---------"Viajar, ou mesmo viver, sem tirar notas é uma irresponsabilidade..." Franz Kafka (1911)--------- Ouvir, ler e escrever. Falar, contar e descrever. O prazer de viver. Assim partilho minha visão do mundo. [blogue escrito, propositadamente, sem abrigo e contra, declaradamente, o novo Acordo Ortográfico]
25 março 2015
24 março 2015
importa-se de repetir?!...
Fazer progredir o pensamento não significa necessariamente refutar o passado: significa por vezes revisitá-lo, não só para compreender o que foi efectivamente dito mas o que se poderia ter dito, ou pelo menos o que hoje pode dizer-se (talvez apenas hoje) relendo o que então se disse.
Umberto Eco, in Semiótica e Filosofia da Linguagem (1984)
23 março 2015
pilosidades
Ando à procura de um pequeno texto que sei que escrevi sobre o conceito de "escrevente", que um dia encontrei em Roland Barthes. Penso até que já o trouxe para aqui, mas como não o consegui encontrar, resolvi folhear todos os cadernos de apontamentos dos últimos anos de rascunhos e escritas. Ao fazê-lo, entre várias idiotíces para mais tarde recordar e às quais irei, com certeza, regressar, dei com um curto texto ao qual dei o nome "pilosidades" e no qual reflectia sobre o drama de ver surgir, das cavidades faciais, cada vez mais pelos. Na altura não o publiquei provavelmente por pudor, mas ao relê-lo, uns anos depois e com mais pilosidades para cuidar, aqui vai...
Sempre achei horrível e até falta de higiene, os homens não terem cuidado com os pelos que lhes vão nascendo um pouco por toda a cabeça e em concreto no rosto e arredores, ou seja, ouvidos, orelhas, narinas e mesmo nas sobrancelhas. Sempre associei esse fenómeno a idades maiores, como que sinais de envelhecimento. Pois bem, eu ainda estou para entrar nos quarenta e já encontro, aqui e ali, um ou outro pelo, que sem autorização emerge e se mostra ao mundo. A vontade é arrancá-los de imediato, mas como dói e ainda não são significativos, tenho optado pelo corte rente de forma a não estarem visíveis. Outro problema são os desalinhados fios de pelo que teimam em surgir nas fortes sobrancelhas. Raios os partam, ou pelo menos, depilem. Numa atitude aproximadamente metro e tentando salvaguardar a imagem que vejo reflectida no espelho, vou aparando-os e redireccionando-os, procurando mantê-los na ordem estabelecida. Enfim, sinais do tempo que vai também passando por mim.
(28 de Março de 2011)
baú da memória VIII
No dia 19 de Março, há quatro anos, escrevi e enviei a alguns amigos uma mensagem de texto, em que dizia: "Anuncia-se ao mundo, ao nosso mundo, que o Rodrigo acabou de chegar até nós. Tudo correu pelo melhor e ele e sua mãe estão bem de saúde. Que felicidade. Obrigado".
12 março 2015
mediascape: VEM
Hoje à tarde, de passagem pela frente de uma TV, assisti às declarações do Secretário de Estado Pedro Lomba acerca do Programa VEM - Valorização do Empreendimento Emigrante, que foi hoje aprovado pelo Conselho de Ministros. Este programa visa apoiar emigrantes que queiram regressar a Portugal e a sua reintegração profissional, através de apoios à contratação ou através da criação do seu próprio posto de trabalho, servindo-se da experiência profissional adquirida no estrangeiro.
Depois de terem passado todo o seu tempo de governação a mandar as pessoas saírem da sua zona de conforto e emigrarem, procurarem lá fora uma vida pessoal e profissional digna, este programa não é só ofensivo, é também hipócrita. Quer dizer, pouco tempo depois de se terem estabelecido, sabe-se lá a que custo, num outro qualquer país e terem conseguido refazer as suas vidas, era suposto virem a correr para os braços da pátria mãe... Sem vergonha alguma, esta gente é capaz de dizer tudo e precisamente o seu oposto, sem qualquer reserva ou pudor. Inacreditável a atitude paternalista perante os "filhos pródigos" que, julgam eles, nós somos. Alguém quererá regressar nestas condições? Sim, haverá sempre crédulos.
