Agradeço ao Henrique Manuel Pereira o envio desta página de um suplemento do Jornal Mensageiro de Bragança. As fotografias dizem respeito ao lançamento do meu livro, no passado dia 27 de Março.
---------"Viajar, ou mesmo viver, sem tirar notas é uma irresponsabilidade..." Franz Kafka (1911)--------- Ouvir, ler e escrever. Falar, contar e descrever. O prazer de viver. Assim partilho minha visão do mundo. [blogue escrito, propositadamente, sem abrigo e contra, declaradamente, o novo Acordo Ortográfico]
23 julho 2015
22 julho 2015
vocações
À medida que me afasto temporalmente daquela data de 27 de Março de 2015, há pequenas reminiscências, pormenores desse dia (factos, momentos ou diálogos) que me assaltam de forma abrupta a mente e que contribuirão para uma memória futura. Um desses momentos aconteceu depois do descerramento da placa de homenagem a D. Manuel António Pires, na parede da casa onde ele nasceu, quando resolvi mostrar ao actual bispo da diocese de Bragança-Miranda, do exterior, a dimensão de toda a casa dos pais de D. Manuel e quando, a determinado momento, apontei para a janela do quarto (na foto, janela da esquerda) onde ele terá nascido. A reacção de D. José Manuel Cordeiro, ao contemplar a ampla paisagem que o horizonte permitia, foi exclamativa: - Não me admira que com esta paisagem nascessem aqui vocações!...
21 julho 2015
o metereologista
Depois de ter conhecimento deste livro na revista LER, num texto de Francisco José Viegas que me despertou a atenção e, depois, a curiosidade. Trata-se da história de Alexei Feodossevitch Vangengheim, criador e director do Serviço Hidrometeorológico da URSS até 1934 e depois preso, transferido para uma das primeiras bases do gulag e, por fim, fuzilado e enterrado numa vala comum. Aproveitei o aniversário de alguém próximo para o oferecer e assim poder, daqui a uns tempos, lê-lo.
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Biblos
mediascape: sessenta euros diários
Experimentando um período de nojo pelos acontecimentos recentes na União Europeia e na Grécia, tento evitar notícias, opiniões e declarações acerca daquilo que agora aconteceu e que, com toda a certeza, no futuro será recordado e estudado. Contudo, houve um facto que, também, por ter sido tantas vezes noticiado, me ficou retido na mente: com os bancos encerrados e os movimentos financeiros controlados, os gregos só podiam levantar no multibanco até 60 euros por dia. Este facto foi sempre apresentado pelos media como sendo algo de terrivelmente mau para os gregos, como se fosse impossível viver com essa quantia disponível para cada dia. Cada um sabe de si, mas não me parece de todo mau poder viver com 60 euros por dia. Mesmo na Grécia. Será que haverá muitos gregos que vivam acima desse valor diário?!.. Eu não gasto (eu não preciso) desse valor todos os dias. Longe, muito longe disso. Raramente levanto esse ou valor superior no multibanco.
Não sei se este facto, de tão repetido por todo o mundo nas últimas semanas, não terá sido mais um argumento para a atitude vingativa dos europeus em relação à Grécia.
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actualidades
13 julho 2015
a caminho...
Está neste preciso momento a ser impresso o segundo volume da série de baptismo (1911-1939) da paróquia de S. Mamede de Travanca - Vinhais, uma iniciativa da Casa da Fonte de Travanca, cujo proprietário nutre um carinho especial pela sua aldeia e tem uma vontade permanente de conhecer o seu passado, enquanto indivíduo e enquanto comunidade. O lançamento acontecerá, em princípio, no dia 17 de Agosto em Travanca, dia da festa do santo da paróquia. Estaremos sempre lá para o que for necessário. Informa-se que o terceiro volume está já a ser trabalhado.
10 julho 2015
constatação geo-estratégica
Na revista LER, edição de Junho 2015, Eduardo Lourenço, a propósito do papel da Europa no mundo e do seu protagonismo actual e num futuro próximo, afirma:
"Assistimos à crise na Ucrânia sem saber o que fazer. A Europa tem um problema, desde que existe: não saber lidar com o Outro, o não-europeu. Aconteceu no tempo de Alexandre, e sobretudo quando surgiu outro fenómeno que conquistou uma dimensão planetária: o islão. Vivemos séculos lado a lado, sem que os víssemos, ou eles nos vissem a nós. O Império Turco foi, para a Europa, uma espécie de União Soviética, desde 1453. Agora toda essa massa emerge, fruto da descolonização, numa espécie de sonambulismo histórico. Mas a Turquia europeizou-se e partes da Europa islamizaram-se, ao ponto de ter surgido esta ideia de que a Turquia pode fazer parte da coisa europeia. E como podemos imaginar a integração do islão, que representou durante séculos a não-Europa, e não sabemos o que fazer com a Rússia? Como pode a Turquia entrar na União Europeia e a pátria de Tolstói e Dostoiévski ficar de fora? A Europa não é o nome, a Europa é a sua própria História.
(...)
Não podem ficar fora de jogo só porque achamos que não são democratas como gostaríamos que fossem. Temos de relacionar-nos com eles, pelo menos com uma parte da sociedade russa. A Rússia teve o seu iluminismo e conheceu períodos de grande fascínio pelo Ocidente. E ao mesmo tempo sempre desconfiou que os padrões do Ocidente não convinham ao seu messianismo intrínseco, à sua religiosidade de tipo mítico". (pág. 36)
01 julho 2015
para LER no Verão...
Então não é que me esqueci que em Junho iria sair um número da LER?!... Imperdoável. Só hoje a fui buscar.
30 junho 2015
a quem interessar...
O meu amigo António Tiza vai apresentar-nos mais um fascículo do seu saber. Compete-me partilhar essa informação e esperar que nos possamos encontrar lá.
27 junho 2015
velho amigo João (R.I.P.)
É com amargura e verdadeira tristeza que me despeço do João. Amigo desde a minha primeira meninice e com quem convivi e aprendi. Enquanto miúdo, foi com o João que passei tardes e serões a jogar às cartas - ao burro e à bisca. Tenho a sensação que foi com ele que aprendi e ganhei o gosto pelas cartas. Foi também o João quem me ensinou e deixou "conduzir" pela primeira vez um carro-de-bois - momentos inesquecíveis e irrepetíveis de uma arte e saber em extinção. O João faz parte da minha infância e adolescência e será sempre uma memória boa para mim.
