04 abril 2014

escritora a sério


Assinalando o centenário de nascimento de Marguerite Duras - 4 de Abril de 1914. Li-a quando jovem, continuo a lê-la quando adulto. Escrita impressionante. Do livro Escrever que utilizei na tese de mestrado, a propósito do acto de escrever:
"Gostava de contar a história que contei pela primeira vez a Michelle Porte, que tinha feito um filme sobre mim. Num dado momento da história, eu encontrava-me naquilo a que se chamava a despensa na «pequena» casa com a qual comunica a casa grande. Estava só. Esperava Michelle Porte nessa despensa. Fico muitas vezes assim, sozinha, em lugares calmos e vazios. Durante muito tempo. E foi nesse silêncio, nesse dia, que, de repente, vi e ouvi contra a parede, muito perto de mim, os últimos minutos da vida de uma mosca vulgar.
Sentei-me no chão para não a assustar. Já não me mexi mais.
Estava só com ela em toda a extensão da casa. Até então não tinha pensado em moscas a não ser, sem dúvida, para dizer mal delas. Como vós. Fui educada, tal como vós, no horror desta calamidade que afecta o mundo inteiro, que transmite a peste e a cólera.
Aproximei-me para a ver morrer.
Ela queria escapar à parede onde se arriscava a ficar prisioneira da areia e do cimento depositados sobre essa parede com a humidade do parque. Ela debatia-se contra a morte. Aquilo durou talvez entre dez a quinze minutos e, depois, parou. A vida tinha tido de parar. Fiquei ainda a ver. A mosca continuou contra a parede, como eu a tinha visto, como colada a ela.
Enganara-me: ainda estava viva.
Fiquei ainda ali, a olhá-la, na esperança de que ela fosse recomeçar a ter esperança, a viver.
A minha presença tornava essa morte ainda mais atroz. Eu sabia-o e fiquei. Para ver. Para ver como essa morte invadiria progressivamente a mosca. E também para tentar ver de onde viria essa morte. De fora, ou da espessura da parede, ou do solo. De que noite viria, da terra ou do céu, das florestas próximas, ou de um nada ainda inefável, muito próximo, talvez, talvez de mim, que procurava achar os trajectos da mosca em trânsito para a eternidade.
Já não sei o fim. Sem dúvida que a mosca, já sem forças, terá caído. As patas ter-se-ão descolado da parede. Terá caído da parede. Já não sei mais nada, a não ser que me fui embora. Disse para comigo: «Estás a ficar louca». E fui-me embora dali.
Quando a Michelle Porte chegou, mostrei-lhe o lugar e disse-lhe que uma mosca tinha morrido ali, às três e vinte. A Michelle Porte riu-se muito. Teve um ataque de riso. Tinha razão. Sorri-lhe para acabar com a história. Mas não: continuou a rir. E eu, quando vo-la estou a contar, assim, de verdade, na minha verdade, é o que acabei de dizer, o que foi vivido entre mim e a mosca e que ainda não se presta ao riso.
A morte de uma mosca é a morte. É a morte em marcha em direcção a um certo fim do mundo, que alarga o campo do último sono. Vemos morrer um cão, vemos morrer um cavalo e dizemos qualquer coisa, por exemplo, coitado do bicho… mas se uma mosca morre… não dizemos nada, não tomamos nota, nada.
Agora está escrito. Talvez seja neste género de derrapagem – não gosto desta palavra – muito sombria, que nos arriscamos a incorrer. Não é grave mas é um acontecimento único em si mesmo, total, de um significado enorme: de um sentido inacessível e de um alcance sem limites. Pensei nos judeus. Odiei a Alemanha como nos primeiros dias da guerra, com todo o meu corpo, com toda a minha força.
(…)
Também está certo que a escrita conduza a isso, a essa mosca em agonia, quero dizer: escrever o pânico de escrever. A hora exacta da morte, consignada, tornava-a já inacessível. Dava-lhe uma importância de carácter geral, digamos que um lugar determinado no mapa geral da vida sobre a terra.
Essa exactidão da hora a que ela tinha morrido fazia com que a mosca tivesse tido exéquias secretas. Vinte anos depois da sua morte, a prova aqui está, ainda se fala dela.
Eu nunca tinha contado a morte dessa mosca, a sua duração, a sua lentidão, o seu medo atroz, a sua verdade.
A exactidão da hora da morte remete para a coexistência com o homem, com os povos colonizados, com a massa fabulosa dos desconhecidos do mundo, as pessoas sós, aquelas da solidão universal. A vida está em toda a parte. Da bactéria ao elefante. Da terra aos céus divinos ou já mortos.
Eu não tinha organizado nada em torno da morte da mosca. As paredes brancas, lisas, sua mortalha, estavam já ali e fizeram com que a sua morte se tenha transformado num acontecimento público, natural e inevitável. Aquela mosca estava, manifestamente, no fim da vida. Eu não podia impedir-me de a ver morrer. Já não se mexia. Havia também isso, saber, também, que não é possível contar que essa mosca existiu.
Já passaram vinte anos.
(…)
Sim. É isso, esta morte da mosca, tornou-se o deslocamento da literatura. Escrevemos som o saber. Escrevemos a olhar uma mosca morrer. Temos o direito de o fazer.
(…)
À nossa volta todo o escrito, é isso que é preciso chegar a perceber, todo o escrito, a mosca, ela, escreve, nas paredes, escreveu muito na luz da sala grande, reflectida pelo tanque. Ela podia aguentar-se numa página inteira, a escrita da mosca. Então seria uma escrita. A partir do momento em que ela poderia sê-lo, ela é já uma escrita. Um dia, talvez, no decorrer dos séculos que hão-de vir, ler-se-ia essa escrita, seria também ela decifrada e traduzida.
(…)
Podemos também não escrever, esquecer uma mosca. Olhá-la, apenas. Ver como, por sua vez, ela se debateria."
(Duras, 1994:40 a 48)

28 março 2014

fonte de eterna inspiração

Não conhecia André Gorz, jamais lera uma palavra da sua escrita, até que um dia destes tropecei nesta linda capa. Peguei nele e li-o ainda antes de o comprar. Bonito e sentido texto o autor escreve nesta carta dirigida à sua companheira de sempre. Escrito perto do final da vida de ambos, esta carta será o testamento das suas vidas, vividas lado a lado. De todas as passagens bonitas, marcantes e memoráveis que a sua leitura me deu a conhecer, há uma que pelo seu significado político e até essencialista, talvez pela empatia, me marcou:
"Tanto quanto consigo lembrar-me, sempre detestei o estilo de vida dito «opulento» e seus desperdícios. Tu recusavas seguir a moda e julgava-la segundo os teus próprios critérios. Recusavas-te a permitir que a publicidade e o marketing te dessem necessidades que não sentias. (...) Acabámos por adquirir, ao fim de dez anos, um Austin velho. O que não nos impediu, porém, de continuar a considerar a motorização individual como uma escolha política execrável, que põe as pessoas umas contra as outras, na pretensão de lhes oferecer o meio de se livrarem de um destino comum. Tinhas para as despesas correntes um orçamento que definias e gerias de acordo com as nossas necessidades. Faz-me lembrar que tu tinhas concluído, já aos sete anos de idade, que o amor, para ser verdadeiro, deve desprezar o dinheiro. Tu desprezava-lo." (páginas 68 e 69)


Ainda o estava a ler e já sabia a quem o ia oferecer. Assim fiz.

evolução epistemológica

Ir a uma consulta de clínica geral e depois de explicada a situação e identificadas as maleitas sentidas, ser aconselhado pela especialista em medicina geral e familiar a experimentar sessões de acupunctura e de yoga. Apesar destas serem já muito populares entre nós, nunca um especialista, formado e formatado pela academia e com um discurso historicamente hermenêutico e uma prática conservadora, me aconselhara sair da ciência positivista. Como evolui o conhecimento científico e vai incorporando ou normalizando todas as outras terapias, outrora irreconhecíveis e estigmatizadas.

17 março 2014

festival da canção

Tal como grande parte dos portugueses que tenham 30 ou mais anos, recordo os serões em que o país parava para assistir ao festival da canção. Durante décadas esse era um momento marcante da vida artística e do entretenimento nacional. Era sempre grande a expectativa para conhecer os artistas e os temas a concurso, assim como era com ansiedade que assistíamos à votação feita pelo júri descentralizado pelas capitais de distrito e, por incrível que pareça, acreditava-se na competência, justiça e na idoneidade desses painéis de jurados. Entretanto, o mundo mudou, tudo mudou e o evento, outrora, marcante e estruturante, perdeu centralidade, qualidade e, acima de tudo, perdeu razão de existir. Não se percebe a insistência da RTP num formato esgotado e que pouco dignifica o serviço público de televisão. Este ano, por razões "amigas", assisti aos dois episódios, ou melhor, às duas partes do festival e fiquei muito embaraçado, sentindo mesmo vergonha alheia, com o espectáculo de uma tristeza confrangedora que os meus olhos podiam ver. Silvia Alberto e José Carlos Malato bem tentavam manter a dignidade da coisa, mas perante o vazio de conteúdo, a falta de entusiasmo do pouco público presente e a fraca prestação dos concorrentes, era notório o desconforto. Por muito que repetissem que o ambiente estava fantástico, por muito que gabassem os temas e os seus intérpretes, percebia-se mesmo através da TV que estávamos perante um tremendo acto falhado da RTP com direito a apupos e vaias para o vencedor. Desconheço o resultado das audiências, mas até o facto de a votação ser feita pelos telespectadores, através de telefone, demonstra bem a dimensão do concurso. Depois, se repararmos com atenção, são sempre os mesmos: apresentadores, concorrentes, produtores, convidados, homenageados, etc. Dá a sensação de haver uma clique de privilegiados que carece deste espaço para justificarem a sua existência e que cristalizaram, ou mesmo, fossilizaram julgando deter a exclusividade da música ligeira em Portugal e que não se aperceberam que o mundo que os rodeia evoluiu par algo diferente. Sem julgar o papel que tiveram e a sua relativa importância, estou farto de António's Calvário's, de Simone's de Oliveira, de Ary's dos Santos, de Carlos Paiões e de todas as outras santidades da nossa história recente. Aquilo que assistimos foi um tremendo exercício de saudosismo por um Portugal que já não existe, nem voltará a existir. Sei da importância da memória para a vida dos indivíduos e das comunidades, mas assim não, é decadente e atávica.
PS - assisti com toda a atenção e não gostei de nenhuma das 10 músicas em concurso. Assisti com toda a atenção aos momentos musicais produzidos pelo meu amigo José Lourenço e destaco o desempenho do Henrique Feist, que uma vez mais demonstrou ser um excelente artista.

