14 outubro 2013

notas de um bloco

(reflexão a propósito da actualidade de um partido de esquerda)
Em democracia não pode haver só vencedores. Há sempre os vencidos. É nesta condição de vencido que o Bloco de Esquerda (BE) se encontra desde 29 de Setembro. Isso por si só não é grave, pois essa mesma democracia se encarregará de alterar os dados do jogo, assim queira o BE.
O BE foi, a par do PSD, o grande derrotado destas eleições autárquicas. Ninguém, dentro ou fora do movimento, terá dúvidas em relação a isto. Por isso mesmo, as primeiras reacções da nossa coordenação política foram tão disparatadas. Perante tamanho rombo nos votos, na percentagem e nos mandatos autárquicos, João Semedo vem a público rejubilar com a tremenda derrota da direita e do governo. Errado. Senti-me envergonhado. Primeiro teria que reconhecer e voltar a reconhecer os péssimos resultados do BE e só depois, em nota de fim de página, então mostrar satisfação pela penalização que os portugueses infligiram ao PSD. Mas mesmo assim, todos conseguiram vencer autarquias, uns mais outros menos, e o BE nada.
A frustração é enorme, por várias razões, mas desde logo, porque este foi o primeiro momento em que os eleitores poderiam ter denunciado a governação da troika e dos partidos nacionais que a suportam. Mas assim não fizeram e depositaram o seu voto, a sua confiança nos mesmos partidos. Não percebo, mas não enjeito uma leitura: é que essa votação e na actual conjuntura só vem realçar a inutilidade do discurso do BE e dos demais partidos anti-troika. As pessoas assim querem, assim o merecem, assim o terão. Afinal de contas o que andamos a fazer e a dizer?! As pessoas não acreditam na nossa mensagem, ou pura e simplesmente já não nos ouvem. De que serve haver descontentamento, indignação e repulsa pelo que o governo e seus partidos andam a fazer, se depois esses sentimentos não se transformam em votos no BE? Os portugueses acharam melhor votar em branco ou nulo do que no BE. Mau demais. 
Outra das causas para esta frustração é a teimosia do BE em querer apresentar candidatos autárquicos em toda e qualquer esquina deste país. Está errado e passo a explicar porquê:
- É sempre a mesma correria, o mesmo frenesim para os funcionários do BE, a contactar, a cooptar, a recrutar, a organizar, a convencer nomes e listas, nos meses que antecedem cada acto eleitoral autárquico. A culpa não é deles, apenas dão seguimento àquilo que são as directivas vindas de Lisboa;
- Aceitação de indivíduos desconhecidos e sem passado conhecido de intervenção ou activismo de esquerda, cívico, associativo ou político;
- A verificação da inexistência de quadros políticos com formação em grande parte das estruturas locais e regionais;
- A incapacidade de gerar sinergias, ou compromissos, ou entendimentos com outras forças políticas, ou com movimentos de cidadãos independentes, apartidários ou meramente comprometidos civicamente;
- A constatação da desqualificação daqueles que se propõem ou ambicionam ser candidatos do BE;
- A inexistência de uma estrutura - orgânica, humana e logística - capaz de suportar tantas candidaturas. Com diferentes características, recursos e pessoas, cada candidatura local tem as suas idiossincrasias e especificidades que os serviços centrais jamais alcançaram, conheceram ou compreenderam;
- Tal como defendi e disse em 2005, tal como reforcei a ideia em 2009 e agora voltei a relembrar, não podemos, não devemos ter candidatos às autarquias que não tragam consigo mais valias políticas, capacidades crítica e de projecto, reconhecimento público. Não podemos, mesmo, ter candidatos a merecerem a confiança de 10, 20 ou 30 eleitores. É preferível ficar quieto, quedo e mudo. Será sempre preferível, porque menor danos causará ao partido reconhecer incapacidade de apresentar candidaturas por todo o país. Não poderemos continuar expostos a estas cíclicas humilhações;
Bem sabemos que é sempre depois dos erros, que se dão os maiores e melhores passos. Contudo, receio é que no fim, nada de novo aconteça e tudo fique mais ou menos na mesma. A atitude perceptível é o silêncio, de querer que o tempo se encarregue de ultrapassar este mau momento. Lamento se assim for, pois ao contrário da ilustre sapiência central do BE, as eleições locais são muito importantes para a capacidade de crescimento e fidelização da base social do partido. E depois convém não esquecer que dentro de meio ano teremos novas eleições, desta vez para o Parlamento Europeu, e infelizmente já não contaremos com o Miguel Portas.

10 outubro 2013

apareçam, conheçam...


de "lei seca" a "malparado"

Eu bem que estranhava o facto de o blogue de Pedro Mexia - Lei Seca - estar inactivo há tanto tempo. Por lá ia passando regularmente para ver se havia novidades e nada, apenas uma publicação impondo a "suspensão" da sua actividade. Deve andar muito ocupado, pensei eu. Afinal ele criou outro blogue e passou a publicar apenas aí, não avisando quem era cliente do Lei Seca. Foi num outro blogue - o Bibliotecário de Babel - que tive conhecimento deste novo sitio, o Malparado. Assim, já o coloquei nos "Atalhos Partilhados" para lá ir amiúde e para quem mais possa querer visitar.

30 setembro 2013

fim de ciclo

Tal como já aqui antevira, não fui eleito para a Assembleia Municipal de Bragança. O desafio adivinhava-se difícil, pois para além da fraca implantação do BE no distrito e no concelho, para além dos mais que certos erros na escolha dos protagonistas e na construção do programa eleitoral, foram cometidos vários erros estratégicos e a conclusão é que a mensagem não passou. Para além de tudo isto ao qual eu, pessoalmente, não refuto ou evito responsabilidades, fomos efectivamente a principal vítima da reforma administrativa das autarquias locais. Em Bragança mas também no restante território nacional. No caso concreto do concelho de Bragança, nunca desde 2005 conseguimos deixar de ser a força política menos votada, por isso com a redução substancial do número de freguesias no concelho, seriamos com naturalidade os primeiros a ser excluídos da Assembleia Municipal.
Estive a representar o BE durante dois mandatos (2005-2013) nessa Assembleia. Foi sem dúvida uma excelente experiência. Gostei realmente daquele ambiente de disputa partidária. Conheci muitas pessoas, das quais ganhei alguns amigos para a vida. Tive acesso a muita informação e a oportunidade de perceber como se gere um município. Fui protagonista inúmeras vezes, privei com pessoas que jamais imaginei conhecer (Adriano Moreira, Manuel Alegre, Vasco Lourenço, Francisco Louçã, entre outros), construí o meu espaço político e de intervenção cívica. Senti e percebi todos os anti-corpos e todas as animosidades que criei nalguns sectores mais reaccionários, mas foi engraçado. Sempre consciente da relação de forças presentes, sempre consciente da minha representatividade e apesar de todo o mundo que me separava de grande parte dos demais, fiz oposição leal e responsável. Agora acabou.
Sem grande precipitação e sem grande pressa, iremos reflectir sobre este resultado. Contudo, e como não poderia deixar de ser, assumirei desde o primeiro momento as minhas responsabilidades políticas. Assim, renunciei já ao mandato enquanto membro da Coordenadora Distrital do BE, assim como renunciei ao meu lugar de membro da Comissão Nacional Autárquica do BE, comissão essa eleita e legitimada pela última Convenção Nacional. Sendo assim, adquiro uma vez mais a condição de militante do movimento. Sempre disposto para novos desafios, sei que em breve eles surgirão.

