo e igualmente simpatizante da "cruzada" e, principalmente, preocupado com o bem escrever em Português de Portugal, pude apreciar mais dois preciosos e brilhantes contributos:


10 fevereiro 2012

primeiras linhas...

O regresso à leitura de Rousseau encontra logo no seu primeiro passeio*, palavras que são sempre para mim, inexplicavelmente, próximas e de tamanha afinidade... "Eis-me sozinho na terra, sem irmão, parente próximo, amigo, ou companhia a não ser eu próprio. O mais sociável e o mais afectuoso dos homens foi proscrito da sociedade por um acordo unânime."

* Jean-Jacques Rousseau, in Os Devaneios do Caminhante Solitário.

frívolas presunções

A conversa percorreu todo o jantar e durou muito para além dele. À mesa três, nos seus copos um branco estranhamente transmontano que digeriu a alheira assada. Depois o café e um vulgar digestivo. Agora, depois das despedidas e já sozinho, registo uma parcela daquilo que se falou.
Às tantas, falava-se de contas bancárias e das fidelidades estabelecidas com determinadas instituições bancárias e das relações de amor/ódio que, muitas vezes, sem razão plausível, se estabelecem. Isto fez-me recuar ao tempo da invenção dos prodigiosos cartões de plástico colorido que se inseriam numas máquinas de rua e, com isso, se conseguia receber dinheiro vivo. Extraordinário. Claro que também eu só descansei quando consegui ter uma coisas dessas...
Corria um dos últimos anos da década de oitenta e, provavelmente, por altura de um aniversário meu, consegui juntar cinco contos. Com eles resolvi então abrir uma conta jovem, no Crédito Predial Português, com o único propósito de ter acesso a um desses cartões cheios de pinta. Assim foi. Passados alguns dias (talvez semanas) recebi o dito cartão e logo o experimentei para consultar o saldo da minha espectacular conta bancária. O destino dado a esses cinco contos já não recordo, mas lembro-me perfeitamente de um dia, em plena cidade Invicta, sem qualquer real necessidade, ter levantado mil escudos (...que loucura!), só para impressionar e "meter estilo" junto daquelas que me acompanhavam... "- Esperem lá, tenho que ir aqui ao Multibanco levantar dinheiro..." Impressionante e muito à frente. E mais impressionante e não tanto à frente, foi nenhuma delas ter ficado demasiadamente impressionada, ao ponto de tal acto poder ser uma mais valia no meu estatuto e na minha "pinta". Relembro também que não sempre, mas quase sempre que passava por uma dessas, ainda estranhas, mas prodigiosas maquinetas, utilizava-as para ver o saldo da minha conta. A atracção e o fascínio por aquela tecnologia ultrapassava-me e levava-me a utilizá-la sem qualquer nexo, pois dinheiro eu quase não tinha. Pois não.

Nota: com esta lembrança, a minha primeira reacção foi ir ao meu arquivo arqueológico em busca desse cartão para aqui partilhar. Não encontrei.

07 fevereiro 2012

lucrar com a morte, dos outros...

Acabo de ler a notícia no jornal Expresso online (aqui) e não quero acreditar. Eu até já tinha visto isto num filme hollywoodesco, mas imaginar que isto poderia ser transformado num negócio real, será sempre para lá dos meus limites da tolerância moral. Segundo a notícia, o esquema deste negócio é simples e acessível a qualquer investidor.
"O banco compra apólices de seguros de vida de norte-americanos e assume a responsabilidade pelo pagamento dos seus futuros prémios. Quando o segurado morre, o dinheiro da apólice vai para o fundo do Deutsche Bank. São escolhidos norte-americanos com idades compreendidas entre os 70 e os 90 anos. Se as pessoas de referência viverem muito tempo, ganha o banco. Se morrerem prematuramente, ganha o investidor."
Num esforço premonitório, imagino já grandes investimentos em determinadas pessoas (aleatoriamente escolhidas) e muitas inexplicáveis e misteriosas mortes... é só especular, especular com essas vidas, pois o importante é o lucro, o lucro exponencial com a morte alheia. Como é que nunca ninguém se tinha lembrado disto?!

06 fevereiro 2012

mudanças

Com o natural crescimento do rebento mais novo vejo-me na necessidade de lhe libertar uma divisão da casa para seu quarto. Uma vez mais perco o espaço, habitualmente chamado "escritório", onde a família e, em particular, eu, passávamos grande parte do tempo em casa. Desta vez, ao contrário das anteriores, não regresso à despensa, mas isso também só não acontece, porque o seu espaço é impraticável. Vejo-me assim na obrigação de reorganizar as minhas tralhas e, tendo em conta as limitações do lar, na terrível missão de seleccionar, separar e eliminar "coisas"...
Por outro lado, o bom da mudança, para além de si mesma, é o facto de poder rever "coisas" e poder trazê-las para mais perto dos olhos. Nesta reorganização, em particular, espero poder organizar definitivamente a base de dados dos meus livros - algo que tenho vindo a fazer nos últimos anos, mas sempre com muita parcimónia e sem muita paciência. Estou motivado para actualizar os seus dados, mas receio que amanhã ou depois e com tamanha confusão, esse entusiasmo se esboroe. A ver vamos.

03 fevereiro 2012

ainda na cruzada...

Também hoje acabei a leitura da revista LER e, sem nada o prever, eis que, num pé página, o escritor Joel Neto fala acerca do Acordo Ortográfico. Fica esse momento.

a nossa cruzada...

Bem cedo, mal abro o jornal Público e chego à página 4 e logo um largo sorriso me invade o rosto. As letras gordas anunciam que o novo senhor do CCB deu instruções aos serviços para não aplicarem o Acordo Ortográfico. Que boa notícia. Na mesma página 4, em caixa, ficamos a saber que alguns deputados do PSD, dos quais se destaca Mota Amaral, escreveram uma carta ao ministro Paulo Portas questionando-o se o governo admite suspender de imediato o acordo... Mas o jornal Público (como eu gosto dele...) faz mais, realça em editorial ("Actos corajosos contra o embuste ortográfico") e publica mais um artigo de opinião ("Um acto político de empobrecimento cultural") acerca desta nossa cruzada. Como não tenho dinheiro para assinar a versão digital, a única hipótese para partilhar com o mundo é digitalizar a versão papel (para a qual também já não tenho dinheiro, pois as restrições orçamentais familiares assim o exigem...). Ficam então os recortes possíveis.



02 fevereiro 2012

a ver o mar

Bem longe, onde nos conhecemos e aprendemos tudo ou quase sobre nós, falavas-me do mar com alegria e sempre com saudade. Houve um dia em que vieste ver-me e eu sem te preparar levei-te a ver o mar. Recordo o brilho dos teus olhos ao avistares o imenso oceano. Depois, disseste-me que era aí que gostavas de ficar. Não sei, mas tentei fazer-te a vontade.

01 fevereiro 2012

citação:

(José Pacheco Pereira no seu Abrupto a propósito das manifestações dos indignados)
“A primeira manifestação da chamada "geração à rasca" (a designação de "indignados" era ainda muito minoritária) foi um grande sucesso. Mas é o caso típico de uma manifestação unanimista, que desde a JSD à extrema-direita, de grupos de "artistas" à extrema-esquerda, do PSD ao BE ao PCP, teve todo o mundo e ninguém a apoiar e uma comunicação social activa e ultra-simpática a divulgá-la. Só quem não era patriota é que não saía à rua. Ah! E havia um pequeno pormenor - era contra José Sócrates no clímax da sua impopularidade. Tinha que ser um sucesso e foi, mas gerou a ilusão de que poderia dar origem a um novo tipo de movimentos, o que também entusiasmou muitas redacções sempre prontas a encontrar "novos" movimentos sociais e depreciar os "antigos".”

icónico...

