De novo ao encontro do "Leão" Tolstoi e de uma sua novela de cariz popular, que retrata o ambiente quotidiano dos indivíduos e comunidades russas em pleno século XIX. Somos levados pela impressionante e expressiva escrita a conhecer as aventuras e desventuras do pobre Polikuchka. Não conhecia este conto de Tolstoi e fui encontrá-lo numa velha (1972) edição de bolso das Edições Europa-América, em casa do meu pai.
---------"Viajar, ou mesmo viver, sem tirar notas é uma irresponsabilidade..." Franz Kafka (1911)--------- Ouvir, ler e escrever. Falar, contar e descrever. O prazer de viver. Assim partilho minha visão do mundo. [blogue escrito, propositadamente, sem abrigo e contra, declaradamente, o novo Acordo Ortográfico]
10 maio 2012
novo sítio...
A partir de hoje também estarei disponível para ser "visitado" e "conhecido" em www.valedovale.net O atalho para este sítio estará sempre disponível nos "atalhos partilhados" e no "meu perfil". Visitem-me e, já agora, conheçam meu ego-centrismo... O aspecto da coisa é este:
02 maio 2012
França e o resto dos dias desta europa...
Confesso que em condições normais, e ao longo de toda a minha vida, pouco ou nada liguei às eleições em França: a quem eram os candidatos, a quem ganhava, a quem perdia e a quais eram as consequências dessas vitórias e dessas derrotas. Contudo, a conjuntura mundial e, principalmente europeia, obriga-me a uma maior atenção e preocupação com aquilo que se passa nos quintais dos vizinhos, pois tenho bem a consciência de que nada adianta o meu quintal estar florido ou viçoso e os demais secos, pois mais tarde ou mais cedo, o destino do meu será idêntico aos demais. Portanto, acompanhei, ou pelo menos, monitorizei este acto eleitoral. À partido nenhum destes dois finalistas seria o meu candidato favorito, mas numa circunstância de 2ª volta, não hesito em afirmar o meu desejo que seja o candidato socialista, o candidato de uma pretensa esquerda a ganhar e a ser eleito para presidente da republica francesa. E isto por uma razão muito simples e fácil de aqui apresentar. É que, mesmo não sendo francês e não tendo voto na matéria, enquanto cidadão desta Europa não gostei de ver, ouvir e perceber, ao longo destes últimos tempos, a atitude completamente subserviente e submissa do presidente Sarkosi em relação ao poder da economia alemã e ao domínio da sua chanceler. Por outro lado, também não acredito verdadeiramente que caso Hollande vença consiga uma alteração significativa de paradigma. Contudo, decisiva é a percepção de que se Sarkosi vencer tudo continuará na mesma, senão pior, enquanto que a vitória de Hollande poderá ser a esperança, ainda que ínfima, de uma qualquer alteração de políticas e de paradigma não só em França, como para todo o espaço euro e toda a Europa. Por isto, simplesmente, o meu apoio tende para o candidato que agora se apresenta como "de esquerda".
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coisas simples...
Ele: O que vamos comer ao jantar?
Ela: Estava a pensar fazer grão-de-bico com atum e ovo cozido. Porquê?
Ele: Por nada. Ok, muito bem. E não é preciso ir comprar nada?
Ela: Não. Temos o grão e temos o bico...
Ele: Ah, então está bem...
Ela: Estava a pensar fazer grão-de-bico com atum e ovo cozido. Porquê?
Ele: Por nada. Ok, muito bem. E não é preciso ir comprar nada?
Ela: Não. Temos o grão e temos o bico...
Ele: Ah, então está bem...
01 maio 2012
degradação social e, sobretudo, humana...
O conhecimento e as imagens que nos chegaram da cadeia de lojas do Pingo Doce, um pouco por todo o país, é algo que nos deverá merecer a maior das reflexões. Não sei quais serão as consequências, mas confesso que jamais imaginei ser possível, assistir em Portugal a uma luta física por um produto à venda num supermercado. Para além da tristeza, fiquei alarmado pelas manifestações dos instintos mais básicos do ser humano e pelos significados de tais comportamentos. Do ponto de vista subjectivo, eu posso compreender a necessidade de cada uma daquelas pessoas, pois é algo substantivo, na conjuntura actual, para muitas famílias poder levar o dobro dos víveres por um mesmo preço. Mas todos nós teremos que reflectir acerca de tudo aquilo que está subjacente a esta corrida louca às prateleiras de supermercados.
Por outro lado, a responsabilização das instituições e nesse aspecto, a estratégia do Pingo Doce é de todo irresponsável, pois para além das consequências no próprio mercado e da própria (i)legalidade da iniciativa, introduziu um factor de provocação sociológica, na medida em que a escolha do dia 1 de Maio, feriado internacional e dia do Trabalhador, não foi inocente. Com uma campanha tão agressiva, esta marca conseguiu provar que a generalidade dos indivíduos, económica e socialmente fragilizados, troca facilmente a sua cidadania pela condição de consumidor. Pouco dignificante para a cidadania, para a democracia e para a própria civilização. Sinal dos tempos degradados que vivemos e experimentaremos...
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28 abril 2012
24 abril 2012
Miguel Portas R I P
Fui surpreendido ao final da tarde com a triste notícia da morte do Miguel Portas. Não que não soubesse da sua doença, do seu estado debilitado e da gravidade da doença, mas não tinha conhecimento ou notícias desta última recaída. Conheci o Miguel algures em 2005, numa conversa "Um café com Miguel Portas", promovida pelo BE Bragança, no café Pátio. Foi uma noite prolongada, de conversa e debate, onde o Miguel com a sua educação e cordialidade foi respondendo às perguntas e provocações lançadas por todos quantos quiseram participar. Apesar de não haver uma relação de grande proximidade, nos vários e diferentes momentos em que nos encontrámos - encontros temáticos, Mesas Nacionais ou Convenções - tinha sempre uma palavra simpática e de incentivo para a "luta" difícil no interior do país. Daquilo que pude testemunhar, o Miguel foi, de facto e apesar da sua simplicidade, um dirigente e um activista político de grande competência, firme nas suas convicções e, acima de tudo, capaz de ouvir e de dialogar com todos os outros. A última vez que falei com ele foi na Mesa Nacional de 4 de Fevereiro e estava aparentemente bem. Foi um honra e uma sorte conhecer o Miguel e aprender com o Miguel. Até sempre.
20 abril 2012
estado de negação, arrogância intelectual e pretensiosismo provinciano
Foi notícia no dia de ontem, aqui, que a "Europa está a criar um movimento alternativo ao pensamento que levou à crise actual". Muito bem, pensei eu. Problema desta notícia é que essas palavras vêem da boca do líder parlamentar do PS, Carlos Zorrinho. Mas diz mais. A partir de Roma, onde, segundo o próprio, está para participar na segunda Conferência de Líderes Parlamentares Progressistas, afirma que foi convidado (?!) para "fazer sessão de abertura" e que o objectivo é, passo a citar:
“É um encontro que visa constituir uma base, uma rede, de partidos progressistas à escala europeia, mas também à escala global, para conjuntamente formarem uma resposta às políticas neoliberais que têm vindo a criar tantos problemas em Portugal e também na Europa e no mundo”
Curioso o estado de negação no raciocínio deste "novo" iluminado, acabado de sair das trevas de um governo socialista, quando diz:“Julgo que se está aqui a iniciar um importante movimento alternativo ao, digamos, pensamento único que nos conduziu ao beco difícil em que estamos hoje”.
Carlos Zorrinho termina a sua auto-elegia dizendo:“o facto de o Partido Socialista português ter sido convidado” para estar na sessão abertura deste encontro de Roma, onde estão presentes “altas personalidades como Elisabeth Guigou [ex-ministra das Finanças francesa] ou Massimo D’Alema [ex-primeiro-ministro italiano]” e de António José Seguro estar presente no encerramento, também ao lado de “altas personalidades” europeias, “mostra bem importância que neste momento as posições do Partido Socialista português têm”. Aqui, já estamos todos a rir à gargalhada, pois não só o PS não tem tido qualquer posição, quanto mais relevância nacional ou europeia, como essas ditas "altas personalidades" foram, tal como o PS, igualmente responsáveis pelo estado a que chegámos.
Por fim, digo eu, que raio de autoridade terá este senhor para se promover a arauto dos pensamentos alternativos para a Europa?... Será que estes iluminados não têm vergonha na cara e se apercebem que o seu cu, não cabe nestas calças, ou como se diz na minha terra, a sua cara não bate certo com esta careta?! Pudor, senhores, pudor...
“É um encontro que visa constituir uma base, uma rede, de partidos progressistas à escala europeia, mas também à escala global, para conjuntamente formarem uma resposta às políticas neoliberais que têm vindo a criar tantos problemas em Portugal e também na Europa e no mundo”
Curioso o estado de negação no raciocínio deste "novo" iluminado, acabado de sair das trevas de um governo socialista, quando diz:“Julgo que se está aqui a iniciar um importante movimento alternativo ao, digamos, pensamento único que nos conduziu ao beco difícil em que estamos hoje”.
Carlos Zorrinho termina a sua auto-elegia dizendo:“o facto de o Partido Socialista português ter sido convidado” para estar na sessão abertura deste encontro de Roma, onde estão presentes “altas personalidades como Elisabeth Guigou [ex-ministra das Finanças francesa] ou Massimo D’Alema [ex-primeiro-ministro italiano]” e de António José Seguro estar presente no encerramento, também ao lado de “altas personalidades” europeias, “mostra bem importância que neste momento as posições do Partido Socialista português têm”. Aqui, já estamos todos a rir à gargalhada, pois não só o PS não tem tido qualquer posição, quanto mais relevância nacional ou europeia, como essas ditas "altas personalidades" foram, tal como o PS, igualmente responsáveis pelo estado a que chegámos.
Por fim, digo eu, que raio de autoridade terá este senhor para se promover a arauto dos pensamentos alternativos para a Europa?... Será que estes iluminados não têm vergonha na cara e se apercebem que o seu cu, não cabe nestas calças, ou como se diz na minha terra, a sua cara não bate certo com esta careta?! Pudor, senhores, pudor...
(negritos meus reforçando a minha percepção da palhaçada)
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17 abril 2012
tomates
A propósito da nacionalização de uma empresa petrolífera na Argentina, Sérgio Lavos no Arrastão escreveu e bem o seguinte:
«Cristina Kirchner, insatisfeita com os investimentos da maior empresa petrolífera argentina no seu país, decidiu nacionalizá-la. A Espanha não gostou, porque a empresa é detida em parte pela Repsol. A resposta da Presidente argentina esteve à altura: "Esta Presidente não responderá a qualquer ameaça", disse ainda. "Sou um chefe de Estado, não uma vendedora de legumes", frisou. "Todas as empresas presentes no país, e mesmo que o acionista seja estrangeiro, são empresas argentinas". Simples e directo; em questões de economia, o interesse nacional terá sempre de se sobrepôr aos interesses estrangeiros, sobretudo quando se trata de sectores estratégicos. Qualquer semelhança com a realidade portuguesa é pura coincidência.»
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13 abril 2012
um galo de barcelos
Amanhã, dia 14 de Abril, acontece a final da Taça da Liga em Coimbra e que será disputada pelas equipas do Benfica e do Gil Vicente. Como não poderia deixar de ser, no Portugal de hoje, durante este dias que antecedem esse jogo de futebol, foram vários os momentos e os apontamentos de reportagem, com directos televisivos e afins, acerca da preparação das duas equipas e acerca do pulsar das respectivas massas adeptas e simpatizantes. Aqui, uma nota para a clara distinção naquilo que é a relação entre cada um dos clubes e a cidade que os acolhe. Em relação ao Benfica, não me apercebi de qualquer esforço ou tentativa jornalística junto da população da cidade de Lisboa, enquanto que em Barcelos, pelo contrário, foram vários os momentos em que os seus habitantes foram confrontados com as câmaras de televisão e a curiosidade de um(a) jornalista, numa clara imputação de um estatuto de inferiodade destes perante o "Golias" que teriam que enfrentar...