08 março 2014

dumping generalizado

Desconfio até que já não é a primeira vez que eu verto para palavras este assunto.
Eu não percebo nada do assunto e nunca fiz qualquer esforço por entender da poda. Por outro lado, não serei um típico consumidor, daqueles que compram, compram e compram. Contudo, não posso deixar de me apurriar com aquilo que vou vendo por todo o lado, principalmente nos grandes altares do consumismo pós-moderno que são os shoppings. Como é possível que os comerciantes e os lojistas apresentem promoções durante meses e meses?! Como é possível apresentarem durante todo esse tempo descontos que em muitos casos chegam aos 70% do preço de venda?!... Alguma coisa estará errada, pois ou eles estão a vender abaixo do preço de custo, algo que não me parece razoável, sequer racional, ou então a margem de lucro com que habitualmente trabalham é de tal forma grande, que se podem dar ao luxo de perder mais de metade do seu lucro, algo que apesar de estranho me parece ser o que de facto acontece. Isto, a ser verdade, só revela o roubo que todos, enquanto consumidores, aceitamos durante o restante tempo sem promoções e o processo de globalização e a chegada de produtos manufacturados em países do terceiro e quarto mundo só vieram promover essa desregulação dos mercados. Nada contra a venda/compra de produtos e espécimes mais baratos ou muito mais baratos; tudo contra a venda/compra de produtos e espécimes mais caros ou muito mais caros do que aquilo que realmente valem. Atenção, desconfio que são corrêssemos atrás das promoções e as ignorássemos, os preços acabariam por descer substancialmente, acabando assim com toda a especulação.

07 março 2014

de todo o ano de 2013 e princípio de 2014

Não sei bem porque razão, mas talvez por distracção ou esquecimento, reparo agora que a última vez que aqui actualizei os livros que adquiri ou me foram oferecidos aconteceu em Dezembro de 2012. Por tanto, farei agora a referência àqueles que de lá e até ao presente entraram no acervo:
- Castro, Pe. José de (1946 a 1951), Bragança e Miranda, 4 volumes, Lisboa, Academia Portuguesa de História;
- Foucault, Michel (1998), As Palavras e as Coisas, Lisboa, Edições 70;
- Fernandes, Armando e Ferreira, Manuel (2011), Figuras notáveis e notórias bragançanas, Bragança, Fundação Mensageiro de Bragança;
- Centeno, Mário (2013), O trabalho, uma visão de mercado, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Silva, Filipe Carreira da (2013), O futuro do estado social, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Barros, Pedro Pita (2013), Pela sua saúde, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Rodrigues, Ernesto e Ferreira, Amadeu (coord.) (2013), A Terra de Duas Línguas II - antologia de autores transmontanos, Bragança, Lema d'Origem;
- Tiza, António Pinelo (2013), O Diabo e as Cinzas, Lisboa, Âncora Editora;
- Marques, Carlos Vaz (coord.) (2013), Revista Granta I, Lisboa, Tinta da China;
- Tiza, António Pinelo (2013), Mascaradas e Pauliteiros - etnografia e educação, Lisboa, Eranos - edições e multimédia;
- Sousa, Fernando de (2013), Bragança na época contemporânea (1820-2012) - volumes 1 e 2, Bragança, Câmara Municipal de Bragança;
- Mota, Francisco Teixeira da (2013), A liberdade de expressão em tribunal, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Osswald, Walter (2013), Sobre a morte e o morrer, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Aboim, Sofia (2013), A sexualidade dos portugueses, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Pereira, Alfredo Marvão (2013), Os investimentos públicos em Portugal, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Sarmento, Joaquim Miranda (2013), Parcerias público-privadas, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Rosa, Maria João Valente e Chitas, Paulo (2013), Portugal e a Europa: os números, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Jorge, Vitor Oliveira e Iturra, Raúl (1997), Recuperar o espanto: o olhar da antropologia, Porto, Edições Afrontamento;
- Menezes, Manuel (2011), Os fiados nas tabernas espelhos das realidades aldeãs: Alvite e Rio de Onor, Moimenta da Beira, Edições Esgotadas;
- Le Breton, David (2004), Sinais de Identidade - tatuagens, piercings e outras marcas corporais, Lisboa, Miosótis;
- Vieira, Ricardo (2009), Identidades Pessoais, Lisboa, Edições Colibri;
- Santo, Moisés Espírito (2006), Os Mouros Fatimidas e as aparições de Fátima, Lisboa, Assírio & Alvim;
- Marques, Carlos Vaz (coord.) (2013), Revista Granta II, Lisboa, Tinta da China;
- Mesquita, José Alegre (2012), Selores... e uma casa, Vila Nova de Gaia, Euedito;
- Moura, Vasco Graça (2013), A identidade cultural europeia, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Marques, Hermínio Cunha (1998), As alminhas no concelho de Carregal do Sal, Carregal do Sal, Câmara Municipal de Carregal do Sal;
- Câmara Municipal da Lousã (1986), Alminhas do concelho da Lousã, Lousã;
- Simpson, Duncan (2014), A Igreja Católica e o Estado Novo Salazarista, Lisboa, Edições 70;

LER... e mais um ciclo que termina


Saiu para as bancas hoje o número 133 da Revista LER e com ele a notícia, em editorial, de que este será o último número mensal da revista. A partir daqui a periodicidade será trimestral, regressando assim ao formato anterior a 2008. Compreendendo as dificuldades editoriais, lamento o desaparecimento desta que tem sido uma companhia assídua de alguns dias de cada mês. Aguardemos pelo novo formato e esperemos ser surpreendidos.

05 março 2014

sétima arte

Por estes dias em que tanto se fala de cinema, filmes, "oscars", vencedores e vencidos, dediquei algumas das minhas horas à arte. Assim e sem qualquer ordem cronológica, pude ver:
+ Blue Jasmine, com a bonita e talentosa Cate Blanchett numa personagem assombrosa;
+ Capitão Phillips, que vale por ficcionar algo que terá acontecido realmente;
+ De Bicicleta com Mòliere, de certa forma uma desilusão face às expectativas;
+ O Passado, intenso e marcante;
+ Golpada Americana, bem ao jeito de Hollywood;
+ O Lobo de Wall Street, com DiCaprio e uma alucinante narrativa;
+ O Conselheiro, e o seu excelente elenco;
+ Reasonable Doubt, sem merecer qualquer comentário;
+ A Rapariga que roubava Livros, com mais uma excelente prestação de Geoffrey Rush e uma história lindíssima;

16 fevereiro 2014

JRC


Poderia dizer que continuo a descobrir o autor, mas já o conheço e reconheço a sua escrita. A cada livro que dele leio fica sempre a sensação que a narrativa é curta e que depressa demais se chega ao seu fim. Uma vez mais José Rentes de Carvalho (JRC) leva-nos a percorrer os caminhos da sua memória, desta feita não pelas arribas do douro e pelas invernias transmontanas, mas pelas duas margens do rio Minho. Sempre num ambiente rural e de extrema pobreza, JRC apresenta-nos um portugal de meados e segunda metade do século XX, miserável e esfomeado, sempre afoito pela transgressão e pela aventura que a actividade do contrabando proporcionava. Elemento, aliás, recorrente na obra deste escritor. Foi leitura nesta tarde soalheira. Venha o próximo.

15 fevereiro 2014

gratificante

Os nossos amigos e conhecidos recorrerem a nós para aconselhamento quando querem comprar um livro para ler ou para oferecer é sempre gratificante. Acabou de acontecer.

14 fevereiro 2014

a caminho de casa...

Conhecedor que não sou da cidade de Lisboa e dos seus recantos, acabo por percorrer sempre os mesmos percursos e revisitar sempre os mesmos lugares. Nestes dias por lá passados, as tardes acabaram obrigatoriamente no balcão do Beira Gare, snack-bar petisqueira junto à Estação do Rossio, para beber uma ou duas Imperiais e a trincar uma Chamuça e um Croquete. Última paragem quando a tarde era já noite, depois, casa. Apesar do seu aspecto gorduroso e de higiene duvidosa, sabe-me sempre bem. Em muitos aspectos faz-me lembrar o Conga - casa das bifanas, no fundo da Rua do Bonjardim no Porto. 

(fotografia roubada daqui)

13 fevereiro 2014

meo, a segunda vida da tmn

Provavelmente já não existem, ou quase não existem clientes como eu, mas a verdade é que o desaparecimento da TMN não me agradou, fiquei até triste. Mantinha com essa marca uma relação que remontava aos primórdios da telecomunicações móveis em Portugal. Fui-lhe sempre fiel, nunca a troquei por nenhuma outra e agora, que parte, sinto-me abandonado, traído e sem saber o que fazer. Bem podem apresentar a MEO como sendo a segunda vida, ou afirmar que tudo ficará igual para os seus clientes. Não me parece e assim sendo, não me sentindo obrigado a qualquer compromisso com esta segunda via, irei arranjar outra, uma com a qual me sinta confortável e possa fidelizar. Pois é, eu sei, sou uma espécie de cliente em extinção, afectivo e pouco racional, não importa pois quando gosto, gosto. 

