28 março 2015

centenário D. Manuel António Pires

Ontem, dia 27 de Março de 2015, assinalou-se o centenário de nascimento de D. Manuel António Pires, antigo bispo de Silva Porto, actual Kwíto-Bié, em Angola. A diocese de Bragança e a família assinalaram a data com um conjunto de momentos, nos quais participei. Entre Vila Boa e Bragança, foram várias as pessoas que se associaram à iniciativa. Desse programa constou também o lançamento do meu livro: "D. Manuel António Pires - história de vida de um missionário (1915-2015). Ficam aqui alguns dos momentos desse longo dia.






24 março 2015

importa-se de repetir?!...

Fazer progredir o pensamento não significa necessariamente refutar o passado: significa por vezes revisitá-lo, não só para compreender o que foi efectivamente dito mas o que se poderia ter dito, ou pelo menos o que hoje pode dizer-se (talvez apenas hoje) relendo o que então se disse.
Umberto Eco, in Semiótica e Filosofia da Linguagem (1984)

23 março 2015

pilosidades

Ando à procura de um pequeno texto que sei que escrevi sobre o conceito de "escrevente", que um dia encontrei em Roland Barthes. Penso até que já o trouxe para aqui, mas como não o consegui encontrar, resolvi folhear todos os cadernos de apontamentos dos últimos anos de rascunhos e escritas. Ao fazê-lo, entre várias idiotíces para mais tarde recordar e às quais irei, com certeza, regressar, dei com um curto texto ao qual dei o nome "pilosidades" e no qual reflectia sobre o drama de ver surgir, das cavidades faciais, cada vez mais pelos. Na altura não o publiquei provavelmente por pudor, mas ao relê-lo, uns anos depois e com mais pilosidades para cuidar, aqui vai...

Sempre achei horrível e até falta de higiene, os homens não terem cuidado com os pelos que lhes vão nascendo um pouco por toda a cabeça e em concreto no rosto e arredores, ou seja, ouvidos, orelhas, narinas e mesmo nas sobrancelhas. Sempre associei esse fenómeno a idades maiores, como que sinais de envelhecimento. Pois bem, eu ainda estou para entrar nos quarenta e já encontro, aqui e ali, um ou outro pelo, que sem autorização emerge e se mostra ao mundo. A vontade é arrancá-los de imediato, mas como dói e ainda não são significativos, tenho optado pelo corte rente de forma a não estarem visíveis. Outro problema são os desalinhados fios de pelo que teimam em surgir nas fortes sobrancelhas. Raios os partam, ou pelo menos, depilem. Numa atitude aproximadamente metro e tentando salvaguardar a imagem que vejo reflectida no espelho, vou aparando-os e redireccionando-os, procurando mantê-los na ordem estabelecida. Enfim, sinais do tempo que vai também passando por mim.
(28 de Março de 2011)

baú da memória VIII

No dia 19 de Março, há quatro anos, escrevi e enviei a alguns amigos uma mensagem de texto, em que dizia: "Anuncia-se ao mundo, ao nosso mundo, que o Rodrigo acabou de chegar até nós. Tudo correu pelo melhor e ele e sua mãe estão bem de saúde. Que felicidade. Obrigado".

12 março 2015

mediascape: VEM

Hoje à tarde, de passagem pela frente de uma TV, assisti às declarações do Secretário de Estado Pedro Lomba acerca do Programa VEM - Valorização do Empreendimento Emigrante, que foi hoje aprovado pelo Conselho de Ministros. Este programa visa apoiar emigrantes que queiram regressar a Portugal e a sua reintegração profissional, através de apoios à contratação ou através da criação do seu próprio posto de trabalho, servindo-se da experiência profissional adquirida no estrangeiro.
Depois de terem passado todo o seu tempo de governação a mandar as pessoas saírem da sua zona de conforto e emigrarem, procurarem lá fora uma vida pessoal e profissional digna, este programa não é só ofensivo, é também hipócrita. Quer dizer, pouco tempo depois de se terem estabelecido, sabe-se lá a que custo, num outro qualquer país e terem conseguido refazer as suas vidas, era suposto virem a correr para os braços da pátria mãe... Sem vergonha alguma, esta gente é capaz de dizer tudo e precisamente o seu oposto, sem qualquer reserva ou pudor. Inacreditável a atitude paternalista perante os "filhos pródigos" que, julgam eles, nós somos. Alguém quererá regressar nestas condições? Sim, haverá sempre crédulos.

03 março 2015

Pseudociência

A Fundação Francisco Manuel dos Santos, com a sua colecção de ensaios, tem realizado um trabalho de mérito ao trazer para o grande público e a preço muito interessante, trabalhos da comunidade de pensadores, investigadores e cientistas portugueses. O número 48 da colecção, editado em Setembro de 2014 é mais um exemplo paradigmático dessa qualidade e dessa excelência. Um cientista (David Marçal) que se dedica, com linguagem simples e acessível a todos os leitores, à defesa da produção do conhecimento científico, alertando e desconstruindo as estratégias de toda a pseudociência que nos rodeia diária e insistentemente. Nem de propósito, agora que estou envolvido nessa discussão epistemológica, este ensaio tem sido de uma impressionante utilidade, pois a sua linguagem e os exemplos apresentados são por demais esclarecedores para toda a gente, inclusive, estudantes resistentes às matérias mais teóricas e aborrecidas. Obrigado.

Amadeu Ferreira (R.I.P.)

Não há como não ficar triste com o desaparecimento de Amadeu Ferreira. Faleceu no passado dia 1 de Março. Figura ilustre da cultura portuguesa e central do universo da língua mirandesa. Autor e tradutor de inúmeras obras para essa língua, a ele se deve, também, o reconhecimento do mirandês como língua oficial. Era actualmente Presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes. A cultura ficou bem mais pobre. Para conhecer a sua obra... AQUI.

02 março 2015

viver acima das nossas possibilidades é isto

Estava num jantar em casa de amigos, celebrando o aniversário de um deles, quando tive conhecimento daquilo que o nosso Primeiro Ministro andou a fazer-nos durante os últimos quase quatro anos. Então não é que tem, ou teve, dívidas para com a Segurança Social e, para além de não ter pago, alegou desconhecimento das suas obrigações fiscais. Um qualquer avençado, precário ou profissional liberal sabe das suas obrigações para com a Segurança Social e um indivíduo que chega a Primeiro Ministro quer convencer-nos que não sabia... O que mais me impressionou nesta sem vergonha (mais uma), é quererem borrar-nos a cara com bosta de Tartaruga (que é mais exótica e chega mesmo a ser utilizada em algumas fragrâncias de alto gabarito e, dizem, ter propriedades medicinais) enquanto se divertem no aconchego dos espaços exclusivos e vivem à custa de todos os outros, os excluídos. Para alguém que afirmou com todos os dentes que tem na boca que vivíamos acima das nossas possibilidades, é de perder a face e merecedor da maior censura política e, acima de tudo, cívica. Não quero acreditar que ainda é o Primeiro dos nosso Ministros.

11 fevereiro 2015

baú da memória VII

Nos últimos tempos a minha criança sempre que me vê a beber um copo de vinho, ou uma cerveja ou outra bebida alcoólica qualquer, começa por me perguntar o que estou a beber, para depois da minha resposta me pedir para a cheirar. Não satisfeito, diz-me que vai beber ao faz-de-conta como os grandes. Quando se trata de uma cerveja, para além dos procedimentos referidos, ainda é menino para se agarrar à garrafa e beber os restos que ficam no fundo da garrafa, naquilo que sempre conheci como o acto de escorropichar. Não me perguntem que palavra é esta, nem qual a sua origem. Lembro-me desde miúdo de a utilizar precisamente nos mesmos contextos que o meu filho agora o faz. Como eu gostava de escorropichar as cervejas que o meu pai bebia e deixava, sob pressão minha, um resto cada vez maior para eu, lá está, escorropichar. Estará nos genes e será hereditário?

07 fevereiro 2015

retorno, que se gostava eterno...