Fernando Assis Pacheco

em dia de folga...

LER para Fevereiro

Ao contrário do que é habitual, dia 1 do mês e já cá está. Número dedicado a Fernando Assis Pacheco.

31 janeiro 2012

da imprensa...


Eu nem aprecio muito o estilo e o ideário deste senhor jurista, mas hoje e aqui esteve particularmente bem.

28 janeiro 2012

bons vizinhos

O Horácio vivia numa moradia nos arredores de uma pequena cidade do interior do país e tinha por vizinho um jovem casal de bancários que habitavam a casa ao lado. Sem grandes entusiasmos ou empatias, os dois casais coabitavam em sã e cordial vizinhança. O Horácio tinha um cão de Gado Transmontano que passava os dias pelas extensas áreas exteriores da casa, numa típica e pachorrenta vida de cão, ladrando apenas quando alguém tocava à campainha ou a quem se aproximava demasiado do seu território. Na casa ao lado vivia também um cão que, apesar de rafeiro, tinha acesso privilegiado a toda a casa, onde aliás passava maior parte do seu tempo. Este rafeiro, apesar do seu aspecto franzino, era temperamental e muito agressivo para com estranhos e, especialmente, para com outros animais. Escusado será dizer que sempre que se via livre, o seu passatempo predilecto era ir provocar o cão da casa ao lado, reclamando sempre o seu imenso território, mas sem nunca ter motivado mais do que alguns rosnares de aviso. O Cão de Gado não reagia nem se importunava com tais provocações. Os seus donos sabiam disso e viviam tranquilos. 
Certo dia, para espanto de Horácio, o seu cão aparece com o outro entre os dentes, sangrado e todo sujo, já morto. Surpreendido com a atitude do seu próprio cão e sem saber como reagir, até porque Horácio sabia perfeitamente a estima que os vizinhos tinham pelo rafeiro, resolve omitir tal acontecimento. Primeiro, decide lavar e tratar das feridas do cão morto. Depois, esperando pelo cair da noite, leva o cão ao colo até ao muro das traseiras que divide as duas propriedades, verifica se ainda há luzes na casa vizinha e atira o cão morto, por cima do muro, para o outro lado e regressa em silêncio para dentro de casa. 
Passados não muitos dias, os dois vizinhos encontram-se à porta de casa e cumprimentam-se. Horácio, receoso que o vizinho o questione acerca do seu cão, tenta esquivar-se, mas o vizinho logo o interpela:
- Sr. Horácio, nem sabe o que me aconteceu... Deve andar por aqui algum espírito mau, alguma bruxa ou mau olhado!
- Aí sim?!.. Não me diga?!... - questiona o Horácio, ensaiando uma expressão de admiração, mas consciente que já não irá escapar e que terá que admitir o sucedido.
- Pois é. Então não é que aqui há dias, o meu cão morreu e eu enterrei-o lá trás no quintal da casa e passados dois dias ele apareceu-me lavado, deitado em cima da relva do quintal. 
- Ah! Que estranho. Isso é muito estranho. - comentou Horácio aliviado e ao mesmo tempo certo da asneira que tinha cometido.

24 janeiro 2012

cinco anos depois...

No dia em que assinalo o quinto ano completo de existência deste meu lugar, para além de registar o facto e manifestar a satisfação e o prazer que tem sido manter o Apurriar, gostaria de reflectir acerca de uma outra dimensão que está inerente à condição de blogger e à condição do próprio acto de escrever. Falo da responsabilidade por tudo aquilo que aqui é escrito e registado e da necessidade de estar permanentemente consciente de que aquilo que é publicado, será lido, interpretado e compreendido heterogeneamente por cada um dos seus leitores. E aquilo que à partida - momento solitário na ideia, egoísta na escolha das palavras e, muitas vezes, misantropo na escrita - é claro e objectivo, transforma-se à chegada - momento de leitura - em objecto extremamente difuso.
Decorre esta reflexão do facto de ter sido, neste último ano e pela primeira vez, confrontado com sentimentos de ofensa e indignação por palavras aqui escritas. De facto, nunca até agora tinha reflectido sobre a ténue fronteira que pode existir entre a opinião e a agressão. De qualquer forma, sei, porque sou o único responsável por tudo o que aqui está depositado, que em nenhum momento escrevi com a consciência e a intenção de ferir, magoar ou ofender quem quer que seja. Se aquilo que afirmo e escrevo agrada ou não, se é recebido por unânime concordância ou não, nunca foi preocupação, pois até gosto de uma boa dose de polémica e de um aceso contraditório, mas ao contrário daquilo que o próprio nome do blogue indica, nunca foi objectivo apurriar alguém. Se o fiz peço desculpa, sabendo sempre que tal, ainda que involuntariamente, poderá voltar a acontecer. Obrigado.

18 janeiro 2012

festa do livro

Pois assim foi a minha primeira passagem pela 4ª festa do livro a decorrer até 29 de Janeiro na Fundação Cupertino de Miranda. Ainda lá regressarei, mas entretanto, trouxe comigo:
- Baudelaire, Charles (2001), Os Paraísos Artificiais, Lisboa, Guimarães Editores;
- Zola, Émile (1998), Acuso..., Lisboa, Guimarães Editores;
- Kafka, Franz (2008), A Metamorfose, Lisboa, Guimarães Editores;
- Lima, Conceição (2010), Manual de teoria da tradução, Lisboa, Edições Colibri;
- Morais, J. A. David de (2010) Religiosidade Popular no Alentejo, Lisboa, Edições Colibri;
- Payne, Stanley G. (2006), A Guerra Civil de Espanha, a União Soviética e o Comunismo, Lisboa, Editora Ulisseia;
- Loureiro, Virgílio e Moreira, Manuel Belo (coord.) (2001), O vinho, a história e a cultura popular - actas de congresso, Lisboa, ADISA;
- Partridge, Christopher (2006), Enciclopédia das Novas Religiões, Lisboa, Editorial Verbo;

17 janeiro 2012

taxi driver...

Há dias assim, em que sinto que nada mais faço do que ser motorista de um táxi.

16 janeiro 2012

intensa cruzada

O fim-de-semana trouxe, pelo menos, mais estes dois contributos...

14 janeiro 2012

espantadas ficam...

Amigas próximas, ao saberem que vivo quase exclusivamente dentro de casa e que sinto muita falta de estar sozinho, perguntam-me se não me chateio ou se o tédio não ganha terreno, ainda por cima vivendo confinado a uma pequena divisão, à qual se instituiu chamar "escritório", é para elas impensável e estupidificante. Pois bem, é sempre com enorme prazer e satisfação que lhes digo, de boca cheia, que às vezes chateia-me ter que me ausentar e sair de casa. Espantados rostos.

bater duas vezes...

"Quando cheguei à Ilha era só Xana
Mas em todas as portas eu fiz Toc Toc
Agora todos sabem quando bate alguém
É a Xana Toc Toc"
(...)
"Quem bateu à porta mais que uma vez
Nem uma nem três"
 (...)
"São duas vezes que toco
Para saberem quem é"

Nos últimos dias, semanas, meses, cá em casa, sempre que é preciso entreter o petiz, pomos a tocar este video da Xana Toc Toc. E não é que o raio do puto fica preso à imagem e não se cansa de ouvir e ver essa música. De tantas vezes a ter ouvido, já sei a letra de cor, mas só muito recentemente - para dizer a verdade, hoje - atentei na letra da mesma. Alguém que para ser identificado bate duas vezes seguidas nas portas. Na realidade isso também acontece e eu até sei de algumas pessoas que quando têm que bater a uma porta o fazem sempre em dose dupla, tal qual um sinal personalizado, na expectativa de esse toque ser reconhecido e associado à sua pessoa. Se resulta ou não, não sei. Mas que é prática recorrente por aí e por aqui, é. E já agora fica o vídeo para se poderem fartar também.