O João não estaria em idade de partir. Nos últimos anos, algumas contrariedades e problemas trouxeram-lhe desarranjos e desequilíbrios mentais, que o levaram para perto do precipício. Esta madrugada a mulher encontrou-o caído e já sem sentidos à porta da casa-de-banho.
Estive com ele, pela última vez, no dia 27 de Março. Reconheceu-me e esboçou um sorriso.
Na fotografia, o João e a Lena, em 1999, num dia feliz para eles e para mim em especial. Foi difícil convencê-lo a estar presente...
Europa: não manda quem quer, só manda quem pode
Através do Twitter vou acompanhando ao segundo as notícias que chegam da Europa e dos últimos acontecimentos das reuniões do Eurogrupo. Parece que a Grécia está fora do Eurogrupo e que terá que pagar a sua dívida até terça-feira. Foi expulsa pelos restantes membros desse restrito clube que, confrontados pela atitude do governo grego de convocar um referendo para decidir democraticamente o futuro do país, decidiu não conceder nenhum prolongamento do programa de assistência e antecipou, à boa maneira tecnocrata, que os gregos nem sequer deveriam pronunciar-se sobre o seu futuro.
Quando em Janeiro o Syriza venceu as eleições, eu fui daqueles que considerei essa vitória importante não só para a Grécia, como para toda a Europa. Se é verdade que me enganei no sentido dessa importância, também é verdade que poderemos estar perto do fim da União Europeia. A elite política europeia claudicou definitivamente perante a elite financeira. Os burocratas europeus, líderes das instituições e que detêm o poder de decisão, ficarão para a história da Europa. Aquilo que acontecerá nos próximos dias em Atenas e restante Grécia, terá repercussões a curto e médio prazo nas outras capitais europeias, principalmente naquelas em que a situação financeira é mais débil. Os nossos filhos, netos e bisnetos irão conhecer estas caras, pois serão recordados como os carrascos de um projecto que seria politica, económica e culturalmente viável, não fosse a sua ganância e egoísmo.
A confirmarem-se as notícias, estaremos a viver um dos dias mais negros da história recente da Europa. Um dia tristemente histórico.
Eis o triunvirato burocrata...
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25 junho 2015
baú da memória x
O feriado de S. João serviu, entre outras coisitas, para relembrar alguns sons de 90, se bem que só os tenha descoberto já bem perto do fim dessa década. Dois magníficos exemplos de malhas que perduraram na memória e que, de vez em vez, vou cantarolando...
24 junho 2015
sector primário
Mais um ensaio da Fundação Francisco Manuel dos Santos que quero destacar. Para quem se interessa pelas questões da ruralidade e, principalmente, da agricultura em Portugal e queira perceber a influência das Política Agrícola Comum, consequência da adesão de Portugal às Comunidades Europeias, na evolução da agricultura portuguesa, não podem deixar de ler este ensaio de Francisco Avillez. É o que estou a fazer.
instante urbano xxxi
E ao fim de tantos anos lancei o meu primeiro balão de S. João. Em dois possíveis, um ardeu e o outro, para alegria da criança, subiu e desapareceu no horizonte... Nada mau para um principiante. Sem qualquer relação, nesse momento aquilo que me veio à memória foi a estranha sensação do primeiro foguete que um dia lancei. Alguém registou este momento.
23 junho 2015
mediascape: (des)acordo ortográfico
"Uma vez que se chega a este acordo na base do consenso, não posso assinar este documento que não está escrito da forma que se fala em Angola. Camões não escreveu assim".
António Bento Bembe, secretário de Estado dos Direitos Humanos angolano
Estas declarações foram proferidas na XIV Conferência dos Ministros da Justiça da CPLP, em Díli. Isto na mesma altura em que decorre em Portugal uma iniciativa cidadã de recolha de assinaturas para a realização de um referendo sobre o acordo ortográfico da língua portuguesa. Todos poderão participar, subscrevendo esta iniciativa aqui. A pergunta que é proposta para referendar é: “Concorda que o Estado Português continue vinculado a aplicar o «Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa» de 1990, bem como o 1.º e o 2.º Protocolos Modificativos ao mesmo Tratado, na ordem jurídica interna?”
Escusado será dizer que já subscrevi esta iniciativa referendária.
Para mais pormenores visitem https://referendoao90.wordpress.com/
19 junho 2015
mediascape: a Índia aqui tão perto
O jornal Público de ontem, dia 18 de Junho, trazia uma reportagem sobre a Índia muito interessante. Sendo um país imenso, culturalmente muito heterogéneo e economicamente muito pobre, tem índices de desenvolvimento típicos de um país de terceiro mundo. A peça jornalística traz-nos o esforço que o Estado indiano e os diferentes níveis de poderes regionais tem realizado para que os indianos, principalmente aqueles que vivem no espaço rural - e são cerca de 70% dos 1,2 mil milhões de indianos, usem as sanitas. Pelos vistos 53% dos agregados familiares desse imenso território rural indiano não tem sanita nas suas habitações e defecam desde sempre ao ar livre. O esforço do Estado em equipar as casas com casas-de-banho, nomeadamente com sanitas, tem sido um esforço em vão, pois grande parte das pessoas que tiveram acesso a elas, preferem continuar a ir à rua fazer as suas necessidades. Muitos deles aproveitaram a nova construção anexa às suas habitações para lá arrumarem coisas. O esforço estatal procura alterar este costume ancestral que anualmente mata centenas de milhares de pessoas, principalmente crianças. Esta situação é paradigmática daquilo que são as representações sociais e simbólicas da doença/saúde. Enquanto que para o Estado e seus técnicos se trata de um problema de saúde pública que é preciso resolver, para os cidadãos defecar ao ar livre faz parte de um todo, de uma vida saudável e virtuosa. Assim sendo, é lógico que não basta construir retretes, é preciso um esforço pedagógico, educacional e geracional para que, pelo menos, as novas gerações se habituem e percebam a importância do uso das sanitas.