Foi precisamente numa dessas preciosidades jornalísticas, de imenso interesse para o país, que pude assistir à boçal e maior imbecialidade dos últimos tempos. O senhor que tem o nome esquisito e, não por acaso, é presidente do Gil Vicente, perante todo o país, fez questão de anunciar a sua promessa para o caso de o seu clube vier a trazer o "caneco" para Barcelos. Este senhor, iluminado não pelo santo Galo de Barcelos, mas pelos euros que lhe sobram nos bolsos, comprometeu-se em caso de vitória do Gil Vicente a dar champanhe aos sem-abrigo da cidade de Barcelos durante uma semana. Espectacular ideia e, acima de tudo, a demonstração da sensibilidade e do cuidado para com o bem estar dos mais desfavorecidos. Assim de repente, não me ocorre outra necessidade que esses infelizes possam ter a não ser a embrieguez pelo "caneco" do generoso espumante. Aliás, já estou a ver as equipas de jovens voluntários locais, devidamente equipados e patrocinados, bem dispostos e sorridentes, a distribuirem garrafas ou copos do generoso e refrescante champanhe pelas ruas da cidade. Isto, claro é, seguidos bem de perto pelas equipas de reportagem de todos os órgãos de comunicação social nacionais. Adivinho até que esse mesmo bom samarinato não perderá a oportunidade para tirar mais um retrato, naquilo que é a sua promoção em direcção ao rídículo.
Poderia dizer-se que este é o triste mundo do futebol em Portugal, mas não. Teremos que admitir que este é o triste mundo português.
Foi precisamente numa dessas preciosidades jornalísticas, de imenso interesse para o país, que pude assistir à boçal e maior imbecialidade dos últimos tempos. O senhor que tem o nome esquisito e, não por acaso, é presidente do Gil Vicente, perante todo o país, fez questão de anunciar a sua promessa para o caso de o seu clube vier a trazer o "caneco" para Barcelos. Este senhor, iluminado não pelo santo Galo de Barcelos, mas pelos euros que lhe sobram nos bolsos, comprometeu-se em caso de vitória do Gil Vicente a dar champanhe aos sem-abrigo da cidade de Barcelos durante uma semana. Espectacular ideia e, acima de tudo, a demonstração da sensibilidade e do cuidado para com o bem estar dos mais desfavorecidos. Assim de repente, não me ocorre outra necessidade que esses infelizes possam ter a não ser a embrieguez pelo "caneco" do generoso espumante. Aliás, já estou a ver as equipas de jovens voluntários locais, devidamente equipados e patrocinados, bem dispostos e sorridentes, a distribuirem garrafas ou copos do generoso e refrescante champanhe pelas ruas da cidade. Isto, claro é, seguidos bem de perto pelas equipas de reportagem de todos os órgãos de comunicação social nacionais. Adivinho até que esse mesmo bom samarinato não perderá a oportunidade para tirar mais um retrato, naquilo que é a sua promoção em direcção ao rídículo.
Poderia dizer-se que este é o triste mundo do futebol em Portugal, mas não. Teremos que admitir que este é o triste mundo português.
10 abril 2012
pela boca morre o... homem
Pois é. Hoje na edição de papel do Jornal Público, Alexandra Prado Coelho a propósito de uma conferência da Gulbenkian sobre o futuro da alimentação, escreve sobre o pensamento de Tim Lang, inglês especialista em Política Alimentar que amanhã será orador convidado. Muito interessante aquilo que este autor afirma acerca da realidade mundial e nacional no que aos alimentos diz respeito.
Começa por desconstruir a ideia estabelecida que num futuro próximo os chineses irão ser os responsáveis pela insustentabilidade do sistema alimentar mundial, afirmando que o problema não são os chineses, somos nós, os ocidentais que consumimos por gula e prazer e não por necessidade... "No Reino Unido comemos como se houvesse três planetas, Nos EUA, eles comem como se houvesse cinco planetas".
Lang já há muito vem alertando para a necessidade de uma mudança de paradigma alimentar, apresentando precisamente a China como exemplo de como com pouco se pode fazer muito: "Uma imensa população vive apenas com 9% da terra disponível. E como é que o conseguiram? Comendo plantas".
A propósito de Portugal, afirma que nós tínhamos "uma dieta mediterrânica, barata, muito simples, baseada em produtos locais e da estação, mas uma série de mudanças - capitalismo, indústria alimentar, alterações de estilo de vida, aumento da riqueza, influências americanas, nos afastaram desse padrão alimentar".
Pedro Graça, outros dos oradores desta conferência, afirma que os estilos de vida mudaram, que o know how que se transmitia de geração em geração foi desaparecendo, assim como desapareceu o tempo que era necessário para confeccionar esse tipo de comida. "Era uma alimentação muito feita em casa, e pelas mulheres. hoje as mulheres saíram de casa para trabalhar. Há uma série de factores agressivos para a manutenção deste padrão alimentar". Por outro lado, a dieta tradicional baseava-se na produção local, ou mesmo auto-produção e, actualmente, os produtos frescos e locais adquiriram um estatuto e um carisma que os afasta economicamente da maioria das pessoas. O mesmo orador explica que a dieta mediterrânica é quase vegetariana... "os pratos são formas de enganar a escassez de carne, em que os enchidos ou o bacalhau, muito condimentados, dão um sabor mais forte, dando ideia da presença de carne e peixe".
Outra ideia muito interessante é a questão política e de educação das novas gerações, onde poderá e deverá ser realizado um esforço pedagógico para alterar esta situação, pois mesmo em Portugal a obesidade aumentou exponencialmente nos últimos anos. Actualmente em Portugal existem cerca de 1 milhão de obesos e 3,5 milhões de pré-obesos - preocupante.
Este apetite insaciável do mundo ocidental terá a sua explicação na II Guerra Mundial e na memória que muitos têm ainda da fome e da escassez. "Foi em resposta a esses medos que se deu a revolução alimentar que permitiu, através da tecnologia, produzir plantas mais resistentes e assim alimentar mais animais, e mais pessoas. Até se chegar ao ponto de fartura em que estamos hoje".
Pertinente é igualmente a questão que Tim Lang coloca: "Precisamos de ter trinta mil produtos no hipermercado?". É a altura de reflectir sobre o que queremos para o futuro. Este autor, que em meados dos anos 90 criou a expressão food miles para explicar os efeitos da globalização da comida: "quantos kms um alimento tem que viajar, e que pegada ecológica é que esse transporte deixa, para que possamos ter frutas tropicais à nossa mesa todo o ano?" Termina dizendo: "O vosso país não tem um sistema alimentar sustentável. Mas tem uma cultura e uma tradição fantásticas a partir da qual pode recomeçar. Só que tem que o fazer muito rapidamente".
Ora aqui está um tratado condensado de antropologia gastronómica, abrangente e assertivo. Pena é, amanhã, eu não estar em Lisboa.
Começa por desconstruir a ideia estabelecida que num futuro próximo os chineses irão ser os responsáveis pela insustentabilidade do sistema alimentar mundial, afirmando que o problema não são os chineses, somos nós, os ocidentais que consumimos por gula e prazer e não por necessidade... "No Reino Unido comemos como se houvesse três planetas, Nos EUA, eles comem como se houvesse cinco planetas".
Lang já há muito vem alertando para a necessidade de uma mudança de paradigma alimentar, apresentando precisamente a China como exemplo de como com pouco se pode fazer muito: "Uma imensa população vive apenas com 9% da terra disponível. E como é que o conseguiram? Comendo plantas".
A propósito de Portugal, afirma que nós tínhamos "uma dieta mediterrânica, barata, muito simples, baseada em produtos locais e da estação, mas uma série de mudanças - capitalismo, indústria alimentar, alterações de estilo de vida, aumento da riqueza, influências americanas, nos afastaram desse padrão alimentar".
Pedro Graça, outros dos oradores desta conferência, afirma que os estilos de vida mudaram, que o know how que se transmitia de geração em geração foi desaparecendo, assim como desapareceu o tempo que era necessário para confeccionar esse tipo de comida. "Era uma alimentação muito feita em casa, e pelas mulheres. hoje as mulheres saíram de casa para trabalhar. Há uma série de factores agressivos para a manutenção deste padrão alimentar". Por outro lado, a dieta tradicional baseava-se na produção local, ou mesmo auto-produção e, actualmente, os produtos frescos e locais adquiriram um estatuto e um carisma que os afasta economicamente da maioria das pessoas. O mesmo orador explica que a dieta mediterrânica é quase vegetariana... "os pratos são formas de enganar a escassez de carne, em que os enchidos ou o bacalhau, muito condimentados, dão um sabor mais forte, dando ideia da presença de carne e peixe".
Outra ideia muito interessante é a questão política e de educação das novas gerações, onde poderá e deverá ser realizado um esforço pedagógico para alterar esta situação, pois mesmo em Portugal a obesidade aumentou exponencialmente nos últimos anos. Actualmente em Portugal existem cerca de 1 milhão de obesos e 3,5 milhões de pré-obesos - preocupante.
Este apetite insaciável do mundo ocidental terá a sua explicação na II Guerra Mundial e na memória que muitos têm ainda da fome e da escassez. "Foi em resposta a esses medos que se deu a revolução alimentar que permitiu, através da tecnologia, produzir plantas mais resistentes e assim alimentar mais animais, e mais pessoas. Até se chegar ao ponto de fartura em que estamos hoje".
Pertinente é igualmente a questão que Tim Lang coloca: "Precisamos de ter trinta mil produtos no hipermercado?". É a altura de reflectir sobre o que queremos para o futuro. Este autor, que em meados dos anos 90 criou a expressão food miles para explicar os efeitos da globalização da comida: "quantos kms um alimento tem que viajar, e que pegada ecológica é que esse transporte deixa, para que possamos ter frutas tropicais à nossa mesa todo o ano?" Termina dizendo: "O vosso país não tem um sistema alimentar sustentável. Mas tem uma cultura e uma tradição fantásticas a partir da qual pode recomeçar. Só que tem que o fazer muito rapidamente".
Ora aqui está um tratado condensado de antropologia gastronómica, abrangente e assertivo. Pena é, amanhã, eu não estar em Lisboa.
09 abril 2012
coisas simples...
Ele: - Onde queres ir nas férias?
Ela: - A qualquer lugar onde não tenha sequer que pensar em cozinhar.
Ela: - A qualquer lugar onde não tenha sequer que pensar em cozinhar.
03 abril 2012
30 março 2012
a miséria...
Ao olhar para as previsões ou antevisões daquilo que será a taxa de desemprego nos próximos anos em Portugal, vêm-me à memória imagens da notícia do encerramento do Gaia Hotel. Nessa peça jornalística eram entrevistados alguns dos funcionários, agora sem função. Um desses testemunhos foi uma senhora que admitia a miséria da sua posição e a tristeza que lhe ia na alma por ficar sem emprego, mas afirmava que o que mais lhe custava era deixar os colegas, pois gostava muito de trabalhar com eles. Não sei se consciente ou inconscientemente, esta ex-funcionária na simplicidade e franqueza de suas palavras referiu-se à enorme relatividade da sua miséria de posição face à grande miséria de condição, que é estar ou ser desempregado em Portugal. Muito triste.
27 março 2012
tranquilidade
Gosto muito de aqui vir, ou melhor, sempre que aqui tenho que vir - e é sempre pela pior das razões - por algum problema de saúde daqueles que me rodeiam, sento-me nesta esplanada, sossegada, envolvida por velhas e frondosas árvores, pelo chilrear dos pássaros, longe da agitação da rua e com vistas para o edifício do hospital. O contraste é para mim abismal, pois no mesmo instante que aqui estou, tranquilo e com saúde, para lá das paredes e janelas que avisto, perscruto sofrimentos atrozes, adivinho a angústia de veredictos variados e sei da agonia das horas do fim. Mas aqui estou bem, muito bem. Aqui leio e aqui escrevo, sempre. Mas quero ir-me embora rápido, não por mim, mas por aqueles que sofrem e me fizeram aqui vir.
viver assim
Tarde estranha a de ontem. Enfiado em casa e tentando cumprir datas de entregas de textos, estive às voltas com artigo sobre as novas ruralidades para publicação espanhola. Acompanhou-me sempre um som bem alto que, de espaços a espaços, ia trocando, o que me permitiu não perceber qualquer outro ruído e manter-me focado no que fazia. Eis senão, quando estava absorvido por um qualquer raciocínio e não troquei de cd, deixando-me ficar em total silêncio, ouvi clara e distintamente um som vindo da casa ao lado e percebi que a minha vizinha estava a ter um prolongado e estridente orgasmo. Eram 16 horas e à minha volta pessoas a fazer sexo. Bonito. Só é pena eu não. Não escrevi mais. Saí.