11 janeiro 2012

aulas inéditas...

Na edição deste mês de Janeiro do Le Monde diplomatique – edição portuguesa, II Série, n.º 63, são publicados dois textos de Pierre Bourdieu (1930-2002) correspondentes a duas aulas dadas no Collège de France, em 1990. Apesar da distância temporal ambas as aulas são, sem dúvida e com muita clareza, nossas contemporâneas.
No primeiro texto, intitulado "Como se fabricam os debates públicos", Pierre Bourdieu começa por nos apresentar e fazer uma descrição do Homem Oficial, enquanto ventríloquo que fala em nome do Estado, que adopta uma postura oficial e fala por todos e em lugar de todos, fala como representante do universal. Depois, parte para a noção moderna de opinião pública e levanta a seguinte questão: O que é essa opinião pública? Segundo o autor, é tacitamente a opinião de toda a gente, da maioria ou dos que contam, dos que são dignos de ter uma opinião. As comissões oficiais consistem na criação de grupos constituídos de tal forma que apresentem todos os sinais exteriores, socialmente reconhecidos e reconhecíveis, da capacidade de exprimir a opinião digna de ser expressa, e nas formas conformes. Substituem assim os cidadãos na liberdade e na capacidade democrática de criar e gerir essa opinião pública, ou seja, a comissão constitui uma opinião pública esclarecida que vai instituir a opinião esclarecida como opinião legítima, em nome da opinião pública. Será no processo de construção dessas opiniões públicas que Pierre Bourdieu insere os atributos das sondagens, enquanto instrumentos ao dispor dos "esclarecidos" para imporem suas opiniões junto dos "menos ou não-esclarecidos". Uma das características das sondagens, escreve este autor, consiste em pôr às pessoas problemas que elas não se põem, em insinuar respostas a problemas que não puseram; em impor, por consequência, respostas. Trata-se de facto de se impor a toda a gente questões que a opinião esclarecida se põe e, dessa maneira, de produzir respostas de toda a gente sobre problemas que alguns se põem, e, portanto, em dar respostas esclarecidas, visto estas terem sido produzidas pela pergunta; fez-se assim existir para as pessoas questões que não existiam para elas, quando o que para estas era questionável era a pergunta. Quando se fala de opinião pública, joga-se sempre um jogo duplo entre a definição confessável (a opinião de todos) e a opinião autorizada e eficiente que é obtida como subconjunto da opinião pública democraticamente definida. A verdade dos dominantes torna-se a verdade de toda a gente. Por último neste texto, Bourdieu fala da necessária teatralização da instância oficial para ser oficial: é preciso atribuir a fé na instância oficial, para se ser um verdadeiro oficial. O desinteresse não é uma virtude secundária, é a virtude política de todos os mandatários. As estroinices dos padres ou os escândalos políticos são o desmoronamento da espécie de crença política em que toda a gente está de má fé, sendo a crença uma espécie de má fé colectiva... um jogo em que toda a gente mente a si mesma e mente aos outros sabendo que os outros mentem.
No segundo texto, intitulado "As duas faces do Estado", Pierre Bourdieu começa por escrever que descrever a génese do Estado é descrever a génese de um campo social, de um microcosmo social relativamente autónomo no interior de um mundo social englobante. A génese do Estado é um processo no decurso do qual se opera uma série de concentrações de diversas formas de recursos: de recursos informacionais e de capital linguístico. Este processo de concentração é paralelo a um processo de despossessão: constituir uma cidade como a capital, como lugar onde se concentram todas as formas de capital, é constituir a província como despossessão do capital; constituir a língua legítima é constituir todas as outras línguas como patoás. a cultura legítima é a cultura garantida pelo Estado, garantida por esta instituição que garante os títulos de cultura, que fornece os diplomas que garantem a posse de uma cultura garantida. Os programas escolares são assunto de Estado; mudar um programa é mudar a estrutura de distribuição do capital, é fazer desaparecer certas formas de capital. Esta concentração é ao mesmo tempo uma unificação e uma forma de universalização. Onde havia coisas diversas, dispersas, locais, passa a haver uma coisa única. A partir daqui Bourdieu aborda as distinções entre a dimensão local e a dimensão global ou universal, dando destaque à importância da Escola como potenciadora do valor patrimonial de quem acede aos bancos da escola.

09 janeiro 2012

história da vida de um livro...

Encomendei no passado dia 5 de Janeiro este livro na Amazon.uk e hoje dia 9 de Janeiro já o tenho comigo. Mas aquilo que me surpreendeu, ou melhor, aquilo que me chamou a atenção foi o estado e a aparência do livro que comprei. Para reduzir custos, tal como faço quase sempre, escolhi um exemplar "used" mas com a qualificação de "good", o que normalmente faz com que receba livros ainda por estrear, semi-novos ou com pequenos defeitos. Desta vez, o livro chegou-me às mãos com as marcas dos anteriores proprietários. Neste caso, o selo de catalogação da biblioteca à qual pertencia e também a assinatura de um dono, que tal como eu faço, o rubricou nas primeiras páginas. Fico assim com a informação que este livro pertenceu pelo menos a dois proprietários antes de viajar até Portugal. Mais, o livro está todo sublinhado a amarelo e denota muito manuseamento. O que, num primeiro momento, estranhei, mas depois gostei. Como seria interessante fazer um estudo (só agora pensei nisto e não sei se já algum dia alguém o fez...) sobre o percurso que um livro pode fazer, ou quais as geografias que um livro conhece durante a sua existência. Para tal, poderiam fazer como os biólogos fazem com os animais selvagens, colocando-lhe no dorso um sistema de localização permanente - vulgo GPS.

05 janeiro 2012

do cancioneiro popular...

"o meu nome é só... amar-te,
o meu sobrenome... querer-te,
meu apelido... adorar-te,
minha alcunha... merecer-te."
(in Alexandre de Carvalho Costa, 1982)

03 janeiro 2012

a comprar...

"Quem era Luiz Pacheco, afinal? Um homem que o Portugal de hoje não merece. E, para dizer a verdade, o do tempo dele também não. O homem que diria a esta tenebrosa turba que nos governa e à mancha de mediocridade que a rodeia "Vão para a puta que os pariu!"." (Sérgio Lavos in Arrastão)

02 janeiro 2012

não presentes de natal

Destes dias transmontanos e frios, trouxe mais um conjunto de leituras:
- Policarpo, Lopes (2010), Para uma Sociologia do Catolicismo, Lisboa, Rei dos Livros;
- Levisky, David Léo (2011), Entre elos perdidos, Rio de Janeiro, Imago Editora;
- Covas, António (2007), Ruralidades I - temas e problemas do mundo rural, Faro, Universidade do Algarve;
- Covas, António (2007), Ruralidades II - agricultura multifuncional e desenvolvimento rural, Faro, Universidade do Algarve;
- Covas, António (2008), Ruralidades III - temas e problemas da ruralidade pós-agrícola e pós-convencional, Faro, Universidade do Algarve;
- Covas, António (2009), Ruralidades IV - retratos portugueses de agricultura multifuncional, Faro, Universidade do Algarve;
- Covas, António (2010), Ruralidades V - modernização ecológica, serviços ecossistémicos e riscos globais - a ruralidade do nosso tempo, Faro, Universidade do Algarve;
- Bruck, Gabriele vom e Bodenhorn, Barbara (2009), The Anthropology of names and naming, New York, Cambridge University Press;

LER

Primeira do ano, que saiu ainda no ano anterior, pouco interessante. Foi rapidamente lida. Está.

01 janeiro 2012

abrindo presentes de natal...