Para mais uma temporada, que é como se pode dizer para mais dois semestres, na Escola Superior de Saúde. É sempre bom regressar, mais ainda com desafios novos, com programas para reconstruir e com gente nova para conhecer.

programa

Ser pai duma pré-adolescente é o tempo em que nos vamos habituando à ideia dela vir a ser autonoma e independente, um ser distinto dos pais. Ser pai duma adolescente é o tempo em que deveríamos estar preparados para a sua libertação dessas amarras parentais ou paternalistas e consciencializados das suas capacidades para definir a sua personalidade e criar/gerir as suas amizades. Esforcei-me por tudo isso. Não sei se o consegui. Hoje foi a primeira vez que nitidamente senti que a levei para um programa com amigas e amigos e que fui substituído. Às tantas.

02 fevereiro 2015

paisagem idílica

Últimos dias de Janeiro passados em Bragança. A casa confortável e tranquila, deixava sentir o frio imenso que fazia na rua. A dor permanente nos ossos e a sensação de pés molhados eram outros sintomas desse frio. De dia e de noite as ruas vazias, apenas ocupadas por aqueles que, nesse instante, não conseguiam escapar-lhe e abrigar-se. Sentado e em frente ao computador mal dei pela passagem das horas, dos dias e das noites. De vez em quando, afastando a vista do ecrã, espreitava pela vidraça e surpreendia-me por ver pequenos e leves flocos de neve que caíam lentamente sobre a cidade. Fabulosa imagem. Preso à escrita, não pude verificar se as serranias circundantes estavam cobertas de branco, mas nesses instantes mágicos, imaginei que sim e que eu poderia viver num sítio assim.

29 janeiro 2015

observação não participante

"Mulheres ajoelhadas nos bancos com cabeçadas de carmesins à volta dos pescoços, cabeças baixas. Uma fornada ajoelhada no comungatório. O padre ia passando junto delas, murmurando, segurando a coisa nas mãos. Parava a cada uma, tirava uma hóstia, sacudia uma gota ou duas (estão elas em água?) e punha-a esmeradamente na boca dela. O seu chapéu e a cabeça afundavam. Depois a próxima: uma velha pequenina. O padre inclinou-se para a pôr na boca dela, murmurando o tempo todo. Latim. A próxima. Feche os olhos e abra a boca. O quê? Corpus. Corpo. Cadáver. Boa ideia o latim. Estupefica-as primeiro. Hospício para os moribundos. Não parece que elas a mastiguem; apenas a engolem. Ideia singular: comer bocados de um cadáver por isso os canibais tomam o gosto. (...) Elas estavam à sua volta aqui e ali, com as cabeças ainda baixas nas suas cabeçadas carmesins, à espera de que aquilo se lhes derretesse nos estômagos. Algo como aqueles mazzoth: é esse tipo de pão: pão ázimo. Olha para elas. Até aposto que as faz sentirem-se felizes. Chupa-chupa. Faz mesmo. Sim, é o chamado pão dos anjos. Há uma grande ideia por trás disso, espécie de sensação do reino de Deus dentro de ti. Primeiros comungantes. Abracadabra um dinheiro cada uma. Depois sentem-se todos como membros de uma única família, o mesmo que no teatro, todos no mesmo barco. Sentem-se sim. Tenho a certeza disso. Não tão sós. Na nossa confraternidade. Depois saem com os espíritos elevados. Válvula de escape. A questão é se realmente acreditas nisso. Cura de Lourdes, águas do esquecimento, e a aparição de Knock, estátuas que sangram. Um velho adormecido ao pé daquele confessionário. Daí aqueles roncos. Fé cega. A salvo nos braços do venha o reino. Acalma toda a dor. Acordar a esta hora no ano que vem". 
James Joyce 

26 janeiro 2015

pela oitava vez e atrasado...

Não sei bem porque motivo me tenho esquecido da data, mas já é o segundo ano consecutivo que não assinalo o aniversário do Apurriar no dia 24 de Janeiro. Prefiro sempre pensar que não é esquecimento, mas sim ocupação exagerada do cérebro e falta de tempo para aqui vir partilhar o tempo e o espaço. Depois de um ano muito ausente e com poucas entradas, tenciono regressar com maior frequência às reflexões e à escrita breve. Obrigado pelas vezes que aqui têm vindo espreitar e, talvez, me têm lido. Continuemos.

25 janeiro 2015

primeiro dia do resto das nossas democracias, espero...

Ao contrário de muitos, preferi esperar pelo dia de hoje para manifestar a minha alegria e satisfação pela vitória do Syriza nas eleições gregas. Não é que precise de ver para crer, mas quase, pois nunca fui daqueles que gostam de deitar os foguetes nas vésperas das festas e dias santos. Tive receio verdadeiro do poder do sistema instituído e da força da pressão imposta pela Europa, mas pelos vistos não resultou e os gregos votaram mesmo pelo fim da austeridade. Que excelente notícia para todos e para nós também.
Conheci o Alexis Tsipras no Porto na campanha das últimas europeias, ouvi-o e gostei do seu discurso sobre a Europa. Não acredito em salvadores, omnipotentes, mas acredito que esta vitória poderá ser o princípio de tantas outras pela Europa que irão derrotar o paradigma vigente. Não sei como será o dia de amanhã, mas sei que não será fácil para os gregos e para os europeus, mas esta é a primeira hipótese real de algo mudar. Esperemos que sim. Desejo a maior sorte e saber a Tsipras e seus companheiros. Força.
Estou contente. Sem grande alarido, vou deitar o meu foguete e celebrar.
Viva a democracia. 
Vivam os gregos e viva a Europa liberta deste jugo tecnocrata e financeiro.
Que bom.

21 janeiro 2015

mediascape: borgen

Não sei se vi o primeiro episódio ou não, mas sei que desde que parei para ver um episódio desta série dinamarquesa fiquei agarrado à TV. Borgen, que em português significa castelo, ficciona o quotidiano de um governo resultante de uma coligação liderada por uma mulher. Para além da real-politik e dos bastidores dos gabinetes ministeriais, dos arranjos e das negociações entre partidos da coligação e partidos da oposição, a série revela também, de forma clara e sem clichés, as ligações entre os ministérios, os acessores dos ministérios, os spin-doctors e os média, nomeadamente, imprensa e televisão. É esquisito ouvir essa língua estranha e distante que é o dinamarquês e custa-me não ter a certeza se a tradução das legendas é ou não bem feita. Ainda assim, vale a pena continuar a ver ao serão no canal 2 da RTP.

16 janeiro 2015

o combate civilizacional

Ainda a propósito do atentado da semana passada contra o Charlie Hebdo, recebi nos últimos dias no meu email, vários exemplares da sua última edição, já posterior ao atentado e que na sua primeira edição em papel esgotou os cerca de 3 milhões de exemplares. Não sei se chegou a Portugal e se foi vendido em quiosques, mas eu teria sido um daqueles que nem hesitaria em adquirir um exemplar, isto, mesmo não sendo um apreciador do género. Aliás, penso que mais do que o inconsequente "Je suis Charlie" que se banalizou por todo o lado, a melhor homenagem e o meio mais eficaz de desconstruir o discurso dos radicais islâmicos seria reforçar a leitura e as vendas do Charlie Ebdo. Isso sim, seria uma bofetada nesse lixo humano. Não gostam, temos pena. Mas nós somos assim.

