---------"Viajar, ou mesmo viver, sem tirar notas é uma irresponsabilidade..." Franz Kafka (1911)--------- Ouvir, ler e escrever. Falar, contar e descrever. O prazer de viver. Assim partilho minha visão do mundo. [blogue escrito, propositadamente, sem abrigo e contra, declaradamente, o novo Acordo Ortográfico]
06 janeiro 2015
04 janeiro 2015
acabamentos
Ainda que falte algum tempo para o dia em que será folheado pelos leitores, algo que só acontecerá lá para o final do mês de Março, mostro-vos o resultado gráfico daquilo que me ocupou parte do tempo durante os últimos três anos e quase na totalidade nestes últimos meses de 2014. A Ana Rita está a fazer um excelente trabalho gráfico e porque me acabou de enviar estas primeiras imagens, inacabadas, e eu estou contente com o resultado, aqui o partilho...
02 janeiro 2015
inevitabilidade
A criança, a minha criança, que ainda há bem pouco tempo era um bebé, deixou de me chamar por "papá", trocando esse querido vocábulo pelo ordinário "pai". Sei que irei ter, para sempre, saudades.
01 janeiro 2015
novo ano para vida velha
Não sou dado a grandes sentimentalismos perante a perspectiva de cada um dos anos "novos" que se vão precipitando uns atrás dos outros, nem sou dado a idealismos, preferindo o pragmatismo da real existência quotidiana, por isso, dou cada vez menos importância a estas time-marks que nos organizam a vida. Desejo cada vez mais poder passar esses dias com os meus, mas isolado do resto do mundo, num qualquer cabeço de monte isolado. Claro que, egoista, fico feliz e satisfeito por continuar a contar cada um dos anos cronológicos, mas sei que será, continuará a ser a mesma e velha vida. Ainda bem.
Joe Cocker R.I.P.
Acabo de saber da morte de Joe Cocker. O facto de não olhar para a TV, a não ser para ver algo que já espero e o facto de ter estado algo isolado da rede, permitiu-me estar ignorante do seu desaparecimento. Não sou grande admirador da sua música ou voz, mas algumas das suas músicas fazem parte do meu imaginário juvenil e estiveram presentes durante algum tempo. Lamento.
19 dezembro 2014
pinheiro de natal
Tenho dado comigo a olhar repetidamente para o pinheiro de natal que, ano após ano, continuamos a montar e a colocar numa das esquinas da sala onde todos estamos. Há quem goste desta época - eu também gosto - e se sinta confortado pela árvore devidamente ornamentada e iluminada - eu também não. Este ano, a nossa, que já nos acompanha há doze natividades, numa existência que podemos adjectivar de eterno retorno, ganhou renovada vida. Nesse dia o entusiasmo e a dedicação da prole foram notáveis. Curiosamente e para infelicidade da própria árvore, todos os anos esse entusiasmo passa rapidamente e, desde esse dia, ela ali está desprezada, toda enfeitada mas apagada e sem a atenção e centralidade que gostaria. Não sei como é na outras casas, mas pela indiferença que sinto nas minhas crianças, desconfio que afinal quem gosta mesmo de ter o pisca-pisca colorido a dominar o ambiente são mesmo os adultos. Não houvesse crianças e eu garanto-vos que deixaria de ter o trabalho de a montar, decorar, iluminar e, depois, desmontar, empacotar e armazenar. Ficaria para sempre sepultada num qualquer canto da garagem sob um manto crescente de poeiras.
01 dezembro 2014
30 novembro 2014
não sabia...
«O dromedário tem o olho do cu mais elegante de todos os animais que conheço, nada tem que ver com a carne rosada e berrante do recto que se vê num cavalo. E produz a mais delicada bosta - uma forma elíptica, muito perfeita, que depressa endurece ao Sol. A forma e a textura de uma noz-pecã». (Bruce Chatwin, in Granta nº4)
12 novembro 2014
baú da memória VI
Inscrito na Pedra...
É uma das recordações que a custo e só muito vagamente consigo alcançar, mas recordo um dia de Páscoa, algures na minha adolescência, em que na missa de Páscoa, foi feita com pompa e alguma circunstância a inauguração do altar da igreja. Tal como acontecia todos os anos, a missa da Páscoa era das mais concorridas e a igreja estava repleta de gente. Naquele dia, excepcionalmente, a celebração eucarística foi presidida por um Bispo e concelebrada pelo pároco local. Recordo que a determinado momento, depois de devidamente abençoada a pedra do novo altar, esse Bispo proferiu algumas palavras acerca desse mesmo altar e que disse que estava inscrito na própria pedra o registo daquele momento de inauguração. Fiquei muito curioso, pois mesmo estando muito próximo do altar, do lugar onde me encontrava não vislumbrava qualquer inscrição. Quando a missa terminou, deixei as pessoas sair do templo e os padres desaparecerem na sacristia, para averiguar e encontrar tal inscrição. Desloquei a decoração da mesa, revirei os linhos que a cobriam, mas nada. Mistério.