Esta situação relembra-me o tempo em que também em Portugal e também no espaço rural, as casas não estavam equipadas com essa divisão "pós-moderna" que era a casa-de-banho. Na altura em que começaram a roubar espaço às casas para construírem esses cubículos sanitários, foram muitas as resistências e recordo um caso em concreto, passado talvez em finais dos anos 70, ou início dos de 80, em que um lavrador vizinho, depois de muito refilar e resistir, lá foi convencido pelos familiares mais novos para a necessidade e o conforto de ter casa-de-banho em casa. Mal convencido, lá decidiu fazer a vontade aos mais novos e resolve construir não uma, mas duas pequenas casas-de-banho encostadas uma à outra... A verdade é que esse lavrador, apesar do investimento e do novo espaço sanitário, preferiu continuar a ir à loja dos animais, no piso inferior de sua casa, para se aliviar das suas precisões. A Índia aqui tão perto.
18 junho 2015
ao espelho...
(página 1 do jornal Voz Portucalense, edição de 17/6/2015)
(página 13 do jornal Voz Portucalense, edição de 17/6/2015)
15 junho 2015
ainda vai dar jeito e será utilizada...
"Ao ser dita, ao ser inscrita no lugar próprio, no silêncio exacto, no branco vivo da página, a coisa não só se redime do grande vazio do esquecimento, resgatada pelo sentido que agora lhe é dado, ressuscitando nesse dizer do seu nome, como também se torna outra coisa. Ressuscita, sim, mas transformada. Não totalmente diferente, só um nadinha, o que torna tudo ainda mais difícil. Mas, atenção, não me estou a queixar. Escrever - a escrita ou, em termos mais gerais, essa forma de pensamento a que chamamos imaginação - é o único verdadeiro superpoder que temos".
Jacinto Lucas Pires, in Granta 5
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nomeadas
informalidades
Não sou muito dado a formalismos ou a sociais formalidades, mas o oposto, pelo menos o extremo oposto, também me desagrada, deixa-me desconfortável e sem saber como me comportar. Isso mesmo, não sei como posicionar-me fisicamente e a reacção, irreflectida, é sempre a contracção corporal e expressiva. Passaria muito bem e melhor sem esses momentos, sempre inesperados e imprevistos, de contacto e interpelações.
Serve este prefácio, em jeito de declaração comportamental, para contextualizar a descrição de uma situação que ocorreu há poucos dias.
Participante numas jornadas sobre memória, património, arte e museus, em que se falava essencialmente do papel dos museus e das casas-museu para a preservação da memória dos indivíduos e das comunidades, assisti a uma intervenção de um ilustre autarca do norte. Enquanto o ouvi-a decidi tentar falar com ele. Aguardei-o à saída do auditório. Depois de o cumprimentar e de me identificar, comecei por fazer referência à sua intervenção e à nota por ele dita sobre a famosa empresa de turismo que opera no rio Douro. Apenas lhe referi a impressionante dimensão dessa empresa quando aquilo que vende é paisagem, um produto que existe desde sempre e que é de todos... Num tom descontraído, ele não só concordou com a minha nota, como aproveitou-a para uma inusitada e surpreendente opinião pessoal sobre as actividades praticadas por esse tipo de turismo, qualificando-as abjectamente e utilizando um vocabulário boçal e desqualificador, revelador do carácter, da estrutura e da manjedoura de onde provém. Procurei bem depressa mudar de assunto e por-me a caminho. Não me arrependi de o interpelar, mas vim embora, reflectindo sobre esta desagradável informalidade que alguns sujeitos teimam em impor na dialéctica social. Mas que raio, era a primeira vez que falava comigo; sabia lá ele quem eu era! Nada urbano este momento.
Tsipras disse...
«Nós carregamos às costas a dignidade de um povo, mas também a esperança dos povos da Europa. É carga demasiado pesada para a ignorarmos.
Não é uma questão de obsessão ideológica. É uma questão de democracia.
Não temos o direito de enterrar a democracia europeia no lugar em que nasceu.»
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actualidades
10 junho 2015
distorcedor
"No homem de letras, o fascínio pelos negócios e as suas aritméticas é sempre um entusiasmo inoportuno, como qualquer vocação tardia. Imagine-se uma senhora de meia-idade a ensaiar os primeiros pliés e ter-se-á ideia do ridículo a que o literato se expõe ao conferir guias de remessa ou ao calcular margens de lucro. O lugar do bibliófilo é entre livros,impraticável. Quem escreve e lê muito habitua-se a olhar para a realidade através de lentes literárias que a distorcem".
Bruno Vieira Amaral, in Granta 5
09 junho 2015
sempre um prazer
É sempre um prazer ouvir David Bowie. Esta colectânea chegou-me em forma de presente. Obrigado Daniel.
07 junho 2015
comer, brincar, escrever
"Comer tudo aquilo com que se brincou. Poderia ser uma definição da escrita. Quem sabe: tenho de comer o que escrevo, o que não escrevo devora-me. O que como não desaparece porque o como. Nem eu desapareço por ser devorada. Acontece sempre o mesmo quando, ao escrever, as palavras se transformam noutra coisa, em nome da exactidão, quando as coisas se tornam autónomas e as metáforas roubam o que não lhes pertence."
Herta Müller, in Granta 5
05 junho 2015
03 junho 2015
hetero-retrato
Uma querida amiga enviou-me esta imagem com a seguinte mensagem acoplada...
"Repara na imagem! Diz lá se não pensaste logo em ti……foi o que me ocorreu de imediato."
a quem interessar...
Não vou poder lá estar, mas fico feliz pela iniciativa da Academia de Letras de Trás-os-Montes. Façam o favor de adquirir e conheçam Trás-os-Montes pela escrita das nossas escritoras.
31 maio 2015
solilóquio
Olhar à volta e perceber que estamos sós. Desencaixados e sem empatias. Não me resta qualquer ilusão.
29 maio 2015
na universidade católica
Sessão de apresentação do livro "D. Manuel António Pires, história de vida de um missionário (1915-2015)", no passado dia 27 de Maio, pelas 19 horas, na Universidade Católica.
Alguns momentos dessa sessão que contou com a presença dos bispos do Porto e de Bragança-Miranda, assim como do Prof. Doutor Henrique Manuel Pereira, que fez o favor de apresentar a obra.
