Não sendo um adepto fervoroso ou sequer assíduo da comida rápida ou da comida lixo, é ainda com relativa admiração que observo, e verifico pelos consumos, o fascínio que as gerações mais novas nutrem pelas diferentes e variadas ofertas desses cardápios. Qual será a substância secreta e, com certeza, proibida, cancerígena, ou pelo menos maléfica para a saúde, que arrebata o palato dessa enorme massa anónima que dá pelo nome de juventude?! Apesar de banal, simplificadora de processos e libertadora de trabalhos domésticos, é estranha e, para muitos, jamais se entranhará. Sem fundamentalismos, aceitando-a como mais uma opção dietética à qual, com parcimónia, poderemos recorrer, continuo a dar preferência a uma alimentação mais demorada e, mesmo quando penso em simplificar e acelerar processos, o que me ocorre é sempre algo como uma sande de panado, uns ovos estrelados, cozidos ou mexidos, omeletes, atum enlatado, sandes mistas e afins. Sempre bom e fácil. Digo eu.
---------"Viajar, ou mesmo viver, sem tirar notas é uma irresponsabilidade..." Franz Kafka (1911)--------- Ouvir, ler e escrever. Falar, contar e descrever. O prazer de viver. Assim partilho minha visão do mundo. [blogue escrito, propositadamente, sem abrigo e contra, declaradamente, o novo Acordo Ortográfico]
18 novembro 2015
fast and junk food
Não sendo um adepto fervoroso ou sequer assíduo da comida rápida ou da comida lixo, é ainda com relativa admiração que observo, e verifico pelos consumos, o fascínio que as gerações mais novas nutrem pelas diferentes e variadas ofertas desses cardápios. Qual será a substância secreta e, com certeza, proibida, cancerígena, ou pelo menos maléfica para a saúde, que arrebata o palato dessa enorme massa anónima que dá pelo nome de juventude?! Apesar de banal, simplificadora de processos e libertadora de trabalhos domésticos, é estranha e, para muitos, jamais se entranhará. Sem fundamentalismos, aceitando-a como mais uma opção dietética à qual, com parcimónia, poderemos recorrer, continuo a dar preferência a uma alimentação mais demorada e, mesmo quando penso em simplificar e acelerar processos, o que me ocorre é sempre algo como uma sande de panado, uns ovos estrelados, cozidos ou mexidos, omeletes, atum enlatado, sandes mistas e afins. Sempre bom e fácil. Digo eu.
14 novembro 2015
a nossa civilização
(bansky)
Uma vez mais, e mais uma vez em Paris. Quantas mais vezes serão precisas, quantas mais mortes inocentes serão precisas para a nossa civilização dar uma resposta séria e definitiva?! Tanta ciência, tanta nova tecnologia, tanto desenvolvimento e não se consegue erradicar deste mundo um grupo de fundamentalistas e radicais cujos referenciais são mitos e hipotéticos factos históricos com milhares de anos. Sentem-se pertencentes a uma civilização que já não pode existir na actualidade e querem-na impôr ao resto do mundo. Nem todo o relativismo cultural do mundo pode compreender estes actos de pura barbárie. Sabemos que se tivessem possibilidade, não hesitariam em nos matar a todos.
Sou um pacifista, nunca apoiei nenhuma guerra ou ofensiva contra minorias étnicas ou culturais, mas neste caso sou apologista de uma resposta drástica e sem qualquer contemplação. Destruir, matar e erradicar qualquer resquício dessa gente será o mínimo a fazer.
Outro problema é a questão social em França e mesmo em toda a Europa. Não podemos, nem devemos, num momento de dor e de consternação, confundir tudo. Julgo que não será por acaso, nem por questões de segurança, que a escolha destes terroristas é a França e, principalmente, Paris. Não podemos esquecer que a França será o país europeu com maior percentagem de cidadãos muçulmanos, emigrados e seus descendentes que permanecem agregados em comunidades religiosas fechadas e secretas, onde o fundamentalismo será facilmente disseminado. É essa realidade e, de certa forma, liberdade que dificulta o trabalho dos sistemas de informação e segurança nacionais. Por outro lado, a livre circulação de pessoas pelo espaço Schengen não só facilita a circulação desta gente, dificultando a sua localização e referenciação, como permite a criação de outras células terroristas noutras cidades europeias, tornando impossível termos sequer a ideia do seu número.
Nada contra o Islão, tudo contra o fundamentalismo religioso, seja ele associado a Alá, ou a Jeová ou a Deus. Nenhum problema de consciência nos deverá impedir de proteger a nossa civilização, o nosso modo de vida e a liberdade individual e colectiva que nos caracterizam e que a eles tanto custa a compreender e aceitar. Quero continuar a poder dizer bem alto: Liberdade, igualdade e fraternidade.
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13 novembro 2015
12 novembro 2015
analogia
Se a nossa mulher, por exemplo, nos põe constantemente demasiado açúcar no chã, não é porque tenha demasiado açúcar guardado na despensa; é porque não foi educada no melhor modo de lidar com a doçura. Da mesma forma, o problema de saber como viver uma vida boa nunca pode ser solucionado por recurso ao intelecto.
William Boyd, 2015:105 - in Granta nº 6
mediascape: santa ignorância
Esta foi a imagem (cartaz) que os putos do PSD resolveram colocar no facebook para tentar ilustrar o assalto ao poder dos partidos da esquerda portuguesa. Do lado direito da imagem e por trás de Jerónimo de Sousa colocaram uma das mais icónicas fotografias da 2ª guerra mundial e, mesmo do século XX, o hastear da bandeira da URSS na tomada de Berlim nazista. Para além da infeliz criatividade e da inocente comparação da PaF com o regime nazi, a iniciativa demonstra a imensa ignorância desses meninos e meninas. Procurei, mas não encontrei explicações por parte da direcção desses betos. Devem estar espantados assombrados com a importância histórica da fotografia. Devem tê-la escolhido por ser bonita e radical. Não sei, mas foi por aqui que andaram alguns dos ilustres senhores e senhoras que nos têm governado. Essas escolas do empreendedorismo nos gabinetes ministeriais e afins que são as jotas, deram e dão resultados destes. Só de pensar que serão estes os homens e mulheres que amanhã poderão conduzir os destinos do país, fico amargurado.
11 novembro 2015
o dia depois, a rua (4)
Outra constatação destes últimos dias é o interesse, a participação, eu diria melhor, a implicação de muita e muita gente neste processo. Não haverá português, exagerando um pouco, mesmo entre aqueles que são abstencionistas e indiferentes crónicos, que não se pronuncie, que não tenha opinião sobre o que está a acontecer no país. Para percebermos tal, basta sair e andar na rua ou frequentar lugares públicos.
Como a espuma dos dias de agora contrasta com a normal, histórica e crescente descrença e indiferença dos portugueses pela coisa da res publica dos últimos anos e até décadas! Seja para concordar, discordar ou vice-versa, com razão ou sem ela, com elegância ou trauliteiramente, a verdade é que a política retornou ao centro da nossa urbanidade e isso é positivo, muito positivo. Quem sabe, poderá até contribuir para a diminuição das abstenções em futuras eleições. Penso eu de que...
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o dia depois, a tormenta (3)
A consciência da realidade que experimentamos por estes dias, leva-nos obrigatoriamente à reflexão sobre os dias que aí virão, sobre as enormes dificuldades que se adivinham no horizonte. Essa tormenta não é exclusiva a Portugal. Se olharmos à nossa volta, muito facilmente perceberemos como a Europa está à deriva, sem líderes capazes e competentes, sem políticas e, acima de tudo, repleta de elos fracos que, nas suas mais variadas manifestações, se predispõem a destruir, ou pelo menos questionar o edifício europeu. Entre outras, verificamos:
- Reservas sérias e programáticas britânicas quanto à manutenção na UE;
- Reforço da direita e extrema-direita em vários estados, incluindo vários governos e manifestando posições anti-europeias;
- Crise dos refugiados que, per si, já é potencialmente uma tragédia para a Europa, e que despelou sentimentos, manifestações e reacções por parte de alguns países, que julgávamos não serem possíveis numa espaço partilhado, sem fronteiras e de livre circulação;
- A construção de muros, barreiras, arames farpados, campos de refugiados, ou seja, ambientes pouco habituais na contemporaneidade europeia;
- Movimentos independentistas, como aqui ao lado em Espanha, onde a situação se extremou e poderá ser o precedente para outras experiências regionais;
- Fragilidades económicas de vários estados, que levaram à subtracção das capacidades democráticas um pouco por toda a Europa;
- Uma estrutura central Europeia enredada pela burocracia e seus burocratas, dominada pela tecnocracia e seus tecnocratas, que afastaram dos centros de decisão os cidadãos e substituíram a supremacia democrática - o perfil fundador da Europa, por um directório anti-democrático, chantagista e opressor, a quem todos devem obediência.
Perante estes factos ou realidades, a tormenta que se adivinha até poderá ser bem frutuosa. Claro que haverá riscos e alguns dos seus pressupostos são ainda desconhecidos. Aquilo que aconteceu na Grécia foi o primeiro sinal dessa mudança, agora em Portugal e daqui a dias será em Espanha. A ver vamos. Estou expectante perante a possibilidade de descontruirmos este edifício caduco e sem futuro. Penso eu de que...
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o dia depois, a esperança (2)
Eu hoje acordei num país novo, num país diferente!
Não, não estou a delirar, nem estou em negação, nem estou a prognosticar. É verdade, pela simples razão de saber que Passos Coelho e o seu governo PaF foram demitidos pela democracia, na sua sagrada casa e não legislarão mais, sinto-me um rapaz novo, optimista e esperançoso. E tenho os dois pés bem pousados no chão, estou bem consciente das dificuldades destes novos dias e seus desafios. Mas não importa. A possibilidade de saber que, agora sim, pode ser diferente, liberta-me de todas as frustrações e derrotas que trazia comigo destes últimos anos. Não conheço os dias de amanhã, mas tenho esperança. Tenho esperança pela justiça, pela educação, pela saúde e pela qualidade de vida que é devida a todos. Esperança que homens e mulheres tomem decisões não a pensar em mercados, em credores ou em números, mas a pensar em pessoas reais e seus problemas.