26 março 2012
ideia romântica...
No Jornal Público de ontem (Domingo), lido já muito tarde e já 2ª feira, encontrei uma entrevista a Francisco Avillez, um dos mais conceituados economistas agrários portugueses que, entre outras e muitas coisas interessantes, diz que o nosso mundo rural, actualmente, depende muito pouco da agricultura e no futuro dependerá menos. Afirma também que inverter este estado actual é muito difícil. Concorda com o cadastro das terras abandonadas e entende-o como decisivo nas áreas florestais, mas tem dúvidas quanto ao projecto de as entregar a quem as queira trabalhar. A este propósito diz:
"Não há maneira nenhuma de resolver o problema dos fogos sem conhecer um bocadinho melhor o território. Aproveitar áreas abandonadas, nomeadamente as que são do Estado, e eu não sei quais são, acho que é uma boa ideia. Não sei quais são os resultados práticos disso. O retomar a actividade agrícola, de que toda a gente fala, mostra que muitas vezes o que existe é uma ideia quase romântica do que é a agricultura. Depois, há o choque com a realidade. Depois de passarem lá algum tempo, apercebem-se de que aquilo é muito mais duro, excepto em sectores específicos..."
"Não há maneira nenhuma de resolver o problema dos fogos sem conhecer um bocadinho melhor o território. Aproveitar áreas abandonadas, nomeadamente as que são do Estado, e eu não sei quais são, acho que é uma boa ideia. Não sei quais são os resultados práticos disso. O retomar a actividade agrícola, de que toda a gente fala, mostra que muitas vezes o que existe é uma ideia quase romântica do que é a agricultura. Depois, há o choque com a realidade. Depois de passarem lá algum tempo, apercebem-se de que aquilo é muito mais duro, excepto em sectores específicos..."
19 março 2012
dezanove de março...
Ao contrário do que seria expectável ser dito, ou neste caso escrito, não me parece nada que tenha sido ontem. Este ano rendeu muito. Foi um ano muito extenso. Um ano bonito e muito preenchido. Ainda bem.
13 março 2012
novos registos
Finalmente informatizei completamente o meu acervo bibliográfico. Tarefa que iniciei no início do mês de Fevereiro e terminei por estes dias. Agora que tudo está devidamente registado, numerado e catalogado, sempre que adquirir um novo livro, será muito mais simples incluí-lo. A grande conclusão a que cheguei é que não tenho tantos livros como pensara e que tenho uma bibliografia de ciências sociais muito razoável e com tendência para crescer. Aliás, ainda tem, certamente, uma larga margem de crescimento. Tantos e tantos que ainda faltam por cá. Bem, mas nos últimos tempos chegaram mais meia-dúzia desses, a saber:
- Antunes, João Lobo (2012), A nova medicina, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Pereira, Paulo Trigo (2012), Portugal: dívida pública e défice democrático, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Estanque, Elísio (2012), A Classe Média: ascensão e declínio, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Fernandes, Hirondino (2012), Bibliografia do Distrito de Bragança - série escritores, jornalistas, artistas (volume I), Bragança, Câmara Municipal de Bragança;
- Fernandes, Pêra (2008), O sumo das pedras de Bragança, Bragança, Junta de Freguesia de Santa Maria;
- André, Susana (2010), Mitos Urbanos e Boatos, Lisboa, A Esfera dos Livros;
- Baudrillard, Jean (2011), A Sociedade de Consumo, Lisboa, Edições 70;
- Antunes, João Lobo (2012), A nova medicina, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Pereira, Paulo Trigo (2012), Portugal: dívida pública e défice democrático, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Estanque, Elísio (2012), A Classe Média: ascensão e declínio, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Fernandes, Hirondino (2012), Bibliografia do Distrito de Bragança - série escritores, jornalistas, artistas (volume I), Bragança, Câmara Municipal de Bragança;
- Fernandes, Pêra (2008), O sumo das pedras de Bragança, Bragança, Junta de Freguesia de Santa Maria;
- André, Susana (2010), Mitos Urbanos e Boatos, Lisboa, A Esfera dos Livros;
- Baudrillard, Jean (2011), A Sociedade de Consumo, Lisboa, Edições 70;
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Biblos
10 março 2012
"a semântica das atitudes"
A edição do mês de Março do jornal Le Monde Diplomatique saiu ontem, dia 9, com cara lavada, outro papel e, digo eu, melhor aspecto. Ainda quase não li nada, mas dando seguimento ao meu inconsciente hábito de ler os jornais e revistas de trás para a frente, encontrei e li, na última página, um texto do escritor Mário de Carvalho, o que me deixou por si só satisfeito e a dizer para com os meus Fechos Eclair, que botões não transportava, que já valera a pena comprar o jornal deste mês. Pronto, já nem precisaria de ler mais nada...
Gostaria aqui de transcrever todo o texto, mas como o novo layout do blogue não publica as fotografias num formato legível, nem me vou dar ao trabalho de o digitalizar. Apesar das tiradas que aqui reescrevo e descontextualizo, aconselho vivamente a sua leitura do princípio ao fim.
"Qualquer negociante de secos e molhados ou vendedor de electrodomésticos profere impunemente a sua galegada. Desde que seja riquíssimo. Os ricos não se contentam só com o acatamento. Querem servilismo. Exigem veneração. Chão lambido. Têm-no garantido. Meia dúzia de economistas oficiosos - sempre os mesmos - aprestam-se ao culto público de «os Mercados» com o fervor genuflectido duma adoração ao Espírito Santo."
"Tudo são apelos ao conformismo e à submissão, convites à obediência e ao redil. O povo, quando presente é constituído em populaça. A ralé sempre fez o jeito às contra-revoluções. (...) Com os da ralé pode a ganhuça bem. É travesti-los de consumidores. O consumidor por natureza é dócil. «Para ver já a seguir. Não saia daí». Já o cidadão tende a complicar. É antipático e incómodo. Toma distâncias e faz escolhas. Há que silenciá-lo, ridicularizá-lo ou desacreditá-lo.
"Como pode uma economia colonial saudável funcionar sem escravos? Coisa de otários."
07 março 2012
um processo
Ler muito para depois escrever;
Escrever para depois reler;
Reler para depois reescrever;
Ou seja,
Ler muito será bem escrever.
Escrever para depois reler;
Reler para depois reescrever;
Ou seja,
Ler muito será bem escrever.
06 março 2012
slowfood

Um destes dias algo na rede me chamou a atenção para este nome. Nunca ouvira falar desta coisa - coisa porque não sabia rigorosamente nada acerca de..., mas bastou-me uma rápida consulta no google (detectou 10.600.000 resultados em 0,40 segundos para o termo slowfood) para ficar logo curioso e interessado em saber mais sobre. Na página de busca as apresentações dos resultados, podemos ler:
"...é um movimento internacional que reúne pessoas apaixonadas por gastronomia, celebra o alimento de qualidade e o prazer da alimentação..."
"...com o objectivo de promover uma maior apreciação da comida..."
"...is a eco-gastronomic that was founded to counteract fast food and fast life..."
Parti à descoberta e foi uma completa surpresa, não só pela filosofia da organização, ou movimento como se auto-definem, como também pela dimensão e seu crescimento, contando actualmente com mais de cem mil membros espalhados por todo o mundo e apoiantes em cerca de cento e cinquenta países. Foi fundada em 1986 pelo jornalista italiano Carlo Petrini com o objectivo de promover uma maior apreciação da comida, melhorar a qualidade das refeições e uma produção que valorize o produto, o produtor e o meio ambiente. Acreditam, os seus membros, que todos têm o direito fundamental ao prazer de comer bem e optaram para lema "bom, limpo e justo" e para logótipo, só podia, um caracol. Sem ser ingénuo, pois julgo alcançar o seu propósito político ou ideológico, devo dizer que tudo, ou quase tudo nesta associação, me agrada.
Ena pá, como eu gosto de estar à mesa e ficar por lá. É tão bom. Vamos lá dar força ao movimento. Não custa nada e pode saber muito bem.
Ena pá, como eu gosto de estar à mesa e ficar por lá. É tão bom. Vamos lá dar força ao movimento. Não custa nada e pode saber muito bem.
(para conhecer o movimento clicar no título deste texto)
04 março 2012
01 março 2012
Estás bem?
Num encontro fugidio, perguntei-lhe se estava bem. A desculpa de um atraso para um compromisso impediu a devida e merecida atenção. Resta este sentimento de culpa. Repito: que estejas bem.
24 fevereiro 2012
futuros (im)possíveis...
"A sucessão das crises financeiras conduziu à emergência de uma figura subjectiva que ocupa agora todo o espaço público: a do homem endividado."
Assim começa o artigo de Maurizio Lazzarato, intitulado "A dívida ou o roubo do tempo" e publicado na edição do mês de Fevereiro do Jornal Le Monde Diplomatique - edição portuguesa. De facto, uma das consequências das sucessivas crises que temos vindo a experimentar é a consciencialização generalizada de uma real existência (vida) endividada. A reflexão deste sociólogo e filósofo incide sobre a relação entre credor (proprietário) e devedor (não-proprietário) e como esta relação é extremamente assimétrica e intensifica os mecanismos de exploração e dominação próprios do capitalismo. A "dívida" é entendida não só como uma manifestação económica, mas também como elemento operatório de uma tripla despossessão: despossessão de poder político, despossessão de uma parte da riqueza e o seu regresso à acumulação capitalista e despossessão do futuro, enquanto tempo como portador de escolha, de possíveis. Para além disso, "a dívida produz uma moral que lhe é própria, (...) complementar à moral do trabalho. O par esforço-recompensa oriundo da ideologia do trabalho é reforçado pela moral da promessa (a de honrar a dívida) e da culpa (a de a ter contraído)".
No fundo, e tristemente, digo eu, o devedor comportar-se-á sempre por relação à sua dívida e ao respectivo pagamento e só se poderá considerar livre na medida em que o seu modo de vida - consumos, trabalho, pagamento de impostos, etc., lhe permite fazer face aos compromissos assumidos. E assim, o todo poderoso sistema capitalista esmaga e reduz o que será, o futuro e os seus possíveis não serão mais do que as relações de poder da actualidade. Esta ideia remete-me para uma aproximação ao conceito de sociologia das emergências, de Boaventura de Sousa Santos (2002) e àquilo que ele identifica como o "Ainda-Não" (proposto por Ernst Bloch, 1995), ou seja, o modo como o futuro se inscreve no presente e o dilata. Não é um futuro indeterminado nem infinito, mas sim uma possibilidade e uma capacidade concretas.
23 fevereiro 2012
19 fevereiro 2012
18 fevereiro 2012
cuidar da memória
Recebi um email dando-me a conhecer o projecto de e-museu da memória imaterial. Muito bonito e, principalmente, muito interessante. Para pesquisar e apreciar aqui ou então depois nos meus "atalhos partilhados".
15 fevereiro 2012
dictum et factum
A notícia é já do dia de ontem, mas eu só agora cheguei perto do meu "apurriar", e por isso só agora posso escrevo sobre...
Segundo essa notícia o governo e mais concretamente, o ministro Miguel Relvas (quem mais poderia ser?!...), decidiu mandar imprimir o seu programa numa edição especial de 100 exemplares e de luxo, em papel couché semimate, para distribuir exclusivamente pelos membros do governo. Por adjudicação directa os 100 livros vão custar 12 mil euros, ou seja, nós todos pagaremos 120 euros por cada um desses especiais e espectaculares exemplares que os ministros ofertarão a quem lhes apetecer.
Bem, isto é a mesma coisa que admitirem que limpam o seu súpero ânus a notas de muitos euros, só porque sim e também para provocarem um tantinho a malta.
Segundo essa notícia o governo e mais concretamente, o ministro Miguel Relvas (quem mais poderia ser?!...), decidiu mandar imprimir o seu programa numa edição especial de 100 exemplares e de luxo, em papel couché semimate, para distribuir exclusivamente pelos membros do governo. Por adjudicação directa os 100 livros vão custar 12 mil euros, ou seja, nós todos pagaremos 120 euros por cada um desses especiais e espectaculares exemplares que os ministros ofertarão a quem lhes apetecer.