Intervenção:
Boa tarde,
1- Agradecimentos:
Aos presentes,
Aos membros da mesa - a D. António Francisco dos Santos, Bispo do Porto, pela sua presença, participação e pelas simpáticas palavras, a D. José Manuel Cordeiro, Bispo de Bragança-Miranda, pela sua presença aqui e durante todo o projecto, ao Professor Doutor Henrique Manuel Pereira, meu amigo Henrique, por nos abrir as portas desta casa, pelas palavras, pela colaboração, pelo saber e pela disponibilidade para este nosso projecto, para este livro. Grato me sinto.
Aos familiares de D. Manuel António Pires e a todos quantos participaram e informaram este trabalho.
2- Apresentação/explicação deste livro:
a. Ideia e âmbito,
b. Ponto de partida - textos manuscritos,
c. Partes que constituem o livro,
Estamos perante uma história imperfeita, porque cheia de hiatos e lapsos temporais, de uma vida longa e preenchida... O que nos levantou alguns problemas metodológicos: que fontes utilizar?, existem testemunhos contemporâneos?, como chegar às instituições da Igreja?, como suprimir as distâncias geográficas que balizaram a sua vida, a sua missão e a sua actuação?
Aquilo que fizemos, dadas as limitações e os constrangimentos existentes, foi utilizar toda a documentação e informação disponíveis para preencher os diferentes tempos de vida de D. Manuel.
3- Considerações:
Agora e depois do afastamento temporal e emocional necessários em relação ao processo de investigação e ao processos de escrita, consideramos oportuno trazer-vos algumas considerações, resultantes de alguma reflexão entretanto realizada...
a) Numa perspectiva diacrónica, podemos afirmar que a permanência e o trabalho missionário de D. Manuel António Pires em Angola e em Silva Porto se caracterizou por três ambientes distintos:
· Entre 1955, ainda Coadjutor, e 1961/62, já titular da diocese, num ambiente de paz social e política, fortemente controlado pelas forças e valores do Estado Novo;
· Entre 1961/62 e 1964, num ambiente de inquietude e sobressalto, provocados pelo terrorismo e pelos movimentos guerrilheiros que foram assediando a região;
· Entre 1974 e 1979, num ambiente de caos completo e permanente, face às destruições das guerras;
b) Ainda em diacronia, perceber como a Igreja, e em concreto a Igreja de Angola, e mais em particular, a Diocese de Silva Porto e D. Manuel, enquanto responsável máximo dessa diocese, vai adequando o seu trabalho, a sua missão, as suas preocupações, ao combate ideológico temporal da instituição da Igreja contra os seus "inimigos" ou "adversários". É perfeitamente perceptível no trabalho de D. Manuel (e provavelmente dos outros bispos contemporâneos também), através da sua correspondência, através das Cartas Pastorais, das Circulares e de artigos publicados, as suas preocupações com:
* O Protestantismo, numa primeira fase da sua estadia em Angola, em que chega a publicar a tradução de italiano para português, da obra "Comunidades dissidentes", na qual se identificam e caracterizam as comunidades não católicas existentes. Os protestantes como entidades rivais, presentes no mesmo território, mais antigos e nalguns casos com maior implementação na região, que roubavam almas ao catolicismo;
* Com a realização do Concílio Vaticano II, no qual D. Manuel participou nas suas quatro sessões, e com as conclusões do mesmo, assistimos a uma mudança de atitude e as preocupações pastorais centram-se agora no combate ao Comunismo. Verdadeira ameaça e que ocupa tempo e espaço não só a D. Manuel como à própria Igreja angolana. Isso pode ser testemunhado pelos documentos resultantes das Conferências Episcopais de Angola e S. Tomé, durante a segunda metade da década de sessenta e início da de setenta;
* Depois, com o 25 de Abril de 1974 em Portugal e a independência de Angola em 1975, assistimos a nova alteração de paradigma e nessa altura face aos ataques dos movimentos políticos angolanos, ateus, secularizantes da sociedade e do estado, a Igreja e, neste caso em concreto, D. Manuel desvaloriza o problema dos protestantes, procurando neles aliados face a esse novo inimigo comum;
* A própria Igreja em Angola procurou muito rapidamente adequar-se aos novos tempos e às novas realidades, produzindo Cartas e outros documentos onde as palavras democracia e liberdades aparecem com destaque e como grandes novidades face a discursos anteriores.
c) Numa perspectiva sincrónica, perceber como enquanto entidades estruturadoras e estruturantes do território, as dioceses eram administrativamente importantes. Eram as dioceses que estabeleciam alguma organização a grande parte do imenso território das colónias portuguesas. Eram as dioceses quem infra-estruturava muitas localidades remotas. Eram os Bispos dessas dioceses os principais responsáveis pela gestão, pela estratégia, pela política de investimentos e de localização de novas estruturas e equipamentos. Nessa qualidade, eram os Bispos dessas dioceses figuras proeminentes nas comunidades locais e nativas, e tinham um conhecimento efectivo do território e das suas realidades socio-económicas, como se calhar muitos nomeados políticos do regime não possuíam. Num período histórico de tamanha importância para as duas nações, como foi o período da revolução de Abril e da independência de Angola, os Bispos portugueses em Angola, eram figuras centrais, testemunhas privilegiadas de todo o processo.
Das leituras que fizemos e dos documentos que consultámos sobre esse período, ficámos com a sensação que nenhum desses intervenientes deu a devida importância histórica e a relevância das suas participações nesse momento do nosso passado recente. D. Manuel não deixou nada escrito sobre esses momentos, e se não fossem as duas entrevistas que deu em 1979, já em Portugal, em que se aventura num ataque cerrado e violento aos movimentos de inspiração marxista angolanos que protagonizavam a guerra pelo poder, nada saberíamos sobre a sua experiência. Mas outros Bispos portugueses que experimentaram esse período e que mais tarde passaram para o papel as suas memórias de Angola - e estou a referir-me por exemplo, a D. Manuel Nunes Gabriel, a D. Eduardo André Muaca, a D. Eurico Dias Nogueira e a D. Moysés Alves de Pinho - e nas quais recordam em pormenor muitos momentos vividos nas suas dioceses angolanas, estranhamente não ultrapassaram as notas de rodapé para se referirem ao processo de independência de Angola e às suas experiências traumáticas ou de seu conhecimento. Ficámos assim como que órfãos de um conhecimento, ou melhor, da possibilidade de um conhecimento que interessava a todos nós, ainda hoje. E com isto não estamos a criticar o referido episcopado, mas antes sim, a admitir, a assumir a plena frustração face a uma admissível expectativa pessoal.