Recolocar os cidadãos, os homens e as mulheres, no centro da estrutura a que chamamos país, estado ou nação; recolocar os cidadãos, os novos e os velhos, no centro das preocupações e decisões programáticas e políticas; recolocar os cidadãos, os activos e os passivos, no centro das opções possíveis, transformando as demais em não-opções. O Homem no lugar do dinheiro, o cidadão no lugar do burocrata, o político no lugar do economista, o humanista no lugar do financeiro. E assim teremos um país diferente. Assim a esperança permanecerá. Penso eu de que...
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o dia depois, o odioso (1)
Bastou o amanhecer do dia seguinte à queda do governo PaF para se perceber como a sociedade portuguesa vive tempos conturbados. Muitos analistas políticos e opinadores de ocasião televisiva têm vindo a alertar para as fracturas, as crispações e as divisões sociais que a conjuntura política tem proporcionado. O resultado das últimas legislativas foi a consequência lógica, ou o epílogo desse ressentimento social. Esperariam os partidos da direita e os seus representantes que não houvesse alterações concretas e estruturais depois da governação autista, sobranceira, arrogante e discriminatória que exerceram durante os últimos quatro anos?! A queda desse governo era inevitável face, não à crispação, mas ao puro ódio social que se sente nas ruas. Não haja dúvidas que o ódio é o sentimento mais recorrente por estes dias e a fractura política verificada, apesar de eu não ter a certeza que corresponde à fractura social, pelo menos permitiu-nos perceber, definitivamente, a posição exacta de quase todos os partidos políticos com representação parlamentar. Digo quase todos porque há uma excepção que é o PS, pois dada a sua natural centralidade (aquilo a que alguns chamam "charneira"), terá sempre e a cada momento a possibilidade de poder escolher de que lado da fractura pretende ficar. Seria hipócrita se não reconhecesse que prefiro o PS do lado esquerdo dessa fractura, tal como aparentemente está hoje, mas sei que muito rápida e facilmente poderá trocar e empurrar a cisão política para o seu lado esquerdo e posicionar-se na outra margem. Claro que tudo isto implica que também seja o PS a carregar, a cada momento e situação, o odioso político e, acima de tudo, social, o que em última instância poderá provocar sérias e irreversíveis cisões dentro do PS, o que, a acontecer, não seria assim tão negativo até para o próprio partido. Penso eu de que...
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04 novembro 2015
significações e seus étimos locais
Na última Granta portuguesa (nº 6), dedicada à Noite, encontrei logo no primeiro texto, de autoria de A. M. Pires Cabral, uma reminiscência de tempos antigos e dos quais a minha memória consegue alcançar. Escreve ele:
Na incomparável e cheia de propriedade linguagem da minha terra, chama-se a uma tal mulher - porque esse é um ofício exclusivamente feminino - uma chegadeira. Pode parecer que o termo "chegadeira" traz consigo uma certa carga humorística ou punitiva (ridendo...), mas não estou certo de que assim seja. Ele é usado com total naturalidade. Vem de "chegar", que, entre outros significados que o verbo partilha com o Português normal, significa também, inocentemente, "levar a fêmea (geralmente falando da vaca) à cobrição". "É preciso chegar a vaca ao touro", diz-se com toda a candura deste mundo quando a vaca dá sinais de querer. No mundo rural, onde os humanos e os irracionais compartilham a condição animal em toda a sua extensão, tanto se chega uma vaca ao touro como uma rapariga ao seu pretendente. Tudo é chegar.
Pois eu também me lembro bem de levar as vacas ao boi, sempre que davam sinais de estarem com o cio. Não se utilizava era o termo "chegadeira", mas sim uma designação - "andar à cria", para significar o momento ideal para a cobrição. Esse momento era manifestado e perceptível pela vontade das fêmeas que, quando em manada, saltavam para cima de outras fêmeas, simulando o acto de cobrição - isto porque normalmente as manadas eram apenas constituídas por fêmeas. Em toda a aldeia existiam apenas dois ou três bois cobridores. Respeitáveis exemplares da raça mirandesa que se passeavam sobranceiros pelas ruas e canelhas da aldeia e cujos proprietários, conscientes do seu valor seminal, lhes davam bom trato e os libertavam do trabalho pesado da faina agrícola. Tendo em conta a quantidade de vacas, o sémen destes garanhões era extremamente cobiçado e havia mesmo uma corrida para o agendamento de cobrições. Momentos, com certeza, prazerosos para os animais, mas de vital importância para o equilíbrio e estabilidade das famílias.
Nesse tempo, que eu próprio experimentei e testemunhei, este vocabulário e suas significações eram totalmente reconhecidas por todos os indivíduos, que desde a mais tenra idade haviam sido boieiros(as) e haviam participado nesse devir da natureza animal. Actualmente, num tempo em que nem sequer existe gado bovino na aldeia, não só as gerações mais novas nunca experimentaram "levar e guardar a cria", como não reconhecem terminologias e procedimentos. Algo mais se perdeu, neste incessante correr do tempo e também por isso, as palavras de A. M. Pires Cabral se revelaram da maior importância para mim.
voyeurismo
Apercebi-me hoje que está em promoção um filme sobre Cristiano Ronaldo, que estreará no próximo dia 9. Mesmo. Eu não consigo entender a sua existência, ainda por cima no circuito comercial ou mainstream, a não ser como um produto bem embalado de marketing, explorando as lógicas de mitificação, de idolatria e de veneração, destes deuses pós-modernos de consumo imediato. Não percebo como alguém poderá pagar um bilhete para assistir a este filme. Só pode ser voyeurismo.
03 novembro 2015
mediascape: apenas ridículo
Três dias apenas depois de ter tomado posse como ministro da administração interna, Calvão da Silva foi ao Algarve tomar conhecimento in loco da dimensão da catástrofe natural que se abateu sobre a região. Quando interpelado pelos jornalistas disse, entre outras coisas:
- "Por isso fiz questão de começar esta visita pelos cumprimentos de condolências à família enlutada. Era um homem que já tinha vindo do estrangeiro, tinha 80 anos, fica a sua mulher Fátima. Ele, que era um homem de apelido Viana, entregou-se a Deus e Deus com certeza que lhe reserva um lugar adequado."
- "A fúria da natureza não foi nossa amiga. Deus nem sempre é amigo, também acha que de vez em quando nos dá uns períodos de provação."
- "Em Albufeira, a força da natureza na fúria demoníaca, embora os ingleses digam que é um ato de Deus, um 'atc of God', nós temos que traduzir de outra maneira."
Que conversa é esta? Onde foi Passos Coelho desencantar esta figura? Um ministro da república não pode falar assim. Muito se poderia dizer acerca desta beatice, completamente deprimente e vergonhosa, mas visto e ouvido, vou dizer que é apenas ridículo. Este senhor já foi ministro o tempo suficiente. Ainda bem que, em breve, se vai embora e regressar para as calendas do tempo, de onde nunca deveria ter saído.
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30 outubro 2015
acabadinha de chegar...
O tema deste número é Noite, o que me fez lembrar a velha música dos Sitiados de João Aguardela, em que este cantava: passa-se a noite, passa-se o tempo devagar... Para as próximas horas e dias, na expectativa de um tempo vagaroso para ler devagar.
dia dos vivos
Quando me preparo para embalar a pequena trouxa com as necessidades de um fim-de-semana fora de casa, lembro como, num passado até bem perto do presente, estes eram dias de referência para nós e cuidadosa e antecipadamente preparados. Era o fim de semana dos santos e dos finados todos, o que obrigava meio país e a nós a viajar, numa romaria singular. Se bem recordo, nesse tempo pré-IPs e ICs, estes eram os dias de maior confusão nas estradas nacionais e de caos para entrar e sair das grandes cidades. Eram sempre dias de partir e chegar tarde, eram sempre dias de muita estrada. O regresso ao lugar de origem para homenagear aqueles que já não vivem, com toda a parafernália necessária e florar para os rituais e celebrações era e, provavelmente, ainda é para muitos, um tempo-espaço extraordinário e obrigatório. Liberto dessas amarras ao sagrado, continuo a viajar nesses dias, mas sem o mesmo propósito. A idade e, acima de tudo, outros valores e interesses, levaram-me a uma outra visão do fenómeno. Respeitando sempre quem se mantém, vou acompanhando de longe e percebendo com clareza que eles e também nós, através da recordação desses que já não estão cá, não fazemos mais do que celebrar a vida de todos e de cada um de nós.
Como parecem longínquos esses dias.
28 outubro 2015
improbabilidade
Numa conversa com a minha criança (4 anos):
Eu - Então e quando fores grande o que vais querer ser?
Ele - Vou ser motoqueiro.
Eu - Ai é? Mas queres fazer corridas nas pistas ou queres fazer motocross nos montes?
Ele - Não pai. Nada disso, não percebes nada! Eu quero levar as pizas.
Eu - Ok, está bem. Já percebi.
27 outubro 2015
mediascape: o tudo e o nada são cancerígenos
Por estes dias temos sido confrontados com uma bateria de informações alarmistas em relação ao consumo de vários ingredientes, numa tal sucessão como eu já não me recordo ter acontecido. O que se passa? Esta gente ficou parva?! Ou eu ando enganado e daqui a algum tempo, irei ser surpreendido com alguma doença grave, ou a psicose social, ou melhor, colectiva, ganhou recentemente novas proporções. Claro que não se deve abusar nos consumos de enchidos, fumados e afins, claro que não se deve abusar das carnes vermelhas (até porque a Isabel Jonet não deixa...), claro que não se deve abusar do vinho, da cerveja, do bagaço e afins, claro que não se deve abusar das gorduras animais ou mesmo vegetais, mas não era preciso este verborreia alarmista que invadiu nas últimas horas os media, pois já a minha avó não me deixava comer presunto, nem as alheiras e salpicões que a minha gula exigiam. Nem tão pouco me deixava comer mais do que um ovo e, mesmo assim, só de quando em quando. Só havia alforria para o pão com... pão. Qual é a novidade e a necessidade da informação agora divulgada? Ridícula. Uma vez mais, depois de tantas outras, cheira-me a pressões empresariais, do sector alimentar, que sob a utilização de termos - estudos, pesquisas, cientificidade, laboratório, testes, comprovado, etc., cuja representação simbólica poucos questionam, tentam passar a sua mensagem. É tanga, ou pseudo-ciência. Se repararmos com atenção naquilo que tem sido divulgado nas últimas décadas, nada e tudo, ou tudo e nada, são potencialmente cancerígenos. Mais vale não comer! Certo?! Será esse o objectivo?!