08 março 2015
03 março 2015
Pseudociência
A Fundação Francisco Manuel dos Santos, com a sua colecção de ensaios, tem realizado um trabalho de mérito ao trazer para o grande público e a preço muito interessante, trabalhos da comunidade de pensadores, investigadores e cientistas portugueses. O número 48 da colecção, editado em Setembro de 2014 é mais um exemplo paradigmático dessa qualidade e dessa excelência. Um cientista (David Marçal) que se dedica, com linguagem simples e acessível a todos os leitores, à defesa da produção do conhecimento científico, alertando e desconstruindo as estratégias de toda a pseudociência que nos rodeia diária e insistentemente. Nem de propósito, agora que estou envolvido nessa discussão epistemológica, este ensaio tem sido de uma impressionante utilidade, pois a sua linguagem e os exemplos apresentados são por demais esclarecedores para toda a gente, inclusive, estudantes resistentes às matérias mais teóricas e aborrecidas. Obrigado.
Amadeu Ferreira (R.I.P.)
Não há como não ficar triste com o desaparecimento de Amadeu Ferreira. Faleceu no passado dia 1 de Março. Figura ilustre da cultura portuguesa e central do universo da língua mirandesa. Autor e tradutor de inúmeras obras para essa língua, a ele se deve, também, o reconhecimento do mirandês como língua oficial. Era actualmente Presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes. A cultura ficou bem mais pobre. Para conhecer a sua obra... AQUI.
02 março 2015
viver acima das nossas possibilidades é isto
Estava num jantar em casa de amigos, celebrando o aniversário de um deles, quando tive conhecimento daquilo que o nosso Primeiro Ministro andou a fazer-nos durante os últimos quase quatro anos. Então não é que tem, ou teve, dívidas para com a Segurança Social e, para além de não ter pago, alegou desconhecimento das suas obrigações fiscais. Um qualquer avençado, precário ou profissional liberal sabe das suas obrigações para com a Segurança Social e um indivíduo que chega a Primeiro Ministro quer convencer-nos que não sabia... O que mais me impressionou nesta sem vergonha (mais uma), é quererem borrar-nos a cara com bosta de Tartaruga (que é mais exótica e chega mesmo a ser utilizada em algumas fragrâncias de alto gabarito e, dizem, ter propriedades medicinais) enquanto se divertem no aconchego dos espaços exclusivos e vivem à custa de todos os outros, os excluídos. Para alguém que afirmou com todos os dentes que tem na boca que vivíamos acima das nossas possibilidades, é de perder a face e merecedor da maior censura política e, acima de tudo, cívica. Não quero acreditar que ainda é o Primeiro dos nosso Ministros.
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actualidades
11 fevereiro 2015
baú da memória VII
Nos últimos tempos a minha criança sempre que me vê a beber um copo de vinho, ou uma cerveja ou outra bebida alcoólica qualquer, começa por me perguntar o que estou a beber, para depois da minha resposta me pedir para a cheirar. Não satisfeito, diz-me que vai beber ao faz-de-conta como os grandes. Quando se trata de uma cerveja, para além dos procedimentos referidos, ainda é menino para se agarrar à garrafa e beber os restos que ficam no fundo da garrafa, naquilo que sempre conheci como o acto de escorropichar. Não me perguntem que palavra é esta, nem qual a sua origem. Lembro-me desde miúdo de a utilizar precisamente nos mesmos contextos que o meu filho agora o faz. Como eu gostava de escorropichar as cervejas que o meu pai bebia e deixava, sob pressão minha, um resto cada vez maior para eu, lá está, escorropichar. Estará nos genes e será hereditário?
07 fevereiro 2015
retorno, que se gostava eterno...
Para mais uma temporada, que é como se pode dizer para mais dois semestres, na Escola Superior de Saúde. É sempre bom regressar, mais ainda com desafios novos, com programas para reconstruir e com gente nova para conhecer.
programa
Ser pai duma pré-adolescente é o tempo em que nos vamos habituando à ideia dela vir a ser autonoma e independente, um ser distinto dos pais. Ser pai duma adolescente é o tempo em que deveríamos estar preparados para a sua libertação dessas amarras parentais ou paternalistas e consciencializados das suas capacidades para definir a sua personalidade e criar/gerir as suas amizades. Esforcei-me por tudo isso. Não sei se o consegui. Hoje foi a primeira vez que nitidamente senti que a levei para um programa com amigas e amigos e que fui substituído. Às tantas.