Muito obrigado.
28 maio 2015
presenteado
O amigo Henrique Manuel Pereira, coordenador da colecção Presbyterium, promovida pela Diocese de Bragança-Miranda, ofereceu-me este livro de Monsenhor José de Castro. Sabendo do meu interesse pela obra deste diplomata bragançano, serviu-se da data de minha cosmogonia, para mo fazer chegar às mãos. Bem haja.
25 maio 2015
mini primavera sound
Ontem a tarde foi passada no Parque da Cidade, em família, a assistir aos concertos de Noiserv, B Fachada e Clã. O mais novo gostou de Clã, cuja música o entusiasmava...
23 maio 2015
19 maio 2015
18 maio 2015
apresentação de livro...
No passado dia 14 de Maio à noite, no centro cultural de Macedo de Cavaleiros e inserido num espectáculo cultural, apresentei o meu livro. Num formato e ambiente diferentes do habitual para "apresentações de livros", estive à conversa com um jovem que fazia as honras da casa e que me foi colocando algumas questões sobre o livro. De improviso, aproveitei para passar a mensagem que importava.
75 anos de memória
Assinalaram-se, no passado dia 15 de Maio, os 75 anos do jornal Mensageiro de Bragança. Assinalável permanência no tempo, acompanhando toda a história contemporânea da região e da cidade de Bragança. Nos dias de agora, em que a efemeridade é paradigma, é de relevar a perenidade deste projecto. Parabéns. No âmbito deste aniversário, o jornal organizou um fórum: "Que futuro para o interior?". Apesar de convidado, por motivos profissionais não pude estar presente. Fica o programa desse evento e a promessa de um texto a enviar para publicação nas próximas edições do jornal.
15 maio 2015
instante urbano xxx
Chego a Bragança com o único propósito de negociar com um livreiro a venda do meu último livro. Telefono a dois amigos para um café enquanto a hora desse encontro não chega. Um e outro estão muito ocupados e não podem vir ter comigo, portanto, sento-me num café, bem no centro da cidade, onde bebo uma água bem fresca e me entretenho com a caixa de email e alguns rascunhos. Trata-se de um café com frequência regular de turistas que visitam o centro cívico e histórico de Bragança. No momento em que entro está praticamente vazio.
Passados alguns minutos, levanto o olhar e percebo que, na mesa em frente, está um casal com duas filhas, todos eles entretidos a saborear um gelado. A mãe está de frente para mim e quando cruzo o olhar com ela, instinto meu, baixo os olhos e abstraio-me novamente nos meus papeis. Passados outros tantos minutos, volto a levantar a cabeça e dou com essa mulher a olhar-me. Instintivamente baixo a cabeça, mas já não consigo ignorar o facto. Ela está fixada em mim e isso incomoda-me. Fosse eu outro e sei que existiria outra reacção, mas esta mulher está a invadir-me e eu não gosto. A solução é simples, ou sai ela ou saírei eu em breve. Saiu ela, não sem arrastar o olhar enquanto passa e abandona o estabelecimento.
12 maio 2015
agenda
É já depois de amanhã, 5ª feira, dia 14 de Maio, a partir das 21 horas. Irei a Macedo de Cavaleiros apresentar o livro "D. Manuel António Pires, história de vida de um missionário (1915-2015)", a convite de D. José Manuel Cordeiro, Bispo de Bragança, que também apresentará o seu último livro. Apareçam.
11 maio 2015
mediascape: shame on you!
"Conseguimos infligir um dano de 30 milhões de euros na companhia e penso que isso não devia ser desvalorizado pelo Governo".
Hélder Santinhos, responsável do Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil (SPAC), em directo num qualquer canal de televisão, se não estou em erro, na passada 6ª feira, dia 8 de Maio, enquanto ainda decorria a greve dos pilotos da TAP.
Eu não sei, talvez seja um problema meu, mas ter a coragem de afirmar publicamente, com satisfação e orgulho, que o seu comportamento, a sua atitude provocou tal prejuízo à sua entidade patronal, deveria ser mais do que motivo para despedimento imediato. Dele e de toda a corja de privilegiados que se arrogam ao direito de destruir quem lhes paga o ordenado principesco.
Não quero saber da sua razão, não quero saber do real direito à greve. Neste caso, foi uma vergonha e deveria haver responsabilização e consequências drásticas para quem assim se comportou. Perderam a face e não tiveram coragem de o admitir e recuar nas suas posições, procurando sempre fugas para a frente com argumentário roto. Foi triste e infeliz a figura que este sr. piloto fez ao longo destes dez dias.
Shame on you Mr. Santinhos!
leitura de "fragmentos de unidade polifónica de Guerra Junqueiro"
No momento em que acabo de ler o livro de Henrique Manuel Pereira, recentemente lançado e que diz respeito à sua tese de doutoramento - ao qual já me referi aqui - resolvo verter para o papel algumas ideias que me assaltaram durante essa leitura.
Mas antes, quero começar por uma manifestação de condição: não conhecia, até ao presente, qualquer aspecto da vida ou obra deste ilustre transmontano de Freixo de Espada à Cinta. Este foi o primeiro contacto que fiz com o seu universo, mas posso afirmar, desde já, que não será o último e que apesar de não estar habilitado para ajuizar a obra, posso confessar que a sua leitura me motivou para conhecer melhor a personagem e procurar a sua obra.
Como é hábito nestas andanças e também pelo que atrás referi, não posso deixar de felicitar o autor, conhecido e reconhecido investigador do mundo Junqueiriano, pela obra realizada. Num trabalho de mais de 500 páginas e recheado de notas, referências e citações, somos conduzidos pela clara escrita do autor, com mestria no pormenor e/ou detalhe, com oportunismo nas etnografias e com bom gosto estético, ao longo da existência de Guerra Junqueiro. Parabéns Henrique.
Tal como já referi, não me atrevo sequer a comentar o que seja deste trabalho. No entanto, há um conjunto de ideias manifestadas e que, provavelmente, por ignorância, me chamaram a atenção e despertaram em mim aquela vontade de me pôr a caminho de...
