30 setembro 2013

fim de ciclo

Tal como já aqui antevira, não fui eleito para a Assembleia Municipal de Bragança. O desafio adivinhava-se difícil, pois para além da fraca implantação do BE no distrito e no concelho, para além dos mais que certos erros na escolha dos protagonistas e na construção do programa eleitoral, foram cometidos vários erros estratégicos e a conclusão é que a mensagem não passou. Para além de tudo isto ao qual eu, pessoalmente, não refuto ou evito responsabilidades, fomos efectivamente a principal vítima da reforma administrativa das autarquias locais. Em Bragança mas também no restante território nacional. No caso concreto do concelho de Bragança, nunca desde 2005 conseguimos deixar de ser a força política menos votada, por isso com a redução substancial do número de freguesias no concelho, seriamos com naturalidade os primeiros a ser excluídos da Assembleia Municipal.
Estive a representar o BE durante dois mandatos (2005-2013) nessa Assembleia. Foi sem dúvida uma excelente experiência. Gostei realmente daquele ambiente de disputa partidária. Conheci muitas pessoas, das quais ganhei alguns amigos para a vida. Tive acesso a muita informação e a oportunidade de perceber como se gere um município. Fui protagonista inúmeras vezes, privei com pessoas que jamais imaginei conhecer (Adriano Moreira, Manuel Alegre, Vasco Lourenço, Francisco Louçã, entre outros), construí o meu espaço político e de intervenção cívica. Senti e percebi todos os anti-corpos e todas as animosidades que criei nalguns sectores mais reaccionários, mas foi engraçado. Sempre consciente da relação de forças presentes, sempre consciente da minha representatividade e apesar de todo o mundo que me separava de grande parte dos demais, fiz oposição leal e responsável. Agora acabou.
Sem grande precipitação e sem grande pressa, iremos reflectir sobre este resultado. Contudo, e como não poderia deixar de ser, assumirei desde o primeiro momento as minhas responsabilidades políticas. Assim, renunciei já ao mandato enquanto membro da Coordenadora Distrital do BE, assim como renunciei ao meu lugar de membro da Comissão Nacional Autárquica do BE, comissão essa eleita e legitimada pela última Convenção Nacional. Sendo assim, adquiro uma vez mais a condição de militante do movimento. Sempre disposto para novos desafios, sei que em breve eles surgirão.