Bem, isto é a mesma coisa que admitirem que limpam o seu súpero ânus a notas de muitos euros, só porque sim e também para provocarem um tantinho a malta.
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actualidades
11 fevereiro 2012
mais e mais, sempre a somar
Só agora, quando já entramos num novo dia, consigo folhear o jornal Público de Sexta-Feira, dia 10 de Fevereiro. Jornal que chegou aqui a casa por esquecimento de alguém. Alertado, há uns minutos atrás, por telefone amigo e igualmente simpatizante da "cruzada" e, principalmente, preocupado com o bem escrever em Português de Portugal, pude apreciar mais dois preciosos e brilhantes contributos:
10 fevereiro 2012
primeiras linhas...
O regresso à leitura de Rousseau encontra logo no seu primeiro passeio*, palavras que são sempre para mim, inexplicavelmente, próximas e de tamanha afinidade... "Eis-me sozinho na terra, sem irmão, parente próximo, amigo, ou companhia a não ser eu próprio. O mais sociável e o mais afectuoso dos homens foi proscrito da sociedade por um acordo unânime."
* Jean-Jacques Rousseau, in Os Devaneios do Caminhante Solitário.
frívolas presunções
A conversa percorreu todo o jantar e durou muito para além dele. À mesa três, nos seus copos um branco estranhamente transmontano que digeriu a alheira assada. Depois o café e um vulgar digestivo. Agora, depois das despedidas e já sozinho, registo uma parcela daquilo que se falou.
Às tantas, falava-se de contas bancárias e das fidelidades estabelecidas com determinadas instituições bancárias e das relações de amor/ódio que, muitas vezes, sem razão plausível, se estabelecem. Isto fez-me recuar ao tempo da invenção dos prodigiosos cartões de plástico colorido que se inseriam numas máquinas de rua e, com isso, se conseguia receber dinheiro vivo. Extraordinário. Claro que também eu só descansei quando consegui ter uma coisas dessas...
Corria um dos últimos anos da década de oitenta e, provavelmente, por altura de um aniversário meu, consegui juntar cinco contos. Com eles resolvi então abrir uma conta jovem, no Crédito Predial Português, com o único propósito de ter acesso a um desses cartões cheios de pinta. Assim foi. Passados alguns dias (talvez semanas) recebi o dito cartão e logo o experimentei para consultar o saldo da minha espectacular conta bancária. O destino dado a esses cinco contos já não recordo, mas lembro-me perfeitamente de um dia, em plena cidade Invicta, sem qualquer real necessidade, ter levantado mil escudos (...que loucura!), só para impressionar e "meter estilo" junto daquelas que me acompanhavam... "- Esperem lá, tenho que ir aqui ao Multibanco levantar dinheiro..." Impressionante e muito à frente. E mais impressionante e não tanto à frente, foi nenhuma delas ter ficado demasiadamente impressionada, ao ponto de tal acto poder ser uma mais valia no meu estatuto e na minha "pinta". Relembro também que não sempre, mas quase sempre que passava por uma dessas, ainda estranhas, mas prodigiosas maquinetas, utilizava-as para ver o saldo da minha conta. A atracção e o fascínio por aquela tecnologia ultrapassava-me e levava-me a utilizá-la sem qualquer nexo, pois dinheiro eu quase não tinha. Pois não.
Às tantas, falava-se de contas bancárias e das fidelidades estabelecidas com determinadas instituições bancárias e das relações de amor/ódio que, muitas vezes, sem razão plausível, se estabelecem. Isto fez-me recuar ao tempo da invenção dos prodigiosos cartões de plástico colorido que se inseriam numas máquinas de rua e, com isso, se conseguia receber dinheiro vivo. Extraordinário. Claro que também eu só descansei quando consegui ter uma coisas dessas...
Corria um dos últimos anos da década de oitenta e, provavelmente, por altura de um aniversário meu, consegui juntar cinco contos. Com eles resolvi então abrir uma conta jovem, no Crédito Predial Português, com o único propósito de ter acesso a um desses cartões cheios de pinta. Assim foi. Passados alguns dias (talvez semanas) recebi o dito cartão e logo o experimentei para consultar o saldo da minha espectacular conta bancária. O destino dado a esses cinco contos já não recordo, mas lembro-me perfeitamente de um dia, em plena cidade Invicta, sem qualquer real necessidade, ter levantado mil escudos (...que loucura!), só para impressionar e "meter estilo" junto daquelas que me acompanhavam... "- Esperem lá, tenho que ir aqui ao Multibanco levantar dinheiro..." Impressionante e muito à frente. E mais impressionante e não tanto à frente, foi nenhuma delas ter ficado demasiadamente impressionada, ao ponto de tal acto poder ser uma mais valia no meu estatuto e na minha "pinta". Relembro também que não sempre, mas quase sempre que passava por uma dessas, ainda estranhas, mas prodigiosas maquinetas, utilizava-as para ver o saldo da minha conta. A atracção e o fascínio por aquela tecnologia ultrapassava-me e levava-me a utilizá-la sem qualquer nexo, pois dinheiro eu quase não tinha. Pois não.
Nota: com esta lembrança, a minha primeira reacção foi ir ao meu arquivo arqueológico em busca desse cartão para aqui partilhar. Não encontrei.
07 fevereiro 2012
lucrar com a morte, dos outros...
Acabo de ler a notícia no jornal Expresso online (aqui) e não quero acreditar. Eu até já tinha visto isto num filme hollywoodesco, mas imaginar que isto poderia ser transformado num negócio real, será sempre para lá dos meus limites da tolerância moral. Segundo a notícia, o esquema deste negócio é simples e acessível a qualquer investidor.
"O banco compra apólices de seguros de vida de norte-americanos e assume a responsabilidade pelo pagamento dos seus futuros prémios. Quando o segurado morre, o dinheiro da apólice vai para o fundo do Deutsche Bank. São escolhidos norte-americanos com idades compreendidas entre os 70 e os 90 anos. Se as pessoas de referência viverem muito tempo, ganha o banco. Se morrerem prematuramente, ganha o investidor."
Num esforço premonitório, imagino já grandes investimentos em determinadas pessoas (aleatoriamente escolhidas) e muitas inexplicáveis e misteriosas mortes... é só especular, especular com essas vidas, pois o importante é o lucro, o lucro exponencial com a morte alheia. Como é que nunca ninguém se tinha lembrado disto?!
"O banco compra apólices de seguros de vida de norte-americanos e assume a responsabilidade pelo pagamento dos seus futuros prémios. Quando o segurado morre, o dinheiro da apólice vai para o fundo do Deutsche Bank. São escolhidos norte-americanos com idades compreendidas entre os 70 e os 90 anos. Se as pessoas de referência viverem muito tempo, ganha o banco. Se morrerem prematuramente, ganha o investidor."
Num esforço premonitório, imagino já grandes investimentos em determinadas pessoas (aleatoriamente escolhidas) e muitas inexplicáveis e misteriosas mortes... é só especular, especular com essas vidas, pois o importante é o lucro, o lucro exponencial com a morte alheia. Como é que nunca ninguém se tinha lembrado disto?!
06 fevereiro 2012
mudanças
Com o natural crescimento do rebento mais novo vejo-me na necessidade de lhe libertar uma divisão da casa para seu quarto. Uma vez mais perco o espaço, habitualmente chamado "escritório", onde a família e, em particular, eu, passávamos grande parte do tempo em casa. Desta vez, ao contrário das anteriores, não regresso à despensa, mas isso também só não acontece, porque o seu espaço é impraticável. Vejo-me assim na obrigação de reorganizar as minhas tralhas e, tendo em conta as limitações do lar, na terrível missão de seleccionar, separar e eliminar "coisas"...
Por outro lado, o bom da mudança, para além de si mesma, é o facto de poder rever "coisas" e poder trazê-las para mais perto dos olhos. Nesta reorganização, em particular, espero poder organizar definitivamente a base de dados dos meus livros - algo que tenho vindo a fazer nos últimos anos, mas sempre com muita parcimónia e sem muita paciência. Estou motivado para actualizar os seus dados, mas receio que amanhã ou depois e com tamanha confusão, esse entusiasmo se esboroe. A ver vamos.
Por outro lado, o bom da mudança, para além de si mesma, é o facto de poder rever "coisas" e poder trazê-las para mais perto dos olhos. Nesta reorganização, em particular, espero poder organizar definitivamente a base de dados dos meus livros - algo que tenho vindo a fazer nos últimos anos, mas sempre com muita parcimónia e sem muita paciência. Estou motivado para actualizar os seus dados, mas receio que amanhã ou depois e com tamanha confusão, esse entusiasmo se esboroe. A ver vamos.
03 fevereiro 2012
ainda na cruzada...
Também hoje acabei a leitura da revista LER e, sem nada o prever, eis que, num pé página, o escritor Joel Neto fala acerca do Acordo Ortográfico. Fica esse momento.
a nossa cruzada...
Bem cedo, mal abro o jornal Público e chego à página 4 e logo um largo sorriso me invade o rosto. As letras gordas anunciam que o novo senhor do CCB deu instruções aos serviços para não aplicarem o Acordo Ortográfico. Que boa notícia. Na mesma página 4, em caixa, ficamos a saber que alguns deputados do PSD, dos quais se destaca Mota Amaral, escreveram uma carta ao ministro Paulo Portas questionando-o se o governo admite suspender de imediato o acordo... Mas o jornal Público (como eu gosto dele...) faz mais, realça em editorial ("Actos corajosos contra o embuste ortográfico") e publica mais um artigo de opinião ("Um acto político de empobrecimento cultural") acerca desta nossa cruzada. Como não tenho dinheiro para assinar a versão digital, a única hipótese para partilhar com o mundo é digitalizar a versão papel (para a qual também já não tenho dinheiro, pois as restrições orçamentais familiares assim o exigem...). Ficam então os recortes possíveis.
02 fevereiro 2012
a ver o mar
Bem longe, onde nos conhecemos e aprendemos tudo ou quase sobre nós, falavas-me do mar com alegria e sempre com saudade. Houve um dia em que vieste ver-me e eu sem te preparar levei-te a ver o mar. Recordo o brilho dos teus olhos ao avistares o imenso oceano. Depois, disseste-me que era aí que gostavas de ficar. Não sei, mas tentei fazer-te a vontade.
01 fevereiro 2012
citação:
(José Pacheco Pereira no seu Abrupto a propósito das manifestações dos indignados)
“A primeira manifestação da chamada "geração à rasca" (a designação de "indignados" era ainda muito minoritária) foi um grande sucesso. Mas é o caso típico de uma manifestação unanimista, que desde a JSD à extrema-direita, de grupos de "artistas" à extrema-esquerda, do PSD ao BE ao PCP, teve todo o mundo e ninguém a apoiar e uma comunicação social activa e ultra-simpática a divulgá-la. Só quem não era patriota é que não saía à rua. Ah! E havia um pequeno pormenor - era contra José Sócrates no clímax da sua impopularidade. Tinha que ser um sucesso e foi, mas gerou a ilusão de que poderia dar origem a um novo tipo de movimentos, o que também entusiasmou muitas redacções sempre prontas a encontrar "novos" movimentos sociais e depreciar os "antigos".”
LER para Fevereiro
Ao contrário do que é habitual, dia 1 do mês e já cá está. Número dedicado a Fernando Assis Pacheco.
31 janeiro 2012
da imprensa...
Eu nem aprecio muito o estilo e o ideário deste senhor jurista, mas hoje e aqui esteve particularmente bem.
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actualidades
28 janeiro 2012
bons vizinhos
O Horácio vivia numa moradia nos arredores de uma pequena cidade do interior do país e tinha por vizinho um jovem casal de bancários que habitavam a casa ao lado. Sem grandes entusiasmos ou empatias, os dois casais coabitavam em sã e cordial vizinhança. O Horácio tinha um cão de Gado Transmontano que passava os dias pelas extensas áreas exteriores da casa, numa típica e pachorrenta vida de cão, ladrando apenas quando alguém tocava à campainha ou a quem se aproximava demasiado do seu território. Na casa ao lado vivia também um cão que, apesar de rafeiro, tinha acesso privilegiado a toda a casa, onde aliás passava maior parte do seu tempo. Este rafeiro, apesar do seu aspecto franzino, era temperamental e muito agressivo para com estranhos e, especialmente, para com outros animais. Escusado será dizer que sempre que se via livre, o seu passatempo predilecto era ir provocar o cão da casa ao lado, reclamando sempre o seu imenso território, mas sem nunca ter motivado mais do que alguns rosnares de aviso. O Cão de Gado não reagia nem se importunava com tais provocações. Os seus donos sabiam disso e viviam tranquilos.
