E ao fim de tantos anos lancei o meu primeiro balão de S. João. Em dois possíveis, um ardeu e o outro, para alegria da criança, subiu e desapareceu no horizonte... Nada mau para um principiante. Sem qualquer relação, nesse momento aquilo que me veio à memória foi a estranha sensação do primeiro foguete que um dia lancei. Alguém registou este momento.
---------"Viajar, ou mesmo viver, sem tirar notas é uma irresponsabilidade..." Franz Kafka (1911)--------- Ouvir, ler e escrever. Falar, contar e descrever. O prazer de viver. Assim partilho minha visão do mundo. [blogue escrito, propositadamente, sem abrigo e contra, declaradamente, o novo Acordo Ortográfico]
24 junho 2015
23 junho 2015
mediascape: (des)acordo ortográfico
"Uma vez que se chega a este acordo na base do consenso, não posso assinar este documento que não está escrito da forma que se fala em Angola. Camões não escreveu assim".
António Bento Bembe, secretário de Estado dos Direitos Humanos angolano
Estas declarações foram proferidas na XIV Conferência dos Ministros da Justiça da CPLP, em Díli. Isto na mesma altura em que decorre em Portugal uma iniciativa cidadã de recolha de assinaturas para a realização de um referendo sobre o acordo ortográfico da língua portuguesa. Todos poderão participar, subscrevendo esta iniciativa aqui. A pergunta que é proposta para referendar é: “Concorda que o Estado Português continue vinculado a aplicar o «Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa» de 1990, bem como o 1.º e o 2.º Protocolos Modificativos ao mesmo Tratado, na ordem jurídica interna?”
Escusado será dizer que já subscrevi esta iniciativa referendária.
Para mais pormenores visitem https://referendoao90.wordpress.com/
19 junho 2015
mediascape: a Índia aqui tão perto
O jornal Público de ontem, dia 18 de Junho, trazia uma reportagem sobre a Índia muito interessante. Sendo um país imenso, culturalmente muito heterogéneo e economicamente muito pobre, tem índices de desenvolvimento típicos de um país de terceiro mundo. A peça jornalística traz-nos o esforço que o Estado indiano e os diferentes níveis de poderes regionais tem realizado para que os indianos, principalmente aqueles que vivem no espaço rural - e são cerca de 70% dos 1,2 mil milhões de indianos, usem as sanitas. Pelos vistos 53% dos agregados familiares desse imenso território rural indiano não tem sanita nas suas habitações e defecam desde sempre ao ar livre. O esforço do Estado em equipar as casas com casas-de-banho, nomeadamente com sanitas, tem sido um esforço em vão, pois grande parte das pessoas que tiveram acesso a elas, preferem continuar a ir à rua fazer as suas necessidades. Muitos deles aproveitaram a nova construção anexa às suas habitações para lá arrumarem coisas. O esforço estatal procura alterar este costume ancestral que anualmente mata centenas de milhares de pessoas, principalmente crianças. Esta situação é paradigmática daquilo que são as representações sociais e simbólicas da doença/saúde. Enquanto que para o Estado e seus técnicos se trata de um problema de saúde pública que é preciso resolver, para os cidadãos defecar ao ar livre faz parte de um todo, de uma vida saudável e virtuosa. Assim sendo, é lógico que não basta construir retretes, é preciso um esforço pedagógico, educacional e geracional para que, pelo menos, as novas gerações se habituem e percebam a importância do uso das sanitas.
Esta situação relembra-me o tempo em que também em Portugal e também no espaço rural, as casas não estavam equipadas com essa divisão "pós-moderna" que era a casa-de-banho. Na altura em que começaram a roubar espaço às casas para construírem esses cubículos sanitários, foram muitas as resistências e recordo um caso em concreto, passado talvez em finais dos anos 70, ou início dos de 80, em que um lavrador vizinho, depois de muito refilar e resistir, lá foi convencido pelos familiares mais novos para a necessidade e o conforto de ter casa-de-banho em casa. Mal convencido, lá decidiu fazer a vontade aos mais novos e resolve construir não uma, mas duas pequenas casas-de-banho encostadas uma à outra... A verdade é que esse lavrador, apesar do investimento e do novo espaço sanitário, preferiu continuar a ir à loja dos animais, no piso inferior de sua casa, para se aliviar das suas precisões. A Índia aqui tão perto.
18 junho 2015
ao espelho...
(página 1 do jornal Voz Portucalense, edição de 17/6/2015)
(página 13 do jornal Voz Portucalense, edição de 17/6/2015)
15 junho 2015
ainda vai dar jeito e será utilizada...
"Ao ser dita, ao ser inscrita no lugar próprio, no silêncio exacto, no branco vivo da página, a coisa não só se redime do grande vazio do esquecimento, resgatada pelo sentido que agora lhe é dado, ressuscitando nesse dizer do seu nome, como também se torna outra coisa. Ressuscita, sim, mas transformada. Não totalmente diferente, só um nadinha, o que torna tudo ainda mais difícil. Mas, atenção, não me estou a queixar. Escrever - a escrita ou, em termos mais gerais, essa forma de pensamento a que chamamos imaginação - é o único verdadeiro superpoder que temos".
Jacinto Lucas Pires, in Granta 5
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nomeadas
informalidades
Não sou muito dado a formalismos ou a sociais formalidades, mas o oposto, pelo menos o extremo oposto, também me desagrada, deixa-me desconfortável e sem saber como me comportar. Isso mesmo, não sei como posicionar-me fisicamente e a reacção, irreflectida, é sempre a contracção corporal e expressiva. Passaria muito bem e melhor sem esses momentos, sempre inesperados e imprevistos, de contacto e interpelações.
Serve este prefácio, em jeito de declaração comportamental, para contextualizar a descrição de uma situação que ocorreu há poucos dias.
Participante numas jornadas sobre memória, património, arte e museus, em que se falava essencialmente do papel dos museus e das casas-museu para a preservação da memória dos indivíduos e das comunidades, assisti a uma intervenção de um ilustre autarca do norte. Enquanto o ouvi-a decidi tentar falar com ele. Aguardei-o à saída do auditório. Depois de o cumprimentar e de me identificar, comecei por fazer referência à sua intervenção e à nota por ele dita sobre a famosa empresa de turismo que opera no rio Douro. Apenas lhe referi a impressionante dimensão dessa empresa quando aquilo que vende é paisagem, um produto que existe desde sempre e que é de todos... Num tom descontraído, ele não só concordou com a minha nota, como aproveitou-a para uma inusitada e surpreendente opinião pessoal sobre as actividades praticadas por esse tipo de turismo, qualificando-as abjectamente e utilizando um vocabulário boçal e desqualificador, revelador do carácter, da estrutura e da manjedoura de onde provém. Procurei bem depressa mudar de assunto e por-me a caminho. Não me arrependi de o interpelar, mas vim embora, reflectindo sobre esta desagradável informalidade que alguns sujeitos teimam em impor na dialéctica social. Mas que raio, era a primeira vez que falava comigo; sabia lá ele quem eu era! Nada urbano este momento.
Tsipras disse...
«Nós carregamos às costas a dignidade de um povo, mas também a esperança dos povos da Europa. É carga demasiado pesada para a ignorarmos.
Não é uma questão de obsessão ideológica. É uma questão de democracia.
Não temos o direito de enterrar a democracia europeia no lugar em que nasceu.»
