Da Galiza trouxe também um pouco mais de conhecimento sobre essa rica e bonita região. Um dos factos que pude verificar e, depois, relevar é que apesar de todas as distâncias e de todo um passado diferenciado, são vários os caracteres que nos aproximam de uma forma até brutal, diria eu... todo o calão é semelhante, o cancioneiro popular recorre aos mesmos elementos e aos mesmos ritmos e sonoridades, assim como o prazer pela folia e pela festa que se veste sempre de boa carne e adorna com um bom tinto. Bebi, comi e dancei ao som da Carolina que tem uma saia com um lagarto pintado e que, sempre que ela dança, o lagarto dá ao rabo.
---------"Viajar, ou mesmo viver, sem tirar notas é uma irresponsabilidade..." Franz Kafka (1911)--------- Ouvir, ler e escrever. Falar, contar e descrever. O prazer de viver. Assim partilho minha visão do mundo. [blogue escrito, propositadamente, sem abrigo e contra, declaradamente, o novo Acordo Ortográfico]
10 setembro 2012
sons de uma aldeia
No passado fim-de-semana estive, a convite da organização, na aldeia de Paróquia de Albá, Município de Palas de Rei, Comarca de Ulloa, para participar na segunda edição do Festival Son d'aldea. É uma festa da comunidade rural local. Os sons da aldeia são vários, mas assentam numa teatralização das actividades económicas e culturais locais. Um espectáculo etnográfico que ao recriar diferentes momentos em diferentes lugares do seu território procura demonstrar que a comunidade sabe bem de onde vem e para onde quer ir. Num tempo em que tanto se fala do abandono do rural, do esvaziamento desses territórios, é surpreendente e até impressionante como uma pequena comunidade consegue promover e realizar tal evento - imagino as resistências e as incompreensões que a organização sofrerá...
O momento grande deste festival é, sem dúvida, o "Roteiro Teatral" que é apresentado em vários locais do termo da aldeia e que dão a conhecer aos diferentes grupos de espectadores, os usos e costumes locais. Os espectadores (visitantes) inscrevem-se e são reunidos em grupos que percorrem diferentes percursos, durante os quais vão sendo surpreendidos com pequenas representações da vida quotidiana passada, que a comunidade preserva na sua memória colectiva. São três horas de viagem pelo imaginário e pela paisagem desta aldeia.
O que mais me impressionou neste espectáculo foi a naturalidade e sentimento com que os actores, locais e amadores, representaram os papeis das suas próprias vidas. Para além disso, agrada-me sempre essa capacidade das pessoas que vivem em pequenas comunidades, isoladas, de se organizarem e produzirem actividades e discursos alternativos. Também percebi que a organização e a própria comunidade já perceberam o poder, as possibilidades e as oportunidades que este festival pode proporcionar. Ainda não tinha acabado o roteiro teatral e já alguns membros da organização falavam em hipóteses de cenário e enredos para o próximo ano. Muito bem.
O que mais me impressionou neste espectáculo foi a naturalidade e sentimento com que os actores, locais e amadores, representaram os papeis das suas próprias vidas. Para além disso, agrada-me sempre essa capacidade das pessoas que vivem em pequenas comunidades, isoladas, de se organizarem e produzirem actividades e discursos alternativos. Também percebi que a organização e a própria comunidade já perceberam o poder, as possibilidades e as oportunidades que este festival pode proporcionar. Ainda não tinha acabado o roteiro teatral e já alguns membros da organização falavam em hipóteses de cenário e enredos para o próximo ano. Muito bem.
07 setembro 2012
agendado...
APRESENTAÇÃO
QUADROS DA TRANSMONTANEIDADE
LIVRO DE ANTÓNIO SÁ GUÉ
DATAS: 13/09 QUI 21H30 GAIASHOPPING.
QUADROS DA TRANSMONTANEIDADE
LIVRO DE ANTÓNIO SÁ GUÉ
DATAS: 13/09 QUI 21H30 GAIASHOPPING.
Esta é uma obra de sedimentos memoriais das gentes transmontanas. Não é nenhum levantamento etnológico, nem tão pouco um estudo antropológico do seu modus vivendi, como se possa pensar. É, antes de mais, um livro que fala da grandeza e da mesquinhez humana, de ressentimentos, de canseiras, dos tédios e das angústias que alimentam qualquer ser humano. O autor vai ao Fórum FNAC falar dos montes elevados por emoções e dos vales dos sentimentos que esta obra percorre. (in Agenda FNAC - 1 a 15 de Setembro 2012)
03 setembro 2012
resistência
Depois de várias semanas fora de casa foi preciso reabastecer de víveres e demais parafernália alimentar. Durante este último fim-de-semana foram várias as vezes que fui ao supermercado Pingo Doce, sem sequer me lembrar da mais recente novidade desta cadeia de merceeiros que impede o pagamento através de cartão de débito ou de crédito, nas compras de valor inferior a 20 euros. Pessoalmente a medida até nem me perturba muito, uma vez que, normalmente, a despesa é sempre superior. Contudo, simbolicamente e tal como diz Eduardo Pitta no seu blogue, "é como se um restaurante não fosse obrigado a ter WC". Nem mais.