2012

Habituemo-nos ao dígito que representa este ano, pois o anterior é já arquivo e rapidamente passará às calendas da história. Agora, 2012. O que esperar? Quais os planos e ambições para este novo ano?
Pois bem, tendo em conta a mentalização colectiva para a austeridade e para o empobrecimento, tendo em conta tudo aquilo que foi profetizado para estes tempos, aquilo que espero e pretendo, para além dos lugares-comuns da saúde e da felicidade, não é muito. Mas isso não significa ter interiorizado esse discurso do medo e do fado nacional que alguns teimam em espalhar por cá. Não, o pouco que espero em relação a este novo ano será mais ou menos idêntico ao que sempre ambicionei para os anos anteriores - trabalho e alguma qualidade de vida. Mesmo assim, para este ano poderei destacar alguns dos projectos que tentarei concretizar:
- Defender uma tese académica;
- Editar os dois trabalhos que estou a realizar;
- Efectivar o projecto televisivo;
- Participar em dois congressos internacionais;

31 dezembro 2011

2011

Agora que nos aproximamos vertiginosamente de um novo ano e sabemos da irreversibilidade do processo, não faltam por aí, manifestações públicas de encerramento ou laudatórias sobre dois mil e onze. Não sou muito dado a balanços ou a previsões depois de o “jogo” ter findado, principalmente quando não entendo que essa reflexão seja consequência ou signifique o fim de um qualquer ciclo ou findar de um qualquer projecto. Aceito que o final de um ano possa ser praticado como um tempo de reflexão e, desconfio, todos ou quase assim procedemos. Mas a verdade é que a nossa experiência ontogénica apenas nos permite viver algumas dezenas de finais de ano e, nada mais experimentamos do que um eterno retorno do calendário anual. De qualquer forma, fazendo esse exercício introspectivo, só poderei dizer que 2011 foi, em termos pessoais, um irrepetível e excelente ano.

30 dezembro 2011

coisas pequeninas...

Como gosto de ocupar o meu tempo a falar com a gente. Não com qualquer gente. Com a gente à qual eu pertenço. Gente que também sou eu. Falar do tempo e da vida, do muito e do pouco que fulano ou sicrano têm, da indigência daquele e da prisão do neto da tia Coisa, da doença do pai deste e da ganza que o outro teima em fumar em público. Coisas, nadas, vidas alheias e esquivas. Adequar a minha atitude à dimensão do quintal local é sempre um desafio ao qual tento dar resposta. Falar com todos daquilo que eles quiserem. Beber aquilo que me é oferecido e pagar quando assim devo. Acompanhar assuntos que jamais dominei ou conheci. Como gosto de estar neste lugar, com esta gente que conheço sempre. Isto num dia em que mais um de nós foi a enterrar. Cada vez serão menos os convivas neste lugar. Mas insistirei, por cá continuarei a vir. Sempre.

29 dezembro 2011

na cabeceira...


Via Carção e a Associação Almocreve, leio os primeiros parágrafos desta ficção brasileira que viaja pelo mundo e pelo Nordeste Transmontano e tem como temática central as questões da identidade.  

28 dezembro 2011

sonho, sonho

«No círculo espiritual, também para mim não há barreiras – e tenho sentido, além do amor e do ódio, outros sentimentos que lhe não posso definir, é claro, porque só eu os vivo, não havendo assim a possibilidade de lhos fazer entender nem por palavras, nem por comparações. Sou o único homem que esses sentimentos emocionam. Logo seria desnecessário ter uma voz que os traduzisse, visto que a ninguém a poderia comunicar. Aliás o mesmo acontece com as horas mais belas que tenho vivido. Só lhe posso dizer as que de longe se assemelham às da vida e que por isso exactamente são as menos admiráveis.»
«Agora passo-lhe a esboçar algumas voluptuosidades novas.
«Um corpo de mulher é sem dúvida uma coisa maravilhosa – a posse de dum corpo esplêndido, todo nu, é um prazer quase extra-humano, quase de sonho. Ah!, o mistério fulvo dos seios esmagados, a escorrer em beijos, e as suas pontas loiras que nos roçam a carne em êxtases de mármore... as pernas nervosas, aceradas – vibrações longínquas de orgia imperial... os lábios que foram esculpidos para ferir de amor... os dentes que rangem e grifam nos espasmos de além... Sim, é belo; tudo isso é muito belo! Mas o lamentável é que poucas formas há de possuir toda essa beleza. Emaranhem-se os corpos contorcidamente, haja beijos de ânsia em toda a carne, o sangue corra até... Por fim sempre os dois sexos se acariciarão, se entrelaçarão, se devorarão – e tudo acabará em um espasmo que há-de ser sempre o mesmo, visto que reside sempre nos mesmos órgãos!...
«Pois bem! Eu tenho possuído mulheres de mil outras maneiras, tenho delirado outros espasmos que residem noutros órgãos.
«Ah!, como é delicioso possuir com a vista ... A nossa carne não toca, nem de leve, a carne da amante nua. Os nossos olhos, só os nossos olhos, é que lhe sugam a boca e lhe trincam os seios... Um rio escaldante se nos precipita pelas veias, os nossos nervos tremem todos como as cordas duma lira, os cabelos sentem, dilatam-se-nos os músculos... e os olhos de longe, vendo, vão exaurindo toda a beleza, até que por fim a vista se nos amplia, o nosso corpo inteiro vê, um estremeção nos sacode e um espasmo ilimitado, um espasmo de sombra, nos divide a carne em ânsia ultrapassada... Atingimos o gozo máximo! Possuímos um corpo de mulher só com a vista. Possuímos fisicamente, mas imaterialmente, como também se pode amar com as almas. Neste caso são mais doces, mais serenos, mas não menos deliciosos, os espasmos que nos abismam.
«Há ainda outra voluptuosidade que, por interessante, lhe desejo esboçar: é a posse total dum corpo de mulher que sabe unicamente a um seio que se esmaga.
«Enfim, meu amigo, compreenda-me: eu sou feliz porque tenho tudo quanto quero e porque nunca esgotarei aquilo que posso querer. Consegui tornar infinito o universo – que todos chamam infinito, mas que é para todos um campo estreito e bem murado.»
(Mário Sá-Carneiro in Homem dos Sonhos)

22 dezembro 2011

entre o verão e o inverno...

Novos registos para o meu acervo que, felizmente, vai crescendo com qualidade, digo eu:
- Catroga, Fernando (2011), Ensaio Repúblicano, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Garoupa, Nuno (2011), O Governo da Justiça, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Fernandes, José Manuel (2011), Liberdade e Informação, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Martins, Bruno (2011), Descobrir o Santuário de Nossa Senhora da Serra (Guia do Visitante), Rebordãos, Confraria Nossa Senhora da Serra;
- Marques, Gentil (1997), Lendas de Portugal (5 volumes), Lisboa, Círculo de Leitores;
- Bourdieu, Pierre (2009), A economia das trocas simbólicas, São Paulo, Perspectiva;

18 dezembro 2011

another stupid idea...

A empresa que produz os anúncios da marca Old Spice deve ser mesmo muito boa naquilo que faz e eu devo ser mesmo um gajo muito estúpido, pois a série de anúncios que promovem essa marca associando-a ao conceito de masculinidade vai-se reinventando através de novos atributos dessa mesma condição masculina. Agora anda pelas rádios um que diz que "homem que é homem não bebe leite, come a vaca". Minha nossa, o que é isto?! Imitando o personagem Diácono de Herman José, eu diria: "Não havia necessidade!.. agora só falta virem dizer que homem que é homem não faz amor, fode."
Enfim.