É referida por mais do que uma vez a possibilidade de Guerra Junqueiro ser judeu. São apresentadas as opiniões de autores que ao longo dos anos reflectiram sobre essa possibilidade. Como é o caso de António Sardinha (p.245), que fazendo uma leitura ou interpretação da sua fisionomia (fenótipo), da sua moral e remetendo-o para a condição de "outro", tenta justificar a sua atitude anticlerical. O Henrique Manuel Pereira prefere relativizar a questão, pois não dispõe "de elementos probatórios que nos permitam afirmar ou negar o alegado semitismo de Guerra Junqueiro" (p.246), e logo a seguir: "sem declarada ligação aos genes..." (p.247). Associando esta dúvida aos referidos motes, chacotas, chistes, alcunhas, caricaturas ou nomeadas que visavam Guerra Junqueiro e o associavam a essa tipologia social, estereotipada, ao facto de ser oriundo de uma região que foi refúgio de várias gerações de judeus, expulsos de outros territórios, nomeadamente daquele que agora conhecemos por Espanha, não me parece de todo impossível haver uma ascendência judaica, depois convertida em Cristãos novos, vulgarmente conhecidos por Marranos, mas também por perros (dada a sua origem espanhola). Depois, acrescento a esta possibilidade a coincidente atitude "peliqueira" de Guerra Junqueiro, também característica desses povos e indivíduos Marranos (almocreves, negociantes, vendedores e regateadores nómadas que percorriam a região a comprar e a vender de tudo).
Tendo em conta a minha ignorância relativa ao universo de Junqueiro e o desconhecimento de outras obras biográficas dele, de momento não tenho como esclarecer esta questão. Pedindo desculpa pela ousadia deste raciocínio, felicito uma vez mais o meu amigo Henrique Manuel Pereira. Com a certeza que um dia destes, assim que se proporcionar, hei-de trocar estas impressões com ele.
05 maio 2015
mediascape: vandoma
Encontro hoje nas páginas do JN o protesto dos feirantes da feira da Vandoma junto da Câmara Municipal do Porto, contra o plano do executivo de transferir a Vandoma das Fontaínhas para a Alameda de Cartes, na zona do Cerco, em Campanhã. Leio as declarações do vereador responsável pelo departamento de Fiscalização, tentando justificar essa transferência, mas não me convencem, pois segundo as palavras desse responsável, trata-se de uma "visão abrangente de conciliar conflitos existentes". Curiosa forma de conciliação! Afastam-se os feirantes e a feira para bem longe do centro cívico e histórico da cidade, para as periferias da cidade, sem polarização e sem rede de transportes que sirvam o espaço e os feirantes. E entrega-se o espaço ao abandono?! Ou à especulação?! Durante décadas - eu sempre me lembro da feira naquele local - foi nas Fontaínhas que todos os Sábados, bem cedo e durante toda a manhã, se realizou esta feira, utilizada por muitos para comprar e vender objectos antigos, velhos ou roubados. Lembro-me de algumas histórias e episódios contados por amigos que, frequentemente, lá iam vender o que já não queriam ou servia. Tudo era objecto de venda e de compra. Tudo.
Ao saber desta ideia parva do município, vem-me ao pensamento a comparação da velha, porque antiga, feira da Vandoma e as modernas e desmaterializadas "feiras" virtuais, tipo OLX, onde tudo, mas tudo, pode também ser vendido e comprado. Não adianta lutar contra o tempo e contra a evolução dos hábitos e dos comportamentos, mas se a feira da Vandoma ainda tem feirantes - vendedores e compradores, porquê acabar com ela por decreto? Mal feito.
saber popular
Vasto conhecimento que advém da vivência quotidiana, da experimentação e que nem sempre chega a ser "senso comum", pois por várias razões não é conhecimento generalizado. Trata-se de um tipo de conhecimento muito específico e peculiar, transmitido oralmente e cujas fontes de saber estavam (e estão) na natureza, nos animais, na prática das artes e dos ofícios. Cada vez fico mais impressionado com a sabedoria daqueles que, aos olhos da actualidade letrada e burocrática, são ignorantes, analfabetos e info/tecno-excluídos.
Por estes dias, andava eu pelo monte, aproveitando os primeiros dias de luz primaveril, quando me apeteceu descansar um pouco à sombra de umas carrasqueiras no cimo de um lameiro já bem verde. Passados não muitos minutos chega-se a mim uma mulher que me cumprimenta, estranhando ver-me por ali, pergunta-me ao que ando. Respondo-lhe a todas as perguntas e já em jeito de despedida, disse-me para não ficar muito tempo assim no chão, pois posso ser mordido por um qualquer Biberon(?) ou Alicante(?). Admirado, pedi-lhe para me repetir o nome dos bichos, pois jamais ouvira falar de tais animais... Não adivinhando a sua vontade de falar, lá me explicou:
Por estes dias, andava eu pelo monte, aproveitando os primeiros dias de luz primaveril, quando me apeteceu descansar um pouco à sombra de umas carrasqueiras no cimo de um lameiro já bem verde. Passados não muitos minutos chega-se a mim uma mulher que me cumprimenta, estranhando ver-me por ali, pergunta-me ao que ando. Respondo-lhe a todas as perguntas e já em jeito de despedida, disse-me para não ficar muito tempo assim no chão, pois posso ser mordido por um qualquer Biberon(?) ou Alicante(?). Admirado, pedi-lhe para me repetir o nome dos bichos, pois jamais ouvira falar de tais animais... Não adivinhando a sua vontade de falar, lá me explicou:
O Biberon(?) - não sei se é assim que se escreve e desconheço o seu nome certo ou técnico - é uma espécie de cobra pequena e delgada que morde com a cauda. A sua mordedura mata os animais e as pessoas, se não tiverem cuidado, também. Antigamente quando alguém era mordido, utilizava-se gordura de porco derretida com brasas sobre a mordedura e depois disso picava-se o local com agulhas, pregos ou outra coisa fina para tentar tirar o veneno. Mas era complicado, as pessoas viam-se aflitas. Todos os boieiros e pastores conheciam o perigo e tinham cuidado, mas mesmo assim, às vezes acontecia.
O Alicante(?) é uma espécie de gafanhoto e encontra-se debaixo das pedras. O seu veneno também é muito forte e atacava principalmente os animais que pastavam.
Por fim e sem me dar tempo a pegar num pedaço de papel e caneta, disse:
Se te morder o Biberon,
que te metam no caixão.