02 fevereiro 2015
paisagem idílica
Últimos dias de Janeiro passados em Bragança. A casa confortável e tranquila, deixava sentir o frio imenso que fazia na rua. A dor permanente nos ossos e a sensação de pés molhados eram outros sintomas desse frio. De dia e de noite as ruas vazias, apenas ocupadas por aqueles que, nesse instante, não conseguiam escapar-lhe e abrigar-se. Sentado e em frente ao computador mal dei pela passagem das horas, dos dias e das noites. De vez em quando, afastando a vista do ecrã, espreitava pela vidraça e surpreendia-me por ver pequenos e leves flocos de neve que caíam lentamente sobre a cidade. Fabulosa imagem. Preso à escrita, não pude verificar se as serranias circundantes estavam cobertas de branco, mas nesses instantes mágicos, imaginei que sim e que eu poderia viver num sítio assim.
29 janeiro 2015
observação não participante
"Mulheres ajoelhadas nos bancos com cabeçadas de carmesins à volta dos pescoços, cabeças baixas. Uma fornada ajoelhada no comungatório. O padre ia passando junto delas, murmurando, segurando a coisa nas mãos. Parava a cada uma, tirava uma hóstia, sacudia uma gota ou duas (estão elas em água?) e punha-a esmeradamente na boca dela. O seu chapéu e a cabeça afundavam. Depois a próxima: uma velha pequenina. O padre inclinou-se para a pôr na boca dela, murmurando o tempo todo. Latim. A próxima. Feche os olhos e abra a boca. O quê? Corpus. Corpo. Cadáver. Boa ideia o latim. Estupefica-as primeiro. Hospício para os moribundos. Não parece que elas a mastiguem; apenas a engolem. Ideia singular: comer bocados de um cadáver por isso os canibais tomam o gosto. (...) Elas estavam à sua volta aqui e ali, com as cabeças ainda baixas nas suas cabeçadas carmesins, à espera de que aquilo se lhes derretesse nos estômagos. Algo como aqueles mazzoth: é esse tipo de pão: pão ázimo. Olha para elas. Até aposto que as faz sentirem-se felizes. Chupa-chupa. Faz mesmo. Sim, é o chamado pão dos anjos. Há uma grande ideia por trás disso, espécie de sensação do reino de Deus dentro de ti. Primeiros comungantes. Abracadabra um dinheiro cada uma. Depois sentem-se todos como membros de uma única família, o mesmo que no teatro, todos no mesmo barco. Sentem-se sim. Tenho a certeza disso. Não tão sós. Na nossa confraternidade. Depois saem com os espíritos elevados. Válvula de escape. A questão é se realmente acreditas nisso. Cura de Lourdes, águas do esquecimento, e a aparição de Knock, estátuas que sangram. Um velho adormecido ao pé daquele confessionário. Daí aqueles roncos. Fé cega. A salvo nos braços do venha o reino. Acalma toda a dor. Acordar a esta hora no ano que vem".
James Joyce
26 janeiro 2015
pela oitava vez e atrasado...
Não sei bem porque motivo me tenho esquecido da data, mas já é o segundo ano consecutivo que não assinalo o aniversário do Apurriar no dia 24 de Janeiro. Prefiro sempre pensar que não é esquecimento, mas sim ocupação exagerada do cérebro e falta de tempo para aqui vir partilhar o tempo e o espaço. Depois de um ano muito ausente e com poucas entradas, tenciono regressar com maior frequência às reflexões e à escrita breve. Obrigado pelas vezes que aqui têm vindo espreitar e, talvez, me têm lido. Continuemos.
25 janeiro 2015
primeiro dia do resto das nossas democracias, espero...
Ao contrário de muitos, preferi esperar pelo dia de hoje para manifestar a minha alegria e satisfação pela vitória do Syriza nas eleições gregas. Não é que precise de ver para crer, mas quase, pois nunca fui daqueles que gostam de deitar os foguetes nas vésperas das festas e dias santos. Tive receio verdadeiro do poder do sistema instituído e da força da pressão imposta pela Europa, mas pelos vistos não resultou e os gregos votaram mesmo pelo fim da austeridade. Que excelente notícia para todos e para nós também.
Conheci o Alexis Tsipras no Porto na campanha das últimas europeias, ouvi-o e gostei do seu discurso sobre a Europa. Não acredito em salvadores, omnipotentes, mas acredito que esta vitória poderá ser o princípio de tantas outras pela Europa que irão derrotar o paradigma vigente. Não sei como será o dia de amanhã, mas sei que não será fácil para os gregos e para os europeus, mas esta é a primeira hipótese real de algo mudar. Esperemos que sim. Desejo a maior sorte e saber a Tsipras e seus companheiros. Força.
Estou contente. Sem grande alarido, vou deitar o meu foguete e celebrar.
Viva a democracia.
Vivam os gregos e viva a Europa liberta deste jugo tecnocrata e financeiro.