Tal como sempre, o bom senso e o equilíbrio serão o segredo para uma alimentação saudável. A propósito, hoje ao almoço comi parte de uma chouriça de carne de Vinhais (daquelas que diziam provocar butolismo) com batata ao murro e grelos salteados. Termino com a denúncia da comparação ridícula, que encontrei algures, entre fumar e comer carne vermelha. Parvos!
Estou atento, até porque desconfio desta nova moda e protagonismo exagerado e pós-moderno de nutricionismos e de seus istas.
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26 outubro 2015
22 outubro 2015
torniquete que se aperta institucionalmente
Estou em choque com a comunicação do Presidente da República, realizada hoje para indigitar Pedro Passos Coelho como primeiro ministro. E o choque não diz respeito a essa indigitação que é legítima e constitucional. O choque chegou com os comentários, com as afirmações e declarações de Cavaco Silva acerca da não possibilidade de alguns partidos poderem aceder ao poder, nomeadamente, através do governo. Fiquei hoje a saber que, se dependesse deste senhor que, dizem, é presidente da república democrática de Portugal, o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda seriam ilegalizados e jamais poderiam ter sequer representação parlamentar. Aliás, desconfio que durante deste últimos dias, desde 4 de Outubro, Cavaco fartou-se de ter pesadelos com o resultado alcançado pela esquerda. Só pode. As poucas máscaras que lhe restavam, acabaram de lhe cair. Guardou para o fim da sua longa existência política a derradeira revelação: um profundo racismo político e social em relação a parte da sociedade portuguesa. Sintomático desse sentimento foi, na declaração de hoje, a referência à atenção e preocupação para com os credores, as agências e instituições internacionais, e nenhuma referência ou preocupação para com os portugueses, trabalhadores, desempregados e pensionistas. Que não haja dúvida em relação a quem elege e mantém refém esta gente no poder. Cavaco Silva não responde perante os portugueses, mas sim perante esses organismos anónimos internacionais.
Eu já andava desconfiado perante a chantagem e a pressão que a opinião publicada exerceu nos últimos dias. Agora este discurso que desvirtua a lógica democrática. A ver vamos qual vai ser a sua opção de indigitar ou não a alternativa de governo do PS com apoio parlamentar do BE e da CDU, ou se preferirá manter em gestão este governo da PaF.
Esta postura do Presidente da República remete-me para o resgate civilizacional imposto a toda a Europa. Aquilo que aconteceu recentemente na Grécia, foi só o primeiro momento desse torniquete que se vai apertando para as democracias, para os estados, para os cidadãos europeus. Receio bem que estejamos a experimentar o segundo momento.
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20 outubro 2015
candidaturas a Belém
Ainda há dias me pronunciei sobre o anuncio da candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa. Agora, e com alguns dias de atraso, partilho a satisfação com a escolha do Bloco de Esquerda recair sobre a eurodeputada Marisa Matias, a quem reconheço enorme valor e capacidade política. O BE não poderia ter escolhido um candidato melhor. Assim sendo, transfiro, com alguma pena, a minha intenção de voto no candidato Sampaio da Nóvoa para a candidata Marisa Matias.
lido: o meteorologista
No momento em que começo e, depois, acabo de ler o livro o Meteorologista, não posso deixar de trazer aqui uma ou duas impressões que a leitura rápida deste livro me causou. Já em meados de Julho tinha feito aqui referência ao livro e à vontade que tinha de o ler. Aconteceu agora.
Olivier Rolin serve-se de um caso concreto, o de Alexei Feodossevitch Vangengheim, para testemunhar o terror experimentado pela sociedade russa durante as primeiras décadas do século XX, época da Russia vermelha, dominada e governada através da banalidade do mal por Estaline. A particularidade deste livro é que o autor procura percorrer os últimos anos de vida de Alexei, vítima da máquina destruidora dos Gulag's soviéticos e através dessa experiência retrata o paradigma de terror e de barbárie experimentado, principalmente durante a década de 30. Impressiona como milhares e milhares de cidadão russos aceitaram e acreditaram nessa ideologia comunista, que não fazia mais do que eliminar tudo e todos. Em todo o lado, em cada rosto, procurava uma justificação para a sua eliminação. De alguma forma, a crueldade e a nudez desta narrativa, muito bem escrita, desconstrói o ideário do totalitarismo comunista que iludiu, principalmente durante a primeira metade do século XX, milhares e milhares de indivíduos por todo o mundo.
Olivier Rolin serve-se de um caso concreto, o de Alexei Feodossevitch Vangengheim, para testemunhar o terror experimentado pela sociedade russa durante as primeiras décadas do século XX, época da Russia vermelha, dominada e governada através da banalidade do mal por Estaline. A particularidade deste livro é que o autor procura percorrer os últimos anos de vida de Alexei, vítima da máquina destruidora dos Gulag's soviéticos e através dessa experiência retrata o paradigma de terror e de barbárie experimentado, principalmente durante a década de 30. Impressiona como milhares e milhares de cidadão russos aceitaram e acreditaram nessa ideologia comunista, que não fazia mais do que eliminar tudo e todos. Em todo o lado, em cada rosto, procurava uma justificação para a sua eliminação. De alguma forma, a crueldade e a nudez desta narrativa, muito bem escrita, desconstrói o ideário do totalitarismo comunista que iludiu, principalmente durante a primeira metade do século XX, milhares e milhares de indivíduos por todo o mundo.
19 outubro 2015
a quem interessar...
Acabo de receber convite para o lançamento de mais dois trabalhos do Professor Doutor Henrique Manuel Pereira.
No dia 23 de outubro, sexta-feira, pelas 19h00, terá lugar na Universidade Católica Portuguesa-Porto a apresentação conjunta de dois livros: Padre Américo – Frei Junípero no Lume Novo, organizado pelo Prof. Doutor Henrique Manuel Pereira, e Raízes do Tempo – À Volta de Padre Américo, da autoria do mesmo Professor. A apresentação das obras estará a cargo dos Prof. Doutor Francisco Carvalho Guerra e Prof. Doutor Vitor Teixeira. (retirado daqui...)
Como não poderia ser de outra forma, lá estarei para lhe dar um abraço amigo. Até lá.
15 outubro 2015
a LER de Outono
Acabei de comprar a revista LER deste outonal trimestre. Numa espreitadela fugaz, encontrei esta preciosidade...
O livro do não sei quê (O Livro do Desassossego) aborrece-me de morte. A poesia do heterónimo Álvaro de Campos é uma cópia de Walt Whitman; a de Ricardo Reis, de Virgílio. Pergunto-me se u m homem que nunca fodeu pode ser um bom escritor. (António Lobo Antunes, El Pais)
Não havia necessidade!
09 outubro 2015
sempre o acordo. de acordo
Um Professor da universidade de Évora escreveu ontem, dia 8, um excelente artigo sobre o Acordo Ortográfico. Não o vou transcrever na totalidade, apenas algumas frases. Ainda bem que o debate não esmorece e há quem continue a acreditar que o referido acordo é uma cagada em três, ou mil novecentos e noventa actos. Ainda assim deixo aqui a ligação para o referido artigo de opinião.
"Uma das consequências mais espectaculares desta mudança ou simplificação ortográfica foi a de afastar o português falado de Portugal do português falado do Brasil"
"Com a ideia de unificação gráfica entre variantes da língua portuguesa, o que se conseguiu foi precisamente o contrário ao nível da oralidade"
"O acordo ortográfico de 1990, ao declarar que se deve escrever “receção”, “setor”, “deteta” e “ativo” porque essas palavras se pronunciam assim em Portugal, não somente está a levar ao delírio velhas e bafientas noções de simplificação e unificação, mas está também a construir uma gigantesca mistificação"
"O AO90 consegue concretizar duas grossíssimas asneiras ao mesmo tempo: deseduca-me como falante do português e presta um péssimo serviço à unidade transcontinental da língua"
"O AO90 dá tudo, tudo, a portugueses, brasileiros, angolanos, moçambicanos e tantos mais, menos a única coisa que talvez nos interesse na língua portuguesa: escrever e dizer bem"
mediascape: da incompetência à soberba...
...é um instante televisivo.
José Rodrigues dos Santos, pivot do telejornal da RTP, num destes dias a propósito da composição da nova Assembleia da República, referiu-se ao candidato Alexandre Quintanilha, cabeça de lista do PS pelo Porto, como sendo "o eleito ou a eleita" mais idoso(a).
Polémicas à parte entre o PS e a RTP daí resultantes, parece-me indigno por parte de um jornalista referir-se num tom jocoso ao deputado aludindo à sua orientação sexual. O facto de Alexandre Quintanilha ser homossexual assumido, não altera o seu género, nem condiciona a sua actividade social, nem tão pouco a sua participação naquilo que é a res publica.
Não sei como é possível o canal de televisão de serviço público em Portugal tolerar comportamentos, ou desempenhos como este. No mínimo uma suspensão e um processo disciplinar. Por decoro e por vergonha, a demissão. Obviamente e sem delongas.