12 janeiro 2015

a descobrir

Depois de vários meses em lista de espera, chegou a vez de ler o pesado Ulisses. A minha iliteracia literária, desculpando a redundância, ainda não me tinha permitido chegar a James Joyce. Aqui estou eu e a gostar.

silva porto

Durante os últimos meses em que andei às voltas, tentando calcorrear os caminhos de uma outra vida, vivida nos sertões africanos, dei com a grande figura histórica de Silva Porto, até então um perfeito desconhecido para mim (ignorante). Essa descoberta levou-me a procurar mais informações a seu respeito. Li vários trabalhos acerca do seu percurso e acerca sua aventura e fiquei, posso admiti-lo, admirado pelo seu carácter.
António Francisco Ferreira da Silva (adoptaria mais tarde o apelido Porto) nasceu na cidade Invicta, em 24 de Agosto de 1817. Filho de gente muito humilde, bem cedo teve que se fazer à vida. Primeiro, aos 12 anos, emigrou para o Brasil onde permaneceu alguns anos entre o Rio de Janeiro e a Baía. Depois tentou a sua sorte em Angola, mas rapidamente regressou à Baía. Tendo ficado fascinado pelo que viu em Angola, regressou e iniciou-se aos 22 anos como explorador africano. Percorreu quilómetros e quilómetros de savanas, negociou com vários sobas e régulos. Estabeleceu-se no planalto do Bié, num local que denominou de Belmonte e onde construiu a sua embala. Fez inúmeras viagens, desbravou matos e conquistou tesouros, mas regressava sempre à sua embala de Belmonte. Lugar onde pretendia passar o resto da sua vida. Só que alguns dos senhores da região começaram a suspeitar das suas boas maneiras e das suas pretensões, acabando por ser ameaçado de morte caso não abandonasse as suas terras. Foi assim que Silva Porto, já com uma idade bastante avançada e que sempre dissera que Belmonte, depois da sua morte, passaria a ser propriedade de Portugal, se viu obrigado a decidir sobre o seu futuro. Perante a sensação de desonra e de que tudo estava perdido, escreveu no seu diário:
«Última disposição. Acondicionando os objectos precisos, a fim de deixar a nossa vida em ordem, o que mais tarde se há-de vir no conhecimento afirmativo ou negativo, restando-nos pouco tempo de que dispor, dizemos que a nossa última disposição está feita de há muito, deixando este mundo conforme o encontrámos - isto é - nascemos pobres e assim morremos, esperando que Deus e sua Mãe Santíssima nos julgarão segundo a Justiça Divina».
Envolveu-se na bandeira das quinas, deitado sobre os barris de pólvora, acendeu um fósforo e fez-se explodir. Sobreviveu à explosão, mas morreu passados alguns dias, no dia 1 de Abril de 1890. Os seus restos mortais chegaram a Portugal só passado um ano, tendo sido enterrado no cemitério da Lapa, na cidade que o viu nascer.
Anos mais tarde, na década de vinte, Belmonte passou a chamar-se Silva Porto em sua memória.
Visitei o monumento tumular no cemitério da Lapa.

instante urbano xxix

Comentário escutado hoje num café logo pela manhã:
Ela: Já reparaste como a mulher do Sr. Y está diferente, depois dele morrer... Parece mais espevitada.
Ele: Isso ficam todas! Qual é a novidade?!
Ele e Ela: (risos)

07 janeiro 2015

Charlie Hebdo

Interrompo aquilo que estava a fazer, para, estupefacto, assistir ao ataque terrorista desta manhã em Paris. Por muito que nos digam que estes episódios irão aumentar e de que estamos em estado de guerra permanente, pelo menos, desde o 11 de Setembro de 2001, a cada novo episódio não consigo deixar de ficar perturbado pela sua concretização, e acima de tudo, horrorizado pelas motivações de tais actos. São na sua aparência questões de crença e de vingança religiosa, mas os seus fundamentos são civilizacionais. Muitos estudiosos e pensadores têm alertado para o sentimento de ódio crescente que o Islão tem incrementado nas suas escolas e nas suas mesquitas para com o Ocidente e o seu modo de vida. Por muito que nos custe aceitar, esse Islão não hesitaria em nos extinguir da face da terra e foram e são as marcas que nos distinguem, enquanto sociedade, desse Islão, que acabaram por permitir situações como a de hoje. E França é um bom paradigma desse confronto latente entre civilizações, bem no coração da Europa. Quero e defendo uma sociedade tolerante, integradora e multi-cultural, e pratico um relativismo cultural na minha visão do mundo, mas cada vez me custa mais aceitar a actual diferença civilizacional entre o Ocidente e os estados Islâmicos. Por outro lado, estou consciente da enorme dificuldade que uma sociedade e um estado livres e democráticos terão para conseguir evitar tragédias deste género, mas a resposta é e será sempre, ser indefectível na liberdade, na democracia e na valorização do ser humano, nas nossas escolas, nas nossas instituições, na nossa comunicação social, enfim, nas nossas sociedades. É isso que nos diferencia e distancia da ignomínia e da barbárie.

04 janeiro 2015

acabamentos

Ainda que falte algum tempo para o dia em que será folheado pelos leitores, algo que só acontecerá lá para o final do mês de Março, mostro-vos o resultado gráfico daquilo que me ocupou parte do tempo durante os últimos três anos e quase na totalidade nestes últimos meses de 2014. A Ana Rita está a fazer um excelente trabalho gráfico e porque me acabou de enviar estas primeiras imagens, inacabadas, e eu estou contente com o resultado, aqui o partilho...





02 janeiro 2015

inevitabilidade

A criança, a minha criança, que ainda há bem pouco tempo era um bebé, deixou de me chamar por "papá", trocando esse querido vocábulo pelo ordinário "pai". Sei que irei ter, para sempre, saudades.

01 janeiro 2015

novo ano para vida velha

Não sou dado a grandes sentimentalismos perante a perspectiva de cada um dos anos "novos" que se vão precipitando uns atrás dos outros, nem sou dado a idealismos, preferindo o pragmatismo da real existência quotidiana, por isso, dou cada vez menos importância a estas time-marks que nos organizam a vida. Desejo cada vez mais poder passar esses dias com os meus, mas isolado do resto do mundo, num qualquer cabeço de monte isolado. Claro que, egoista, fico feliz e satisfeito por continuar a contar cada um dos anos cronológicos, mas sei que será, continuará a ser a mesma e velha vida. Ainda bem.

Joe Cocker R.I.P.

Acabo de saber da morte de Joe Cocker. O facto de não olhar para a TV, a não ser para ver algo que já espero e o facto de ter estado algo isolado da rede, permitiu-me estar ignorante do seu desaparecimento. Não sou grande admirador da sua música ou voz, mas algumas das suas músicas fazem parte do meu imaginário juvenil e estiveram presentes durante algum tempo. Lamento.

19 dezembro 2014

pinheiro de natal

Tenho dado comigo a olhar repetidamente para o pinheiro de natal que, ano após ano, continuamos a montar e a colocar numa das esquinas da sala onde todos estamos. Há quem goste desta época - eu também gosto - e se sinta confortado pela árvore devidamente ornamentada e iluminada - eu também não. Este ano, a nossa, que já nos acompanha há doze natividades, numa existência que podemos adjectivar de eterno retorno, ganhou renovada vida. Nesse dia o entusiasmo e a dedicação da prole foram notáveis. Curiosamente e para infelicidade da própria árvore, todos os anos esse entusiasmo passa rapidamente e, desde esse dia, ela ali está desprezada, toda enfeitada mas apagada e sem a atenção e centralidade que gostaria. Não sei como é na outras casas, mas pela indiferença que sinto nas minhas crianças, desconfio que afinal quem gosta mesmo de ter o pisca-pisca colorido a dominar o ambiente são mesmo os adultos. Não houvesse crianças e eu garanto-vos que deixaria de ter o trabalho de a montar, decorar, iluminar e, depois, desmontar, empacotar e armazenar. Ficaria para sempre sepultada num qualquer canto da garagem sob um manto crescente de poeiras.

para LER nos próximos dias...


30 novembro 2014

não sabia...

«O dromedário tem o olho do cu mais elegante de todos os animais que conheço, nada tem que ver com a carne rosada e berrante do recto que se vê num cavalo. E produz a mais delicada bosta - uma forma elíptica, muito perfeita, que depressa endurece ao Sol. A forma e a textura de uma noz-pecã». (Bruce Chatwin, in Granta nº4)

12 novembro 2014

baú da memória VI

Inscrito na Pedra...
É uma das recordações que a custo e só muito vagamente consigo alcançar, mas recordo um dia de Páscoa, algures na minha adolescência, em que na missa de Páscoa, foi feita com pompa e alguma circunstância a inauguração do altar da igreja. Tal como acontecia todos os anos, a missa da Páscoa era das mais concorridas e a igreja estava repleta de gente. Naquele dia, excepcionalmente, a celebração eucarística foi presidida por um Bispo e concelebrada pelo pároco local. Recordo que a determinado momento, depois de devidamente abençoada a pedra do novo altar, esse Bispo proferiu algumas palavras acerca desse mesmo altar e que disse que estava inscrito na própria pedra o registo daquele momento de inauguração. Fiquei muito curioso, pois mesmo estando muito próximo do altar, do lugar onde me encontrava não vislumbrava qualquer inscrição. Quando a missa terminou, deixei as pessoas sair do templo e os padres desaparecerem na sacristia, para averiguar e encontrar tal inscrição. Desloquei a decoração da mesa, revirei os linhos que a cobriam, mas nada. Mistério.
À hora de almoço, em casa da Avó, reuniu-se a família e entre ela, estavam também, o Bispo e o Padre que tinham dito a missa. Ingénuo, resolvi perguntar pela inscrição. Como resposta obtive apenas um sorriso benevolente. Não esqueci, mas a inquietação foi, naturalmente, desaparecendo.
Até que chegado a 2014 e tratando da história de vida de D. Manuel António Pires que, a propósito, está a concluir-se; encontro o texto da intervenção acerca dessa inauguração do altar da igreja. É um texto pequeno em que é feita uma explicação da centralidade e sacralidade do altar e se apresentam as razões da atracção do homem crente para o altar: "Adoração – Acção de graças – Propiciação – Satisfação". Refere também o motivo da minha inquietação... "Num pergaminho, embutido no altar, constam todos estes dados". Agora sei que "pergaminho" foi a razão do meu sobressalto. Agora sei também que isto aconteceu no dia 19 de Abril de 1987.

