Entre 25 e 27 de Junho de 2012 por terras de Chaves e de Verin
---------"Viajar, ou mesmo viver, sem tirar notas é uma irresponsabilidade..." Franz Kafka (1911)--------- Ouvir, ler e escrever. Falar, contar e descrever. O prazer de viver. Assim partilho minha visão do mundo. [blogue escrito, propositadamente, sem abrigo e contra, declaradamente, o novo Acordo Ortográfico]
02 julho 2012
de congresso, encontros e afins...
- Travisan, Dalton (1984), Cemitério de Elefantes, Lisboa, Relógio D'Água;
- Figueiredo, Elisabete (Coord.) (2011), O Rural Plural - olhar o presente, imaginar o futuro, Castro Verde, 100 Luz;
- Godinho, Paula (2010), Festas de Inverno no Nordeste de Portugal - património, mercantilização e aporias da cultura popular, Castro Verde, 100 Luz;
- Santos, Eurico de Oliveira (2004), O Agroturismo e o Turismo Rural em propriedades da metade sul do Estado do Rio Grande do Sul, Porto Alegre;
- Pessoa, Miguel (1998), Villa Romana do Rabaçal, Penela, Câmara Municipal de Penela;
- Lizardo, João (2009), Caseiros e senhorios nos finais do século XX na Madeira - o processo de extinção da colonia, Porto, Edições Afrontamento;
- Santos, J. Loureiro dos (2012), Forças Armadas em Portugal, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Rosa, Maria João Valente (2012), O envelhecimento da sociedade portuguesa, Lisboa, FundaçãoFrancisco Manuel dos Santos;
- Buescu, Jorge (2012), Matemática em Portugal - uma questão de educação, Lisboa,FundaçãoFrancisco Manuel dos Santos;
Etiquetas:
Biblos
25 junho 2012
em chaves...
A decorrer entre hoje, 25 de Junho e 27 de Junho. Veja aqui o programa do congresso e conheça em pormenor os conteúdos: o científico, o cultural e, principalmente, o gastronómico do encontro. A expectativa é grande e a minha participação acontecerá no painel 6 -Turismo em espaço rural e alimentação, no dia 27 a partir das 9 da manhã. Apareçam.
21 junho 2012
autor desconhecido e misantropo...
Já ouvira falar do seu nome aquando da atribuição do prémio Camões, mas até então nada sabia ou conhecia deste brasileiro que se esconde algures no interior brasileiro. Recentemente ofereceram-me este pequeno livro e hoje foi o dia em que, de uma só vez, o li e gostei. Gostei muito. Escreve bem este Dalton Trevisan - não sei, mas este nome soa-me a pseudónimo. Agora que o li, vou querer ler mais e procurar saber mais sobre esta personagem que, pelo pouco que agora sei, não gosta muito de aparecer, nem de se misturar em actos sociais ou recreativos. Aqui há dias foi notícia o seu agradecimento público ao governo português pela atribuição do prémio Camões, mas informou que não poderia estar presente na cerimónia. Num tempo hiper-mediatizado e onde a imagem vale tudo ou quase, saber de alguém que se refugia num anonimato quase absoluto e, ainda assim, tem sucesso e é reconhecido, é muito inspirador. Respeito. Sem dúvida, obra a descobrir.
12 junho 2012
ferido de morte
Estou habilitado para conduzir desde meados de 1992, tenho veículo próprio desde 1994 e estes dois factos foram contemporâneos da conclusão e abertura de todo o traçado do IP4. Por motivações que então a razão desconhecia, mas que exultavam o coração, passei a frequentar com muita frequência essa estrada, o que me permitiu conhecê-la e reconhecê-la em cada quilometro, em cada linha contínua e em cada curva. Conheci o IP4 na sua extensão como as palmas das minhas mãos. Agora que, por motivações que o coração desconhece, mas que exultam a razão, continuo a viajar entre as duas extremidades da sua extensão e depois de quase 20 anos de experiência, continuo a considerar que, salvaguardando um ou outro segmento, o IP4 é uma estrada com qualidade e segura. Continuo a responsabilizar os automobilistas pelas tragédias aí ocorridas. Eu, em todos estes anos e viajando em todas as horas do dia e da noite, de Verão e de Inverno, experimentei várias aventuras, vários perigos, vários sustos, mas felizmente e até hoje, não tive qualquer problema digno de registo. Conto sobreviver-lhe.
Desde o momento em que iniciaram as obras da futura A4 que, infelizmente, se vai sobrepor a grande parte do antigo traçado do IP4, transitar nele tornou-se bastante mais difícil e mais perigoso. Obras intermináveis e que lentamente vai fazendo desaparecer esse IP. Aliás, quem não conheceu bem o traçado anterior, dificilmente hoje o consegue reconhecer na confusão dos separadores e desviadores. Mas eu, procurando o pormenor na paisagem, ainda o consigo vislumbrar a espaços e em muitos lugares, no mesmo instante sou invadido por um conjunto de memórias associadas a esses mesmos lugares.
Voltarei em breve, espero, para então e finalmente escrever o seu epitáfio.
vem aí...
(nas bancas a partir da próxima semana)
Projeto
Editorial
1
A Vírus é uma revista
com edição semestral iniciada em junho de 2012. Tem tido, e continuará a ter, uma
edição online consultável agora no site: www.esquerda.net/virus
2
A nova série da Vírus,
agora em edição impressa, define-se como um espaço de debate de ideias e de intervenção
direcionado para o entendimento crítico da realidade e para a construção de alternativas democráticas
e socialistas à violência predatória do capitalismo e à deriva autoritária dos
seus governos e do seu Estado.
Esse
é o seu objetivo.
3
Com esse fim, a Vírus
fomentará o concurso e o debate de todas as opiniões que, à esquerda, queiram contribuir para
uma consistente corrente contra-hegemónica e para a superação da (des)ordem atual.
Esse
é o seu campo.
4
A Vírus afirma-se como
espaço de reflexão, discussão, formação e divulgação de apoio às e aos ativistas nos
terrenos da política, dos movimentos sociais, da intervenção cultural, científica e cívica ou de uma
cidadania informada e com opinião.
Simultaneamente, recebe
do seu pulsar, das práticas sociais mais diversas, o influxo inspirador para o seu
trabalho.
Esse
é o seu compromisso.
5
A Vírus pretende fazer
eco e participar ativamente nos grandes debates do internacionalismo, dar
conta dos seus passos e desafios, uma vez que não há soluções puramente nacionais ou
autárquicas para a ação emancipatória.
Esse é o seu âmbito.
metalinguagem...
As longas e solitárias viagens, ao volante pelas estradas, são espaços de apurada reflexão. A reflexão desta última viagem foi acerca destas serem tempos de reflexão apurada.
11 junho 2012
"onze por todos e todos por onze"
Deixa-me com urticária ouvir repetidamente este anuncio que, por estes dias, invade as estações de rádio e os canais de televisão. Como se esses onze "eleitos" me representassem nalgum sítio ou de alguma maneira. Bem sei que é Portugal que está a jogar e a disputar um campeonato europeu, e eu gosto que Portugal vença sempre, ou quase, mas daí até ao fanatismo que se pretende instalar vai um grande espaço. Ouvir da boca de alguns jogadores frases mal lidas em que o suposto orgulho nacional é colectivo é ofensivo para aqueles que realmente trabalham diariamente e procuram honrar sempre a sua profissão, o seu serviço, a sua empresa, a sua cidade, região e país. Não suporto a declarada intenção de nos projectarem, enquanto colectivo, naquele pequeno grupo de cidadãos nacionais, como se o presente e, principalmente, o futuro dependesse daquilo que eles conseguirem ou não conseguirem.
Felizmente, a estúpida manifestação proposta pelo brasileiro estúpido, que em 2004 comandou esse grupo de "eleitos", de colocação de bandeiras portuguesas em tudo que fosse autoclismo e bidé, foi esquecida e os resquícios são residuais. Esperemos que seja qual for o trajecto desta selecção consigamos fazer a coisa com brio e elevação e que a vida, a de cada um em geral e a colectiva em particular, possa recuperar deste desgaste e deste ataque civilizacional.
Sei que os onze não estão por todos e desconfio que nem todos estão pelos onze. Mas isso sou cá eu, retorcido.
Etiquetas:
actualidades
08 junho 2012
07 junho 2012
Isaltino Morais dixit...
"Acham que o combate à corrupção deve ser feito com manifestações em praça pública, quando a corrupção deve ser combatida com leis claras e transparentes. E quando chega a absolvição muitas vezes já é tarde porque já foi causado muito sofrimento e as famílias já foram muito afetadas e mesmo quando chega a absolvição, não se dá importância a isso".
Havemos de rir ou havemos de chorar?!
06 junho 2012
cristas de razão...
A construção da barragem na foz do rio Tua foi, desde o seu início, uma guerra entre os defensores do meio ambiente e os exploradores dos recursos naturais. Por princípio e, depois, por responsabilidade cívica, sempre estive do lado dos defensores do meio ambiente e contra a construção desta barragem. Por tudo aquilo que estava em jogo, só um lobby muito forte conseguiria ter argumentos para essa construção e a EDP e o seu CEO, António Mexia, conseguiram a proeza. Contra todas as evidências e pareceres técnicos que demonstravam que essa construção não traria qualquer mais valia energética e que com ela todo um património natural e cultural desapareceria. Confesso que sempre achei que esta era uma batalha perdida e que a força do betão seria decisiva. Pois bem, enganei-me e ainda bem, bastou a UNESCO ameaçar com a perda do estatuto de património mundial do Douro vinhateiro, para novamente esse assunto regressar à ordem do dia e aquilo que era uma certeza deixar de o ser.
A notícia do dia de ontem são as tristes palavras da ministra Assunção Cristas que admite que agora o problema é o Estado não ter dinheiro para mandar parar as obras. Como é possível?! Como é possível o Estado saber que a obra não terá qualquer serventia; saber que corre o risco de desqualificar toda uma região que é património da humanidade e, afinal, não agir porque os constrangimentos financeiros não permitem pagar qualquer tipo de indemnização. Ao ter conhecimento destas notícias, desanimado, questiono porque não se responsabiliza quem criminosamente actuou em nome do Estado? Mas afinal que país somos nós?
Etiquetas:
actualidades
05 junho 2012
livros e livros
Em actualização da base de dados, aproveito para aqui registar os últimos livros a chegarem à colecção.