conforto pretérito


28 setembro 2013

reflexão sobre campanha autárquica em Bragança

É já no remanso do lar que me encontro a escrever estas palavras. Tranquilo e satisfeito pela jornada realizada durante as duas últimas semanas. Percorremos o concelho de lés-a-lés, falando com todos aqueles que nós quiseram ouvir, trocando impressões e ouvindo as opiniões (por vezes desagradáveis) e reclamações dos cidadãos de todas as 114 aldeias que compõem o município. De todas essas conversas, destaco pela positiva o primeiro comício que realizámos no espaço rural. Aconteceu em Gondesende, onde tínhamos cerca de 30 pessoas à nossa espera, onde temos um membro eleito desde 2009 e onde repetimos a candidatura à Assembleia de Freguesia. Temos alguma expectativa quanto a esse resultado. Pela negativa, destaco as frequentes queixas relativas à água e em relação ao saneamento básico, que ainda não cobre a totalidade do concelho. Percebemos, outra vez, que o que as pessoas querem é festa, som, confusão e brindes - e nem importa o quê: canetas, isqueiros, t-shirts, lápis ou canetas, bonés. Qualquer coisa serve, menos ideias e palavras. Aquilo que humildemente teimamos em partilhar é isso mesmo; um programa com ideias e projecto. Infelizmente, mede-se a probabilidade de vitória ou derrota, consoante a dimensão das caravanas de cada partido.
É sempre um prazer viajar tranquilamente pelas estradas e ruas que ligam as nossas aldeias e apreciar as paisagens fabulosas que constituem o nosso território. É sempre um prazer imenso chegar ao final da jornada de cada dia e sentar num e noutro restaurante a saborear as magníficas carnes e o bom vinho. São sempre dias cansativos, mas dos quais guardarei boas recordações. Sem dúvida.
No que à Assembleia Municipal diz respeito, lista que uma vez mais encabeço, a nossa expectativa é podermos manter o mandato que temos já desde 2005. Algo que será desta vez mais complicado, não só pelo sentimento de descrédito que todos os partidos sofrem, como também devido à reforma administrativa das autarquias locais que, no caso de Bragança, fez reduzir de 49 para 39 freguesias. Portanto, precisaremos de mais votos para conseguir cada mandato. Em relação à Câmara Municipal, em consciência não poderemos querer mais do que melhorar a nossa votação, pois a eleição implica uma votação muito acima daquilo que é a nossa possibilidade. Mas esperemos pela justiça dos  eleitores.
Pelo que pude perceber durante estes dias de campanha e no terreno, o PSD manterá o domínio na autarquia e isto porque, em minha opinião, o PS não só escolheu o candidato errado e uma lista problemática, como também fez uma campanha errada, tendo apostado nas novas tecnologias e num certo elitismo intelectual - jogos virtuais, facebook, podcast, twitter, etc., assim como uma assessoria de qualidade duvidosa, bem ilustrada pela publicação de sondagens inexistentes e com fichas técnicas cheias de erros técnicos básicos. Foi precisamente esse episódio quem derrotou definitivamente essa candidatura, pois o Jornal Nordeste, na sua edição de 24 deste mês, faz da primeira à última página um cerrado ataque à estratégia escolhida pelo PS. Quero ver qual será a leitura e as respectivas consequências políticas que os seus actuais responsáveis farão dessa derrota que se antevê clara e até, possivelmente, estrondosa.
Mesmo aceitando essa pérola da sabedoria popular que diz que prognósticos só no final do jogo, eu arriscaria dizer que o resultado para a eleição do executivo camarário será o seguinte: PSD 3, PS 2 e Humberto Rocha (independente) 2. A dúvida poderá residir na eleição do segundo vereador do independente ou a eleição do quarto vereador para o PSD e, assim, este partido conseguir a maioria absoluta na vereação.
É com alguma expectativa que aguardo a noite de Domingo, pois para além da relativa incerteza quanto ao resultado final, também o meu futuro próximo estará em jogo. Certo para mim é que o nosso resultado trará inevitavelmente consequências políticas. Cá estarei eu para as assumir.

Pós-texto:
Em jeito de declaração de interesse, manifesto o desejo que o meu amigo Duarte Diz Lopes, coligação PSD/CDS (como custa escrever estas siglas e aceitar a vitória desses partidos) vença em Vinhais e que em Vimioso vença o PS, lista onde habita o meu amigo Paulo Lopes.

13 setembro 2013

pré-campanha

Intervenção Comício Praça da Sé - Bragança

9 de Setembro de 2013 - 21 horas

Luís Vale
(candidato à Assembleia Municipal de Bragança)

Boa noite,

Nos últimos dezasseis anos a gestão autárquica do nosso município esteve entregue a um único partido, ao PSD. Foram quatro mandatos de uma maioria soberana e legítima, porque democraticamente eleita e por isso o Bloco de Esquerda respeitou-a e foi leal para com essa decisão dos homens e mulheres de Bragança.

O Bloco de Esquerda organizou-se e apresentou-se ao eleitorado local pela primeira vez em 2005. Elegemos um membro para a Assembleia Municipal e repetimos essa eleição em 2009. Procurámos, ao longo destes dois mandatos, apresentar ideias e projectos que fossem contributos para o bem estar das nossas populações e para o desenvolvimento do nosso concelho. Esse foi desde o primeiro momento o nosso propósito, o nosso compromisso com os eleitores. Responsavelmente, fomos oposição aos executivos camarários e tivemos toda disponibilidade para encontrar as melhores soluções para Bragança.

Na Assembleia Municipal, sempre com consciência das relações de forças presentes, trabalhámos com todos, concordando, discordando, propondo, sugerindo, votando contra ou a favor, sempre com a convicção de que essas atitudes eram, a cada momento, a melhor decisão. Trabalhámos em comissões temáticas e de especialização com verdadeira motivação e vontade de contribuir. Trouxemos à Assembleia Municipal propostas, das quais gostaríamos de destacar:

- A luta contra a privatização da água e a denúncia da participação na empresa supra-municipal ATMAD. A este propósito o grande debate, em sede de Assembleia Municipal de Bragança, sempre foi a construção da barragem de Veiguinhas e aqui, o BE, para lá de ser a favor ou contra esta opção deste executivo, sempre questionou a não existência de outros projectos alternativos e a teimosia na inevitabilidade da opção Veiguinhas. Em dois mandatos, em oito anos nunca foi apresentada outra solução e todas aquelas que surgiram por iniciativa de terceiros foram liminarmente ignoradas;

- A construção de um Plano de Ordenamento do Parque Natural de Montesinho que fosse um instrumento ao serviço do equilíbrio e da coexistência dos humanos num espaço natural e protegido e não um espaço de proibição, interdição ou restrição. Convém relembrar que esse território, essa paisagem agora protegida, foi construída pelos homens e mulheres que a habitaram ao longo de gerações e gerações sem qualquer tipo de constrangimento administrativo. Portanto, se um dia foi possível transformar esse território num ambiente protegido por lei, isso deveu-se única e exclusivamente ao saber, ao conhecimento e à experiência dos seus habitantes. Não se entendem todas as limitações agora em vigor;

- A procura de um melhoramento da prática democrática, através daquilo que entendemos ser um dos ideais democráticos e republicanos - a participação cidadã. A criação de uma metodologia de orçamento participativo foi um caminho que iniciamos aqui em Bragança. Pena é que o executivo camarário não o tenha entendido e optado. Foi a nossa vida quotidiana quem perdeu qualidade e não pôde beneficiar do contributo de todos aqueles que vivem e experimentam tudo aquilo, o melhor e o pior, que a cidade e o concelho de Bragança oferecem. Lamentamos;

- Naquilo que diz respeito ao espaço urbano, sempre criticámos o crescimento desenfreado do perímetro urbano e a permanente vontade de expandir a urbanização para locais limítrofes, com o único propósito da voragem de licenças e taxas, ao mesmo tempo que se abandonou e negligenciou o centro e zona histórica da cidade. Olhemos à nossa volta e veremos como o coração da cidade foi, ao longo destes 16 anos, perdendo vida, dinâmica e até a razão de ser. Esperamos que seja ainda possível reverter esta situação. Por isso lutaremos enquanto aqui estivermos;

- Por falar em cidade e no concelho de Bragança, o paradigma deste ciclo que agora termina foi a obra - equipamentos, infra-estruturas, estruturas, espaços públicos, etc. - mas a verdade é que depois desse longo período, o balanço possível é que de facto a cidade é outra, foram construídos excelentes equipamentos, por exemplo, as escolas e os centros escolares, os museus, os centros de interpretação, o teatro municipal. Mas tudo isso de nada servirá se não houver pessoas, se não houver alunos, se não houver públicos. Mais, num município onde se investiu tanto em betão e ferro, há aldeias, há freguesias e até locais na cidade que, em pleno século XXI, carecem de saneamento básico. Inaceitável;

- Estivemos também contra o encerramento de serviços públicos na nossa região e, neste momento, queremos destacar a denúncia que, desde o primeiro instante, fizemos do encerramento de Centros de Saúde, de SAPs (serviços de atendimento permanente) e das várias valências hospitalares. Sempre nos opusemos ao afastamento e à centralização dos serviços públicos de primeira necessidade para os cidadãos, sob o pretexto de qualquer racionalidade financeira ou económica;

- No tempo em que surgiram como cogumelos por todo o país as empresas municipais, também em Bragança se aderiu à moda e constituíram-se duas participações. O BE sempre desconfiou dos reais propósitos destas duas empresas. Uma foi o matadouro que apesar do discurso sempre optimista e positivo deste executivo, nunca conseguiu o seu propósito e os seus objectivos. Hoje está à venda e sem qualquer interessado na sua aquisição ou exploração. A outra foi o Mercado Municipal que, para além de ser um verdadeiro elefante de betão, nunca foi, na sua essência um espaço comercial. Serve uma quantidade de serviços e foi sempre apresentado como um espaço moderno e capaz de dar resposta à modernidade dos hábitos de consumo. Mentira e para além de ter sido a causa da destruição do único e verdadeiro Mercado Municipal que existia aqui ao lado na Praça Camões, foi a empresa extinta e remunicipalizada. Afinal também aí o BE teve razão ao opor-se;

- Mais recentemente fomos obrigados a debater e a decidir a reforma administrativa das autarquias locais. Como sabem o BE sempre se opôs a essa reforma, pois se por mais não fosse, ela não resolveria qualquer problema às finanças nacionais e só viria prejudicar a experiência e a prática democráticas existentes;

Com a aproximação a um novo tempo e processo eleitoral, é com este património construído, é com esta intervenção cívica e política que nos apresentamos aos homens e às mulheres de Bragança. Para que possam fazer a avaliação da nossa participação e do nosso contributo para as suas vidas. Seremos, uma vez mais, protagonistas deste processo eleitoral em Bragança e partimos para essa nova jornada com vontade e optimismo no futuro da nossa terra. Seremos, agora mais do que nunca, alternativa às propostas e à gestão autárquica que até aqui tem existido.