28 setembro 2014

popular problems

Só ontem o fui comprar. Só o hoje o estou a ouvir, repetidamente. Gosto, apesar de uma ou outra música me parecerem desalinhadas. Deve ser má impressão minha. Tenho que ouvi-lo mais vezes.
Tal como sempre, muito bom.

22 setembro 2014

mesa redonda

Em S. Joanico e a debater "mundo rural como fonte de conhecimento científico". Registos acabados de chegar...



Para ver mais fotografias do festival Sons & Ruralidades, visite aqui a página da AEPGA.

16 setembro 2014

festival sons & ruralidades


Eu vou lá estar para conhecer o festival que já vai na sua nona edição e eu nunca participei, e para participar numa mesa-redonda subordinada ao tema "mundo rural como fonte de conhecimento científico" e onde se pretende «a partir de exemplos concretos demonstrar a importância deste objecto e/ou meio de estudo para diversas áreas de investigação, pondo a hipótese de se tratar de um caminho mais sustentável e integrado do que algumas das soluções que têm sido mais frequentemente apontadas, como o turismo ou o apoio ao empreendedorismo» (organização). Será no próximo dia 20, às 15 horas, na aldeia de S. Joanico. Para mais informações visitem o site da AEPGA (aqui). Apareçam.

15 setembro 2014

LER do trimestre

Já cá tenho a revista de Setembro, (Outubro e Novembro). Com muito bom aspecto para ser consumida nas próximas horas e dias. Contudo, continua a saber a pouco...

feira do livro do porto

Aproveitei o fim-de-semana para ir conhecer a "nova" feira do livro da Invicta. Sendo um visitante e comprador assíduo, era com grande expectativa que aguardava esta edição, esta nova vida da feira. Sem conhecer os pormenores e os bastidores de toda a incompatibilidade entre a APEL e a CMP, foi com satisfação que vi a iniciativa da Câmara do Porto ao assumir a organização deste histórico evento da cidade. Depois a feliz escolha do local, os jardins do Palácio de Cristal, que são para mim e sem qualquer dúvida o melhor local para acolher um certame deste género. A ideia de ter levado a feira, durante alguns anos, para a Avenida dos Aliados foi peregrina e esse local, apesar de central, é um local inóspito, sem sombras, sem equipamentos de apoio, sem lugares sentados, pouco convidativo e, não menos importante, sem estacionamento. Muito pouco propício para o passeio, para a contemplação e para a leitura.
Foi uma rica tarde que a família passou entre livros, actuações de rua e passeio pelos espectaculares, sombrios e frescos jardins do Palácio de Cristal. Mesmo não tendo encontrado nada de muito interesse para mim e por isso não ter comprado nenhum livro, gostei muito de perceber as diferenças nos expositores: Muitos livreiros, pequenos livreiros, muitos alfarrabistas e de vários locais do país, grande variedade editorial e gráfica.
Para além de esperar que assim volte acontecer, acho que durante os próximos dias ainda lá vou outra vez, talvez numa hora em que haja menos confusão. É verdade, dizem-me que a LeYa não estava lá. Não lhe senti a falta e assim está bem.

08 setembro 2014

inquietação existencial


Como os tempos mudam? É a questão que me ocorre ao ler este excerto, propositadamente descontextualizado, de uma carta datada de meados da década de sessenta do século XX. Segundo informações posteriormente recebidas, a inquietação teria mesmo razão de ser, pois pouco tempo depois o autor abandonou o sacerdócio e terá casado, quiçá, com uma das bailadeiras...

fortuna?


Caído de um livro muito velho, que ao se folhear permitiu encontrar várias preciosidades como esta. Terá sido uma fortuna no início do século XX? Terá o seu proprietário resgatado o seu valor? Ou terá ficado esquecido nas páginas desse livro? Não adivinho a resposta, mas gostei de imaginar que esse valor poderá ter ficado todo este tempo a render no fundo de um "cofre" qualquer. Fortuna.

13 agosto 2014

a verdade histórica de um retrato

Quando o Papa João XXIII convocou, através da Bula «Humanae Salutis», o Concílio Vaticano II, no dia 25 de Dezembro de 1961, iniciou um processo que levaria, nos meses e anos subsequentes - o Concílio terminaria no dia 8 de Dezembro de 1965 - milhares de membros da Igreja até Roma e à cidade do Vaticano. Entre esses muitos homens do Clero que para aí se deslocaram, estava D. Manuel António Pires, então bispo de Silva Porto, Angola. Viajou para Roma, no fim do mês de Setembro de 1962, como membro integrante da comitiva portuguesa que iria participar no conclave. Ao todo participaram 39 elementos do clero português. D. Manuel viajou de Bragança até Madrid na companhia de D. Abílio Vaz das Neves, então bispo da diocese de Bragança-Miranda, e no carro desta diocese. De Madrid foram de avião até Roma. Com estes dois prelados viajaram também o secretário de D. Manuel, o padre Manuel Vale e seu irmão Francisco Vale.
Os trabalhos do Concílio só iniciaram no dia 11 de Outubro de 1962, o que proporcionou alguns dias de descanso e de turismo pela cidade. Foi também nesses primeiros dias que D. Manuel foi recebido, em audiência, pelo Papa João XXIII. Desse singular e curto momento ficou o registo fotográfico, onde podemos verificar que nessa reunião participaram também, pelo menos, mais dois sacerdotes.

Imagem 1 - Pontifícia fotografia tirada no fim da audiência, no dia 1/10/1962. Para além de João XXIII e D. Manuel, podemos ver também o Padre Francisco Vale (do lado direito da fotografia).  

No regresso a Portugal e a Bragança e depois da curta estadia no Vaticano, o padre Francisco Vale trouxe consigo um exemplar dessa fotografia. Mas pelos vistos, por mais que olhasse para ela, não estava satisfeito com a sua qualidade e, principalmente, com a disposição dos seus elementos. Por isso, mesmo antes de partir para o Rio de Janeiro onde foi passar uma temporada, resolveu intervir e para tal, solicitou os serviços do fotógrafo Ricardo, em Bragança. O que pretendia era uma manipulação, em que ele passasse para o lado oposto da fotografia, trocando de posição com o outro sacerdote e, assim, ficar ao lado do Papa. Para além disto, escreveu no verso desta fotografia:
«na fotografia do Sr. Bispo devem ficar em vermelho: a capa, o laço e a faixa, botões e cordão; em cor de ouro: cruz peitoral e seu cordão, anel.»
O referido profissional tratou de dar resposta ao solicitado e enviou, via Correio, o resultado para o Pe. Francisco. Só que este não ficou nada agradado com o resultado, pois continuava longe do Sumo Sacerdote. Voltou a escrever ao fotógrafo, mas desta vez num tom mais acintoso, reafirmando a vontade de constar para a posteridade ao lado do Papa. O fotografo Ricardo, acossado pela carta recebida, rapidamente tratou de proceder à manipulação da fotografia. O resultado dessa montagem foi enviado para o Brasil, para aprovação do Pe. Francisco. No verso dessa "fotografia" manipulada, escreveu:
«o tapete será retocado para ficar uniforme, assim como a cruz será disfarçada e ficar apenas a porta»
Imagem 2 - Ensaio da montagem efectuada, em que o Pe. Francisco aparece já do lado esquerdo da imagem, mas ainda sem os referidos retoques e acabamentos.