conforto pretérito


28 setembro 2013

reflexão sobre campanha autárquica em Bragança

É já no remanso do lar que me encontro a escrever estas palavras. Tranquilo e satisfeito pela jornada realizada durante as duas últimas semanas. Percorremos o concelho de lés-a-lés, falando com todos aqueles que nós quiseram ouvir, trocando impressões e ouvindo as opiniões (por vezes desagradáveis) e reclamações dos cidadãos de todas as 114 aldeias que compõem o município. De todas essas conversas, destaco pela positiva o primeiro comício que realizámos no espaço rural. Aconteceu em Gondesende, onde tínhamos cerca de 30 pessoas à nossa espera, onde temos um membro eleito desde 2009 e onde repetimos a candidatura à Assembleia de Freguesia. Temos alguma expectativa quanto a esse resultado. Pela negativa, destaco as frequentes queixas relativas à água e em relação ao saneamento básico, que ainda não cobre a totalidade do concelho. Percebemos, outra vez, que o que as pessoas querem é festa, som, confusão e brindes - e nem importa o quê: canetas, isqueiros, t-shirts, lápis ou canetas, bonés. Qualquer coisa serve, menos ideias e palavras. Aquilo que humildemente teimamos em partilhar é isso mesmo; um programa com ideias e projecto. Infelizmente, mede-se a probabilidade de vitória ou derrota, consoante a dimensão das caravanas de cada partido.
É sempre um prazer viajar tranquilamente pelas estradas e ruas que ligam as nossas aldeias e apreciar as paisagens fabulosas que constituem o nosso território. É sempre um prazer imenso chegar ao final da jornada de cada dia e sentar num e noutro restaurante a saborear as magníficas carnes e o bom vinho. São sempre dias cansativos, mas dos quais guardarei boas recordações. Sem dúvida.
No que à Assembleia Municipal diz respeito, lista que uma vez mais encabeço, a nossa expectativa é podermos manter o mandato que temos já desde 2005. Algo que será desta vez mais complicado, não só pelo sentimento de descrédito que todos os partidos sofrem, como também devido à reforma administrativa das autarquias locais que, no caso de Bragança, fez reduzir de 49 para 39 freguesias. Portanto, precisaremos de mais votos para conseguir cada mandato. Em relação à Câmara Municipal, em consciência não poderemos querer mais do que melhorar a nossa votação, pois a eleição implica uma votação muito acima daquilo que é a nossa possibilidade. Mas esperemos pela justiça dos  eleitores.
Pelo que pude perceber durante estes dias de campanha e no terreno, o PSD manterá o domínio na autarquia e isto porque, em minha opinião, o PS não só escolheu o candidato errado e uma lista problemática, como também fez uma campanha errada, tendo apostado nas novas tecnologias e num certo elitismo intelectual - jogos virtuais, facebook, podcast, twitter, etc., assim como uma assessoria de qualidade duvidosa, bem ilustrada pela publicação de sondagens inexistentes e com fichas técnicas cheias de erros técnicos básicos. Foi precisamente esse episódio quem derrotou definitivamente essa candidatura, pois o Jornal Nordeste, na sua edição de 24 deste mês, faz da primeira à última página um cerrado ataque à estratégia escolhida pelo PS. Quero ver qual será a leitura e as respectivas consequências políticas que os seus actuais responsáveis farão dessa derrota que se antevê clara e até, possivelmente, estrondosa.
Mesmo aceitando essa pérola da sabedoria popular que diz que prognósticos só no final do jogo, eu arriscaria dizer que o resultado para a eleição do executivo camarário será o seguinte: PSD 3, PS 2 e Humberto Rocha (independente) 2. A dúvida poderá residir na eleição do segundo vereador do independente ou a eleição do quarto vereador para o PSD e, assim, este partido conseguir a maioria absoluta na vereação.
É com alguma expectativa que aguardo a noite de Domingo, pois para além da relativa incerteza quanto ao resultado final, também o meu futuro próximo estará em jogo. Certo para mim é que o nosso resultado trará inevitavelmente consequências políticas. Cá estarei eu para as assumir.

Pós-texto:
Em jeito de declaração de interesse, manifesto o desejo que o meu amigo Duarte Diz Lopes, coligação PSD/CDS (como custa escrever estas siglas e aceitar a vitória desses partidos) vença em Vinhais e que em Vimioso vença o PS, lista onde habita o meu amigo Paulo Lopes.

13 setembro 2013

pré-campanha

Intervenção Comício Praça da Sé - Bragança

9 de Setembro de 2013 - 21 horas

Luís Vale
(candidato à Assembleia Municipal de Bragança)

Boa noite,

Nos últimos dezasseis anos a gestão autárquica do nosso município esteve entregue a um único partido, ao PSD. Foram quatro mandatos de uma maioria soberana e legítima, porque democraticamente eleita e por isso o Bloco de Esquerda respeitou-a e foi leal para com essa decisão dos homens e mulheres de Bragança.

O Bloco de Esquerda organizou-se e apresentou-se ao eleitorado local pela primeira vez em 2005. Elegemos um membro para a Assembleia Municipal e repetimos essa eleição em 2009. Procurámos, ao longo destes dois mandatos, apresentar ideias e projectos que fossem contributos para o bem estar das nossas populações e para o desenvolvimento do nosso concelho. Esse foi desde o primeiro momento o nosso propósito, o nosso compromisso com os eleitores. Responsavelmente, fomos oposição aos executivos camarários e tivemos toda disponibilidade para encontrar as melhores soluções para Bragança.