Se te morder o Lacraio
pegai na urna e levai-o.
30 abril 2015
28 abril 2015
26 abril 2015
41º aniversário da revolução
Data importante que se assinalou ontem, mas que eu, por afazeres domésticos, parafernálicos, bricolágicos e afins, não pude aqui vir e registar. De qualquer forma, consciente da data, gostei de estar afastado e ausente do mediático e efémero registo da espuma do dia, pois sabia, sei, da inutilidade, do aborrecimento em que essas manifestações oficiais se transformaram. Aliás, durante oito anos (dois mandatos autárquicos), enquanto membro da Assembleia Municipal de Bragança, participei activamente nas celebrações do 25 de Abril, no concelho de Bragança e se nos primeiros anos eu ansiava pela data e pela oportunidade de discursar, reafirmando os valores da democracia e a primazia da liberdade, para mim valor supremo da condição humana; nos últimos anos era já com algum incómodo e aborrecimento que me via "obrigado" a repetir o discurso politicamente correcto de elegia à data e aos seus significados, pois aquilo que sentia (e sinto) no meu quotidiano é a prática de um esquecimento, de um branqueamento desses valores de Abril. Espero sempre que tudo isto possa ser definitivamente alterado e que eu possa estar equivocado, mas em todo o caso, lamento não vivermos, de facto, sob o desígnio desse momento refundador da nossa identidade nacional. 25 de Abril.
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actualidades
Guerra Junqueiro
Pois é verdade que não conheço a obra deste ilustre transmontano de Freixo de Espada à Cinta, mas a dedicação, a investigação, o gosto e o trabalho do amigo Henrique Manuel Pereira, que agora publicou em livro estes fragmentos, teve a virtude de me trazer a curiosidade de conhecer um pouco melhor a vida e a obra de Guerra Junqueiro.
Numa das badanas do livro podemos ler um excerto do prefácio assinado por Luís Machado de Abreu, da Universidade de Aveiro:
«Muitas são as vozes que, em diálogo, se fazem ouvir neste novo trabalho de Henrique Manuel Pereira. Leva-nos o autor em viagem diligente através da receção de Junqueiro, criador literário de exceção, que, por entre aplausos e repúdios, provocou paixões veementes e foi catalisador de virtudes e vícios tipicamente portugueses. [...] ao lado de páginas de documentação mal conhecida ou de todo ignorada e de luminosa hermenêutica textual, deparamos com a muito conveniente demolição de ideias feitas. Sempre em nome da restituição do rosto verdadeiro do homem e da herança literária que ele nos legou»
O lançamento aconteceu no passado dia 24 de Abril, pelas 19 horas, no auditório Carvalho Guerra da Universidade Católica, no Porto e a obra foi superiormente apresentada pelo Professor António Cândido Franco.
23 abril 2015
baú da memória IX
Quando sei do desaparecimento de um velho amigo, recordo esses momentos de meninice em que convivi com ele e sua mulher. Conterrâneos e amigos de meus pais, era hábito encontrarem-se nas férias em Vila Boa, aproveitando esses dias de descanso para longos passeios e piqueniques no monte. Socorro-me do álbum de fotografias para o recordar e é com alguma nostalgia que revejo nele o homem simpático e brincalhão com as crianças que éramos. O Chico d'ó Cerdeiro vivia lá para os lados do Estoril, casa que visitei uma única vez. Regressava todos os anos à sua aldeia na Páscoa e no Outono, por altura dos Finados. Tinha um jipe - é a primeira recordação que tenho de andar num todo-terreno - no qual nos levava pelo termo da aldeia, por caminhos e ladeiras abismais.
A vida afastou-nos, o tempo passou por mim e por ele. Ontem faleceu, depois de um longo período doente, dizem-me. Não me recordo da última vez que estive com ele... talvez há dois, três anos, não sei. Os últimos contactos que tivemos, aconteceram através do Facebook, mas como entretanto abandonei essa existência, perdi-lhe o contacto. Lamento. Tristeza.
Nesta fotografia, de Agosto ou Setembro de 1977, está o Chico comigo e com o meu irmão Daniel em cima de uma meda de palha de trigo. Era por aventuras como esta que eu, nós gostávamos dele. Ficará a memória desses alegres tempos.
dia do livro
Em dia mundialmente nomeado como o do livro, não haveria melhor forma de o iniciar do que a receber um email de alguém que é Escritor, conhecido e reconhecido na nossa e noutras praças. Ainda que em jeito de reparo, foi uma feliz coincidência.
22 abril 2015
boa razão para o ler...
Já aqui tenho trazido o elogio à escrita de José Rentes de Carvalho. Apesar de ser uma descoberta relativamente recente, talvez com 10 anos, para a sua avançada idade, considero-o um dos melhores escritores da actualidade portuguesa. Com as devidas e relativas distâncias, Rentes de Carvalho será o Eça da modernidade. Conheço a totalidade da sua obra editada em Portugal e acompanho diariamente, sem excepção, o seu "tempo contado", lugar onde vai depositando e partilhando pedaços da sua escrita, dos seus humores e das suas amarguras. Gosto da sua escrita clara e concisa, da sua capacidade para descrever pessoas, lugares e recantos que, apesar de não conhecer, reconheço na imensa paisagem transmontana, dos seus diálogos que me recordam as conversas que ouvia pela aldeia, a figuras recortadas pelo tempo antigo. Tudo isto a propósito de um pequeno texto - "o rio somos nós" - que colocou no seu blogue (ver aqui) e onde remete para um texto que escreveu em tempos e ao qual, diz, retorna amiúde e do qual se orgulha ter escrito. Essa foi uma boa razão, diz ele, para o partilhar com todos nós. Eu li-o e, tal como quase sempre, é muito bom.
20 abril 2015
mediascape: o (um) mar de mortos
O Mar Morto é outro, mas nos últimos dias aquele que tem sido sepultura de milhares de indivíduos - sem nome, sem pátria de origem e sem destino legal - tem sido o Mediterrâneo. Perante tamanha catástrofe, continuamos, hipócritas, a dedicar-lhes minutos de silêncio, cuja totalidade já ultrapassará largas horas de homenagens.