Como dizia, numa dessas visitas dirigi-me às caixas com dois ou três artigos, que no total não atingiam esse valor mínimo. Sem reflectir dei o cartão multibanco à menina e ela, intimidada, lá me foi dizendo que não era possível, fazer assim o pagamento. Conclusão, tive que ir levantar dinheiro num ATM e as pessoas da fila dessa caixa lá tiveram que aguardar. Simples. Aquilo que depois fiquei a pensar foi na forma que os clientes do Pingo Doce poderão encontrar para tentar contrariar esta atitude e surgiram-me algumas ideias, umas mais subversivas que outras, mas que na sua essência apelariam a um sentido de resistência e até de alguma desobidiência. Pois então:
-Escolher produtos e fazer compras num valor total inferior a 20 euros, deixar registar na caixa e entregar cartão para pagar. Perante a recusa, pedir para ir levantar dinheiro, atrasando todo o processo e complicando a vida aos outros clientes;
- Escolher produtos e fazer compras num valor total inferior a 20 euros, deixar registar na caixa e entregar cartão para pagar. Perante a recusa, deixar ali mesmo os produtos e abandonar o local;
- Em compras com valor superior a 20 euros, solicitar aos funcionários das caixas, o fraccionamento dos pagamentos logo a partir desse valor mínimo. Por exemplo, numa compra de 100 euros, fazer cinco pagamentos de 20 euros, o que implicaria 5 ligações do ATM à rede;
- Por último e, para mim, a mais interessante, apesar de impraticável, seria deixar de frequentar e de comprar nesta cadeia de mercearias.
(aceitam-se mais ideias...)
Como dizia, numa dessas visitas dirigi-me às caixas com dois ou três artigos, que no total não atingiam esse valor mínimo. Sem reflectir dei o cartão multibanco à menina e ela, intimidada, lá me foi dizendo que não era possível, fazer assim o pagamento. Conclusão, tive que ir levantar dinheiro num ATM e as pessoas da fila dessa caixa lá tiveram que aguardar. Simples. Aquilo que depois fiquei a pensar foi na forma que os clientes do Pingo Doce poderão encontrar para tentar contrariar esta atitude e surgiram-me algumas ideias, umas mais subversivas que outras, mas que na sua essência apelariam a um sentido de resistência e até de alguma desobidiência. Pois então:
-Escolher produtos e fazer compras num valor total inferior a 20 euros, deixar registar na caixa e entregar cartão para pagar. Perante a recusa, pedir para ir levantar dinheiro, atrasando todo o processo e complicando a vida aos outros clientes;
- Escolher produtos e fazer compras num valor total inferior a 20 euros, deixar registar na caixa e entregar cartão para pagar. Perante a recusa, deixar ali mesmo os produtos e abandonar o local;
- Em compras com valor superior a 20 euros, solicitar aos funcionários das caixas, o fraccionamento dos pagamentos logo a partir desse valor mínimo. Por exemplo, numa compra de 100 euros, fazer cinco pagamentos de 20 euros, o que implicaria 5 ligações do ATM à rede;
- Por último e, para mim, a mais interessante, apesar de impraticável, seria deixar de frequentar e de comprar nesta cadeia de mercearias.
(aceitam-se mais ideias...)
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de pequenino se impõe um destino *
Nos últimos dias tem andado nas bocas do mundo do nosso país, principalmente nas palavras escritas e ditas dos nossos fazedores de opinião, a mais recente proposta do ministro da educação Nuno Crato. A de impor o ensino profissional aos alunos com piores (ou maus) resultados no 2º ciclo - alunos com duas reprovações ou três chumbos intercalados até ao 6º ano serão obrigados a frequentar esta via. Ao ouvir e ler muito do que se tem dito acerca deste assunto, relembro-me de um texto de Pierre Bourdieu intitulado "O Racismo da Inteligência" escrito em 1978 e que foi uma intervenção sua num colóquio do Movimento contra o Racismo e pela Amizade entre os Povos realizado em Maio desse mesmo ano.