Na Assembleia Municipal, sempre com consciência das relações de forças presentes, trabalhámos com todos, concordando, discordando, propondo, sugerindo, votando contra ou a favor, sempre com a convicção de que essas atitudes eram, a cada momento, a melhor decisão. Trabalhámos em comissões temáticas e de especialização com verdadeira motivação e vontade de contribuir. Trouxemos à Assembleia Municipal propostas, das quais gostaríamos de destacar:

- A luta contra a privatização da água e a denúncia da participação na empresa supra-municipal ATMAD. A este propósito o grande debate, em sede de Assembleia Municipal de Bragança, sempre foi a construção da barragem de Veiguinhas e aqui, o BE, para lá de ser a favor ou contra esta opção deste executivo, sempre questionou a não existência de outros projectos alternativos e a teimosia na inevitabilidade da opção Veiguinhas. Em dois mandatos, em oito anos nunca foi apresentada outra solução e todas aquelas que surgiram por iniciativa de terceiros foram liminarmente ignoradas;

- A construção de um Plano de Ordenamento do Parque Natural de Montesinho que fosse um instrumento ao serviço do equilíbrio e da coexistência dos humanos num espaço natural e protegido e não um espaço de proibição, interdição ou restrição. Convém relembrar que esse território, essa paisagem agora protegida, foi construída pelos homens e mulheres que a habitaram ao longo de gerações e gerações sem qualquer tipo de constrangimento administrativo. Portanto, se um dia foi possível transformar esse território num ambiente protegido por lei, isso deveu-se única e exclusivamente ao saber, ao conhecimento e à experiência dos seus habitantes. Não se entendem todas as limitações agora em vigor;

- A procura de um melhoramento da prática democrática, através daquilo que entendemos ser um dos ideais democráticos e republicanos - a participação cidadã. A criação de uma metodologia de orçamento participativo foi um caminho que iniciamos aqui em Bragança. Pena é que o executivo camarário não o tenha entendido e optado. Foi a nossa vida quotidiana quem perdeu qualidade e não pôde beneficiar do contributo de todos aqueles que vivem e experimentam tudo aquilo, o melhor e o pior, que a cidade e o concelho de Bragança oferecem. Lamentamos;

- Naquilo que diz respeito ao espaço urbano, sempre criticámos o crescimento desenfreado do perímetro urbano e a permanente vontade de expandir a urbanização para locais limítrofes, com o único propósito da voragem de licenças e taxas, ao mesmo tempo que se abandonou e negligenciou o centro e zona histórica da cidade. Olhemos à nossa volta e veremos como o coração da cidade foi, ao longo destes 16 anos, perdendo vida, dinâmica e até a razão de ser. Esperamos que seja ainda possível reverter esta situação. Por isso lutaremos enquanto aqui estivermos;

- Por falar em cidade e no concelho de Bragança, o paradigma deste ciclo que agora termina foi a obra - equipamentos, infra-estruturas, estruturas, espaços públicos, etc. - mas a verdade é que depois desse longo período, o balanço possível é que de facto a cidade é outra, foram construídos excelentes equipamentos, por exemplo, as escolas e os centros escolares, os museus, os centros de interpretação, o teatro municipal. Mas tudo isso de nada servirá se não houver pessoas, se não houver alunos, se não houver públicos. Mais, num município onde se investiu tanto em betão e ferro, há aldeias, há freguesias e até locais na cidade que, em pleno século XXI, carecem de saneamento básico. Inaceitável;

- Estivemos também contra o encerramento de serviços públicos na nossa região e, neste momento, queremos destacar a denúncia que, desde o primeiro instante, fizemos do encerramento de Centros de Saúde, de SAPs (serviços de atendimento permanente) e das várias valências hospitalares. Sempre nos opusemos ao afastamento e à centralização dos serviços públicos de primeira necessidade para os cidadãos, sob o pretexto de qualquer racionalidade financeira ou económica;