De antes da feira do livro:
- Vaz das Neves, Dom Abílio (1946), Constituições do Bispado de Bragança e Miranda, Bragança, Diocese Bragança e Miranda;
- Comissão Executiva das Comemorações (1997), Páginas da História da Diocese Bragança-Miranda - actas de congresso, Bragança;
- Fernandes, Maria da Conceição Correia (2001), Uma História da Diocese de Bragança-Miranda, Lisboa, Diocese Bragança-Miranda;
- Pires, Padre Baltazar e Pires, Padre Francisco Videira (1950), A Virgem Peregrina na Diocese de Bragança, Coimbra;
- Sousa, Fernando de (coord.) (2012), Memórias de Bragança, Bragança, Câmara Municipal de Bragança;
- Martins, Miguel Ferreira (2012), Direito e Interioridade - actas dos I, II e III Cursos de 2008, 2009 e 2010, Coimbra, Coimbra Editora;
- Teixeira, Padre Alfredo Augusto (org.) (2004), Servas Franciscanas Reparadoras de Jesus Sacramentado - cinquenta anos de vida, Bragança;
Da feira do livro:
- Lopes Filho, João (2004), Agrupamentos de Folclore - ontem e hoje, Lisboa, Inatel;
- Ramos, Francisco Martins (2006), Breviário Alentejano, Vale de Cambra, Caleidoscópio;
- Valente, José Carlos (1999), Estado Novo e alegria no trabalho - uma história política da FNAT (1935-1958), Lisboa, Edições Colibri e Inatel;
- Cabral, António (1999), Tradições Populares I, Lisboa, Inatel;
- Cabral, António (1999), Tradições Populares II, Lisboa, Inatel;
Etiquetas:
Biblos
31 maio 2012
abertura...
Não sei em que Natal ou aniversário o tio mais novo da minha filha lhe ofereceu o jogo "The Beatles rockband" para a playstation 3. Sei que cada vez que ela joga e eu estou por perto, fico fascinado com o genérico inicial, que funciona como que uma abertura para o espectáculo que a seguir cada jogador poderá experimentar e ser o artista principal. Cada vez que ela joga, eu para além de aumentar estupidamente o som da televisão, repito uma ou mais vezes... Experimentem.
26 maio 2012
"...entas"
Entrei hoje, oficialmente, no última ano dos trintas. Esse facto foi assinalado por aqueles que me rodeiam e que, de uma forma ou de outra, de mim gostam; fui agraciado e presenteado; estive com o pequeno núcleo familiar que, diga-se a propósito e como podem constatar na fotografia, está a crescer e de pequeno tem cada vez menos... Passei assim um bom dia, tranquilo e farto de coisas boas. Muito obrigado a todos e a todas que hoje estiveram comigo. Apesar de considerar que, tecnicamente, experimento já o quadragésimo ano da minha ontologia, houve hoje uma recorrente e transversal afirmação que guardei com especial cuidado: - Estás quase a entrar nos "entas"... E de lá não sais mais...
Pois é verdade e tenho perfeita consciência desse facto. Consigo encará-lo com tranquilidade, apesar de sentir todos dias o peso do tempo que passa e com ele a minha vida. Venham então esses próximos 365 dias que serão, concerteza, um instante desse tempo maior que é a vida. O resto não sei, nem vivo muito preocupado com o que poderá vir a ser. Agora, venham esses "entas" com força e, já agora, que sejam pelo menos alguns e bons. Tenho dito.
22 maio 2012
sem pré-aviso...
A notícia chega sempre num sobressalto e apanha-nos sempre e irremediavelmente impreparados e surpresos. Tudo começa por ser não mais do que um boato, sujeito a novas e outras informações e confirmações, mas desde logo anunciam uma tragédia. Principalmente quando se sabe que a vida ainda poderia ser vida e, por mote próprio, se antecipa esse fim. É triste, sempre e muito triste, mas compreensível quando essa vida degenera e se torna insuportável e inviável. Aceito esse livre-arbítrio.
Revista Brigantia
(capa revista nº 0 de 1981)
Não
percebo porque é que deixaram de publicar a Revista Brigantia. É que já desde
2008-2009 não sai nenhum número e, por mais que questione e procure respostas,
ninguém me dá qualquer justificação minimamente razoável para este longo
interregno. Desapareceu, extinguiu-se, ou melhor, extinguiram-na, desistiram
dela?!...
Nos
últimos meses tenho conversado e questionado alguns dos intervenientes que
julgo terem alguma responsabilidade pela sua existência e publicação e aquilo
que tenho conseguido são não-respostas, ou seja, a negação da sua extinção, por
um lado, e a desresponsabilização, por outro lado. Inaceitável e a dúvida
persiste: Porquê?
Numa
destas últimas semanas, o Jornal Nordeste trazia-nos uma pequena notícia,
assinada por Marisa Santos, acerca de uma reunião da Assembleia Distrital de
Bragança (ADB), proprietária da revista, e da vontade desta em manter a
Brigantia. Muito bem, terão pensado muitos dos leitores e diria eu, se me
limitasse às letras gordas, mas a verdade é que a actual ADB parece não
compreender a importância e o valor de uma publicação como a Brigantia e, ao
contrário do que afirma o presidente da ADB, não “é preciso prestigiar a Brigantia”, pois ela sempre foi uma revista
com prestígio e reconhecida, não só pelas comunidades da região, como por
inúmeros investigadores, estudantes e estudiosos, em Portugal e no estrangeiro,
que a ela recorriam não só como fonte de informação e conhecimento, como também
enquanto acervo de um saber multidisciplinar acerca da região, e também como
espaço para publicação da produção académica ou outra. Mesmo em tempos mais
recentes, com uma edição muito intermitente e sem qualquer regularidade, a
revista mereceu a referência em inúmeros estudos, investigações e publicações.
Não saber ou não ter consciência disto é não merecer o legado recebido daqueles
que, concerteza, com maior dificuldade conseguiram construir este projecto.
Relembro as palavras iniciais, escritas pelo seu mentor e dinamizador, o Dr.
Belarmino Afonso, no volume I - No 0 de 1981: "Brigantia é uma revista nova. (...) Tentará veicular tudo o que é
reflexo do trabalho criador do homem das terras nordestinas. O social ou o
económico, o religioso e o artístico, o arqueológico e o etnográfico, bem como
outros campos da cultura regional, são aspectos complementares da realidade
cultural humana que é necessário analisar. (...) Mais do que um simples registo
documental, pretende criar um espaço de vida e reflexão." A triste
realidade da revista, nos seus últimos anos de publicação e por
responsabilidade desta ADB, é que perdeu essa vivacidade - veja-se a diminuição
de números de revistas publicadas por ano - e adquiriu um carácter eminentemente
monográfico e dedicado à efeméride.
É
por ter consciência dessa sua condição precária e considerar que, apesar de
tudo, não só há espaço editorial, como haverá sempre conteúdos e receptividade
por parte de diferentes "públicos" e "autores", que
considero inaceitável que se deixe desaparecer a única publicação cultural,
digna desse nome e com cerca de trinta anos de existência. Importa aqui uma
referência aos vários projectos editoriais que foram surgindo na região e que,
numa outra dimensão e num outro universo, foram, são e serão sempre mais-valias
para o reconhecimento da região transmontana.
É
lamentável e triste que a ADB, enquanto sua proprietária, constituída pelos
autarcas eleitos na região e que tanto investem anualmente em iniciativas de
caracter etnográfico, recreativo e cultural, muitas vezes iniciativas de valor
duvidoso, não consiga dispender a verba relativamente pequena necessária para a
regularidade editorial da Brigantia.
Olhando
para a história desta revista podemos verificar como durante muito tempo foram
editados entre dois a quatro números por ano e que, à medida que nos aproximamos
do presente, esse número passou a um único anual. O último volume correspondeu
a dois anos (2008 e 2009). Mas a questão central, quanto a mim, não é o número
de revistas publicadas, mas sim o formato e o modelo de gestão, ou se
preferirem, de propriedade da mesma. Concerteza, na época em que foi lançada a
revista - 1981, faria todo o sentido a proprietária da mesma ser a ADB, mas
actualmente não me parece que esse seja o melhor modelo de gestão, pois,
parafraseando o actual presidente da ADB, não será a revista, mas sim a própria
ADB quem precisa de credibilidade; não será a revista Brigantia mas sim a ADB
quem sofre de anacronismos...
Não
se percebe o desinteresse dos ilustres membros da ADB pela revista. Não se
percebe porque deixaram de contribuir com a sua parte para a sua edição. Assim
como não se percebe que, tendo havido financiamento para a publicação, ela não
se concretizasse.
Mais do que ficar calado ou proferir gratuitas
criticas, importa-me alertar as consciências e contribuir positivamente para
que a revista ressurja. Assim sendo e tal como já sugeri anteriormente, há que
procurar novas formas de financiamento, novas parcerias, novas colaborações,
novos formatos de edição. Uma segunda vida para a Brigantia precisa-se para que
possa "ser um encontro de pessoas
com perspectivas diferentes, mas enriquecedoras de uma única realidade cultural
de que somos portadores conscientes." (Belarmino Afonso em 1981).
(texto enviado para o Jornal Nordeste)
15 maio 2012
"ocupar o comum"
Na edição do mês de Maio do Le Monde Diplomatique - Edição Portuguesa, Sandra Monteiro escreve um excelente artigo que entendo como explicação para tudo aquilo que tem sido o discurso da "crise" enquanto agenda de uma lógica neoliberal e de perseguição à dimensão pública dos estados e das sociedades ocidentais. Já o li no início do mês, mas para o referir precisava de escrever algumas citações e por isso aguardei até estar disponível na sua integridade. Aqui fica, ou então na sua versão original:
Para os defensores do neoliberalismo, não faz mal acabar com serviços e actividades reconhecidamente eficientes, de qualidade e utilidade social, desde que estejam reunidas pelo menos uma destas condições: que seja um modo de transferir para a esfera do privado recursos que antes pertenciam ao público, promovendo oportunidades de negócio; que seja um modo de eliminar do campo das experiências dos cidadãos formas de fazer em comum que possam favorecer o seu apego a instituições públicas, a finalidades não-lucrativas, a lógicas cooperativas e participativas.
É nesta engenharia de reconfiguração da sociedade que se enquadram o anunciado encerramento da Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, ou o despejo da Es.Col.A. da Fontinha, no Porto. Por muito que a violência demolidora da vida em sociedade a que estamos a assistir o possa sugerir, o que está em causa não é, para o projecto neoliberal, acabar com o Estado, mas antes desviá-lo das suas funções sociais e redimensioná-lo à medida da avidez de mercados instáveis e de interesses privados. Não está também em causa acabar com toda e qualquer iniciativa de cidadãos que se mobilizem autonomamente para intervir na sociedade, mas tão-somente a daqueles que o fazem, até em regime de voluntariado, associando a supressão das falhas dos poderes públicos a propostas transformadoras das comunidades que não sejam redutíveis aos valores do pensamento único, à forma económica da troca mercantil e do lucro, ao formato de gestão do «empreendedorismo social».