12 fevereiro 2014

instante urbano XXVI

Ali para os lados de Entrecampos, que é como diz entre o Campo Grande e o Campo Pequeno, numa destas manhãs, estava eu sentado num café a ler o jornal e a tentar escapar ao dilúvio que afogava Lisboa, quando numa mesa ao lado três ou quatro pessoas, por entre um café, comparavam a qualidade do metro de Lisboa e o metro do Porto. Uma voz feminina, que me obrigou a levantar a cabeça, através da sua indumentária verbal afirmou que, tendo vivido algum tempo em Vila Nova de Gaia, sabia bem da qualidade do metro do Porto, mas ninguém poderia chamar "àquilo" metro, pois na verdade é apenas um simples eléctrico. Então não é? Claro que sim, pois ele nem sequer anda debaixo da terra. O de Lisboa sim, é um metro a sério, anda debaixo de terra e é muito mais eficaz, não há comparações possíveis.
Santa ignorância, digo eu sem comparações.

por falar em cultura e em identidade...


Tenho que fazer referência ao excelente ensaio de Vasco Graça Moura - A identidade cultural Europeia - publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, na sua colecção Ensaios da Fundação. Aproveitando o intervalo dos pingos da chuva destes últimos dias, li este pequeno texto que de uma forma sucinta apresenta a história pouco ou nada linear da Europa e as contradições, os conflitos, as dúvidas, os colapsos, as inquietações, as realizações e as descobertas desse percurso para tentar encontrar no final da história uma ou mais identidades possíveis. Muito interessante e muito didáctico. Livro que entrará desde já nas minhas referências bibliográficas e que "obrigarei" os meus alunos a ler.

Stuart Hall (R.I.P)


Foi através do Jornal Público que fiquei a saber da recente morte de Stuart Hall. Conheci a sua obra quando frequentei as aulas de mestrado de estudos culturais, não fosse ele um dos fundadores do centro que foi o berço dos Estudos Culturais na Universidade de Birmingham. Nascido na Jamaica Stuart Hall, viveu desde 1951 na Grã-Bretanha e, por ser emigrante, viveu naquilo que ele considerou "a condição arquetípica da modernidade tardia". Escreveu sempre a partir da diáspora pós-colonial, de um engajamento com o marxismo e o debate teórico sobre cultura num contexto de globalização complexa e contraditória. É através destas suas reflexões que se torna uma das principais referências actuais sobre as dimensões político-culturais da globalização, vistas a partir da diáspora negra.

07 fevereiro 2014

escrever para viver, viver para escrever

Outra notícia interessante que encontrei nesta nova revista LER e trazida por Bruno Vieira Amaral, diz que um inquérito realizado pela Digital Book World no Reino Unido a mais de nove mil escritores revelou que mais de 50% dos escritores que estão ligados a editoras ganham menos de 600 libras esterlinas (730 euros) por ano. Bruno Vieira Amaral questiona e bem: o que é que os motiva no negócio da escrita? Aponta várias hipóteses para resposta a esta pergunta, mas evidencia que estes não vêem a escrita como um negócio. Para eles o dinheiro não é a principal motivação. Viver da escrita é um luxo, mas viver para a escrita é uma missão.

06 fevereiro 2014

omnisciência tecnológica

A notícia poderá até nem ser nova, mas eu apenas a conheci hoje através da revista LER. Segundo esta, a Amazon está a preparar-se para enviar encomendas aos seus clientes ainda antes de eles as fazerem. Lí as "instruções" e não fiquei confuso, nem sou um tecno-céptico, mas a ambição parece-me desmedida e pretensiosa e tal poder de antecipação significaria uma capacidade comercial que iria desestruturar as lógicas comerciais tal como hoje as conhecemos e provocar uma autêntica revolução comercial.
Estará a Amazon.com a ambicionar construir uma nova torre de babel desmaterializada? É preciso estar consciente que a omnisciência é um dom apenas reservado às entidades superiores ou divinas.
José Mário Branco escreve sobre este assunto:
Da Amazon, o gigante mundial da distribuição, já se espera tudo. Há uns meses, foi anunciado o proje­to de usar, num futuro próximo, drones para fazer entregas em qualquer ponto dos EUA num intervalo inferior a 30 minutos. Escolhe-se o que se quiser no site e meia hora depois um veículo voador do tamanho de um helicóptero telecomandado pousa no quintal das traseiras com a encomenda. Impressionante, sim, mas o engenhoso e insaciável Jeff Bezos não se fica por aqui em termos de arrojo tecnológico. Na ânsia de ser sempre mais rápida do que a concorrência, a Amazon está a preparar-se para enviar encomendas aos seus clientes ainda antes de eles as fazerem. Exato: é como se lhes adivinhassem os pensamentos e as intenções. Valendo-se das quantidades incalculáveis de informação armazenada sobre hábitos de consumo (das compras feitas no passado às wish lists, passando pelo tempo que o cursor permanece a pairar em cima de um determinado item), um sistema informático calculará que produtos terão uma probabilidade elevada de serem ­encomendados e acionará o respetivo «envio antecipado». Assim, quando o cliente clicar por fim no botão de compra, o produto já estará em trânsito, ou em espera num armazém mais próximo da morada de destino. Levada às últimas consequências, a ideia acabará por descartar a própria vontade do consumidor, esse obstáculo final à absoluta fluidez do sistema. Chegará o dia em que a Amazon anunciará o algoritmo capaz de definir – sem que tenhamos voto na matéria – o que na verdade cada um de nós precisa de ler, ver ou ouvir.

nova LER...


Pouco tempo depois de a ir buscar ao quiosque e logo depois de um passar de olhos rápido, posso desde já dizer que não gostei da nova revista. E digo nova, não porque haja qualquer novidade gráfica, ou conceptual, mas porque este é o primeiro número em que os seus colaboradores cronistas não foram convocados para tal. Poderei estar apenas a estranhar e a precisar de habituação. Talvez, mas Inês Pedrosa, Onésimo Teotónio Almeida, Eduardo Pitta, Pedro Mexia et all, faziam-me ansiar sempre pela revista. Resta, neste número, a entrevista a Mário de Carvalho e, depois, aguardar os próximos números para LER.

03 fevereiro 2014

António Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva

Numa aldeia remota de Trás-os-Montes, reuni com um grupo de convivas que sob o pretexto da amizade e da fraternidade, reúnem periodicamente à mesa e alarvemente saboreiam o melhor que há na gastronomia local. Convidado e sem saber do que se tratava e para o que ia, fui surpreendido pela qualidade dos produtos cozinhados e completamente esmagado pela qualidade cultural e tertuliana desse encontro. Não ia preparado para a dimensão e profundidade das palavras que acompanharam o repasto. Um dos assuntos que mais me fascinou foi a reflexão acerca da dimensão humana e intelectual de alguns dos mais ilustres pensadores e autores portugueses.
Por se falar de António Vieira, o padre, enquanto grande vulto do século XVII, da sua obra, da sua vida e da sua coragem, referiu-se o nome de Bartolomé de Las Casas e da sua obra mais conhecida - Brevíssima Relação da Destruição das Índias - onde o autor faz a descrição dos horrores cometidos pelos espanhóis nas descobertas e conquistas realizadas no século XVI pelo continente americano. Obra de referência para os espanhóis que a consideram única, desconhecendo por absoluto a similaridade da obra do português que pouco tempo depois experimentou algo de semelhante nas terras de Vera Cruz. António Vieira será, poucas dúvidas restam, um dos maiores autores da língua portuguesa de todos tempos e foi com ele que surgiu a ideia de quinto império, enquanto crença messiânica e que legitimou o movimento autonomista português em relação à coroa espanhola. Para Vieira os impérios seriam: Assírios, Persas, Gregos e Romanos, aos quais se acrescentaria um quinto, o império português.
Depois, e numa vertiginosa viagem pelo tempo, chegamos ao século XX e a Fernando Pessoa que na Mensagem retoma o tema iniciado por António Vieira e se refere aos cinco impérios, diferindo da escolha de Vieira e identificando o império Grego, o Romano, o Cristianismo e a Europa do Renascimento e das Luzes. A estes, Fernando Pessoa acrescenta um quinto império, o cultural.
Mais tarde e ainda durante o século XX Agostinho da Silva ao reflectir sobre essa crença, transforma o quinto império no império do Espírito Santo, afirmando-se como um cavaleiro do Espírito Santo. 
Esta viagem pelo imaginário lusófono e pela obra destes autores, levam-me de imediato a querer ir revisitar algumas leituras e a descobrir outras tantas. Para o tempo que aí vem.

02 fevereiro 2014

Philip Seymour Hoffman (R.I.P)


Ao saber da sua morte, sempre precoce e estúpida com anúncio prévio de meses ou mesmo anos, recordo o actor que aprendi a apreciar e a admirar. O seu aspecto flácido, incontido e ar deslavado, servido por uma cara laroca de puto reguila e guloso, não o impediram de ter alcançado a fama e a glória de Hollywood. Recordo muitos dos seus personagens, uns maiores, outros menores, uns mais felizes, outros desastrados, mas destaco acima de tudo a intensidade dos seus desempenhos. Nem sequer falarei do papel que lhe permitiu ganhar um Oscar - Capote em 2005, preferindo referir os filmes que me marcaram e nos quais Philip Hoffman contribuiu grandemente para que tal acontecesse. Pessoalmente, destaco os filmes Boogie Nights (1997), The Big Lebowsky (1998), Magnólia (1999), e depois, mais recentemente, aqueles que, para mim, fizeram de Hoffman um dos mais brilhantes actores da actualidade: The Savages (2007) e Synedoche, New York (2008). De qualquer forma, o facto de saber que ele participava em qualquer filme, era o suficiente para eu os querer (tele)ver. Lamento o desaparecimento de um talentoso intérprete.