- No tempo em que surgiram como cogumelos por todo o país as empresas municipais, também em Bragança se aderiu à moda e constituíram-se duas participações. O BE sempre desconfiou dos reais propósitos destas duas empresas. Uma foi o matadouro que apesar do discurso sempre optimista e positivo deste executivo, nunca conseguiu o seu propósito e os seus objectivos. Hoje está à venda e sem qualquer interessado na sua aquisição ou exploração. A outra foi o Mercado Municipal que, para além de ser um verdadeiro elefante de betão, nunca foi, na sua essência um espaço comercial. Serve uma quantidade de serviços e foi sempre apresentado como um espaço moderno e capaz de dar resposta à modernidade dos hábitos de consumo. Mentira e para além de ter sido a causa da destruição do único e verdadeiro Mercado Municipal que existia aqui ao lado na Praça Camões, foi a empresa extinta e remunicipalizada. Afinal também aí o BE teve razão ao opor-se;

- Mais recentemente fomos obrigados a debater e a decidir a reforma administrativa das autarquias locais. Como sabem o BE sempre se opôs a essa reforma, pois se por mais não fosse, ela não resolveria qualquer problema às finanças nacionais e só viria prejudicar a experiência e a prática democráticas existentes;

Com a aproximação a um novo tempo e processo eleitoral, é com este património construído, é com esta intervenção cívica e política que nos apresentamos aos homens e às mulheres de Bragança. Para que possam fazer a avaliação da nossa participação e do nosso contributo para as suas vidas. Seremos, uma vez mais, protagonistas deste processo eleitoral em Bragança e partimos para essa nova jornada com vontade e optimismo no futuro da nossa terra. Seremos, agora mais do que nunca, alternativa às propostas e à gestão autárquica que até aqui tem existido.

É por isto que entendemos que em 29 de Setembro o voto necessário, o voto útil será nas listas do Bloco de Esquerda. Queremos continuar a ter voz na Assembleia Municipal, nas Juntas de Freguesia e também no executivo camarário. Queremos agir, queremos agir bem, queremos agir agora.

Obrigado.

alguns momentos desse comício

(actuação dos Klipe no início e final do comício)

(intervenção de Luís Vale, candidato à Assembleia Municipal)

(intervenção de Paulo Martins, candidato à União de Freguesias de Sé, Santa Maria e Meixedo)

(intervenção de Gil Gonçalves, candidato à Câmara Municipal)

(intervenção de Catarina Martins, Coordenadora Nacional)

04 setembro 2013

Instante urbano XXIII

Numa destas noites de final de mês de Agosto, estava com um amigo a beber um valente e bonito Gin Tónico, numa das inúmeras esplanadas da cidade de Bragança, quando fomos abordados por um jovem rapaz que, com educação, nos pediu 40 cêntimos para algo que não percebi, nem quis perceber. Tínhamos em cima da mesa algumas moedas do troco recebido. Estendemos os tais cêntimos ao rapaz que, agradecendo, se afastou até o perdermos de vista. Mas foi por pouco, pois passados alguns minutos, regressou com um saco plástico na mão, chegou-se à nossa mesa e pousou o saco, que dentro tinha um pão de trigo com um quilograma. Segundo pude perceber, através da sua difícil dicção, era a retribuição pelo facto de lhe termos dado aqueles cêntimos. Ainda tentamos recusar, mas ele tal como chegara, afastou-se, não nos dando hipótese de qualquer reacção.

mediascape: comércio tradicional

Hoje, dia 4 de Setembro, o Jornal Público deu destaque (páginas 2, 3 e editorial) aos dados relativos ao comércio tradicional em Portugal. Sem grande euforia e de forma cautelosa até, diz-se que o peso desse comércio cresceu, no primeiro semestre de 2013, para os 15,4%. Estes dados são considerados um sinal de como o mercado se está a transformar.
Custa-me dizer mas não me parece que seja possível, a curto trecho, uma alteração substancial dos hábitos de consumo dos portugueses. Por princípio nada tenho contra as grandes superfícies, aliás, não consigo viver sem elas. Não gosto é da voragem centrífuga dos monopólios económicos e, em Portugal, é no sector da distribuição que podemos encontrar os grandes empresários e o domínio da quase totalidade do mercado (cerca de 85%). Como alguém dizia, o retrato da nossa economia e do nosso empreendorismo faz-se com a percepção de que os dois maiores empresários portugueses são merceeiros.
Apesar de céptico, fico contente com esta notícia e gostaria muito que esta tendência se consolidasse e pudesse mesmo aumentar. Quanto mim, lamento não conseguir viver sem ser cliente do Sr. Belmiro e do Sr. Francisco. Quem sabe um dia.