13 dezembro 2011

documento de uma só cor

Depois de vários meses em que o tema de uma Reforma Administrativa esteve na agenda política e mediática, finalmente ficámos a conhecer o “Documento Verde” que fundamenta e descreve os processos de tal reforma. Numa apreciação global, poderei começar por considerar que as propostas deste “documento de uma só cor” não servem para o país, nem para as suas populações e comunidades e quero, desde já, também, manifestar a minha preocupação perante a possibilidade desta reforma vir a acontecer nos moldes propostos pelo actual governo. Por exemplo, é mentira que as autarquias locais tenham um peso significativo no Orçamento de Estado, pois as 4259 freguesias existentes em Portugal representam apenas 0,13% da despesa do Orçamento de Estado. Mas a minha argumentação não é economicista.
É, agora, mais do que evidente que estamos perante o maior ataque de sempre à democracia local, nascida no 25 de Abril e que os acordos com a troika não passam de pretextos para a aplicação dos velhos projectos do PS e PSD, de alteração das leis eleitorais autárquicas, reforçando o bipartidarismo, a centralização do poder e a limitação drástica da autonomia do poder local, consagrado na Constituição. Tal como alertava quando aqui trouxe este assunto – em 8 de Março de 2001 – “não devemos aceitar que esta vontade de reduzir seja o caminho para um efectivo reforço da centralização do poder em Portugal”. Por outro lado, parece-me também evidente que este projecto de reforma procura manipular os sentimentos da população face à crise: o combate ao despesismo e aos excessos das empresas municipais – e aqui reforço a ideia de que é preciso, pura e simplesmente, extinguir a sua grande maioria; a ideia, mil e uma vezes repetida, de que há políticos e órgãos a mais, usada para restringir o pluralismo e diminuir o controlo democrático dos cidadãos e das oposições, facilitando a corrupção e os clientelismos. Neste contexto, importa ainda referir a estratégica extinção da IGAL, de forma quase silenciosa, ainda antes do conhecimento público deste “Documento de uma só cor”.
Não havendo qualquer dúvida quanto à necessidade de se proceder a uma reforma administrativa, volto a insistir na ideia de um modelo administrativo bem reflectido e bem estruturado e na ideia de uma reorganização do mapa territorial coerente, que respeitem os princípios democráticos, tais como: a) os critérios demográficos e de área geográfica mínima para a existência de freguesias deverão considerar variáveis como a orografia, a rede de transportes públicos e a concentração ou dispersão do povoamento; e b) a extinção, fusão ou agregação voluntária de freguesias/municípios deverá exigir parecer positivo do respectivo órgão deliberativo – Assembleia de Freguesia ou Municipal, confirmado se necessário por referendo local. Para esta possibilidade ser viável, deverão ser regulamentadas as convocações de referendos locais por iniciativa de cidadãos.
Ainda durante o mês de Novembro a Assembleia Municipal de Bragança promoveu uma sessão de discussão pública acerca deste documento, onde foram conferencistas os deputados da Assembleia da República, eleitos pela região. Para além de outras considerações que me abstenho de aqui fazer, foi notória a dificuldade em fazerem a apologia desta reforma e, para além do mais, foi perceptível o desconforto, a insegurança e a desconfiança em relação à sua aplicabilidade no território nacional. Do ponto de vista da audiência, pareceu-me que os autarcas locais, aqueles que seriam os mais interessados em ouvir e perceber, saíram de lá sem saberem mais do que aquilo que já sabiam…
A oposição e a contestação ao “Documento de uma só cor” e à reforma da administração local, bem expressa no último congresso da ANAFRE, realizado em Portimão, não deverá ficar pela oposição aos critérios para a extinção/fusão das freguesias. Não deveremos esquecer que os ataques que este governo prepara contra a regionalização, a lei das finanças locais, a lei eleitoral autárquica, composição dos executivos municipais, etc., constituem um pacote que configura o maior ataque de sempre à democracia local. A desvalorização que o PSD/CDS estão a fazer em relação às freguesias é apenas uma das peças da desvalorização da democracia autárquica e local em geral, que o governo protagoniza e quer impor.
(enviado para o Jornal Nordeste, publicável dia 13 de Dezembro de 2011)

07 dezembro 2011

bordalo dias, o senhor lusofonia


Mal ainda me chegou às mãos, emprestado pelo mano mais novo, e já estou maravilhado com esta obra de arte e com a qualidade das sonoridades deste grande trovador do mundo lusófono. Fausto é, indiscutivelmente, o grande embaixador cultural da lusofonia. Para ouvir longa e repetidamente. Entretanto, fica aqui um pequeno video de um momento de pré-produção deste mesmo trabalho.

02 dezembro 2011

dezembro tresmalhado

É mais do que revisitado na escrita literária e na não-literária o factor tempo: As horas, os dias, os meses e os anos que passam são permanentemente registados, adjectivados e valorizados. Também aqui, eis-nos chegados à última parcela mensal de 2011. Num início de mês de Dezembro, sempre mais curto em dias úteis e sempre mais esbanjador em euros, tento convencer-me de que vai ser este o ano em que conseguirei alterar definitivamente a minha atitude face ao "facto social total" que é o Natal. Muito provavelmente estarei, uma vez mais, a enganar-me apenas a mim próprio, mas sei que todos os anos tenho tido vontade de abandonar os comportamentos consumistas que adicionam, por esta altura, grande parte dos indivíduos. Tenho-me lembrado do elemento "crise" como potencial álibi para, enfim, me livrar, mas nem assim... Invejo aqueles(as) que não fazem parte deste grande rebanho. Ambiciono o dia em que conseguirei ser também uma ovelha tresmalhada.

por estes dias...

...frios e em que o agregado familiar anda eivado, aproveitemos para LER.

27 novembro 2011

instante urbano xviii

O ritmo lento do comboio que me traz de regresso ao Porto e me fará chegar tarde a casa, acaba de parar na cidade de Coimbra, onde saem e entram alguns passageiros. Para perto do lugar que ocupo veio um jovem casal, bem-disposto e carregando cada um sua garrafa de vinho aberta. Ela traz uma garrafa de maduro branco e ele de maduro tinto. De imediato me vem à mente a imagem da imortal dupla de comediantes que, algures na década de oitenta, parodiavam com a situação do país através de dois personagens andrajosos e indigentes bêbados - o Agostinho (Camilo de Oliveira) e a Agostinha (Ivone Silva). Mal se sentam estendem logo à sua frente um farnel que de imediato javardamente devoram. Porque trago distinta música nos ouvidos, nem sequer me vou dar ao trabalho de tentar ouvir o que falam e tanto os faz rir; ou será o vinho que já os anima?!... Prefiro imaginar e ou muito me engano ou não vai sobrar gota naquelas garrafas e não vão sequer oferecer uma pinguinha. Acabaram com um brinde de... garrafas. Bonito.

26 novembro 2011

hoje, durante todo o dia...