27 janeiro 2014

mais um ano, pela sétima vez

Por lapso de memória, que é como quem diz que se esqueceu, assiná-lo hoje a passagem para o oitavo ano de existência do apurriar. A data exacta da sua fundação é 24 de Janeiro de 2007. Neste momento, quero apenas reafirmar a vontade de continuar e de manter activo este espaço. Para início de mais um ano, e como já terão verificado, procedeu-se a uma pequena alteração do seu aspecto, num esforço de o manter esteticamente actualizado. Muito obrigado pela partilha deste tempo.

grande chico...

Chico do Vale - "Pedro, O Coelho" from MPAGDP on Vimeo.

15 janeiro 2014

mediascape: tecnocracia

Segundo o Jornal i, amanhã irá ser conhecido um estudo sobre literacia social, promovido pela Universidade Católica, pelo Instituto Luso-Ilírio para o Desenvolvimento Humano e pela União Europeia. Segundo as conclusões desse estudo, os indivíduos que mais possibilidades materiais têm são os menos disponíveis para ajudar os outros, ou para defender uma causa justa, demonstrando que as pessoas se vão acomodando ao seu crescente bem-estar e sucesso, esquecendo ou alheando-se da situação dos restantes indivíduos, com quem não partilham riqueza, benefícios e privilégios. O responsável por esse estudo afirma que o sistema de educação é o grande responsável por esta situação, pois durante as últimas décadas a escola dedicou-se a um ensino demasiadamente técnico e esqueceu-se da condição humana e da ética humanista.
Impressionante como em poucas décadas se esvazia uma sociedade dos seus valores éticos, morais e cívicos. Vivemos a era do neo-individualismo - cada um de si, por si e exclusivamente para si. Estupidificante, ou melhor, mais ricos e mais estúpidos.

14 janeiro 2014

instante urbano XXV

Este é um episódio que não experimentei ou testemunhei. Chegou-me aos ouvidos através de um amigo que, à mesa de um café e por entre gargalhadas, partilhou o sucedido. Desconheço a veracidade dos factos ou se os mesmos pertencem ao anedotário à ordem da oralidade ordinária e maldizente. Sem juízos ou moralismos, aqui vai:

À conversa com um amigo e a propósito da nova moda da comercialização digital, através do sítio "OLX", discutia-se a segurança, fiabilidade e qualidade do serviço prestado e a eficácia das transacções comerciais. Esta é já uma forma segura e eficaz de se conseguir vender e comprar de tudo o que possamos imaginar, apesar de existir sempre o risco de burla, engano ou má-fé. Que o diga um rapaz seu conhecido que através desse espaço de trocas comerciais digitais encomendou um produto, cuja publicidade garantia o aumento substancial do seu pénis. Vá-se lá saber porquê, pagou cem euros e ficou a aguardar a encomenda. Não teve que esperar muito e para seu espanto e vergonha, o engenho milagroso que encontrou na encomenda foi uma simples e eficaz lupa.

12 janeiro 2014

mediascape: papel

Sobre Borges escreveu-se que a "erudição é uma forma moderna do fantástico" ou seja é uma forma de criação mesmo que não use, nem mereça, esse nome. Por isso as bibliotecas, mesmo mortas, como são na maior parte todas as grandes bibliotecas, são uma construção humana ímpar. Se há civilização, é aqui que está, também nos pobres versos de todos estes humanos que tiveram a enorme presunção de escrever livros, nem que seja para dar uso às palavras.
(José Pacheco Pereira, In Jornal Público de 11/01/2014)

10 janeiro 2014

sr. fnac

Não sei se é só impressão minha, mas as lojas da Fnac estão a perder qualidade. De há algum tempo a esta parte tenho reparado que a oferta de livros e de música tem vindo a diminuir. Para além disso, o cuidado com a apresentação, com o estado de conservação dos produtos expostos tem sido negligenciado. Não quero ser injusto, mas parece-me que o Sr. Fnac já conheceu melhores dias. Desde a sua chegada a Portugal em 1998, a marca construiu uma rede de lojas por todo o país com uma excelente oferta de catálogos de livros e música. Com isso destruiu muitos dos pequenos comerciantes especializados, que não resistiram à esmagadora capacidade de promoção, de preço e de programação da marca francesa. Depois de conseguiram praticamente o monopólio desse negócio, abandonam os seus clientes e deixam um vazio tremendo. Lamento, acima de tudo, ter também contribuído para essa concorrência desleal. Agora, nem me deveria lamentar, mas lamento.

07 janeiro 2014

baú da memória V

Retomo assim uma rubrica há anos esquecida. A minha mãe em arrumações recentes encontrou três pedaços velhos de serapilheira bordados. Logo se apercebeu que deveriam ser trabalhos de escola de algum dos seus filhos. Perguntou-me se me recordava de algum deles. Num primeiro momento disse que não, mas depois de verificar com atenção encontrei nas costas de um deles uma etiqueta identificativa que eliminou qualquer dúvida.
Este foi um trabalho de tapeçaria que fiz na disciplina de Trabalhos Manuais do 7º ano, isto no longínquo ano de 1986. Fica o registo.


ler

02 janeiro 2014

prefácios...

De regresso a casa depois de uns dias no nordeste transmontano, encontro na caixa do correio um presente. Editado já em 2012 e escrito pelo meu amigo José Alegre Mesquita, "Selores... e uma casa" é um livro que reúne, num estilo monográfico, as histórias e as etnografias dessa pequena aldeia do concelho de Carrazeda de Ansiães. Na altura em que estava para ser editado, o autor convidou-me para escrever o seu prefácio, o que fiz com muito prazer. Tendo em conta a metáfora que o autor escolheu - a casa - para construir a sua narrativa, escrevi um texto intitulado "Entre, quem é?...".
Apesar de só agora ter chegado, em breve ficará aqui exposto na secção das "enxertias".
Obrigado José.

30 dezembro 2013

balancetes

Não sei se devido à idade, se ao estado de alma, ou à condição pessoal e familiar, começo a não achar grande piada às reflexões que cíclica e anualmente, por estes dias, se encontram por todo o lado. Na verdade, penso que não terá havido um único dia do meu passado recente em que essa reflexão não tenha sido feita. Retrospectivamente olhando para 2013, apenas me ocorre que foi mais um ano em que consegui manter o meu barco à superfície e não tive que o abandonar, tal como tantos outros, inclusive alguns amigos e conhecidos, contrariados, fizeram. Neste desfiar do tempo que nos foi destinado e que tivemos a sorte de experimentar, veremos como 2014 decorre, esperemos poder testemunhar o nosso envelhecer e o crescimento das nossas crias. Assim seja.

mediascape: tudo ao contrário

Andei à procura na net mas não encontrei link para notícia. Ontem ouvi na rádio e depois vi na televisão que o governo, certamente através do seu ministério da saúde, se prepara para incentivar os hospitais públicos a não prescreverem tratamentos, exames e medicamentos aos seus pacientes. Para tal premiará os hospitais que prescreverem menos. Muito interessante e discriminatória está forma de eugenia social. Depois disto, e tal como bem diz o Inimigo Público, serão as escolas públicas a receber prémios se não gastarem giz.

26 dezembro 2013

natal 3

Quando petiz os brinquedos que mais apreciava eram as pistas de comboios e de carros de corrida. Agora que tenho um filho que deixa de ser bebé, ando entusiasmado por finalmente poder regressar a esse universo que guardo na memória. Desconfio que a sensação não será a mesma, mas em breve a experimentarei.

natal 2

Desde que me conheço, associo natal a tempo frio e chuvoso, tempo próprio de Inverno. Não sei o que será um natal passado longe de frio, de chuva, de gelo e de neve. Estranho muito as notícias que chegam do outro hemisfério onde a família passa estes dias na praia, debaixo de uma temperatura superior a 40 graus e sem roupa. Será assim natal?

natal 1

Fico sempre angustiado com o síndrome natalício que experimentamos nas vésperas do natal. A cada ano que passa afirmo sempre que no próximo será diferente, mas nunca é. Curiosamente, e ao contrário do que tem acontecido nas edições anteriores, este ano foi estranhamente tranquilo e sem angústia.

vida e sua insustentabilidade

Todos nós temos consciência da certeza da morte no final de uma vida, mas estranhamos sempre a falta de alguém que nos morre. É natural. Por estes dias de recolhimento, alguém partilhava comigo a sua indignação:
- Tem morrido tanta gente... Os da funerária não param de trazer mortos para preparar... A insustentabilidade das nossas vidas é o sustento destes negócios.

mediascape: lugares comuns

Por me encontrar em local onde não controlava o comando da TV, fui ontem obrigado a assistir a todo o discurso do nosso Primeiro Ministro. Não me recordo de ouvir da boca de um político tantas referências a locais habituais, daqueles por onde muitos políticos gostam de deambular. Os locais da frase feita, dita e redita, da frase fácil e demagoga. Para além do mais, nada de novo pudemos encontrar nas suas palavras. Enfim.

19 dezembro 2013

mediascape: ouvir para crer

Ontem foi dia da prova para os professores. Depois de todos os protestos, greves, boicotes e zaragatas que se verificaram um pouco por todo o país, o ministro foi à televisão pública, (ver entrevista na íntegra aqui), explicar o processo. Entre outros dislates, disse isto:
Nuno Crato - Evidentemente que a Escolas Superiores de Educação e as Universidades têm características diferentes e critérios de exigência muito diferentes. (...)
J. Rodrigues dos Santos - Mas a sua dúvida incide sobre os licenciados nas escolas Superiores de Educação?
Nuno Crato - A minha dúvida, neste caso concreto de que estou a falar, que é a preparação, incide sobre esses casos.
Isto foi ontem, dia 18 de Dezembro de 2013. Estranho que hoje, dia 19 de Dezembro de 2013, Nuno Crato ainda seja o ministro da educação da república portuguesa. Como é possível?

noções precoces

Reacção da criança perante cada adversidade que vai encontrando: "- Não é justo."