É preciso não esquecer que esse proeminente intelectual que gosta de piscar o olho para a câmara sempre que se despede dos seus fãs e leitores, é o mesmo que ao serviço da RTP e em reportagem se permite fazer juízos de valor e destratar pessoas, comunidades e instituições. Para além disso, é o mesmo que, iluminado pelo luminoso das suas ficções, se dá ao direito de escrever livros de centenas ou milhares de páginas, cujos conteúdos deveriam envergonhar um analfabeto.
A soberba do sujeito ao afirmar: "Nós, os escritores...".
É preciso não esquecer que esse proeminente intelectual que gosta de piscar o olho para a câmara sempre que se despede dos seus fãs e leitores, é o mesmo que ao serviço da RTP e em reportagem se permite fazer juízos de valor e destratar pessoas, comunidades e instituições. Para além disso, é o mesmo que, iluminado pelo luminoso das suas ficções, se dá ao direito de escrever livros de centenas ou milhares de páginas, cujos conteúdos deveriam envergonhar um analfabeto.
A soberba do sujeito ao afirmar: "Nós, os escritores...".
06 outubro 2015
mediascape: déjà vu palestiniano
Um vez mais, sempre mais, cada vez mais, as notícias de confrontos entre Israelitas e Palestinianos que se eternizam, chegam-nos via TV, mas na verdade já estamos tão familiarizados com tais imagens que já relativizamos esse drama político, cultural e religioso que aparenta não ter solução. Voltam a morrer pessoas, Palestinianos, claro.
Há pouco menos de cem anos, eram as potências europeias, saídas vitoriosas da grande guerra que negociavam a administração desses territórios. Era a coroa inglesa o jogador principal desse tabuleiro da geopolítica mundial e quem determinava as políticas para o Médio Oriente. Durante a década de vinte do século XX, Winston Churchill, enquanto ministro das colónias, foi um dos principais actores dos destinos da Palestina.
Na sua biografia "Churchill: A Life" de Martin Gilbert (1991:328), podemos conhecer parte desse processo:
Quanto à Palestina, disse Churchill a Abdullah (emir), enquanto fosse permitida a entrada dos Judeus, «os direitos da população não judaica existente seriam rigorosamente mantidos». Abdullah aceitou estas garantias, mas os Árabes locais, não; numa petição a Churchill eles avisaram que se a Grã-Bretanha não prestasse atenção ao seu clamor por um fim da imigração judaica, «então talvez a Rússia, ou mesmo a Alemanha, leve um dia a sério o seu brado». O objectivo dos sionistas, alertavam os Árabes, era estabelecerem um reino judaico na Palestina «e gradualmente controlarem o mundo».
Os Árabes pediram a Churchill a abolição do princípio da pátria judaica, o estabelecimento de um governo nacional «eleito pelo povo palestiniano» e a cessação da imigração judaica até que estivesse instalado um governo palestiniano. Churchill respondeu-lhes que não estava em seu poder deferir o seu pedido «nem, mesmo que estivesse no meu poder, seria esse o meu desejo», e acrescentou: «Além disso, é manifestamente justo que os judeus que se encontram espalhados por todo o mundo possam ter um centro nacional e uma Pátria, onde alguns deles possam ser reunidos. E onde poderia isto ser, senão nesta terra da Palestina com a qual ao longo de três mil anos eles estiveram íntima e profundamente associados?» A Palestina podia sustentar «um número de pessoas muito superior ao do presente»; os Judeus iriam trazer uma prosperidade da qual beneficiariam todos os habitantes; não seriam despojados nenhuns árabes. Um governo próprio com a possibilidade de uma maioria judaica, iria levar tempo. «Todos nós já teremos desaparecido desta terra, também os nossos filhos e os filhos dos nossos filhos, antes que isso seja plenamente conseguido.»
Aos Judeus da Palestina, cuja delegação ele recebeu logo a seguir aos Árabes, Churchill referiu-se ao sionismo como «um grande acontecimento no destino do mundo» e desejou-lhe sucesso para vencer as «sérias dificuldades» que se apresentam no seu caminho. «Se eu não acreditasse no vosso mais alto espírito de justiça e idealismo», disse ele, «e em que o vosso trabalho irá efectivamente conferir bênçãos a toda a região, eu não teria as grandes esperanças que tenho de que eventualmente a vossa obra será cumprida.»
Churchill plantou uma árvore no local da futura Universidade Hebraica no monte Scopus. «A esperança da vossa raça ao longo de tantos séculos será gradualmente realizada aqui», disse ele, «não só para vosso próprio benefício mas também para benefício de todo o mundo». Mas os habitantes não judaicos não devem sofrer. «Cada passo que se dê deverá portanto ser para o benefício moral e material dos Palestinianos, todos, Judeus e Árabes por igual». «Se isso for feito, a Palestina será feliz e próspera; a paz e a concórdia reinarão sempre; ela converter-se-á num paraíso, numa terra de leite e mel na qual os sofredores de todas as raças e religiões encontrarão o descanso depois das suas provações».
Os Árabes pediram a Churchill a abolição do princípio da pátria judaica, o estabelecimento de um governo nacional «eleito pelo povo palestiniano» e a cessação da imigração judaica até que estivesse instalado um governo palestiniano. Churchill respondeu-lhes que não estava em seu poder deferir o seu pedido «nem, mesmo que estivesse no meu poder, seria esse o meu desejo», e acrescentou: «Além disso, é manifestamente justo que os judeus que se encontram espalhados por todo o mundo possam ter um centro nacional e uma Pátria, onde alguns deles possam ser reunidos. E onde poderia isto ser, senão nesta terra da Palestina com a qual ao longo de três mil anos eles estiveram íntima e profundamente associados?» A Palestina podia sustentar «um número de pessoas muito superior ao do presente»; os Judeus iriam trazer uma prosperidade da qual beneficiariam todos os habitantes; não seriam despojados nenhuns árabes. Um governo próprio com a possibilidade de uma maioria judaica, iria levar tempo. «Todos nós já teremos desaparecido desta terra, também os nossos filhos e os filhos dos nossos filhos, antes que isso seja plenamente conseguido.»
Aos Judeus da Palestina, cuja delegação ele recebeu logo a seguir aos Árabes, Churchill referiu-se ao sionismo como «um grande acontecimento no destino do mundo» e desejou-lhe sucesso para vencer as «sérias dificuldades» que se apresentam no seu caminho. «Se eu não acreditasse no vosso mais alto espírito de justiça e idealismo», disse ele, «e em que o vosso trabalho irá efectivamente conferir bênçãos a toda a região, eu não teria as grandes esperanças que tenho de que eventualmente a vossa obra será cumprida.»
Churchill plantou uma árvore no local da futura Universidade Hebraica no monte Scopus. «A esperança da vossa raça ao longo de tantos séculos será gradualmente realizada aqui», disse ele, «não só para vosso próprio benefício mas também para benefício de todo o mundo». Mas os habitantes não judaicos não devem sofrer. «Cada passo que se dê deverá portanto ser para o benefício moral e material dos Palestinianos, todos, Judeus e Árabes por igual». «Se isso for feito, a Palestina será feliz e próspera; a paz e a concórdia reinarão sempre; ela converter-se-á num paraíso, numa terra de leite e mel na qual os sofredores de todas as raças e religiões encontrarão o descanso depois das suas provações».
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actualidades
enfim, migração para a maçã
Depois de muito tempo às voltas com esta decisão, resolvi sair da minha "zona de conforto" e migrar. Foram muito meses ou anos a ganhar coragem para viajar e levar comigo a tralha toda de uma vida para um novo universo, onde tudo é diferente e ainda complicado. Para além da resistência natural e atávica ao mundo, às rotinas e procedimentos conhecidos, havia também a questão financeira, pois neste novo ambiente, elegante, clamoroso e apelativo, o custo de vida é muito mais caro. Bem sei que é o preço a pagar pelo incremento do aparato e da qualidade de vida (à mulher de César não basta sê-lo, tem que o parecer...).
05 outubro 2015
notas soltas da madrugada seguinte
Acompanhei a noite eleitoral até ao fim e até não haver mais qualquer resquício noticioso ou opinativo sobre as eleições legislativas de ontem. Depois, num exercício ao jeito do twitter, registei num caderno algumas notas sobre aquilo que acontecera. Aqui ficam algumas dessas notas e alguns dos sentimentos experimentados nesta noite:
* Derrota clara e humilhante de António Costa;
* Inadmissível derrota para o PS, depois de quatro anos de austeridade e amargos sacrifícios;
* Resultado do PS demonstra estado de guerra civil no seu aparelho e estruturas;
* Resultado do PS demonstra a crueldade e, acima de tudo, a inutilidade do assalto ao poder protagonizado por António Costa um ano antes;
* Vitória clara da coligação PAF, sendo a força política mais votada, não deixa dúvidas quanto ao sucesso da sua mensagem;
* Vitória da coligação PAF, apesar de não conseguir maioria absoluta, permite governação;
* Impressionante como Paulo Portas vai sobrevivendo, contra tudo e contra todos;
* CDU mantém a sua base eleitoral, conseguindo mesmo aumentar a sua representação num mandato;
* BE consegue o seu melhor resultado eleitoral, aumentando número de votos e mais do que duplicando o número de eleitos;
* BE consegue polarizar votos à esquerda do PS e, também, do descontentamento socialista;
* Não se materializa o sucesso virtual dos partidos emergentes, nomeadamente, do Livre e do PDR;
* Nenhum movimento ou partido dissidente do BE consegue votação sequer digna de registo;
* Afinal, apesar da minha desconfiança, sondagens estavam correctas - ao contrário do que aconteceu noutros países, as empresas de sondagens em Portugal merecem credibilidade;
* Noite humilhante para António Costa que deveria ter acabado com a sua demissão. Até aí esteve mal. Preferiu ficar agarrado ao lugar. Politicamente insustentável e a partir de agora, a prazo;
Durante todo este tempo de aproximação ao acto eleitoral e até ao próprio dia, fui dos poucos, ou muitos, não sei, que não acreditei que seria possível a PAF sair vencedora, pois sempre pensei que havia memória, que havia racionalidade no julgamento desta governação. Enganei-me. Preferia que tivesse ganho o PS, ainda que soubesse que pouco ou nada iria mudar e de não ter especial apreço por António Costa, de não o considerar um político tão extraordinário como muitos o qualificam. Parece-me até ser um político pouco afirmativo, preferindo sempre o nim e o tão. Veremos o que os próximos dias nos reservam.