É por isto que entendemos que em 29 de Setembro o voto necessário, o voto útil será nas listas do Bloco de Esquerda. Queremos continuar a ter voz na Assembleia Municipal, nas Juntas de Freguesia e também no executivo camarário. Queremos agir, queremos agir bem, queremos agir agora.

Obrigado.

alguns momentos desse comício

(actuação dos Klipe no início e final do comício)

(intervenção de Luís Vale, candidato à Assembleia Municipal)

(intervenção de Paulo Martins, candidato à União de Freguesias de Sé, Santa Maria e Meixedo)

(intervenção de Gil Gonçalves, candidato à Câmara Municipal)

(intervenção de Catarina Martins, Coordenadora Nacional)

04 setembro 2013

Instante urbano XXIII

Numa destas noites de final de mês de Agosto, estava com um amigo a beber um valente e bonito Gin Tónico, numa das inúmeras esplanadas da cidade de Bragança, quando fomos abordados por um jovem rapaz que, com educação, nos pediu 40 cêntimos para algo que não percebi, nem quis perceber. Tínhamos em cima da mesa algumas moedas do troco recebido. Estendemos os tais cêntimos ao rapaz que, agradecendo, se afastou até o perdermos de vista. Mas foi por pouco, pois passados alguns minutos, regressou com um saco plástico na mão, chegou-se à nossa mesa e pousou o saco, que dentro tinha um pão de trigo com um quilograma. Segundo pude perceber, através da sua difícil dicção, era a retribuição pelo facto de lhe termos dado aqueles cêntimos. Ainda tentamos recusar, mas ele tal como chegara, afastou-se, não nos dando hipótese de qualquer reacção.

mediascape: comércio tradicional

Hoje, dia 4 de Setembro, o Jornal Público deu destaque (páginas 2, 3 e editorial) aos dados relativos ao comércio tradicional em Portugal. Sem grande euforia e de forma cautelosa até, diz-se que o peso desse comércio cresceu, no primeiro semestre de 2013, para os 15,4%. Estes dados são considerados um sinal de como o mercado se está a transformar.
Custa-me dizer mas não me parece que seja possível, a curto trecho, uma alteração substancial dos hábitos de consumo dos portugueses. Por princípio nada tenho contra as grandes superfícies, aliás, não consigo viver sem elas. Não gosto é da voragem centrífuga dos monopólios económicos e, em Portugal, é no sector da distribuição que podemos encontrar os grandes empresários e o domínio da quase totalidade do mercado (cerca de 85%). Como alguém dizia, o retrato da nossa economia e do nosso empreendorismo faz-se com a percepção de que os dois maiores empresários portugueses são merceeiros.
Apesar de céptico, fico contente com esta notícia e gostaria muito que esta tendência se consolidasse e pudesse mesmo aumentar. Quanto mim, lamento não conseguir viver sem ser cliente do Sr. Belmiro e do Sr. Francisco. Quem sabe um dia.

14 agosto 2013

sou da diáspora

Sou da diáspora.
Sei quem sou e de onde venho.
Nunca tive qualquer vergonha do berço que me viu crescer.
Sinto os laços que me fazem pertencer a essa imensa comunidade.
Convivo sã e alegremente em todos os reencontros.
Incomoda-me o folclore excessivo.
Detesto o atrevimento de algumas manifestações.
Não tolero o descaramento dos que se julgam espertos.
Sou da diáspora.

Uma vez mais é o enorme Rentes de Carvalho quem melhor cristaliza em palavra alguns destes meus sentimentos:

Desmiolado, indiferente às conveniências, dinheiro no bolso, o emigrante tem o mau hábito de no mês de Agosto visitar as berças e, com os seus barulhentos costumes, música pimba, dialecto franciú, ir  perturbar o sossego da boa gente que alegremente dispensaria o confronto anual com aquela desagradável versão de si própria.
O português tem isso: se julga pertencer à classe média baixa, média média, média alta, superior ou olímpica, é logo atacado de amnésia e nojo, os outros tornam-se-lhe gentinha, "pobrezinhos" , passa a sofrer da mais miserável forma de racismo e discriminação: a que se volta contra aqueles a que pertence.
Vou lendo aqui e ali queixumes e desdéns, sugestões de que o emigrante vá passar férias a outro lado, não perturbe a serenidade, não venha com o seu barulho e jactância recordar a simpleza e condição humilde de que todos descendemos, mesmo os que se julgam nobres e melhores. Que o não são. Julgam-se.

José Rentes de Carvalho, 7 de Agosto de 2013.

13 agosto 2013

lido...

The ethnographic text will be a text to read not with the eyes alone, but with the ears in order to hear "the voices of the pages".
(Stephen A. Tyler, 1986:136)

15 julho 2013

mediascape: mafiosidades de estado

As notícias que nos chegam do outro lado da fronteira são assustadoras. Um antigo tesoureiro do PP acusa o primeiro-ministro de ter recebido vários milhares de euros, em dinheiro vivo, ao longo dos últimos anos, numa média que rondaria os dois mil euros por mês de dinheiro sujo, proveniente de empresas e militantes. O jornal "El Mundo" publica msn trocadas entre o primeiro-ministro e o tesoureiro em que aquele pede silêncio a este. A oposição pede a sua demissão mas ele recusa. Diz que está de consciência tranquila. Uma trapalhada, uma vergonha. Foi e é em Portugal, foi no Luxemburgo, foi na Itália, é em Espanha... que bem vai a governação por esta Europa fora. 
Algumas notícias acerca deste caso:
http://tinyurl.com/ph4k9do
http://tinyurl.com/o8j56nr

12 julho 2013

rescaldo de uma paisagem esvaziada

Naquilo que parece ser, finalmente, o rescaldo do maior incêndio que há memória no distrito de Bragança e que afectou os concelhos de Alfândega da Fé, Torre de Moncorvo, Mogadouro e Freixo de Espada à Cinta, deixando um rasto de destruição e um cenário jamais imaginado, convirá também reflectir um pouco acerca da realidade do território em causa: sua gestão e seu ordenamento. Não são questões que digam respeito apenas ao presente, ou sequer a um passado recente, são problemas estruturais que estão mais do que identificados, estudados, diagnosticados, mas estão ainda sem uma terapêutica estratégica que procure minorar tais situações. É confrangedor assistir às declarações dos responsáveis pelas autarquias, das protecções civis, das direcções regionais dos ministérios da agricultura e do ambiente. Já não há paciência para o mesmo discurso, os mesmos lugares comuns, a mesma atitude reactiva e nunca preventiva. É preciso ir além do elogio aos valentes bombeiros, é preciso ir além do lamento e do infortúnio, é preciso evitar a promessa da contabilização dos estragos e das ajudas que hão-de vir. Para quando uma atitude planeada, pensada, reflectida, com meios e recursos capazes de, a curto, médio ou, que seja, a longo prazo resolva este drama que ciclicamente experimentamos?
Nestes momentos seria interessante ouvir alguém referir-se às causas que potenciam incêndios como este. O abandono dos terrenos agrícolas, a falta de gados, o abandono das práticas de cultivo e de manutenção dos terrenos, a introdução de vegetação não-autóctone, entre outros, são factores que permitiram o crescimentos de matos, muitas vezes, até bem perto das próprias povoações. Há um pequeno exemplo que recordo e que me parece paradigmático desta situação: toda a gente cortava as silvas que cresciam nas hordas dos lameiros, hortas e demais terrenos. Eu próprio cheguei a fazer isso, tarefa que não só salvaguardava os terrenos, impedia o fogo de aí ganhar força, como também libertava os caminhos de acesso. Quem faz isso ainda? Olhemos para a paisagem que circunda as nossas aldeias e vejamos o triste espectáculo dessas silvas e demais vegetação selvagem a ocupar o lugar que outrora floria ou era repasto para todos os gados. Por falar em caminhos, numa das reportagens televisivas desde uma dessas comunidades afectadas por este incêndio, uma idosa reclamava, pois os bombeiros e os militares em vez de andarem a combater o fogo, andavam a abrir caminhos de acesso até perto do fogo. Raciocínio rápido e compreensível de quem vê o seu mundo ser consumido pelas chamas, mas ao mesmo tempo, uma crítica oportuna e reflexiva, pois na verdade esses caminhos deveriam ser parte integrante daquilo que é a prevenção e não parte precipitada da estratégia de reacção. Fiquei com aquelas sábias palavras.
A aflição de todos aqueles que sentem o poder implacável do fogo destruir-lhes o trabalho de toda a vida. O abismo de tudo perderem consoante a vontade do vento. A impotência e a consciência de nada poderem fazer, serão sempre o reflexo de uma atitude passiva e expectante, negligente e egoísta daqueles que vão habitando o nosso território. Uma vez mais, a própria população só reage quando sente aquilo que é seu em perigo. Admiram-se sempre pela rapidez e velocidade com que as chamas chegam e chamuscam os telhados, queimam os fios da luz e do telefone, assam os seus animais de estimação e de sustento. Durante o restante ano ninguém se preocupa com o mato que vai crescendo sem lei e vai envolvendo as aldeias, ninguém se preocupa com as reservas de lenha que as pessoas teimam em juntar dentro dos povoados, ninguém reclama pela negligente gestão dos baldios, ninguém se opõe à introdução ad-hoc de espécimes vegetais estranhas à flora local. Enfim, tudo razões para vivermos sempre com o coração aflito e com o espírito nas mãos de um santo qualquer. Aquilo que aconteceu este ano foi consequência de vários factores naturais, é verdade, mas foi e será sempre o resultado da boa ou má gestão do território, da boa ou da má ocupação dos solos, da presente ou ausente política administrativa e, principalmente, da consciência ou da inconsciência de tudo isto.
É muito triste uma paisagem assim.