Certo dia, para espanto de Horácio, o seu cão aparece com o outro entre os dentes, sangrado e todo sujo, já morto. Surpreendido com a atitude do seu próprio cão e sem saber como reagir, até porque Horácio sabia perfeitamente a estima que os vizinhos tinham pelo rafeiro, resolve omitir tal acontecimento. Primeiro, decide lavar e tratar das feridas do cão morto. Depois, esperando pelo cair da noite, leva o cão ao colo até ao muro das traseiras que divide as duas propriedades, verifica se ainda há luzes na casa vizinha e atira o cão morto, por cima do muro, para o outro lado e regressa em silêncio para dentro de casa.
Passados não muitos dias, os dois vizinhos encontram-se à porta de casa e cumprimentam-se. Horácio, receoso que o vizinho o questione acerca do seu cão, tenta esquivar-se, mas o vizinho logo o interpela:
- Sr. Horácio, nem sabe o que me aconteceu... Deve andar por aqui algum espírito mau, alguma bruxa ou mau olhado!
- Aí sim?!.. Não me diga?!... - questiona o Horácio, ensaiando uma expressão de admiração, mas consciente que já não irá escapar e que terá que admitir o sucedido.
- Pois é. Então não é que aqui há dias, o meu cão morreu e eu enterrei-o lá trás no quintal da casa e passados dois dias ele apareceu-me lavado, deitado em cima da relva do quintal.
- Ah! Que estranho. Isso é muito estranho. - comentou Horácio aliviado e ao mesmo tempo certo da asneira que tinha cometido.
24 janeiro 2012
cinco anos depois...
No dia em que assinalo o quinto ano completo de existência deste meu lugar, para além de registar o facto e manifestar a satisfação e o prazer que tem sido manter o Apurriar, gostaria de reflectir acerca de uma outra dimensão que está inerente à condição de blogger e à condição do próprio acto de escrever. Falo da responsabilidade por tudo aquilo que aqui é escrito e registado e da necessidade de estar permanentemente consciente de que aquilo que é publicado, será lido, interpretado e compreendido heterogeneamente por cada um dos seus leitores. E aquilo que à partida - momento solitário na ideia, egoísta na escolha das palavras e, muitas vezes, misantropo na escrita - é claro e objectivo, transforma-se à chegada - momento de leitura - em objecto extremamente difuso.
Decorre esta reflexão do facto de ter sido, neste último ano e pela primeira vez, confrontado com sentimentos de ofensa e indignação por palavras aqui escritas. De facto, nunca até agora tinha reflectido sobre a ténue fronteira que pode existir entre a opinião e a agressão. De qualquer forma, sei, porque sou o único responsável por tudo o que aqui está depositado, que em nenhum momento escrevi com a consciência e a intenção de ferir, magoar ou ofender quem quer que seja. Se aquilo que afirmo e escrevo agrada ou não, se é recebido por unânime concordância ou não, nunca foi preocupação, pois até gosto de uma boa dose de polémica e de um aceso contraditório, mas ao contrário daquilo que o próprio nome do blogue indica, nunca foi objectivo apurriar alguém. Se o fiz peço desculpa, sabendo sempre que tal, ainda que involuntariamente, poderá voltar a acontecer. Obrigado.
Decorre esta reflexão do facto de ter sido, neste último ano e pela primeira vez, confrontado com sentimentos de ofensa e indignação por palavras aqui escritas. De facto, nunca até agora tinha reflectido sobre a ténue fronteira que pode existir entre a opinião e a agressão. De qualquer forma, sei, porque sou o único responsável por tudo o que aqui está depositado, que em nenhum momento escrevi com a consciência e a intenção de ferir, magoar ou ofender quem quer que seja. Se aquilo que afirmo e escrevo agrada ou não, se é recebido por unânime concordância ou não, nunca foi preocupação, pois até gosto de uma boa dose de polémica e de um aceso contraditório, mas ao contrário daquilo que o próprio nome do blogue indica, nunca foi objectivo apurriar alguém. Se o fiz peço desculpa, sabendo sempre que tal, ainda que involuntariamente, poderá voltar a acontecer. Obrigado.
23 janeiro 2012
21 janeiro 2012
18 janeiro 2012
festa do livro
Pois assim foi a minha primeira passagem pela 4ª festa do livro a decorrer até 29 de Janeiro na Fundação Cupertino de Miranda. Ainda lá regressarei, mas entretanto, trouxe comigo:
- Baudelaire, Charles (2001), Os Paraísos Artificiais, Lisboa, Guimarães Editores;
- Zola, Émile (1998), Acuso..., Lisboa, Guimarães Editores;
- Kafka, Franz (2008), A Metamorfose, Lisboa, Guimarães Editores;
- Lima, Conceição (2010), Manual de teoria da tradução, Lisboa, Edições Colibri;
- Morais, J. A. David de (2010) Religiosidade Popular no Alentejo, Lisboa, Edições Colibri;
- Payne, Stanley G. (2006), A Guerra Civil de Espanha, a União Soviética e o Comunismo, Lisboa, Editora Ulisseia;
- Loureiro, Virgílio e Moreira, Manuel Belo (coord.) (2001), O vinho, a história e a cultura popular - actas de congresso, Lisboa, ADISA;
- Partridge, Christopher (2006), Enciclopédia das Novas Religiões, Lisboa, Editorial Verbo;
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Biblos
17 janeiro 2012
16 janeiro 2012
14 janeiro 2012
espantadas ficam...
Amigas próximas, ao saberem que vivo quase exclusivamente dentro de casa e que sinto muita falta de estar sozinho, perguntam-me se não me chateio ou se o tédio não ganha terreno, ainda por cima vivendo confinado a uma pequena divisão, à qual se instituiu chamar "escritório", é para elas impensável e estupidificante. Pois bem, é sempre com enorme prazer e satisfação que lhes digo, de boca cheia, que às vezes chateia-me ter que me ausentar e sair de casa. Espantados rostos.
bater duas vezes...
"Quando cheguei à Ilha era só Xana
Mas em todas as portas eu fiz Toc Toc
Agora todos sabem quando bate alguém
É a Xana Toc Toc"
(...)
"Quem bateu à porta mais que uma vez
Nem uma nem três"
(...)
"São duas vezes que toco
Para saberem quem é"
Nos últimos dias, semanas, meses, cá em casa, sempre que é preciso entreter o petiz, pomos a tocar este video da Xana Toc Toc. E não é que o raio do puto fica preso à imagem e não se cansa de ouvir e ver essa música. De tantas vezes a ter ouvido, já sei a letra de cor, mas só muito recentemente - para dizer a verdade, hoje - atentei na letra da mesma. Alguém que para ser identificado bate duas vezes seguidas nas portas. Na realidade isso também acontece e eu até sei de algumas pessoas que quando têm que bater a uma porta o fazem sempre em dose dupla, tal qual um sinal personalizado, na expectativa de esse toque ser reconhecido e associado à sua pessoa. Se resulta ou não, não sei. Mas que é prática recorrente por aí e por aqui, é. E já agora fica o vídeo para se poderem fartar também.
11 janeiro 2012
aulas inéditas...
Na edição deste mês de Janeiro do Le Monde diplomatique – edição portuguesa, II Série, n.º 63, são publicados dois textos de Pierre Bourdieu (1930-2002) correspondentes a duas aulas dadas no Collège de France, em 1990. Apesar da distância temporal ambas as aulas são, sem dúvida e com muita clareza, nossas contemporâneas.
No primeiro texto, intitulado "Como se fabricam os debates públicos", Pierre Bourdieu começa por nos apresentar e fazer uma descrição do Homem Oficial, enquanto ventríloquo que fala em nome do Estado, que adopta uma postura oficial e fala por todos e em lugar de todos, fala como representante do universal. Depois, parte para a noção moderna de opinião pública e levanta a seguinte questão: O que é essa opinião pública? Segundo o autor, é tacitamente a opinião de toda a gente, da maioria ou dos que contam, dos que são dignos de ter uma opinião. As comissões oficiais consistem na criação de grupos constituídos de tal forma que apresentem todos os sinais exteriores, socialmente reconhecidos e reconhecíveis, da capacidade de exprimir a opinião digna de ser expressa, e nas formas conformes. Substituem assim os cidadãos na liberdade e na capacidade democrática de criar e gerir essa opinião pública, ou seja, a comissão constitui uma opinião pública esclarecida que vai instituir a opinião esclarecida como opinião legítima, em nome da opinião pública. Será no processo de construção dessas opiniões públicas que Pierre Bourdieu insere os atributos das sondagens, enquanto instrumentos ao dispor dos "esclarecidos" para imporem suas opiniões junto dos "menos ou não-esclarecidos". Uma das características das sondagens, escreve este autor, consiste em pôr às pessoas problemas que elas não se põem, em insinuar respostas a problemas que não puseram; em impor, por consequência, respostas. Trata-se de facto de se impor a toda a gente questões que a opinião esclarecida se põe e, dessa maneira, de produzir respostas de toda a gente sobre problemas que alguns se põem, e, portanto, em dar respostas esclarecidas, visto estas terem sido produzidas pela pergunta; fez-se assim existir para as pessoas questões que não existiam para elas, quando o que para estas era questionável era a pergunta. Quando se fala de opinião pública, joga-se sempre um jogo duplo entre a definição confessável (a opinião de todos) e a opinião autorizada e eficiente que é obtida como subconjunto da opinião pública democraticamente definida. A verdade dos dominantes torna-se a verdade de toda a gente. Por último neste texto, Bourdieu fala da necessária teatralização da instância oficial para ser oficial: é preciso atribuir a fé na instância oficial, para se ser um verdadeiro oficial. O desinteresse não é uma virtude secundária, é a virtude política de todos os mandatários. As estroinices dos padres ou os escândalos políticos são o desmoronamento da espécie de crença política em que toda a gente está de má fé, sendo a crença uma espécie de má fé colectiva... um jogo em que toda a gente mente a si mesma e mente aos outros sabendo que os outros mentem.
No segundo texto, intitulado "As duas faces do Estado", Pierre Bourdieu começa por escrever que descrever a génese do Estado é descrever a génese de um campo social, de um microcosmo social relativamente autónomo no interior de um mundo social englobante. A génese do Estado é um processo no decurso do qual se opera uma série de concentrações de diversas formas de recursos: de recursos informacionais e de capital linguístico. Este processo de concentração é paralelo a um processo de despossessão: constituir uma cidade como a capital, como lugar onde se concentram todas as formas de capital, é constituir a província como despossessão do capital; constituir a língua legítima é constituir todas as outras línguas como patoás. a cultura legítima é a cultura garantida pelo Estado, garantida por esta instituição que garante os títulos de cultura, que fornece os diplomas que garantem a posse de uma cultura garantida. Os programas escolares são assunto de Estado; mudar um programa é mudar a estrutura de distribuição do capital, é fazer desaparecer certas formas de capital. Esta concentração é ao mesmo tempo uma unificação e uma forma de universalização. Onde havia coisas diversas, dispersas, locais, passa a haver uma coisa única. A partir daqui Bourdieu aborda as distinções entre a dimensão local e a dimensão global ou universal, dando destaque à importância da Escola como potenciadora do valor patrimonial de quem acede aos bancos da escola.