O neoliberalismo nada tem contra haver Estado suficiente para parcerias público-privadas desastrosas para o erário público; para tráficos de influências e garantias de proveitosas carreiras; para salvamentos de bancos nacionais impostos por um sistema financeiro internacional que confisca a democracia; para sistemas educativos que formem elites ou para sistemas de saúde que se ocupem dos doentes que não são rentáveis para a medicina privada. O neoliberalismo nada tem contra haver na sociedade autonomia suficiente canalizada para o assistencialismo ou a caridade, desde que essa acção não questione intelectualmente, nem abale através de práticas, o imobilismo trágico das desigualdades socioeconómicas e a irracionalidade de um modelo económico iníquo.
Valores, práticas e finalidades são o que distingue os projectos em confronto nas sociedades. São eles que separam, por um lado, os que concebem uma comunidade como organização em que se afere, de acordo com modalidades democráticas e participadas, quais os bens comuns a prosseguir; e, por outro, os que nela vêem um somatório de interesses individuais e privados em que os mecanismos da competição farão emergir os mais fortes e, supletivamente, obrigarão a encontrar as formas de assistência aos mais fracos que eternizarão a rigidez dos lugares sociais. É neste antagonismo quanto a valores, práticas e finalidades que reside o essencial das escolhas de sociedade. Tudo o mais diz respeito aos actores que dão corpo a essas escolhas e às alianças e contágios entre as diferentes esferas em que os actores se movem; no quadro das relações de força em cada momento existentes, essas alianças e contágios podem ser potenciados ou impedidos.
Se os efeitos que se quer alcançar forem a densificação da democracia, a restauração dos serviços públicos e do Estado social e a reconstrução de comunidades de bem-estar, será que mantém utilidade e capacidade explicativa uma grelha de análise que encerre nos vértices de um triângulo três pólos que não se sobrepõem nem têm afinidades a aproximá-los ou separá-los? Com efeito, a imagem que nos habita tende a ser a de um triângulo − mesmo que o possamos ver equilátero, isósceles ou escaleno. Ele representa três sectores da sociedade separados e estanques: o público, o privado e o terceiro sector (ou economia social). A mesma figura geométrica ressurge se pensarmos em termos de três esferas de actividade traduzidas no Estado, no mercado e na actividade cooperativa ou solidária. Dada a correlação de forças, esta imagem tem estado revestida por uma capa de naturalidade e fixidez, quando ela traduz uma visão que não é neutral, mas política. E tem servido, sobretudo, para permitir que ocorram longe da visibilidade do debate público todas as formas de disputa e de captura que o poder, cada vez mais forte, dos mercados (isto é, dos interesses privados que estes representam) tem vindo a operar em relação aos sectores público e cooperativo.
Há por isso vantagem em encontrar arranjos e parcerias alternativas que estilhacem estas lógicas que se encontram em acção e que, mantendo a noção de que todos estes três pólos são construções em aberto, desloque a aliança estratégica para o lado do público e do cooperativo. As modalidades dessa redefinição de alianças podem ir da simples cedência de espaços públicos até outras mais entrosadas, como por exemplo a extensão dos âmbitos de actividade em que se ensaiam formas económicas não-mercantis e em que se beneficia mutuamente de economias de escala.
A constituição desta aliança, mais ou menos formal, fará com que o campo do público e da cidadania tenha mais condições para disputar ao privado o conjunto de valores, práticas e finalidades que projecta para a sociedade. Talvez seja dos contágios entre racionalidades de serviço público, participação democrática, organização cooperativa, não desbaratamento de recursos com a exploração e o lucro, e prossecução de objectivos de sustentabilidade ecológica e de bem-estar social que possam vir a surgir alianças duradouras entre o Estado e as organizações de cidadãos − movimentos, associativismo, economia social − que fortaleçam ambos em detrimento dos interesses privados. Ocupar este espaço do comum é uma forma de romper com o consenso neoliberal assente no pensamento único, na prática única. É, certamente, uma forma de reapropriação do futuro.
processo civilizacional
Quando apareci em casa com o Ipad, deu-me a sensação que nem tive tempo de por os dois pés dentro de casa e já estava a ser interrogado: - Mas para que precisas tu disso?!... De facto, na altura a utilização do verbo "precisar", desarmou-me e deixou-me sem capacidade de resposta. Mas também não foi preciso passarem muitos dias até alguém, que não eu, ter descoberto uma função bastante útil para o meu desnecessário gadget. Pois claro, nada melhor do que um Ipad para colocar em frente à criança para a distrair enquanto come a sopa e o demais... Muito bem. Assim tem sido e, de facto, a sua utilidade deixou de ser questionada. Essa rotina de visitar o "Tubo" à procura de temas apropriados para uma criança de um ano, levou-me a (re)descobrir esta música do Sebastião.
A letra desta curta versão da música diz o seguinte:
“Sebastião come tudo, tudo, tudo
Sebastião come tudo sem colher,
Sebastião fica todo barrigudo,
Chega a casa e dá beijinhos na mulher”
Mas algo me soava mal, pois aquilo que recordo do meu tempo - sim, quando eu era criança já cantávamos isto - era uma letra ligeiramente diferente e dizia assim:
“Sebastião come tudo, tudo, tudo
Sebastião come tudo sem colher,
Sebastião fica todo barrigudo,
Chega a casa e dá porrada na mulher”
Pois muito bem, a conclusão a que se chega é que no espaço de cerca de 30 anos, o processo civilizacional pôs o Sebastião a dar beijinhos à mulher em vez de porrada, apesar de continuar a comer sem colher, ou seja, com as mãos. Quantos mais anos serão precisos para esse processo obrigar o Sebastião a comer com talheres?!...
13 maio 2012
instante urbano xx
Para ser justo, este instante não deveria ser urbano, mas tentemos encaixá-lo numa certa e determinada urbanidade...
Em noite de festa e num café de nome desconhecido, mas com publicidade da marca Delta, encosto-me ao balcão para tomar café. Do lado de dentro do balcão quatro moças que com destreza e sincronia vão dando resposta às inúmeras solicitações a ao aparente caos instalado. Enquanto observo os seus modos e os seus desempenhos, um outro freguês, mesmo ao meu lado, encosta-se ao balcão e chama uma das moças pelo nome e pede-lhe dois gigantes. Ela, enquanto avia outro pedido, olha de relance para ele. Eu não percebi aquele pedido e fiquei curioso para ver o que lhe iria servir. Logo a seguir, ela abre uma gaveta e saca de lá um maço de cigarros, retira dois e estende-lhos para a mão, recebendo em troca um valor em moedas que, infelizmente, não pude quantificar e que não teve troco. Quando se virou para mim, simpática, tive mesmo vontade de lhe pedir um café e um gigante, pois não tinha presente que, ainda hoje, era possível comprar tabaco assim.
Em noite de festa e num café de nome desconhecido, mas com publicidade da marca Delta, encosto-me ao balcão para tomar café. Do lado de dentro do balcão quatro moças que com destreza e sincronia vão dando resposta às inúmeras solicitações a ao aparente caos instalado. Enquanto observo os seus modos e os seus desempenhos, um outro freguês, mesmo ao meu lado, encosta-se ao balcão e chama uma das moças pelo nome e pede-lhe dois gigantes. Ela, enquanto avia outro pedido, olha de relance para ele. Eu não percebi aquele pedido e fiquei curioso para ver o que lhe iria servir. Logo a seguir, ela abre uma gaveta e saca de lá um maço de cigarros, retira dois e estende-lhos para a mão, recebendo em troca um valor em moedas que, infelizmente, não pude quantificar e que não teve troco. Quando se virou para mim, simpática, tive mesmo vontade de lhe pedir um café e um gigante, pois não tinha presente que, ainda hoje, era possível comprar tabaco assim.
um arraial minhoto


Largo da Igreja e centro cívico da localidade apinhado de gente vinda de todas as redondezas, coreto e torre sineira devidamente iluminados e decorados, por todo lado barracas de farturas, pipocas e outras doçarias, ao longe e num campo que se estende em frente à igreja, a luz e o som dos carrinhos de choque, carrocéis e afins. À medida que a noite cai, este espaço vai ganhando cada vez mais vida e a concentração da gente em frente a um enorme palco, indica que o momento grande do arraial ainda está por vir. A curiosidade e a ansiedade, e para alguns a impaciência, vão crescendo. É perceptível. Os mais velhos, que chegaram primeiro vão-se encostando onde podem ou escolhendo os lugares estratégicos para uma observação não-participante. Os mais novos, aos pares ou em grupos maiores, também se vão aproximando, constituindo uma massa crescente de festeiros. Ao olhar com mais atenção também posso perceber o cuidado e o preparo para vir à festa. A sua festa.
A noite promete. Do lugar onde me encontro a observar, sinto-me igualmente observado e um corpo estranho a todo o ambiente. O cheirinho a farturas que permanentemente o vento me traz ao nariz, associado ao desconforto do estômago, leva-me a querer ir lá busca uma. Não posso, ainda.
Finalmente, os artistas chegam e num aparato, algures entre o pimba e o xunga, sentados num carocha descapotável que rasga pelo meio da "multidão" e acenando ao público, que não retribui os cumprimentos... A apresentadora não cala uma elegia ao grande sucesso da dupla -Marcelo e Alex - e tudo é feito com grande sonoridade, mas sem grande entusiasmo ou adesão do público que permanece estranho ao que assiste. Pelo meio de uma enorme neblina colorida e com um estridente som exótico, a dupla certaneja entra em palco, precedida por um potente trio de bailarinas brasileiras que de imediato se desnudam e, assim, chamam a atenção ao que se passa no palco. O que se passou a seguir foi mau demais para aqui ser relatado e recordado. Um espectáculo muito mau, sem qualidade e acima de tudo desonesto, pois tudo era playback e aquela gente pagou um valor, independentemente de elevado ou não, por uma farsa e, ainda por cima, sem qualquer qualidade. Por exemplo, a determinado momento, perto do fim da actuação, quiseram apresentar os membros da banda. Ao nome de cada um, respondiam com um pequeno solo. Que desastre... Instrumentos desligados, outros desafinados, outros não sabiam tocar e, para cúmulo, o líder da banda nem o nome de alguns dos seus músicos sabia... Ficou tudo registado e eu incomodado por saber esta gente aldrabada.