04 julho 2013

garotices

Os recentes acontecimentos na governação de Portugal são inacreditáveis. Se nos contassem que isto poderia acontecer, não hesitaríamos a negar essa eventualidade. Estes dois senhores, donos dos dois partidos da coligação que nos governam, são uns irresponsáveis e deveriam ser, desde já, responsabilizados pelos enormes danos que a sua palermice causa ao país. Mais, o espectáculo que nos estão a oferecer é de tal forma ridículo que não percebo como o país e as suas instituições não interrompem a sua actuação. Os dois fazem-me lembrar os meus tempos de criança em que brincava com os outros miúdos, mas quando a brincadeira não me agradava, chateado dizia: "- Assim não brinco mais!" Mas brincava e depois voltava a dizer que não, mas brincava. E os dias passavam-se assim. Esta trágico-comédia que em vez de nos divertir só nos exaspera, relembra-me também a amargura que ainda sinto com o momento em que os portugueses foram chamados a escolher e votaram nestes desqualificados. Para meu contentamento, ou pelo menos para engano próprio, prefiro pensar que esses portugueses merecem cada acto falhado destes senhores. Por fim, temo que se formos nova e antecipadamente chamados a escolher novos interpretes escolhamos algo parecido e isso será destruidor.

01 julho 2013

25 junho 2013

despojos do S. João

Este ano e depois de uma ausência superior a vinte anos, regressei ao centro do Porto como folião e equipado a rigor com o martelo na mão. Isto aconteceu porque mais ninguém cá em casa conhecia in loco a festa, portanto, lá fui mostrar os lugares comuns e tradicionais do grande santo popular da Invicta. Na memória trazia comigo alguns momentos ou episódios desse tempo de criança em que ia regularmente à festa. Primeiro com os meus pais e depois, quando mais crescido, em grupo de juvenis vizinhos e amigos. Das primeiras experiências guardo a memória da Ponte D. Luís I a abanar e da sensação de pânico generalizado pela eminente queda da estrutura. Foi num desses momentos que me perdi na confusão do medo e de meus pais, provocando com isso uma enorme angústia à minha mãe. Sei ainda hoje que não me tinha perdido, pois sabia onde o carro estava estacionado e foi lá que me foram encontrar passado algum tempo. Outra bonita memória dessas noites era o Café Mucaba(?), bem situado no fundo da Avenida de Gaia, onde a caminho de casa parávamos para uma apetitosa francesinha para os pais e uma deliciosa tosta mista para os filhos.
Mais tarde e já com o grupo de rufias da Madalena, as memórias que guardo são as da inconsciência e da irresponsabilidade. Miúdos de 10, 11 e 12 anos, alguns talvez mais, sozinhos, a pé e sem destino. Corridas loucas pelas ruas de Coimbrões, Candal e Ribeira, a tocar às campainhas, bater nos carros, atirar pedras, etc. Na confusão da multidão pelas ruas 31 de Janeiro, Batalha, Fontaínhas, Clérigos, Aliados, Rotunda e Avenida da Boavista, Foz, por todo o lado e durante toda a noite a correr e a fazer traquinices.
Este regresso, para além da sua componente turística e pedagógica, permitiu relembrar todos esses momentos e também permitiu perceber porque é que um dia deixei de ir ao S. João. É que para mim a piada da festa está única e exclusivamente na democrática e livre distribuição de marteladas. O resto - a sardinha, o bailarico, o alho-porro, a embriaguez dos sentidos, os balões, o fogo de artifício, o manjerico e suas rimas, a confusão e o aperto não me atraem minimamente. Desconfio que tão cedo não regressarei, até porque o resto da família também não se mostrou efusiva ou sequer entusiasmada.

finalmente

Muito provavelmente por culpa própria, por não ter procurado o suficiente e sempre nos mesmos sítios, a verdade é que só no dia 21 de Junho consegui encontrar o número 1 da Revista Granta, versão portuguesa. Foi grande a expectativa, principalmente depois do marketing editorial promovido nas redes sociais, mas a revista que foi lançada, se não estou em erro, no passado dia 24 de Maio, não se encontrava em nenhum lugar. Perguntei e perguntei. Nada. Afinal, só à terceira edição deste número consegui o meu exemplar e tive que reservar. Estou a gostar.

14 junho 2013

29 de Setembro

Está escolhida a data das eleições autárquicas. O governo, entre as datas possíveis, escolheu o dia 29 de Setembro, o que motivou desde logo contestação por parte do PS e do BE. Para mim, enquanto cidadão envolvido no processo, tanto me faz, embora e por pragmatismo, preferisse o dia 22 de Setembro. Mas vamos lá. É tempo de organizar toda a burocracia. As listas terão que ser entregues nos tribunais até ao dia 5 de Agosto. A minha luta será uma vez mais em Bragança e pelo BE. Não se antevêem ventos favoráveis e a reforma administrativa recentemente efectuada veio dificultar ainda mais a nossa capacidade de intervenção e de participação. Siga.

11 junho 2013

mediascape: o panóptico à escala global

A notícia deste dias de que um ex-agente da CIA e ex-consultor da NSA denunciou publicamente a existência de um programa estatal do EUA de vigilância massiva e de dimensão mundial, relembra-me o velho projecto do filósofo Jeremy Bentham, que em 1785, criou um sistema de vigilância total a que deu o nome de "o panóptico". De facto, imaginar que todos os indivíduos que possuem contas de email, números de telefone, perfil no facebook, twitter e outras redes sociais, estão a ser monitorizados por uma "inteligência" americana deixa-me apreensivo e resulta numa sensação de permanente observação. Perceber que afinal tudo aquilo que nos é "oferecido" pelas empresas do sector das comunicações de voz e de dados não é mais do que um engodo para nos manter cativos, arrelia-me o fígado. Ouvir o presidente dos EUA defender esse programa, justificando-o dizendo que não podemos estar 100% seguros sem perdas de confidencialidade, assim como o tentar legitimar dizendo que todos os líderes do Congresso Americano estavam devidamente informados desse programa, dá-me orticária. Para além de me desagradar a ideia de permanente observação e controle, achei constrangedor ver e ouvir Barack Obama, incomodado, justificar-se assim.

antologia de autores transmontanos

Foi no passado Sábado, dia 8 de Junho, no Centro Cultural de Bragança, o lançamento desta segunda colectânea de textos de autores transmontanos, onde colaboro com um pequeno texto, intitulado "O Mâncio".


05 junho 2013

uma língua que se vai desfazendo

Assim termina Francisco José Viegas (FJV) o seu editorial da revista Ler deste mês. A propósito do novo Acordo Ortográfico, a reflexão realizada dedica-se à história desse acordo conseguido em 1990. FJV faz uma resenha histórica desses longos vinte anos de existência do acordo, criticando as academias envolvidas pela qualidade do acordo, criticando a imprensa nacional pela ausência de debate público e criticando os portugueses por terem passivamente aceitado esse acordo, afirmando "...como sempre acontece entre nós, passou-se de aceitação amorfa e bovina para a guerrilha e para a indignação". Para FJV "não há memória de tão profundo e desavergonhado ataque à nossa língua", algo que eu subscrevo literalmente. Contudo, ao fazê-lo não deixo de me perguntar o porquê de só agora ele se manifestar assim publicamente, principalmente quando recentemente desempenhou funções de Secretário de Estado da Cultura e afins e teve inúmeras oportunidades para o fazer, preferindo também ele e nessas circunstâncias um bovino e amorfo silêncio.
Mas aquilo que mais retenho deste texto é mesmo a questão central, estão a destruir-nos a Língua Portuguesa. Tal como todos sabemos, os nossas crianças e os nossos jovens aprendem, desde pelo menos 2011, um Português diferente daquele que as gerações anteriores aprenderam, cultivaram e ensinaram. Com esta história de impasses e de hesitações por parte dos restantes membros da CPLP e com a espectacular precipitação do nosso Estado, como irá aprender correctamente o Português toda essa geração de alunos. Caso o acordo seja revisto, seja alterado, ou mesmo anulado, como vamos recuperar as competências de toda essa gente que sem alternativa aprendeu essa outra língua? Eu tenho uma criança em casa que escreve e lê de forma distinta dos progenitores. Quando lhe dou apoio e leio ou ouço o que escreve, fico muito incomodado. A vontade é corrigi-la, mas sei que no actual contexto seria contraproducente. Tenho por certo que um dia destes iremos todos substituir as normas actuais e regressar às anteriores, mas no entretanto, quem se responsabiliza pelos danos causados? Também sei que a culpa será de ninguém.

comprada e lida...

Da qual destaco com clareza o editorial de Francisco José Viegas acerca do novo Acordo Ortográfico. 

18 maio 2013

lá estarei...


Para ver Nick Cave. Apenas. Obrigado ao puto Ramon que, numa iniciativa de antecipação, me trouxe este salvo-conduto para esse grande momento.