Que bom.
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21 janeiro 2015
mediascape: borgen
Não sei se vi o primeiro episódio ou não, mas sei que desde que parei para ver um episódio desta série dinamarquesa fiquei agarrado à TV. Borgen, que em português significa castelo, ficciona o quotidiano de um governo resultante de uma coligação liderada por uma mulher. Para além da real-politik e dos bastidores dos gabinetes ministeriais, dos arranjos e das negociações entre partidos da coligação e partidos da oposição, a série revela também, de forma clara e sem clichés, as ligações entre os ministérios, os acessores dos ministérios, os spin-doctors e os média, nomeadamente, imprensa e televisão. É esquisito ouvir essa língua estranha e distante que é o dinamarquês e custa-me não ter a certeza se a tradução das legendas é ou não bem feita. Ainda assim, vale a pena continuar a ver ao serão no canal 2 da RTP.
16 janeiro 2015
o combate civilizacional
Ainda a propósito do atentado da semana passada contra o Charlie Hebdo, recebi nos últimos dias no meu email, vários exemplares da sua última edição, já posterior ao atentado e que na sua primeira edição em papel esgotou os cerca de 3 milhões de exemplares. Não sei se chegou a Portugal e se foi vendido em quiosques, mas eu teria sido um daqueles que nem hesitaria em adquirir um exemplar, isto, mesmo não sendo um apreciador do género. Aliás, penso que mais do que o inconsequente "Je suis Charlie" que se banalizou por todo o lado, a melhor homenagem e o meio mais eficaz de desconstruir o discurso dos radicais islâmicos seria reforçar a leitura e as vendas do Charlie Ebdo. Isso sim, seria uma bofetada nesse lixo humano. Não gostam, temos pena. Mas nós somos assim.
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12 janeiro 2015
silva porto
Durante os últimos meses em que andei às voltas, tentando calcorrear os caminhos de uma outra vida, vivida nos sertões africanos, dei com a grande figura histórica de Silva Porto, até então um perfeito desconhecido para mim (ignorante). Essa descoberta levou-me a procurar mais informações a seu respeito. Li vários trabalhos acerca do seu percurso e acerca sua aventura e fiquei, posso admiti-lo, admirado pelo seu carácter.
António Francisco Ferreira da Silva (adoptaria mais tarde o apelido Porto) nasceu na cidade Invicta, em 24 de Agosto de 1817. Filho de gente muito humilde, bem cedo teve que se fazer à vida. Primeiro, aos 12 anos, emigrou para o Brasil onde permaneceu alguns anos entre o Rio de Janeiro e a Baía. Depois tentou a sua sorte em Angola, mas rapidamente regressou à Baía. Tendo ficado fascinado pelo que viu em Angola, regressou e iniciou-se aos 22 anos como explorador africano. Percorreu quilómetros e quilómetros de savanas, negociou com vários sobas e régulos. Estabeleceu-se no planalto do Bié, num local que denominou de Belmonte e onde construiu a sua embala. Fez inúmeras viagens, desbravou matos e conquistou tesouros, mas regressava sempre à sua embala de Belmonte. Lugar onde pretendia passar o resto da sua vida. Só que alguns dos senhores da região começaram a suspeitar das suas boas maneiras e das suas pretensões, acabando por ser ameaçado de morte caso não abandonasse as suas terras. Foi assim que Silva Porto, já com uma idade bastante avançada e que sempre dissera que Belmonte, depois da sua morte, passaria a ser propriedade de Portugal, se viu obrigado a decidir sobre o seu futuro. Perante a sensação de desonra e de que tudo estava perdido, escreveu no seu diário:
«Última disposição. Acondicionando os objectos precisos, a fim de deixar a nossa vida em ordem, o que mais tarde se há-de vir no conhecimento afirmativo ou negativo, restando-nos pouco tempo de que dispor, dizemos que a nossa última disposição está feita de há muito, deixando este mundo conforme o encontrámos - isto é - nascemos pobres e assim morremos, esperando que Deus e sua Mãe Santíssima nos julgarão segundo a Justiça Divina».
Envolveu-se na bandeira das quinas, deitado sobre os barris de pólvora, acendeu um fósforo e fez-se explodir. Sobreviveu à explosão, mas morreu passados alguns dias, no dia 1 de Abril de 1890. Os seus restos mortais chegaram a Portugal só passado um ano, tendo sido enterrado no cemitério da Lapa, na cidade que o viu nascer.
Anos mais tarde, na década de vinte, Belmonte passou a chamar-se Silva Porto em sua memória.
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