03 março 2013

(des) (in) formação

Num destes dias, depois de mais um dia de aulas, a criança chega a casa com este papel na mão e diz: "- Papá, olha o que nos deram hoje na escola."

02 março 2013

manifestação

Há muito tempo sabia que não poderia marcar presença na manifestação que hoje ocorre um pouco por todo o país. Infelizmente, a minha debilidade física, o meu debilitado sistema imunitário e o verdadeiro receio do surto da gripe A que anda por aí a matar gente, levaram-me a optar por ficar na minha zona de conforto, embrulhado em manta e com os pés em pantufas. Sinais dos tempos e das idades. Resta-me a televisão e a internet para saber o que as ruas vão dizendo. Entretanto, aqui vou cantarolando e desafinando mais uma versão da "Grândola".


«morreu»

Pela primeira vez comprara um automóvel com algum conforto, equipamento e potência. Planeara uma vida de largos anos com esse carro, pois para além da sua inequívoca qualidade, era um carro espaçoso, adequado às exigências de sua família. Viajaram quilómetros e quilómetros, horas a fio, de norte a sul do país, pelo estrangeiro e arredores. Sempre na sua potente e capaz viatura. Pois bem, pensara ele que tinha ali máquina para durar, mas não, não teve. Enganou-se e não quis acreditar quando o médico especialista, depois de lhe pedir umas centenas de euros pelas intervenções, lhe disse que o carro morrera. Não tinha qualquer possibilidade de sobreviver. Demorou algum tempo a interiorizar esse veredicto, ainda procurou outras opiniões, mas derrotado pela despesa e pelos evidentes sinais de uma vida que se esvai, desistiu. Entregou as chaves e nem sequer se despediu dele.

06 fevereiro 2013

LER

Num número dedicado a Ruy Belo, destaco também o texto de Pedro Mexia acerca das autobiografias.

28 janeiro 2013

24 de Janeiro

(por manifesta indisponibilidade)

Apurriados, umas vezes mais outras vezes menos, continuaremos.
Obrigado.

08 janeiro 2013

agora o filme...

Sendo um apreciador da escrita de Leo Tolstoy, não poderia deixar de ver a adaptação feita ao cinema do seu grande clássico Anna Karenina. Sendo o original uma narrativa densa e enorme, compreende-se a necessidade de escolher apenas alguns dos momentos marcantes da história para apresentar na versão filme, mas a sensação com que fiquei depois de o ver foi como que tivesse lido uma sebenta resumo da versão original. Gostei do desempenho dos actores, da beleza da actriz Keira Knightley que representou o papel de Anna e destaco a personagem Aleksei Aleksándrovitch, num desempenho magnífico de Jude Law (para mim, o melhor personagem desta adaptação). O ambiente teatral e a recriação fantástica da Rússia Imperial, onde se desenvolve toda a narrativa, numa sucessão de cenários e cruzamento de actores e a própria realização, fizeram-me recordar o filme "Fabuloso destino de Amelie".


03 janeiro 2013

dia de LER

dia primeiro, primeira vez...

Acordar preguiçoso para o novo ano. Com calma e a caminho da mesa posta para almoçar, recosto-me ao sofá. Na TV a missa transmitida pela TVI e rezada pelo Cardeal de Lisboa. Igual a tantas outras, mas naquele mesmo espaço onde me encontrava, havia quem assistisse e estivesse de facto a participar na liturgia. Chegado o momento da paz, houve quem se cumprimentasse, o que originou uma cadeia de cumprimentos entre todos os presentes nessa sala. Surpreso e impreparado lá fui obedecendo ao ritual e desejando que a paz esteja com eles e com elas. Aqui está uma formulação diferente - pouco utilizada - que poderia e deveria constar do nosso cardápio verbal: que a paz seja em ti.

31 dezembro 2012

2013 para mim

Pois cá está um novo ano e este terminado em três, o que significa para mim o completar de mais uma década de existência. Pois é, será o ano em que completo quarenta anos. Dependendo do ponto de vista, poderão dizer que ainda só, ou então que são já..., ainda assim prefiro o pragmatismo do tempo que passa por mim e por todos os outros. Para este próximo ano e num contexto como aquele que vivemos, será avisado apenas solicitar a mesma qualidade de vida que tenho tido até aqui. Sem grandes ambições e sem grandes planos, pois percebi já que não mudarei o mundo, viveremos aquilo que pudermos. Vamos lá.