Intervenção:

Na qualidade de membro eleito na Assembleia Municipal de Bragança gostaria de começar a minha intervenção por partilhar convosco a percepção recente de uma mudança comportamental dos partidos, principalmente do PSD. Fui eleito pela primeira vez em 2005 e desde então sempre tive o meu espaço e tempo de intervenção e nunca fui impedido de exercer o meu mandato. Não sei se coincidências, mas desde que ganharam as eleições e formaram governo radicalizaram a sua postura. Dou-vos dois exemplos dessa percepção:
a) Pela primeira vez desde 2005 fui impedido de intervir na A.M. de Bragança;
b) Vinte e tal estruturas de Moopy's do BE desapareceram nos distritos de Bragança;
Relativamente ao ponto em agenda, gostaria de começar por dizer que subscrevo na íntegra o documento que a Comissão Nacional Autárquica - comissão que integro - produziu e serve de ponto de partida para o debate político que o BE fará a propósito da reforma administrativa que o Governo pretende impor ao país.
Não estando de acordo com o "Documento Verde" por considerar que na sua generalidade não serve os interesses das populações, quero manifestar o meu sentimento de preocupação perante a possibilidade de esta reforma vir a acontecer nos moldes propostos por este documento. Por outro lado, considero que uma reforma administrativa é mais do que necessária e urge realizá-la.
Mas quero centrar a minha participação no Eixo 2 do nosso Memorando que diz respeito à organização do território. Tenho para mim que grande parte dos autarcas locais (presidentes de Junta de Freguesia e elencos das Assembleias de Freguesia) não está consciente dos reais propósitos desta iniciativa governativa... Ainda na semana passada a Assembleia Municipal de Bragança promoveu uma sessão pública de esclarecimento acerca deste "documento verde" e dessa sessão retirei três ilações:
1 - O verbo mais utilizado pela representante do PSD foi o "juntar", como se a solução para a reforma administrativa proposta dependesse da iniciativa de voluntariado dos autarcas locais para agregar localidades e/ou freguesias;
2 - Os oradores convidados não se sentem confortáveis com a proposta, nem seguros, nem confiantes em relação à sua aplicabilidade;
3 - Os autarcas locais presentes saíram desta sessão sem saberem mais do que aquilo que já sabiam, ou seja, nada;
Considero que tendo em conta as dinâmicas locais, intra e inter comunidades, será sempre complicado impor um qualquer modelo. Aceito que será preciso estabelecer critérios para rever o mapa administrativo, mas parece-me imensamente redutor cingir esses critérios à demografia e às distâncias relativas às sedes de municípios.
Será preciso conhecer as realidades sociais de cada freguesia e de cada localidade. É que em muitos casos, a proximidade geográfica entre localidades e freguesias não significa, obrigatoriamente, que exista uma relação de boa vizinhança e, em alguns destes casos, há processos históricos resultantes de factos ou episódios já muito antigos e que perduraram pelo tempo e na memória colectiva das comunidades. Por exemplo, tal como se diz que de Espanha não vem bom vento nem bom casamento, também poderemos aplicar o mesmo dito em relação às dinâmicas e aos processos de estigmatização entre tantas e mais comunidades, aldeias e freguesias. Em Trás-os-Montes há locais onde ainda hoje é possível encontrar reminiscências de sentimentos contraditórios e difusos relativos à reforma realizada na década de trinta do século XIX. Estamos portanto perante vivências quotidianas herdadas carregadas de simbologias latentes e que contribuem fortemente para as construções locais de identidade.
Uma outra ideia que importa salientar é que já há autarcas por esse país fora que não podendo, por limite de mandatos, recandidatar-se em 2013, percebem nesta reforma a oportunidade para se perpetuarem nos lugares que ainda ocupam; e não se coíbem de o dizer e assumir publicamente.
Tal como já disse, concordo e subscrevo o Memorando produzido em sede de Comissão Nacional Autárquica, e mais subscrevo e enfatizo a sua proposta de consulta popular referendária, no sentido de envolver e partilhar com os cidadãos a responsabilidade pelas opções de futuro. Contudo, esse ideal de democracia participativa que eu também protagonizo, receio e desconfio, só servirá para confundir e baralhar ainda mais todo o processo e dificultará exponencialmente toda e qualquer iniciativa voluntária de fusão ou agregação de freguesias.
A pressão e o ritmo impostos para avançar e terminar esta reforma são contraproducentes em relação ao tempo e aos interesses democráticos. Receio que, no final, esta reforma venha a ser imposta por Lisboa, imputando as responsabilidades políticas aos senhores da troika e dada como adquirida por grande parte dos portugueses, anestesiados que andam com o "medo" a tudo... Para finalizar, gostava de vos alertar para o facto de termos como próximo confronto eleitoral, tal como referiu o camarada Alberto Matos, a eleição autárquica em 2013. Penso que se impõe ao BE uma reflexão preparatória para esse desafio e, provavelmente, não será cedo para tal. Penso que teria sido importante incluir no programa deste encontro um ponto sobre aquilo que poderá ser a estratégia do BE para esse processo eleitoral.
(Almada, 26 de Novembro de 2011)

25 novembro 2011

uma carta para ti

Várias vezes te foste queixando do facto de eu não partilhar contigo aquilo que sonho. Pois muito bem, aqui vai algo que sonhei numa destas noites em que dormi sozinho. Viajávamos os dois num pequeno carro branco, se não estou em erro, num Renault Clio branco que alugara uns dias antes apenas para poder ir ter contigo. Viajávamos sem pressa e quase sem destino. Apenas tu e eu. Visitámos aldeias, vilas e cidades, encontrámos velhos amigos e caros familiares, parámos aqui para beber de um cano de água e ali para um beijo. Num ápice chegámos a um cimo de monte, sobranceiro e minhoto, lugar turístico e de enorme romaria. Para além do calor que sentimos e do gelado que comemos, do alto de uma penha, com deleite, apreciámos a paisagem para poente, para onde se podia sentir o pulsar da grande cidade que foi berço da nacionalidade e para onde o sol teimava em pousar. Os dois sozinhos. Já com o cair da noite viajámos para a Invicta e para aquilo que, então, era a tua e a minha casa. Tivera sido um dia bonito, um dia que jamais irei esquecer e que, amiúde, regressa em modo de sonho.
(Valadares, 1 de Novembro de 2011)

23 novembro 2011

a very old and poor idea

Anda a passar nas rádios portuguesas um anúncio publicitário à marca Old Spice que me irrita a amígdala. Pelos vistos é um anúncio viral e fará parte da estratégia da empresa que comercializa esta marca. Quem terá sido a mente brilhante que se lembrou de afirmar: "Homem que é homem não tem frio, arrefece um pouco..." que frase estúpida! Então quer dizer que para usar esse líquido com cheiro é requisito não ter, nunca, frio; ou então, se tivermos frio não comprar, nunca, esse patchouli. Desconfio que as vendas, depois deste anúncio, irão quebrar. Assim como assim, com ou sem frio, eu opto por não o comprar, nunca.

Power Balance

Foi hoje notícia por todo o mundo a condenação da empresa que comercializa a pulseira Power Balance por publicidade enganosa. Facto que só estranho por tardio, pois jamais acreditei nas maravilhas da banha da cobra, principalmente quando ela é vendida por fulanos, armados em pintaloras e com discursos manhosos. Mas a verdade é que, talvez há dois ou três anos, não havia quem não as passeasse nos pulsos, garantindo que por isso até conseguiam caminhar, correr, descer e subir escadas, andar a cavalo, nadar, dormir e acordar, ressonar e copular com maior equilibrio (?!)... Claro é que foram os azeiteiros da bola e das artes em geral, os primeiros a fazerem-se fotografar com as ditas nos pulsos... Rica publicidade, dirão alguns. Desconfio que hoje, ao saberem da admissão da falta de credibilidade científica que sustente tanto equilíbrio, todos aqueles que ainda as trazem, sentiram-se logo desequilibrados e sem força, concerteza, em várias partes do seu organismo. Coitados. Tudo isto só vem comprovar que a tentação para a vigarice e para o logro é contemporânea e também sabe servir-se dos discursos actuais da globalidade e das novas tecnologias.

"Por 38 euros, melhore o seu equilíbrio com a pulseira de silicone Power Balance. Desenvolvida por um cientista da NASA, possui dois hologramas que entram em contacto com o campo energético do corpo, aumentando a sua eficácia." ...dizia a publicidade.

(Albano Jerónimo, o actor)

 (Cristiano Ronaldo, o jogador)

"na casa de..."