O trabalho estava concluído e o Pe. Francisco agradado, agora sim, pois estava, finalmente, no sítio certo. Muito rapidamente tratou de reproduzir essa fotografia e em vários tamanhos, distribuindo-as pela sua família. Enfim, conseguiu oficializar a sua versão da audiência papal, que aconteceu no longínquo dia 1 de Outubro de 1962.
A única fotografia conhecida desse momento até ao presente, imortalizada na parede de um salão nobre da casa familiar e em rica moldura dourada, foi essa em que aparece do lado direito de João XXIII e do lado esquerdo da fotografia.
Imagem 3 - Fotografia final, depois da manipulação e das alterações solicitadas pelo Pe. Francisco. Único exemplar conhecido durante todo este tempo.

Só agora, em 2014, e quando se procedeu à derradeira limpeza dos seus aposentos, foi possível encontrar a documentação (fotografias e correspondências), que permitiu conhecer a verdadeira história de uma simples fotografia.

12 agosto 2014

o catedrático da uniformidade

«O jardineiro, como aqueles de que falo, não se dá bem com a luxúria das flores, os seus peristilos e estames, a sua fecundação e até o seu perfume. O jardineiro é um asceta da tesoura, um catedrático da uniformidade. Talha a sebe como quem folheia palimpsestos. Desvia os olhos da carnação da rosa; sente-se bem com as folhas mortas e os galhos secos.» (Agustina Bessa-Luís in A Quinta Essência)

05 agosto 2014

raposa parda

Vivemos desde miúdos com o imaginário da velha história da Raposa que vai ao galinheiro roubar tudo aquilo que consegue. E se puder vai regressar sempre até exterminar toda a comunidade de galináceos. Pois bem, aquilo a que não estamos habituados é ver Raposas a entrar pelo espaço urbano, para bem perto dos humanos procurarem alimento. É o que está a acontecer em frente a minha casa. Uma família de Raposas, todos os dias e quando a noite se prepara para chegar, sai do pequeno espaço "selvagem" onde habitam sitiadas pela urbe e vem para a rua à procura de alimento. Ninguém sabe como foram ali parar, mas a verdade é que há meia dúzia de meses que ali estão. As respectivas autoridades já foram alertadas, mas até agora nada fizeram e o seu agregado familiar tem vindo a diminuir, não sabemos se por escassez de alimento ou se pela acção directa dos muitos cães que por ali vagueiam. Não deixa de ser interessante vê-las aproximarem-se dos humanos e quase comerem das suas mãos. Por outro lado, não deixa de ser muito triste saber que estão condenadas a morrer a qualquer momento.



    (fotografias tiradas um destes dias com o telemóvel)

mediascape: ódio


Como será possível viver assim? Como será possível sequer sobreviver assim? Assim com um eterno sentimento de insegurança e de terror? Assim sem poder perspectivar um futuro, uma vida normal e em paz? Não consigo sequer imaginar.O mais recente e actual conflito em Gaza trouxe-nos, uma vez mais, momentos e imagens impossíveis de crueldade, chacina e extermínio. Ao longo destes dias pudemos ver em directo a destruição impiedosa e cega. Ao ver essas imagens e sua brutalidade não pude deixar de reflectir sobre a raiz, ou melhor, a força que alimenta esta carnificina, o ódio. Ódio que historicamente se alimenta de fanatismos e fundamentalismos e, depois, de momentos como este. E para o perceber bastou-me colocar no lugar de um qualquer palestiniano a quem Israel matou um filho, uma mulher, um pai ou mesmo a família toda e, por nada, destruiu a sua casa, bens e pertences. Imaginem só que uma destas crianças é um vosso filho... Estamos perante um ódio de morte sem fim.

28 julho 2014

grande guerra, a primeira

No dia em que se assinalam cem anos sobre o início oficial da primeira guerra mundial - foi no dia 28 de Julho de 1914 que o Império Austro- Húngaro declarou guerra à Servia, faço referência a este livro de Tim Butcher que estou a ler. Nele podemos encontrar a história de Gavrilo Princip, jovem sérvio bósnio que um mês antes assassinara o arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do Império Austro-Húngaro; facto que acabou por precipitar o mundo naquele horrendo confronto. "O Gatilho" narra a história deste jovem que sonhava com a independência do seu país e mudou o mundo para sempre.Num relato apaixonante, que combina a história, as viagens, a biografia e a literatura, Tim Butcher narra todo o contexto que deu origem à Primeira Guerra Mundial, bem como as suas consequências, sobretudo a da Guerra da Bósnia. Descreve a viagem de Princip e a viagem do próprio autor seguindo-lhe os passos, contextualizando o território e a história e conhecendo inclusive os descendentes da família Princip.


16 julho 2014

mediascape: "e o burro sou eu"

Sim, o burro foste tu Scolari, ao permitires a maior derrota e, acima de tudo, a maior humilhação que o Brasil já sentiu. E essa humilhação não foi apenas desportiva. É todo um país que vive e sofre com as aventuras da sua selecção nacional. Nada nem ninguém poderia antever esta hecatombe do futebol brasileiro perante a organizada e disciplinada Alemanha, mas eram já muitos os sinais de que algo não corria bem no seio da canarinha.
Não tenho problema algum em admitir que gostei muito dessa humilhação. Primeiro porque nunca gostei da soberba, depois porque, independentemente dos sucessos ou fracassos das outras selecções, detesto a sobranceria dos brasileiros, pelo menos daqueles que afirmam Deus como sendo seu conterrâneo e que, numa atitude fundamentalista, educam os seus filhos com a certeza que no futebol serão sempre os melhores do mundo. Detesto, igualmente, a forma como esses mesmos brasileiros se referem aos "seus patrícios". A derrota de Portugal frente à Alemanha foi mote para a "gozação" e para a chacota. Pois bem, aí esta a torna-jeira. É que sempre ouvi dizer que quando se atiram pedras para o ar, é preciso saber se o nosso telhado é de vidro...
Aquilo que aconteceu agora ao Brasil irá ter repercussões impossíveis de adivinhar. É uma ferida aberta e que demorará a cicatrizar. Não haja dúvida de que o futebol no Brasil - o jogador, o treinador, o treino, o dirigismo e tudo o resto - estão em crise. Dá a sensação que estagnaram algures na década de oitenta e de lá para cá apenas se preocuparam com a sua irracional crença.
O jogador brasileiro é, por defeito, um supersticioso. A sua aparente e verbalizada fé em Deus, não é mais do que uma vulgar crendice, traduzida em gestos rápidos e trapalhões ao entrar e ao sair do campo, assim como através da verbalização obrigatória de um "Graças a Deus" com o qual abrem a boca e iniciam qualquer frase ou raciocínio. Insuportável.
Afinal, os burros já não somos nós.

Nota: Texto escrito no dia 8 de Julho de 2014, num local isolado e sem acesso à rede.

as duas razões


Recentemente foi-me oferecido o livro "Nós e a Europa, ou as duas razões" de Eduardo Lourenço, cuja 4ª edição é de 1994. Nele, o autor faz um conjunto de reflexões acerca da relação entre Portugal e a Europa, assim como acerca das várias dimensões da identidade nacional, por semelhança, contraste ou diferenciação em relação às demais identidades europeias e em relação à construção do espaço europeu, na qual participamos desde meados da década de oitenta.
Um dos textos que destaco e que mais me chamou a atenção é, precisamente, o primeiro: "Identidade e Memória", no qual Eduardo Lourenço afirma que Portugal, os Portugueses não têm qualquer dúvida séria relativa à sua existência e à sua identidade... "o nosso grau de segurança ontológica, enquanto povo, é dos mais elevados".
Apesar de ser uma reflexão perfeitamente datada e com cerca de três décadas*, penso que se lê com perfeita actualidade e mesmo num período conturbado da nossa existência, como têm sido estes últimos anos, conseguimos manter "a consistência, a força, a coerência do nosso sentimento de identidade, amalgamadas que estão com a vivência de um espaço-tempo próprio homogeneizado pela língua, pela história, pela cultura, pela religião enquanto «habitus» sociológico, pela sua própria marginalização no contexto europeu, o seu lado «ilha» sem o ser. Mas talvez mais ainda pela presença e permanência, por assim dizer, físicas, ao alcance dos olhos e das mãos, de uma estrutura social de um arcaísmo extremo, quer dizer, de um enraizamento profundo no passado".