A Europa, cujas fronteiras externas tendem a fechar-se a cada surto migratório que tenta penetrar no seu espaço, está há muito tempo sem solução para este drama. Sem sequer saber o que fazer. Agora, perante a sucessão de acidentes com essa massa anónima de gente que, a todo o custo, tenta chegar ao nosso território, são muitas as opiniões e muitos os críticos que, de ânimo leve, têm uma solução, ou melhor, a solução para estas situações. Alguns até defendem que a Europa deveria abrir totalmente as suas fronteiras e aceitar todas as hordas de emigrantes provenientes do Norte de África, concedendo-lhes o estatuto de refugiados, ou integrando-os nas nossas sociedades. Muito sinceramente não encontro uma solução aceitável para tamanho problema, mas em teoria parece-me que a sua resolução estará a montante, neste caso a Sul da Europa... O combate aos extremismos e aos fundamentalismos religiosos, o apoio efectivo - segurança e logística - às comunidades perseguidas, criando espaços, zonas, regiões e países neutros seria meio caminho para muitos abandonarem o caminho da morte, apesar de sabermos que do seu ponto de vista, a morte não se encontra aqui ou a caminho, mas sim lá onde pertencem.
Esta realidade, apesar de não ser novidade, assume proporções jamais vistas, levando-nos a perceber como a Europa, assim como a América do Norte, são espaços de exclusão, onde aqueles que, por acaso, aí nascem ou onde são cidadãos de plenos direitos, nem nos seus piores pesadelos experimentam a realidade miserável do resto do mundo. Mundo vertido e desequilibrado para Norte.
18 abril 2015
10 abril 2015
reciprocidades
As contas à moda do Porto são as certas e aquelas que melhor resolvem as diferentes relações e, acima de tudo, as variadas situações. Como princípio não tenho qualquer reserva em aceitá-las como a melhor forma de entendimento social. São justas, equitativas, não permitem melindres, nem ressentimentos e mantêm as simetrias relacionais - "cada um paga a sua despesa". O problema é que mesmo habituado a elas desde o berço, o ethos que me chega de para lá dos montes, impele-me para o pagamento da despesa de um amigo que me acompanhe, sem nunca, penso eu, ter prejudicado essa relação ou ter melindrado esse amigo. Até porque sei que numa outra qualquer situação similar será ele a pagar. São assim as contas à transmontana e eu sinto-me confortável com o seu princípio e a sua prática - "agora pago eu, depois pagas tu, depois pagará ele".
Esta reflexão comparativa entre dois diferentes sistemas de reciprocidade económica e social, acontece depois de várias situações em que não adequei o modo de retribuição à circunstância em que me encontrava. Passo a explicar: Tendo pago uma, duas vezes, seria expectável que numa outra vez esse alguém se disponibilizasse para pagar. Isso não aconteceu e o "modo" tripeiro impôs-se. Experimentei então não me adiantar no pagamento e ficar na expectativa, mas no momento de pagar apenas fizeram pagar a sua despesa. Muito bem, digo eu, aprendendo e servindo-me de lição, mudei de atitude. Continuo a fazer gosto em pagar aos meus amigos e a quem me merece, e nem por isso deixei de o fazer, mas apenas quando e onde sei que haverá, ou houve, reciprocidade. Adivinham, com certeza, o sistema que mais se adequa à minha personalidade?! Pois é, recordo com prazer as filas de Superbock em cima do balcão da taberna, à espera de serem consumidas, porque cada um dos convivas fez questão de pagar uma rodada. Bonita e eficaz forma de reforçar os laços de reciprocidade.
09 abril 2015
mediascape: majorados
São os números de telefone que os canais de televisão portuguesa apresentam diariamente, com especial incidência nos programas-maratona dos fins-de-semana e através dos quais coagem e extorsem os telespectadores. É impressionante a atitude insistente e agressiva dos pivots ou apresentadores desses programas, passando minutos e minutos de emissão a convidar e a persuadir as pessoas a ligarem. Para tal, utilizam argumentos terríveis, aproveitando-se da putativa fragilidade de seus interlocutores, tais como o desemprego, a crise e as contas para pagar, a despensa para encher e as prestações das casas e das escolas dos filhos. Inadmissível. Pelos vistos - leio hoje no Público - a ERC tem recebido inúmeras queixas e está atenta ao fenómeno, mas não terá competências para intervir. Aliás, parece que ninguém tem competências para resolver esta situação. Aquilo que os canais televisivos estão a fazer é crime, pois estão a enganar deliberadamente os seus públicos, garantindo prémios pecuniários que não podem entregar, pois estes são exclusivos dos casinos. Por outro lado, é uma vergonha os ditos canais servirem-se desses concursos como fonte de rendimento - segundo a mesma notícia do Público, "há casos em que o apelo à participação no concurso, através do apresentador ou apenas por ter o número a ocupar parte significativa do ecrã, foi feito durante 95% da duração do programa. Não é de admirar: tendo em conta os relatórios e contas, só a SIC e a TVI terão facturado em 2014 cerca de 50 e 65 milhões de euros , respectivamente em receitas de multimédia, onde se incluem estes concursos".
Por último, uma palavra de repúdio para essas vedetas que se prestam a tais papeis; estarem horas e horas de sorriso rasgado, enquanto enganam e vendem a banha da cobra. Bem sei que para ser animador de televisão não existe nenhum código deontológico, mas devia existir. Para além disso, a ética e o brio profissional não necessita de nenhuma lei ou código. Bem pesadas devem estar as suas consciências.
08 abril 2015
empty
É a sensação que transporto comigo há já alguns dias. Depois do stress dos acabamentos, da ansiedade e da expectativa pelo dia 27 de Março, dia do lançamento do livro, dei comigo em modo stand by, cansado, sem vontade e sem propósito. Sei o que tenho para fazer e escrever - nova edição já para o mês de Agosto e outra lá para o final do ano. Não faltam trabalhos, ideias e projectos, mas agora não. Não me apetece. Ainda estou, de alguma forma, envolvido com o trabalho que agora finalizei e sei que este ainda terá outras etapas ou fases que me implicarão com trabalho e disponibilidade.
Por estes dias a sensação plena de vazio reina, mas incomoda. Nada a ocupar-me o cérebro faz-me bem, mas cansa. Não gosto deste estado de alma, torna-me desleixado e preguiçoso. Quando regressar irá custar mais. Always the same.
(Delães, 31 de Março de 2015)
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