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actualidades
10 junho 2015
distorcedor
"No homem de letras, o fascínio pelos negócios e as suas aritméticas é sempre um entusiasmo inoportuno, como qualquer vocação tardia. Imagine-se uma senhora de meia-idade a ensaiar os primeiros pliés e ter-se-á ideia do ridículo a que o literato se expõe ao conferir guias de remessa ou ao calcular margens de lucro. O lugar do bibliófilo é entre livros,impraticável. Quem escreve e lê muito habitua-se a olhar para a realidade através de lentes literárias que a distorcem".
Bruno Vieira Amaral, in Granta 5
09 junho 2015
sempre um prazer
É sempre um prazer ouvir David Bowie. Esta colectânea chegou-me em forma de presente. Obrigado Daniel.
07 junho 2015
comer, brincar, escrever
"Comer tudo aquilo com que se brincou. Poderia ser uma definição da escrita. Quem sabe: tenho de comer o que escrevo, o que não escrevo devora-me. O que como não desaparece porque o como. Nem eu desapareço por ser devorada. Acontece sempre o mesmo quando, ao escrever, as palavras se transformam noutra coisa, em nome da exactidão, quando as coisas se tornam autónomas e as metáforas roubam o que não lhes pertence."
Herta Müller, in Granta 5
05 junho 2015
03 junho 2015
hetero-retrato
Uma querida amiga enviou-me esta imagem com a seguinte mensagem acoplada...
"Repara na imagem! Diz lá se não pensaste logo em ti……foi o que me ocorreu de imediato."
a quem interessar...
Não vou poder lá estar, mas fico feliz pela iniciativa da Academia de Letras de Trás-os-Montes. Façam o favor de adquirir e conheçam Trás-os-Montes pela escrita das nossas escritoras.
31 maio 2015
solilóquio
Olhar à volta e perceber que estamos sós. Desencaixados e sem empatias. Não me resta qualquer ilusão.
29 maio 2015
na universidade católica
Sessão de apresentação do livro "D. Manuel António Pires, história de vida de um missionário (1915-2015)", no passado dia 27 de Maio, pelas 19 horas, na Universidade Católica.
Alguns momentos dessa sessão que contou com a presença dos bispos do Porto e de Bragança-Miranda, assim como do Prof. Doutor Henrique Manuel Pereira, que fez o favor de apresentar a obra.
Intervenção:
Boa tarde,
1- Agradecimentos:
Aos presentes,
Aos membros da mesa - a D. António Francisco dos Santos, Bispo do Porto, pela sua presença, participação e pelas simpáticas palavras, a D. José Manuel Cordeiro, Bispo de Bragança-Miranda, pela sua presença aqui e durante todo o projecto, ao Professor Doutor Henrique Manuel Pereira, meu amigo Henrique, por nos abrir as portas desta casa, pelas palavras, pela colaboração, pelo saber e pela disponibilidade para este nosso projecto, para este livro. Grato me sinto.
Aos familiares de D. Manuel António Pires e a todos quantos participaram e informaram este trabalho.
2- Apresentação/explicação deste livro:
a. Ideia e âmbito,
b. Ponto de partida - textos manuscritos,
c. Partes que constituem o livro,
Estamos perante uma história imperfeita, porque cheia de hiatos e lapsos temporais, de uma vida longa e preenchida... O que nos levantou alguns problemas metodológicos: que fontes utilizar?, existem testemunhos contemporâneos?, como chegar às instituições da Igreja?, como suprimir as distâncias geográficas que balizaram a sua vida, a sua missão e a sua actuação?
Aquilo que fizemos, dadas as limitações e os constrangimentos existentes, foi utilizar toda a documentação e informação disponíveis para preencher os diferentes tempos de vida de D. Manuel.
3- Considerações:
Agora e depois do afastamento temporal e emocional necessários em relação ao processo de investigação e ao processos de escrita, consideramos oportuno trazer-vos algumas considerações, resultantes de alguma reflexão entretanto realizada...
a) Numa perspectiva diacrónica, podemos afirmar que a permanência e o trabalho missionário de D. Manuel António Pires em Angola e em Silva Porto se caracterizou por três ambientes distintos:
· Entre 1955, ainda Coadjutor, e 1961/62, já titular da diocese, num ambiente de paz social e política, fortemente controlado pelas forças e valores do Estado Novo;
· Entre 1961/62 e 1964, num ambiente de inquietude e sobressalto, provocados pelo terrorismo e pelos movimentos guerrilheiros que foram assediando a região;
· Entre 1974 e 1979, num ambiente de caos completo e permanente, face às destruições das guerras;
b) Ainda em diacronia, perceber como a Igreja, e em concreto a Igreja de Angola, e mais em particular, a Diocese de Silva Porto e D. Manuel, enquanto responsável máximo dessa diocese, vai adequando o seu trabalho, a sua missão, as suas preocupações, ao combate ideológico temporal da instituição da Igreja contra os seus "inimigos" ou "adversários". É perfeitamente perceptível no trabalho de D. Manuel (e provavelmente dos outros bispos contemporâneos também), através da sua correspondência, através das Cartas Pastorais, das Circulares e de artigos publicados, as suas preocupações com:
* O Protestantismo, numa primeira fase da sua estadia em Angola, em que chega a publicar a tradução de italiano para português, da obra "Comunidades dissidentes", na qual se identificam e caracterizam as comunidades não católicas existentes. Os protestantes como entidades rivais, presentes no mesmo território, mais antigos e nalguns casos com maior implementação na região, que roubavam almas ao catolicismo;
* Com a realização do Concílio Vaticano II, no qual D. Manuel participou nas suas quatro sessões, e com as conclusões do mesmo, assistimos a uma mudança de atitude e as preocupações pastorais centram-se agora no combate ao Comunismo. Verdadeira ameaça e que ocupa tempo e espaço não só a D. Manuel como à própria Igreja angolana. Isso pode ser testemunhado pelos documentos resultantes das Conferências Episcopais de Angola e S. Tomé, durante a segunda metade da década de sessenta e início da de setenta;
* Depois, com o 25 de Abril de 1974 em Portugal e a independência de Angola em 1975, assistimos a nova alteração de paradigma e nessa altura face aos ataques dos movimentos políticos angolanos, ateus, secularizantes da sociedade e do estado, a Igreja e, neste caso em concreto, D. Manuel desvaloriza o problema dos protestantes, procurando neles aliados face a esse novo inimigo comum;
* A própria Igreja em Angola procurou muito rapidamente adequar-se aos novos tempos e às novas realidades, produzindo Cartas e outros documentos onde as palavras democracia e liberdades aparecem com destaque e como grandes novidades face a discursos anteriores.
c) Numa perspectiva sincrónica, perceber como enquanto entidades estruturadoras e estruturantes do território, as dioceses eram administrativamente importantes. Eram as dioceses que estabeleciam alguma organização a grande parte do imenso território das colónias portuguesas. Eram as dioceses quem infra-estruturava muitas localidades remotas. Eram os Bispos dessas dioceses os principais responsáveis pela gestão, pela estratégia, pela política de investimentos e de localização de novas estruturas e equipamentos. Nessa qualidade, eram os Bispos dessas dioceses figuras proeminentes nas comunidades locais e nativas, e tinham um conhecimento efectivo do território e das suas realidades socio-económicas, como se calhar muitos nomeados políticos do regime não possuíam. Num período histórico de tamanha importância para as duas nações, como foi o período da revolução de Abril e da independência de Angola, os Bispos portugueses em Angola, eram figuras centrais, testemunhas privilegiadas de todo o processo.