* Palestra proferida pelo autor num colóquio em Durhan (EUA), em 1984.

Nota: Texto escrito no dia 7 de Julho de 2014, num local isolado e sem acesso à rede.

manuais escolares, outra vez

Este é um daqueles assuntos que mais parece um mito de eterno retorno, pois é algo que, ciclicamente, me assalta - e, concerteza, a quase totalidade dos pais e encarregados por crianças em idade escolar - o sistema nervoso e a tranquilidade da alma. Para ser mais preciso, essa angústia acontece todos os anos durante o período das férias de Verão.
A ditadura dos manuais escolares. Já aqui reflecti sobre este assunto, mas neste momento e sem tentar ser repetitivo, retorno a ele porque fui surpreendido por mais um pormenor sórdido desta super-indústria que esmaga, ano após ano, as economias das famílias. Nos últimos dias recebi por email a lista de livros para o próximo ano lectivo da minha filha. No email enviado pela sua Directora de Turma alertava-se para uma nota que acompanhava essa listagem e onde se podia ler:
"Muito Importante: de acordo com o Despacho nº15971/2012, as Metas Curriculares estão a ser implementadas nas diferentes disciplinas segundo o quadro abaixo. Assim, apesar de os manuais adotados não mudarem, estes sofrem adaptações por parte das editoras. Isto implica que os alunos não possam usar a edição antiga dos mesmos manuais".
Bem, eu sei que o mais fácil e cómodo seria nem sequer pensar no assunto, comprar os livros e seguir com a minha (nossa) vida, mas não consigo, é mais forte do que tentativa de racionalizar a questão. Ora porra! Legisla-se que os manuais escolares ao serem adoptados têm uma duração de vida de seis anos, dando alguma estabilidade pedagógica e algum alívio financeiro às famílias. Não satisfeitas com isto as editoras trataram logo de tentar contornar esse constrangimento legal ao seu negócio e lucro, inventando essas adaptações de ano para ano. Se posso perceber o desconforto que essa legislação criou e a tentativa das editoras de salvaguardar o seu negócio, já não consigo perceber a atitude das escolas e dos professores ao aceitarem essa estratégia meramente comercial e que não visa o interesse pedagógico e dos alunos.
Inadmissível esta chantagem sobre os alunos, professores e escolas. Ou seja, adoptam-se os livros por seis anos, mas o livro do 1º ano nada terá haver com aquele que for comprado no 6º e último ano.
Não percebo também a passividade do ministério da educação que, consciente destes factos, nada faz para travar este sector editorial, que se apresenta com um fortíssimo lobby e que encontra sempre forma de contornar a lei.
Enfim, lá vamos nós "andando com a cabeça entre as orelhas...".

Nota: Texto escrito no dia 6 de Julho de 2014, num local isolado e sem acesso à rede.

30 junho 2014

instante urbano XXVIII

Adivinhava-se mais uma manhã igual a tantas outras passadas no Arquivo Distrital de Bragança. Lugar bonito, ambiente tranquilo e "mergulhos" ao século XIX e XVIII. Nessa manhã, mal me tinha instalado e ainda sozinho na enorme sala de leitura, sinto um anormal burburinho que se foi aproximando. Uma visita de estudo de alunos do ensino básico. À frente do grupo a técnica do Arquivo que iria guiá-los pelos diferentes espaços e que ao ver-me cumprimentou-me e pediu-me licença para me incomodar durante uns minutos.
- Concerteza... - respondi eu, antevendo o que iria suceder.
Num ápice me vi rodeado de dezenas de crianças que, sem cerimónia, se aproximaram até para lá (cá) do meu limite de espaço vital e de conforto. A técnica explicou aos miúdos o que se podia fazer naquele espaço e depois pediu-me para eu lhes explicar o que estava a fazer.
Tentando utilizar uma linguagem simples lá tentei demonstrar o que andava a investigar e para que servia essa investigação. Depois de uma curta apresentação e de algumas dicas da Técnica do Arquivo, para terminar a minha intervenção, perguntei se alguém queria saber mais alguma coisa.
Depois de um breve silêncio, aconteceu isto:
- Para que serve o computador? - pergunta um miúdo que estava com a cara colada ao monitor e que pelo aspecto não queria saber de mais nada a não ser do computador.
- Porque é que as folhas têm esta cor, estão tão amarelas? - pergunta outro.
- Mas o que estás aqui a fazer? - e outro...
- Tu não fazes mais nada? - e outro...
- Ficas aqui muito tempo? - e outro...
A todas as questões fui tentando responder até que a técnica, com um sorriso nos lábios, disse que era melhor continuarem a visita e deixarem o investigador trabalhar. Assim, foram.

26 junho 2014

o melhor do mundo e arredores

Eu não gosto muito, ou mesmo nada, de escrever sobre futebol. Nem sobre o meu clube, nem sobre a selecção, mas a prestação da selecção nacional neste mundial do Brasil foi má demais.
Nada correu como devia ou teria que correr. Andaram-nos a vender a ideia de que este era o ano de Portugal e aí a comunicação social desempenhou o papel principal. Uma mensagem fraudulenta, que criou expectativas infundadas.
Uma convocatória errática, com jogadores que não eram os melhores nas suas posições e um selecionador teimoso, mas ao mesmo tempo permeável às pressões externas: às pressões de interesses alheios e à indústria do futebol. Com Paulo Bento a sensação que fica é que ele escolhe sempre os mesmos. Parece uma família.
Depois a questão física e a condição com que a maioria dos jogadores se apresentaram para este torneio. Outra vergonha. Dos guarda-redes aos ponta-de-lança, todos apresentavam índices de competitividade muito baixos. Lesões a toda a hora e em todo o lado, cuja culpa não pode ser o tempo, a humidade ou o calor. 
A histeria criada pelos media à volta da comitiva portuguesa, em geral e à volta de Ronaldo, em particular, foi uma vergonha. A notícia era sempre o penteado de Ronaldo, o sorriso de Ronaldo, o aceno de Ronaldo, as meias do Ronaldo, o espectáculo dentro do espectáculo...
Por último, o melhor do mundo. Reparem como não adiantou de nada, nem esperar que um só jogador possa fazer o que deveria ser uma equipa a fazer. Tantos jogadores fantásticos e eficazes temos visto neste campeonato - o frio Mueller, o esteta Van Persie, o simples Messi e o deficiente Eimar, entre outros. O vedetismo, o brilho da divindade ofuscou o resto, o principal, que seria o todo, a equipa. "À mulher de César não basta ser, tem que parecer" e a Ronaldo não basta ser o melhor do mundo e passear-se pelos campos. Tem que jogar, acreditar e efectivar. Nunca o fez neste torneio. É inadmissível.
Pode ser muito importante para o próprio e para a legião de fãs e de gajas que têm sonhos húmidos com o rapaz, mas a verdade é que foi um flop e é inadmissível para um jogador profissional com as responsabilidades de Ronaldo. O melhor do mundo e arredores afinal nem o melhor dos nossos conseguiu ser.
Por tudo isto e mais, ainda bem que já fomos eliminados. Já deveríamos ter sido eliminados não fosse o golo de Varela contra os EUA. Melhor, nem lá deveríamos ter ido. A verdade é esta. Simples e mais barata. O resto é caca.

20 junho 2014

até que enfim...


Já começava a não acreditar na sua publicação. Foram longos seis anos de espera para chegar até nós (vós). Com a chancela de Burkeley, Universidade da Califórnia, este livro reúne um conjunto de textos de um grupo heterogéneo de académicos e investigadores portugueses, espanhóis e americanos. Fica, igualmente e a par da tese que em breve publicarei, como um dos principal registos da frequência do mestrado em Estudos Culturais que realizei a partir de 2008.
Já apresentado nos EUA, mas ainda sem datas agendadas para Portugal, sei que acontecerá algo em Lisboa e algo no Porto. Já pode ser adquirido aqui e em breve no circuito comercial normal.

nova LER

Ora aí está a revista LER numa nova existência (mais uma...), com novo formato, nova paginação, novo grafismo, novos conteúdos, novo preço e nova periodicidade - agora trimestral (se bem entendi, Março, Junho, Setembro e Dezembro). Apesar dessa perda na frequência mensal, temos agora uma revista grande, com boa apresentação e com artigos muito interessantes. Estava um pouco receoso que o processo de mudança fosse significar perda qualitativa, mas não, pelo menos neste "primeiro" número. Aguardemos por Setembro para confirmar essa ideia e, acima de tudo, para haver mais.

