13 novembro 2012

Delães

Gosto sempre de regressar a esse lugar e, desconfio, regressarei sempre até ao meu fim. Mas à medida que o tempo vai passando, essas revisitações tornam-se cada vez mais nostálgicas e carregadas de memórias de outro tempo em que lá tudo tinha uma outra dimensão, outro cheiro e outra afectividade. Tudo está agora vazio, sem forma, sem afecto, sem reconhecimento. Nada ou quase me leva lá, apenas e quase só essa memória de rostos, de odores e de momentos vividos. Não importa, voltarei sempre. 

10 novembro 2012

intervenção

Venho aqui falar-vos da parte interior do nosso território nacional. Falo das comunidades que, apesar de serem também Portugal, têm sido historicamente relegados para uma condição sub-alterna que desde sempre cumpriram as suas obrigações para com a nação e a nação jamais, pouco ou nada, retribuiu. É uma das maiores e crónicas injustiças em Portugal, a descriminação negativa e bem negativa dos territórios do interior.
Territórios, comunidades e indivíduos que estão habituados, há gerações, a procurarem vida bem longe de casa.
Territórios, comunidades e indivíduos que estão habituados, e agora mais do que nunca, a verem os serviços públicos encerrarem : dos CTT aos tribunais, das escolas aos centros de saúde e valências hospitalares.
As políticas de austeridade, impostas por este governo afectam, sem dúvida, todos os portugueses e todas as portuguesas, mas afectam sobremaneira e com maior violência aqueles que, não por acaso, fazem ou tentam fazer vida no interior.
Os cortes financeiros, o desinvestimento público, o encerramento de serviços públicos e a não promoção da produção nacional eliminam postos de trabalho, desencorajam o investimento privado e extinguem as actividades económicas tradicionais locais.
O Bloco de Esquerda deverá, terá de assumir esta luta como prioritária. A defesa incondicional do investimento público na saúde, na justiça , na segurança social e na educação. A Escola Pública! - de forma a reestruturar, dentro do possível, o todo do território nacional.
O próximo ano será um ano importante, pois pelo menos teremos as eleições autárquicas e aqui, o Bloco de Esquerda não deverá hesitar em dedicar o melhor que tem em si e de si nesse processo. A capacidade de intervenção dos activistas do Bloco de Esquerda nas autarquias não deve ser desvalorizada ou sequer relativizada; sendo essencial e até estruturante, deverá ser valorizada e até reforçada com uma política autárquica forte que lute contra o desgoverno globalizante e que nos atira ou remete para uma condição jamais experimentada por nós.
Bem sei o esforço que a estrutura do BE tem feito para reflectir e debater as questões relacionadas com a interioridade, nomeadamente nas jornadas da interioridade e também na comissão nacional autárquica, mas o apelo é que esse esforço seja crescente, seja maior, que traga a si a qualidade de cada região.
Camaradas,
Fica o alerta, fica o apelo para que as nossas ideias, os nossos ideais e o nosso projecto político futuro possa também nas autarquias ter lugar.
Obrigado.
(Intervenção do distrito de Bragança)

Francisco Louçã

Hoje quando iniciar a VIII Convenção do Bloco de Esquerda, o Francisco deixará de ser o Coordenador do partido e abandona todos os cargos políticos que até hoje desempenhou. Bem sei, ele já o disse e repetiu, que não vai abandonar o partido nem a luta por uma solução alternativa de esquerda, mas é indiscutivelmente uma perda de monta para o BE. Conheci o Francisco algures em 2004 e à medida que me fui envolvendo no movimento e participando nos diversos fóruns, tive a oportunidade de o ir conhecendo e reconhecendo as suas qualidades enquanto lider, enquanto membro de uma equipa e enquanto comunicador. Foram vários os momentos em que privámos e conversámos acerca de diversos assuntos. O Francisco é um excelente ouvinte. É indesmentível o poder da sua imagem e personalidade junto da sociedade e eu pude testemunhar, por todo o país, o carisma e a empatia que provoca nas pessoas. Não acredito no culto da personalidade, nem que haja pessoas insubstituíveis, mas substituir o Francisco vai ser um desafio para todos os activistas do BE e também para mim. Confesso que tenho dúvidas em relação ao momento escolhido para haver esta mudança e confidencio que preferia que ele se mantivesse no cargo.
(10 de Novembro, a caminho de Lisboa)