Das leituras que fizemos e dos documentos que consultámos sobre esse período, ficámos com a sensação que nenhum desses intervenientes deu a devida importância histórica e a relevância das suas participações nesse momento do nosso passado recente. D. Manuel não deixou nada escrito sobre esses momentos, e se não fossem as duas entrevistas que deu em 1979, já em Portugal, em que se aventura num ataque cerrado e violento aos movimentos de inspiração marxista angolanos que protagonizavam a guerra pelo poder, nada saberíamos sobre a sua experiência. Mas outros Bispos portugueses que experimentaram esse período e que mais tarde passaram para o papel as suas memórias de Angola - e estou a referir-me por exemplo, a D. Manuel Nunes Gabriel, a D. Eduardo André Muaca, a D. Eurico Dias Nogueira e a D. Moysés Alves de Pinho - e nas quais recordam em pormenor muitos momentos vividos nas suas dioceses angolanas, estranhamente não ultrapassaram as notas de rodapé para se referirem ao processo de independência de Angola e às suas experiências traumáticas ou de seu conhecimento. Ficámos assim como que órfãos de um conhecimento, ou melhor, da possibilidade de um conhecimento que interessava a todos nós, ainda hoje. E com isto não estamos a criticar o referido episcopado, mas antes sim, a admitir, a assumir a plena frustração face a uma admissível expectativa pessoal.
Muito obrigado.
28 maio 2015
presenteado
O amigo Henrique Manuel Pereira, coordenador da colecção Presbyterium, promovida pela Diocese de Bragança-Miranda, ofereceu-me este livro de Monsenhor José de Castro. Sabendo do meu interesse pela obra deste diplomata bragançano, serviu-se da data de minha cosmogonia, para mo fazer chegar às mãos. Bem haja.
25 maio 2015
mini primavera sound
Ontem a tarde foi passada no Parque da Cidade, em família, a assistir aos concertos de Noiserv, B Fachada e Clã. O mais novo gostou de Clã, cuja música o entusiasmava...
23 maio 2015
19 maio 2015
18 maio 2015
apresentação de livro...
No passado dia 14 de Maio à noite, no centro cultural de Macedo de Cavaleiros e inserido num espectáculo cultural, apresentei o meu livro. Num formato e ambiente diferentes do habitual para "apresentações de livros", estive à conversa com um jovem que fazia as honras da casa e que me foi colocando algumas questões sobre o livro. De improviso, aproveitei para passar a mensagem que importava.
75 anos de memória
Assinalaram-se, no passado dia 15 de Maio, os 75 anos do jornal Mensageiro de Bragança. Assinalável permanência no tempo, acompanhando toda a história contemporânea da região e da cidade de Bragança. Nos dias de agora, em que a efemeridade é paradigma, é de relevar a perenidade deste projecto. Parabéns. No âmbito deste aniversário, o jornal organizou um fórum: "Que futuro para o interior?". Apesar de convidado, por motivos profissionais não pude estar presente. Fica o programa desse evento e a promessa de um texto a enviar para publicação nas próximas edições do jornal.
15 maio 2015
instante urbano xxx
Chego a Bragança com o único propósito de negociar com um livreiro a venda do meu último livro. Telefono a dois amigos para um café enquanto a hora desse encontro não chega. Um e outro estão muito ocupados e não podem vir ter comigo, portanto, sento-me num café, bem no centro da cidade, onde bebo uma água bem fresca e me entretenho com a caixa de email e alguns rascunhos. Trata-se de um café com frequência regular de turistas que visitam o centro cívico e histórico de Bragança. No momento em que entro está praticamente vazio.
Passados alguns minutos, levanto o olhar e percebo que, na mesa em frente, está um casal com duas filhas, todos eles entretidos a saborear um gelado. A mãe está de frente para mim e quando cruzo o olhar com ela, instinto meu, baixo os olhos e abstraio-me novamente nos meus papeis. Passados outros tantos minutos, volto a levantar a cabeça e dou com essa mulher a olhar-me. Instintivamente baixo a cabeça, mas já não consigo ignorar o facto. Ela está fixada em mim e isso incomoda-me. Fosse eu outro e sei que existiria outra reacção, mas esta mulher está a invadir-me e eu não gosto. A solução é simples, ou sai ela ou saírei eu em breve. Saiu ela, não sem arrastar o olhar enquanto passa e abandona o estabelecimento.
12 maio 2015
agenda
É já depois de amanhã, 5ª feira, dia 14 de Maio, a partir das 21 horas. Irei a Macedo de Cavaleiros apresentar o livro "D. Manuel António Pires, história de vida de um missionário (1915-2015)", a convite de D. José Manuel Cordeiro, Bispo de Bragança, que também apresentará o seu último livro. Apareçam.
11 maio 2015
mediascape: shame on you!
"Conseguimos infligir um dano de 30 milhões de euros na companhia e penso que isso não devia ser desvalorizado pelo Governo".
Hélder Santinhos, responsável do Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil (SPAC), em directo num qualquer canal de televisão, se não estou em erro, na passada 6ª feira, dia 8 de Maio, enquanto ainda decorria a greve dos pilotos da TAP.
Eu não sei, talvez seja um problema meu, mas ter a coragem de afirmar publicamente, com satisfação e orgulho, que o seu comportamento, a sua atitude provocou tal prejuízo à sua entidade patronal, deveria ser mais do que motivo para despedimento imediato. Dele e de toda a corja de privilegiados que se arrogam ao direito de destruir quem lhes paga o ordenado principesco.
Não quero saber da sua razão, não quero saber do real direito à greve. Neste caso, foi uma vergonha e deveria haver responsabilização e consequências drásticas para quem assim se comportou. Perderam a face e não tiveram coragem de o admitir e recuar nas suas posições, procurando sempre fugas para a frente com argumentário roto. Foi triste e infeliz a figura que este sr. piloto fez ao longo destes dez dias.
Shame on you Mr. Santinhos!
leitura de "fragmentos de unidade polifónica de Guerra Junqueiro"
No momento em que acabo de ler o livro de Henrique Manuel Pereira, recentemente lançado e que diz respeito à sua tese de doutoramento - ao qual já me referi aqui - resolvo verter para o papel algumas ideias que me assaltaram durante essa leitura.
Mas antes, quero começar por uma manifestação de condição: não conhecia, até ao presente, qualquer aspecto da vida ou obra deste ilustre transmontano de Freixo de Espada à Cinta. Este foi o primeiro contacto que fiz com o seu universo, mas posso afirmar, desde já, que não será o último e que apesar de não estar habilitado para ajuizar a obra, posso confessar que a sua leitura me motivou para conhecer melhor a personagem e procurar a sua obra.
Como é hábito nestas andanças e também pelo que atrás referi, não posso deixar de felicitar o autor, conhecido e reconhecido investigador do mundo Junqueiriano, pela obra realizada. Num trabalho de mais de 500 páginas e recheado de notas, referências e citações, somos conduzidos pela clara escrita do autor, com mestria no pormenor e/ou detalhe, com oportunismo nas etnografias e com bom gosto estético, ao longo da existência de Guerra Junqueiro. Parabéns Henrique.
Tal como já referi, não me atrevo sequer a comentar o que seja deste trabalho. No entanto, há um conjunto de ideias manifestadas e que, provavelmente, por ignorância, me chamaram a atenção e despertaram em mim aquela vontade de me pôr a caminho de...
