26 dezembro 2013

natal 2

Desde que me conheço, associo natal a tempo frio e chuvoso, tempo próprio de Inverno. Não sei o que será um natal passado longe de frio, de chuva, de gelo e de neve. Estranho muito as notícias que chegam do outro hemisfério onde a família passa estes dias na praia, debaixo de uma temperatura superior a 40 graus e sem roupa. Será assim natal?

natal 1

Fico sempre angustiado com o síndrome natalício que experimentamos nas vésperas do natal. A cada ano que passa afirmo sempre que no próximo será diferente, mas nunca é. Curiosamente, e ao contrário do que tem acontecido nas edições anteriores, este ano foi estranhamente tranquilo e sem angústia.

vida e sua insustentabilidade

Todos nós temos consciência da certeza da morte no final de uma vida, mas estranhamos sempre a falta de alguém que nos morre. É natural. Por estes dias de recolhimento, alguém partilhava comigo a sua indignação:
- Tem morrido tanta gente... Os da funerária não param de trazer mortos para preparar... A insustentabilidade das nossas vidas é o sustento destes negócios.

mediascape: lugares comuns

Por me encontrar em local onde não controlava o comando da TV, fui ontem obrigado a assistir a todo o discurso do nosso Primeiro Ministro. Não me recordo de ouvir da boca de um político tantas referências a locais habituais, daqueles por onde muitos políticos gostam de deambular. Os locais da frase feita, dita e redita, da frase fácil e demagoga. Para além do mais, nada de novo pudemos encontrar nas suas palavras. Enfim.

19 dezembro 2013

mediascape: ouvir para crer

Ontem foi dia da prova para os professores. Depois de todos os protestos, greves, boicotes e zaragatas que se verificaram um pouco por todo o país, o ministro foi à televisão pública, (ver entrevista na íntegra aqui), explicar o processo. Entre outros dislates, disse isto:
Nuno Crato - Evidentemente que a Escolas Superiores de Educação e as Universidades têm características diferentes e critérios de exigência muito diferentes. (...)
J. Rodrigues dos Santos - Mas a sua dúvida incide sobre os licenciados nas escolas Superiores de Educação?
Nuno Crato - A minha dúvida, neste caso concreto de que estou a falar, que é a preparação, incide sobre esses casos.
Isto foi ontem, dia 18 de Dezembro de 2013. Estranho que hoje, dia 19 de Dezembro de 2013, Nuno Crato ainda seja o ministro da educação da república portuguesa. Como é possível?

noções precoces

Reacção da criança perante cada adversidade que vai encontrando: "- Não é justo."

12 dezembro 2013

mediascape: radares, velocidade e atropelamentos

Ouvi hoje na rádio e depois li no Público online que o governo se prepara para gastar quatro milhões de euros num novo sistema de controlo de velocidade para implementar nos centros urbanos. A razão para esta despesa "necessária" é a elevada taxa de atropelamentos e acidentes envolvendo peões nos centros urbanos de Portugal. O Governo aprovou em Conselho de Ministro essa despesa para a implementação do sistema Sincro - serão 30 novos radares a controlar a velocidade a que se circula nas nossas cidades.
Claro que haverá sempre uma relação entre radares e acidentes, na medida em que se a velocidade for menor, menor serão os danos humanos e materiais, mas evidente aqui é a relação entre radares e a caça à multa. Quatro milhões desperdiçados em tecnologia que só servirá para sacar mais dinheiro aos portugueses. Quando é que esta gente vai perceber que o investimento deverá ser sempre feito nas pessoas, na prevenção rodoviária, nas escolas de todo o país, na qualidade do ensino e formação dos condutores e na exigência da nossa cidadania. Esperemos para ver resultados.

09 dezembro 2013

Mandela

Aproveito este momento de tributo globalizado a Nelson Mandela para trazer aqui uma música dos U2 que tenho ouvido nas rádios. Pelos vistos essa música faz parte do novo filme sobre a vida do líder Sul Africano. Fui um jovem apreciador da banda de Bono e durante anos, os seus discos fizeram-me companhia diversa. Recordo que o primeiro álbum que andou lá por casa em 1987, ainda em vinil, foi o The Joshua Tree e que tocou, tocou e tocou ao ponto de ainda hoje saber quase de cor as letras das músicas desse disco. A partir daí e com o advento do CD, fui comprando os seus discos desde o início da sua carreira e até ao Zooropa, cuja sonoridade já se me apresentou muito estranha. Guardei esses discos até hoje e, muito de quando em vez, regresso a eles. Mas não mais comprei música de U2. Fui acompanhando a sua evolução, as suas performances e as suas intervenções cívicas, mas a arte deles deixou de me cativar. Agora, ao ouvir este tema, para além da mensagem, há algo que me remete para os seus primeiros sons e me cativa os sentidos. Não consigo, ainda, identificar esses pormenores, mas posso dizer que gosto muito do som de Ordinary Love.

dilema

"Que fez Deus antes de criar o Universo? Antes de criar os Céus e a Terra, criou o Inferno para quem faz perguntas como essa." 
Santo Agostinho.