12 dezembro 2013

mediascape: radares, velocidade e atropelamentos

Ouvi hoje na rádio e depois li no Público online que o governo se prepara para gastar quatro milhões de euros num novo sistema de controlo de velocidade para implementar nos centros urbanos. A razão para esta despesa "necessária" é a elevada taxa de atropelamentos e acidentes envolvendo peões nos centros urbanos de Portugal. O Governo aprovou em Conselho de Ministro essa despesa para a implementação do sistema Sincro - serão 30 novos radares a controlar a velocidade a que se circula nas nossas cidades.
Claro que haverá sempre uma relação entre radares e acidentes, na medida em que se a velocidade for menor, menor serão os danos humanos e materiais, mas evidente aqui é a relação entre radares e a caça à multa. Quatro milhões desperdiçados em tecnologia que só servirá para sacar mais dinheiro aos portugueses. Quando é que esta gente vai perceber que o investimento deverá ser sempre feito nas pessoas, na prevenção rodoviária, nas escolas de todo o país, na qualidade do ensino e formação dos condutores e na exigência da nossa cidadania. Esperemos para ver resultados.

09 dezembro 2013

Mandela

Aproveito este momento de tributo globalizado a Nelson Mandela para trazer aqui uma música dos U2 que tenho ouvido nas rádios. Pelos vistos essa música faz parte do novo filme sobre a vida do líder Sul Africano. Fui um jovem apreciador da banda de Bono e durante anos, os seus discos fizeram-me companhia diversa. Recordo que o primeiro álbum que andou lá por casa em 1987, ainda em vinil, foi o The Joshua Tree e que tocou, tocou e tocou ao ponto de ainda hoje saber quase de cor as letras das músicas desse disco. A partir daí e com o advento do CD, fui comprando os seus discos desde o início da sua carreira e até ao Zooropa, cuja sonoridade já se me apresentou muito estranha. Guardei esses discos até hoje e, muito de quando em vez, regresso a eles. Mas não mais comprei música de U2. Fui acompanhando a sua evolução, as suas performances e as suas intervenções cívicas, mas a arte deles deixou de me cativar. Agora, ao ouvir este tema, para além da mensagem, há algo que me remete para os seus primeiros sons e me cativa os sentidos. Não consigo, ainda, identificar esses pormenores, mas posso dizer que gosto muito do som de Ordinary Love.

dilema

"Que fez Deus antes de criar o Universo? Antes de criar os Céus e a Terra, criou o Inferno para quem faz perguntas como essa." 
Santo Agostinho.

14 novembro 2013

instante urbano XXIV

Hoje pela primeira vez entrei na loja "A Vida Portuguesa" no Porto, sito na esquina da Rua das Carmelitas e da Rua Galeria de Paris, e confesso-me desiludido. Também não tinha qualquer tipo de expectativa a não ser o seu reconhecimento público, publicado e mediático. Pensei que poderia ser surpreendido com artigos esquecidos pelo tempo, mas daquilo que pude ver apenas uma ou outra marca me activou os sensores da memória. Para além de um interessante leque de produtos alimentares com tradição em Portugal e da famosa pasta medicinal Couto, tudo o resto são lugares-comuns vintage que poderemos encontrar em tantos outros locais - feiras, comércio tradicional, arraiais, etc. Toda essa parafernália espalhada por dois amplos pisos e com uma imponente escadaria interior de ligação. Um espaço bonito para muita pouca coisa. O que terá existido lá anteriormente? Foram preservados alguns pormenores muito interessantes dessa outra vivência.
Saí de lá com aquela sensação de que alguém, não por acaso ser quem é, criou um conceito e por incrível que me pareça, conseguiu vendê-lo.

13 novembro 2013

mediascape: empreendedorismo

"Estamos muito apostados em constituir uma forte rede mentores"

O Ministro da Economia, António Pires de Lima, defendeu ontem na Assembleia da República que os alunos do ensino obrigatório deveriam ter uma disciplina chamada "empreendedorismo", afirmando que os jovens desde cedo devem ter conhecimentos que lhes permitam vir a ser empreendedores no futuro e permita ao Estado criar uma rede futura de empreendedorismo. O Ministro adiantou ainda que está em contacto com o Ministério da Educação na elaboração desse projecto. Não percebo muito bem o alcance do projecto, mas naquilo que a minha inteligência pode alcançar, parece-me uma parvoíce. Então anda o Estado há tantos anos (décadas) a esvaziar a Escola de matérias, de disciplinas e de tempos horários de determinados campos do saber e agora vem um ministro tecnocrata e CEO de empresas, clubes, associações, tascos e arredores, defender a introdução dessa disciplina!? O que se pretende com esse "Empreendedorismo"? Os miúdos vão aprender o quê? Como se junta dinheiro? Como se especula no mercado? Como se constitui uma sociedade por quotas ou anónima? Como se consegue o lucro? Enfim, uma ideia difusa, quando se sabe que muitos desses miúdos vão para a escola com fome e sem condições mínimas para conseguirem sucesso escolar. Querem transformar os miúdos de hoje, homens de amanhã sem conteúdo, sem conhecimentos abstractos, sem cultura, sem formação e unicamente interessados no dinheiro, no lucro e na especulação. Depois do impulso jovem, agora o empreendedorismo jovem, como se fosse possível transformar todas as crianças e jovens em empreendedores, em empresários, em mentores de grandes e lucrativos negócios. Não acredito, não vai acontecer, nem quero isso para as gerações que aí virão. Gostava sim que tivessem a liberdade de aprender aquilo que gostam, aquilo para o qual sentem vocação. Gostaria que a escola pública oferecesse conteúdos curriculares diversificados e com qualidade. Gostaria que os nossos filhos pudessem, caso assim entendessem, conhecer o Latim, o Grego, a Filosofia, o Direito, a Sociologia, a Antropologia. A condição de cidadão não se resume ao benefício da economia.

04 novembro 2013

ler

souto do vale

Num lugar inclinado e encosta de monte, perdido no meio de vegetação selvagem que vai vingando, encontra-se um pedaço de terra que nos calhou nas partilhas daqueles que nos antecederam. Terra fértil mas mal tratada, sem grande atenção ou cuidado, vai sendo mantida única e exclusivamente para dar chão aos portentosos castanheiros que ali habitam. É o pai que, por enquanto, se responsabiliza por tratar desse chão - entre outras tarefas, roçar silvas, mandar lavrar, enxertar as árvores, podá-las. Mas chega esta altura do ano, a dos santos todos e dos mortos, e lá vamos todos, ou quase todos, visitar essa terra e roubar-lhe as saborosas castanhas que lá crescem. Um dia ou dois de apanha, tarefa ingrata e cansativa para os adultos, mas momento de aventura e descoberta para as crianças, e lá regressamos nós à cidade derreados pelo peso do "ouro" transmontano.
Souto é um conjunto de castanheiros, Vale é nome de família local. Souto do Vale é topónimo do termo da aldeia. Pena é que nem todos os castanheiros aí existentes sejam do Vale.

banalização do mal

A banalização do mal é a ideia central do pensamento de Hannah Arendt, filósofa alemã e judia que, fugindo do nazismo, se radicou nos EUA. Proeminente pensadora do século XX, discípula de Martin Heidegger, foi enviada pelo The New Yorker a Israel para cobrir o julgamento de Adolf Eichmann, dirigente nazi que fugira para a Argentina e que os serviços secretos de Israel encontraram. Durante esse julgamento Hannah Arendt percebe como esse destacado membro do aparelho nazi não passava de um "ignorante" que não fazia mais do que obedecer a ordens e a leís. É partir desse momento que ela desenvolve o conceito da banalização do mal e o apresenta nos cinco artigos que escreve no jornal. Com isso e com a denuncia de que alguns membros das comunidades judaicas teriam sido coniventes com os nazis, a filósofa consegue provocar uma tempestade à sua volta e a indignação dos judeus. É esse período histórico e esse episódio em particular que podemos ver retratados no filme agora em cartaz. Muito interessante. Um filme que aconselho, numa sala vazia perto de si...

22 outubro 2013

21 outubro 2013

ecfrase evidente ou oculta?


Aqui há tempos um intelectual amigo enviou-me esta imagem, desafiando-me para fazer uma leitura antropológica, iconológica ou iconográfica, ou aquilo que eu bem entendesse. Guardei a imagem e hoje lembrei-me dela. A propósito de tudo e a propósito de nada, enquanto mastigava o livro de Umberto Eco (2005), "Dizer quase a mesma coisa sobre a tradução", fui buscar esta Ceia dos Caretos, obra original de Luís Calheiros. Relação entre as duas obras, nenhuma, mas a alegoria desta última ceia com estes fantásticos convivas remete-me para a realidade que experimentamos: Enquanto quase todos sofrem, uma dúzia de convivas banqueteiam-se nas gorduras do estado e fazem-no alegremente e mascarando interesses, por hora, ocultos.
A minha dúvida em relação ao título deste texto refere-se, essencialmente, à tipologia adequada, pois se a ecfrase evidente ou clássica pretende ser uma tradução verbal de uma obra visual já conhecida ou que se tenciona tornar conhecida, a ecfrase oculta apresenta-se como dispositivo verbal que pretende evocar na mente de quem lê uma visão, o mais precisa possível.

15 outubro 2013

mediascape: a liquefação do estado

A propósito desta notícia do Expresso que refere que a manutenção do ministro dos Negócios Estrangeiros no cargo já é mote para apostas em sítios especializados na internet, facto devidamente enquadrado na actualidade nacional, socorro-me de Zigmun Bauman (2005), que a propósito das questões de identidade afirma que assistimos à passagem dum estado sólido a um estado líquido da identidade. Pois parece-me mais do que razoável a analogia com o actual estado das nossas instituições de poder. Em Portugal assistimos, nos últimos anos e com maior incidência no passado recente, à total liquefação das instituições de poder e representação, governadas, dirigidas e coordenadas por agentes que estão num grau zero de governança e de respeitabilidade. Bauman fundamenta o seu pensamento: “A principal força motora por trás desse processo tem sido desde o princípio a acelerada «liquefação» das estruturas e instituições sociais. Estamos passando da fase «sólida» da modernidade para a fase «fluída». E os «fluídos» são assim chamados porque não conseguem manter a forma por muito tempo e, a menos que sejam derramados num recipiente apertado, continuam mudando de forma sob a influência até mesmo das menores forças”.
Nota de rodapé: como é oportuna e adequada a referência "até mesmo das menores forças"...