Apesar da distância temporal, a sua enunciação parece-me mais do que actual e pertinente, pois Bourdieu define esse racismo da inteligência como um racismo da classe dominante e é alguma coisa por meio da qual os dominantes visam produzir uma "teodiceia do seu próprio privilégio", como diz Weber, quer dizer uma justificação da ordem social que dominam. É qualquer coisa que faz com que os dominantes se sintam justificados na sua existência enquanto dominantes; com que se sintam uma essência superior. Bourdieu acrescenta que todo o racismo é um essencialismo e o racismo da inteligência é a forma de sociodiceia característica de uma classe dominante cujo poder assenta em parte na posse de títulos que, como os títulos escolares, são considerados garantias de inteligência e que tomaram o lugar, em muitas sociedades, e no que se refere ao próprio acesso às posições de poder económico, dos títulos antigos como os títulos de propriedade e os títulos de nobreza.
Ao longo dos últimos tempos e ao escrutinar a realidade que me rodeia, é com alguma assiduidade que me ocorre este conceito, pois frequentemente o "poder" faz uso desse seu poder para manter os paradigmas actuais e para restringir ou mesmo impossibilitar qualquer permeabilidade social. Regressando ao ensino profissional e ao ministro Crato (que Daniel Oliveira descreveu como o Talibã do ensino), penso que é necessário e até uma mais-valia para a economia nacional, mas sempre como uma opção para os jovens estudantes que nele poderão encontrar um caminho e uma opção profissional válida.
* Frase roubada de um texto de José Soeiro.
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a razão...
"A pergunta que a esquerda tem que fazer para merecer ser esquerda é porque é que o povo não há de governar? (…) Esse governo de esquerda, que é a grande luta que temos que travar, criará muitos debates certamente, muita contraposição, muitas dúvidas. Mas uma coisa ele fará, perante toda a oposição social ele dirá que luta pela igualdade e pelo respeito"
"Sim senhor, nacionalizará a EDP e as redes energéticas nacionais por mais que isso incomode o Partido Comunista chinês; nacionalizará serviços financeiros por mais que isso incomode a família presidencial angolana, trará os hospitais públicos para o Serviço Nacional de Saúde por mais que isso incomode os Mellos e os Espíritos Santos"
(Francisco Louçã, excertos do seu discurso de encerramento do Socialismo 2012, ontem em Santa Maria da Feira.)
bancos de livros escolares
É notícia de hoje no jornal Público que só no mês de Agosto abriram mais de cinquenta bancos de troca de livros e manuais escolares em Portugal. Ainda no mês de Julho eu me tinha aqui referido a esta questão e é com satisfação que agora sei que esta questão está a merecer a atenção e a dedicação de muitas pessoas. Tal como refere o fundador do movimento pela reutilização dos livros escolares (ver reutilizar.org), Henrique Cunha, o sucesso do movimento é a prova de que os portugueses estão interessados na reutilização. Estão de parabéns todos os seus promotores que, voluntária e gratuitamente, disponibilizam o seu tempo para promover a troca dos livros utilizados e assim, combatem a ditadura corporativista do sector livreiro que tem vivido imune a qualquer legislação e impune para qualquer e toda a especulação.
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31 agosto 2012
28 agosto 2012
23 agosto 2012
amigos rurais
Os amigos das coisas do rural em Lisboa: Paulo Seixas, Cebaldo Inawinapi, Luís Vale e Shawn Parkhurst. Falta o fotografo Xerardo Pereiro.
20 agosto 2012
privatização do futebol
O campeonato nacional de futebol teve início este fim-de-semana. De facto, o meu crescente afastamento das coisas do futebol trouxe consigo uma maior imunidade à parafernália quotidiana desse universo. Portista e tripeiro que sou, admito que até um jogo do meu clube me custa ver na totalidade. Contudo, a notícia que só agora chegou até mim de que não haverá qualquer transmissão de jogos da primeira liga em canal aberto de televisão e que quem quiser assistir aos jogos terá que assinar ou ter acesso à Sportv, deixa-me incomodado, pois para além do carácter público que alguns dos jogos, dada a sua importância ou relevância para um considerável número de portugueses, possam ter, esta privatização do campeonato de futebol faz com que a universalidade do serviço acabe e também faz com que muitos portugueses deixem de poder assistir gratuitamente a qualquer partida de futebol. Mais uma medida que obedecerá a uma agenda bem definida e calendarizada e que demonstra bem o total alheamento dos responsáveis políticos por esta área, que preferem dedicar-se à privatização da RTP, do que preocuparem-se com uma programação séria e de qualidade para o serviço público de televisão. Lamentável.