VIII convenção do bloco de esquerda

A caminho de Lisboa, aproveito para pensar naquilo que poderá acontecer nestes dois dias em que vamos estar reunidos em Convenção. É um momento dificil para a sociedade em geral e para o partido em particular. Experimentamos, pela primeira vez, uma mudança de liderança, ainda por cima num processo de substituição de um dos lideres e fundadores do partido que marcaram a sua evolução, depois e também porque os últimos resultados eleitorais foram efectivamente derrotas para o BE.
Vou participar nesta convenção enquanto delegado eleito pela moção A, da qual sou subscritor e defensor. Faço parte da lista da moção A candidata à Mesa Nacional, orgão para o qual tenho feito parte desde 2009, mas desta vez não serei eleito, pois para além de previsiveis surpresas a moção B elegeu uma percentagem considerável de delegados, o que na votação inviabiliza a minha eleição. Mas isso não será relevante, até porque tendo aceite integrar a lista, demonstrei disponibilidade para ocupar o lugar, mas a não eleição libertar-me-á de várias responsabilidades. 
Em relação à Convenção não tenho grandes expectativas, pois é mais do que conhecida e pública a composição da próxima liderança. Apoio esta solução, não por ser paritária ou por ser "bicefala", mas por ser protagonizada por dois elementos descomprometidos com as correntes fundadoras do movimento. Aliás, sem qualquer tipo de sectarismo, sabendo que o BE é já muito maior do que a soma dos seus partidos e movimentos fundadores, não compreendo nem aceito a cativação do partido por parte dessas, agora, correntes. Está na hora de alterar essa relação de forças. Para bem do colectivo. Veremos.

08 novembro 2012

uma identidade nacional

Foi com relativa surpresa que vi o nome de José Manuel Sobral associado a esta colecção de Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Mas também não sei porquê é que estranhei esta colaboração. Em todo o caso, o José Manuel Sobral, doutorado em Antropologia e que, nos últimos tempos, se tem dedicado às questões gastronómicas, aparece aqui com uma interessante reflexão acerca da formação e reprodução da identidade nacional portuguesa. O autor defende que a melhor forma de analisar as identidades colectivas, como as nacionais, consiste no estabelecimento da sua genealogia. Neste ensaio, a História encontra-se sempre presente, através da reconstituição selectiva de momentos e conjunturas marcantes na construção das formas de identificação significadas pelos nomes Portugal - um Estado, que haveria de ser descrito e vivenciado como pátria ou nação - e Portugueses - o nome colectivo dos seus habitantes.
Já o desfolhei e será com curiosidade que o lerei nas próximas horas. Ainda assim, não hesito desde já em recomendar a sua leitura.


07 novembro 2012

mediascape: a ignóbil

Ontem, Ana Lourenço na SICN teve três convidados para falarem acerca do Estado Social. Um desses convidados era Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Português. Eu, curioso, estive atento, mas logo às primeiras palavras de tal individualidade, não aguentei e mudei de canal. Lembro-me de ter feito um qualquer comentário no Twitter. Insuportável era o seu discurso. Mas hoje, as reacções a esse momento vieram de todo o lado e eu, para confirmar aquilo que tinha sentido, fui então rever, agora na íntegra e com mais atenção, a intervenção dessa boa samaritana. Como é possível haver ainda gente a pensar e a raciocinar desta forma. Parece coincidência mas não é por acaso que é agora, neste contexto social e político, que esta gente de merda tem coragem para falar assim. Que discurso bolorento, que anacronismo. Esta sujeita vive num país espectacular, onde não há miséria e onde a civilidade é marcada por uma caridade aos pobres que existem por aí. O seu discurso, a sua postura e a sua atitude são ignóbeis. Racista de classe que, ao mesmo tempo, precisa dessas classes desfavorecidas e miseráveis para justificar a sua miserável existência. Intolerável. Nojo. Confirmem no vídeo...

a estima

Assim de repente e sem o auxílio de qualquer dicionário, estimar significa querer bem, gostar ou preservar, conservar. As pessoas estimam-se ou não entre elas. Nas vidas quotidianas e dos lugares comuns, partilhados pelos rostos que se vão cruzando, a estima é um elemento simpático e cortês. Frequentemente as pessoas trocam cumprimentos e a cortesia desses encontros fugidios, ainda que assíduos e rotineiros, obriga-as, no momento final desse diálogo, a reforçar a estima que nutrem umas pelas outras, produzindo num curioso pretérito perfeito: - Estimei em vê-lo!