É referida por mais do que uma vez a possibilidade de Guerra Junqueiro ser judeu. São apresentadas as opiniões de autores que ao longo dos anos reflectiram sobre essa possibilidade. Como é o caso de António Sardinha (p.245), que fazendo uma leitura ou interpretação da sua fisionomia (fenótipo), da sua moral e remetendo-o para a condição de "outro", tenta justificar a sua atitude anticlerical. O Henrique Manuel Pereira prefere relativizar a questão, pois não dispõe "de elementos probatórios que nos permitam afirmar ou negar o alegado semitismo de Guerra Junqueiro" (p.246), e logo a seguir: "sem declarada ligação aos genes..." (p.247). Associando esta dúvida aos referidos motes, chacotas, chistes, alcunhas, caricaturas ou nomeadas que visavam Guerra Junqueiro e o associavam a essa tipologia social, estereotipada, ao facto de ser oriundo de uma região que foi refúgio de várias gerações de judeus, expulsos de outros territórios, nomeadamente daquele que agora conhecemos por Espanha, não me parece de todo impossível haver uma ascendência judaica, depois convertida em Cristãos novos, vulgarmente conhecidos por Marranos, mas também por perros (dada a sua origem espanhola). Depois, acrescento a esta possibilidade a coincidente atitude "peliqueira" de Guerra Junqueiro, também característica desses povos e indivíduos Marranos (almocreves, negociantes, vendedores e regateadores nómadas que percorriam a região a comprar e a vender de tudo).
Tendo em conta a minha ignorância relativa ao universo de Junqueiro e o desconhecimento de outras obras biográficas dele, de momento não tenho como esclarecer esta questão. Pedindo desculpa pela ousadia deste raciocínio, felicito uma vez mais o meu amigo Henrique Manuel Pereira. Com a certeza que um dia destes, assim que se proporcionar, hei-de trocar estas impressões com ele.
05 maio 2015
mediascape: vandoma
Encontro hoje nas páginas do JN o protesto dos feirantes da feira da Vandoma junto da Câmara Municipal do Porto, contra o plano do executivo de transferir a Vandoma das Fontaínhas para a Alameda de Cartes, na zona do Cerco, em Campanhã. Leio as declarações do vereador responsável pelo departamento de Fiscalização, tentando justificar essa transferência, mas não me convencem, pois segundo as palavras desse responsável, trata-se de uma "visão abrangente de conciliar conflitos existentes". Curiosa forma de conciliação! Afastam-se os feirantes e a feira para bem longe do centro cívico e histórico da cidade, para as periferias da cidade, sem polarização e sem rede de transportes que sirvam o espaço e os feirantes. E entrega-se o espaço ao abandono?! Ou à especulação?! Durante décadas - eu sempre me lembro da feira naquele local - foi nas Fontaínhas que todos os Sábados, bem cedo e durante toda a manhã, se realizou esta feira, utilizada por muitos para comprar e vender objectos antigos, velhos ou roubados. Lembro-me de algumas histórias e episódios contados por amigos que, frequentemente, lá iam vender o que já não queriam ou servia. Tudo era objecto de venda e de compra. Tudo.
Ao saber desta ideia parva do município, vem-me ao pensamento a comparação da velha, porque antiga, feira da Vandoma e as modernas e desmaterializadas "feiras" virtuais, tipo OLX, onde tudo, mas tudo, pode também ser vendido e comprado. Não adianta lutar contra o tempo e contra a evolução dos hábitos e dos comportamentos, mas se a feira da Vandoma ainda tem feirantes - vendedores e compradores, porquê acabar com ela por decreto? Mal feito.
saber popular
Vasto conhecimento que advém da vivência quotidiana, da experimentação e que nem sempre chega a ser "senso comum", pois por várias razões não é conhecimento generalizado. Trata-se de um tipo de conhecimento muito específico e peculiar, transmitido oralmente e cujas fontes de saber estavam (e estão) na natureza, nos animais, na prática das artes e dos ofícios. Cada vez fico mais impressionado com a sabedoria daqueles que, aos olhos da actualidade letrada e burocrática, são ignorantes, analfabetos e info/tecno-excluídos.
Por estes dias, andava eu pelo monte, aproveitando os primeiros dias de luz primaveril, quando me apeteceu descansar um pouco à sombra de umas carrasqueiras no cimo de um lameiro já bem verde. Passados não muitos minutos chega-se a mim uma mulher que me cumprimenta, estranhando ver-me por ali, pergunta-me ao que ando. Respondo-lhe a todas as perguntas e já em jeito de despedida, disse-me para não ficar muito tempo assim no chão, pois posso ser mordido por um qualquer Biberon(?) ou Alicante(?). Admirado, pedi-lhe para me repetir o nome dos bichos, pois jamais ouvira falar de tais animais... Não adivinhando a sua vontade de falar, lá me explicou:
Por estes dias, andava eu pelo monte, aproveitando os primeiros dias de luz primaveril, quando me apeteceu descansar um pouco à sombra de umas carrasqueiras no cimo de um lameiro já bem verde. Passados não muitos minutos chega-se a mim uma mulher que me cumprimenta, estranhando ver-me por ali, pergunta-me ao que ando. Respondo-lhe a todas as perguntas e já em jeito de despedida, disse-me para não ficar muito tempo assim no chão, pois posso ser mordido por um qualquer Biberon(?) ou Alicante(?). Admirado, pedi-lhe para me repetir o nome dos bichos, pois jamais ouvira falar de tais animais... Não adivinhando a sua vontade de falar, lá me explicou:
O Biberon(?) - não sei se é assim que se escreve e desconheço o seu nome certo ou técnico - é uma espécie de cobra pequena e delgada que morde com a cauda. A sua mordedura mata os animais e as pessoas, se não tiverem cuidado, também. Antigamente quando alguém era mordido, utilizava-se gordura de porco derretida com brasas sobre a mordedura e depois disso picava-se o local com agulhas, pregos ou outra coisa fina para tentar tirar o veneno. Mas era complicado, as pessoas viam-se aflitas. Todos os boieiros e pastores conheciam o perigo e tinham cuidado, mas mesmo assim, às vezes acontecia.
O Alicante(?) é uma espécie de gafanhoto e encontra-se debaixo das pedras. O seu veneno também é muito forte e atacava principalmente os animais que pastavam.
Por fim e sem me dar tempo a pegar num pedaço de papel e caneta, disse:
Se te morder o Biberon,
que te metam no caixão.
Se te morder o Lacraio
pegai na urna e levai-o.
30 abril 2015
28 abril 2015
26 abril 2015
41º aniversário da revolução
Data importante que se assinalou ontem, mas que eu, por afazeres domésticos, parafernálicos, bricolágicos e afins, não pude aqui vir e registar. De qualquer forma, consciente da data, gostei de estar afastado e ausente do mediático e efémero registo da espuma do dia, pois sabia, sei, da inutilidade, do aborrecimento em que essas manifestações oficiais se transformaram. Aliás, durante oito anos (dois mandatos autárquicos), enquanto membro da Assembleia Municipal de Bragança, participei activamente nas celebrações do 25 de Abril, no concelho de Bragança e se nos primeiros anos eu ansiava pela data e pela oportunidade de discursar, reafirmando os valores da democracia e a primazia da liberdade, para mim valor supremo da condição humana; nos últimos anos era já com algum incómodo e aborrecimento que me via "obrigado" a repetir o discurso politicamente correcto de elegia à data e aos seus significados, pois aquilo que sentia (e sinto) no meu quotidiano é a prática de um esquecimento, de um branqueamento desses valores de Abril. Espero sempre que tudo isto possa ser definitivamente alterado e que eu possa estar equivocado, mas em todo o caso, lamento não vivermos, de facto, sob o desígnio desse momento refundador da nossa identidade nacional. 25 de Abril.