30 setembro 2015
instante urbano xxxiii
Ao ser atendido num balcão das finanças por uma funcionária que já mais vezes me atendeu, fui surpreendido com um comentário seu relativo a uma contribuinte que esperava a sua vez para ser atendida, do outro lado do balcão. O nosso diálogo foi, mais coisa, menos coisa, nestes termos:
ELA: - Aquela senhora que está ali é muito interessante. Não acha?
EU: - Diga?!...
ELA: - Aquela senhora tem um ar muito interessante. Não concorda?
Tentando localizar essa mulher, inclino-me para a frente...
ELA: - Não dê tanto nas vistas. Olhe com mais discrição... não sabe como se faz?
Retraio-me e fico quieto...
EU: - Refere-se à senhora loira?
ELA: - Sim. Tem um ar muito fresco. Desculpe estar com esta conversa, mas caramba, temos olhos e eu até tenho quatro (óculos), portanto, só posso ver... não é?!
EU: - Pois...
ELA: - Eu já a conheço daqui. Ela costuma vir cá muitas vezes. Não sei como se chama, nem para quem trabalha... Depois até vou perguntar às minhas colegas que a atendem sempre naquele balcão...
EU: - De facto, eu acho que também já a encontrei cá mais vezes... talvez seja contabilista.
ELA: - Não. Nem tanto. Não tem ar disso. Deve vir representar empresas, talvez das caves do Vinho do Porto.
EU: - Pois, se calhar...
ELA: - Não sei. Aquele ar fresco. Diferente. Ar de sueca...
Entretanto, mudámos de assunto e ela passou a esclarecer-me sobre aquilo que eu lá tinha ido fazer.
29 setembro 2015
Onésimo, despenteador de pensamentos
Tal como sempre, ou como quase sempre, para não exagerar, Onésimo Teotónio Almeida publica um brilhante, inteligente e bem disposto livro. Ao passear-me pelas avenidas, que é como quem diz corredores da FNAC, a propósito, cada vez mais pequenos e despidos, chamou-me a atenção a bonita capa e, principalmente, o gerúndio no seu título. Depois verificando o autor, peguei nele e folheei-o; achei por bem, sentar-me num recanto para, com mais calma, perceber do que se tratava; li até não ter mais tempo disponível e, assim sendo, só me restou a alternativa de o comprar para poder continuar a leitura. Estou a gostar e dada a inteligência deste despenteador, só posso aconselhar vivamente a sua leitura.
Nota: Este título trouxe-me à memória, o tempo em que havia quem me chamasse "despenteado mental". Nunca cheguei a saber porquê. Desconfio, mas não sei.
esquiço
Perspectivando-a (a Sul) podemos adivinhar a longa extensão de areal deserto que se esconde para lá das dunas e que se estende por toda a costa. Neste pequeno segmento de praia, despida da mobília de Verão e silenciosa do boliço humano, só a espaços, uma ou outra pessoa, um ou outro atleta, surgem no horizonte e rapidamente se aproximam e desaparecem por trás de uma proeminente duna. A maré baixa vai permitindo que alguns pescadores amadores entrem no mar e se arrisquem no labirinto das rochas emersas. A neblina marítima teima em cobrir todo o céu, impedindo o Sol de se manifestar em todo o seu poder neste últimos dias de Setembro. No areal, até há bem pouco tempo a fervilhar de vida, convivem ou descansam bandos de gaivotas.
A sensação ao olhar absorto esta paisagem é de tranquilidade e de abandono, bem preferível à poluição estival, o que me permite animar a alma e os sentidos. À medida que nos afastamos do calor e nos aproximamos do frio e das tempestades, maior é o apelo para aqui vir e ficar.
(tentei fazer um esquiço para aqui colocar, mas, como seria de esperar, não consegui...)
21 setembro 2015
processo eleitoral
Pela primeira vez neste século não estou envolvido no processo eleitoral em curso. Desde 2001 tenho-me envolvido, de diferentes maneiras e intensidades (desempenhos), em cada um dos actos eleitorais. Portanto, é com alguma estranheza e, acima de tudo, tranquilidade que aguardo pelo dia 4 de Outubro. Não tenho qualquer dúvida e sei, com convicção e em consciência, em quem depositarei e confiarei o meu voto e qual o meu desejo para o futuro político do país, mas quanto ao resultado final deste processo, tenho várias e sérias dúvidas e angústias. Não quero, nem posso acreditar que haja a possibilidade da actual coligação no governo sair vencedora, mas também não quero explorar aqui esse cenário. Manifestar a minha certeza quanto ao voto e ao mesmo tempo, indiferença e alheamento em relação aos dias de campanha que teremos até ao dia das eleições. Campanhas com direitos de antena na rádio e nas TVs, acções de rua, contacto com populações, entrevistas, comícios, etc e tal, foi chão que já deu uvas, ou melhor, foi peditório para o qual muito já dei. Não há pachorra.
Estarei a ficar velho?!
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actualidades
acordar a falar de amor
Nunca tive a pretensão de ser escritor. Também não sei se essa condição pode ser uma escolha, se podemos acordar um dia e, só porque sim, sermos escritores. Gosto muito de escrever, mas não me sinto capaz de criar uma narrativa imaginada. Sempre gostei de ambientes experimentados, de personagens reais e de tentar recrear esse mundo um dia experimentado por alguém. Daí a relevância dada ao testemunho, a valorização do relato e a escolha pelas etnografias que continuo a praticar.
Apesar disso, talvez um dia me sinta inspirado e capaz de me aventurar a escrevinhar um conto, construir uma história ou um romance. A ideia até já existe há algum tempo, os personagens já estão nomeados e as suas existências e destinos também. A não ser que, entretanto, surja uma outra ideia e uma outra história, essa ficção terá por título "acordar a falar de amor" e mais não digo.
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projectos
15 setembro 2015
mero desabafo ou subtil pressão?
"PS: é dessa forma que nego as crenças, e com pouco tempo que tive para ler alguns grupos. Espero que eu consiga fazer essa cadeira, para pegar o meu certificado. Obrigada!!"
(comentário que uma aluna minha escreveu a lápis no fim de um exame...)
13 setembro 2015
música para todos em d'bandada
Ontem, dia 12 de Setembro, um Sábado, foi dia de D'bandada na cidade do Porto. Durante todo o dia espectáculos e música variada e gratuita por todo o centro da cidade. Motivado pela participação do mano mais novo, também eu fui com a família participar nesta festa da música destinada a todos, miúdos e graúdos. Impressionante a quantidade de gente que circulava pelas ruas, praças e jardins da cidade. Imagino alguém que tenha aterrado por estes dias na cidade, sem saber, deve ter ficado abismado com a sua "movida". Gosto destes ambientes de rua, mas quando chega a hora de comer, já não me agrada nada tanta confusão. Prefiro retirar-me para espaços mais tranquilos e com menor freguesia. Assim fiz.
11 setembro 2015
ler por ler, não!
Não consigo ler algo que não goste. Esta é uma declaração de feitio. Como algo que posso afirmar sem hesitar, quando de literatura em prosa ou poesia se trata. O mesmo não posso dizer em relação à não-ficção, pois aí já li milhares de páginas onde não encontrei o mínimo prazer. Mas li, estudei e terei aprendido sempre algo.
Quando nos damos ao trabalho de procurar a opinião de terceiros, ditos especialistas em literatura, podemos descobrir diferentes e variadas opiniões acerca de livros e de autores. Acontece, porém, que por vezes essas opiniões coincidem no elogio a determinada obra ou autor e eu, enquanto leitor (leigo), sou sensível a esse encontro de opiniões e vou à descoberta desses novos territórios da ficção. Às vezes sou feliz, outras vezes nem por isso, outras vezes ainda não percebo o encanto ou o deslumbre colectivo ou consensual em torno de um autor ou obra.
Apurria-me o desperdício de tempo e de espaço que a leitura de alguns livros, considerados clássicos, me obrigam. Estou como o outro (Pacheco Pereira) que disse, hiperbolizando, que não valeria a pena perder tempo com leituras novas ou de modas. Temos que nos concentrar no essencial e eu considero que, sendo um leitor de todas as horas e dias, por prazer ou afazer, cheguei a uma idade em que posso e devo ser mais criterioso com as leituras que escolho e me ocuparão as horas da minha vida. E há tanta boa literatura para desfrutar. Venha a mim.
10 setembro 2015
um clássico
Depois de muitos anos esgotado, finalmente foi reeditado este magnífico trabalho de Brian O'Neill. Originalmente publicado, em 1985, pela Dom Quixote, na colecção Portugal de Perto, este foi e é um dos clássicos da Antropologia da segunda metade do século XX em Portugal. Resultado do seu trabalho de campo, entre 1976 e 1978, numa pequena aldeia do concelho de Vinhais e, depois, sua tese de doutoramento em 1982, na London School of Economics, rapidamente foi adoptado pelos programas das licenciaturas de Antropologia em Portugal. Foi para mim também leitura obrigatória e, tendo parte da colecção Portugal de Perto, sempre o quis adquirir. Nunca o consegui encontrar. Foi a compra desta visita à Feira do Livro do Porto. Entretanto, continuarei à procura da primeira edição.
09 setembro 2015
avenida das Tílias
Pelo segundo ano consecutivo a Câmara Municipal organiza a Feira do Livro do Porto e, uma vez mais, nos jardins do Palácio de Cristal. Aproveitei a tarde chuvosa de hoje para me passear pela bonita Avenida das Tílias, por estes dias, murada por milhares de livros. Claro que a cada contacto com os vendedores, percebi o desconforto com a chuva que afasta ou impede os "clientes" de visitar a Feira. Contudo, sempre fui aproveitando para, com calma e sem atropelos, afirmar a minha satisfação por poder usufruir de toda aquela oferta quase em exclusividade. Troquei impressões com livreiros, questionei por edições pretendidas, indaguei por livros difíceis e antigos. Fiquei triste por não poder trazer uma mão cheia dessas raridades, pois o seu preço era proibitivo. Soube-me bem sentar numa esplanada, sentir a chuva miúda a cair e cheirar a humidade da terra. Um café, um livro e um estacionamento estupidamente caro, foi o dinheiro que lá deixei. Vou lá voltar um dia destes.
