28 outubro 2012

25 outubro 2012

crise, serviços e qualidade

Não haverá um português que não utilize o termo "crise" no seu dia-a-dia, com propriedade ou sem ela, com informação ou sem ela, com razão ou sem ela, com hipocrisia ou sem ela, ou com sentido ou sem ele. Na realidade esse termo e todos os seus significados vieram introduzir no léxico nacional um conjunto de étimos que até então praticamente desconhecíamos. A par deste fenómeno linguístico, a "crise" proporcionou também o ambiente ideal para o abandono, por parte do capital, na indústria e no comércio, mormente nas pequenas e médias empresas, levando à presente situação dramática de desemprego e de indigência social e cidadã. Uma das consequências mais gravosas deste processo é o desaparecimento de todo um tecido comercial de pequena escala que não aguenta a pressão e se vê obrigado a fechar portas, deixando o mercado disponível para os grandes grupos e exposto à avidez dos monopólios, o que por sua vez traz, quase obrigatoriamente, um decréscimo na qualidade dos serviços prestados e dos produtos comercializados. Naquilo que é a minha experiência de cliente, noto nalgumas das empresas esse prejuízo qualitativo. Dou dois exemplos: A Fnac que quando se instalou em Portugal e durante muito tempo oferecia um serviço de qualidade na venda de livros técnicos (encomendas, prazos, disponibilidade, variedade, entre outros factores), perdeu substancialmente essa qualidade e agora, para além de um atendimento demorado por falta de colaboradores, por norma não tem e não encontra no catálogo, nem se mostra disponível para a encomenda; A Toys"r"us, originalmente, um mundo mágico para a brincadeira e um baú sem fundo de diversidade, tem as lojas "abandonadas", com poucos clientes e com poucos colaboradores. Pedir um esclarecimento ou uma ajuda tornou-se insuportável, seja pelo tempo de espera, seja pela qualidade dessa interacção. Estes dois exemplos dizem respeito àquilo que foi a minha percepção, por estes dias, em situações concretas. Aquilo que aconteceu com a chegada destas duas marcas - entre outras - ao nosso mercado foi o fim de muitas e muitas pequenas empresas concorrentes que não aguentaram o poderio destes gigantes, ou seja, primeiro rebentaram com o mercado ficando em situação de monopólio ou algo parecido e depois, donos e senhores do mercado, puderam desqualificar esse mesmo mercado. O consumidor é passivo, sujeita-se a qualquer preço e vive dependente de cartões e de dias de promoção. O cliente deixou de ter razão e de ser soberano.

14 outubro 2012

processo civilizacional

Vivemos tempos magníficos. E não o digo com ironia. Pessoalmente considero que o tempo presente, que inclui também o passado recente e o futuro próximo, permite-nos experimentar e conhecer momentos únicos que jamais pensei um dia poderem acontecer. São dias paradoxais e de sentimentos difusos, mas que me cativam e atraem para um maior interesse e crescente envolvimento. O experimentalismo social a que temos vindo a ser sujeitos terá, obrigatoriamente, como resultado um retrocesso civilizacional, o que me impele para um dos lados desse mesmo processo. Estou completamente implicado na luta contra este crime contra a nossa humanidade. Tal como sempre afirmei aqui e noutros fóruns, sou um pacifista e um crente da palavra como arma de qualquer dialéctica. Nunca acreditei nas armas e nas guerras, mas sei da sua utilidade histórica e civilizacional. Neste momento e perante o que os meus sentidos percepcionam, vivo um conflito existencial, pois pressinto que algo grave poderá acontecer. Não gosto muito dessa sensação, mas parece-me inevitável. E num momento como este, permito-me a uma inconfidência. Lembram-se da Carbonária?

07 outubro 2012

diplomatique, c'est le monde...

Sem ainda ter tido tempo de o desfolhar. Tem andado comigo.

04 outubro 2012

se não responder...

Assim são tratados os infelizes dos desempregados. O Estado quer a todo o custo livrar-se deles, nem que isso signifique a maior das indigências individuais e cidadãs. A pressa de actualizar e tentar esconder a triste realidade do desemprego em Portugal, dá 10 dias aos desempregados para poderem manifestar a sua existência. Se não o fizerem são excluídos da base activa dos desempregados e remetidos para um estatuto de não-existência, algures nas catacumbas do respectivo Ministério, permitindo assim mascarar as percentagens desse mesmo desemprego. O que mais impressiona neste tipo de expediente é a rapidez e a ânsia perceptíveis em duas ou três linhas de texto. O que mais revolta neste tipo de expediente é a transformação de pessoas, de homens e mulheres, em números e em percentagens, e assim em algo que não tem vida, não precisa de comer, de ter família, de trabalhar, de ter uma habitação, enfim, não merece existir. É isso. Solução final.