06 novembro 2012

o poder dos livros

"A melhor forma de combater os fascistas religiosos, sejam eles evangélicos, como nos Estados Unidos e no Brasil, judeus, muçulmanos ou hindus, é através da alegria - do sexo, da música, do vinho e dos rojões. 
Além dos livros, claro. Os Americanos teriam feito mais pela libertação dos afegãos se tivessem despejado sobre o país não bombas, mas livros. (...) Os livros realmente mudam o mundo. A boa literatura é sempre subversiva. Todos os totalitarismos temem os livros." 
José Eduardo Agualusa na LER nº118.

Obama,

Today is the day!

05 novembro 2012

mediascape: the cloud

Nota Prévia
Nova rubrica no apurriar. Proponho-me destacar aqui a notícia diária, disponibilizada pelos media que particularmente me atraia os sentidos, numa perspectiva particular e de consciência social, neste mundo difuso e de vertiginosas heterogeneidades. Como título surgiu-me a palavra mediascape, cujo conceito é da autoria de Arjun Appadurai (2004) e refere-se à distribuição da capacidade electrónica para produzir e disseminar informações. O seu aspecto mais importante é que fornecem vastos e complexos repertórios de imagens, narrativas e etnopaisagens a espectadores de todo o mundo. (…) As linhas divisórias entre as paisagens realistas e ficcionais que vêem estão esbatidas. (…) Tendem a ser explicações centradas na imagem, com base narrativa, de pedaços da realidade, e o que oferecem aos que as vivem e as transformam é uma série de elementos, a partir dos quais podem formar vidas imaginadas, as deles próprios e as daqueles que vivem noutros lugares. (Appadurai, 2004:54)
A ver vamos se consigo ser assíduo, pois pontual não posso prometer ser. Acontecerá quando puder, conseguir ou me apetecer.

The Cloud
A notícia chegou-me bem cedo, através da rádio e dizia, citando o Diário de Notícias, que o Governo se prepara para entregar a privados a gestão e manutenção das bases de dados públicas nacionais (defesa, saúde, segurança, etc.) como forma de conseguir cortar na despesa pública. Esse estudo encomendado e tutelado pelo ministro Miguel Relvas foi desenvolvido no âmbito do Grupo de Projecto para as Tecnologias de Informação e Comunicação (GPTIC) e contempla três cenários possíveis, dos quais o mais "vantajoso" para o Estado será uma solução tecnicamente nova, a «Cloud Computing», gerida, claro está, por uma empresa privada. Não sendo conhecedor destes processos, conheço minimamente o conceito enquanto utilizador. Desde logo tenho dúvidas quanto à novidade tecnológica, pois de novo nada tem e já várias empresas disponibilizam aos seus clientes e utilizadores esse espaço virtual e desmaterializado, onde podemos armazenar informação e aceder a ela, a qualquer momento e em qualquer local, através da internet. Depois, o bom senso avisa-me para os perigos duma solução deste tipo: Que tipo de informação pretende lá colocar? Quem vai ter acesso a essa informação? Qual o nível de segurança? A própria concentração de tamanha e tão variada informação parece-me contra-producente, pois para além da questão económica, qual a vantagem de centralizar num só "espaço" e numa só empresa toda a informação? Os níveis de conhecimento devem manter-se isolados e diferenciados. Questões de Estado e informações relativas aos seus cidadãos devem pertencer ao Estado e só. Um Estado soberano e de direito não pode entregar ao desbarato informação vital, apenas porque a sua manutenção e gestão tem custos. Esta notícia revela também o desespero do governo que a todo o custo quer desfazer o Estado e transformá-lo em algo, isso sim, novo e desconhecido. Idiotice. A nuvem é e será sempre apenas e só uma metáfora eficaz e bonita.