Estamos no mês de Maio, mas aquilo que presenciei remeteu-me de imediato para os meus ambientes rurais do mês de Agosto, mês, por excelência, de todas as festas e arraias. É verdade, não cheguei a comer nenhuma fartura.
11 maio 2012
instante urbano xix
Foi no início da tarde que, acompanhando um amigo, entrei pela primeira vez num espaço gourmet. Não andando à procura de nada e para me entreter enquanto ele procurava o que queria, pude contemplar ao pormenor muitos dos produtos expostos. Desde logo reparei que quase todos os produtos se apresentam em pequenas quantidades ou doses, depois todos, sem excepção, apresentam-se de uma forma cuidada e apelativa - nas cores, nos materiais utilizados para embalagem e nos textos ou simples marcas. Como não podia deixar de ser, reparei nos preços e devo dizer que me confundiu ver pacotes de batatas fritas a 6, 7 e 8 euros... ou latas de atum em conserva a 3 e 4 euros... ou pacotes com 4 bolachas a 12 euros... Pude também constatar que não haverá um produto ao qual não seja possível inventar a sua versão gourmet. Por motivação académica procurei produtos certificados (DOP's ou IGP's), mas não encontrei nenhum. Enfim, tudo muito giro e apelativo, concerteza até saboroso, mas desconfio, muito vulnerável às modas dos tempos; e como os tempos de agora são propícios a modas minimalistas e económicas, não se adivinham fáceis para a produção e importação de tais especialidades. É verdade, se calhar apenas uma coincidência, mas não estava mais nenhum cliente na loja...
10 maio 2012
polikuchka
De novo ao encontro do "Leão" Tolstoi e de uma sua novela de cariz popular, que retrata o ambiente quotidiano dos indivíduos e comunidades russas em pleno século XIX. Somos levados pela impressionante e expressiva escrita a conhecer as aventuras e desventuras do pobre Polikuchka. Não conhecia este conto de Tolstoi e fui encontrá-lo numa velha (1972) edição de bolso das Edições Europa-América, em casa do meu pai.
novo sítio...
A partir de hoje também estarei disponível para ser "visitado" e "conhecido" em www.valedovale.net O atalho para este sítio estará sempre disponível nos "atalhos partilhados" e no "meu perfil". Visitem-me e, já agora, conheçam meu ego-centrismo... O aspecto da coisa é este:
02 maio 2012
França e o resto dos dias desta europa...
Confesso que em condições normais, e ao longo de toda a minha vida, pouco ou nada liguei às eleições em França: a quem eram os candidatos, a quem ganhava, a quem perdia e a quais eram as consequências dessas vitórias e dessas derrotas. Contudo, a conjuntura mundial e, principalmente europeia, obriga-me a uma maior atenção e preocupação com aquilo que se passa nos quintais dos vizinhos, pois tenho bem a consciência de que nada adianta o meu quintal estar florido ou viçoso e os demais secos, pois mais tarde ou mais cedo, o destino do meu será idêntico aos demais. Portanto, acompanhei, ou pelo menos, monitorizei este acto eleitoral. À partido nenhum destes dois finalistas seria o meu candidato favorito, mas numa circunstância de 2ª volta, não hesito em afirmar o meu desejo que seja o candidato socialista, o candidato de uma pretensa esquerda a ganhar e a ser eleito para presidente da republica francesa. E isto por uma razão muito simples e fácil de aqui apresentar. É que, mesmo não sendo francês e não tendo voto na matéria, enquanto cidadão desta Europa não gostei de ver, ouvir e perceber, ao longo destes últimos tempos, a atitude completamente subserviente e submissa do presidente Sarkosi em relação ao poder da economia alemã e ao domínio da sua chanceler. Por outro lado, também não acredito verdadeiramente que caso Hollande vença consiga uma alteração significativa de paradigma. Contudo, decisiva é a percepção de que se Sarkosi vencer tudo continuará na mesma, senão pior, enquanto que a vitória de Hollande poderá ser a esperança, ainda que ínfima, de uma qualquer alteração de políticas e de paradigma não só em França, como para todo o espaço euro e toda a Europa. Por isto, simplesmente, o meu apoio tende para o candidato que agora se apresenta como "de esquerda".
Etiquetas:
actualidades
coisas simples...
Ele: O que vamos comer ao jantar?
Ela: Estava a pensar fazer grão-de-bico com atum e ovo cozido. Porquê?
Ele: Por nada. Ok, muito bem. E não é preciso ir comprar nada?
Ela: Não. Temos o grão e temos o bico...
Ele: Ah, então está bem...
Ela: Estava a pensar fazer grão-de-bico com atum e ovo cozido. Porquê?
Ele: Por nada. Ok, muito bem. E não é preciso ir comprar nada?
Ela: Não. Temos o grão e temos o bico...
Ele: Ah, então está bem...
01 maio 2012
degradação social e, sobretudo, humana...
O conhecimento e as imagens que nos chegaram da cadeia de lojas do Pingo Doce, um pouco por todo o país, é algo que nos deverá merecer a maior das reflexões. Não sei quais serão as consequências, mas confesso que jamais imaginei ser possível, assistir em Portugal a uma luta física por um produto à venda num supermercado. Para além da tristeza, fiquei alarmado pelas manifestações dos instintos mais básicos do ser humano e pelos significados de tais comportamentos. Do ponto de vista subjectivo, eu posso compreender a necessidade de cada uma daquelas pessoas, pois é algo substantivo, na conjuntura actual, para muitas famílias poder levar o dobro dos víveres por um mesmo preço. Mas todos nós teremos que reflectir acerca de tudo aquilo que está subjacente a esta corrida louca às prateleiras de supermercados.
Por outro lado, a responsabilização das instituições e nesse aspecto, a estratégia do Pingo Doce é de todo irresponsável, pois para além das consequências no próprio mercado e da própria (i)legalidade da iniciativa, introduziu um factor de provocação sociológica, na medida em que a escolha do dia 1 de Maio, feriado internacional e dia do Trabalhador, não foi inocente. Com uma campanha tão agressiva, esta marca conseguiu provar que a generalidade dos indivíduos, económica e socialmente fragilizados, troca facilmente a sua cidadania pela condição de consumidor. Pouco dignificante para a cidadania, para a democracia e para a própria civilização. Sinal dos tempos degradados que vivemos e experimentaremos...
Etiquetas:
actualidades
28 abril 2012
24 abril 2012
Miguel Portas R I P
Fui surpreendido ao final da tarde com a triste notícia da morte do Miguel Portas. Não que não soubesse da sua doença, do seu estado debilitado e da gravidade da doença, mas não tinha conhecimento ou notícias desta última recaída. Conheci o Miguel algures em 2005, numa conversa "Um café com Miguel Portas", promovida pelo BE Bragança, no café Pátio. Foi uma noite prolongada, de conversa e debate, onde o Miguel com a sua educação e cordialidade foi respondendo às perguntas e provocações lançadas por todos quantos quiseram participar. Apesar de não haver uma relação de grande proximidade, nos vários e diferentes momentos em que nos encontrámos - encontros temáticos, Mesas Nacionais ou Convenções - tinha sempre uma palavra simpática e de incentivo para a "luta" difícil no interior do país. Daquilo que pude testemunhar, o Miguel foi, de facto e apesar da sua simplicidade, um dirigente e um activista político de grande competência, firme nas suas convicções e, acima de tudo, capaz de ouvir e de dialogar com todos os outros. A última vez que falei com ele foi na Mesa Nacional de 4 de Fevereiro e estava aparentemente bem. Foi um honra e uma sorte conhecer o Miguel e aprender com o Miguel. Até sempre.
20 abril 2012
estado de negação, arrogância intelectual e pretensiosismo provinciano
Foi notícia no dia de ontem, aqui, que a "Europa está a criar um movimento alternativo ao pensamento que levou à crise actual". Muito bem, pensei eu. Problema desta notícia é que essas palavras vêem da boca do líder parlamentar do PS, Carlos Zorrinho. Mas diz mais. A partir de Roma, onde, segundo o próprio, está para participar na segunda Conferência de Líderes Parlamentares Progressistas, afirma que foi convidado (?!) para "fazer sessão de abertura" e que o objectivo é, passo a citar:
“É um encontro que visa constituir uma base, uma rede, de partidos progressistas à escala europeia, mas também à escala global, para conjuntamente formarem uma resposta às políticas neoliberais que têm vindo a criar tantos problemas em Portugal e também na Europa e no mundo”
Curioso o estado de negação no raciocínio deste "novo" iluminado, acabado de sair das trevas de um governo socialista, quando diz:“Julgo que se está aqui a iniciar um importante movimento alternativo ao, digamos, pensamento único que nos conduziu ao beco difícil em que estamos hoje”.
Carlos Zorrinho termina a sua auto-elegia dizendo:“o facto de o Partido Socialista português ter sido convidado” para estar na sessão abertura deste encontro de Roma, onde estão presentes “altas personalidades como Elisabeth Guigou [ex-ministra das Finanças francesa] ou Massimo D’Alema [ex-primeiro-ministro italiano]” e de António José Seguro estar presente no encerramento, também ao lado de “altas personalidades” europeias, “mostra bem importância que neste momento as posições do Partido Socialista português têm”. Aqui, já estamos todos a rir à gargalhada, pois não só o PS não tem tido qualquer posição, quanto mais relevância nacional ou europeia, como essas ditas "altas personalidades" foram, tal como o PS, igualmente responsáveis pelo estado a que chegámos.
Por fim, digo eu, que raio de autoridade terá este senhor para se promover a arauto dos pensamentos alternativos para a Europa?... Será que estes iluminados não têm vergonha na cara e se apercebem que o seu cu, não cabe nestas calças, ou como se diz na minha terra, a sua cara não bate certo com esta careta?! Pudor, senhores, pudor...
“É um encontro que visa constituir uma base, uma rede, de partidos progressistas à escala europeia, mas também à escala global, para conjuntamente formarem uma resposta às políticas neoliberais que têm vindo a criar tantos problemas em Portugal e também na Europa e no mundo”
Curioso o estado de negação no raciocínio deste "novo" iluminado, acabado de sair das trevas de um governo socialista, quando diz:“Julgo que se está aqui a iniciar um importante movimento alternativo ao, digamos, pensamento único que nos conduziu ao beco difícil em que estamos hoje”.