11 maio 2013

the sunset limited

Numa sexta-feira à noite e sem nada de especial para me ocupar as horas, resolvi ligar o meu disco onde tenho todos os filmes e séries que quero ver e onde guardo todos aqueles que já vi. Tinha a intenção de rever o filme "Che", pois quando o vi pela primeira vez, não gostei nada da legendagem - brasileira traduzida pelo google e dessincronizada - mas ao abrir a pasta dos filmes "para ver", não sei porquê, resolvi ver este. Que surpresa, que assombro. Dois personagens, desempenhados por Samuel L. Jackson e Tommy Lee Jones, uma sala, uma mesa, uma bíblia e um diálogo com cerca de noventa minutos. Provavelmente, muitos terão desistido a meio, mas a verdade é que fiquei agarrado àquela conversa. Conversa existencialista, eu diria mesmo filosoficamente existencialista, que requer concentração e muita atenção, mas que para além de si mesma revela, ou melhor, reafirma a dimensão destes dois actores. Vou voltar a ver, com toda a certeza, mas agora vou beber um whisky. Fica a apresentação do filme.

10 maio 2013

mediascape: país novo, requalificado, empreendedor e de homens novos, requalificados, empreendedores

Hoje passei os olhos pela capa do Jornal de Notícias e fixei os sentidos nesta notícia. Passados dois anos desta governação, pejados de repetidas promessas de um futuro melhor para o país e seus habitantes, cá estamos nós a constatar o sucesso dessa governação. Criação de emprego, oportunidades, empreendedorismo, etc e tal são palavras caras e que nos remetem para um ambiente que não é, infelizmente, o nosso e que foram (e são) abusivamente utilizadas pelos nossos governantes. Digno de um ranking de país sub-desenvolvido do terceiro mundo, a criação de emprego pago a pouco mais de trezentos euros é uma vergonha que deveria fazer corar e desaparecer do mapa todos aqueles que têm defendido esta política, esta governação. É de tal forma criminosa a governação dos nossos dias que para ser feita justiça seria preciso criar um novo tribunal internacional para julgar os crimes governativos contra a humanidade. É mesmo isso que se trata. E a cada dia que passa, mais acontece. Os crimes estão a ser cometidos, os criminosos anunciam os crimes e são identificados em flagrante delito. O que é preciso mais para serem condenados, punidos, enfim, excluídos?!

09 maio 2013

obra remendada

Nas frequentes viagens entre o Porto e Bragança tenho usufruído dos novos troços de auto-estrada já concluídos e com isso poupo em tempo e em combustível. Quando estiver pronta vai ser um sossego viajar entre estas duas cidades. Acontece que, ultimamente, tenho verificado que em vários locais desses novos troços, o pavimento tem cedido e por isso formam-se grandes e perigosas lombas. A concessionária vai colocando sinalizações e, segundo pude ler na imprensa regional, vai tentando compor esses segmentos de estrada. Aquilo que me impressiona é o facto de esta ser uma estrada nova, construída durante os últimos dois ou três anos, da responsabilidade de grandes empresas de construção e muito bem pagas pelo Estado. Não percebo como podem acontecer estes abatimentos de terrenos e com tanta frequência. Pior ainda é perceber que nesses locais danificados a solução é remendar, colocando nova camada de alcatrão por cima para nivelar. Não percebo nada dessas engenharias, mas parece-me lógico que o terreno irá de novo ceder e novamente teremos lombas e mais lombas até começarem os acidentes, os feridos e as mortes. Malfadada estrada.

portugal: o país que não é para velhos

Na sala de espera de um consultório médico privado e vazio, ouço a emissão do "Opinião Pública " da SICN, cujo tema é a proposta do governo de taxar as pensões e reformas em mais 10%. A indignação é geral, percebe-se pelas diferentes opiniões. Eu ainda não tinha conhecimento desta pretensão e a ser efectivada será uma vergonha. É uma falta de sentido de Estado, é uma falta de ética republicana aquilo que estamos a fazer com os nossos cidadãos mais idosos. É rebentar com qualquer réstia de coesão social e, consequentemente, com o futuro e viabilidade de Portugal, enquanto Estado, enquanto Nação, enquanto Comunidade. Os nossos aposentados e reformados cumpriram com todas as suas obrigações ao longo da sua vida contributiva e acreditaram - confiaram o seu dinheiro ao Estado como pessoa de bem - que um dia poderiam usufruir de um final de vida sem preocupações ou sobressaltos. Afinal, foram enganados, pois o Estado não quer honrar os seus compromissos para com os seus cidadãos. Em Portugal ser idoso e ser reformado ou pensionista é uma aventura, é um risco de vida. Para dar resposta e honrar os compromissos com os seus credores estrangeiros, estes criminosos matam-nos, matam-nos o país, literalmente e com retroactividade. Está na hora de reagir, está na hora de matar essa corja de governantes que pensarão, concerteza, que nunca irão ser velhos.

03 maio 2013

02 maio 2013

impressões

Hoje fui acordado por uma grande mosca. Talvez fosse um moscardo. Não sei, não o cheguei a conhecer. Estava preso ao desenvolvimento do sonho em que era também personagem e a determinada altura, um ruído estranho veio perturbar essa narrativa. Um zumbido em movimento que vinha e ia, ia e vinha e, assim, desestabilizava o normal desenrolar da experiência. Num primeiro instante não percebi e ainda tentei resistir-lhe, mas o despertar foi coercivo, pondo um fim precoce a essa outra história. Irritado, a vontade era perseguir até à morte o insecto, mas bastou-me abrir a janela para o silêncio regressar àquele espaço. De onde veio aquele ser voador não sei, mas fiquei com a impressão de que teria viajado do meu sonho para o meu despertar.

LER para Maio

Hoje é dia de LER. Daquilo que já pude perceber são várias as razões para ler este número. Desde logo as entrevistas a José Rentes de Carvalho e a Ribeiro Telles, depois Aquilino Ribeiro no cinquentenário da sua morte. Para além disto, a excelente crónica (talvez o melhor texto que li seu...) de Inês Pedrosa e os cronistas de sempre. Para ler nas próximas horas.

18 abril 2013

mediascape: parente pobre

A notícia que encontrei apenas aqui, deixa-me muito chateado e até triste. É sempre a mesma coisa, são sempre os mesmos os primeiros a serem sacrificados. Uma cidade como o Porto, perder um evento estruturante como a feira do livro, é reduzir a praticamente nada a oferta cultural do município. Pois é, cultura para este executivo são as corridas de carros na Foz e na Boavista, são as corridas da RedBull ou são os cagalhões da Joana Vasconcelos. Mas está tudo bem. Está a acabar o período destes iluminados e senhores da estética e do bom gosto. Sem feira do livro quem perde é a cidade, sou eu, és tu, é ele (mas não sabe) e somos nós. Enfim, melhores anos virão. Fica o excerto da notícia relativa a este assunto.

"Rui Rio deixa o Porto sem Feira do Livro

No último ano de mandato de Rui Rio à frente da autarquia, a Câmara do Porto decidiu não apoiar a realização da Feira do Livro, impedindo assim que os portuenses continuem a usufruir daquela iniciativa que animava a baixa da cidade e promovia a cultura na região.

Em comunicado, a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) considera que "não é possível a realização da feira nas mesmas condições de dignidade e qualidade dos anos anteriores, onerando os seus associados com um valor suplementar ao que já suportam para poderem estar presentes na realização deste evento cultural". O protocolo entre Câmara e livreiros, que vigorava desde 2009, expirou em outubro passado e a APEL sempre disse que o apoio da Câmara era fundamental para que a iniciativa se pudesse realizar. Os livreiros ainda reclamam de Rui Rio o pagamento da dívida das edições anteriores da Feira do Livro, mas nunca obtiveram resposta.

A posição da Câmara manteve-se inflexível em limitar os apoios à cedência de espaço e isenção de taxas camarárias, considerando a Feira uma atividade com fins lucrativos para editores e livreiros. "Resta à APEL fazer votos que no próximo ano a Feira do Livro regresse à cidade com a qualidade e dignidade que já habituou os portuenses", conclui o comunicado dos editores e livreiros."

15 abril 2013

mediascape: não haverá duas sem três, ou nove

Acabámos de saber que o tribunal cível do Porto impediu Luís Filipe Menezes de se candidatar à Câmara Municipal do Porto nas próximas eleições autárquicas. Depois de Fernando Seara em Lisboa, o mesmo desfecho acontece na cidade do Porto, deixando claro que os mandatos são das pessoas e não do território. A este propósito não percebo qual a dúvida jurídica e de sua interpretação, ou sequer semântica, assim como não entendo a teimosia cristalizadora do PSD em insistir com nove candidaturas nas mesmas condições. O PSD é, aliás, o único partido a apresentar candidatos com essas limitações. Curiosa e muito é a reacção da Distrital do PSD Porto que mesmo depois da sentença afirma: "a candidatura de Filipe Menezes (PSD) à Câmara do Porto nas próximas autárquicas é "válida à luz da lei" e está convencida de que o Tribunal Constitucional vai "repor o espírito da lei" Repor?! Senhores, já está no sítio onde sempre deverá estar; o espírito.

10 abril 2013

sempre bom

Por mais voltas que dê, por muito que experimente e conheça, cada regresso é sempre genial. Assim, estamos sempre disponíveis e até ansiosos pelo regresso. Genial é o substantivo.



ainda que atrasado...

... mas com a qualidade de (quase) sempre.