14 agosto 2013

sou da diáspora

Sou da diáspora.
Sei quem sou e de onde venho.
Nunca tive qualquer vergonha do berço que me viu crescer.
Sinto os laços que me fazem pertencer a essa imensa comunidade.
Convivo sã e alegremente em todos os reencontros.
Incomoda-me o folclore excessivo.
Detesto o atrevimento de algumas manifestações.
Não tolero o descaramento dos que se julgam espertos.
Sou da diáspora.

Uma vez mais é o enorme Rentes de Carvalho quem melhor cristaliza em palavra alguns destes meus sentimentos:

Desmiolado, indiferente às conveniências, dinheiro no bolso, o emigrante tem o mau hábito de no mês de Agosto visitar as berças e, com os seus barulhentos costumes, música pimba, dialecto franciú, ir  perturbar o sossego da boa gente que alegremente dispensaria o confronto anual com aquela desagradável versão de si própria.
O português tem isso: se julga pertencer à classe média baixa, média média, média alta, superior ou olímpica, é logo atacado de amnésia e nojo, os outros tornam-se-lhe gentinha, "pobrezinhos" , passa a sofrer da mais miserável forma de racismo e discriminação: a que se volta contra aqueles a que pertence.
Vou lendo aqui e ali queixumes e desdéns, sugestões de que o emigrante vá passar férias a outro lado, não perturbe a serenidade, não venha com o seu barulho e jactância recordar a simpleza e condição humilde de que todos descendemos, mesmo os que se julgam nobres e melhores. Que o não são. Julgam-se.

José Rentes de Carvalho, 7 de Agosto de 2013.

13 agosto 2013

lido...

The ethnographic text will be a text to read not with the eyes alone, but with the ears in order to hear "the voices of the pages".
(Stephen A. Tyler, 1986:136)

15 julho 2013

mediascape: mafiosidades de estado

As notícias que nos chegam do outro lado da fronteira são assustadoras. Um antigo tesoureiro do PP acusa o primeiro-ministro de ter recebido vários milhares de euros, em dinheiro vivo, ao longo dos últimos anos, numa média que rondaria os dois mil euros por mês de dinheiro sujo, proveniente de empresas e militantes. O jornal "El Mundo" publica msn trocadas entre o primeiro-ministro e o tesoureiro em que aquele pede silêncio a este. A oposição pede a sua demissão mas ele recusa. Diz que está de consciência tranquila. Uma trapalhada, uma vergonha. Foi e é em Portugal, foi no Luxemburgo, foi na Itália, é em Espanha... que bem vai a governação por esta Europa fora. 
Algumas notícias acerca deste caso:
http://tinyurl.com/ph4k9do
http://tinyurl.com/o8j56nr