14 novembro 2013

instante urbano XXIV

Hoje pela primeira vez entrei na loja "A Vida Portuguesa" no Porto, sito na esquina da Rua das Carmelitas e da Rua Galeria de Paris, e confesso-me desiludido. Também não tinha qualquer tipo de expectativa a não ser o seu reconhecimento público, publicado e mediático. Pensei que poderia ser surpreendido com artigos esquecidos pelo tempo, mas daquilo que pude ver apenas uma ou outra marca me activou os sensores da memória. Para além de um interessante leque de produtos alimentares com tradição em Portugal e da famosa pasta medicinal Couto, tudo o resto são lugares-comuns vintage que poderemos encontrar em tantos outros locais - feiras, comércio tradicional, arraiais, etc. Toda essa parafernália espalhada por dois amplos pisos e com uma imponente escadaria interior de ligação. Um espaço bonito para muita pouca coisa. O que terá existido lá anteriormente? Foram preservados alguns pormenores muito interessantes dessa outra vivência.
Saí de lá com aquela sensação de que alguém, não por acaso ser quem é, criou um conceito e por incrível que me pareça, conseguiu vendê-lo.

13 novembro 2013

mediascape: empreendedorismo

"Estamos muito apostados em constituir uma forte rede mentores"

O Ministro da Economia, António Pires de Lima, defendeu ontem na Assembleia da República que os alunos do ensino obrigatório deveriam ter uma disciplina chamada "empreendedorismo", afirmando que os jovens desde cedo devem ter conhecimentos que lhes permitam vir a ser empreendedores no futuro e permita ao Estado criar uma rede futura de empreendedorismo. O Ministro adiantou ainda que está em contacto com o Ministério da Educação na elaboração desse projecto. Não percebo muito bem o alcance do projecto, mas naquilo que a minha inteligência pode alcançar, parece-me uma parvoíce. Então anda o Estado há tantos anos (décadas) a esvaziar a Escola de matérias, de disciplinas e de tempos horários de determinados campos do saber e agora vem um ministro tecnocrata e CEO de empresas, clubes, associações, tascos e arredores, defender a introdução dessa disciplina!? O que se pretende com esse "Empreendedorismo"? Os miúdos vão aprender o quê? Como se junta dinheiro? Como se especula no mercado? Como se constitui uma sociedade por quotas ou anónima? Como se consegue o lucro? Enfim, uma ideia difusa, quando se sabe que muitos desses miúdos vão para a escola com fome e sem condições mínimas para conseguirem sucesso escolar. Querem transformar os miúdos de hoje, homens de amanhã sem conteúdo, sem conhecimentos abstractos, sem cultura, sem formação e unicamente interessados no dinheiro, no lucro e na especulação. Depois do impulso jovem, agora o empreendedorismo jovem, como se fosse possível transformar todas as crianças e jovens em empreendedores, em empresários, em mentores de grandes e lucrativos negócios. Não acredito, não vai acontecer, nem quero isso para as gerações que aí virão. Gostava sim que tivessem a liberdade de aprender aquilo que gostam, aquilo para o qual sentem vocação. Gostaria que a escola pública oferecesse conteúdos curriculares diversificados e com qualidade. Gostaria que os nossos filhos pudessem, caso assim entendessem, conhecer o Latim, o Grego, a Filosofia, o Direito, a Sociologia, a Antropologia. A condição de cidadão não se resume ao benefício da economia.