18 março 2013

em cadeia...


farsa democrática

Aproveitando o amanhecer soalheiro deste Domingo, fui dar um passeio pelo centro cívico e histórico da cidade de Bragança. Depois de percorrer várias ruas e vielas da cidade fui tomar um café e aí encontrei vários amigos e conhecidos com quem fiquei à conversa. Entre os vários assuntos e temas, bem típicos de conversas de café, fiquei a saber que circulava na internet e nas mãos de alguns cidadãos, um documento assinado pelo Presidente da Câmara de Torre de Moncorvo e também responsável pela concelhia do PS local, assinado pelo responsável da concelhia do PSD e também assinado pelo responsável da concelhia do CDS, onde se pedia aos cidadãos do concelho que não se manifestassem durante a visita que o Presidente da República iria fazer ao concelho. Estranha forma esta de promover a democracia. Estranha forma esta de admitir o bloco central de interesses no estado. Hoje, ao visitar o blogue de Joana Lopes - Entre as brumas da memória - encontrei uma cópia desse documento. Não sei se o rei vai nu, mas poucas dúvidas me restam que a democracia assim vai.

cobardia

Neste último fim-de-semana fomos surpreendidos com as notícias que nos chegaram do Chipre a propósito do resgate financeiro a que o estado Cipriota vai estar sujeito. A medida mais extraordinária desse programa de apoio, ou se preferirem de resgate, e até aqui desconhecido nos demais países resgatados, é o imposto sobre todas as contas bancárias no país. Todas as poupanças da população foram sujeitas a imposto que variou entre 6,75% e os 9,99%. Mas o mais impressionante nesta medida foi o oportunismo da sua apresentação pública. No final da tarde de 6ª feira, já depois dos bancos terem encerrado e num fim-de-semana prolongado; hoje é feriado nacional no Chipre. Os bancos só 3ª feira abrirão portas e aí, já o dinheiro correspondente a esse imposto foi retirado ou pelo menos cativado pelo Estado. A cobardia do Estado e das instituições europeias em todo o seu esplendor. Quando são os próprios Estados a roubarem o produto do trabalho dos seus cidadãos o que se pode fazer para podermos continuar a viver nesse Estado e a acreditar que de um Estado se trata? Para onde poderemos sair se todos os Estados actuarem de igual forma? Vivemos tempos difíceis, é verdade. Mas vivemos sob a governação de gente que não tem competências para esses mesmos tempos. Tudo aquilo que demorou décadas a construir, será destruído num abrir e fechar de olhos. Nunca sequer sonhei que no tempo de vida a que tive direito, pudesse assistir à desconstrução deste projecto europeu. Nasci e cresci nele, pelos vistos irei morrer fora dele. A ver vamos até onde a estupidez e a ignorância das elites e das lideranças europeias poderá ir.

no bom caminho...

O desalento, a frustração e o sentimento de incapacidade pessoal, levaram-me a decidir não trazer para aqui questões relacionadas com a actualidade económica e financeira do país. Mas, depois do que aconteceu na passada 6ª feira, dia 15 de Março, era impossível ficar quedo e calado. Como é possível um governo, através de um dos seus Ministros de Estado e respectivos Secretários de Estado, virem a público, a propósito da 7ª avaliação da Troika, apresentar os números que foram apresentados e não haver consequências políticas do total fracasso da sua governação. Ninguém se demite, ninguém é demitido. Já passaram quase 72 horas e tudo continua impávido e sereno. Há algo de errado, de muito errado na nossa sociedade. É que estes senhores que nos andam a pedir sacrifícios, que nos retiram direitos sociais, que nos reduzem às básicas condições de sobrevivência, que forçaram todo um estado de excepção e que afinal de excepcional nada tem, não acertam uma previsão, não conseguem construir um orçamento válido, não têm um projecto para o futuro nem para o país. A constatação clara de toda essa incompetência é o quadro que o jornal Público apresentou este fim-de-semana com os factores da previsão para 2013 e onde se pode verificar o bom caminho pelo qual estamos a ser conduzidos por estas iluminárias. RUA!
Fonte: Jornal Público

14 março 2013

delactores em rede

No dia 12 de Março recebi um email de um tal José António de Azevedo Pereira, que eu não conheço, nem ele me conhece a mim, mas deve ser gente importante, pois diz-se "Director Geral". Escreveu-me para me informar, melhor, anunciar que a partir de agora, eu, enquanto contribuinte, poderei aceder ao portal e-factura e consultar as facturas que foram passadas com o meu número de identificação fiscal. Caso detecte alguma anomalia, erro ou falha, poderei eu mesmo inserir essas facturas no sistema e assim contribuir activamente para que outros paguem não sei que impostos. Ora bem, gostaria muito de poder responder a esse email, mas através do mesmo sou informado que não poderei responder ("no reply"), pois afinal trata-se de um qualquer processo informático e não, para infelicidade minha e nossa, do próprio José António de Azevedo Pereira. Assim, agradeço a atenção e até o pormenor da personalização da missiva, mas infelizmente não acredito nesse sistema, nem acho que o problema da evasão fiscal esteja naqueles(as) que não facturam a totalidade do seu negócio. Tenho para mim, enquanto cidadão e pessoa de bem, que devo pagar os meus impostos e é isso que, ano após ano, tenho feito. É responsabilidade de cada um assim fazer. Não me compete a mim, nem a nenhum outro cidadão, andar a fiscalizar, vigiar ou denunciar os vizinhos do lado. Num estado democrático e de direito, existem entidades que têm por missão garantir essa justiça fiscal. Sejam competentes e vão buscar o dinheiro que é do Estado onde ele anda volumosa e verdadeiramente a fugir. Escusam de nos tentar co-responsabilizar pela vossa incompetência. Obrigado.

13 março 2013

"foram buscar-me quase ao fim do mundo"

Estas foram algumas das primeiras palavras que o novo Papa disse aos católicos que o saudavam na Praça S. Pedro. De facto, terem escolhido um Cardeal argentino para o lugar foi surpreendente. Face aquilo que aconteceu nos últimos exercícios e, principalmente, nos últimos anos, sempre pensei que os verdadeiros poderes da Santa Sé escolhessem um cardeal italiano. Homem jesuíta, com simplicidade e humildade, começou por dizer à multidão: "fraternidade". Agrada-me a ideia, o conceito e a vontade. Esperemos que o mundo possa contar com a Igreja Católica para essa realização. Por outro lado, e depois de tantos Papas europeus, não posso deixar de associar esta escolha aos tempos de carência e de crise que a civilização europeia experimenta. Assim, também aqui assistimos à afirmação das periferias face aos centros, ou por outras palavras, das colónias face às metrópoles. Com Francisco I "habemus papam"?!

06 março 2013

dia de LER

De novo com a direcção de Francisco José Viegas, sem Carlos Vaz Marques mas com Ana Sousa Dias nas grandes entrevistas, com um conjunto de textos sobre Fernando Pessoa e o Iberismo e com os cronistas de sempre. Excelente número.


03 março 2013

(des) (in) formação

Num destes dias, depois de mais um dia de aulas, a criança chega a casa com este papel na mão e diz: "- Papá, olha o que nos deram hoje na escola."

02 março 2013

manifestação

Há muito tempo sabia que não poderia marcar presença na manifestação que hoje ocorre um pouco por todo o país. Infelizmente, a minha debilidade física, o meu debilitado sistema imunitário e o verdadeiro receio do surto da gripe A que anda por aí a matar gente, levaram-me a optar por ficar na minha zona de conforto, embrulhado em manta e com os pés em pantufas. Sinais dos tempos e das idades. Resta-me a televisão e a internet para saber o que as ruas vão dizendo. Entretanto, aqui vou cantarolando e desafinando mais uma versão da "Grândola".


«morreu»

Pela primeira vez comprara um automóvel com algum conforto, equipamento e potência. Planeara uma vida de largos anos com esse carro, pois para além da sua inequívoca qualidade, era um carro espaçoso, adequado às exigências de sua família. Viajaram quilómetros e quilómetros, horas a fio, de norte a sul do país, pelo estrangeiro e arredores. Sempre na sua potente e capaz viatura. Pois bem, pensara ele que tinha ali máquina para durar, mas não, não teve. Enganou-se e não quis acreditar quando o médico especialista, depois de lhe pedir umas centenas de euros pelas intervenções, lhe disse que o carro morrera. Não tinha qualquer possibilidade de sobreviver. Demorou algum tempo a interiorizar esse veredicto, ainda procurou outras opiniões, mas derrotado pela despesa e pelos evidentes sinais de uma vida que se esvai, desistiu. Entregou as chaves e nem sequer se despediu dele.

06 fevereiro 2013

LER

Num número dedicado a Ruy Belo, destaco também o texto de Pedro Mexia acerca das autobiografias.

28 janeiro 2013

24 de Janeiro

(por manifesta indisponibilidade)

Apurriados, umas vezes mais outras vezes menos, continuaremos.
Obrigado.

08 janeiro 2013

agora o filme...