é mesmo isto...

30 setembro 2012

facebook

Hoje foi o dia em que desactivei a minha conta do Facebook e assim, definitivamente, abandonei o hábito de diariamente lá ir ver não importa o quê. A decisão já estava tomada há algum tempo e foi um sentimento crescente de desprendimento e incompreensão das razões que me mantinham interessado em participar nessa rede social. Aceito e compreendo que possa até ser uma boa ferramenta de trabalho para algumas pessoas, mas naquilo que me diz respeito, nada para além de um ou outro contacto exclusivo desse espaço. Já está. Foi uma decisão ponderada e por isso sem retorno possível. A ver vamos se outro "brinquedo" aparece para me distrair os sentidos...

27 setembro 2012

siempre!

Por estes dias e a propósito do ambiente de revolta latente que se sente e manifesta por esta Europa nossa, um amigo fez-me chegar este vídeo catalão, anexando uma curta mensagem: "especialmente para ti. Siempre".

20 setembro 2012

"ter-ter"

Numa (re)leitura rápida de um livro de Paula Godinho chamado "O Leito e as Margens" encontrei isto:
«A destreza do corpo e da mente, detectável pela capacidade de articular movimentos e palavras, constitui um requisito indispensável no processo de socialização, para a incorporação de um indivíduo no seu grupo doméstico e na aldeia. Enquanto não gatinham nem andam, a "rasa" (medida de alqueire) do centeio, basta para, sossegadamente, assistirem aos movimentos da mãe, enquanto ela se encontra adstrita à casa. O "tenedor", espécie de gaiola em que a criança fica suspensa, podendo ensaiar os primeiros passos, é uma construção em madeira, normalmente, feita pelos pais, que facilita a aprendizagem de movimentos. "Ter-ter" é a expressão que se repete quando a criança já adquiriu a postura de pé, mas hesita ainda nos passos a dar.»
O Tenedor nunca utilizei, nem construí para as minhas crianças, mas de facto, utilizei, e utilizo, a expressão "ter-ter" quando na eminência de começarem a caminhar. "Ter-ter" é conseguir equilibrar-se e não cair. Reminiscência inconsciente de um sentimento de pertença a um determinado grupo?!...

ilusão óptica

Numa destas últimas noites viajei, uma vez mais, de Bragança para o Porto. Tal como tantas outras vezes, saí de Bragança muito tarde, já perto da uma da madrugada e previa uma viagem rápida e tranquila. Logo à saída da cidade e depois de passar Rebordãos, as obras da A4 obrigam-nos a um desvio pela Nacional 15. A zona do Remisquedo, sopé da serra, é sombria e com vegetação densa. Olhei para o cimo da serra e onde com a luz do dia encontraria as enormes antenas da Marconi, descobri um forte clarão de tom alaranjado. Um incêndio, pensei eu. Só pode. Apesar da viagem ainda mal ter começado, eu estava cansado e nesse momento o pânico tomou conta de mim. A serra de Nogueira - a minha serra - estava a arder. Parei por momentos a olhar para aquela luz que iluminava a noite e as nuvens do cimo da serra. O que fazer?... Ligar para o número de emergência?... Ainda peguei no telemóvel, mas ali não tinha rede. Avancei rápido à procura de lugar onde captasse rede e pudesse ligar. Estava decidido a fazê-lo. Quando chego à zona de Sortes, a sul da serra, espreito novamente para o cima da serra e percebo que afinal o clarão que antes me parecera um incêndio, era apenas a iluminação pública que agora (e não sei desde quando) existe no Santuário da Senhora da Serra. Antes isso, pensei eu e segui tranquilamente cansado até às faldas da Invicta.