Carlos Zorrinho termina a sua auto-elegia dizendo:“o facto de o Partido Socialista português ter sido convidado” para estar na sessão abertura deste encontro de Roma, onde estão presentes “altas personalidades como Elisabeth Guigou [ex-ministra das Finanças francesa] ou Massimo D’Alema [ex-primeiro-ministro italiano]” e de António José Seguro estar presente no encerramento, também ao lado de “altas personalidades” europeias, “mostra bem importância que neste momento as posições do Partido Socialista português têm”. Aqui, já estamos todos a rir à gargalhada, pois não só o PS não tem tido qualquer posição, quanto mais relevância nacional ou europeia, como essas ditas "altas personalidades" foram, tal como o PS, igualmente responsáveis pelo estado a que chegámos.
Por fim, digo eu, que raio de autoridade terá este senhor para se promover a arauto dos pensamentos alternativos para a Europa?... Será que estes iluminados não têm vergonha na cara e se apercebem que o seu cu, não cabe nestas calças, ou como se diz na minha terra, a sua cara não bate certo com esta careta?! Pudor, senhores, pudor...
(negritos meus reforçando a minha percepção da palhaçada)
Etiquetas:
actualidades
17 abril 2012
tomates
A propósito da nacionalização de uma empresa petrolífera na Argentina, Sérgio Lavos no Arrastão escreveu e bem o seguinte:
«Cristina Kirchner, insatisfeita com os investimentos da maior empresa petrolífera argentina no seu país, decidiu nacionalizá-la. A Espanha não gostou, porque a empresa é detida em parte pela Repsol. A resposta da Presidente argentina esteve à altura: "Esta Presidente não responderá a qualquer ameaça", disse ainda. "Sou um chefe de Estado, não uma vendedora de legumes", frisou. "Todas as empresas presentes no país, e mesmo que o acionista seja estrangeiro, são empresas argentinas". Simples e directo; em questões de economia, o interesse nacional terá sempre de se sobrepôr aos interesses estrangeiros, sobretudo quando se trata de sectores estratégicos. Qualquer semelhança com a realidade portuguesa é pura coincidência.»
Etiquetas:
actualidades
13 abril 2012
um galo de barcelos
Amanhã, dia 14 de Abril, acontece a final da Taça da Liga em Coimbra e que será disputada pelas equipas do Benfica e do Gil Vicente. Como não poderia deixar de ser, no Portugal de hoje, durante este dias que antecedem esse jogo de futebol, foram vários os momentos e os apontamentos de reportagem, com directos televisivos e afins, acerca da preparação das duas equipas e acerca do pulsar das respectivas massas adeptas e simpatizantes. Aqui, uma nota para a clara distinção naquilo que é a relação entre cada um dos clubes e a cidade que os acolhe. Em relação ao Benfica, não me apercebi de qualquer esforço ou tentativa jornalística junto da população da cidade de Lisboa, enquanto que em Barcelos, pelo contrário, foram vários os momentos em que os seus habitantes foram confrontados com as câmaras de televisão e a curiosidade de um(a) jornalista, numa clara imputação de um estatuto de inferiodade destes perante o "Golias" que teriam que enfrentar...
Foi precisamente numa dessas preciosidades jornalísticas, de imenso interesse para o país, que pude assistir à boçal e maior imbecialidade dos últimos tempos. O senhor que tem o nome esquisito e, não por acaso, é presidente do Gil Vicente, perante todo o país, fez questão de anunciar a sua promessa para o caso de o seu clube vier a trazer o "caneco" para Barcelos. Este senhor, iluminado não pelo santo Galo de Barcelos, mas pelos euros que lhe sobram nos bolsos, comprometeu-se em caso de vitória do Gil Vicente a dar champanhe aos sem-abrigo da cidade de Barcelos durante uma semana. Espectacular ideia e, acima de tudo, a demonstração da sensibilidade e do cuidado para com o bem estar dos mais desfavorecidos. Assim de repente, não me ocorre outra necessidade que esses infelizes possam ter a não ser a embrieguez pelo "caneco" do generoso espumante. Aliás, já estou a ver as equipas de jovens voluntários locais, devidamente equipados e patrocinados, bem dispostos e sorridentes, a distribuirem garrafas ou copos do generoso e refrescante champanhe pelas ruas da cidade. Isto, claro é, seguidos bem de perto pelas equipas de reportagem de todos os órgãos de comunicação social nacionais. Adivinho até que esse mesmo bom samarinato não perderá a oportunidade para tirar mais um retrato, naquilo que é a sua promoção em direcção ao rídículo.
Poderia dizer-se que este é o triste mundo do futebol em Portugal, mas não. Teremos que admitir que este é o triste mundo português.
Foi precisamente numa dessas preciosidades jornalísticas, de imenso interesse para o país, que pude assistir à boçal e maior imbecialidade dos últimos tempos. O senhor que tem o nome esquisito e, não por acaso, é presidente do Gil Vicente, perante todo o país, fez questão de anunciar a sua promessa para o caso de o seu clube vier a trazer o "caneco" para Barcelos. Este senhor, iluminado não pelo santo Galo de Barcelos, mas pelos euros que lhe sobram nos bolsos, comprometeu-se em caso de vitória do Gil Vicente a dar champanhe aos sem-abrigo da cidade de Barcelos durante uma semana. Espectacular ideia e, acima de tudo, a demonstração da sensibilidade e do cuidado para com o bem estar dos mais desfavorecidos. Assim de repente, não me ocorre outra necessidade que esses infelizes possam ter a não ser a embrieguez pelo "caneco" do generoso espumante. Aliás, já estou a ver as equipas de jovens voluntários locais, devidamente equipados e patrocinados, bem dispostos e sorridentes, a distribuirem garrafas ou copos do generoso e refrescante champanhe pelas ruas da cidade. Isto, claro é, seguidos bem de perto pelas equipas de reportagem de todos os órgãos de comunicação social nacionais. Adivinho até que esse mesmo bom samarinato não perderá a oportunidade para tirar mais um retrato, naquilo que é a sua promoção em direcção ao rídículo.
Poderia dizer-se que este é o triste mundo do futebol em Portugal, mas não. Teremos que admitir que este é o triste mundo português.
10 abril 2012
pela boca morre o... homem
Pois é. Hoje na edição de papel do Jornal Público, Alexandra Prado Coelho a propósito de uma conferência da Gulbenkian sobre o futuro da alimentação, escreve sobre o pensamento de Tim Lang, inglês especialista em Política Alimentar que amanhã será orador convidado. Muito interessante aquilo que este autor afirma acerca da realidade mundial e nacional no que aos alimentos diz respeito.
Começa por desconstruir a ideia estabelecida que num futuro próximo os chineses irão ser os responsáveis pela insustentabilidade do sistema alimentar mundial, afirmando que o problema não são os chineses, somos nós, os ocidentais que consumimos por gula e prazer e não por necessidade... "No Reino Unido comemos como se houvesse três planetas, Nos EUA, eles comem como se houvesse cinco planetas".
Lang já há muito vem alertando para a necessidade de uma mudança de paradigma alimentar, apresentando precisamente a China como exemplo de como com pouco se pode fazer muito: "Uma imensa população vive apenas com 9% da terra disponível. E como é que o conseguiram? Comendo plantas".
A propósito de Portugal, afirma que nós tínhamos "uma dieta mediterrânica, barata, muito simples, baseada em produtos locais e da estação, mas uma série de mudanças - capitalismo, indústria alimentar, alterações de estilo de vida, aumento da riqueza, influências americanas, nos afastaram desse padrão alimentar".
Pedro Graça, outros dos oradores desta conferência, afirma que os estilos de vida mudaram, que o know how que se transmitia de geração em geração foi desaparecendo, assim como desapareceu o tempo que era necessário para confeccionar esse tipo de comida. "Era uma alimentação muito feita em casa, e pelas mulheres. hoje as mulheres saíram de casa para trabalhar. Há uma série de factores agressivos para a manutenção deste padrão alimentar". Por outro lado, a dieta tradicional baseava-se na produção local, ou mesmo auto-produção e, actualmente, os produtos frescos e locais adquiriram um estatuto e um carisma que os afasta economicamente da maioria das pessoas. O mesmo orador explica que a dieta mediterrânica é quase vegetariana... "os pratos são formas de enganar a escassez de carne, em que os enchidos ou o bacalhau, muito condimentados, dão um sabor mais forte, dando ideia da presença de carne e peixe".
Outra ideia muito interessante é a questão política e de educação das novas gerações, onde poderá e deverá ser realizado um esforço pedagógico para alterar esta situação, pois mesmo em Portugal a obesidade aumentou exponencialmente nos últimos anos. Actualmente em Portugal existem cerca de 1 milhão de obesos e 3,5 milhões de pré-obesos - preocupante.
Este apetite insaciável do mundo ocidental terá a sua explicação na II Guerra Mundial e na memória que muitos têm ainda da fome e da escassez. "Foi em resposta a esses medos que se deu a revolução alimentar que permitiu, através da tecnologia, produzir plantas mais resistentes e assim alimentar mais animais, e mais pessoas. Até se chegar ao ponto de fartura em que estamos hoje".
Pertinente é igualmente a questão que Tim Lang coloca: "Precisamos de ter trinta mil produtos no hipermercado?". É a altura de reflectir sobre o que queremos para o futuro. Este autor, que em meados dos anos 90 criou a expressão food miles para explicar os efeitos da globalização da comida: "quantos kms um alimento tem que viajar, e que pegada ecológica é que esse transporte deixa, para que possamos ter frutas tropicais à nossa mesa todo o ano?" Termina dizendo: "O vosso país não tem um sistema alimentar sustentável. Mas tem uma cultura e uma tradição fantásticas a partir da qual pode recomeçar. Só que tem que o fazer muito rapidamente".
Ora aqui está um tratado condensado de antropologia gastronómica, abrangente e assertivo. Pena é, amanhã, eu não estar em Lisboa.
Começa por desconstruir a ideia estabelecida que num futuro próximo os chineses irão ser os responsáveis pela insustentabilidade do sistema alimentar mundial, afirmando que o problema não são os chineses, somos nós, os ocidentais que consumimos por gula e prazer e não por necessidade... "No Reino Unido comemos como se houvesse três planetas, Nos EUA, eles comem como se houvesse cinco planetas".
Lang já há muito vem alertando para a necessidade de uma mudança de paradigma alimentar, apresentando precisamente a China como exemplo de como com pouco se pode fazer muito: "Uma imensa população vive apenas com 9% da terra disponível. E como é que o conseguiram? Comendo plantas".