28 outubro 2012

25 outubro 2012

crise, serviços e qualidade

Não haverá um português que não utilize o termo "crise" no seu dia-a-dia, com propriedade ou sem ela, com informação ou sem ela, com razão ou sem ela, com hipocrisia ou sem ela, ou com sentido ou sem ele. Na realidade esse termo e todos os seus significados vieram introduzir no léxico nacional um conjunto de étimos que até então praticamente desconhecíamos. A par deste fenómeno linguístico, a "crise" proporcionou também o ambiente ideal para o abandono, por parte do capital, na indústria e no comércio, mormente nas pequenas e médias empresas, levando à presente situação dramática de desemprego e de indigência social e cidadã. Uma das consequências mais gravosas deste processo é o desaparecimento de todo um tecido comercial de pequena escala que não aguenta a pressão e se vê obrigado a fechar portas, deixando o mercado disponível para os grandes grupos e exposto à avidez dos monopólios, o que por sua vez traz, quase obrigatoriamente, um decréscimo na qualidade dos serviços prestados e dos produtos comercializados. Naquilo que é a minha experiência de cliente, noto nalgumas das empresas esse prejuízo qualitativo. Dou dois exemplos: A Fnac que quando se instalou em Portugal e durante muito tempo oferecia um serviço de qualidade na venda de livros técnicos (encomendas, prazos, disponibilidade, variedade, entre outros factores), perdeu substancialmente essa qualidade e agora, para além de um atendimento demorado por falta de colaboradores, por norma não tem e não encontra no catálogo, nem se mostra disponível para a encomenda; A Toys"r"us, originalmente, um mundo mágico para a brincadeira e um baú sem fundo de diversidade, tem as lojas "abandonadas", com poucos clientes e com poucos colaboradores. Pedir um esclarecimento ou uma ajuda tornou-se insuportável, seja pelo tempo de espera, seja pela qualidade dessa interacção. Estes dois exemplos dizem respeito àquilo que foi a minha percepção, por estes dias, em situações concretas. Aquilo que aconteceu com a chegada destas duas marcas - entre outras - ao nosso mercado foi o fim de muitas e muitas pequenas empresas concorrentes que não aguentaram o poderio destes gigantes, ou seja, primeiro rebentaram com o mercado ficando em situação de monopólio ou algo parecido e depois, donos e senhores do mercado, puderam desqualificar esse mesmo mercado. O consumidor é passivo, sujeita-se a qualquer preço e vive dependente de cartões e de dias de promoção. O cliente deixou de ter razão e de ser soberano.

14 outubro 2012

processo civilizacional

Vivemos tempos magníficos. E não o digo com ironia. Pessoalmente considero que o tempo presente, que inclui também o passado recente e o futuro próximo, permite-nos experimentar e conhecer momentos únicos que jamais pensei um dia poderem acontecer. São dias paradoxais e de sentimentos difusos, mas que me cativam e atraem para um maior interesse e crescente envolvimento. O experimentalismo social a que temos vindo a ser sujeitos terá, obrigatoriamente, como resultado um retrocesso civilizacional, o que me impele para um dos lados desse mesmo processo. Estou completamente implicado na luta contra este crime contra a nossa humanidade. Tal como sempre afirmei aqui e noutros fóruns, sou um pacifista e um crente da palavra como arma de qualquer dialéctica. Nunca acreditei nas armas e nas guerras, mas sei da sua utilidade histórica e civilizacional. Neste momento e perante o que os meus sentidos percepcionam, vivo um conflito existencial, pois pressinto que algo grave poderá acontecer. Não gosto muito dessa sensação, mas parece-me inevitável. E num momento como este, permito-me a uma inconfidência. Lembram-se da Carbonária?

07 outubro 2012

diplomatique, c'est le monde...

Sem ainda ter tido tempo de o desfolhar. Tem andado comigo.

04 outubro 2012

se não responder...

Assim são tratados os infelizes dos desempregados. O Estado quer a todo o custo livrar-se deles, nem que isso signifique a maior das indigências individuais e cidadãs. A pressa de actualizar e tentar esconder a triste realidade do desemprego em Portugal, dá 10 dias aos desempregados para poderem manifestar a sua existência. Se não o fizerem são excluídos da base activa dos desempregados e remetidos para um estatuto de não-existência, algures nas catacumbas do respectivo Ministério, permitindo assim mascarar as percentagens desse mesmo desemprego. O que mais impressiona neste tipo de expediente é a rapidez e a ânsia perceptíveis em duas ou três linhas de texto. O que mais revolta neste tipo de expediente é a transformação de pessoas, de homens e mulheres, em números e em percentagens, e assim em algo que não tem vida, não precisa de comer, de ter família, de trabalhar, de ter uma habitação, enfim, não merece existir. É isso. Solução final.


é mesmo isto...

30 setembro 2012

facebook

Hoje foi o dia em que desactivei a minha conta do Facebook e assim, definitivamente, abandonei o hábito de diariamente lá ir ver não importa o quê. A decisão já estava tomada há algum tempo e foi um sentimento crescente de desprendimento e incompreensão das razões que me mantinham interessado em participar nessa rede social. Aceito e compreendo que possa até ser uma boa ferramenta de trabalho para algumas pessoas, mas naquilo que me diz respeito, nada para além de um ou outro contacto exclusivo desse espaço. Já está. Foi uma decisão ponderada e por isso sem retorno possível. A ver vamos se outro "brinquedo" aparece para me distrair os sentidos...