Sendo um apreciador da escrita de Leo Tolstoy, não poderia deixar de ver a adaptação feita ao cinema do seu grande clássico Anna Karenina. Sendo o original uma narrativa densa e enorme, compreende-se a necessidade de escolher apenas alguns dos momentos marcantes da história para apresentar na versão filme, mas a sensação com que fiquei depois de o ver foi como que tivesse lido uma sebenta resumo da versão original. Gostei do desempenho dos actores, da beleza da actriz Keira Knightley que representou o papel de Anna e destaco a personagem Aleksei Aleksándrovitch, num desempenho magnífico de Jude Law (para mim, o melhor personagem desta adaptação). O ambiente teatral e a recriação fantástica da Rússia Imperial, onde se desenvolve toda a narrativa, numa sucessão de cenários e cruzamento de actores e a própria realização, fizeram-me recordar o filme "Fabuloso destino de Amelie".


03 janeiro 2013

dia de LER

dia primeiro, primeira vez...

Acordar preguiçoso para o novo ano. Com calma e a caminho da mesa posta para almoçar, recosto-me ao sofá. Na TV a missa transmitida pela TVI e rezada pelo Cardeal de Lisboa. Igual a tantas outras, mas naquele mesmo espaço onde me encontrava, havia quem assistisse e estivesse de facto a participar na liturgia. Chegado o momento da paz, houve quem se cumprimentasse, o que originou uma cadeia de cumprimentos entre todos os presentes nessa sala. Surpreso e impreparado lá fui obedecendo ao ritual e desejando que a paz esteja com eles e com elas. Aqui está uma formulação diferente - pouco utilizada - que poderia e deveria constar do nosso cardápio verbal: que a paz seja em ti.

31 dezembro 2012

2013 para mim

Pois cá está um novo ano e este terminado em três, o que significa para mim o completar de mais uma década de existência. Pois é, será o ano em que completo quarenta anos. Dependendo do ponto de vista, poderão dizer que ainda só, ou então que são já..., ainda assim prefiro o pragmatismo do tempo que passa por mim e por todos os outros. Para este próximo ano e num contexto como aquele que vivemos, será avisado apenas solicitar a mesma qualidade de vida que tenho tido até aqui. Sem grandes ambições e sem grandes planos, pois percebi já que não mudarei o mundo, viveremos aquilo que pudermos. Vamos lá.

instante urbano XXII

No regresso do almoço, entro na sala onde tinha estado nos últimos dias a recolher dados e encontro a técnica do Arquivo Distrital de Bragança a auxiliar outra pessoa que procurava informação. Pela conversa percebo que se trata de uma jovem brasileira que veio a Portugal em busca das suas origens, dos seus antepassados. A dificuldade é que apenas sabia um nome e o ano em que nascera (1901). A técnica lá a foi ajudando até que, através dos registos paroquiais, lá conseguiu encontrar esse seu antepassado. A alegria e satisfação da descoberta manifestou-se num choro incontido que lhe turvou os sentidos e a obrigou a pedir ajuda na leitura. À medida que foi ouvindo a informação a comoção aumentava, até ao momento em que também já era a técnica do Arquivo quem soluçava e tentava segurar as lágrimas. E eu ali ao lado, fazendo de conta que estava concentrado no meu trabalho e na minha música. Por fim, exclarecida, pede uma cópia do documento e uma certidão. Ligou para a Avó (que seria a filha desse seu familiar) e conta-lhe o que conseguiu descobrir. Prometeu-lhe que a iria visitar para lhe mostrar os documentos e desligou. De imediato faz outro telefonema, julgo que para o Brasil, e conta a sua aventura. Quando desligou já tinha à sua frente as cópias e a certidão. Agradeceu e disse que iria de imediato à procura da aldeia, lugar onde esse seu antepassado nasceu, viveu e morreu. Mesmo tendo consciência de que esta é uma experiência idêntica a tantas outras, não deixa de ser impressionante a força de determinados sentimentos. Aquela jovem, descendente de portugueses, jamais conheceu esse senhor, mas a sua referência concerteza terá sido uma presença constante na sua vida e na vida da sua família. Impressionante, para mim, é a importância da memória e a necessidade de a estudar. Aqui, ali ou acolá, ontem, hoje ou amanhã, queremos pertencer a algo ou a alguém.

11 dezembro 2012

o coronel

Ouço as birras da minha criança, daquelas típicas de alguém que não sabe ainda nada de vida e de quem pensa que podemos e devemos ter tudo e ter mais e ocorre-me ao pensamento esta imagem. O "Coronel" junto de uma das suas habitações - pegava-lhes fogo e abandonava-as sempre que era visitado por uma cobra ou lagarto. O "Coronel", assim era tratado e assim ficou na memória daqueles que o conheceram, viveu grande parte da sua existência no monte e pelo termo da aldeia de Vila Boa, em Vinhais, sozinho e, com a excepção do vestuário, despido de qualquer caracter de civilização. As suas casas eram as casarolhas que os lavradores construíam para abrigo nos terrenos longe da aldeia. Viveu com fome e frio. Comeu, bebeu, fumou e vestiu apenas o que lhe deram. Só aparecia na aldeia quando tinha muita fome e o fim veio, assim, com uma dor forte de barriga, daquelas que nos últimos tempos o importunavam e de que ele se queixava. Viveu e morreu só.

Le Monde


Mais um excelente número do Jornal Mensal.

08 dezembro 2012

para adquirir e conhecer...

Na excelente 119ª edição da revista LER, Bruno Vieira Amaral escreve sobre o livro de Nicholas Carr "Os Superficiais - o que a internet está a fazer aos nossos cérebros". Só o título prende-me os sentidos e a curiosidade aumenta depois de ler a respectiva recensão. Nicholas Carr tenta responder à questão: Que implicações pode ter a internet - e todo o ambiente que o rodeia - no cérebro humano?
Já agora e enquadrado pela quadra natalícia, se por um mero acaso, alguém pensar oferecer-me algo, aqui está uma rica prenda. Obrigado, mesmo assim.

literatura oral e marginal

Quando frequentei o segundo ou terceiro ano do curso da Antropologia, uma das cadeiras opcionais dava pelo nome de Literaturas Orais/Marginais. Nesse ano fui dos poucos alunos do curso a escolher essa cadeira. Pouco ou nada recordo do programa, da professora ou do que aprendi, mas houve um pormenor que guardei na memória até ao presente. Uma das referências bibliográficas centrais dessa disciplina era um livro altamente alternativo e que se chamava "O guardador de retretes". Nunca o cheguei a ler, consultar ou sequer conhecer. Sei que mesmo depois de acabar o curso e ao longo de todos estes anos, guardei essa referência e cheguei mesmo a procurá-la, mas sem sucesso. Até que hoje, na Fundação Cupertino de Miranda e ao visitar mais uma "feira" de livros, o encontrei, numa 4ª edição e versão mais recente (2007). Finalmente.

07 dezembro 2012

Ler, 25 anos depois...

genericamente, dos últimos seis meses, particularmente, de uma feira do livro

- Conde, Santiago Prado (2010), Conferencia Internacional da Tradición Oral - volumes I e II;
- Gué, António Sá (2012), Quadros da Transmontaneidade, Lema de Origem;
- Fernandes, Hirondino (2012), Bibliografia do distrito de Bragança - série Escritores, Jornalistas, Artistas - volumes II e III, Bragança, Câmara Municipal de Bragança;
- Feio, Rui (2012), Roteiro do Culto Mariano em Terras de Bragança e Zamora, Bragança, Câmara Municipal de Bragança;
- Sobral, José Manuel (2012), Portugal, Portugueses: uma identidade nacional, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Ribeiro, Gabriel Mithá (2012), O ensino da História, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Silva, Mónica Leal da (2012), A crise, a família e a crise da família, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Madruga, Francisco (2006), Novos tempos, velhas culturas, Mogadouro, Associação Cultural e Recreativa de Soutelo;
- Vieira, João Martins (2007), Planeamento e ordenamento territorial do turismo - uma perspectiva estratégica, Lisboa, Editorial Verbo;
- Debord, Guy (2012), A sociedade do espectáculo, Lisboa, Antígona;
- Tolstói, Aleksei K. (2010), O vampiro e a família do vampiro, Lisboa(?), Estrofes & Versos;
- Barbosa, Pedro (2007), O guardador de retretes, Porto, Edições Afrontamento;

22 novembro 2012

presenteado

Nunca fui pessoa para grandes euforias ou grandes entusiasmos para receber presentes. Não me recordo de sentir grandes expectativas em relação às datas especiais de previsíveis surpresas e ofertas. Sem querer melindrar todos(as) aqueles(as) que me têm mimado, não sou pessoa que receba muitos presentes; acho que nunca fui. Gosto muito de presentear aqueles e aquelas que gosto e que de alguma forma quero bem, mas também gosto muito, mesmo, de me presentear e comprar para mim aquilo que mais gosto. Não sou esquisito e opto quase sempre, pois dá-me certo prazer, pelas mesmas coisas. Por nunca estar à espera desses mimos, sempre que alguém me oferta algo é uma surpresa e sabe bem, sentimo-nos queridos e estimados. Saber que alguém, num determinado momento, pensou em nós e associou algo à nossa pessoa... Foi o que me aconteceu por estes dias. Sempre bom.