A propósito de Portugal, afirma que nós tínhamos "uma dieta mediterrânica, barata, muito simples, baseada em produtos locais e da estação, mas uma série de mudanças - capitalismo, indústria alimentar, alterações de estilo de vida, aumento da riqueza, influências americanas, nos afastaram desse padrão alimentar".
Pedro Graça, outros dos oradores desta conferência, afirma que os estilos de vida mudaram, que o know how que se transmitia de geração em geração foi desaparecendo, assim como desapareceu o tempo que era necessário para confeccionar esse tipo de comida. "Era uma alimentação muito feita em casa, e pelas mulheres. hoje as mulheres saíram de casa para trabalhar. Há uma série de factores agressivos para a manutenção deste padrão alimentar". Por outro lado, a dieta tradicional baseava-se na produção local, ou mesmo auto-produção e, actualmente, os produtos frescos e locais adquiriram um estatuto e um carisma que os afasta economicamente da maioria das pessoas. O mesmo orador explica que a dieta mediterrânica é quase vegetariana... "os pratos são formas de enganar a escassez de carne, em que os enchidos ou o bacalhau, muito condimentados, dão um sabor mais forte, dando ideia da presença de carne e peixe".
Outra ideia muito interessante é a questão política e de educação das novas gerações, onde poderá e deverá ser realizado um esforço pedagógico para alterar esta situação, pois mesmo em Portugal a obesidade aumentou exponencialmente nos últimos anos. Actualmente em Portugal existem cerca de 1 milhão de obesos e 3,5 milhões de pré-obesos - preocupante.
Este apetite insaciável do mundo ocidental terá a sua explicação na II Guerra Mundial e na memória que muitos têm ainda da fome e da escassez. "Foi em resposta a esses medos que se deu a revolução alimentar que permitiu, através da tecnologia, produzir plantas mais resistentes e assim alimentar mais animais, e mais pessoas. Até se chegar ao ponto de fartura em que estamos hoje".
Pertinente é igualmente a questão que Tim Lang coloca: "Precisamos de ter trinta mil produtos no hipermercado?". É a altura de reflectir sobre o que queremos para o futuro. Este autor, que em meados dos anos 90 criou a expressão food miles para explicar os efeitos da globalização da comida: "quantos kms um alimento tem que viajar, e que pegada ecológica é que esse transporte deixa, para que possamos ter frutas tropicais à nossa mesa todo o ano?" Termina dizendo: "O vosso país não tem um sistema alimentar sustentável. Mas tem uma cultura e uma tradição fantásticas a partir da qual pode recomeçar. Só que tem que o fazer muito rapidamente".
Ora aqui está um tratado condensado de antropologia gastronómica, abrangente e assertivo. Pena é, amanhã, eu não estar em Lisboa.
09 abril 2012
coisas simples...
Ele: - Onde queres ir nas férias?
Ela: - A qualquer lugar onde não tenha sequer que pensar em cozinhar.
Ela: - A qualquer lugar onde não tenha sequer que pensar em cozinhar.
03 abril 2012
30 março 2012
a miséria...
Ao olhar para as previsões ou antevisões daquilo que será a taxa de desemprego nos próximos anos em Portugal, vêm-me à memória imagens da notícia do encerramento do Gaia Hotel. Nessa peça jornalística eram entrevistados alguns dos funcionários, agora sem função. Um desses testemunhos foi uma senhora que admitia a miséria da sua posição e a tristeza que lhe ia na alma por ficar sem emprego, mas afirmava que o que mais lhe custava era deixar os colegas, pois gostava muito de trabalhar com eles. Não sei se consciente ou inconscientemente, esta ex-funcionária na simplicidade e franqueza de suas palavras referiu-se à enorme relatividade da sua miséria de posição face à grande miséria de condição, que é estar ou ser desempregado em Portugal. Muito triste.
27 março 2012
tranquilidade
Gosto muito de aqui vir, ou melhor, sempre que aqui tenho que vir - e é sempre pela pior das razões - por algum problema de saúde daqueles que me rodeiam, sento-me nesta esplanada, sossegada, envolvida por velhas e frondosas árvores, pelo chilrear dos pássaros, longe da agitação da rua e com vistas para o edifício do hospital. O contraste é para mim abismal, pois no mesmo instante que aqui estou, tranquilo e com saúde, para lá das paredes e janelas que avisto, perscruto sofrimentos atrozes, adivinho a angústia de veredictos variados e sei da agonia das horas do fim. Mas aqui estou bem, muito bem. Aqui leio e aqui escrevo, sempre. Mas quero ir-me embora rápido, não por mim, mas por aqueles que sofrem e me fizeram aqui vir.
viver assim
Tarde estranha a de ontem. Enfiado em casa e tentando cumprir datas de entregas de textos, estive às voltas com artigo sobre as novas ruralidades para publicação espanhola. Acompanhou-me sempre um som bem alto que, de espaços a espaços, ia trocando, o que me permitiu não perceber qualquer outro ruído e manter-me focado no que fazia. Eis senão, quando estava absorvido por um qualquer raciocínio e não troquei de cd, deixando-me ficar em total silêncio, ouvi clara e distintamente um som vindo da casa ao lado e percebi que a minha vizinha estava a ter um prolongado e estridente orgasmo. Eram 16 horas e à minha volta pessoas a fazer sexo. Bonito. Só é pena eu não. Não escrevi mais. Saí.
26 março 2012
ideia romântica...
No Jornal Público de ontem (Domingo), lido já muito tarde e já 2ª feira, encontrei uma entrevista a Francisco Avillez, um dos mais conceituados economistas agrários portugueses que, entre outras e muitas coisas interessantes, diz que o nosso mundo rural, actualmente, depende muito pouco da agricultura e no futuro dependerá menos. Afirma também que inverter este estado actual é muito difícil. Concorda com o cadastro das terras abandonadas e entende-o como decisivo nas áreas florestais, mas tem dúvidas quanto ao projecto de as entregar a quem as queira trabalhar. A este propósito diz:
"Não há maneira nenhuma de resolver o problema dos fogos sem conhecer um bocadinho melhor o território. Aproveitar áreas abandonadas, nomeadamente as que são do Estado, e eu não sei quais são, acho que é uma boa ideia. Não sei quais são os resultados práticos disso. O retomar a actividade agrícola, de que toda a gente fala, mostra que muitas vezes o que existe é uma ideia quase romântica do que é a agricultura. Depois, há o choque com a realidade. Depois de passarem lá algum tempo, apercebem-se de que aquilo é muito mais duro, excepto em sectores específicos..."
"Não há maneira nenhuma de resolver o problema dos fogos sem conhecer um bocadinho melhor o território. Aproveitar áreas abandonadas, nomeadamente as que são do Estado, e eu não sei quais são, acho que é uma boa ideia. Não sei quais são os resultados práticos disso. O retomar a actividade agrícola, de que toda a gente fala, mostra que muitas vezes o que existe é uma ideia quase romântica do que é a agricultura. Depois, há o choque com a realidade. Depois de passarem lá algum tempo, apercebem-se de que aquilo é muito mais duro, excepto em sectores específicos..."
19 março 2012
dezanove de março...
Ao contrário do que seria expectável ser dito, ou neste caso escrito, não me parece nada que tenha sido ontem. Este ano rendeu muito. Foi um ano muito extenso. Um ano bonito e muito preenchido. Ainda bem.
13 março 2012
novos registos
Finalmente informatizei completamente o meu acervo bibliográfico. Tarefa que iniciei no início do mês de Fevereiro e terminei por estes dias. Agora que tudo está devidamente registado, numerado e catalogado, sempre que adquirir um novo livro, será muito mais simples incluí-lo. A grande conclusão a que cheguei é que não tenho tantos livros como pensara e que tenho uma bibliografia de ciências sociais muito razoável e com tendência para crescer. Aliás, ainda tem, certamente, uma larga margem de crescimento. Tantos e tantos que ainda faltam por cá. Bem, mas nos últimos tempos chegaram mais meia-dúzia desses, a saber:
- Antunes, João Lobo (2012), A nova medicina, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Pereira, Paulo Trigo (2012), Portugal: dívida pública e défice democrático, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Estanque, Elísio (2012), A Classe Média: ascensão e declínio, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Fernandes, Hirondino (2012), Bibliografia do Distrito de Bragança - série escritores, jornalistas, artistas (volume I), Bragança, Câmara Municipal de Bragança;
- Fernandes, Pêra (2008), O sumo das pedras de Bragança, Bragança, Junta de Freguesia de Santa Maria;
- André, Susana (2010), Mitos Urbanos e Boatos, Lisboa, A Esfera dos Livros;
- Baudrillard, Jean (2011), A Sociedade de Consumo, Lisboa, Edições 70;
- Antunes, João Lobo (2012), A nova medicina, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Pereira, Paulo Trigo (2012), Portugal: dívida pública e défice democrático, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Estanque, Elísio (2012), A Classe Média: ascensão e declínio, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Fernandes, Hirondino (2012), Bibliografia do Distrito de Bragança - série escritores, jornalistas, artistas (volume I), Bragança, Câmara Municipal de Bragança;
- Fernandes, Pêra (2008), O sumo das pedras de Bragança, Bragança, Junta de Freguesia de Santa Maria;
- André, Susana (2010), Mitos Urbanos e Boatos, Lisboa, A Esfera dos Livros;
- Baudrillard, Jean (2011), A Sociedade de Consumo, Lisboa, Edições 70;
Etiquetas:
Biblos
10 março 2012
"a semântica das atitudes"
A edição do mês de Março do jornal Le Monde Diplomatique saiu ontem, dia 9, com cara lavada, outro papel e, digo eu, melhor aspecto. Ainda quase não li nada, mas dando seguimento ao meu inconsciente hábito de ler os jornais e revistas de trás para a frente, encontrei e li, na última página, um texto do escritor Mário de Carvalho, o que me deixou por si só satisfeito e a dizer para com os meus Fechos Eclair, que botões não transportava, que já valera a pena comprar o jornal deste mês. Pronto, já nem precisaria de ler mais nada...
Gostaria aqui de transcrever todo o texto, mas como o novo layout do blogue não publica as fotografias num formato legível, nem me vou dar ao trabalho de o digitalizar. Apesar das tiradas que aqui reescrevo e descontextualizo, aconselho vivamente a sua leitura do princípio ao fim.
"Qualquer negociante de secos e molhados ou vendedor de electrodomésticos profere impunemente a sua galegada. Desde que seja riquíssimo. Os ricos não se contentam só com o acatamento. Querem servilismo. Exigem veneração. Chão lambido. Têm-no garantido. Meia dúzia de economistas oficiosos - sempre os mesmos - aprestam-se ao culto público de «os Mercados» com o fervor genuflectido duma adoração ao Espírito Santo."