Bonita exposição de fotografias da autoria de Paulo Pimenta, que nos convida a visitar uma realidade constituída por objetos particularmente desadequados, rostos que não têm lugar em anúncios publicitários e corpos que não queremos nem desejamos ver. Uma jornada que dá a conhecer uma sociedade minoritária (ou não) e que a devolve ao centro da humanidade. No Fórum da Fnac do Gaiashopping até 19 de Feveiro de 2012.

16 novembro 2011

instante urbano xvii

Por razões que não importa aqui referir, tenho frequentado o Fórum da Fnac. Numa dessas vezes, estava eu entretido a fazer fichas de leitura quando me apercebo que alguém se aproxima demasiado da minha mesa. Levantei o olhar e dei com os olhos de uma linda jovem que me sorriu, disse "bom dia" e sentou-se na minha mesa. Aquilo que se seguiu foi mais ou menos isto:
- Olá, és o Luís?
- Sim, sou (?!?!)
- Eu sou a Renata.
(silêncio e troca de olhares)
- Não te importas que eu tome um café rápido?...
(sem esperar pela minha resposta, levantou-se e foi buscar um café ao balcão. Eu, num esforço maior do que o meu cérebro àquela hora da manhã conseguia processar, tentei reconhecer de algum lado aquele rosto, aquele nome, aquela voz... Enfim, um esforço inglório)
(regressou à mesa, a sorrir e a olhar para mim)
- Vais-me desculpar, mas eu não te conheço...
- Pois, nem eu a ti, mas também não é preciso.
- Não é preciso?!...
- Não. Vamos onde quiseres, fazemos o que quiseres e cada um vai à sua vida.
- Desculpa, mas não estou a perceber!
- Não estás a perceber o quê? Vamos lá, pois já estás a pagar...
(eu olho em redor e ela abre a bolsa e saca um creme que passa nas mãos)
(ela é nova, muito nova e com muito bom aspecto, sem grande aparato mas bem vestida)
(eu ainda atordoado pela abordagem dela, percebi então o que estava a acontecer e tentei esclarecer a situação)
- Pois, mas deve haver aqui alguma confusão. Deves ter-te enganado, pois eu não estava à tua espera...
- O quê?.. Então, estás a gozar comigo?.. Ao telefone disseste que te chamas Luís, que usas óculos e tens barba e que estarias aqui com um portátil aberto a trabalhar e agora dizes que não és tu!
(enquanto fala vai olhando à volta procurando alguém que também obedeça a essa descrição, mas de facto não há mais ninguém...)
- Pois, não sei o que te diga, mas eu, de facto, sou Luís, mas não te telefonei...
- Olha, podes até não querer ir comigo, mas agora vais ter que me pagar a deslocação...
- desculpa?!...
- Sim, sim. Paguei um táxi de Matosinhos para aqui e vou ter que regressar, portanto tens que me dar 60 euros.
(quando ouvi isto, não consegui evitar um sorriso, pensando que ela e mais alguém estariam a gozar comigo)
(ela quando viu a minha expressão facial, alterou radicalmente o seu semblante e ficou tensa)
- Bem, não estou para aturar merdas destas. Dá-me o dinheiro que eu quero ir embora...
- Podes ir embora, pois eu não te vou dar dinheiro nenhum.
 (ao ouvir isto, procura o telemóvel na bolsa, levanta-se e sai para o parque de estacionamento)
(eu ainda não queria acreditar no que me tinha acontecido, quando vejo-a a reentrar e, com má cara, a dirigir-se a mim)
- Luís, queira desculpar este mal entendido. Bom dia.
- Bom dia.
(...e foi-se embora sem dizer mais nada)
(eu, muito incomodado, também arrumei as minhas coisas e fui embora...)

para reflexão...


(com rabiscos meus e redacção minha das linhas não fotocopiadas - Jornal Le Monde Diplomatique, edição Portuguesa, Novembro 2011)

15 novembro 2011

feriados

A divulgação dos feriados nacionais que serão castrados ao calendário anual deve estar eminente. Partindo do princípio que considero esses dias de descanso, independentemente das suas origens e razões, um direito inalienável de todos os portugueses, ponderei acerca da pertinência da manutenção ou não de cada um desses feriados. Essa reflexão, obriga-me, desde logo, a declarar o meu respeito pelos portugueses e portuguesas que em cada uma destas datas vivênciam, experimentam e partilham as suas simbologias. Depois, obriga-me a afirmar que sejam eles de cariz religioso ou de cariz civil, todos eles representam muito, espacial e temporalmente, da nossa condição - do nosso ethos - enquanto país e seus nacionais. Por outro lado, importa reflectir sobre a verdadeira dimensão social desses dias na actualidade do nosso país.
O calendário anual tem treze dias (excluindo o Carnaval) considerados, desde há muitos anos, feriados nacionais, dos quais seis são de raiz civil e sete com motivações religiosas. 
Os feriados civis:
1 de Janeiro - primeiro dia do ano, normalmente de ressaca nacional e, por isso, para o bem da salubridade e saúde públicas, intocável; 
25 de Abril - último grande momento de refundação nacional e, por isso, ainda intocável; 
1 de Maio - conquista civilizacional do povo que trabalha em todo o mundo e por isso, espera-se intocável;
10 de Junho - dia das comunidades da diáspora e da portugalidade globalizada e, por isso, simbolicamente intocável;
5 de Outubro - dia da nossa República que atingiu uma idade que já nenhuma memória alcança e, por isso, descartável;
1 de Dezembro - praticamente com a idade do mito sebastiânico, já ninguém consegue alcançar a importância da restauração da independência nacional e poucos saberão a razão da dedicação deste dia e, por isso, dispensável;
Os feriados religiosos:
6ª Feira Santa (Março ou Abril) - encostado a um fim-de-semana de referência para o universo cristão e não só, que assinala a crucificação de Jesus e por isso, jamais a Igreja e os cristãos aceitarão o seu desaparecimento;
Corpo de Deus (Maio ou Junho) - dia de exultação popular à Eucaristia, celebra-se no 60º dia após a Páscoa. Na actualidade sem grande expressão litúrgica, é sempre uma das pontes de eleição para rumar às praias do Sul do país e, por isso, dispensável;
15 de Agosto - dia em que a igreja católica celebra ou assinala a elevação de Maria em corpo e alma ao céu, mas aquilo que se percebe por todos o país é um dia de grandes festividades e arraiais populares, aproveitando o facto de ser o mês de retorno dos emigrantes e, por isso, já sendo tempo, maioritariamente, de férias seria facilmente descartável do calendário;
1 de Novembro - dia de todos os santos e defuntos fiéis. Provavelmente, o dia com maior adesão da população crente e não-crente e que motiva as maiores deslocações a nível nacional e, por isso, dificilmente se conseguiria acabar com ele;
8 de Dezembro - dia que a igreja católica dedica à Imaculada Conceição que é também a padroeira de Portugal. Em teoria seria um feriado directamente ligado ao ethos nacional, mas não me parece que já assim seja e, por isso, perfeitamente dispensável;
25 de Dezembro - Natal e, por isso, nada a dizer;
Portanto, já que é para mexer e é, vamos lá propor acabar com os feriados dos dias: Corpo de Deus, 15 de Agosto, 5 de Outubro, 1 de Dezembro e 8 de Dezembro. Eliminaríamos assim e com alguma razoabilidade cinco feriados ao calendário anual. 