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Guerra Junqueiro
Pois é verdade que não conheço a obra deste ilustre transmontano de Freixo de Espada à Cinta, mas a dedicação, a investigação, o gosto e o trabalho do amigo Henrique Manuel Pereira, que agora publicou em livro estes fragmentos, teve a virtude de me trazer a curiosidade de conhecer um pouco melhor a vida e a obra de Guerra Junqueiro.
Numa das badanas do livro podemos ler um excerto do prefácio assinado por Luís Machado de Abreu, da Universidade de Aveiro:
«Muitas são as vozes que, em diálogo, se fazem ouvir neste novo trabalho de Henrique Manuel Pereira. Leva-nos o autor em viagem diligente através da receção de Junqueiro, criador literário de exceção, que, por entre aplausos e repúdios, provocou paixões veementes e foi catalisador de virtudes e vícios tipicamente portugueses. [...] ao lado de páginas de documentação mal conhecida ou de todo ignorada e de luminosa hermenêutica textual, deparamos com a muito conveniente demolição de ideias feitas. Sempre em nome da restituição do rosto verdadeiro do homem e da herança literária que ele nos legou»
O lançamento aconteceu no passado dia 24 de Abril, pelas 19 horas, no auditório Carvalho Guerra da Universidade Católica, no Porto e a obra foi superiormente apresentada pelo Professor António Cândido Franco.
23 abril 2015
baú da memória IX
Quando sei do desaparecimento de um velho amigo, recordo esses momentos de meninice em que convivi com ele e sua mulher. Conterrâneos e amigos de meus pais, era hábito encontrarem-se nas férias em Vila Boa, aproveitando esses dias de descanso para longos passeios e piqueniques no monte. Socorro-me do álbum de fotografias para o recordar e é com alguma nostalgia que revejo nele o homem simpático e brincalhão com as crianças que éramos. O Chico d'ó Cerdeiro vivia lá para os lados do Estoril, casa que visitei uma única vez. Regressava todos os anos à sua aldeia na Páscoa e no Outono, por altura dos Finados. Tinha um jipe - é a primeira recordação que tenho de andar num todo-terreno - no qual nos levava pelo termo da aldeia, por caminhos e ladeiras abismais.
A vida afastou-nos, o tempo passou por mim e por ele. Ontem faleceu, depois de um longo período doente, dizem-me. Não me recordo da última vez que estive com ele... talvez há dois, três anos, não sei. Os últimos contactos que tivemos, aconteceram através do Facebook, mas como entretanto abandonei essa existência, perdi-lhe o contacto. Lamento. Tristeza.
Nesta fotografia, de Agosto ou Setembro de 1977, está o Chico comigo e com o meu irmão Daniel em cima de uma meda de palha de trigo. Era por aventuras como esta que eu, nós gostávamos dele. Ficará a memória desses alegres tempos.
dia do livro
Em dia mundialmente nomeado como o do livro, não haveria melhor forma de o iniciar do que a receber um email de alguém que é Escritor, conhecido e reconhecido na nossa e noutras praças. Ainda que em jeito de reparo, foi uma feliz coincidência.
22 abril 2015
boa razão para o ler...
Já aqui tenho trazido o elogio à escrita de José Rentes de Carvalho. Apesar de ser uma descoberta relativamente recente, talvez com 10 anos, para a sua avançada idade, considero-o um dos melhores escritores da actualidade portuguesa. Com as devidas e relativas distâncias, Rentes de Carvalho será o Eça da modernidade. Conheço a totalidade da sua obra editada em Portugal e acompanho diariamente, sem excepção, o seu "tempo contado", lugar onde vai depositando e partilhando pedaços da sua escrita, dos seus humores e das suas amarguras. Gosto da sua escrita clara e concisa, da sua capacidade para descrever pessoas, lugares e recantos que, apesar de não conhecer, reconheço na imensa paisagem transmontana, dos seus diálogos que me recordam as conversas que ouvia pela aldeia, a figuras recortadas pelo tempo antigo. Tudo isto a propósito de um pequeno texto - "o rio somos nós" - que colocou no seu blogue (ver aqui) e onde remete para um texto que escreveu em tempos e ao qual, diz, retorna amiúde e do qual se orgulha ter escrito. Essa foi uma boa razão, diz ele, para o partilhar com todos nós. Eu li-o e, tal como quase sempre, é muito bom.
20 abril 2015
mediascape: o (um) mar de mortos
O Mar Morto é outro, mas nos últimos dias aquele que tem sido sepultura de milhares de indivíduos - sem nome, sem pátria de origem e sem destino legal - tem sido o Mediterrâneo. Perante tamanha catástrofe, continuamos, hipócritas, a dedicar-lhes minutos de silêncio, cuja totalidade já ultrapassará largas horas de homenagens.
A Europa, cujas fronteiras externas tendem a fechar-se a cada surto migratório que tenta penetrar no seu espaço, está há muito tempo sem solução para este drama. Sem sequer saber o que fazer. Agora, perante a sucessão de acidentes com essa massa anónima de gente que, a todo o custo, tenta chegar ao nosso território, são muitas as opiniões e muitos os críticos que, de ânimo leve, têm uma solução, ou melhor, a solução para estas situações. Alguns até defendem que a Europa deveria abrir totalmente as suas fronteiras e aceitar todas as hordas de emigrantes provenientes do Norte de África, concedendo-lhes o estatuto de refugiados, ou integrando-os nas nossas sociedades. Muito sinceramente não encontro uma solução aceitável para tamanho problema, mas em teoria parece-me que a sua resolução estará a montante, neste caso a Sul da Europa... O combate aos extremismos e aos fundamentalismos religiosos, o apoio efectivo - segurança e logística - às comunidades perseguidas, criando espaços, zonas, regiões e países neutros seria meio caminho para muitos abandonarem o caminho da morte, apesar de sabermos que do seu ponto de vista, a morte não se encontra aqui ou a caminho, mas sim lá onde pertencem.
Esta realidade, apesar de não ser novidade, assume proporções jamais vistas, levando-nos a perceber como a Europa, assim como a América do Norte, são espaços de exclusão, onde aqueles que, por acaso, aí nascem ou onde são cidadãos de plenos direitos, nem nos seus piores pesadelos experimentam a realidade miserável do resto do mundo. Mundo vertido e desequilibrado para Norte.
18 abril 2015
10 abril 2015
reciprocidades
As contas à moda do Porto são as certas e aquelas que melhor resolvem as diferentes relações e, acima de tudo, as variadas situações. Como princípio não tenho qualquer reserva em aceitá-las como a melhor forma de entendimento social. São justas, equitativas, não permitem melindres, nem ressentimentos e mantêm as simetrias relacionais - "cada um paga a sua despesa". O problema é que mesmo habituado a elas desde o berço, o ethos que me chega de para lá dos montes, impele-me para o pagamento da despesa de um amigo que me acompanhe, sem nunca, penso eu, ter prejudicado essa relação ou ter melindrado esse amigo. Até porque sei que numa outra qualquer situação similar será ele a pagar. São assim as contas à transmontana e eu sinto-me confortável com o seu princípio e a sua prática - "agora pago eu, depois pagas tu, depois pagará ele".