"Tudo são apelos ao conformismo e à submissão, convites à obediência e ao redil. O povo, quando presente é constituído em populaça. A ralé sempre fez o jeito às contra-revoluções. (...) Com os da ralé pode a ganhuça bem. É travesti-los de consumidores. O consumidor por natureza é dócil. «Para ver já a seguir. Não saia daí». Já o cidadão tende a complicar. É antipático e incómodo. Toma distâncias e faz escolhas. Há que silenciá-lo, ridicularizá-lo ou desacreditá-lo.
"Como pode uma economia colonial saudável funcionar sem escravos? Coisa de otários."
07 março 2012
um processo
Ler muito para depois escrever;
Escrever para depois reler;
Reler para depois reescrever;
Ou seja,
Ler muito será bem escrever.
Escrever para depois reler;
Reler para depois reescrever;
Ou seja,
Ler muito será bem escrever.
06 março 2012
slowfood

Um destes dias algo na rede me chamou a atenção para este nome. Nunca ouvira falar desta coisa - coisa porque não sabia rigorosamente nada acerca de..., mas bastou-me uma rápida consulta no google (detectou 10.600.000 resultados em 0,40 segundos para o termo slowfood) para ficar logo curioso e interessado em saber mais sobre. Na página de busca as apresentações dos resultados, podemos ler:
"...é um movimento internacional que reúne pessoas apaixonadas por gastronomia, celebra o alimento de qualidade e o prazer da alimentação..."
"...com o objectivo de promover uma maior apreciação da comida..."
"...is a eco-gastronomic that was founded to counteract fast food and fast life..."
Parti à descoberta e foi uma completa surpresa, não só pela filosofia da organização, ou movimento como se auto-definem, como também pela dimensão e seu crescimento, contando actualmente com mais de cem mil membros espalhados por todo o mundo e apoiantes em cerca de cento e cinquenta países. Foi fundada em 1986 pelo jornalista italiano Carlo Petrini com o objectivo de promover uma maior apreciação da comida, melhorar a qualidade das refeições e uma produção que valorize o produto, o produtor e o meio ambiente. Acreditam, os seus membros, que todos têm o direito fundamental ao prazer de comer bem e optaram para lema "bom, limpo e justo" e para logótipo, só podia, um caracol. Sem ser ingénuo, pois julgo alcançar o seu propósito político ou ideológico, devo dizer que tudo, ou quase tudo nesta associação, me agrada.
Ena pá, como eu gosto de estar à mesa e ficar por lá. É tão bom. Vamos lá dar força ao movimento. Não custa nada e pode saber muito bem.
Ena pá, como eu gosto de estar à mesa e ficar por lá. É tão bom. Vamos lá dar força ao movimento. Não custa nada e pode saber muito bem.
(para conhecer o movimento clicar no título deste texto)
04 março 2012
01 março 2012
Estás bem?
Num encontro fugidio, perguntei-lhe se estava bem. A desculpa de um atraso para um compromisso impediu a devida e merecida atenção. Resta este sentimento de culpa. Repito: que estejas bem.
24 fevereiro 2012
futuros (im)possíveis...
"A sucessão das crises financeiras conduziu à emergência de uma figura subjectiva que ocupa agora todo o espaço público: a do homem endividado."
Assim começa o artigo de Maurizio Lazzarato, intitulado "A dívida ou o roubo do tempo" e publicado na edição do mês de Fevereiro do Jornal Le Monde Diplomatique - edição portuguesa. De facto, uma das consequências das sucessivas crises que temos vindo a experimentar é a consciencialização generalizada de uma real existência (vida) endividada. A reflexão deste sociólogo e filósofo incide sobre a relação entre credor (proprietário) e devedor (não-proprietário) e como esta relação é extremamente assimétrica e intensifica os mecanismos de exploração e dominação próprios do capitalismo. A "dívida" é entendida não só como uma manifestação económica, mas também como elemento operatório de uma tripla despossessão: despossessão de poder político, despossessão de uma parte da riqueza e o seu regresso à acumulação capitalista e despossessão do futuro, enquanto tempo como portador de escolha, de possíveis. Para além disso, "a dívida produz uma moral que lhe é própria, (...) complementar à moral do trabalho. O par esforço-recompensa oriundo da ideologia do trabalho é reforçado pela moral da promessa (a de honrar a dívida) e da culpa (a de a ter contraído)".
No fundo, e tristemente, digo eu, o devedor comportar-se-á sempre por relação à sua dívida e ao respectivo pagamento e só se poderá considerar livre na medida em que o seu modo de vida - consumos, trabalho, pagamento de impostos, etc., lhe permite fazer face aos compromissos assumidos. E assim, o todo poderoso sistema capitalista esmaga e reduz o que será, o futuro e os seus possíveis não serão mais do que as relações de poder da actualidade. Esta ideia remete-me para uma aproximação ao conceito de sociologia das emergências, de Boaventura de Sousa Santos (2002) e àquilo que ele identifica como o "Ainda-Não" (proposto por Ernst Bloch, 1995), ou seja, o modo como o futuro se inscreve no presente e o dilata. Não é um futuro indeterminado nem infinito, mas sim uma possibilidade e uma capacidade concretas.
23 fevereiro 2012
19 fevereiro 2012
18 fevereiro 2012
cuidar da memória
Recebi um email dando-me a conhecer o projecto de e-museu da memória imaterial. Muito bonito e, principalmente, muito interessante. Para pesquisar e apreciar aqui ou então depois nos meus "atalhos partilhados".
15 fevereiro 2012
dictum et factum
A notícia é já do dia de ontem, mas eu só agora cheguei perto do meu "apurriar", e por isso só agora posso escrevo sobre...
Segundo essa notícia o governo e mais concretamente, o ministro Miguel Relvas (quem mais poderia ser?!...), decidiu mandar imprimir o seu programa numa edição especial de 100 exemplares e de luxo, em papel couché semimate, para distribuir exclusivamente pelos membros do governo. Por adjudicação directa os 100 livros vão custar 12 mil euros, ou seja, nós todos pagaremos 120 euros por cada um desses especiais e espectaculares exemplares que os ministros ofertarão a quem lhes apetecer.
Bem, isto é a mesma coisa que admitirem que limpam o seu súpero ânus a notas de muitos euros, só porque sim e também para provocarem um tantinho a malta.
Segundo essa notícia o governo e mais concretamente, o ministro Miguel Relvas (quem mais poderia ser?!...), decidiu mandar imprimir o seu programa numa edição especial de 100 exemplares e de luxo, em papel couché semimate, para distribuir exclusivamente pelos membros do governo. Por adjudicação directa os 100 livros vão custar 12 mil euros, ou seja, nós todos pagaremos 120 euros por cada um desses especiais e espectaculares exemplares que os ministros ofertarão a quem lhes apetecer.
Bem, isto é a mesma coisa que admitirem que limpam o seu súpero ânus a notas de muitos euros, só porque sim e também para provocarem um tantinho a malta.
Etiquetas:
actualidades
11 fevereiro 2012
mais e mais, sempre a somar
Só agora, quando já entramos num novo dia, consigo folhear o jornal Público de Sexta-Feira, dia 10 de Fevereiro. Jornal que chegou aqui a casa por esquecimento de alguém. Alertado, há uns minutos atrás, por telefone amigo e igualmente simpatizante da "cruzada" e, principalmente, preocupado com o bem escrever em Português de Portugal, pude apreciar mais dois preciosos e brilhantes contributos:
10 fevereiro 2012
primeiras linhas...
O regresso à leitura de Rousseau encontra logo no seu primeiro passeio*, palavras que são sempre para mim, inexplicavelmente, próximas e de tamanha afinidade... "Eis-me sozinho na terra, sem irmão, parente próximo, amigo, ou companhia a não ser eu próprio. O mais sociável e o mais afectuoso dos homens foi proscrito da sociedade por um acordo unânime."
* Jean-Jacques Rousseau, in Os Devaneios do Caminhante Solitário.
frívolas presunções
A conversa percorreu todo o jantar e durou muito para além dele. À mesa três, nos seus copos um branco estranhamente transmontano que digeriu a alheira assada. Depois o café e um vulgar digestivo. Agora, depois das despedidas e já sozinho, registo uma parcela daquilo que se falou.
Às tantas, falava-se de contas bancárias e das fidelidades estabelecidas com determinadas instituições bancárias e das relações de amor/ódio que, muitas vezes, sem razão plausível, se estabelecem. Isto fez-me recuar ao tempo da invenção dos prodigiosos cartões de plástico colorido que se inseriam numas máquinas de rua e, com isso, se conseguia receber dinheiro vivo. Extraordinário. Claro que também eu só descansei quando consegui ter uma coisas dessas...
Corria um dos últimos anos da década de oitenta e, provavelmente, por altura de um aniversário meu, consegui juntar cinco contos. Com eles resolvi então abrir uma conta jovem, no Crédito Predial Português, com o único propósito de ter acesso a um desses cartões cheios de pinta. Assim foi. Passados alguns dias (talvez semanas) recebi o dito cartão e logo o experimentei para consultar o saldo da minha espectacular conta bancária. O destino dado a esses cinco contos já não recordo, mas lembro-me perfeitamente de um dia, em plena cidade Invicta, sem qualquer real necessidade, ter levantado mil escudos (...que loucura!), só para impressionar e "meter estilo" junto daquelas que me acompanhavam... "- Esperem lá, tenho que ir aqui ao Multibanco levantar dinheiro..." Impressionante e muito à frente. E mais impressionante e não tanto à frente, foi nenhuma delas ter ficado demasiadamente impressionada, ao ponto de tal acto poder ser uma mais valia no meu estatuto e na minha "pinta". Relembro também que não sempre, mas quase sempre que passava por uma dessas, ainda estranhas, mas prodigiosas maquinetas, utilizava-as para ver o saldo da minha conta. A atracção e o fascínio por aquela tecnologia ultrapassava-me e levava-me a utilizá-la sem qualquer nexo, pois dinheiro eu quase não tinha. Pois não.
Às tantas, falava-se de contas bancárias e das fidelidades estabelecidas com determinadas instituições bancárias e das relações de amor/ódio que, muitas vezes, sem razão plausível, se estabelecem. Isto fez-me recuar ao tempo da invenção dos prodigiosos cartões de plástico colorido que se inseriam numas máquinas de rua e, com isso, se conseguia receber dinheiro vivo. Extraordinário. Claro que também eu só descansei quando consegui ter uma coisas dessas...