04 setembro 2015
road to nowhere
Esta fotografia capta um momento, na auto-estrada perto da fronteira austríaca, da marcha dos refugiados sírios em direcção à Áustria, vindos da capital húngara, Budapeste. No mesmo instante lembrei-me da música dos Talking Heads, "Road to Nowhere". A sua letra convida-nos para uma viagem sem destino, para bem longe, para uma cidade mental que cresce dia após dia, onde tudo ficará bem, para o paraíso. Será que a vida deste imensa massa de gente apátrida algum dia ficará bem?
Não resisto a colocar aqui um video recente dessa música.
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actualidades
02 setembro 2015
mediascape: horror e ignomínia
Acabei de ver a fotografia de uma criança síria morta numa praia da Turquia, consequência do naufrágio de uma embarcação que tentava chegar à Grécia. Não consegui evitar as lágrimas e é com o rosto humedecido que escrevo estas palavras.
Não posso, não podemos aceitar mais imagens como esta. É de uma violência sem paralelo. Não é uma vítima de guerra ou acidente. É uma mártir da hipocrisia em que vivemos. Ponderei copia-la para aqui, mas não o faço porque não a quero ver mais. Nunca mais. Sei bem que o choque de imagens como esta provocam o horror e promovem os lugares mais comuns, naquilo que são as reacções das lideranças europeias. Mas precisamos de mais, de algo diferente daquilo que tem sido a reacção individual de cada Estado. A atitude das elites europeias traduz-se numa ignomínia que, infelizmente, ficará na história do mundo. Também os EUA responderão por esta tragédia, pois a Primavera Árabe que promoveram no Norte de África, não resultou em democracias, mas sim em Estados falhados e à disposição de todos os fundamentalismos.
Ainda hoje trocava impressões com um Presidente de Junta de Freguesia do concelho de Vinhais, a propósito desta tragédia humanitária que experimentamos na Europa e ele dizia, com propriedade, que todas as freguesias de Vinhais bem podiam acudir a esta gente, recebendo e alojando uma ou duas famílias cada. O concelho está envelhecido, sangra de emigração e o território está completamente desestruturado. Porque não trazer algumas famílias para cá e criar novas dinâmicas sociais e económicas?!... Muito bem pensado. Claro que a situação não se resolveria, mas seria um excelente contributo.
Esta criança bem poderia ter sobrevivido e, depois, ter tido direito a uma vida longa e digna. Não, não teve direito a nada, apenas a uma curta experiência traumática à qual não sobreviveu. E o terror supremo é olhar aquele pequeno corpo morto de 12 anos , que a força maior das correntes marítimas depositaram naquela praia e imaginar um dos meus filhos naquela circunstância. Muito triste.
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actualidades
01 setembro 2015
mês de leitura
Dividido em duas partes, este mês de Agosto foi um excelente tempo de leitura. Ao longo dos últimos meses tinha acumulado algumas leituras para fazer, daquelas não obrigatórias. Assim e aproveitando a primeira quinzena junto ao mar, pude acabar de ler o gigante de James Joyce, "Ulisses" e "A amante holandesa" de José Rentes de Carvalho. Depois, na segunda quinzena, já em Bragança e arredores, desfrutando da tranquilidade da aldeia e da ausência tecnológica, pude continuar as jornadas de leitura: "As velas ardem até ao fim" de Sándor Márai, "Montedor" de José Rentes de Carvalho e "Winston Churchill - biografia" de Sir Matin Gilbert foram as leituras dessas horas. Agora e porque ando às voltas com um projecto sobre mitologias rurais, trago comigo os Contos, as Bicharadas e as Montanhas de Miguel Torga. Rico mês de Agosto.
o génio e o prazer das coisas bonitas...
Há muito conheço David Byrne e o considero uma das mentes mais brilhantes da cena musical mundial. Neste primeiro video, podemos vê-lo em parceria com St. Vincent a reinventar um dos seus clássicos. Como o Youtube é uma magnífica ferramenta, permitiu-me ir à descoberta dessa, até então, desconhecida e nem sempre loira, chamada Annie Erin Clark, cujo nome artístico é St. Vincent. O segundo vídeo é novamente um concerto de ambos com o mesmo naipe de sopros e onde podemos testemunhar o génio de ambos. Gostei de St. Vincent. Vou tentar conhecer mais e melhor.
27 agosto 2015
instante urbano xxxii
Aproveitando a temperatura amena do início da tarde, resolvemos dar um passeio pelos campos e montes que rodeiam a aldeia. Levámos a criança mais velha connosco, que apesar de contrariada, lá foi arrastando os pés, sempre a barafustar com as comichões e mordidas dos bichos e bicharocos que não nos largavam. Não parou de resmungar e de lamentar ter aceitado o nosso desafio. A determinada altura e depois de mandar um berro, assustada, disse à mãe: - Mãe, um Saltão pisou-me um pé!...
Coitada da urbanita. Ou muito me engano ou não volta a sair da aldeia.
03 agosto 2015
na casa de papel de valter hugo mãe...
...escreveu ontem, dia 2 de Agosto (revista do jornal Público), sobre o festival de Paredes de Coura. Apesar de não ser um consumidor desse formato, adoptado com sucesso, de eventos, não posso deixar de referir a impressionante escrita de Valter Hugo Mãe e a magnífica elegia aí produzida ao festival de "gente junta com vontade de estar feliz".
"Coura são as termas da música. O tratamento para todas as patologias operado pela maturação dos sons no esplendor da paisagem"
mediascape: europa sitiada
Não sei o que mais irá acontecer e quais as verdadeiras consequências daquilo que temos vindo a assistir nos últimos meses na Europa. Os surtos migratórios incontroláveis provenientes de África com destino à Europa, entrando pela Grécia, Itália e França, com o objectivo de chegarem a um país seguro e à procura de uma vida melhor, tem levantado questões e desafios aos países da Europa, para os quais não estavam minimamente preparados e as reacções têm sido, no mínimo, desastrosas. Primeiro, o patrulhamento do Mediterrâneo, depois os campos de refugiados, onde se excluem essas pessoas de qualquer condição digna de cidadania, ainda mais os muros que vão sendo construídos, numa atitude impensável para suster esses desgraçados que apenas querem fugir da morte, tentativa desesperada e estúpida de líderes europeus anacrónicos. Por fim, as vedações, as cercas, os polícias e seus cães, a correria dos corpos de intervenção e o caos total em plena Europa, no coração da civilização europeia. Como chegámos a esta situação?
As notícias documentadas por imagens que nos últimos dias nos chegaram do norte de França são paradigmáticas do desespero dos homens e mulheres que tentam a qualquer custo chegar a Inglaterra e também do desnorte das autoridades francesas e inglesas, que não estão preparadas para esta situação, nem tão pouco existe uma política e uma estratégia dos Estados para lidar com tal catástrofe humanitária. São impressionantes as imagens que assistimos da situação em Calais (França), onde se situa a entrada do túnel do canal da Mancha. A parafernália policial, o ambiente prisional, o caos da debandada daquela massa humana e o choque com a polícia, não são imagens a que estejamos habituados a ver na Europa.
O que mais me impressiona é a impotência das autoridades e dos governos, que não conseguem fazer mais do que declarar guerra a essa "praga" e reprimir, criando campos de exclusão onde concentram os emigrantes que vão chegando. Estamos a falar de autênticos guetos, patrulhados e vedados ao exterior, onde os seus "habitantes" são obrigados a viver em condições sub-humanas, naquilo que é conhecida por "selva". Estamos a construir muros e mais muros, aqui e acolá, umas vezes sem pudor, outras com vergonha e chamando-lhes outros nomes. A concentração destes seres humanos em espaços circunspectos, sitiados por enormes vedações de arame farpado, perspectiva-nos um futuro dantesco, o de uma Europa sitiada em si.
Tudo isto fez-me regressar a Zygmunt Bauman e ao seu livro "a sociedade sitiada" (2002), que recentemente lera e que trata, entre outros, destes assuntos. Deixo aqui alguns excertos desse livro:
A tendência actual para reduzir drasticamente o direito ao asilo político acompanhada pela recusa tenaz da entrada de «imigrantes económicos», não indicia nenhuma nova estratégia a respeito do fenómeno dos refugiados - apenas a falta de uma estratégia e o desejo de evitar uma situação em que essa falta provoque embaraços políticos. (...) Além das usuais advertências de que exploram a segurança social e roubam empregos, os refugiados são agora ainda acusados de desempenharem o papel de «quinta coluna» em nome da rede terrorista mundial. Finalmente, existe uma razão «racional» e moralmente inatacável para capturar, encarcerar e deportar pessoas quando já não sabemos como lidar elas e não nos queremos dar ao trabalho de o descobrir.
(...)
As portas podem estar trancadas mas o problema não desaparecerá, por muito seguras que sejam as trancas. As trancas nada fazem para domar ou enfraquecer as forças que causam o desalojamento. As trancas podem ajudar a manter o problema longe da vista e do coração, mas não o erradicam. E, assim, cada vez mais, os refugiados encontram-se num fogo cruzado; mais precisamente, numa encruzilhada. São expulsos à força ou amedrontados até fugirem dos seus países de origem, mas é-lhes recusada a entrada em qualquer outro. Não mudam de lugar; perdem um lugar na terra e são catapultados para nenhures, para o «não lugar» de Marc Augé...
(...)