12 julho 2013

rescaldo de uma paisagem esvaziada

Naquilo que parece ser, finalmente, o rescaldo do maior incêndio que há memória no distrito de Bragança e que afectou os concelhos de Alfândega da Fé, Torre de Moncorvo, Mogadouro e Freixo de Espada à Cinta, deixando um rasto de destruição e um cenário jamais imaginado, convirá também reflectir um pouco acerca da realidade do território em causa: sua gestão e seu ordenamento. Não são questões que digam respeito apenas ao presente, ou sequer a um passado recente, são problemas estruturais que estão mais do que identificados, estudados, diagnosticados, mas estão ainda sem uma terapêutica estratégica que procure minorar tais situações. É confrangedor assistir às declarações dos responsáveis pelas autarquias, das protecções civis, das direcções regionais dos ministérios da agricultura e do ambiente. Já não há paciência para o mesmo discurso, os mesmos lugares comuns, a mesma atitude reactiva e nunca preventiva. É preciso ir além do elogio aos valentes bombeiros, é preciso ir além do lamento e do infortúnio, é preciso evitar a promessa da contabilização dos estragos e das ajudas que hão-de vir. Para quando uma atitude planeada, pensada, reflectida, com meios e recursos capazes de, a curto, médio ou, que seja, a longo prazo resolva este drama que ciclicamente experimentamos?
Nestes momentos seria interessante ouvir alguém referir-se às causas que potenciam incêndios como este. O abandono dos terrenos agrícolas, a falta de gados, o abandono das práticas de cultivo e de manutenção dos terrenos, a introdução de vegetação não-autóctone, entre outros, são factores que permitiram o crescimentos de matos, muitas vezes, até bem perto das próprias povoações. Há um pequeno exemplo que recordo e que me parece paradigmático desta situação: toda a gente cortava as silvas que cresciam nas hordas dos lameiros, hortas e demais terrenos. Eu próprio cheguei a fazer isso, tarefa que não só salvaguardava os terrenos, impedia o fogo de aí ganhar força, como também libertava os caminhos de acesso. Quem faz isso ainda? Olhemos para a paisagem que circunda as nossas aldeias e vejamos o triste espectáculo dessas silvas e demais vegetação selvagem a ocupar o lugar que outrora floria ou era repasto para todos os gados. Por falar em caminhos, numa das reportagens televisivas desde uma dessas comunidades afectadas por este incêndio, uma idosa reclamava, pois os bombeiros e os militares em vez de andarem a combater o fogo, andavam a abrir caminhos de acesso até perto do fogo. Raciocínio rápido e compreensível de quem vê o seu mundo ser consumido pelas chamas, mas ao mesmo tempo, uma crítica oportuna e reflexiva, pois na verdade esses caminhos deveriam ser parte integrante daquilo que é a prevenção e não parte precipitada da estratégia de reacção. Fiquei com aquelas sábias palavras.
A aflição de todos aqueles que sentem o poder implacável do fogo destruir-lhes o trabalho de toda a vida. O abismo de tudo perderem consoante a vontade do vento. A impotência e a consciência de nada poderem fazer, serão sempre o reflexo de uma atitude passiva e expectante, negligente e egoísta daqueles que vão habitando o nosso território. Uma vez mais, a própria população só reage quando sente aquilo que é seu em perigo. Admiram-se sempre pela rapidez e velocidade com que as chamas chegam e chamuscam os telhados, queimam os fios da luz e do telefone, assam os seus animais de estimação e de sustento. Durante o restante ano ninguém se preocupa com o mato que vai crescendo sem lei e vai envolvendo as aldeias, ninguém se preocupa com as reservas de lenha que as pessoas teimam em juntar dentro dos povoados, ninguém reclama pela negligente gestão dos baldios, ninguém se opõe à introdução ad-hoc de espécimes vegetais estranhas à flora local. Enfim, tudo razões para vivermos sempre com o coração aflito e com o espírito nas mãos de um santo qualquer. Aquilo que aconteceu este ano foi consequência de vários factores naturais, é verdade, mas foi e será sempre o resultado da boa ou má gestão do território, da boa ou da má ocupação dos solos, da presente ou ausente política administrativa e, principalmente, da consciência ou da inconsciência de tudo isto.
É muito triste uma paisagem assim.

04 julho 2013

garotices

Os recentes acontecimentos na governação de Portugal são inacreditáveis. Se nos contassem que isto poderia acontecer, não hesitaríamos a negar essa eventualidade. Estes dois senhores, donos dos dois partidos da coligação que nos governam, são uns irresponsáveis e deveriam ser, desde já, responsabilizados pelos enormes danos que a sua palermice causa ao país. Mais, o espectáculo que nos estão a oferecer é de tal forma ridículo que não percebo como o país e as suas instituições não interrompem a sua actuação. Os dois fazem-me lembrar os meus tempos de criança em que brincava com os outros miúdos, mas quando a brincadeira não me agradava, chateado dizia: "- Assim não brinco mais!" Mas brincava e depois voltava a dizer que não, mas brincava. E os dias passavam-se assim. Esta trágico-comédia que em vez de nos divertir só nos exaspera, relembra-me também a amargura que ainda sinto com o momento em que os portugueses foram chamados a escolher e votaram nestes desqualificados. Para meu contentamento, ou pelo menos para engano próprio, prefiro pensar que esses portugueses merecem cada acto falhado destes senhores. Por fim, temo que se formos nova e antecipadamente chamados a escolher novos interpretes escolhamos algo parecido e isso será destruidor.