04 novembro 2013

ler

souto do vale

Num lugar inclinado e encosta de monte, perdido no meio de vegetação selvagem que vai vingando, encontra-se um pedaço de terra que nos calhou nas partilhas daqueles que nos antecederam. Terra fértil mas mal tratada, sem grande atenção ou cuidado, vai sendo mantida única e exclusivamente para dar chão aos portentosos castanheiros que ali habitam. É o pai que, por enquanto, se responsabiliza por tratar desse chão - entre outras tarefas, roçar silvas, mandar lavrar, enxertar as árvores, podá-las. Mas chega esta altura do ano, a dos santos todos e dos mortos, e lá vamos todos, ou quase todos, visitar essa terra e roubar-lhe as saborosas castanhas que lá crescem. Um dia ou dois de apanha, tarefa ingrata e cansativa para os adultos, mas momento de aventura e descoberta para as crianças, e lá regressamos nós à cidade derreados pelo peso do "ouro" transmontano.
Souto é um conjunto de castanheiros, Vale é nome de família local. Souto do Vale é topónimo do termo da aldeia. Pena é que nem todos os castanheiros aí existentes sejam do Vale.

banalização do mal

A banalização do mal é a ideia central do pensamento de Hannah Arendt, filósofa alemã e judia que, fugindo do nazismo, se radicou nos EUA. Proeminente pensadora do século XX, discípula de Martin Heidegger, foi enviada pelo The New Yorker a Israel para cobrir o julgamento de Adolf Eichmann, dirigente nazi que fugira para a Argentina e que os serviços secretos de Israel encontraram. Durante esse julgamento Hannah Arendt percebe como esse destacado membro do aparelho nazi não passava de um "ignorante" que não fazia mais do que obedecer a ordens e a leís. É partir desse momento que ela desenvolve o conceito da banalização do mal e o apresenta nos cinco artigos que escreve no jornal. Com isso e com a denuncia de que alguns membros das comunidades judaicas teriam sido coniventes com os nazis, a filósofa consegue provocar uma tempestade à sua volta e a indignação dos judeus. É esse período histórico e esse episódio em particular que podemos ver retratados no filme agora em cartaz. Muito interessante. Um filme que aconselho, numa sala vazia perto de si...

22 outubro 2013

21 outubro 2013

ecfrase evidente ou oculta?


Aqui há tempos um intelectual amigo enviou-me esta imagem, desafiando-me para fazer uma leitura antropológica, iconológica ou iconográfica, ou aquilo que eu bem entendesse. Guardei a imagem e hoje lembrei-me dela. A propósito de tudo e a propósito de nada, enquanto mastigava o livro de Umberto Eco (2005), "Dizer quase a mesma coisa sobre a tradução", fui buscar esta Ceia dos Caretos, obra original de Luís Calheiros. Relação entre as duas obras, nenhuma, mas a alegoria desta última ceia com estes fantásticos convivas remete-me para a realidade que experimentamos: Enquanto quase todos sofrem, uma dúzia de convivas banqueteiam-se nas gorduras do estado e fazem-no alegremente e mascarando interesses, por hora, ocultos.
A minha dúvida em relação ao título deste texto refere-se, essencialmente, à tipologia adequada, pois se a ecfrase evidente ou clássica pretende ser uma tradução verbal de uma obra visual já conhecida ou que se tenciona tornar conhecida, a ecfrase oculta apresenta-se como dispositivo verbal que pretende evocar na mente de quem lê uma visão, o mais precisa possível.

15 outubro 2013

mediascape: a liquefação do estado

A propósito desta notícia do Expresso que refere que a manutenção do ministro dos Negócios Estrangeiros no cargo já é mote para apostas em sítios especializados na internet, facto devidamente enquadrado na actualidade nacional, socorro-me de Zigmun Bauman (2005), que a propósito das questões de identidade afirma que assistimos à passagem dum estado sólido a um estado líquido da identidade. Pois parece-me mais do que razoável a analogia com o actual estado das nossas instituições de poder. Em Portugal assistimos, nos últimos anos e com maior incidência no passado recente, à total liquefação das instituições de poder e representação, governadas, dirigidas e coordenadas por agentes que estão num grau zero de governança e de respeitabilidade. Bauman fundamenta o seu pensamento: “A principal força motora por trás desse processo tem sido desde o princípio a acelerada «liquefação» das estruturas e instituições sociais. Estamos passando da fase «sólida» da modernidade para a fase «fluída». E os «fluídos» são assim chamados porque não conseguem manter a forma por muito tempo e, a menos que sejam derramados num recipiente apertado, continuam mudando de forma sob a influência até mesmo das menores forças”.
Nota de rodapé: como é oportuna e adequada a referência "até mesmo das menores forças"...