14 outubro 2013

notas de um bloco

(reflexão a propósito da actualidade de um partido de esquerda)
Em democracia não pode haver só vencedores. Há sempre os vencidos. É nesta condição de vencido que o Bloco de Esquerda (BE) se encontra desde 29 de Setembro. Isso por si só não é grave, pois essa mesma democracia se encarregará de alterar os dados do jogo, assim queira o BE.
O BE foi, a par do PSD, o grande derrotado destas eleições autárquicas. Ninguém, dentro ou fora do movimento, terá dúvidas em relação a isto. Por isso mesmo, as primeiras reacções da nossa coordenação política foram tão disparatadas. Perante tamanho rombo nos votos, na percentagem e nos mandatos autárquicos, João Semedo vem a público rejubilar com a tremenda derrota da direita e do governo. Errado. Senti-me envergonhado. Primeiro teria que reconhecer e voltar a reconhecer os péssimos resultados do BE e só depois, em nota de fim de página, então mostrar satisfação pela penalização que os portugueses infligiram ao PSD. Mas mesmo assim, todos conseguiram vencer autarquias, uns mais outros menos, e o BE nada.
A frustração é enorme, por várias razões, mas desde logo, porque este foi o primeiro momento em que os eleitores poderiam ter denunciado a governação da troika e dos partidos nacionais que a suportam. Mas assim não fizeram e depositaram o seu voto, a sua confiança nos mesmos partidos. Não percebo, mas não enjeito uma leitura: é que essa votação e na actual conjuntura só vem realçar a inutilidade do discurso do BE e dos demais partidos anti-troika. As pessoas assim querem, assim o merecem, assim o terão. Afinal de contas o que andamos a fazer e a dizer?! As pessoas não acreditam na nossa mensagem, ou pura e simplesmente já não nos ouvem. De que serve haver descontentamento, indignação e repulsa pelo que o governo e seus partidos andam a fazer, se depois esses sentimentos não se transformam em votos no BE? Os portugueses acharam melhor votar em branco ou nulo do que no BE. Mau demais. 
Outra das causas para esta frustração é a teimosia do BE em querer apresentar candidatos autárquicos em toda e qualquer esquina deste país. Está errado e passo a explicar porquê:
- É sempre a mesma correria, o mesmo frenesim para os funcionários do BE, a contactar, a cooptar, a recrutar, a organizar, a convencer nomes e listas, nos meses que antecedem cada acto eleitoral autárquico. A culpa não é deles, apenas dão seguimento àquilo que são as directivas vindas de Lisboa;
- Aceitação de indivíduos desconhecidos e sem passado conhecido de intervenção ou activismo de esquerda, cívico, associativo ou político;
- A verificação da inexistência de quadros políticos com formação em grande parte das estruturas locais e regionais;
- A incapacidade de gerar sinergias, ou compromissos, ou entendimentos com outras forças políticas, ou com movimentos de cidadãos independentes, apartidários ou meramente comprometidos civicamente;
- A constatação da desqualificação daqueles que se propõem ou ambicionam ser candidatos do BE;
- A inexistência de uma estrutura - orgânica, humana e logística - capaz de suportar tantas candidaturas. Com diferentes características, recursos e pessoas, cada candidatura local tem as suas idiossincrasias e especificidades que os serviços centrais jamais alcançaram, conheceram ou compreenderam;
- Tal como defendi e disse em 2005, tal como reforcei a ideia em 2009 e agora voltei a relembrar, não podemos, não devemos ter candidatos às autarquias que não tragam consigo mais valias políticas, capacidades crítica e de projecto, reconhecimento público. Não podemos, mesmo, ter candidatos a merecerem a confiança de 10, 20 ou 30 eleitores. É preferível ficar quieto, quedo e mudo. Será sempre preferível, porque menor danos causará ao partido reconhecer incapacidade de apresentar candidaturas por todo o país. Não poderemos continuar expostos a estas cíclicas humilhações;
Bem sabemos que é sempre depois dos erros, que se dão os maiores e melhores passos. Contudo, receio é que no fim, nada de novo aconteça e tudo fique mais ou menos na mesma. A atitude perceptível é o silêncio, de querer que o tempo se encarregue de ultrapassar este mau momento. Lamento se assim for, pois ao contrário da ilustre sapiência central do BE, as eleições locais são muito importantes para a capacidade de crescimento e fidelização da base social do partido. E depois convém não esquecer que dentro de meio ano teremos novas eleições, desta vez para o Parlamento Europeu, e infelizmente já não contaremos com o Miguel Portas.

10 outubro 2013

apareçam, conheçam...


de "lei seca" a "malparado"

Eu bem que estranhava o facto de o blogue de Pedro Mexia - Lei Seca - estar inactivo há tanto tempo. Por lá ia passando regularmente para ver se havia novidades e nada, apenas uma publicação impondo a "suspensão" da sua actividade. Deve andar muito ocupado, pensei eu. Afinal ele criou outro blogue e passou a publicar apenas aí, não avisando quem era cliente do Lei Seca. Foi num outro blogue - o Bibliotecário de Babel - que tive conhecimento deste novo sitio, o Malparado. Assim, já o coloquei nos "Atalhos Partilhados" para lá ir amiúde e para quem mais possa querer visitar.

30 setembro 2013

fim de ciclo

Tal como já aqui antevira, não fui eleito para a Assembleia Municipal de Bragança. O desafio adivinhava-se difícil, pois para além da fraca implantação do BE no distrito e no concelho, para além dos mais que certos erros na escolha dos protagonistas e na construção do programa eleitoral, foram cometidos vários erros estratégicos e a conclusão é que a mensagem não passou. Para além de tudo isto ao qual eu, pessoalmente, não refuto ou evito responsabilidades, fomos efectivamente a principal vítima da reforma administrativa das autarquias locais. Em Bragança mas também no restante território nacional. No caso concreto do concelho de Bragança, nunca desde 2005 conseguimos deixar de ser a força política menos votada, por isso com a redução substancial do número de freguesias no concelho, seriamos com naturalidade os primeiros a ser excluídos da Assembleia Municipal.
Estive a representar o BE durante dois mandatos (2005-2013) nessa Assembleia. Foi sem dúvida uma excelente experiência. Gostei realmente daquele ambiente de disputa partidária. Conheci muitas pessoas, das quais ganhei alguns amigos para a vida. Tive acesso a muita informação e a oportunidade de perceber como se gere um município. Fui protagonista inúmeras vezes, privei com pessoas que jamais imaginei conhecer (Adriano Moreira, Manuel Alegre, Vasco Lourenço, Francisco Louçã, entre outros), construí o meu espaço político e de intervenção cívica. Senti e percebi todos os anti-corpos e todas as animosidades que criei nalguns sectores mais reaccionários, mas foi engraçado. Sempre consciente da relação de forças presentes, sempre consciente da minha representatividade e apesar de todo o mundo que me separava de grande parte dos demais, fiz oposição leal e responsável. Agora acabou.
Sem grande precipitação e sem grande pressa, iremos reflectir sobre este resultado. Contudo, e como não poderia deixar de ser, assumirei desde o primeiro momento as minhas responsabilidades políticas. Assim, renunciei já ao mandato enquanto membro da Coordenadora Distrital do BE, assim como renunciei ao meu lugar de membro da Comissão Nacional Autárquica do BE, comissão essa eleita e legitimada pela última Convenção Nacional. Sendo assim, adquiro uma vez mais a condição de militante do movimento. Sempre disposto para novos desafios, sei que em breve eles surgirão.

conforto pretérito


28 setembro 2013

reflexão sobre campanha autárquica em Bragança

É já no remanso do lar que me encontro a escrever estas palavras. Tranquilo e satisfeito pela jornada realizada durante as duas últimas semanas. Percorremos o concelho de lés-a-lés, falando com todos aqueles que nós quiseram ouvir, trocando impressões e ouvindo as opiniões (por vezes desagradáveis) e reclamações dos cidadãos de todas as 114 aldeias que compõem o município. De todas essas conversas, destaco pela positiva o primeiro comício que realizámos no espaço rural. Aconteceu em Gondesende, onde tínhamos cerca de 30 pessoas à nossa espera, onde temos um membro eleito desde 2009 e onde repetimos a candidatura à Assembleia de Freguesia. Temos alguma expectativa quanto a esse resultado. Pela negativa, destaco as frequentes queixas relativas à água e em relação ao saneamento básico, que ainda não cobre a totalidade do concelho. Percebemos, outra vez, que o que as pessoas querem é festa, som, confusão e brindes - e nem importa o quê: canetas, isqueiros, t-shirts, lápis ou canetas, bonés. Qualquer coisa serve, menos ideias e palavras. Aquilo que humildemente teimamos em partilhar é isso mesmo; um programa com ideias e projecto. Infelizmente, mede-se a probabilidade de vitória ou derrota, consoante a dimensão das caravanas de cada partido.
É sempre um prazer viajar tranquilamente pelas estradas e ruas que ligam as nossas aldeias e apreciar as paisagens fabulosas que constituem o nosso território. É sempre um prazer imenso chegar ao final da jornada de cada dia e sentar num e noutro restaurante a saborear as magníficas carnes e o bom vinho. São sempre dias cansativos, mas dos quais guardarei boas recordações. Sem dúvida.
No que à Assembleia Municipal diz respeito, lista que uma vez mais encabeço, a nossa expectativa é podermos manter o mandato que temos já desde 2005. Algo que será desta vez mais complicado, não só pelo sentimento de descrédito que todos os partidos sofrem, como também devido à reforma administrativa das autarquias locais que, no caso de Bragança, fez reduzir de 49 para 39 freguesias. Portanto, precisaremos de mais votos para conseguir cada mandato. Em relação à Câmara Municipal, em consciência não poderemos querer mais do que melhorar a nossa votação, pois a eleição implica uma votação muito acima daquilo que é a nossa possibilidade. Mas esperemos pela justiça dos  eleitores.
Pelo que pude perceber durante estes dias de campanha e no terreno, o PSD manterá o domínio na autarquia e isto porque, em minha opinião, o PS não só escolheu o candidato errado e uma lista problemática, como também fez uma campanha errada, tendo apostado nas novas tecnologias e num certo elitismo intelectual - jogos virtuais, facebook, podcast, twitter, etc., assim como uma assessoria de qualidade duvidosa, bem ilustrada pela publicação de sondagens inexistentes e com fichas técnicas cheias de erros técnicos básicos. Foi precisamente esse episódio quem derrotou definitivamente essa candidatura, pois o Jornal Nordeste, na sua edição de 24 deste mês, faz da primeira à última página um cerrado ataque à estratégia escolhida pelo PS. Quero ver qual será a leitura e as respectivas consequências políticas que os seus actuais responsáveis farão dessa derrota que se antevê clara e até, possivelmente, estrondosa.
Mesmo aceitando essa pérola da sabedoria popular que diz que prognósticos só no final do jogo, eu arriscaria dizer que o resultado para a eleição do executivo camarário será o seguinte: PSD 3, PS 2 e Humberto Rocha (independente) 2. A dúvida poderá residir na eleição do segundo vereador do independente ou a eleição do quarto vereador para o PSD e, assim, este partido conseguir a maioria absoluta na vereação.
É com alguma expectativa que aguardo a noite de Domingo, pois para além da relativa incerteza quanto ao resultado final, também o meu futuro próximo estará em jogo. Certo para mim é que o nosso resultado trará inevitavelmente consequências políticas. Cá estarei eu para as assumir.