À hora de almoço, em casa da Avó, reuniu-se a família e entre ela, estavam também, o Bispo e o Padre que tinham dito a missa. Ingénuo, resolvi perguntar pela inscrição. Como resposta obtive apenas um sorriso benevolente. Não esqueci, mas a inquietação foi, naturalmente, desaparecendo.
Até que chegado a 2014 e tratando da história de vida de D. Manuel António Pires que, a propósito, está a concluir-se; encontro o texto da intervenção acerca dessa inauguração do altar da igreja. É um texto pequeno em que é feita uma explicação da centralidade e sacralidade do altar e se apresentam as razões da atracção do homem crente para o altar: "Adoração – Acção de graças – Propiciação – Satisfação". Refere também o motivo da minha inquietação... "Num pergaminho, embutido no altar, constam todos estes dados". Agora sei que "pergaminho" foi a razão do meu sobressalto. Agora sei também que isto aconteceu no dia 19 de Abril de 1987.
09 novembro 2014
28 setembro 2014
popular problems
Só ontem o fui comprar. Só o hoje o estou a ouvir, repetidamente. Gosto, apesar de uma ou outra música me parecerem desalinhadas. Deve ser má impressão minha. Tenho que ouvi-lo mais vezes.
Tal como sempre, muito bom.
Tal como sempre, muito bom.
22 setembro 2014
mesa redonda
Em S. Joanico e a debater "mundo rural como fonte de conhecimento científico". Registos acabados de chegar...
Para ver mais fotografias do festival Sons & Ruralidades, visite aqui a página da AEPGA.
16 setembro 2014
festival sons & ruralidades
Eu vou lá estar para conhecer o festival que já vai na sua nona edição e eu nunca participei, e para participar numa mesa-redonda subordinada ao tema "mundo rural como fonte de conhecimento científico" e onde se pretende «a partir de exemplos concretos demonstrar a importância deste objecto e/ou meio de estudo para diversas áreas de investigação, pondo a hipótese de se tratar de um caminho mais sustentável e integrado do que algumas das soluções que têm sido mais frequentemente apontadas, como o turismo ou o apoio ao empreendedorismo» (organização). Será no próximo dia 20, às 15 horas, na aldeia de S. Joanico. Para mais informações visitem o site da AEPGA (aqui). Apareçam.
15 setembro 2014
LER do trimestre
Já cá tenho a revista de Setembro, (Outubro e Novembro). Com muito bom aspecto para ser consumida nas próximas horas e dias. Contudo, continua a saber a pouco...
feira do livro do porto
Aproveitei o fim-de-semana para ir conhecer a "nova" feira do livro da Invicta. Sendo um visitante e comprador assíduo, era com grande expectativa que aguardava esta edição, esta nova vida da feira. Sem conhecer os pormenores e os bastidores de toda a incompatibilidade entre a APEL e a CMP, foi com satisfação que vi a iniciativa da Câmara do Porto ao assumir a organização deste histórico evento da cidade. Depois a feliz escolha do local, os jardins do Palácio de Cristal, que são para mim e sem qualquer dúvida o melhor local para acolher um certame deste género. A ideia de ter levado a feira, durante alguns anos, para a Avenida dos Aliados foi peregrina e esse local, apesar de central, é um local inóspito, sem sombras, sem equipamentos de apoio, sem lugares sentados, pouco convidativo e, não menos importante, sem estacionamento. Muito pouco propício para o passeio, para a contemplação e para a leitura.
Foi uma rica tarde que a família passou entre livros, actuações de rua e passeio pelos espectaculares, sombrios e frescos jardins do Palácio de Cristal. Mesmo não tendo encontrado nada de muito interesse para mim e por isso não ter comprado nenhum livro, gostei muito de perceber as diferenças nos expositores: Muitos livreiros, pequenos livreiros, muitos alfarrabistas e de vários locais do país, grande variedade editorial e gráfica.
Para além de esperar que assim volte acontecer, acho que durante os próximos dias ainda lá vou outra vez, talvez numa hora em que haja menos confusão. É verdade, dizem-me que a LeYa não estava lá. Não lhe senti a falta e assim está bem.
08 setembro 2014
inquietação existencial
Como os tempos mudam? É a questão que me ocorre ao ler este excerto, propositadamente descontextualizado, de uma carta datada de meados da década de sessenta do século XX. Segundo informações posteriormente recebidas, a inquietação teria mesmo razão de ser, pois pouco tempo depois o autor abandonou o sacerdócio e terá casado, quiçá, com uma das bailadeiras...
fortuna?
Caído de um livro muito velho, que ao se folhear permitiu encontrar várias preciosidades como esta. Terá sido uma fortuna no início do século XX? Terá o seu proprietário resgatado o seu valor? Ou terá ficado esquecido nas páginas desse livro? Não adivinho a resposta, mas gostei de imaginar que esse valor poderá ter ficado todo este tempo a render no fundo de um "cofre" qualquer. Fortuna.