Os campos são artifícios tornados permanentes através do bloqueio das saídas. Os enclausurados não podem regressar ao local de onde vieram. (...) Os refugiados estão «lá mas não são de lá». Estão separados do resto do país de acolhimento pelo véu invisível , embora denso e impenetrável, da suspeição e do ressentimento. Estão suspensos num vazio espacial em que o tempo parou.
(...)
Mais do que qualquer outros micro-mundos sociais inventados, os campos de refugiados aproximam-se do tipo ideal da «instituição total» de Erving Goffman: oferecem, por comissão ou omissão, uma «vida total» de que não há escapatória. Ao abandonarem ou tendo sido expulsos do seu antigo ambiente, os refugiados tendem a ser despojados das identidades que esse ambiente definia, assegurava e reproduzia.
Assim vamos neste velha e agora perdida Europa.
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27 julho 2015
revista brigantia
Não é preocupação nova, nem é assunto novo aqui. Aproveitando uma rápida visita a Bragança, adquiri o mais recente número da revista Brigantia - volume XXXIII, agora propriedade e editado, pela primeira vez, pela Comunidade Intermunicipal de Trás-os-Montes. É um número especial dedicado aos 150 anos de nascimento do Abade de Baçal e que contempla em exclusividade a obra "Gente de Mirandela" do Pe. Erneste Sales (colaborador e informante do Abade de Baçal) de 1916, numa leitura realizada por Jorge Sales Golias e Telmo Verdelho.
São várias as diferenças em relação às edições anteriores, que na capa costumavam trazer uma imagem de um estrafogueiro e nesta não. As capas não têm badanas, o papel é melhor, mas a cartolina das capas é mais fraca. A própria encadernação não é tão boa e tem uma lombada larga demais para o número de folhas do livro, o que deixa no toque uma impressão de amadorismo ou de desleixo na paginação e acabamento.
Para além destas pequenas, mas não insignificantes, mudanças, aquilo que me parece importante realçar é o percurso degenerativo que a revista percorre. De revista regular e essencialmente etnográfica, etnológica e antropológica, passou nos últimos anos a revista de efemérides e de homenagens. Inadmissível. O meu alerta já foi dado várias vezes e em diferentes momentos e instituições, mas nem por isso alguém se importou com a sua perda qualitativa. Não só fico triste com esta realidade, como também acho que não faz sentido deixar perder esta referência cultural, ou melhor, de produção cultural da região transmontana. O seu a seu dono, mas assim não.
23 julho 2015
ao espelho
Agradeço ao Henrique Manuel Pereira o envio desta página de um suplemento do Jornal Mensageiro de Bragança. As fotografias dizem respeito ao lançamento do meu livro, no passado dia 27 de Março.
22 julho 2015
vocações
À medida que me afasto temporalmente daquela data de 27 de Março de 2015, há pequenas reminiscências, pormenores desse dia (factos, momentos ou diálogos) que me assaltam de forma abrupta a mente e que contribuirão para uma memória futura. Um desses momentos aconteceu depois do descerramento da placa de homenagem a D. Manuel António Pires, na parede da casa onde ele nasceu, quando resolvi mostrar ao actual bispo da diocese de Bragança-Miranda, do exterior, a dimensão de toda a casa dos pais de D. Manuel e quando, a determinado momento, apontei para a janela do quarto (na foto, janela da esquerda) onde ele terá nascido. A reacção de D. José Manuel Cordeiro, ao contemplar a ampla paisagem que o horizonte permitia, foi exclamativa: - Não me admira que com esta paisagem nascessem aqui vocações!...
21 julho 2015
o metereologista
Depois de ter conhecimento deste livro na revista LER, num texto de Francisco José Viegas que me despertou a atenção e, depois, a curiosidade. Trata-se da história de Alexei Feodossevitch Vangengheim, criador e director do Serviço Hidrometeorológico da URSS até 1934 e depois preso, transferido para uma das primeiras bases do gulag e, por fim, fuzilado e enterrado numa vala comum. Aproveitei o aniversário de alguém próximo para o oferecer e assim poder, daqui a uns tempos, lê-lo.
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Biblos
mediascape: sessenta euros diários
Experimentando um período de nojo pelos acontecimentos recentes na União Europeia e na Grécia, tento evitar notícias, opiniões e declarações acerca daquilo que agora aconteceu e que, com toda a certeza, no futuro será recordado e estudado. Contudo, houve um facto que, também, por ter sido tantas vezes noticiado, me ficou retido na mente: com os bancos encerrados e os movimentos financeiros controlados, os gregos só podiam levantar no multibanco até 60 euros por dia. Este facto foi sempre apresentado pelos media como sendo algo de terrivelmente mau para os gregos, como se fosse impossível viver com essa quantia disponível para cada dia. Cada um sabe de si, mas não me parece de todo mau poder viver com 60 euros por dia. Mesmo na Grécia. Será que haverá muitos gregos que vivam acima desse valor diário?!.. Eu não gasto (eu não preciso) desse valor todos os dias. Longe, muito longe disso. Raramente levanto esse ou valor superior no multibanco.
Não sei se este facto, de tão repetido por todo o mundo nas últimas semanas, não terá sido mais um argumento para a atitude vingativa dos europeus em relação à Grécia.
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13 julho 2015
a caminho...
Está neste preciso momento a ser impresso o segundo volume da série de baptismo (1911-1939) da paróquia de S. Mamede de Travanca - Vinhais, uma iniciativa da Casa da Fonte de Travanca, cujo proprietário nutre um carinho especial pela sua aldeia e tem uma vontade permanente de conhecer o seu passado, enquanto indivíduo e enquanto comunidade. O lançamento acontecerá, em princípio, no dia 17 de Agosto em Travanca, dia da festa do santo da paróquia. Estaremos sempre lá para o que for necessário. Informa-se que o terceiro volume está já a ser trabalhado.
10 julho 2015
constatação geo-estratégica
Na revista LER, edição de Junho 2015, Eduardo Lourenço, a propósito do papel da Europa no mundo e do seu protagonismo actual e num futuro próximo, afirma:
"Assistimos à crise na Ucrânia sem saber o que fazer. A Europa tem um problema, desde que existe: não saber lidar com o Outro, o não-europeu. Aconteceu no tempo de Alexandre, e sobretudo quando surgiu outro fenómeno que conquistou uma dimensão planetária: o islão. Vivemos séculos lado a lado, sem que os víssemos, ou eles nos vissem a nós. O Império Turco foi, para a Europa, uma espécie de União Soviética, desde 1453. Agora toda essa massa emerge, fruto da descolonização, numa espécie de sonambulismo histórico. Mas a Turquia europeizou-se e partes da Europa islamizaram-se, ao ponto de ter surgido esta ideia de que a Turquia pode fazer parte da coisa europeia. E como podemos imaginar a integração do islão, que representou durante séculos a não-Europa, e não sabemos o que fazer com a Rússia? Como pode a Turquia entrar na União Europeia e a pátria de Tolstói e Dostoiévski ficar de fora? A Europa não é o nome, a Europa é a sua própria História.
(...)
Não podem ficar fora de jogo só porque achamos que não são democratas como gostaríamos que fossem. Temos de relacionar-nos com eles, pelo menos com uma parte da sociedade russa. A Rússia teve o seu iluminismo e conheceu períodos de grande fascínio pelo Ocidente. E ao mesmo tempo sempre desconfiou que os padrões do Ocidente não convinham ao seu messianismo intrínseco, à sua religiosidade de tipo mítico". (pág. 36)
01 julho 2015
para LER no Verão...
Então não é que me esqueci que em Junho iria sair um número da LER?!... Imperdoável. Só hoje a fui buscar.
30 junho 2015
a quem interessar...
O meu amigo António Tiza vai apresentar-nos mais um fascículo do seu saber. Compete-me partilhar essa informação e esperar que nos possamos encontrar lá.
27 junho 2015
velho amigo João (R.I.P.)
É com amargura e verdadeira tristeza que me despeço do João. Amigo desde a minha primeira meninice e com quem convivi e aprendi. Enquanto miúdo, foi com o João que passei tardes e serões a jogar às cartas - ao burro e à bisca. Tenho a sensação que foi com ele que aprendi e ganhei o gosto pelas cartas. Foi também o João quem me ensinou e deixou "conduzir" pela primeira vez um carro-de-bois - momentos inesquecíveis e irrepetíveis de uma arte e saber em extinção. O João faz parte da minha infância e adolescência e será sempre uma memória boa para mim.
O João não estaria em idade de partir. Nos últimos anos, algumas contrariedades e problemas trouxeram-lhe desarranjos e desequilíbrios mentais, que o levaram para perto do precipício. Esta madrugada a mulher encontrou-o caído e já sem sentidos à porta da casa-de-banho.
Estive com ele, pela última vez, no dia 27 de Março. Reconheceu-me e esboçou um sorriso.
Na fotografia, o João e a Lena, em 1999, num dia feliz para eles e para mim em especial. Foi difícil convencê-lo a estar presente...
Europa: não manda quem quer, só manda quem pode
Através do Twitter vou acompanhando ao segundo as notícias que chegam da Europa e dos últimos acontecimentos das reuniões do Eurogrupo. Parece que a Grécia está fora do Eurogrupo e que terá que pagar a sua dívida até terça-feira. Foi expulsa pelos restantes membros desse restrito clube que, confrontados pela atitude do governo grego de convocar um referendo para decidir democraticamente o futuro do país, decidiu não conceder nenhum prolongamento do programa de assistência e antecipou, à boa maneira tecnocrata, que os gregos nem sequer deveriam pronunciar-se sobre o seu futuro.
Quando em Janeiro o Syriza venceu as eleições, eu fui daqueles que considerei essa vitória importante não só para a Grécia, como para toda a Europa. Se é verdade que me enganei no sentido dessa importância, também é verdade que poderemos estar perto do fim da União Europeia. A elite política europeia claudicou definitivamente perante a elite financeira. Os burocratas europeus, líderes das instituições e que detêm o poder de decisão, ficarão para a história da Europa. Aquilo que acontecerá nos próximos dias em Atenas e restante Grécia, terá repercussões a curto e médio prazo nas outras capitais europeias, principalmente naquelas em que a situação financeira é mais débil. Os nossos filhos, netos e bisnetos irão conhecer estas caras, pois serão recordados como os carrascos de um projecto que seria politica, económica e culturalmente viável, não fosse a sua ganância e egoísmo.