Pós-texto:
Em jeito de declaração de interesse, manifesto o desejo que o meu amigo Duarte Diz Lopes, coligação PSD/CDS (como custa escrever estas siglas e aceitar a vitória desses partidos) vença em Vinhais e que em Vimioso vença o PS, lista onde habita o meu amigo Paulo Lopes.

13 setembro 2013

pré-campanha

Intervenção Comício Praça da Sé - Bragança

9 de Setembro de 2013 - 21 horas

Luís Vale
(candidato à Assembleia Municipal de Bragança)

Boa noite,

Nos últimos dezasseis anos a gestão autárquica do nosso município esteve entregue a um único partido, ao PSD. Foram quatro mandatos de uma maioria soberana e legítima, porque democraticamente eleita e por isso o Bloco de Esquerda respeitou-a e foi leal para com essa decisão dos homens e mulheres de Bragança.

O Bloco de Esquerda organizou-se e apresentou-se ao eleitorado local pela primeira vez em 2005. Elegemos um membro para a Assembleia Municipal e repetimos essa eleição em 2009. Procurámos, ao longo destes dois mandatos, apresentar ideias e projectos que fossem contributos para o bem estar das nossas populações e para o desenvolvimento do nosso concelho. Esse foi desde o primeiro momento o nosso propósito, o nosso compromisso com os eleitores. Responsavelmente, fomos oposição aos executivos camarários e tivemos toda disponibilidade para encontrar as melhores soluções para Bragança.

Na Assembleia Municipal, sempre com consciência das relações de forças presentes, trabalhámos com todos, concordando, discordando, propondo, sugerindo, votando contra ou a favor, sempre com a convicção de que essas atitudes eram, a cada momento, a melhor decisão. Trabalhámos em comissões temáticas e de especialização com verdadeira motivação e vontade de contribuir. Trouxemos à Assembleia Municipal propostas, das quais gostaríamos de destacar:

- A luta contra a privatização da água e a denúncia da participação na empresa supra-municipal ATMAD. A este propósito o grande debate, em sede de Assembleia Municipal de Bragança, sempre foi a construção da barragem de Veiguinhas e aqui, o BE, para lá de ser a favor ou contra esta opção deste executivo, sempre questionou a não existência de outros projectos alternativos e a teimosia na inevitabilidade da opção Veiguinhas. Em dois mandatos, em oito anos nunca foi apresentada outra solução e todas aquelas que surgiram por iniciativa de terceiros foram liminarmente ignoradas;

- A construção de um Plano de Ordenamento do Parque Natural de Montesinho que fosse um instrumento ao serviço do equilíbrio e da coexistência dos humanos num espaço natural e protegido e não um espaço de proibição, interdição ou restrição. Convém relembrar que esse território, essa paisagem agora protegida, foi construída pelos homens e mulheres que a habitaram ao longo de gerações e gerações sem qualquer tipo de constrangimento administrativo. Portanto, se um dia foi possível transformar esse território num ambiente protegido por lei, isso deveu-se única e exclusivamente ao saber, ao conhecimento e à experiência dos seus habitantes. Não se entendem todas as limitações agora em vigor;

- A procura de um melhoramento da prática democrática, através daquilo que entendemos ser um dos ideais democráticos e republicanos - a participação cidadã. A criação de uma metodologia de orçamento participativo foi um caminho que iniciamos aqui em Bragança. Pena é que o executivo camarário não o tenha entendido e optado. Foi a nossa vida quotidiana quem perdeu qualidade e não pôde beneficiar do contributo de todos aqueles que vivem e experimentam tudo aquilo, o melhor e o pior, que a cidade e o concelho de Bragança oferecem. Lamentamos;

- Naquilo que diz respeito ao espaço urbano, sempre criticámos o crescimento desenfreado do perímetro urbano e a permanente vontade de expandir a urbanização para locais limítrofes, com o único propósito da voragem de licenças e taxas, ao mesmo tempo que se abandonou e negligenciou o centro e zona histórica da cidade. Olhemos à nossa volta e veremos como o coração da cidade foi, ao longo destes 16 anos, perdendo vida, dinâmica e até a razão de ser. Esperamos que seja ainda possível reverter esta situação. Por isso lutaremos enquanto aqui estivermos;

- Por falar em cidade e no concelho de Bragança, o paradigma deste ciclo que agora termina foi a obra - equipamentos, infra-estruturas, estruturas, espaços públicos, etc. - mas a verdade é que depois desse longo período, o balanço possível é que de facto a cidade é outra, foram construídos excelentes equipamentos, por exemplo, as escolas e os centros escolares, os museus, os centros de interpretação, o teatro municipal. Mas tudo isso de nada servirá se não houver pessoas, se não houver alunos, se não houver públicos. Mais, num município onde se investiu tanto em betão e ferro, há aldeias, há freguesias e até locais na cidade que, em pleno século XXI, carecem de saneamento básico. Inaceitável;

- Estivemos também contra o encerramento de serviços públicos na nossa região e, neste momento, queremos destacar a denúncia que, desde o primeiro instante, fizemos do encerramento de Centros de Saúde, de SAPs (serviços de atendimento permanente) e das várias valências hospitalares. Sempre nos opusemos ao afastamento e à centralização dos serviços públicos de primeira necessidade para os cidadãos, sob o pretexto de qualquer racionalidade financeira ou económica;

- No tempo em que surgiram como cogumelos por todo o país as empresas municipais, também em Bragança se aderiu à moda e constituíram-se duas participações. O BE sempre desconfiou dos reais propósitos destas duas empresas. Uma foi o matadouro que apesar do discurso sempre optimista e positivo deste executivo, nunca conseguiu o seu propósito e os seus objectivos. Hoje está à venda e sem qualquer interessado na sua aquisição ou exploração. A outra foi o Mercado Municipal que, para além de ser um verdadeiro elefante de betão, nunca foi, na sua essência um espaço comercial. Serve uma quantidade de serviços e foi sempre apresentado como um espaço moderno e capaz de dar resposta à modernidade dos hábitos de consumo. Mentira e para além de ter sido a causa da destruição do único e verdadeiro Mercado Municipal que existia aqui ao lado na Praça Camões, foi a empresa extinta e remunicipalizada. Afinal também aí o BE teve razão ao opor-se;

- Mais recentemente fomos obrigados a debater e a decidir a reforma administrativa das autarquias locais. Como sabem o BE sempre se opôs a essa reforma, pois se por mais não fosse, ela não resolveria qualquer problema às finanças nacionais e só viria prejudicar a experiência e a prática democráticas existentes;

Com a aproximação a um novo tempo e processo eleitoral, é com este património construído, é com esta intervenção cívica e política que nos apresentamos aos homens e às mulheres de Bragança. Para que possam fazer a avaliação da nossa participação e do nosso contributo para as suas vidas. Seremos, uma vez mais, protagonistas deste processo eleitoral em Bragança e partimos para essa nova jornada com vontade e optimismo no futuro da nossa terra. Seremos, agora mais do que nunca, alternativa às propostas e à gestão autárquica que até aqui tem existido.

É por isto que entendemos que em 29 de Setembro o voto necessário, o voto útil será nas listas do Bloco de Esquerda. Queremos continuar a ter voz na Assembleia Municipal, nas Juntas de Freguesia e também no executivo camarário. Queremos agir, queremos agir bem, queremos agir agora.