Apesar de trimestral e de haver muito tempo para a ler, acontece que já está lida e, assim, posso destacar a boa entrevista ao grande Ferreira Fernandes, a nova secção "correspondentes", o ensaio "A angústia de não ler o suficiente", o texto de Tim Butcher sobre Gavrilo Princip (excerto da obra "o Gatilho") e, por último, o texto de António Mega Ferreira "Tolstoi ou o caminho da redenção".

25 maio 2014

mediascape: selfies

Agora que estou a ver a Quadratura do Círculo e a ouvir o Pacheco Pereira, lembrei-me do seu artigo de ontem, "dia de reflexão", no Jornal Público. Num artigo intitulado "O dia da censura", em que o autor se questiona sobre aquilo que se pode ou não pode dizer, perguntar, ou mesmo pensar no dia de reflexão para as eleições europeias, a determinado momento escreve:
"...Ou de como o selfie do PS é uma afronta aos direitos humanos da câmara fotográfica que teve de rebaixar a sua condição de telefone inteligente para minimizar o ar de parvos dos fotografados, que é o aspecto que os selfies dão às pessoas? Será que posso hoje falar em nome dos direitos da máquina, obrigada a estas violências?"

a quem possa interessar, eu vou lá estar...


granta portugal


Com o número três já nas bancas, confirma-se a iniciativa da editora Tinta da China. Pena é não ser mais assídua, pois a sua qualidade é excelente. Queremos mais. 

22 maio 2014

relíquias



Dois livrinhos encontrados no acervo do Padre Manuel Vale, relativos à novena da Senhora da Serra. Quando fiz trabalho de campo e escrevi (2007) acerca desse santuário li muitas referências a estes velhos livros, mas nunca os tinha encontrado. Aí estão. Um de 1836 e outro de 1890. Bonito.

15 maio 2014

a floresta


Mais um excelente número (42) da colecção «ensaios da fundação». Neste ensaio o autor propõe-nos um olhar sobre a nossa floresta, um dos principais recursos do país. Perceber as suas indústrias, a sua biodiversidade, os serviços ambientais, os ecossistemas, os riscos activos, dos quais se destacam os incêndios. Leitura importante para quem também se interessa pelas questões da ruralidade.

02 maio 2014

Tio Padre Manuel (R.I.P.)


Desde muito novo me habituei a tratá-lo por Tio Padre Manuel, pois pertencendo a uma família onde havia mais padres e até bispos, era natural e necessário haver elementos distintivos. Em todo o caso, recordo-o sempre como uma pessoa muito séria, muito reservado, altivo e ríspido no convívio com toda as pessoas. De miúdo lembro-me de ter algum medo dele e sempre que queria passar pela canelha, espreitava para ver se ele estava ou não na varanda. Era aí que ele passava muitas horas dos seus dias a andar de uma ponta para a outra, sempre atento a quem passasse na estreita passagem que dava acesso à eira. Normalmente essa passagem era só utilizada pela família, o que implicava sempre ter que conversar com ele. Era curioso e queria saber para onde ou de onde vínhamos. Enquanto miúdo não me lembro de ter tido uma conversa séria com ele. Apenas o essencial da boa educação. Recordo-o no altar a rezar a missa, sempre disposto a dar sermões e recordo-o nas suas caminhadas diárias pelas redondezas da aldeia, aproveitando para conversar com quem se cruzasse no seu caminho. Mais tarde, já crescido começamos a comunicar, ainda que a espaços e sempre com mais interlocutores por perto. Sempre que era preciso, lá pedia a meu pai para servir de intermediário, pois a fama de homem antipático e misantropo, tolhiam-me a vontade de me dirigir a ele.
Na aldeia a sua fama era de pessoa inacessível e de difícil trato. Apenas os seus sobrinhos mantinham uma relação mais ou menos próxima e cordial com ele. Dizia-se que ele nunca quis ter uma vida de sacerdote, que ele quando era jovem era um rapaz muito pimpão e com muitas pretendentes. Terá sido uma promessa a sua mãe a força que o empurrou para essa vida.
Foi já muito perto do seu fim que consegui vencer os meus preconceitos e dirigir-me a ele. A propósito da história de vida de D. Manuel António Pires que estou a escrever, sabia que ele tinha sido seu secretário pessoal em Silva Porto - Angola e, portanto, seria uma fonte importante de informações e documentações. Assim foi. Visitei-o três vezes no início de 2013, ainda não estava doente e pareceu-me sempre bastante lúcido, apesar das falhas de memória. Afinal, encontrei alguém com muita vontade de falar, prestável e até afável... Contou-me muitos episódios da sua aventura em África e enquanto secretário do Bispo de Silva Porto. Mostrou-me fotografias e documentos. Emprestou-me todo o material que eu quis. Confidenciou-me que nunca gostou muito de ser pároco e de aturar paroquianos e que foi essa a principal razão pela qual aceitou ir para Angola. Falou-me do seu padrinho, sua grande referência na vida e de como gostava de "grabanços".
Desde então não voltei a falar com ele. Sei que o seu fim foi um processo lento e de alguma agonia. Faleceu hoje, dia 1, quando contava já noventa e muitos anos. Com ele, desaparece a sua geração na família. Lamento a sua morte e lamento, acima de tudo, não ter tido a sensibilidade para o ter conhecido mais e melhor.

[Imagem: Pe. Manuel Vale (2º à esquerda), com outros 3 missionários a jantar a bordo do navio Pátria entre Lisboa e Luanda no início da década de 60. Fotografia do seu acervo pessoal.]

28 abril 2014

instante urbano XXVII

Num dia de relativo calor, hoje, entro no carro e o cheiro que sinto é idêntico àquele que guardo na memória da velhinha R12. Se há memória boa em mim, essa é a olfactiva. Boa recordação. 

a quem interessar... eu vou

a senhora e o ouro peregrino

Nos longos serões à lareira, abrigados das terríveis geadas e procurando aquecer os ossos antes de enfrentar o desconforto da cama, conversava-se acerca de tudo; daquilo que nos dizia respeito, mas também acerca daquilo que nada era nosso. Aproveitando a presença de alguns familiares e vizinhos, desfiava-se conversa, trocavam-se informações importantes sobre as coisas do lugar, coscuvilhava-se sobre a sorte e o azar dos outros e contavam-se histórias, factos ou ficções, de um tempo passado que só a memória dos mais velhos alcançava.
Uma dessas histórias que repetidamente fui ouvindo relatava acontecimentos dos meados do século XX. Pelos vistos por essa época as mulheres da aldeia e de muitas outras povoações desfizeram-se, se não de todo, pelo menos de grande parte do seu ouro e prata. Sem grandes hesitações ou dúvidas ofertaram-no a Nossa Senhora de Fátima que por esse tempo andou em peregrinação por terras de Trás-os-Montes.
Foi em Junho de 1949, entre os dias 1 e 17, que aconteceu essa peregrinação da imagem da Senhora por toda a diocese de Bragança, depois de ter feito igual viagem pela diocese da Guarda. A Igreja organizou e preparou com os maiores cuidados e pormenores essa visita. Através dos seus elementos (organizações, párocos e religiosos(as)) foi passando a mensagem ao povo. Também através do seu principal órgão de comunicação, o Jornal Mensageiro de Bragança, ia dando instruções acerca dos percursos, das datas e horas das cerimónias, assim como dos comportamentos apropriados para os leigos e devotos da Senhora.

 (JMB - 1/5/1949)

(JMB - 10/5/1949)

Estes dois recortes retirados do Jornal Mensageiro de Bragança, exemplificam muito bem a atitude da Igreja naquela ocasião. Num tempo em que a esmagadora maioria da população da diocese vivia numa miséria atroz, a Igreja, passeando a sua "Mãe", sempre rica e oponente, não hesitou, com o seu discurso pedinte e ganancioso, retirar o pouco e o nada dessa gente temerosa. Enfim, outros tempos.    