instante urbano XXII

No regresso do almoço, entro na sala onde tinha estado nos últimos dias a recolher dados e encontro a técnica do Arquivo Distrital de Bragança a auxiliar outra pessoa que procurava informação. Pela conversa percebo que se trata de uma jovem brasileira que veio a Portugal em busca das suas origens, dos seus antepassados. A dificuldade é que apenas sabia um nome e o ano em que nascera (1901). A técnica lá a foi ajudando até que, através dos registos paroquiais, lá conseguiu encontrar esse seu antepassado. A alegria e satisfação da descoberta manifestou-se num choro incontido que lhe turvou os sentidos e a obrigou a pedir ajuda na leitura. À medida que foi ouvindo a informação a comoção aumentava, até ao momento em que também já era a técnica do Arquivo quem soluçava e tentava segurar as lágrimas. E eu ali ao lado, fazendo de conta que estava concentrado no meu trabalho e na minha música. Por fim, exclarecida, pede uma cópia do documento e uma certidão. Ligou para a Avó (que seria a filha desse seu familiar) e conta-lhe o que conseguiu descobrir. Prometeu-lhe que a iria visitar para lhe mostrar os documentos e desligou. De imediato faz outro telefonema, julgo que para o Brasil, e conta a sua aventura. Quando desligou já tinha à sua frente as cópias e a certidão. Agradeceu e disse que iria de imediato à procura da aldeia, lugar onde esse seu antepassado nasceu, viveu e morreu. Mesmo tendo consciência de que esta é uma experiência idêntica a tantas outras, não deixa de ser impressionante a força de determinados sentimentos. Aquela jovem, descendente de portugueses, jamais conheceu esse senhor, mas a sua referência concerteza terá sido uma presença constante na sua vida e na vida da sua família. Impressionante, para mim, é a importância da memória e a necessidade de a estudar. Aqui, ali ou acolá, ontem, hoje ou amanhã, queremos pertencer a algo ou a alguém.

11 dezembro 2012

o coronel

Ouço as birras da minha criança, daquelas típicas de alguém que não sabe ainda nada de vida e de quem pensa que podemos e devemos ter tudo e ter mais e ocorre-me ao pensamento esta imagem. O "Coronel" junto de uma das suas habitações - pegava-lhes fogo e abandonava-as sempre que era visitado por uma cobra ou lagarto. O "Coronel", assim era tratado e assim ficou na memória daqueles que o conheceram, viveu grande parte da sua existência no monte e pelo termo da aldeia de Vila Boa, em Vinhais, sozinho e, com a excepção do vestuário, despido de qualquer caracter de civilização. As suas casas eram as casarolhas que os lavradores construíam para abrigo nos terrenos longe da aldeia. Viveu com fome e frio. Comeu, bebeu, fumou e vestiu apenas o que lhe deram. Só aparecia na aldeia quando tinha muita fome e o fim veio, assim, com uma dor forte de barriga, daquelas que nos últimos tempos o importunavam e de que ele se queixava. Viveu e morreu só.

Le Monde


Mais um excelente número do Jornal Mensal.

08 dezembro 2012

para adquirir e conhecer...

Na excelente 119ª edição da revista LER, Bruno Vieira Amaral escreve sobre o livro de Nicholas Carr "Os Superficiais - o que a internet está a fazer aos nossos cérebros". Só o título prende-me os sentidos e a curiosidade aumenta depois de ler a respectiva recensão. Nicholas Carr tenta responder à questão: Que implicações pode ter a internet - e todo o ambiente que o rodeia - no cérebro humano?
Já agora e enquadrado pela quadra natalícia, se por um mero acaso, alguém pensar oferecer-me algo, aqui está uma rica prenda. Obrigado, mesmo assim.

literatura oral e marginal

Quando frequentei o segundo ou terceiro ano do curso da Antropologia, uma das cadeiras opcionais dava pelo nome de Literaturas Orais/Marginais. Nesse ano fui dos poucos alunos do curso a escolher essa cadeira. Pouco ou nada recordo do programa, da professora ou do que aprendi, mas houve um pormenor que guardei na memória até ao presente. Uma das referências bibliográficas centrais dessa disciplina era um livro altamente alternativo e que se chamava "O guardador de retretes". Nunca o cheguei a ler, consultar ou sequer conhecer. Sei que mesmo depois de acabar o curso e ao longo de todos estes anos, guardei essa referência e cheguei mesmo a procurá-la, mas sem sucesso. Até que hoje, na Fundação Cupertino de Miranda e ao visitar mais uma "feira" de livros, o encontrei, numa 4ª edição e versão mais recente (2007). Finalmente.

07 dezembro 2012

Ler, 25 anos depois...

genericamente, dos últimos seis meses, particularmente, de uma feira do livro

- Conde, Santiago Prado (2010), Conferencia Internacional da Tradición Oral - volumes I e II;
- Gué, António Sá (2012), Quadros da Transmontaneidade, Lema de Origem;
- Fernandes, Hirondino (2012), Bibliografia do distrito de Bragança - série Escritores, Jornalistas, Artistas - volumes II e III, Bragança, Câmara Municipal de Bragança;
- Feio, Rui (2012), Roteiro do Culto Mariano em Terras de Bragança e Zamora, Bragança, Câmara Municipal de Bragança;
- Sobral, José Manuel (2012), Portugal, Portugueses: uma identidade nacional, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Ribeiro, Gabriel Mithá (2012), O ensino da História, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Silva, Mónica Leal da (2012), A crise, a família e a crise da família, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Madruga, Francisco (2006), Novos tempos, velhas culturas, Mogadouro, Associação Cultural e Recreativa de Soutelo;
- Vieira, João Martins (2007), Planeamento e ordenamento territorial do turismo - uma perspectiva estratégica, Lisboa, Editorial Verbo;
- Debord, Guy (2012), A sociedade do espectáculo, Lisboa, Antígona;
- Tolstói, Aleksei K. (2010), O vampiro e a família do vampiro, Lisboa(?), Estrofes & Versos;
- Barbosa, Pedro (2007), O guardador de retretes, Porto, Edições Afrontamento;