religião e relativismo civilizacional

Anda o mundo muçulmano sobressaltado com as atitudes de alguns órgãos de comunicação social ocidentais, que resolveram, uma vez mais, dar espaço e tempo à figura de Maomé. Nada de novo, pois sabemos sempre qual é a reacção muçulmana quando alguém, de alguma forma, verbaliza ou materializa a figura do seu profeta. No meio desta cíclica polémica há algo que me inquieta, pois nem com todo o relativismo cultural, social ou civilizacional, consigo perceber qual é a dúvida dos Estados laicos e seculares ocidentais em defender inequivocamente a liberdade de expressão dos seus cidadãos e de toda a sua produção artística, científica ou informativa. Aquilo que está em questão não é um principio religioso, pois os Estados islâmicos não admitem qualquer outra forma de expressão religiosa senão o islamismo nos seus territórios. Aí a confusão entre Estado e credo religioso propicia todas as expressões radicais e extremistas que bem conhecemos. Mas tudo bem, se assim se entendem e conseguem viver. Agora, não podemos, nem devemos permitir que esse fundamentalismo religioso ultrapasse as suas fronteiras e invada as nossas. O nosso estádio civilizacional permite, e bem, uma relação existencial de multiculturalismos, fundamentados na tolerância e na liberdade de cada ser humano. Ainda bem que assim é e quero que assim se mantenha. No Estado em que quero viver e criar os meus filhos, todos os indivíduos terão a liberdade de optar e manifestar as suas convicções. Não acredito em "guerras santas" ou "guerras civilizacionais", mas essa é razão que nos distingue e, desconfio, é essa a razão que atormenta os ideólogos de todo o extremismo e de qualquer fundamentalismo. Liberdade.

11 setembro 2012

até onde, até quando e até quanto?

"O curso da revelação destas medidas mostra a hierarquia do poder em Portugal. É intencionalmente que o Negócios hoje considera que Angela Merkel é a pessoa mais poderosa na economia portuguesa - e que Vítor Gaspar (número dois) tem mais poder na economia que Passos Coelho (número três). Estas medidas de austeridade mostram-no: a troika quer, Gaspar sonha, a obra de Passos nasce. Um escreve o texto, o outro implementa, o último lê-o". (Pedro Santos Guerreiro, Jornal Negócios, 9 do 9)

no parladoiro...






Alguns momentos meus no debate "oportunidades no rural", dia 7, promovido no âmbito do "Son d'aldea".

10 setembro 2012

continuidades culturais

Da Galiza trouxe também um pouco mais de conhecimento sobre essa rica e bonita região. Um dos factos que pude verificar e, depois, relevar é que apesar de todas as distâncias e de todo um passado diferenciado, são vários os caracteres que nos aproximam de uma forma até brutal, diria eu... todo o calão é semelhante, o cancioneiro popular recorre aos mesmos elementos e aos mesmos ritmos e sonoridades, assim como o prazer pela folia e pela festa que se veste sempre de boa carne e adorna com um bom tinto. Bebi, comi e dancei ao som da Carolina que tem uma saia com um lagarto pintado e que, sempre que ela dança, o lagarto dá ao rabo.

chusqueiro, galego e artimañeiro

Eis o Nostradamus, o São Cipriano, da Galiza. Verdadeiramente mentiroso.

menina estás à janela...

sons de uma aldeia

No passado fim-de-semana estive, a convite da organização, na aldeia de Paróquia de Albá, Município de Palas de Rei, Comarca de Ulloa, para participar na segunda edição do Festival Son d'aldea. É uma festa da comunidade rural local. Os sons da aldeia são vários, mas assentam numa teatralização das actividades económicas e culturais locais. Um espectáculo etnográfico que ao recriar diferentes momentos em diferentes lugares do seu território procura demonstrar que a comunidade sabe bem de onde vem e para onde quer ir. Num tempo em que tanto se fala do abandono do rural, do esvaziamento desses territórios, é surpreendente e até impressionante como uma pequena comunidade consegue promover e realizar tal evento - imagino as resistências e as incompreensões que a organização sofrerá... 
O momento grande deste festival é, sem dúvida, o "Roteiro Teatral" que é apresentado em vários locais do termo da aldeia e que dão a conhecer aos diferentes grupos de espectadores, os usos e costumes locais. Os espectadores (visitantes) inscrevem-se e são reunidos em grupos que percorrem diferentes percursos, durante os quais vão sendo surpreendidos com pequenas representações da vida quotidiana passada, que a comunidade preserva na sua memória colectiva. São três horas de viagem pelo imaginário e pela paisagem desta aldeia.
O que mais me impressionou neste espectáculo foi a naturalidade e sentimento com que os actores, locais e amadores, representaram os papeis das suas próprias vidas. Para além disso, agrada-me sempre essa capacidade das pessoas que vivem em pequenas comunidades, isoladas, de se organizarem e produzirem actividades e discursos alternativos. Também percebi que a organização e a própria comunidade já perceberam o poder, as possibilidades e as oportunidades que este festival pode proporcionar. Ainda não tinha acabado o roteiro teatral e já alguns membros da organização falavam em hipóteses de cenário e enredos para o próximo ano. Muito bem.