18 agosto 2012
Sul, praia, calor, água, Sol, Verão e afins
Agora que faço o caminho inverso, para Norte, mas estarei naquilo a que se poderá chamar zona intermédia, ou para utilizar o termo de Bhabha, num "terceiro espaço", ou seja, já não no Sul, mas ainda não completamente no Norte, aproveito para rabiscar algumas ideias soltas acerca dos dias passados à beira-mar.
Fui de férias para o Algarve poucas vezes. Tão poucas que posso enumerá-las: Em 1986, ainda criança com os meus pais; Em 2010, já adulto e pai de uma criança; e em 2012, igualmente adulto e pai de duas crianças. Se me perguntarem o que penso sobre o Algarve, direi que nada nele me atrai e que passaria muito bem sem lá ir. Considero mesmo que não faz qualquer sentido eu lá ir, ficar ou estar. Mas cumprindo o meu papel de pai, lá fui e lá irei as vezes que ele e elas quiserem e eu puder. É justo.
Ao contrário daquilo que acontece com maior parte das pessoas, eu tolero melhor o frio do que o calor, eu gosto mais do Inverno do que do Verão, eu vivo melhor à sombra do que ao Sol. Assim, ir para a praia num ambiente com temperaturas médias de 30º é obrigar-me a atravessar o deserto. Aliás, actualmente, eu disputo cada centímetro de sombra do guarda-sol com o meu rebento que, por enquanto, faz a sua praia quase exclusivamente à sombra. É ridículo; sou ridículo.
Muitos me dizem que é porreiro ir para a praia, apanhar Sol, andar na água, passear, nadar, jogar qualquer "coisa", fazer castelos de areia, entre outras maravilhas da teoria do lazer. Acerca de tudo isto também tenho a minha opinião, baseada essencialmente na minha experiência. Vamos por partes:
- Quanto ao apanhar Sol, já nada mais há a dizer, apenas acrescentar que a minha tiróide também não gosta e que regresso sempre da praia como uma zebra, com a pele listada de branco e vermelho;
- Andar na água é algo que não me dá prazer nenhum, nem sei como me comportar dentro dela. Onde ponho as mãos?!, devo caminhar ou ficar quieto?!, devo olhar para aqueles que me rodeiam?! Não sei. É estranho. Entro na água e fico a olhar para a alegria e animação daquela gente só por estarem com o corpo parcialmente submerso. Definitivamente não é o meu habitat;
- Passear caminhando é porreiro e faz bem à maioria das pessoas e a mim também, mas os meus joelhos não conseguem. Portanto, é sempre com esforço e dor que faço essas caminhadas pela linha de água;
- Nadar é daquelas coisas que nunca me deu qualquer gozo. Como não domino a prática, acabo por dar umas aparatosas braçadas daqui para ali e dali para acolá, sempre sem quase sair do sítio, mas não retiro disso qualquer prazer e, por isso, rapidamente desisto. Entendo a natação como um desporto para outros e uma actividade fisioterapêutica também para mim;
- Vão-me perdoar os amantes da actividade física em espaço balnear, mas é do mais deprimente ver as pessoas, com as carnes excedentárias desnudadas, aos saltos e pinotes, atrás de uma bola ou com raquetes a bater numa pequena bola, incessantemente, num "toma lá dá cá"...;
- Fazer efémeros castelos de areia é fixe, mas para crianças até aos 10 ou 12 anos. Mas ver pais que sob o pretexto de estarem a ajudar os seus filhos a fazerem castelos de areia, passam manhãs ou tardes inteiras num frenesim e com dedicação laboral, à volta de pequenos montes de areia molhada, enquanto os seus filhos apenas observam, parecem-me casos patológicos, ou pelo menos passíveis de observação especializada, pois serão casos traumáticos de maior ou menor longevidade. Ou então, as crianças são eles;
Para mim, ir para a praia é uma narrativa de sobressalto, de desespero, de falta de ar, de sede. Muitas vezes tenho essas imagens em sonhos ou pesadelos. Não é confortável para mim. Lamento.
Em 1986, depois de viajar lenta e turisticamente até ao nordeste transmontano, e num momento parecido com este, o meu pai desabafou: - Nunca mais me apanham lá. E assim foi, nunca mais o meu pai levou a família para o Algarve. Em 2012, ainda que gostasse de poder ser igualmente afirmativo, sei que terei que lá voltar, pois o resto da família adora praia, sol, calor e água de mar. Portanto, com maior ou menor sacrifício, num futuro próximo lá estarei de novo, estendido à sombra do sol.
15 agosto 2012
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