22 novembro 2012

presenteado

Nunca fui pessoa para grandes euforias ou grandes entusiasmos para receber presentes. Não me recordo de sentir grandes expectativas em relação às datas especiais de previsíveis surpresas e ofertas. Sem querer melindrar todos(as) aqueles(as) que me têm mimado, não sou pessoa que receba muitos presentes; acho que nunca fui. Gosto muito de presentear aqueles e aquelas que gosto e que de alguma forma quero bem, mas também gosto muito, mesmo, de me presentear e comprar para mim aquilo que mais gosto. Não sou esquisito e opto quase sempre, pois dá-me certo prazer, pelas mesmas coisas. Por nunca estar à espera desses mimos, sempre que alguém me oferta algo é uma surpresa e sabe bem, sentimo-nos queridos e estimados. Saber que alguém, num determinado momento, pensou em nós e associou algo à nossa pessoa... Foi o que me aconteceu por estes dias. Sempre bom.

19 novembro 2012

mediascape: os desistentes

Das notícias que hoje encontrei na imprensa e nos noticiários televisivos, gostaria de destacar esta do Jornal Público e que diz que os emigrantes portugueses de hoje estão a desistir de Portugal e a pedir naturalização nos países de acolhimento. De facto, esta é uma nova atitude, pois mesmo admitindo que muitos daqueles que, durante várias décadas e gerações, partiram em busca de uma vida melhor longe da pátria nunca regressaram, não há registo que esses portugueses algum dia tenham desistido da sua nacionalidade. Nacionalidade essa que compreende um conjunto de identidades pessoais que, por sua vez, se sentem, ainda que involuntariamente, parte de uma comunidade, no caso nação e, em particular, Portugal. É também enquanto membros dessa nação que aprendemos a construir um sentido de diferença para com os outros, para com os estrangeiros, com os quais permanentemente nos comparamos. José Manuel Sobral (que ainda há poucos dias, aqui referi, a propósito do seu ensaio acerca da identidade nacional), afirma que: «Ser-se português não implica partilhar uma qualquer essência ou substância inefável, mas tão-só reconhecer-se a si e a outros como tais, e a outros como diferentes, estrangeiros. As caracterizações ou representações do que era ser-se português nunca terão sido algo de homogéneo e ainda hoje o não são.»(2012:33)
O facto de haver indivíduos que declaradamente escolhem outra nacionalidade é algo significativo e justificará uma análise mais cuidada e um estudo mais aprofundado, pois para além de romper com as lógicas e circuitos tradicionais dos movimentos migratórios, implica um conjunto de questões simbólicas e identitárias, e será, a médio ou longo prazo, uma questão de Estado, na medida em que será a própria sobrevivência da nação que poderá estar em risco. A desistência de uma nacionalidade significa também a desqualificação dessa nação. Em cada um dos casos é a dignidade de Portugal que está em questão. Cada desistência significa que o outro é melhor que nós e em última análise, esse outro passará a ser «nós» e vice-versa.
Este é mais um sintoma - e espero que não passe disso - do mal estar social que em Portugal e nalguns países da União Europeia se sente, consequência directa das políticas gravosas e erráticas que os governos europeus optaram na resposta à actual crise. Um dia, num futuro que eu não adivinho, haverá quem possa reflectir sobre este momento histórico e, ainda que postumamente, fazer justiça e repor a verdade, para que as nacionalidades possam garantir os índices de civilidade e a qualidade de vida mínima para os seus cidadãos poderem e quererem estar e ser nacionais.

13 novembro 2012

mediascape: o odioso

Para o ministro Pedro Mota Soares responsável por essa coisa chamada Segurança Social, os idosos são abandonados pelos seus familiares e depositados nas instituições sociais. Para o ministro, os familiares desses idosos deverão ser perseguidos e responsabilizados, pois a culpa por não poderem tratar dos seus familiares mais velhos, é única e exclusivamente deles. Agora e segundo este novo paradigma, só quem demonstrar que não tem capacidade financeira para cuidar dos mais velhos, poderá recorrer às instituições do Estado. A mesma conversa, o Estado só servirá aqueles que realmente necessitam... Neste caso não é só a questão social que preocupa, mas sim e principalmente, preocupa-me a tentativa descarada de desresponsabilizar o Estado de uma das suas principais e fundamentais funções. Inadmissível. Este é mais um exemplo daquilo que este governo com celeridade está a fazer ao Estado Social. Esvaziá-lo de sentido e serventias aos portugueses, para então depois entregar aos privados, através de pomposas cerimónias e invocando a necessidade de uma prestação de serviço público com qualidade, esses mesmos serviços e prestações sociais. Este ministro, em apenas um pouco mais de um ano de desempenho, conseguiu já o lugar invejado de ministro do ódio social. Parabéns.