A confirmarem-se as notícias, estaremos a viver um dos dias mais negros da história recente da Europa. Um dia tristemente histórico.
Eis o triunvirato burocrata...
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25 junho 2015
baú da memória x
O feriado de S. João serviu, entre outras coisitas, para relembrar alguns sons de 90, se bem que só os tenha descoberto já bem perto do fim dessa década. Dois magníficos exemplos de malhas que perduraram na memória e que, de vez em vez, vou cantarolando...
24 junho 2015
sector primário
Mais um ensaio da Fundação Francisco Manuel dos Santos que quero destacar. Para quem se interessa pelas questões da ruralidade e, principalmente, da agricultura em Portugal e queira perceber a influência das Política Agrícola Comum, consequência da adesão de Portugal às Comunidades Europeias, na evolução da agricultura portuguesa, não podem deixar de ler este ensaio de Francisco Avillez. É o que estou a fazer.
instante urbano xxxi
E ao fim de tantos anos lancei o meu primeiro balão de S. João. Em dois possíveis, um ardeu e o outro, para alegria da criança, subiu e desapareceu no horizonte... Nada mau para um principiante. Sem qualquer relação, nesse momento aquilo que me veio à memória foi a estranha sensação do primeiro foguete que um dia lancei. Alguém registou este momento.
23 junho 2015
mediascape: (des)acordo ortográfico
"Uma vez que se chega a este acordo na base do consenso, não posso assinar este documento que não está escrito da forma que se fala em Angola. Camões não escreveu assim".
António Bento Bembe, secretário de Estado dos Direitos Humanos angolano
Estas declarações foram proferidas na XIV Conferência dos Ministros da Justiça da CPLP, em Díli. Isto na mesma altura em que decorre em Portugal uma iniciativa cidadã de recolha de assinaturas para a realização de um referendo sobre o acordo ortográfico da língua portuguesa. Todos poderão participar, subscrevendo esta iniciativa aqui. A pergunta que é proposta para referendar é: “Concorda que o Estado Português continue vinculado a aplicar o «Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa» de 1990, bem como o 1.º e o 2.º Protocolos Modificativos ao mesmo Tratado, na ordem jurídica interna?”
Escusado será dizer que já subscrevi esta iniciativa referendária.
Para mais pormenores visitem https://referendoao90.wordpress.com/
19 junho 2015
mediascape: a Índia aqui tão perto
O jornal Público de ontem, dia 18 de Junho, trazia uma reportagem sobre a Índia muito interessante. Sendo um país imenso, culturalmente muito heterogéneo e economicamente muito pobre, tem índices de desenvolvimento típicos de um país de terceiro mundo. A peça jornalística traz-nos o esforço que o Estado indiano e os diferentes níveis de poderes regionais tem realizado para que os indianos, principalmente aqueles que vivem no espaço rural - e são cerca de 70% dos 1,2 mil milhões de indianos, usem as sanitas. Pelos vistos 53% dos agregados familiares desse imenso território rural indiano não tem sanita nas suas habitações e defecam desde sempre ao ar livre. O esforço do Estado em equipar as casas com casas-de-banho, nomeadamente com sanitas, tem sido um esforço em vão, pois grande parte das pessoas que tiveram acesso a elas, preferem continuar a ir à rua fazer as suas necessidades. Muitos deles aproveitaram a nova construção anexa às suas habitações para lá arrumarem coisas. O esforço estatal procura alterar este costume ancestral que anualmente mata centenas de milhares de pessoas, principalmente crianças. Esta situação é paradigmática daquilo que são as representações sociais e simbólicas da doença/saúde. Enquanto que para o Estado e seus técnicos se trata de um problema de saúde pública que é preciso resolver, para os cidadãos defecar ao ar livre faz parte de um todo, de uma vida saudável e virtuosa. Assim sendo, é lógico que não basta construir retretes, é preciso um esforço pedagógico, educacional e geracional para que, pelo menos, as novas gerações se habituem e percebam a importância do uso das sanitas.
Esta situação relembra-me o tempo em que também em Portugal e também no espaço rural, as casas não estavam equipadas com essa divisão "pós-moderna" que era a casa-de-banho. Na altura em que começaram a roubar espaço às casas para construírem esses cubículos sanitários, foram muitas as resistências e recordo um caso em concreto, passado talvez em finais dos anos 70, ou início dos de 80, em que um lavrador vizinho, depois de muito refilar e resistir, lá foi convencido pelos familiares mais novos para a necessidade e o conforto de ter casa-de-banho em casa. Mal convencido, lá decidiu fazer a vontade aos mais novos e resolve construir não uma, mas duas pequenas casas-de-banho encostadas uma à outra... A verdade é que esse lavrador, apesar do investimento e do novo espaço sanitário, preferiu continuar a ir à loja dos animais, no piso inferior de sua casa, para se aliviar das suas precisões. A Índia aqui tão perto.
18 junho 2015
ao espelho...
(página 1 do jornal Voz Portucalense, edição de 17/6/2015)
(página 13 do jornal Voz Portucalense, edição de 17/6/2015)
15 junho 2015
ainda vai dar jeito e será utilizada...
"Ao ser dita, ao ser inscrita no lugar próprio, no silêncio exacto, no branco vivo da página, a coisa não só se redime do grande vazio do esquecimento, resgatada pelo sentido que agora lhe é dado, ressuscitando nesse dizer do seu nome, como também se torna outra coisa. Ressuscita, sim, mas transformada. Não totalmente diferente, só um nadinha, o que torna tudo ainda mais difícil. Mas, atenção, não me estou a queixar. Escrever - a escrita ou, em termos mais gerais, essa forma de pensamento a que chamamos imaginação - é o único verdadeiro superpoder que temos".
Jacinto Lucas Pires, in Granta 5
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nomeadas
informalidades
Não sou muito dado a formalismos ou a sociais formalidades, mas o oposto, pelo menos o extremo oposto, também me desagrada, deixa-me desconfortável e sem saber como me comportar. Isso mesmo, não sei como posicionar-me fisicamente e a reacção, irreflectida, é sempre a contracção corporal e expressiva. Passaria muito bem e melhor sem esses momentos, sempre inesperados e imprevistos, de contacto e interpelações.
Serve este prefácio, em jeito de declaração comportamental, para contextualizar a descrição de uma situação que ocorreu há poucos dias.
Participante numas jornadas sobre memória, património, arte e museus, em que se falava essencialmente do papel dos museus e das casas-museu para a preservação da memória dos indivíduos e das comunidades, assisti a uma intervenção de um ilustre autarca do norte. Enquanto o ouvi-a decidi tentar falar com ele. Aguardei-o à saída do auditório. Depois de o cumprimentar e de me identificar, comecei por fazer referência à sua intervenção e à nota por ele dita sobre a famosa empresa de turismo que opera no rio Douro. Apenas lhe referi a impressionante dimensão dessa empresa quando aquilo que vende é paisagem, um produto que existe desde sempre e que é de todos... Num tom descontraído, ele não só concordou com a minha nota, como aproveitou-a para uma inusitada e surpreendente opinião pessoal sobre as actividades praticadas por esse tipo de turismo, qualificando-as abjectamente e utilizando um vocabulário boçal e desqualificador, revelador do carácter, da estrutura e da manjedoura de onde provém. Procurei bem depressa mudar de assunto e por-me a caminho. Não me arrependi de o interpelar, mas vim embora, reflectindo sobre esta desagradável informalidade que alguns sujeitos teimam em impor na dialéctica social. Mas que raio, era a primeira vez que falava comigo; sabia lá ele quem eu era! Nada urbano este momento.
Tsipras disse...
«Nós carregamos às costas a dignidade de um povo, mas também a esperança dos povos da Europa. É carga demasiado pesada para a ignorarmos.
Não é uma questão de obsessão ideológica. É uma questão de democracia.
Não temos o direito de enterrar a democracia europeia no lugar em que nasceu.»
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10 junho 2015
distorcedor
"No homem de letras, o fascínio pelos negócios e as suas aritméticas é sempre um entusiasmo inoportuno, como qualquer vocação tardia. Imagine-se uma senhora de meia-idade a ensaiar os primeiros pliés e ter-se-á ideia do ridículo a que o literato se expõe ao conferir guias de remessa ou ao calcular margens de lucro. O lugar do bibliófilo é entre livros,impraticável. Quem escreve e lê muito habitua-se a olhar para a realidade através de lentes literárias que a distorcem".
Bruno Vieira Amaral, in Granta 5
09 junho 2015
sempre um prazer
É sempre um prazer ouvir David Bowie. Esta colectânea chegou-me em forma de presente. Obrigado Daniel.
07 junho 2015
comer, brincar, escrever
"Comer tudo aquilo com que se brincou. Poderia ser uma definição da escrita. Quem sabe: tenho de comer o que escrevo, o que não escrevo devora-me. O que como não desaparece porque o como. Nem eu desapareço por ser devorada. Acontece sempre o mesmo quando, ao escrever, as palavras se transformam noutra coisa, em nome da exactidão, quando as coisas se tornam autónomas e as metáforas roubam o que não lhes pertence."
Herta Müller, in Granta 5
05 junho 2015
03 junho 2015
hetero-retrato
Uma querida amiga enviou-me esta imagem com a seguinte mensagem acoplada...
"Repara na imagem! Diz lá se não pensaste logo em ti……foi o que me ocorreu de imediato."
a quem interessar...
Não vou poder lá estar, mas fico feliz pela iniciativa da Academia de Letras de Trás-os-Montes. Façam o favor de adquirir e conheçam Trás-os-Montes pela escrita das nossas escritoras.
31 maio 2015
solilóquio
Olhar à volta e perceber que estamos sós. Desencaixados e sem empatias. Não me resta qualquer ilusão.
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