Obrigado.

alguns momentos desse comício

(actuação dos Klipe no início e final do comício)

(intervenção de Luís Vale, candidato à Assembleia Municipal)

(intervenção de Paulo Martins, candidato à União de Freguesias de Sé, Santa Maria e Meixedo)

(intervenção de Gil Gonçalves, candidato à Câmara Municipal)

(intervenção de Catarina Martins, Coordenadora Nacional)

04 setembro 2013

Instante urbano XXIII

Numa destas noites de final de mês de Agosto, estava com um amigo a beber um valente e bonito Gin Tónico, numa das inúmeras esplanadas da cidade de Bragança, quando fomos abordados por um jovem rapaz que, com educação, nos pediu 40 cêntimos para algo que não percebi, nem quis perceber. Tínhamos em cima da mesa algumas moedas do troco recebido. Estendemos os tais cêntimos ao rapaz que, agradecendo, se afastou até o perdermos de vista. Mas foi por pouco, pois passados alguns minutos, regressou com um saco plástico na mão, chegou-se à nossa mesa e pousou o saco, que dentro tinha um pão de trigo com um quilograma. Segundo pude perceber, através da sua difícil dicção, era a retribuição pelo facto de lhe termos dado aqueles cêntimos. Ainda tentamos recusar, mas ele tal como chegara, afastou-se, não nos dando hipótese de qualquer reacção.

mediascape: comércio tradicional

Hoje, dia 4 de Setembro, o Jornal Público deu destaque (páginas 2, 3 e editorial) aos dados relativos ao comércio tradicional em Portugal. Sem grande euforia e de forma cautelosa até, diz-se que o peso desse comércio cresceu, no primeiro semestre de 2013, para os 15,4%. Estes dados são considerados um sinal de como o mercado se está a transformar.
Custa-me dizer mas não me parece que seja possível, a curto trecho, uma alteração substancial dos hábitos de consumo dos portugueses. Por princípio nada tenho contra as grandes superfícies, aliás, não consigo viver sem elas. Não gosto é da voragem centrífuga dos monopólios económicos e, em Portugal, é no sector da distribuição que podemos encontrar os grandes empresários e o domínio da quase totalidade do mercado (cerca de 85%). Como alguém dizia, o retrato da nossa economia e do nosso empreendorismo faz-se com a percepção de que os dois maiores empresários portugueses são merceeiros.
Apesar de céptico, fico contente com esta notícia e gostaria muito que esta tendência se consolidasse e pudesse mesmo aumentar. Quanto mim, lamento não conseguir viver sem ser cliente do Sr. Belmiro e do Sr. Francisco. Quem sabe um dia.

14 agosto 2013

sou da diáspora

Sou da diáspora.
Sei quem sou e de onde venho.
Nunca tive qualquer vergonha do berço que me viu crescer.
Sinto os laços que me fazem pertencer a essa imensa comunidade.
Convivo sã e alegremente em todos os reencontros.
Incomoda-me o folclore excessivo.
Detesto o atrevimento de algumas manifestações.
Não tolero o descaramento dos que se julgam espertos.
Sou da diáspora.

Uma vez mais é o enorme Rentes de Carvalho quem melhor cristaliza em palavra alguns destes meus sentimentos:

Desmiolado, indiferente às conveniências, dinheiro no bolso, o emigrante tem o mau hábito de no mês de Agosto visitar as berças e, com os seus barulhentos costumes, música pimba, dialecto franciú, ir  perturbar o sossego da boa gente que alegremente dispensaria o confronto anual com aquela desagradável versão de si própria.
O português tem isso: se julga pertencer à classe média baixa, média média, média alta, superior ou olímpica, é logo atacado de amnésia e nojo, os outros tornam-se-lhe gentinha, "pobrezinhos" , passa a sofrer da mais miserável forma de racismo e discriminação: a que se volta contra aqueles a que pertence.
Vou lendo aqui e ali queixumes e desdéns, sugestões de que o emigrante vá passar férias a outro lado, não perturbe a serenidade, não venha com o seu barulho e jactância recordar a simpleza e condição humilde de que todos descendemos, mesmo os que se julgam nobres e melhores. Que o não são. Julgam-se.

José Rentes de Carvalho, 7 de Agosto de 2013.

13 agosto 2013

lido...

The ethnographic text will be a text to read not with the eyes alone, but with the ears in order to hear "the voices of the pages".
(Stephen A. Tyler, 1986:136)

15 julho 2013

mediascape: mafiosidades de estado

As notícias que nos chegam do outro lado da fronteira são assustadoras. Um antigo tesoureiro do PP acusa o primeiro-ministro de ter recebido vários milhares de euros, em dinheiro vivo, ao longo dos últimos anos, numa média que rondaria os dois mil euros por mês de dinheiro sujo, proveniente de empresas e militantes. O jornal "El Mundo" publica msn trocadas entre o primeiro-ministro e o tesoureiro em que aquele pede silêncio a este. A oposição pede a sua demissão mas ele recusa. Diz que está de consciência tranquila. Uma trapalhada, uma vergonha. Foi e é em Portugal, foi no Luxemburgo, foi na Itália, é em Espanha... que bem vai a governação por esta Europa fora. 
Algumas notícias acerca deste caso:
http://tinyurl.com/ph4k9do
http://tinyurl.com/o8j56nr

12 julho 2013

rescaldo de uma paisagem esvaziada

Naquilo que parece ser, finalmente, o rescaldo do maior incêndio que há memória no distrito de Bragança e que afectou os concelhos de Alfândega da Fé, Torre de Moncorvo, Mogadouro e Freixo de Espada à Cinta, deixando um rasto de destruição e um cenário jamais imaginado, convirá também reflectir um pouco acerca da realidade do território em causa: sua gestão e seu ordenamento. Não são questões que digam respeito apenas ao presente, ou sequer a um passado recente, são problemas estruturais que estão mais do que identificados, estudados, diagnosticados, mas estão ainda sem uma terapêutica estratégica que procure minorar tais situações. É confrangedor assistir às declarações dos responsáveis pelas autarquias, das protecções civis, das direcções regionais dos ministérios da agricultura e do ambiente. Já não há paciência para o mesmo discurso, os mesmos lugares comuns, a mesma atitude reactiva e nunca preventiva. É preciso ir além do elogio aos valentes bombeiros, é preciso ir além do lamento e do infortúnio, é preciso evitar a promessa da contabilização dos estragos e das ajudas que hão-de vir. Para quando uma atitude planeada, pensada, reflectida, com meios e recursos capazes de, a curto, médio ou, que seja, a longo prazo resolva este drama que ciclicamente experimentamos?
Nestes momentos seria interessante ouvir alguém referir-se às causas que potenciam incêndios como este. O abandono dos terrenos agrícolas, a falta de gados, o abandono das práticas de cultivo e de manutenção dos terrenos, a introdução de vegetação não-autóctone, entre outros, são factores que permitiram o crescimentos de matos, muitas vezes, até bem perto das próprias povoações. Há um pequeno exemplo que recordo e que me parece paradigmático desta situação: toda a gente cortava as silvas que cresciam nas hordas dos lameiros, hortas e demais terrenos. Eu próprio cheguei a fazer isso, tarefa que não só salvaguardava os terrenos, impedia o fogo de aí ganhar força, como também libertava os caminhos de acesso. Quem faz isso ainda? Olhemos para a paisagem que circunda as nossas aldeias e vejamos o triste espectáculo dessas silvas e demais vegetação selvagem a ocupar o lugar que outrora floria ou era repasto para todos os gados. Por falar em caminhos, numa das reportagens televisivas desde uma dessas comunidades afectadas por este incêndio, uma idosa reclamava, pois os bombeiros e os militares em vez de andarem a combater o fogo, andavam a abrir caminhos de acesso até perto do fogo. Raciocínio rápido e compreensível de quem vê o seu mundo ser consumido pelas chamas, mas ao mesmo tempo, uma crítica oportuna e reflexiva, pois na verdade esses caminhos deveriam ser parte integrante daquilo que é a prevenção e não parte precipitada da estratégia de reacção. Fiquei com aquelas sábias palavras.
A aflição de todos aqueles que sentem o poder implacável do fogo destruir-lhes o trabalho de toda a vida. O abismo de tudo perderem consoante a vontade do vento. A impotência e a consciência de nada poderem fazer, serão sempre o reflexo de uma atitude passiva e expectante, negligente e egoísta daqueles que vão habitando o nosso território. Uma vez mais, a própria população só reage quando sente aquilo que é seu em perigo. Admiram-se sempre pela rapidez e velocidade com que as chamas chegam e chamuscam os telhados, queimam os fios da luz e do telefone, assam os seus animais de estimação e de sustento. Durante o restante ano ninguém se preocupa com o mato que vai crescendo sem lei e vai envolvendo as aldeias, ninguém se preocupa com as reservas de lenha que as pessoas teimam em juntar dentro dos povoados, ninguém reclama pela negligente gestão dos baldios, ninguém se opõe à introdução ad-hoc de espécimes vegetais estranhas à flora local. Enfim, tudo razões para vivermos sempre com o coração aflito e com o espírito nas mãos de um santo qualquer. Aquilo que aconteceu este ano foi consequência de vários factores naturais, é verdade, mas foi e será sempre o resultado da boa ou má gestão do território, da boa ou da má ocupação dos solos, da presente ou ausente política administrativa e, principalmente, da consciência ou da inconsciência de tudo isto.
É muito triste uma paisagem assim.

04 julho 2013

garotices

Os recentes acontecimentos na governação de Portugal são inacreditáveis. Se nos contassem que isto poderia acontecer, não hesitaríamos a negar essa eventualidade. Estes dois senhores, donos dos dois partidos da coligação que nos governam, são uns irresponsáveis e deveriam ser, desde já, responsabilizados pelos enormes danos que a sua palermice causa ao país. Mais, o espectáculo que nos estão a oferecer é de tal forma ridículo que não percebo como o país e as suas instituições não interrompem a sua actuação. Os dois fazem-me lembrar os meus tempos de criança em que brincava com os outros miúdos, mas quando a brincadeira não me agradava, chateado dizia: "- Assim não brinco mais!" Mas brincava e depois voltava a dizer que não, mas brincava. E os dias passavam-se assim. Esta trágico-comédia que em vez de nos divertir só nos exaspera, relembra-me também a amargura que ainda sinto com o momento em que os portugueses foram chamados a escolher e votaram nestes desqualificados. Para meu contentamento, ou pelo menos para engano próprio, prefiro pensar que esses portugueses merecem cada acto falhado destes senhores. Por fim, temo que se formos nova e antecipadamente chamados a escolher novos interpretes escolhamos algo parecido e isso será destruidor.

01 julho 2013