Esta reflexão comparativa entre dois diferentes sistemas de reciprocidade económica e social, acontece depois de várias situações em que não adequei o modo de retribuição à circunstância em que me encontrava. Passo a explicar: Tendo pago uma, duas vezes, seria expectável que numa outra vez esse alguém se disponibilizasse para pagar. Isso não aconteceu e o "modo" tripeiro impôs-se. Experimentei então não me adiantar no pagamento e ficar na expectativa, mas no momento de pagar apenas fizeram pagar a sua despesa. Muito bem, digo eu, aprendendo e servindo-me de lição, mudei de atitude. Continuo a fazer gosto em pagar aos meus amigos e a quem me merece, e nem por isso deixei de o fazer, mas apenas quando e onde sei que haverá, ou houve, reciprocidade. Adivinham, com certeza, o sistema que mais se adequa à minha personalidade?! Pois é, recordo com prazer as filas de Superbock em cima do balcão da taberna, à espera de serem consumidas, porque cada um dos convivas fez questão de pagar uma rodada. Bonita e eficaz forma de reforçar os laços de reciprocidade.
09 abril 2015
mediascape: majorados
São os números de telefone que os canais de televisão portuguesa apresentam diariamente, com especial incidência nos programas-maratona dos fins-de-semana e através dos quais coagem e extorsem os telespectadores. É impressionante a atitude insistente e agressiva dos pivots ou apresentadores desses programas, passando minutos e minutos de emissão a convidar e a persuadir as pessoas a ligarem. Para tal, utilizam argumentos terríveis, aproveitando-se da putativa fragilidade de seus interlocutores, tais como o desemprego, a crise e as contas para pagar, a despensa para encher e as prestações das casas e das escolas dos filhos. Inadmissível. Pelos vistos - leio hoje no Público - a ERC tem recebido inúmeras queixas e está atenta ao fenómeno, mas não terá competências para intervir. Aliás, parece que ninguém tem competências para resolver esta situação. Aquilo que os canais televisivos estão a fazer é crime, pois estão a enganar deliberadamente os seus públicos, garantindo prémios pecuniários que não podem entregar, pois estes são exclusivos dos casinos. Por outro lado, é uma vergonha os ditos canais servirem-se desses concursos como fonte de rendimento - segundo a mesma notícia do Público, "há casos em que o apelo à participação no concurso, através do apresentador ou apenas por ter o número a ocupar parte significativa do ecrã, foi feito durante 95% da duração do programa. Não é de admirar: tendo em conta os relatórios e contas, só a SIC e a TVI terão facturado em 2014 cerca de 50 e 65 milhões de euros , respectivamente em receitas de multimédia, onde se incluem estes concursos".
Por último, uma palavra de repúdio para essas vedetas que se prestam a tais papeis; estarem horas e horas de sorriso rasgado, enquanto enganam e vendem a banha da cobra. Bem sei que para ser animador de televisão não existe nenhum código deontológico, mas devia existir. Para além disso, a ética e o brio profissional não necessita de nenhuma lei ou código. Bem pesadas devem estar as suas consciências.
08 abril 2015
empty
É a sensação que transporto comigo há já alguns dias. Depois do stress dos acabamentos, da ansiedade e da expectativa pelo dia 27 de Março, dia do lançamento do livro, dei comigo em modo stand by, cansado, sem vontade e sem propósito. Sei o que tenho para fazer e escrever - nova edição já para o mês de Agosto e outra lá para o final do ano. Não faltam trabalhos, ideias e projectos, mas agora não. Não me apetece. Ainda estou, de alguma forma, envolvido com o trabalho que agora finalizei e sei que este ainda terá outras etapas ou fases que me implicarão com trabalho e disponibilidade.
Por estes dias a sensação plena de vazio reina, mas incomoda. Nada a ocupar-me o cérebro faz-me bem, mas cansa. Não gosto deste estado de alma, torna-me desleixado e preguiçoso. Quando regressar irá custar mais. Always the same.
(Delães, 31 de Março de 2015)
reconforto pretérito
Lugar sagrado onde a melhor loiça e o melhor vidro era preservado para os dias de festa e de nomeada.
Altar da casa onde só os adultos, mormente as mulheres, podiam aceder para guardar ou retirar uma qualquer iguaria para presentear uma visita ou familiar.
Altar da casa onde só os adultos, mormente as mulheres, podiam aceder para guardar ou retirar uma qualquer iguaria para presentear uma visita ou familiar.
Recantos com simples trancas que mantinham a estabilidade do lar e a sobrevivência da família.
Quantos segredos, desejos, vontades, necessidades se ocultavam por detrás dessas portas?
Olhar sobre o monte de escombros dessas pretéritas vidas é sempre uma atracção para mim.
07 abril 2015
intrigado
Porque raio a Igreja de Jesus dos Santos dos Últimos Dias, mais conhecida por Igreja Mórmon, faz a recolha e a digitalização dos registos paroquiais de todo o país e, pelos vistos, de todo o mundo ou quase?!... Desconhecia esse facto e agora que estou consciente dele quero encontrar respostas. Num primeiro momento, a reacção é pesquisa na internet, o que já fiz e aí encontrei algumas explicações e testemunhos mais ou menos esquisitas. A fundamentação teológica diz que "a pesquisa genealógica ou da história da família é uma precursora fundamental do trabalho do templo por nossos antepassados falecidos. Nós a fazemos para conseguir os nomes e outras informações genealógicas de modo que as ordenanças do templo possam ser realizadas por nossos queridos antepassados".
Encontrei também uma notícia de 2007 do jornal Público onde é dito que em Portugal existiam 20 centros de pesquisa que permitem traçar árvores genealógicas até ao século XVI e que o objectivo é recolher toda a informação civil e religiosa existente. Mas diz-nos mais...
"O Centro da História da Família/Biblioteca Genealógica de Lisboa é parte da Biblioteca de História da Família (Family History Library) que, por sua vez, integra a Sociedade Genealógica do Utah, que surgiu em 1894 financiada pela Igreja de Jesus Cristos dos Santos dos Últimos Dias. A Sociedade começou a microfilmar em 1938 e já percorreu mais de 110 países através de uma rede que inclui centenas de pessoas especializadas em História, estudos das regiões, biblioteconomia, micrografia e vários idiomas. Cerca de 200 câmaras estão actualmente a microfilmar registos em mais de 45 países. Os microfilmes originais estão depositados nas Montanhas Rochosas do Utah, numa estrutura à prova de sismo e de ataque nuclear que a Igreja designa por Cofre das Montanhas de Granito, já que o depósito guarda as películas sob 200 metros de granito, numa atmosfera com temperatura e humidade controladas. A colecção da Sociedade Genealógica do Utah inclui mais de 2,4 milhões de rolos de registos genealógicos microfilmados, 742 mil microfichas, 310 mil livros, fascículos e outros formatos, 4500 periódicos e 700 recursos electrónicos. A página de Internet alojada em www.familysearch.org informa ainda que a Sociedade Genealógica do Utah disponibiliza um Arquivo Ancestral com mais de 35 milhões de nomes ligados a famílias, um Índice Genealógico Internacional com mais de 125 milhões de nomes e um Arquivo de Recursos de Linhagem, que contém para cima de 80 milhões de nomes, também ligados a famílias".