No primeiro texto, intitulado "Como se fabricam os debates públicos", Pierre Bourdieu começa por nos apresentar e fazer uma descrição do Homem Oficial, enquanto ventríloquo que fala em nome do Estado, que adopta uma postura oficial e fala por todos e em lugar de todos, fala como representante do universal. Depois, parte para a noção moderna de opinião pública e levanta a seguinte questão: O que é essa opinião pública? Segundo o autor, é tacitamente a opinião de toda a gente, da maioria ou dos que contam, dos que são dignos de ter uma opinião. As comissões oficiais consistem na criação de grupos constituídos de tal forma que apresentem todos os sinais exteriores, socialmente reconhecidos e reconhecíveis, da capacidade de exprimir a opinião digna de ser expressa, e nas formas conformes. Substituem assim os cidadãos na liberdade e na capacidade democrática de criar e gerir essa opinião pública, ou seja, a comissão constitui uma opinião pública esclarecida que vai instituir a opinião esclarecida como opinião legítima, em nome da opinião pública. Será no processo de construção dessas opiniões públicas que Pierre Bourdieu insere os atributos das sondagens, enquanto instrumentos ao dispor dos "esclarecidos" para imporem suas opiniões junto dos "menos ou não-esclarecidos". Uma das características das sondagens, escreve este autor, consiste em pôr às pessoas problemas que elas não se põem, em insinuar respostas a problemas que não puseram; em impor, por consequência, respostas. Trata-se de facto de se impor a toda a gente questões que a opinião esclarecida se põe e, dessa maneira, de produzir respostas de toda a gente sobre problemas que alguns se põem, e, portanto, em dar respostas esclarecidas, visto estas terem sido produzidas pela pergunta; fez-se assim existir para as pessoas questões que não existiam para elas, quando o que para estas era questionável era a pergunta. Quando se fala de opinião pública, joga-se sempre um jogo duplo entre a definição confessável (a opinião de todos) e a opinião autorizada e eficiente que é obtida como subconjunto da opinião pública democraticamente definida. A verdade dos dominantes torna-se a verdade de toda a gente. Por último neste texto, Bourdieu fala da necessária teatralização da instância oficial para ser oficial: é preciso atribuir a fé na instância oficial, para se ser um verdadeiro oficial. O desinteresse não é uma virtude secundária, é a virtude política de todos os mandatários. As estroinices dos padres ou os escândalos políticos são o desmoronamento da espécie de crença política em que toda a gente está de má fé, sendo a crença uma espécie de má fé colectiva... um jogo em que toda a gente mente a si mesma e mente aos outros sabendo que os outros mentem.
No segundo texto, intitulado "As duas faces do Estado", Pierre Bourdieu começa por escrever que descrever a génese do Estado é descrever a génese de um campo social, de um microcosmo social relativamente autónomo no interior de um mundo social englobante. A génese do Estado é um processo no decurso do qual se opera uma série de concentrações de diversas formas de recursos: de recursos informacionais e de capital linguístico. Este processo de concentração é paralelo a um processo de despossessão: constituir uma cidade como a capital, como lugar onde se concentram todas as formas de capital, é constituir a província como despossessão do capital; constituir a língua legítima é constituir todas as outras línguas como patoás. a cultura legítima é a cultura garantida pelo Estado, garantida por esta instituição que garante os títulos de cultura, que fornece os diplomas que garantem a posse de uma cultura garantida. Os programas escolares são assunto de Estado; mudar um programa é mudar a estrutura de distribuição do capital, é fazer desaparecer certas formas de capital. Esta concentração é ao mesmo tempo uma unificação e uma forma de universalização. Onde havia coisas diversas, dispersas, locais, passa a haver uma coisa única. A partir daqui Bourdieu aborda as distinções entre a dimensão local e a dimensão global ou universal, dando destaque à importância da Escola como potenciadora do valor patrimonial de quem acede aos bancos da escola.
09 janeiro 2012
história da vida de um livro...
Encomendei no passado dia 5 de Janeiro este livro na Amazon.uk e hoje dia 9 de Janeiro já o tenho comigo. Mas aquilo que me surpreendeu, ou melhor, aquilo que me chamou a atenção foi o estado e a aparência do livro que comprei. Para reduzir custos, tal como faço quase sempre, escolhi um exemplar "used" mas com a qualificação de "good", o que normalmente faz com que receba livros ainda por estrear, semi-novos ou com pequenos defeitos. Desta vez, o livro chegou-me às mãos com as marcas dos anteriores proprietários. Neste caso, o selo de catalogação da biblioteca à qual pertencia e também a assinatura de um dono, que tal como eu faço, o rubricou nas primeiras páginas. Fico assim com a informação que este livro pertenceu pelo menos a dois proprietários antes de viajar até Portugal. Mais, o livro está todo sublinhado a amarelo e denota muito manuseamento. O que, num primeiro momento, estranhei, mas depois gostei. Como seria interessante fazer um estudo (só agora pensei nisto e não sei se já algum dia alguém o fez...) sobre o percurso que um livro pode fazer, ou quais as geografias que um livro conhece durante a sua existência. Para tal, poderiam fazer como os biólogos fazem com os animais selvagens, colocando-lhe no dorso um sistema de localização permanente - vulgo GPS.
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Biblos
05 janeiro 2012
do cancioneiro popular...
"o meu nome é só... amar-te,
o meu sobrenome... querer-te,
meu apelido... adorar-te,
minha alcunha... merecer-te."
(in Alexandre de Carvalho Costa, 1982)
o meu sobrenome... querer-te,
meu apelido... adorar-te,
minha alcunha... merecer-te."
(in Alexandre de Carvalho Costa, 1982)
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nomeadas
03 janeiro 2012
a comprar...
"Quem era Luiz Pacheco, afinal? Um homem que o Portugal de hoje não merece. E, para dizer a verdade, o do tempo dele também não. O homem que diria a esta tenebrosa turba que nos governa e à mancha de mediocridade que a rodeia "Vão para a puta que os pariu!"." (Sérgio Lavos in Arrastão)
02 janeiro 2012
não presentes de natal
Destes dias transmontanos e frios, trouxe mais um conjunto de leituras:
- Policarpo, Lopes (2010), Para uma Sociologia do Catolicismo, Lisboa, Rei dos Livros;
- Levisky, David Léo (2011), Entre elos perdidos, Rio de Janeiro, Imago Editora;
- Covas, António (2007), Ruralidades I - temas e problemas do mundo rural, Faro, Universidade do Algarve;
- Covas, António (2007), Ruralidades II - agricultura multifuncional e desenvolvimento rural, Faro, Universidade do Algarve;
- Covas, António (2008), Ruralidades III - temas e problemas da ruralidade pós-agrícola e pós-convencional, Faro, Universidade do Algarve;
- Covas, António (2009), Ruralidades IV - retratos portugueses de agricultura multifuncional, Faro, Universidade do Algarve;
- Covas, António (2010), Ruralidades V - modernização ecológica, serviços ecossistémicos e riscos globais - a ruralidade do nosso tempo, Faro, Universidade do Algarve;
- Bruck, Gabriele vom e Bodenhorn, Barbara (2009), The Anthropology of names and naming, New York, Cambridge University Press;
- Policarpo, Lopes (2010), Para uma Sociologia do Catolicismo, Lisboa, Rei dos Livros;
- Levisky, David Léo (2011), Entre elos perdidos, Rio de Janeiro, Imago Editora;
- Covas, António (2007), Ruralidades I - temas e problemas do mundo rural, Faro, Universidade do Algarve;
- Covas, António (2007), Ruralidades II - agricultura multifuncional e desenvolvimento rural, Faro, Universidade do Algarve;
- Covas, António (2008), Ruralidades III - temas e problemas da ruralidade pós-agrícola e pós-convencional, Faro, Universidade do Algarve;
- Covas, António (2009), Ruralidades IV - retratos portugueses de agricultura multifuncional, Faro, Universidade do Algarve;
- Covas, António (2010), Ruralidades V - modernização ecológica, serviços ecossistémicos e riscos globais - a ruralidade do nosso tempo, Faro, Universidade do Algarve;
- Bruck, Gabriele vom e Bodenhorn, Barbara (2009), The Anthropology of names and naming, New York, Cambridge University Press;
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01 janeiro 2012
2012
Habituemo-nos ao dígito que representa este ano, pois o anterior é já arquivo e rapidamente passará às calendas da história. Agora, 2012. O que esperar? Quais os planos e ambições para este novo ano?
Pois bem, tendo em conta a mentalização colectiva para a austeridade e para o empobrecimento, tendo em conta tudo aquilo que foi profetizado para estes tempos, aquilo que espero e pretendo, para além dos lugares-comuns da saúde e da felicidade, não é muito. Mas isso não significa ter interiorizado esse discurso do medo e do fado nacional que alguns teimam em espalhar por cá. Não, o pouco que espero em relação a este novo ano será mais ou menos idêntico ao que sempre ambicionei para os anos anteriores - trabalho e alguma qualidade de vida. Mesmo assim, para este ano poderei destacar alguns dos projectos que tentarei concretizar:
- Defender uma tese académica;
- Editar os dois trabalhos que estou a realizar;
- Efectivar o projecto televisivo;
- Participar em dois congressos internacionais;
Pois bem, tendo em conta a mentalização colectiva para a austeridade e para o empobrecimento, tendo em conta tudo aquilo que foi profetizado para estes tempos, aquilo que espero e pretendo, para além dos lugares-comuns da saúde e da felicidade, não é muito. Mas isso não significa ter interiorizado esse discurso do medo e do fado nacional que alguns teimam em espalhar por cá. Não, o pouco que espero em relação a este novo ano será mais ou menos idêntico ao que sempre ambicionei para os anos anteriores - trabalho e alguma qualidade de vida. Mesmo assim, para este ano poderei destacar alguns dos projectos que tentarei concretizar:
- Defender uma tese académica;
- Editar os dois trabalhos que estou a realizar;
- Efectivar o projecto televisivo;
- Participar em dois congressos internacionais;
31 dezembro 2011
2011
Agora que nos aproximamos vertiginosamente de um novo ano e sabemos da irreversibilidade do processo, não faltam por aí, manifestações públicas de encerramento ou laudatórias sobre dois mil e onze. Não sou muito dado a balanços ou a previsões depois de o “jogo” ter findado, principalmente quando não entendo que essa reflexão seja consequência ou signifique o fim de um qualquer ciclo ou findar de um qualquer projecto. Aceito que o final de um ano possa ser praticado como um tempo de reflexão e, desconfio, todos ou quase assim procedemos. Mas a verdade é que a nossa experiência ontogénica apenas nos permite viver algumas dezenas de finais de ano e, nada mais experimentamos do que um eterno retorno do calendário anual. De qualquer forma, fazendo esse exercício introspectivo, só poderei dizer que 2011 foi, em termos pessoais, um irrepetível e excelente ano.
30 dezembro 2011
coisas pequeninas...
Como gosto de ocupar o meu tempo a falar com a gente. Não com qualquer gente. Com a gente à qual eu pertenço. Gente que também sou eu. Falar do tempo e da vida, do muito e do pouco que fulano ou sicrano têm, da indigência daquele e da prisão do neto da tia Coisa, da doença do pai deste e da ganza que o outro teima em fumar em público. Coisas, nadas, vidas alheias e esquivas. Adequar a minha atitude à dimensão do quintal local é sempre um desafio ao qual tento dar resposta. Falar com todos daquilo que eles quiserem. Beber aquilo que me é oferecido e pagar quando assim devo. Acompanhar assuntos que jamais dominei ou conheci. Como gosto de estar neste lugar, com esta gente que conheço sempre. Isto num dia em que mais um de nós foi a enterrar. Cada vez serão menos os convivas neste lugar. Mas insistirei, por cá continuarei a vir. Sempre.
29 dezembro 2011
na cabeceira...
Via Carção e a Associação Almocreve, leio os primeiros parágrafos desta ficção brasileira que viaja pelo mundo e pelo Nordeste Transmontano e tem como temática central as questões da identidade.
28 dezembro 2011
sonho, sonho
«No círculo espiritual, também para mim não há barreiras – e tenho sentido, além do amor e do ódio, outros sentimentos que lhe não posso definir, é claro, porque só eu os vivo, não havendo assim a possibilidade de lhos fazer entender nem por palavras, nem por comparações. Sou o único homem que esses sentimentos emocionam. Logo seria desnecessário ter uma voz que os traduzisse, visto que a ninguém a poderia comunicar. Aliás o mesmo acontece com as horas mais belas que tenho vivido. Só lhe posso dizer as que de longe se assemelham às da vida e que por isso exactamente são as menos admiráveis.»
«Agora passo-lhe a esboçar algumas voluptuosidades novas.