26 abril 2014

avô cantigas

Hoje a matiné foi para assistir um espectáculo do Avô Cantigas. A primeira canção que cantou foi a cantiga do avô Cantigas e no seu fim o artista disse que essa canção era um clássico, pois faz este ano trinta e dois anos de existência. Relembrou aos mais pequenotes que essa mesma música já serviu para entreter os seus pais. Verdade. Bastou esta afirmação para me levar para uma reflexão acerca do assunto.
Os meus filhos vêem os mesmos filmes e desenhos animados, lêem as mesmas histórias e ouvem as mesmas músicas, que eu um dia também pude ver, ouvir ou ler. Mas eu nunca tive acesso às histórias e às brincadeiras que entreteram os meus pais nas suas infâncias. Uma ou outra sobreviveu e serão como que imortais, mas na sua grande maioria desapareceram. A razão principal para tal reside no facto de no intervalo entre a geração dos meus pais, agora avós, e a minha ter-se dado o advento das novas tecnologias e da magia da gravação - cassete, vhs, cd, dvd, disco duro, pen, etc - que contribuíram definitivamente para a perpetuação das memórias. Creio que se chegar a ser avô, irei continuar a propor aos meus netos as cantigas do avô Cantigas. Fungagá.

07 abril 2014

a verdade nacional

Numa recente pesquisa ao arquivo digital do Jornal Mensageiro de Bragança, encontrei este parágrafo.

Não querendo descontextualizar, informo que este excerto foi retirado de um artigo intitulado "Nova mascarada trágica e sacrilega" do então Presidente da Câmara Municipal de Vinhais, Padre Firmino Martins, nas páginas 1 e 2 da edição nº 254 de 10 de Janeiro de 1949.

curas...

Aproveitando o facto de hoje se assinalar o Dia Mundial da Saúde:
Ao abrir um velho baú guardado na cave de uma casa desabitada, encontrei uma data de papeis soltos e correspondências de um outro tempo. No meio disso tudo, dei com os olhos numa velha receita para a cura do herpes Zóster - infeccioso e provocado pela reactivação do vírus da varicela, doença popularmente conhecida por zona. Como ainda hoje não há cura eficaz para essa doença, há quem tenha fé em curas alternativas e na boa sorte...

04 abril 2014

escritora a sério


Assinalando o centenário de nascimento de Marguerite Duras - 4 de Abril de 1914. Li-a quando jovem, continuo a lê-la quando adulto. Escrita impressionante. Do livro Escrever que utilizei na tese de mestrado, a propósito do acto de escrever:
"Gostava de contar a história que contei pela primeira vez a Michelle Porte, que tinha feito um filme sobre mim. Num dado momento da história, eu encontrava-me naquilo a que se chamava a despensa na «pequena» casa com a qual comunica a casa grande. Estava só. Esperava Michelle Porte nessa despensa. Fico muitas vezes assim, sozinha, em lugares calmos e vazios. Durante muito tempo. E foi nesse silêncio, nesse dia, que, de repente, vi e ouvi contra a parede, muito perto de mim, os últimos minutos da vida de uma mosca vulgar.
Sentei-me no chão para não a assustar. Já não me mexi mais.
Estava só com ela em toda a extensão da casa. Até então não tinha pensado em moscas a não ser, sem dúvida, para dizer mal delas. Como vós. Fui educada, tal como vós, no horror desta calamidade que afecta o mundo inteiro, que transmite a peste e a cólera.
Aproximei-me para a ver morrer.
Ela queria escapar à parede onde se arriscava a ficar prisioneira da areia e do cimento depositados sobre essa parede com a humidade do parque. Ela debatia-se contra a morte. Aquilo durou talvez entre dez a quinze minutos e, depois, parou. A vida tinha tido de parar. Fiquei ainda a ver. A mosca continuou contra a parede, como eu a tinha visto, como colada a ela.
Enganara-me: ainda estava viva.
Fiquei ainda ali, a olhá-la, na esperança de que ela fosse recomeçar a ter esperança, a viver.
A minha presença tornava essa morte ainda mais atroz. Eu sabia-o e fiquei. Para ver. Para ver como essa morte invadiria progressivamente a mosca. E também para tentar ver de onde viria essa morte. De fora, ou da espessura da parede, ou do solo. De que noite viria, da terra ou do céu, das florestas próximas, ou de um nada ainda inefável, muito próximo, talvez, talvez de mim, que procurava achar os trajectos da mosca em trânsito para a eternidade.
Já não sei o fim. Sem dúvida que a mosca, já sem forças, terá caído. As patas ter-se-ão descolado da parede. Terá caído da parede. Já não sei mais nada, a não ser que me fui embora. Disse para comigo: «Estás a ficar louca». E fui-me embora dali.
Quando a Michelle Porte chegou, mostrei-lhe o lugar e disse-lhe que uma mosca tinha morrido ali, às três e vinte. A Michelle Porte riu-se muito. Teve um ataque de riso. Tinha razão. Sorri-lhe para acabar com a história. Mas não: continuou a rir. E eu, quando vo-la estou a contar, assim, de verdade, na minha verdade, é o que acabei de dizer, o que foi vivido entre mim e a mosca e que ainda não se presta ao riso.
A morte de uma mosca é a morte. É a morte em marcha em direcção a um certo fim do mundo, que alarga o campo do último sono. Vemos morrer um cão, vemos morrer um cavalo e dizemos qualquer coisa, por exemplo, coitado do bicho… mas se uma mosca morre… não dizemos nada, não tomamos nota, nada.
Agora está escrito. Talvez seja neste género de derrapagem – não gosto desta palavra – muito sombria, que nos arriscamos a incorrer. Não é grave mas é um acontecimento único em si mesmo, total, de um significado enorme: de um sentido inacessível e de um alcance sem limites. Pensei nos judeus. Odiei a Alemanha como nos primeiros dias da guerra, com todo o meu corpo, com toda a minha força.
(…)
Também está certo que a escrita conduza a isso, a essa mosca em agonia, quero dizer: escrever o pânico de escrever. A hora exacta da morte, consignada, tornava-a já inacessível. Dava-lhe uma importância de carácter geral, digamos que um lugar determinado no mapa geral da vida sobre a terra.
Essa exactidão da hora a que ela tinha morrido fazia com que a mosca tivesse tido exéquias secretas. Vinte anos depois da sua morte, a prova aqui está, ainda se fala dela.
Eu nunca tinha contado a morte dessa mosca, a sua duração, a sua lentidão, o seu medo atroz, a sua verdade.
A exactidão da hora da morte remete para a coexistência com o homem, com os povos colonizados, com a massa fabulosa dos desconhecidos do mundo, as pessoas sós, aquelas da solidão universal. A vida está em toda a parte. Da bactéria ao elefante. Da terra aos céus divinos ou já mortos.
Eu não tinha organizado nada em torno da morte da mosca. As paredes brancas, lisas, sua mortalha, estavam já ali e fizeram com que a sua morte se tenha transformado num acontecimento público, natural e inevitável. Aquela mosca estava, manifestamente, no fim da vida. Eu não podia impedir-me de a ver morrer. Já não se mexia. Havia também isso, saber, também, que não é possível contar que essa mosca existiu.
Já passaram vinte anos.
(…)
Sim. É isso, esta morte da mosca, tornou-se o deslocamento da literatura. Escrevemos som o saber. Escrevemos a olhar uma mosca morrer. Temos o direito de o fazer.
(…)
À nossa volta todo o escrito, é isso que é preciso chegar a perceber, todo o escrito, a mosca, ela, escreve, nas paredes, escreveu muito na luz da sala grande, reflectida pelo tanque. Ela podia aguentar-se numa página inteira, a escrita da mosca. Então seria uma escrita. A partir do momento em que ela poderia sê-lo, ela é já uma escrita. Um dia, talvez, no decorrer dos séculos que hão-de vir, ler-se-ia essa escrita, seria também ela decifrada e traduzida.
(…)
Podemos também não escrever, esquecer uma mosca. Olhá-la, apenas. Ver como, por sua vez, ela se debateria."
(Duras, 1994:40 a 48)