Todo este investimento, segurança, para reunir esta informação?! Não sei, parece-me estranho, muito estranho. E agora mais intrigado fico. Vou procurar outras e mais respostas.
passagem de testemunho
Aproveitando uns curtos dias de descanso na aldeia, a família reuniu-se para a Páscoa. Dias primaveris que foram aproveitados para passear e, finalmente, o patriarca familiar ensinar-nos todas as terras que um dia herdaremos. Espalhadas pelo termo da aldeia, muitas delas estão já a monte e não se distinguem na paisagem, outras estão a ser trabalhadas por terceiros e outras ainda são chão para os passatempos agrícolas do Pai. Já há muitos anos que não ia tão longe no termo da aldeia e, assim, pude regressar a lugares que na minha juventude calcorreava sem tanto esforço. Belo passeio.
02 abril 2015
Manoel de Oliveira (R.I.P.)
Faleceu hoje, dia 2 de Abril de 2015, o cineasta Manoel de Oliveira que contava já com 106 anos de vida. Nunca gostei do seu trabalho. Aliás, nunca tive pachorra, nunca consegui ver um filme de sua autoria até ao fim. Contudo, isso não invalida o sentimento de perda para a cultura nacional e o reconhecimento pela sua obra. Curioso é o facto de ainda aqui há dias ter lido um artigo na revista Ler, onde, a propósito de um livro - António Ferro, o Inventor do Salazarismo (Dom Quixote), se fala de Manoel de Oliveira como uma das mais pesadas e duradouras heranças desse António Ferro. Bem sei que o momento é de elegia ao falecido, mas as palavras de Orlando Raimundo nesse artigo são marcantes:
«Uma das mais pesadas e duradouras heranças de António Ferro é... Manoel de Oliveira-cineasta. Isso mesmo. A transformação do estouvado corredor de automóveis, de jovem diletante, oriundo de uma família da alta burguesia, em cineasta de talentos duvidosos, passa integralmente por ele. Por estranho que isso possa parecer, passadas mais de oito décadas, o mito e a projecção internacional de Oliveira, que sempre intrigaram o comum dos portugueses, são uma criação conjunta de Ferro e de outro adepto convicto do nacional-fascismo, apoiante incondicional de Salazar e da ditadura: António Lopes Ribeiro, o cineasta oficial do regime». (In revista LER nº 137, pp.116)
01 abril 2015
às voltas com estas palavras...
Por outro lado, se eu tivesse um nome
um nome que me fosse realmente o meu nome
isso provocaria
calamidades
terríveis
como um tremor de terra
dentro da pele das coisas
dos astros
das coisas
das fezes
das coisas.
um nome que me fosse realmente o meu nome
isso provocaria
calamidades
terríveis
como um tremor de terra
dentro da pele das coisas
dos astros
das coisas
das fezes
das coisas.
(Mário Cesariny)
30 março 2015
lançamento de livro, intervenções
Bom dia,
Tenho, obrigatoriamente, de iniciar esta intervenção com uns breves agradecimentos. Desde logo a todos vós que aqui estais, a todos que, por respeito à memória de D. Manuel, aqui viestes participar nesta homenagem. Agradeço ao meu amigo Dr. Rui Madureira, Presidente da Junta de Freguesia de Vila Boa, pela receptividade e pelo suporte logístico; Agradeço à C. M. de Vinhais, na pessoa do Sr. Vice-Presidente e do Sr. Vereador da Cultura, a sua presença e o apoio à edição deste livro; Agradeço as simpáticas palavras do Sr. Cónego Silvério Pires e a sua pronta disponibilidade para aqui vir e estar connosco. Depois e por fim, penhorado, agradeço a Sua Excelência Reverendíssima Senhor Dom José Manuel Cordeiro que, do primeiro ao último momento desta aventura, esteve e está connosco - informando, aconselhando e colaborando nos diferentes momentos da pesquisa e do trabalho de investigação. Relembro o momento primeiro, quando em Abril de 2012, o abordei à porta do Teatro Municipal de Bragança... No meu diário de campo escrevi assim:
Fui convidado para assistir ao programa "Portugal Hoje", que a RTP transmitia a partir de Bragança na noite do dia 11 de Abril. Assisti ao programa, no qual era interveniente o Sr. D. José Manuel Cordeiro, actual bispo de Bragança-Miranda. Não viera com a intenção de o abordar relativamente a este projecto, mas no final do programa e quando ele, já na rua, se despedia de algumas pessoas, se cruzou comigo e me estendeu a mão (um perfeito desconhecido para ele), apresentei-me e falei-lhe do meu propósito. Surpreendido com a minha abordagem, pareceu-me curioso e até interessado com a ideia de assinalarmos o centenário de nascimento de D. Manuel. Solicitei-lhe, ali mesmo, uma audiência e D. José, solícito, logo abriu a sua agenda e sugeriu a data de 23 de Abril, às 11 horas no Paço Episcopal.
Assim foi. Muito obrigado;
Antes de vos falar deste livro, quero só deixar uma palavra de gratidão à Carla Gonçalves, na altura jornalista do jornal Mensageiro de Bragança, que aceitou o desafio e colaborou na recolha de testemunhos, entrevistas e recolha de documentos; e outra palavra de gratidão ao meu Pai, também ele mentor e participante activo nesta jornada. Sempre a meu lado;
O resultado final destes anos de pesquisa é o livro que agora temos nas mãos e que foi sempre pensado, construído e escrito exclusivamente com este propósito - homenagear a vida e a obra de D. Manuel António Pires, neste exacto dia. Claro que tudo aquilo que agora está reunido e registado neste documento sobreviverá ao dia, aos anos e à vida de todos nós e por isso mesmo, o entendemos como um documento histórico, que não só preservará a memória de D. Manuel, como a levará para o futuro e aí, sem qualquer pretensão e sem conseguirmos adivinhar, poderá sempre ser objecto de interesse para as gerações que hão--de vir.
Partimos de um ponto indefinido, de uma ideia para esse longínquo dia que seria o de hoje, 27 de Março de 2015. E se registássemos os textos manuscritos de D. Manuel numa publicação? Foi esta a marca de água deste projecto. O dossier que ele deixou com algumas das suas homilias, pregações e outros textos, mais ou menos desorganizados e que agora poderão encontrar no segundo capítulo deste livro. Juntámos-lhe os textos que publicou na revista Brigantia, alguns em separatas, que estão no capítulo três e pequenos artigos que foi publicando no Mensageiro de Bragança, poderão ser lidos no quarto capítulo. A primeira parte deste extenso livro é dedicada à vida de D. Manuel, desde os seus antepassados até ao dia da sua morte e suas repercussões. Foi escrito tendo como principais fontes de informação e documentação, a memória de seus sobrinhos e sobrinhas, o arquivo digital do jornal Mensageiro de Bragança, o jornal Apostolado e, fundamental, pela sua proximidade pessoal e profissional, o acervo - correspondência, fotografias e documentos - e memória do Padre Manuel Vale, entretanto falecido.