«Um corpo de mulher é sem dúvida uma coisa maravilhosa – a posse de dum corpo esplêndido, todo nu, é um prazer quase extra-humano, quase de sonho. Ah!, o mistério fulvo dos seios esmagados, a escorrer em beijos, e as suas pontas loiras que nos roçam a carne em êxtases de mármore... as pernas nervosas, aceradas – vibrações longínquas de orgia imperial... os lábios que foram esculpidos para ferir de amor... os dentes que rangem e grifam nos espasmos de além... Sim, é belo; tudo isso é muito belo! Mas o lamentável é que poucas formas há de possuir toda essa beleza. Emaranhem-se os corpos contorcidamente, haja beijos de ânsia em toda a carne, o sangue corra até... Por fim sempre os dois sexos se acariciarão, se entrelaçarão, se devorarão – e tudo acabará em um espasmo que há-de ser sempre o mesmo, visto que reside sempre nos mesmos órgãos!...
«Pois bem! Eu tenho possuído mulheres de mil outras maneiras, tenho delirado outros espasmos que residem noutros órgãos.
«Ah!, como é delicioso possuir com a vista ... A nossa carne não toca, nem de leve, a carne da amante nua. Os nossos olhos, só os nossos olhos, é que lhe sugam a boca e lhe trincam os seios... Um rio escaldante se nos precipita pelas veias, os nossos nervos tremem todos como as cordas duma lira, os cabelos sentem, dilatam-se-nos os músculos... e os olhos de longe, vendo, vão exaurindo toda a beleza, até que por fim a vista se nos amplia, o nosso corpo inteiro vê, um estremeção nos sacode e um espasmo ilimitado, um espasmo de sombra, nos divide a carne em ânsia ultrapassada... Atingimos o gozo máximo! Possuímos um corpo de mulher só com a vista. Possuímos fisicamente, mas imaterialmente, como também se pode amar com as almas. Neste caso são mais doces, mais serenos, mas não menos deliciosos, os espasmos que nos abismam.
«Há ainda outra voluptuosidade que, por interessante, lhe desejo esboçar: é a posse total dum corpo de mulher que sabe unicamente a um seio que se esmaga.
«Enfim, meu amigo, compreenda-me: eu sou feliz porque tenho tudo quanto quero e porque nunca esgotarei aquilo que posso querer. Consegui tornar infinito o universo – que todos chamam infinito, mas que é para todos um campo estreito e bem murado.»
«Agora passo-lhe a esboçar algumas voluptuosidades novas.
«Um corpo de mulher é sem dúvida uma coisa maravilhosa – a posse de dum corpo esplêndido, todo nu, é um prazer quase extra-humano, quase de sonho. Ah!, o mistério fulvo dos seios esmagados, a escorrer em beijos, e as suas pontas loiras que nos roçam a carne em êxtases de mármore... as pernas nervosas, aceradas – vibrações longínquas de orgia imperial... os lábios que foram esculpidos para ferir de amor... os dentes que rangem e grifam nos espasmos de além... Sim, é belo; tudo isso é muito belo! Mas o lamentável é que poucas formas há de possuir toda essa beleza. Emaranhem-se os corpos contorcidamente, haja beijos de ânsia em toda a carne, o sangue corra até... Por fim sempre os dois sexos se acariciarão, se entrelaçarão, se devorarão – e tudo acabará em um espasmo que há-de ser sempre o mesmo, visto que reside sempre nos mesmos órgãos!...
«Pois bem! Eu tenho possuído mulheres de mil outras maneiras, tenho delirado outros espasmos que residem noutros órgãos.
«Ah!, como é delicioso possuir com a vista ... A nossa carne não toca, nem de leve, a carne da amante nua. Os nossos olhos, só os nossos olhos, é que lhe sugam a boca e lhe trincam os seios... Um rio escaldante se nos precipita pelas veias, os nossos nervos tremem todos como as cordas duma lira, os cabelos sentem, dilatam-se-nos os músculos... e os olhos de longe, vendo, vão exaurindo toda a beleza, até que por fim a vista se nos amplia, o nosso corpo inteiro vê, um estremeção nos sacode e um espasmo ilimitado, um espasmo de sombra, nos divide a carne em ânsia ultrapassada... Atingimos o gozo máximo! Possuímos um corpo de mulher só com a vista. Possuímos fisicamente, mas imaterialmente, como também se pode amar com as almas. Neste caso são mais doces, mais serenos, mas não menos deliciosos, os espasmos que nos abismam.
«Há ainda outra voluptuosidade que, por interessante, lhe desejo esboçar: é a posse total dum corpo de mulher que sabe unicamente a um seio que se esmaga.
«Enfim, meu amigo, compreenda-me: eu sou feliz porque tenho tudo quanto quero e porque nunca esgotarei aquilo que posso querer. Consegui tornar infinito o universo – que todos chamam infinito, mas que é para todos um campo estreito e bem murado.»
(Mário Sá-Carneiro in Homem dos Sonhos)
22 dezembro 2011
entre o verão e o inverno...
Novos registos para o meu acervo que, felizmente, vai crescendo com qualidade, digo eu:
- Catroga, Fernando (2011), Ensaio Repúblicano, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Garoupa, Nuno (2011), O Governo da Justiça, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Fernandes, José Manuel (2011), Liberdade e Informação, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Martins, Bruno (2011), Descobrir o Santuário de Nossa Senhora da Serra (Guia do Visitante), Rebordãos, Confraria Nossa Senhora da Serra;
- Marques, Gentil (1997), Lendas de Portugal (5 volumes), Lisboa, Círculo de Leitores;
- Bourdieu, Pierre (2009), A economia das trocas simbólicas, São Paulo, Perspectiva;
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18 dezembro 2011
another stupid idea...
A empresa que produz os anúncios da marca Old Spice deve ser mesmo muito boa naquilo que faz e eu devo ser mesmo um gajo muito estúpido, pois a série de anúncios que promovem essa marca associando-a ao conceito de masculinidade vai-se reinventando através de novos atributos dessa mesma condição masculina. Agora anda pelas rádios um que diz que "homem que é homem não bebe leite, come a vaca". Minha nossa, o que é isto?! Imitando o personagem Diácono de Herman José, eu diria: "Não havia necessidade!.. agora só falta virem dizer que homem que é homem não faz amor, fode."
Enfim.
17 dezembro 2011
13 dezembro 2011
documento de uma só cor
Depois de vários meses em que o tema de uma Reforma Administrativa esteve na agenda política e mediática, finalmente ficámos a conhecer o “Documento Verde” que fundamenta e descreve os processos de tal reforma. Numa apreciação global, poderei começar por considerar que as propostas deste “documento de uma só cor” não servem para o país, nem para as suas populações e comunidades e quero, desde já, também, manifestar a minha preocupação perante a possibilidade desta reforma vir a acontecer nos moldes propostos pelo actual governo. Por exemplo, é mentira que as autarquias locais tenham um peso significativo no Orçamento de Estado, pois as 4259 freguesias existentes em Portugal representam apenas 0,13% da despesa do Orçamento de Estado. Mas a minha argumentação não é economicista.
É, agora, mais do que evidente que estamos perante o maior ataque de sempre à democracia local, nascida no 25 de Abril e que os acordos com a troika não passam de pretextos para a aplicação dos velhos projectos do PS e PSD, de alteração das leis eleitorais autárquicas, reforçando o bipartidarismo, a centralização do poder e a limitação drástica da autonomia do poder local, consagrado na Constituição. Tal como alertava quando aqui trouxe este assunto – em 8 de Março de 2001 – “não devemos aceitar que esta vontade de reduzir seja o caminho para um efectivo reforço da centralização do poder em Portugal”. Por outro lado, parece-me também evidente que este projecto de reforma procura manipular os sentimentos da população face à crise: o combate ao despesismo e aos excessos das empresas municipais – e aqui reforço a ideia de que é preciso, pura e simplesmente, extinguir a sua grande maioria; a ideia, mil e uma vezes repetida, de que há políticos e órgãos a mais, usada para restringir o pluralismo e diminuir o controlo democrático dos cidadãos e das oposições, facilitando a corrupção e os clientelismos. Neste contexto, importa ainda referir a estratégica extinção da IGAL, de forma quase silenciosa, ainda antes do conhecimento público deste “Documento de uma só cor”.
Não havendo qualquer dúvida quanto à necessidade de se proceder a uma reforma administrativa, volto a insistir na ideia de um modelo administrativo bem reflectido e bem estruturado e na ideia de uma reorganização do mapa territorial coerente, que respeitem os princípios democráticos, tais como: a) os critérios demográficos e de área geográfica mínima para a existência de freguesias deverão considerar variáveis como a orografia, a rede de transportes públicos e a concentração ou dispersão do povoamento; e b) a extinção, fusão ou agregação voluntária de freguesias/municípios deverá exigir parecer positivo do respectivo órgão deliberativo – Assembleia de Freguesia ou Municipal, confirmado se necessário por referendo local. Para esta possibilidade ser viável, deverão ser regulamentadas as convocações de referendos locais por iniciativa de cidadãos.
Ainda durante o mês de Novembro a Assembleia Municipal de Bragança promoveu uma sessão de discussão pública acerca deste documento, onde foram conferencistas os deputados da Assembleia da República, eleitos pela região. Para além de outras considerações que me abstenho de aqui fazer, foi notória a dificuldade em fazerem a apologia desta reforma e, para além do mais, foi perceptível o desconforto, a insegurança e a desconfiança em relação à sua aplicabilidade no território nacional. Do ponto de vista da audiência, pareceu-me que os autarcas locais, aqueles que seriam os mais interessados em ouvir e perceber, saíram de lá sem saberem mais do que aquilo que já sabiam…
A oposição e a contestação ao “Documento de uma só cor” e à reforma da administração local, bem expressa no último congresso da ANAFRE, realizado em Portimão, não deverá ficar pela oposição aos critérios para a extinção/fusão das freguesias. Não deveremos esquecer que os ataques que este governo prepara contra a regionalização, a lei das finanças locais, a lei eleitoral autárquica, composição dos executivos municipais, etc., constituem um pacote que configura o maior ataque de sempre à democracia local. A desvalorização que o PSD/CDS estão a fazer em relação às freguesias é apenas uma das peças da desvalorização da democracia autárquica e local em geral, que o governo protagoniza e quer impor.
É, agora, mais do que evidente que estamos perante o maior ataque de sempre à democracia local, nascida no 25 de Abril e que os acordos com a troika não passam de pretextos para a aplicação dos velhos projectos do PS e PSD, de alteração das leis eleitorais autárquicas, reforçando o bipartidarismo, a centralização do poder e a limitação drástica da autonomia do poder local, consagrado na Constituição. Tal como alertava quando aqui trouxe este assunto – em 8 de Março de 2001 – “não devemos aceitar que esta vontade de reduzir seja o caminho para um efectivo reforço da centralização do poder em Portugal”. Por outro lado, parece-me também evidente que este projecto de reforma procura manipular os sentimentos da população face à crise: o combate ao despesismo e aos excessos das empresas municipais – e aqui reforço a ideia de que é preciso, pura e simplesmente, extinguir a sua grande maioria; a ideia, mil e uma vezes repetida, de que há políticos e órgãos a mais, usada para restringir o pluralismo e diminuir o controlo democrático dos cidadãos e das oposições, facilitando a corrupção e os clientelismos. Neste contexto, importa ainda referir a estratégica extinção da IGAL, de forma quase silenciosa, ainda antes do conhecimento público deste “Documento de uma só cor”.
Não havendo qualquer dúvida quanto à necessidade de se proceder a uma reforma administrativa, volto a insistir na ideia de um modelo administrativo bem reflectido e bem estruturado e na ideia de uma reorganização do mapa territorial coerente, que respeitem os princípios democráticos, tais como: a) os critérios demográficos e de área geográfica mínima para a existência de freguesias deverão considerar variáveis como a orografia, a rede de transportes públicos e a concentração ou dispersão do povoamento; e b) a extinção, fusão ou agregação voluntária de freguesias/municípios deverá exigir parecer positivo do respectivo órgão deliberativo – Assembleia de Freguesia ou Municipal, confirmado se necessário por referendo local. Para esta possibilidade ser viável, deverão ser regulamentadas as convocações de referendos locais por iniciativa de cidadãos.