13 agosto 2014
a verdade histórica de um retrato
Quando o Papa João XXIII convocou, através da Bula «Humanae Salutis», o Concílio Vaticano II, no dia 25 de Dezembro de 1961, iniciou um processo que levaria, nos meses e anos subsequentes - o Concílio terminaria no dia 8 de Dezembro de 1965 - milhares de membros da Igreja até Roma e à cidade do Vaticano. Entre esses muitos homens do Clero que para aí se deslocaram, estava D. Manuel António Pires, então bispo de Silva Porto, Angola. Viajou para Roma, no fim do mês de Setembro de 1962, como membro integrante da comitiva portuguesa que iria participar no conclave. Ao todo participaram 39 elementos do clero português. D. Manuel viajou de Bragança até Madrid na companhia de D. Abílio Vaz das Neves, então bispo da diocese de Bragança-Miranda, e no carro desta diocese. De Madrid foram de avião até Roma. Com estes dois prelados viajaram também o secretário de D. Manuel, o padre Manuel Vale e seu irmão Francisco Vale.
Os trabalhos do Concílio só iniciaram no dia 11 de Outubro de 1962, o que proporcionou alguns dias de descanso e de turismo pela cidade. Foi também nesses primeiros dias que D. Manuel foi recebido, em audiência, pelo Papa João XXIII. Desse singular e curto momento ficou o registo fotográfico, onde podemos verificar que nessa reunião participaram também, pelo menos, mais dois sacerdotes.
Imagem 1 - Pontifícia fotografia tirada no fim da audiência, no dia 1/10/1962. Para além de João XXIII e D. Manuel, podemos ver também o Padre Francisco Vale (do lado direito da fotografia).
No regresso a Portugal e a Bragança e depois da curta estadia no Vaticano, o padre Francisco Vale trouxe consigo um exemplar dessa fotografia. Mas pelos vistos, por mais que olhasse para ela, não estava satisfeito com a sua qualidade e, principalmente, com a disposição dos seus elementos. Por isso, mesmo antes de partir para o Rio de Janeiro onde foi passar uma temporada, resolveu intervir e para tal, solicitou os serviços do fotógrafo Ricardo, em Bragança. O que pretendia era uma manipulação, em que ele passasse para o lado oposto da fotografia, trocando de posição com o outro sacerdote e, assim, ficar ao lado do Papa. Para além disto, escreveu no verso desta fotografia:
«na fotografia do Sr. Bispo devem ficar em vermelho: a capa, o laço e a faixa, botões e cordão; em cor de ouro: cruz peitoral e seu cordão, anel.»
O referido profissional tratou de dar resposta ao solicitado e enviou, via Correio, o resultado para o Pe. Francisco. Só que este não ficou nada agradado com o resultado, pois continuava longe do Sumo Sacerdote. Voltou a escrever ao fotógrafo, mas desta vez num tom mais acintoso, reafirmando a vontade de constar para a posteridade ao lado do Papa. O fotografo Ricardo, acossado pela carta recebida, rapidamente tratou de proceder à manipulação da fotografia. O resultado dessa montagem foi enviado para o Brasil, para aprovação do Pe. Francisco. No verso dessa "fotografia" manipulada, escreveu:
«o tapete será retocado para ficar uniforme, assim como a cruz será disfarçada e ficar apenas a porta»
Imagem 2 - Ensaio da montagem efectuada, em que o Pe. Francisco aparece já do lado esquerdo da imagem, mas ainda sem os referidos retoques e acabamentos.
O trabalho estava concluído e o Pe. Francisco agradado, agora sim, pois estava, finalmente, no sítio certo. Muito rapidamente tratou de reproduzir essa fotografia e em vários tamanhos, distribuindo-as pela sua família. Enfim, conseguiu oficializar a sua versão da audiência papal, que aconteceu no longínquo dia 1 de Outubro de 1962.
A única fotografia conhecida desse momento até ao presente, imortalizada na parede de um salão nobre da casa familiar e em rica moldura dourada, foi essa em que aparece do lado direito de João XXIII e do lado esquerdo da fotografia.
Imagem 3 - Fotografia final, depois da manipulação e das alterações solicitadas pelo Pe. Francisco. Único exemplar conhecido durante todo este tempo.
Só agora, em 2014, e quando se procedeu à derradeira limpeza dos seus aposentos, foi possível encontrar a documentação (fotografias e correspondências), que permitiu conhecer a verdadeira história de uma simples fotografia.
12 agosto 2014
o catedrático da uniformidade
«O jardineiro, como aqueles de que falo, não se dá bem com a luxúria das flores, os seus peristilos e estames, a sua fecundação e até o seu perfume. O jardineiro é um asceta da tesoura, um catedrático da uniformidade. Talha a sebe como quem folheia palimpsestos. Desvia os olhos da carnação da rosa; sente-se bem com as folhas mortas e os galhos secos.» (Agustina Bessa-Luís in A Quinta Essência)
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