Por tudo isto, quero deixar bem claro que no fim desta jornada, a sensação que tenho é que aquilo que aqui está é um documento cujo autor é D. Manuel António Pires. Sirvo-me das palavras de Michel Foucault para justificar esta sensação:
"Autor é aquele que dá à inquietante linguagem da ficção as suas unidades, os seus nós de coerência, a sua inserção no real. Bem sei que me vão dizer: mas está a falar aqui do autor tal como a critica o reinventa depois da obra, quando a morte chegou e não resta senão uma massa confusa de escritos ininteligíveis; é preciso, então, repor um pouco de ordem; imaginar um projecto, uma coerência, uma temática que se pede à consciência ou à vida de um autor - na verdade sempre talvez um pouco fictícia. Mas tal não impede que ele tenha mesmo existido, esse autor real, esse homem que irrompe no meio de todas as palavras usadas, trazendo nelas o seu génio ou a sua desordem". (in A ordem do discurso, 1997, pág. 23)
O nosso esforço não foi muito além da função de escrevente, termo roubado a Roland Barthes, e que define aquele que apenas cumpre uma actividade e não a função de escritor, que neste caso, a de reunião de escritos e momentos de D. Manuel António Pires, ou seja, um projecto de reescrita que pretende comunicar.
Mas estamos em Vila Boa, o seu e o meu axis mundi. Se houve aspecto que, de alguma forma, me impressionou naquilo que pude conhecer do seu percurso, foi a permanência, a invariância dos seus referentes de origem, de uma ruralidade profunda, ao longo de toda a sua vida. À época, um lugar inóspito, isolado, desqualificado, como nenhum de nós aqui presentes será capaz de alcançar. Aqui nasceu, aqui cresceu, aqui se fez homem. Homem que bem cedo percebeu o sentido para a sua vida. Perto ou longe, o seu espírito, a sua preocupação, o seu cuidado esteve também aqui, com os pais, com os animais, com as sementeiras e as colheitas, com as maiores ou as menores tarefas domésticas e agrícolas. Auxiliou família, amigos e vizinhos, cuidou dos pais, das irmãs e dos sobrinhos, financiou obras na aldeia, sem nunca perder o seu norte, ou seja, sem nunca prejudicar o seu ofício e as suas obrigações.
E porque estou em Vila Boa, porque me dediquei a conhecer o possível da sua vida e porque desde miúdo, sinto latente algum desconforto ou incómodo em relação ao "Bispo" de Vila Boa, importa-me salientar e, de alguma forma, repor verdade, que é a D. Manuel que se deveram grandes e importantes reformas na capela do S. Roque, das quais ele nunca fez publicidade ou quis reconhecimento público. Assim como a ele se deveram algumas das reformas ou melhorias efectuadas na nossa igreja paroquial, suportadas à distância pelo seu dinheiro, resultado do seu ofício de "Bispo". Cada um com o seu múnus e com o seu saber. A César o que a César pertence. O seu perfil, a sua personalidade, o seu altruísmo desinteressado, nunca lhe permitiu outra postura, outra atitude e terá sido assim e por isso que, passados todos estes anos, ainda sobrevivem alguns coalhos de antanho.
Estamos em Bragança e no Paço Episcopal da diocese de Bragança-Miranda. Casa que D. Manuel tão bem conheceu. Foi esta casa que descobriu no jovem estudante de Teologia a inclinação e a vocação para o sacerdócio. Foi esta casa que o enviou para Roma e lhe deu a possibilidade de estudar e de adquirir mais conhecimentos. Foi a esta casa que ele regressou, já presbítero, depois dessa viagem de especialização e de
saber, na cidade eterna.
Nele, D. Abílio Vaz das Neves depositou toda a confiança, nomeando-o desde logo e ao longo da década de quarenta para vários lugares de responsabilidade. Lugares, actividades e funções que o então presbítero e depois cónego, desempenhou com dedicação e zelo. Esse percurso foi possível conhecer e acompanhar graças ao jornal Mensageiro de Bragança, que nasceu precisamente no ano em que D. Manuel regressa de Roma e vem trabalhar para esta diocese.
Foi também aqui que teve lugar a grande cerimónia da sua sagração episcopal, no dia 29 de Junho de 1955. Foi desta diocese que partiu para a sua nova casa, Silva Porto, e para onde levou vários sacerdotes e religiosas da diocese de Bragança. Pelo que nos foi dado a conhecer, ficámos com a sensação que D. Manuel António Pires, com o seu forte espírito missionário e com a sede de realização de obra na sua diocese (novas paróquias, casas, abrigos e missões), em vários momentos, a custo se conteve na captação ou requisição de pessoal religioso nesta diocese, apenas por respeito a D. Abílio e para o não ofender ou melindrar. Mesmo assim, durante a década de sessenta, as solicitações junto do Bispo de Bragança e da Irmã Marta, Superiora das Servas Franciscanas Reparadoras de Jesus Sacramentado, são regulares, persuasivas e bastante apelativas.
Mais tarde, e quando D. Abílio Vaz das Neves ainda era bispo da diocese, terá circulado por alguns círculos do Clero e pela cidade, a ideia de que o lugar desta diocese lhe poderia ser entregue. Perante essa possibilidade D. Manuel, ausente e em visita pastoral na sua diocese angolana, foi peremptório: "Eu?... Bispo de Bragança?... A diocese necessita de um bispo de fora, de larga visão e pulso forte. Não um bispo qualquer. Por aqui andaremos até que Deus queira. Em Bragança, agora só de visita".
Foi para Bragança e mais concretamente para Vila Boa que regressou no Outono da sua vida. Resignado com o destino dessa sua outra pátria, mas disposto e disponível, sempre disponível para o seu ofício. Até ao fim, que chegou na Primavera de 1999.
Conheci D. Manuel já bem perto do fim da sua vida. O tio Bispo como então o tratávamos e a quem tínhamos que beijar o anel, apesar da sua mão se retrair sempre. A imagem que guardo dele, julgo que é partilhada pela maioria daqueles que o conheceram e que com ele privaram. Simples e afável. Infelizmente não pude, não soube tratar, nesse tempo, daquilo que vim a tratar depois para vos trazer este livro.
Lamento.
Terminarei com uma parábola que um dia ouvi a D. Manuel, num dos muitos almoços de Páscoa em casa da minha Avó.
Os romanos antigos tinham por hábito, no final de cada dia, apanhar do chão uma pedrinha que levavam para casa e guardavam em recipientes. Se o dia lhes tivera corrido bem, apanhavam uma pedra branca ou clara, se o dia lhes correra menos bem ou mal, apanhavam uma pedra escura. Assim, ao longo de toda a sua vida e a cada momento podiam avaliar e qualificar a sua vida. Estou certo que também hoje D. Manuel apanha uma pedra branca que guardará para a sua eternidade.
Muito obrigado.
(Vila Boa e Bragança, 26 de Março de 2015)
Notas:
Texto a preto, comum às duas intervenções; texto a azul - intervenção em Vila Boa, texto a vermelho escuro - intervenção em Bragança.
29 março 2015
citação
«Seja-me permitida mais uma nota pessoal, mas a leitura é assim, pois um livro bom está aberto a que lhe acrescentemos outros parágrafos. Meu pai morreu há 10 anos, e enquanto minha mãe foi viva, a biblioteca que construíra e que vigiava com zelo feroz, manteve-se quase intacta. Minha mãe morreu há pouco. Agora, filhos e netos (muitos) foram esvaziando as prateleiras, conforme as suas preferências intelectuais ou os seus interesses académicos. Porque descobrira um livro que, pensei, seria muito do gosto da minha filha mais velha, telefonei-lhe a dar-lhe conta disso. Passados minutos mandou-me o seguinte SMS: "É bom fazer parte de uma família em que os livros são tão preciosos como as jóias".
Este livro sobre o qual escrevi estas palavras ficará na minha biblioteca, esperando que um dia alguém o leve - como jóia».
(João Lobo Antunes, in LER)
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