01 julho 2013

25 junho 2013

despojos do S. João

Este ano e depois de uma ausência superior a vinte anos, regressei ao centro do Porto como folião e equipado a rigor com o martelo na mão. Isto aconteceu porque mais ninguém cá em casa conhecia in loco a festa, portanto, lá fui mostrar os lugares comuns e tradicionais do grande santo popular da Invicta. Na memória trazia comigo alguns momentos ou episódios desse tempo de criança em que ia regularmente à festa. Primeiro com os meus pais e depois, quando mais crescido, em grupo de juvenis vizinhos e amigos. Das primeiras experiências guardo a memória da Ponte D. Luís I a abanar e da sensação de pânico generalizado pela eminente queda da estrutura. Foi num desses momentos que me perdi na confusão do medo e de meus pais, provocando com isso uma enorme angústia à minha mãe. Sei ainda hoje que não me tinha perdido, pois sabia onde o carro estava estacionado e foi lá que me foram encontrar passado algum tempo. Outra bonita memória dessas noites era o Café Mucaba(?), bem situado no fundo da Avenida de Gaia, onde a caminho de casa parávamos para uma apetitosa francesinha para os pais e uma deliciosa tosta mista para os filhos.
Mais tarde e já com o grupo de rufias da Madalena, as memórias que guardo são as da inconsciência e da irresponsabilidade. Miúdos de 10, 11 e 12 anos, alguns talvez mais, sozinhos, a pé e sem destino. Corridas loucas pelas ruas de Coimbrões, Candal e Ribeira, a tocar às campainhas, bater nos carros, atirar pedras, etc. Na confusão da multidão pelas ruas 31 de Janeiro, Batalha, Fontaínhas, Clérigos, Aliados, Rotunda e Avenida da Boavista, Foz, por todo o lado e durante toda a noite a correr e a fazer traquinices.
Este regresso, para além da sua componente turística e pedagógica, permitiu relembrar todos esses momentos e também permitiu perceber porque é que um dia deixei de ir ao S. João. É que para mim a piada da festa está única e exclusivamente na democrática e livre distribuição de marteladas. O resto - a sardinha, o bailarico, o alho-porro, a embriaguez dos sentidos, os balões, o fogo de artifício, o manjerico e suas rimas, a confusão e o aperto não me atraem minimamente. Desconfio que tão cedo não regressarei, até porque o resto da família também não se mostrou efusiva ou sequer entusiasmada.

finalmente

Muito provavelmente por culpa própria, por não ter procurado o suficiente e sempre nos mesmos sítios, a verdade é que só no dia 21 de Junho consegui encontrar o número 1 da Revista Granta, versão portuguesa. Foi grande a expectativa, principalmente depois do marketing editorial promovido nas redes sociais, mas a revista que foi lançada, se não estou em erro, no passado dia 24 de Maio, não se encontrava em nenhum lugar. Perguntei e perguntei. Nada. Afinal, só à terceira edição deste número consegui o meu exemplar e tive que reservar. Estou a gostar.

14 junho 2013

29 de Setembro

Está escolhida a data das eleições autárquicas. O governo, entre as datas possíveis, escolheu o dia 29 de Setembro, o que motivou desde logo contestação por parte do PS e do BE. Para mim, enquanto cidadão envolvido no processo, tanto me faz, embora e por pragmatismo, preferisse o dia 22 de Setembro. Mas vamos lá. É tempo de organizar toda a burocracia. As listas terão que ser entregues nos tribunais até ao dia 5 de Agosto. A minha luta será uma vez mais em Bragança e pelo BE. Não se antevêem ventos favoráveis e a reforma administrativa recentemente efectuada veio dificultar ainda mais a nossa capacidade de intervenção e de participação. Siga.