14 novembro 2011

muito interessante

(Le Monde diplomatique, edição portuguesa, Novembro 2011)

momento singular

Era com grande expectativa que aguardava a Revista LER deste mês de Novembro, pois tinha sido tornado público antecipadamente o encontro entre António Lobo Antunes (A.L.A.) e George Steiner (G.S.), na casa deste último em Cambridge e a publicação das conversas entre ambos nessa manhã de Outubro. O resultado do encontro destes dois génios é interessante. Sem ser magnífico, podemos verificar a magnanimidade intelectual de um e de outro, que apesar de estilos e artes distintas conseguem convergir naquilo que consideram interessante e importante. Dessa longa conversa, colijo alguns momentos:
A.L.A. - há uma coisa em que me detenho a pensar muitas vezes: que será dos meus livros quando eu já não andar por cá?
G.S. - Acabam de colocar um retrato meu na Universidade de Londres, um retrato que, a meu pedido, ficou com o nome de «il Postino» (o carteiro). Define-me em absoluto. Eu sou o postino. (...) É maravilhoso poder levar cartas! Não fui banqueiro, não vendi casacos de peles; de todos os desastres possíveis, fui postino. É isto ser professor. O bom professor abre livros aos outros, abre momentos aos outros.
G.S. - Bem, deixe-me que lhe agradeça de todo o coração.
A.L.A. - Eu é que agradeço, isto foi muito, muito emocionante para mim. As pessoas já não fazem isto.
G.S. - Agora, faço questão, nós temos vinho para servir. Bebe um copo de vinho?
A.L.A. - Só um pouco.
G.S. - Tinto ou branco?
A.L.A. - Branco. 
(George Steiner e António Lobo Antunes. Fotografia retirada da Revista Ler, nº 107, de Novembro de 2011)

09 novembro 2011

instante urbano xvi

Numa sala de espera da pediatria de um hospital privado da cidade do Porto, enquanto aguardava que a minha criança fosse consultada, pude observar a brincadeira dos petizes e confirmar que não há pais que resistam ao ajuntamento de mais do que uma criança. A sala ampla, estava bem ocupada com os pais sentados nas cadeiras encostadas às paredes. No centro da sala, desocupado, uma máquina colocada no tecto, projectava imagens no chão, permitindo às crianças interagir, pintando desenhos, chutando uma bola, vendo uns peixinhos a nadar, entre outras brincadeiras virtuais. Impressionante, pois nesse mesmo espaço estavam disponíveis duas mesas com actividades de desenho e pintura e quase nenhum miúdo se interessou por elas. Como facilmente perceberão, a concentração da canalha, com idades compreendidas entre 1 e 2 anos, era em cima das tais projecções. A determinada altura, uma miúda diz:
- Papá, olha a água.
- Sim filha, é uma piscina. Nada nessa piscina...
A miúda não se fez esquisita e de imediato se atirou para "dentro da água" da piscina, dizendo alto e em bom som que estava a nadar na piscina. Outros miúdos ao ouvirem isso, logo a imitaram nos gestos, transformando o espaço desta piscina virtual exíguo para tantos nadadores. Alguns, por pressão demográfica, nadavam mesmo fora da projecção, mas não importava, pois a água estava boa e quentinha, apesar de um se queixar do frio... Um outro, provavelmente mais viajado, afirmava e repetia com convicção:
- Este rio é muito giro...
Assim vai o mundo encantado da criançada. Bom ou mau, melhor ou pior do que outros, não sei. É o deles.

protocolos

"Se perguntássemos a um bom número de escritores de hoje (mas este importante inquérito nunca se tentou fazer) iríamos perceber sem dúvida que eles não podem começar a escrever sem um certo conjunto de hábitos e de instrumentos: a predilecção de certos horários, de alguns lugares, o gosto pelos materiais de papelaria, tudo isso desenvolvido, por vezes, até à obsessão, comporta um conjunto inextricável de motivações: medo da página em branco, temor da esterilidade possível (atrasada por intermináveis protocolos preparatórios), sacralização da escrita como verdade (ou como divindade prestigiosa), fascínio do prazer que é atribuído ao exercício manual do grafismo." (Roland Barthes, 2009:95)

04 novembro 2011

R.I.P.

Apesar do fim espectável ao longo dos últimos dias, é sempre com tristeza que se sabe da partida de alguém que, com a sua presença, marcou o nosso, ou parte do nosso percurso de vida. Hoje foi o dia em que mais um velho e muito querido amigo partiu de vez. O Tio Evangelista - assim o tratava mesmo sabendo que nunca fora meu tio... - sem ser meu avô, sempre se comportou como tal e, para mim, era, e é, aquilo que de mais parecido se pode ser no desempenho de tal papel. Neste momento reflexivo, proporcionado pelo conhecimento da nossa "morte" inevitável, o que torna o tempo finito para nós, percebemos como só dispomos de uma certa quantidade de tempo para as nossas realizações pessoais. Essa consciência afecta sempre a nossa atitude perante esse projecto que é a vida.
As recordações deste amigo remontam à infância e a grande parte da juventude, tempo durante o qual convivi de bem perto com ele. Do seu convívio recordo a forma como adivinhava as horas do dia e o tempo que faria nos dias seguintes; vantagem premonitória para um bom lavrador. Terá sido o maior e, provavelmente, melhor lavrador que conheci. Foi um escravo do trabalho, incansável de dia e de noite com os cuidados com os animais e as fazendas. Era também muito afável e de sorriso fácil. Gostava de crianças e sabia brincar com elas. No final de um vida, longa vida de 93 anos, completados no mês de Setembro, tenho para mim que o Evangelista dos Santos teve uma vida boa, pois apesar das suas humildes origens, fez-se homem pelo trabalho na lavoura e na emigração, construiu uma casa e uma família com considerável descendência. Em sua casa, que muito frequentei e vivi, nunca faltou comida. Talvez por trauma de juventude - "o tempo da fome e da miséria já lá vai...", dizia - gostava de ver sempre a mesa farta e com muito açúcar... aliás, os mais próximos bem diziam que ele não punha açúcar nos alimentos ou bebidas, ele fazia o inverso, acrescentava qualquer coisa ao açúcar para dar algum sabor. Dizia-nos que o doce nunca era demais.
Foi já depois de ter ultrapassado largamente as oito décadas de vida, que o Tio Evangelista se deixou vencer pelo peso dos anos e foi largando progressivamente as lides da lavoura até que, nos últimos anos, se reduziu às pequenas coisas da casa. É pois com carinho e amizade que me irei despedir dele.


Fotografias - O Tio Evangelista a trabalhar, sempre a fazer alguma coisa... (fotografias da exposição "Lugares e Olhares")

Livros & Leitores nº 107

Para um bom fim-de-semana...

02 novembro 2011

mas quem lhe disse a ele?!...

"...o nortenho frequenta a taberna para beber; o alentejano, para conviver. O nortenho bebe, o mais das vezes, sozinho; o alentejano bebe praticamente sempre com os amigos. O nortenho sai da taberna aos baldões e acabrunhado; o alentejano sai firme e vivificado de espírito. Em suma: o frequentador de tabernas do Norte é mais dado à carraspana; o alentejano, ao convívio e à participação nos cantes dolentes da sua planície..." (J. A. David de Morais, 2006:206)

Pergunto eu, enquanto nortenho: o que merecia um gajo que assim escreve e assim cristaliza a "realidade"?!...

01 novembro 2011

assim é a democracia


Bastou George Papandreou, o Primeiro Ministro grego (ao centro na fotografia), dizer que pretende referendar e devolver aos gregos a decisão de aceitar ou não um novo pacote de medidas de austeridade para poderem aceder a novas ajudas comunitárias e o mundo, pelo menos o ocidental e em particular o europeu, entrou numa espiral de pânico. O cariz e fundamento ideológico anti-democrático dos líderes europeus finalmente foi descoberto e admitido pelo receio de dar aos cidadãos europeus o poder de decidir o futuro. Assim se percebe de que "massa" é feita e que propósitos almeja esta gente que conduz os destinos da UE e da Zona Euro. Muito bem feito na Grécia. Assim sim. É a democracia a funcionar, é a liberdade de poder escolher um futuro, o seu futuro. Pena que tenha sido tão tarde, mas ainda bem que aconteceu. Está a acontecer.