19 novembro 2012

mediascape: os desistentes

Das notícias que hoje encontrei na imprensa e nos noticiários televisivos, gostaria de destacar esta do Jornal Público e que diz que os emigrantes portugueses de hoje estão a desistir de Portugal e a pedir naturalização nos países de acolhimento. De facto, esta é uma nova atitude, pois mesmo admitindo que muitos daqueles que, durante várias décadas e gerações, partiram em busca de uma vida melhor longe da pátria nunca regressaram, não há registo que esses portugueses algum dia tenham desistido da sua nacionalidade. Nacionalidade essa que compreende um conjunto de identidades pessoais que, por sua vez, se sentem, ainda que involuntariamente, parte de uma comunidade, no caso nação e, em particular, Portugal. É também enquanto membros dessa nação que aprendemos a construir um sentido de diferença para com os outros, para com os estrangeiros, com os quais permanentemente nos comparamos. José Manuel Sobral (que ainda há poucos dias, aqui referi, a propósito do seu ensaio acerca da identidade nacional), afirma que: «Ser-se português não implica partilhar uma qualquer essência ou substância inefável, mas tão-só reconhecer-se a si e a outros como tais, e a outros como diferentes, estrangeiros. As caracterizações ou representações do que era ser-se português nunca terão sido algo de homogéneo e ainda hoje o não são.»(2012:33)
O facto de haver indivíduos que declaradamente escolhem outra nacionalidade é algo significativo e justificará uma análise mais cuidada e um estudo mais aprofundado, pois para além de romper com as lógicas e circuitos tradicionais dos movimentos migratórios, implica um conjunto de questões simbólicas e identitárias, e será, a médio ou longo prazo, uma questão de Estado, na medida em que será a própria sobrevivência da nação que poderá estar em risco. A desistência de uma nacionalidade significa também a desqualificação dessa nação. Em cada um dos casos é a dignidade de Portugal que está em questão. Cada desistência significa que o outro é melhor que nós e em última análise, esse outro passará a ser «nós» e vice-versa.
Este é mais um sintoma - e espero que não passe disso - do mal estar social que em Portugal e nalguns países da União Europeia se sente, consequência directa das políticas gravosas e erráticas que os governos europeus optaram na resposta à actual crise. Um dia, num futuro que eu não adivinho, haverá quem possa reflectir sobre este momento histórico e, ainda que postumamente, fazer justiça e repor a verdade, para que as nacionalidades possam garantir os índices de civilidade e a qualidade de vida mínima para os seus cidadãos poderem e quererem estar e ser nacionais.

13 novembro 2012

mediascape: o odioso

Para o ministro Pedro Mota Soares responsável por essa coisa chamada Segurança Social, os idosos são abandonados pelos seus familiares e depositados nas instituições sociais. Para o ministro, os familiares desses idosos deverão ser perseguidos e responsabilizados, pois a culpa por não poderem tratar dos seus familiares mais velhos, é única e exclusivamente deles. Agora e segundo este novo paradigma, só quem demonstrar que não tem capacidade financeira para cuidar dos mais velhos, poderá recorrer às instituições do Estado. A mesma conversa, o Estado só servirá aqueles que realmente necessitam... Neste caso não é só a questão social que preocupa, mas sim e principalmente, preocupa-me a tentativa descarada de desresponsabilizar o Estado de uma das suas principais e fundamentais funções. Inadmissível. Este é mais um exemplo daquilo que este governo com celeridade está a fazer ao Estado Social. Esvaziá-lo de sentido e serventias aos portugueses, para então depois entregar aos privados, através de pomposas cerimónias e invocando a necessidade de uma prestação de serviço público com qualidade, esses mesmos serviços e prestações sociais. Este ministro, em apenas um pouco mais de um ano de desempenho, conseguiu já o lugar invejado de ministro do ódio social. Parabéns.

le monde

Esta edição sem grandes destaques e com pouco interesse para mim.

Delães

Gosto sempre de regressar a esse lugar e, desconfio, regressarei sempre até ao meu fim. Mas à medida que o tempo vai passando, essas revisitações tornam-se cada vez mais nostálgicas e carregadas de memórias de outro tempo em que lá tudo tinha uma outra dimensão, outro cheiro e outra afectividade. Tudo está agora vazio, sem forma, sem afecto, sem reconhecimento. Nada ou quase me leva lá, apenas e quase só essa memória de rostos, de odores e de momentos vividos. Não importa, voltarei sempre. 

10 novembro 2012

intervenção

Venho aqui falar-vos da parte interior do nosso território nacional. Falo das comunidades que, apesar de serem também Portugal, têm sido historicamente relegados para uma condição sub-alterna que desde sempre cumpriram as suas obrigações para com a nação e a nação jamais, pouco ou nada, retribuiu. É uma das maiores e crónicas injustiças em Portugal, a descriminação negativa e bem negativa dos territórios do interior.
Territórios, comunidades e indivíduos que estão habituados, há gerações, a procurarem vida bem longe de casa.
Territórios, comunidades e indivíduos que estão habituados, e agora mais do que nunca, a verem os serviços públicos encerrarem : dos CTT aos tribunais, das escolas aos centros de saúde e valências hospitalares.
As políticas de austeridade, impostas por este governo afectam, sem dúvida, todos os portugueses e todas as portuguesas, mas afectam sobremaneira e com maior violência aqueles que, não por acaso, fazem ou tentam fazer vida no interior.
Os cortes financeiros, o desinvestimento público, o encerramento de serviços públicos e a não promoção da produção nacional eliminam postos de trabalho, desencorajam o investimento privado e extinguem as actividades económicas tradicionais locais.
O Bloco de Esquerda deverá, terá de assumir esta luta como prioritária. A defesa incondicional do investimento público na saúde, na justiça , na segurança social e na educação. A Escola Pública! - de forma a reestruturar, dentro do possível, o todo do território nacional.
O próximo ano será um ano importante, pois pelo menos teremos as eleições autárquicas e aqui, o Bloco de Esquerda não deverá hesitar em dedicar o melhor que tem em si e de si nesse processo. A capacidade de intervenção dos activistas do Bloco de Esquerda nas autarquias não deve ser desvalorizada ou sequer relativizada; sendo essencial e até estruturante, deverá ser valorizada e até reforçada com uma política autárquica forte que lute contra o desgoverno globalizante e que nos atira ou remete para uma condição jamais experimentada por nós.
Bem sei o esforço que a estrutura do BE tem feito para reflectir e debater as questões relacionadas com a interioridade, nomeadamente nas jornadas da interioridade e também na comissão nacional autárquica, mas o apelo é que esse esforço seja crescente, seja maior, que traga a si a qualidade de cada região.
Camaradas,
Fica o alerta, fica o apelo para que as nossas ideias, os nossos ideais e o nosso projecto político futuro possa também nas autarquias ter lugar.
Obrigado.
(Intervenção do distrito de Bragança)

Francisco Louçã

Hoje quando iniciar a VIII Convenção do Bloco de Esquerda, o Francisco deixará de ser o Coordenador do partido e abandona todos os cargos políticos que até hoje desempenhou. Bem sei, ele já o disse e repetiu, que não vai abandonar o partido nem a luta por uma solução alternativa de esquerda, mas é indiscutivelmente uma perda de monta para o BE. Conheci o Francisco algures em 2004 e à medida que me fui envolvendo no movimento e participando nos diversos fóruns, tive a oportunidade de o ir conhecendo e reconhecendo as suas qualidades enquanto lider, enquanto membro de uma equipa e enquanto comunicador. Foram vários os momentos em que privámos e conversámos acerca de diversos assuntos. O Francisco é um excelente ouvinte. É indesmentível o poder da sua imagem e personalidade junto da sociedade e eu pude testemunhar, por todo o país, o carisma e a empatia que provoca nas pessoas. Não acredito no culto da personalidade, nem que haja pessoas insubstituíveis, mas substituir o Francisco vai ser um desafio para todos os activistas do BE e também para mim. Confesso que tenho dúvidas em relação ao momento escolhido para haver esta mudança e confidencio que preferia que ele se mantivesse no cargo.
(10 de Novembro, a caminho de Lisboa)

VIII convenção do bloco de esquerda

A caminho de Lisboa, aproveito para pensar naquilo que poderá acontecer nestes dois dias em que vamos estar reunidos em Convenção. É um momento dificil para a sociedade em geral e para o partido em particular. Experimentamos, pela primeira vez, uma mudança de liderança, ainda por cima num processo de substituição de um dos lideres e fundadores do partido que marcaram a sua evolução, depois e também porque os últimos resultados eleitorais foram efectivamente derrotas para o BE.
Vou participar nesta convenção enquanto delegado eleito pela moção A, da qual sou subscritor e defensor. Faço parte da lista da moção A candidata à Mesa Nacional, orgão para o qual tenho feito parte desde 2009, mas desta vez não serei eleito, pois para além de previsiveis surpresas a moção B elegeu uma percentagem considerável de delegados, o que na votação inviabiliza a minha eleição. Mas isso não será relevante, até porque tendo aceite integrar a lista, demonstrei disponibilidade para ocupar o lugar, mas a não eleição libertar-me-á de várias responsabilidades. 
Em relação à Convenção não tenho grandes expectativas, pois é mais do que conhecida e pública a composição da próxima liderança. Apoio esta solução, não por ser paritária ou por ser "bicefala", mas por ser protagonizada por dois elementos descomprometidos com as correntes fundadoras do movimento. Aliás, sem qualquer tipo de sectarismo, sabendo que o BE é já muito maior do que a soma dos seus partidos e movimentos fundadores, não compreendo nem aceito a cativação do partido por parte dessas, agora, correntes. Está na hora de alterar essa relação de forças. Para bem do colectivo. Veremos.