14 outubro 2013

notas de um bloco

(reflexão a propósito da actualidade de um partido de esquerda)
Em democracia não pode haver só vencedores. Há sempre os vencidos. É nesta condição de vencido que o Bloco de Esquerda (BE) se encontra desde 29 de Setembro. Isso por si só não é grave, pois essa mesma democracia se encarregará de alterar os dados do jogo, assim queira o BE.
O BE foi, a par do PSD, o grande derrotado destas eleições autárquicas. Ninguém, dentro ou fora do movimento, terá dúvidas em relação a isto. Por isso mesmo, as primeiras reacções da nossa coordenação política foram tão disparatadas. Perante tamanho rombo nos votos, na percentagem e nos mandatos autárquicos, João Semedo vem a público rejubilar com a tremenda derrota da direita e do governo. Errado. Senti-me envergonhado. Primeiro teria que reconhecer e voltar a reconhecer os péssimos resultados do BE e só depois, em nota de fim de página, então mostrar satisfação pela penalização que os portugueses infligiram ao PSD. Mas mesmo assim, todos conseguiram vencer autarquias, uns mais outros menos, e o BE nada.
A frustração é enorme, por várias razões, mas desde logo, porque este foi o primeiro momento em que os eleitores poderiam ter denunciado a governação da troika e dos partidos nacionais que a suportam. Mas assim não fizeram e depositaram o seu voto, a sua confiança nos mesmos partidos. Não percebo, mas não enjeito uma leitura: é que essa votação e na actual conjuntura só vem realçar a inutilidade do discurso do BE e dos demais partidos anti-troika. As pessoas assim querem, assim o merecem, assim o terão. Afinal de contas o que andamos a fazer e a dizer?! As pessoas não acreditam na nossa mensagem, ou pura e simplesmente já não nos ouvem. De que serve haver descontentamento, indignação e repulsa pelo que o governo e seus partidos andam a fazer, se depois esses sentimentos não se transformam em votos no BE? Os portugueses acharam melhor votar em branco ou nulo do que no BE. Mau demais. 
Outra das causas para esta frustração é a teimosia do BE em querer apresentar candidatos autárquicos em toda e qualquer esquina deste país. Está errado e passo a explicar porquê:
- É sempre a mesma correria, o mesmo frenesim para os funcionários do BE, a contactar, a cooptar, a recrutar, a organizar, a convencer nomes e listas, nos meses que antecedem cada acto eleitoral autárquico. A culpa não é deles, apenas dão seguimento àquilo que são as directivas vindas de Lisboa;
- Aceitação de indivíduos desconhecidos e sem passado conhecido de intervenção ou activismo de esquerda, cívico, associativo ou político;
- A verificação da inexistência de quadros políticos com formação em grande parte das estruturas locais e regionais;
- A incapacidade de gerar sinergias, ou compromissos, ou entendimentos com outras forças políticas, ou com movimentos de cidadãos independentes, apartidários ou meramente comprometidos civicamente;
- A constatação da desqualificação daqueles que se propõem ou ambicionam ser candidatos do BE;
- A inexistência de uma estrutura - orgânica, humana e logística - capaz de suportar tantas candidaturas. Com diferentes características, recursos e pessoas, cada candidatura local tem as suas idiossincrasias e especificidades que os serviços centrais jamais alcançaram, conheceram ou compreenderam;
- Tal como defendi e disse em 2005, tal como reforcei a ideia em 2009 e agora voltei a relembrar, não podemos, não devemos ter candidatos às autarquias que não tragam consigo mais valias políticas, capacidades crítica e de projecto, reconhecimento público. Não podemos, mesmo, ter candidatos a merecerem a confiança de 10, 20 ou 30 eleitores. É preferível ficar quieto, quedo e mudo. Será sempre preferível, porque menor danos causará ao partido reconhecer incapacidade de apresentar candidaturas por todo o país. Não poderemos continuar expostos a estas cíclicas humilhações;
Bem sabemos que é sempre depois dos erros, que se dão os maiores e melhores passos. Contudo, receio é que no fim, nada de novo aconteça e tudo fique mais ou menos na mesma. A atitude perceptível é o silêncio, de querer que o tempo se encarregue de ultrapassar este mau momento. Lamento se assim for, pois ao contrário da ilustre sapiência central do BE, as eleições locais são muito importantes para a capacidade de crescimento e fidelização da base social do partido. E depois convém não esquecer que dentro de meio ano teremos novas eleições, desta vez para o Parlamento Europeu, e infelizmente já não contaremos com o Miguel Portas.