Corria um dos últimos anos da década de oitenta e, provavelmente, por altura de um aniversário meu, consegui juntar cinco contos. Com eles resolvi então abrir uma conta jovem, no Crédito Predial Português, com o único propósito de ter acesso a um desses cartões cheios de pinta. Assim foi. Passados alguns dias (talvez semanas) recebi o dito cartão e logo o experimentei para consultar o saldo da minha espectacular conta bancária. O destino dado a esses cinco contos já não recordo, mas lembro-me perfeitamente de um dia, em plena cidade Invicta, sem qualquer real necessidade, ter levantado mil escudos (...que loucura!), só para impressionar e "meter estilo" junto daquelas que me acompanhavam... "- Esperem lá, tenho que ir aqui ao Multibanco levantar dinheiro..." Impressionante e muito à frente. E mais impressionante e não tanto à frente, foi nenhuma delas ter ficado demasiadamente impressionada, ao ponto de tal acto poder ser uma mais valia no meu estatuto e na minha "pinta". Relembro também que não sempre, mas quase sempre que passava por uma dessas, ainda estranhas, mas prodigiosas maquinetas, utilizava-as para ver o saldo da minha conta. A atracção e o fascínio por aquela tecnologia ultrapassava-me e levava-me a utilizá-la sem qualquer nexo, pois dinheiro eu quase não tinha. Pois não.
Nota: com esta lembrança, a minha primeira reacção foi ir ao meu arquivo arqueológico em busca desse cartão para aqui partilhar. Não encontrei.
07 fevereiro 2012
lucrar com a morte, dos outros...
Acabo de ler a notícia no jornal Expresso online (aqui) e não quero acreditar. Eu até já tinha visto isto num filme hollywoodesco, mas imaginar que isto poderia ser transformado num negócio real, será sempre para lá dos meus limites da tolerância moral. Segundo a notícia, o esquema deste negócio é simples e acessível a qualquer investidor.
"O banco compra apólices de seguros de vida de norte-americanos e assume a responsabilidade pelo pagamento dos seus futuros prémios. Quando o segurado morre, o dinheiro da apólice vai para o fundo do Deutsche Bank. São escolhidos norte-americanos com idades compreendidas entre os 70 e os 90 anos. Se as pessoas de referência viverem muito tempo, ganha o banco. Se morrerem prematuramente, ganha o investidor."
Num esforço premonitório, imagino já grandes investimentos em determinadas pessoas (aleatoriamente escolhidas) e muitas inexplicáveis e misteriosas mortes... é só especular, especular com essas vidas, pois o importante é o lucro, o lucro exponencial com a morte alheia. Como é que nunca ninguém se tinha lembrado disto?!
"O banco compra apólices de seguros de vida de norte-americanos e assume a responsabilidade pelo pagamento dos seus futuros prémios. Quando o segurado morre, o dinheiro da apólice vai para o fundo do Deutsche Bank. São escolhidos norte-americanos com idades compreendidas entre os 70 e os 90 anos. Se as pessoas de referência viverem muito tempo, ganha o banco. Se morrerem prematuramente, ganha o investidor."
Num esforço premonitório, imagino já grandes investimentos em determinadas pessoas (aleatoriamente escolhidas) e muitas inexplicáveis e misteriosas mortes... é só especular, especular com essas vidas, pois o importante é o lucro, o lucro exponencial com a morte alheia. Como é que nunca ninguém se tinha lembrado disto?!
06 fevereiro 2012
mudanças
Com o natural crescimento do rebento mais novo vejo-me na necessidade de lhe libertar uma divisão da casa para seu quarto. Uma vez mais perco o espaço, habitualmente chamado "escritório", onde a família e, em particular, eu, passávamos grande parte do tempo em casa. Desta vez, ao contrário das anteriores, não regresso à despensa, mas isso também só não acontece, porque o seu espaço é impraticável. Vejo-me assim na obrigação de reorganizar as minhas tralhas e, tendo em conta as limitações do lar, na terrível missão de seleccionar, separar e eliminar "coisas"...
Por outro lado, o bom da mudança, para além de si mesma, é o facto de poder rever "coisas" e poder trazê-las para mais perto dos olhos. Nesta reorganização, em particular, espero poder organizar definitivamente a base de dados dos meus livros - algo que tenho vindo a fazer nos últimos anos, mas sempre com muita parcimónia e sem muita paciência. Estou motivado para actualizar os seus dados, mas receio que amanhã ou depois e com tamanha confusão, esse entusiasmo se esboroe. A ver vamos.
Por outro lado, o bom da mudança, para além de si mesma, é o facto de poder rever "coisas" e poder trazê-las para mais perto dos olhos. Nesta reorganização, em particular, espero poder organizar definitivamente a base de dados dos meus livros - algo que tenho vindo a fazer nos últimos anos, mas sempre com muita parcimónia e sem muita paciência. Estou motivado para actualizar os seus dados, mas receio que amanhã ou depois e com tamanha confusão, esse entusiasmo se esboroe. A ver vamos.
03 fevereiro 2012
ainda na cruzada...
Também hoje acabei a leitura da revista LER e, sem nada o prever, eis que, num pé página, o escritor Joel Neto fala acerca do Acordo Ortográfico. Fica esse momento.
a nossa cruzada...
Bem cedo, mal abro o jornal Público e chego à página 4 e logo um largo sorriso me invade o rosto. As letras gordas anunciam que o novo senhor do CCB deu instruções aos serviços para não aplicarem o Acordo Ortográfico. Que boa notícia. Na mesma página 4, em caixa, ficamos a saber que alguns deputados do PSD, dos quais se destaca Mota Amaral, escreveram uma carta ao ministro Paulo Portas questionando-o se o governo admite suspender de imediato o acordo... Mas o jornal Público (como eu gosto dele...) faz mais, realça em editorial ("Actos corajosos contra o embuste ortográfico") e publica mais um artigo de opinião ("Um acto político de empobrecimento cultural") acerca desta nossa cruzada. Como não tenho dinheiro para assinar a versão digital, a única hipótese para partilhar com o mundo é digitalizar a versão papel (para a qual também já não tenho dinheiro, pois as restrições orçamentais familiares assim o exigem...). Ficam então os recortes possíveis.
02 fevereiro 2012
a ver o mar
Bem longe, onde nos conhecemos e aprendemos tudo ou quase sobre nós, falavas-me do mar com alegria e sempre com saudade. Houve um dia em que vieste ver-me e eu sem te preparar levei-te a ver o mar. Recordo o brilho dos teus olhos ao avistares o imenso oceano. Depois, disseste-me que era aí que gostavas de ficar. Não sei, mas tentei fazer-te a vontade.
01 fevereiro 2012
citação:
(José Pacheco Pereira no seu Abrupto a propósito das manifestações dos indignados)
“A primeira manifestação da chamada "geração à rasca" (a designação de "indignados" era ainda muito minoritária) foi um grande sucesso. Mas é o caso típico de uma manifestação unanimista, que desde a JSD à extrema-direita, de grupos de "artistas" à extrema-esquerda, do PSD ao BE ao PCP, teve todo o mundo e ninguém a apoiar e uma comunicação social activa e ultra-simpática a divulgá-la. Só quem não era patriota é que não saía à rua. Ah! E havia um pequeno pormenor - era contra José Sócrates no clímax da sua impopularidade. Tinha que ser um sucesso e foi, mas gerou a ilusão de que poderia dar origem a um novo tipo de movimentos, o que também entusiasmou muitas redacções sempre prontas a encontrar "novos" movimentos sociais e depreciar os "antigos".”
LER para Fevereiro
Ao contrário do que é habitual, dia 1 do mês e já cá está. Número dedicado a Fernando Assis Pacheco.
31 janeiro 2012
da imprensa...
Eu nem aprecio muito o estilo e o ideário deste senhor jurista, mas hoje e aqui esteve particularmente bem.
Etiquetas:
actualidades
28 janeiro 2012
bons vizinhos
O Horácio vivia numa moradia nos arredores de uma pequena cidade do interior do país e tinha por vizinho um jovem casal de bancários que habitavam a casa ao lado. Sem grandes entusiasmos ou empatias, os dois casais coabitavam em sã e cordial vizinhança. O Horácio tinha um cão de Gado Transmontano que passava os dias pelas extensas áreas exteriores da casa, numa típica e pachorrenta vida de cão, ladrando apenas quando alguém tocava à campainha ou a quem se aproximava demasiado do seu território. Na casa ao lado vivia também um cão que, apesar de rafeiro, tinha acesso privilegiado a toda a casa, onde aliás passava maior parte do seu tempo. Este rafeiro, apesar do seu aspecto franzino, era temperamental e muito agressivo para com estranhos e, especialmente, para com outros animais. Escusado será dizer que sempre que se via livre, o seu passatempo predilecto era ir provocar o cão da casa ao lado, reclamando sempre o seu imenso território, mas sem nunca ter motivado mais do que alguns rosnares de aviso. O Cão de Gado não reagia nem se importunava com tais provocações. Os seus donos sabiam disso e viviam tranquilos.
Certo dia, para espanto de Horácio, o seu cão aparece com o outro entre os dentes, sangrado e todo sujo, já morto. Surpreendido com a atitude do seu próprio cão e sem saber como reagir, até porque Horácio sabia perfeitamente a estima que os vizinhos tinham pelo rafeiro, resolve omitir tal acontecimento. Primeiro, decide lavar e tratar das feridas do cão morto. Depois, esperando pelo cair da noite, leva o cão ao colo até ao muro das traseiras que divide as duas propriedades, verifica se ainda há luzes na casa vizinha e atira o cão morto, por cima do muro, para o outro lado e regressa em silêncio para dentro de casa.
Passados não muitos dias, os dois vizinhos encontram-se à porta de casa e cumprimentam-se. Horácio, receoso que o vizinho o questione acerca do seu cão, tenta esquivar-se, mas o vizinho logo o interpela:
- Sr. Horácio, nem sabe o que me aconteceu... Deve andar por aqui algum espírito mau, alguma bruxa ou mau olhado!
- Aí sim?!.. Não me diga?!... - questiona o Horácio, ensaiando uma expressão de admiração, mas consciente que já não irá escapar e que terá que admitir o sucedido.
- Pois é. Então não é que aqui há dias, o meu cão morreu e eu enterrei-o lá trás no quintal da casa e passados dois dias ele apareceu-me lavado, deitado em cima da relva do quintal.
- Ah! Que estranho. Isso é muito estranho. - comentou Horácio aliviado e ao mesmo tempo certo da asneira que tinha cometido.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
