Ainda durante o mês de Novembro a Assembleia Municipal de Bragança promoveu uma sessão de discussão pública acerca deste documento, onde foram conferencistas os deputados da Assembleia da República, eleitos pela região. Para além de outras considerações que me abstenho de aqui fazer, foi notória a dificuldade em fazerem a apologia desta reforma e, para além do mais, foi perceptível o desconforto, a insegurança e a desconfiança em relação à sua aplicabilidade no território nacional. Do ponto de vista da audiência, pareceu-me que os autarcas locais, aqueles que seriam os mais interessados em ouvir e perceber, saíram de lá sem saberem mais do que aquilo que já sabiam…
A oposição e a contestação ao “Documento de uma só cor” e à reforma da administração local, bem expressa no último congresso da ANAFRE, realizado em Portimão, não deverá ficar pela oposição aos critérios para a extinção/fusão das freguesias. Não deveremos esquecer que os ataques que este governo prepara contra a regionalização, a lei das finanças locais, a lei eleitoral autárquica, composição dos executivos municipais, etc., constituem um pacote que configura o maior ataque de sempre à democracia local. A desvalorização que o PSD/CDS estão a fazer em relação às freguesias é apenas uma das peças da desvalorização da democracia autárquica e local em geral, que o governo protagoniza e quer impor.
(enviado para o Jornal Nordeste, publicável dia 13 de Dezembro de 2011)
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actualidades
07 dezembro 2011
bordalo dias, o senhor lusofonia
Mal ainda me chegou às mãos, emprestado pelo mano mais novo, e já estou maravilhado com esta obra de arte e com a qualidade das sonoridades deste grande trovador do mundo lusófono. Fausto é, indiscutivelmente, o grande embaixador cultural da lusofonia. Para ouvir longa e repetidamente. Entretanto, fica aqui um pequeno video de um momento de pré-produção deste mesmo trabalho.
02 dezembro 2011
dezembro tresmalhado
É mais do que revisitado na escrita literária e na não-literária o factor tempo: As horas, os dias, os meses e os anos que passam são permanentemente registados, adjectivados e valorizados. Também aqui, eis-nos chegados à última parcela mensal de 2011. Num início de mês de Dezembro, sempre mais curto em dias úteis e sempre mais esbanjador em euros, tento convencer-me de que vai ser este o ano em que conseguirei alterar definitivamente a minha atitude face ao "facto social total" que é o Natal. Muito provavelmente estarei, uma vez mais, a enganar-me apenas a mim próprio, mas sei que todos os anos tenho tido vontade de abandonar os comportamentos consumistas que adicionam, por esta altura, grande parte dos indivíduos. Tenho-me lembrado do elemento "crise" como potencial álibi para, enfim, me livrar, mas nem assim... Invejo aqueles(as) que não fazem parte deste grande rebanho. Ambiciono o dia em que conseguirei ser também uma ovelha tresmalhada.
01 dezembro 2011
27 novembro 2011
instante urbano xviii
O ritmo lento do comboio que me traz de regresso ao Porto e me fará chegar tarde a casa, acaba de parar na cidade de Coimbra, onde saem e entram alguns passageiros. Para perto do lugar que ocupo veio um jovem casal, bem-disposto e carregando cada um sua garrafa de vinho aberta. Ela traz uma garrafa de maduro branco e ele de maduro tinto. De imediato me vem à mente a imagem da imortal dupla de comediantes que, algures na década de oitenta, parodiavam com a situação do país através de dois personagens andrajosos e indigentes bêbados - o Agostinho (Camilo de Oliveira) e a Agostinha (Ivone Silva). Mal se sentam estendem logo à sua frente um farnel que de imediato javardamente devoram. Porque trago distinta música nos ouvidos, nem sequer me vou dar ao trabalho de tentar ouvir o que falam e tanto os faz rir; ou será o vinho que já os anima?!... Prefiro imaginar e ou muito me engano ou não vai sobrar gota naquelas garrafas e não vão sequer oferecer uma pinguinha. Acabaram com um brinde de... garrafas. Bonito.
26 novembro 2011
hoje, durante todo o dia...
Intervenção:
Na qualidade de membro eleito na Assembleia Municipal de Bragança gostaria de começar a minha intervenção por partilhar convosco a percepção recente de uma mudança comportamental dos partidos, principalmente do PSD. Fui eleito pela primeira vez em 2005 e desde então sempre tive o meu espaço e tempo de intervenção e nunca fui impedido de exercer o meu mandato. Não sei se coincidências, mas desde que ganharam as eleições e formaram governo radicalizaram a sua postura. Dou-vos dois exemplos dessa percepção:
a) Pela primeira vez desde 2005 fui impedido de intervir na A.M. de Bragança;
b) Vinte e tal estruturas de Moopy's do BE desapareceram nos distritos de Bragança;
Relativamente ao ponto em agenda, gostaria de começar por dizer que subscrevo na íntegra o documento que a Comissão Nacional Autárquica - comissão que integro - produziu e serve de ponto de partida para o debate político que o BE fará a propósito da reforma administrativa que o Governo pretende impor ao país.
Não estando de acordo com o "Documento Verde" por considerar que na sua generalidade não serve os interesses das populações, quero manifestar o meu sentimento de preocupação perante a possibilidade de esta reforma vir a acontecer nos moldes propostos por este documento. Por outro lado, considero que uma reforma administrativa é mais do que necessária e urge realizá-la.
Mas quero centrar a minha participação no Eixo 2 do nosso Memorando que diz respeito à organização do território. Tenho para mim que grande parte dos autarcas locais (presidentes de Junta de Freguesia e elencos das Assembleias de Freguesia) não está consciente dos reais propósitos desta iniciativa governativa... Ainda na semana passada a Assembleia Municipal de Bragança promoveu uma sessão pública de esclarecimento acerca deste "documento verde" e dessa sessão retirei três ilações:
1 - O verbo mais utilizado pela representante do PSD foi o "juntar", como se a solução para a reforma administrativa proposta dependesse da iniciativa de voluntariado dos autarcas locais para agregar localidades e/ou freguesias;
2 - Os oradores convidados não se sentem confortáveis com a proposta, nem seguros, nem confiantes em relação à sua aplicabilidade;
3 - Os autarcas locais presentes saíram desta sessão sem saberem mais do que aquilo que já sabiam, ou seja, nada;
Considero que tendo em conta as dinâmicas locais, intra e inter comunidades, será sempre complicado impor um qualquer modelo. Aceito que será preciso estabelecer critérios para rever o mapa administrativo, mas parece-me imensamente redutor cingir esses critérios à demografia e às distâncias relativas às sedes de municípios.
Será preciso conhecer as realidades sociais de cada freguesia e de cada localidade. É que em muitos casos, a proximidade geográfica entre localidades e freguesias não significa, obrigatoriamente, que exista uma relação de boa vizinhança e, em alguns destes casos, há processos históricos resultantes de factos ou episódios já muito antigos e que perduraram pelo tempo e na memória colectiva das comunidades. Por exemplo, tal como se diz que de Espanha não vem bom vento nem bom casamento, também poderemos aplicar o mesmo dito em relação às dinâmicas e aos processos de estigmatização entre tantas e mais comunidades, aldeias e freguesias. Em Trás-os-Montes há locais onde ainda hoje é possível encontrar reminiscências de sentimentos contraditórios e difusos relativos à reforma realizada na década de trinta do século XIX. Estamos portanto perante vivências quotidianas herdadas carregadas de simbologias latentes e que contribuem fortemente para as construções locais de identidade.
Uma outra ideia que importa salientar é que já há autarcas por esse país fora que não podendo, por limite de mandatos, recandidatar-se em 2013, percebem nesta reforma a oportunidade para se perpetuarem nos lugares que ainda ocupam; e não se coíbem de o dizer e assumir publicamente.
Tal como já disse, concordo e subscrevo o Memorando produzido em sede de Comissão Nacional Autárquica, e mais subscrevo e enfatizo a sua proposta de consulta popular referendária, no sentido de envolver e partilhar com os cidadãos a responsabilidade pelas opções de futuro. Contudo, esse ideal de democracia participativa que eu também protagonizo, receio e desconfio, só servirá para confundir e baralhar ainda mais todo o processo e dificultará exponencialmente toda e qualquer iniciativa voluntária de fusão ou agregação de freguesias.
A pressão e o ritmo impostos para avançar e terminar esta reforma são contraproducentes em relação ao tempo e aos interesses democráticos. Receio que, no final, esta reforma venha a ser imposta por Lisboa, imputando as responsabilidades políticas aos senhores da troika e dada como adquirida por grande parte dos portugueses, anestesiados que andam com o "medo" a tudo... Para finalizar, gostava de vos alertar para o facto de termos como próximo confronto eleitoral, tal como referiu o camarada Alberto Matos, a eleição autárquica em 2013. Penso que se impõe ao BE uma reflexão preparatória para esse desafio e, provavelmente, não será cedo para tal. Penso que teria sido importante incluir no programa deste encontro um ponto sobre aquilo que poderá ser a estratégia do BE para esse processo eleitoral.
(Almada, 26 de Novembro de 2011)
25 novembro 2011
uma carta para ti
Várias vezes te foste queixando do facto de eu não partilhar contigo aquilo que sonho. Pois muito bem, aqui vai algo que sonhei numa destas noites em que dormi sozinho. Viajávamos os dois num pequeno carro branco, se não estou em erro, num Renault Clio branco que alugara uns dias antes apenas para poder ir ter contigo. Viajávamos sem pressa e quase sem destino. Apenas tu e eu. Visitámos aldeias, vilas e cidades, encontrámos velhos amigos e caros familiares, parámos aqui para beber de um cano de água e ali para um beijo. Num ápice chegámos a um cimo de monte, sobranceiro e minhoto, lugar turístico e de enorme romaria. Para além do calor que sentimos e do gelado que comemos, do alto de uma penha, com deleite, apreciámos a paisagem para poente, para onde se podia sentir o pulsar da grande cidade que foi berço da nacionalidade e para onde o sol teimava em pousar. Os dois sozinhos. Já com o cair da noite viajámos para a Invicta e para aquilo que, então, era a tua e a minha casa. Tivera sido um dia bonito, um dia que jamais irei esquecer e que, amiúde, regressa em modo de sonho.
(Valadares, 1 de Novembro de 2011)
24 novembro 2011
23 novembro 2011
a very old and poor idea
Anda a passar nas rádios portuguesas um anúncio publicitário à marca Old Spice que me irrita a amígdala. Pelos vistos é um anúncio viral e fará parte da estratégia da empresa que comercializa esta marca. Quem terá sido a mente brilhante que se lembrou de afirmar: "Homem que é homem não tem frio, arrefece um pouco..." que frase estúpida! Então quer dizer que para usar esse líquido com cheiro é requisito não ter, nunca, frio; ou então, se tivermos frio não comprar, nunca, esse patchouli. Desconfio que as vendas, depois deste anúncio, irão quebrar. Assim como assim, com ou sem frio, eu opto por não o comprar, nunca.
Power Balance
Foi hoje notícia por todo o mundo a condenação da empresa que comercializa a pulseira Power Balance por publicidade enganosa. Facto que só estranho por tardio, pois jamais acreditei nas maravilhas da banha da cobra, principalmente quando ela é vendida por fulanos, armados em pintaloras e com discursos manhosos. Mas a verdade é que, talvez há dois ou três anos, não havia quem não as passeasse nos pulsos, garantindo que por isso até conseguiam caminhar, correr, descer e subir escadas, andar a cavalo, nadar, dormir e acordar, ressonar e copular com maior equilibrio (?!)...
Claro é que foram os azeiteiros da bola e das artes em geral, os primeiros a fazerem-se fotografar com as ditas nos pulsos... Rica publicidade, dirão alguns. Desconfio que hoje, ao saberem da admissão da falta de credibilidade científica que sustente tanto equilíbrio, todos aqueles que ainda as trazem, sentiram-se logo desequilibrados e sem força, concerteza, em várias partes do seu organismo. Coitados. Tudo isto só vem comprovar que a tentação para a vigarice e para o logro é contemporânea e também sabe servir-se dos discursos actuais da globalidade e das novas tecnologias.
"Por 38 euros, melhore o seu equilíbrio com a pulseira de silicone Power Balance. Desenvolvida por um cientista da NASA, possui dois hologramas que entram em contacto com o campo energético do corpo, aumentando a sua eficácia." ...dizia a publicidade.
(Albano Jerónimo, o actor)
(Cristiano Ronaldo, o jogador)
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