08 fevereiro 2016

mediascape: compromissos assumidos e honrados

António Costa tinha avisado que "com acordo ou sem acordo, isto não fica assim". Mal tomou posse tratou logo de iniciar contactos e negociações com os privados que haviam ficado com a maioria do capital da empresa. Independentemente dos pormenores e dos custos inerentes, a verdade é que António Costa cumpriu aquilo que dissera sempre, o Estado terá sempre uma palavra nas decisões estratégicas da empresa de aviação portuguesa. Muito bem. É bom para a empresa, é bom para o Estado e é excelente para os portugueses ter um governo e um primeiro-ministro que, pelo menos, tenta honrar os seus compromissos.

05 fevereiro 2016

do escano e da soalheira (6)

Em noite em que os ladrões roubavam os animais e o diabo as almas às pessoas, encontram-se à porta da tia Olívia, um ladrão e o diabo.
– Que estás aqui a fazer? – Pergunta o Diabo ao ladrão.
– Vim roubar a burra da tia Olívia. E tu?
– Eu vim roubar-lhe a alma.
Assustado e preocupado com a sua própria alma, o ladrão pergunta ao Diabo:
– E como se faz para que não consigas roubar a alma a uma pessoa?
– Basta que, quando essa pessoa espirrar, alguém diga: Deus te ajude criatura. Assim já não poderei levá-la comigo...
Entretanto, os dois dirigem-se para a loja da burra, que ficava mesmo por baixo do quarto onde dormia a tia Olívia. Quando o ladrão se preparava para agarrar com uma corda a burra, ouvem a tia Olívia a espirrar e o ladrão, rapidamente, diz:
– Deus te ajude criatura!
O Diabo irritado com o ladrão, diz em voz alta:
– Olívia vem à loja que te roubam a burra!...
E assim, ambos são obrigados a fugir sem conseguirem aquilo que pretendiam.
(Abril, 2007)

04 fevereiro 2016

mediascape: valor supremo, liberdade


Apesar de não ser propriamente uma novidade, é ao ler notícias como esta do jornal Público de hoje que nós deveríamos valorizar tudo quanto, enquanto comunidade, enquanto civilização, conquistámos. Saber que noutras geografias do planeta, noutros estados e noutras civilizações, alguém como este poeta, ou um blogger, ou um qualquer cidadão que ouse manifestar uma opinião, pode ser condenado à morte, a uma prisão perpétua, a ser violentamente castigado pelo Estado é aterrador e aterrorizante.
Valorizemos sempre e em cada momento a liberdade, esse valor supremo que nunca poderemos encarar como certo, adquirido e ad eternum. Será sempre necessário relembrar a sua importância e estar atento às manifestações e acções que o possam coactar ou prejudicar. 

do escano e da soalheira (5)


A realização das várias tarefas agrícolas e domésticas, estão intimamente ligadas com o sagrado, na medida em que se acredita que o sucesso dessas realizações depende também da intervenção divina.
Um dia, uma mulher, depois de pôr o pão no forno, ritualmente, faz o sinal da cruz, na boca do forno e, para espanto de uma ajudante que ali se encontrava, diz as seguintes palavras:
– Tanto cresças tu, como as nalgas do meu cú! 
(Abril, 2007)

03 fevereiro 2016

mediascape: não sei se hei-de rir ou chorar


O jornal i noticia que José Rodrigues dos Santos foi considerado o melhor escritor português. Através de um questionário a 28 mil portugueses este senhor foi o eleito (repito) o melhor escritor português. Mas foi ele como poderia ter sido, desconfio eu, o Paulo Coelho, o Pedro Chagas Freitas, ou mesmo a Margarida Rebelo Pinto. Qualquer um destes expoentes máximos da medíocre literatura lusa e significantes da fraca exigência dos leitores nacionais. Salvem-nos da santa, eterna e lusa ignorância. Tantas e tantos bons escritores, tanta obra de qualidade superior em Portugal e em português. Sei lá, um Mário de Carvalho, um Lídia Jorge, um Gonçalo M. Tavares, uma Inês Pedrosa, um Afonso Cruz, ou até um Mia Couto ou um José Eduardo Agualusa. Tanta gente a escrever bem e com qualidade.
Já agora, por mera curiosidade, se me perguntassem, não teria qualquer dúvida ou hesitação em indicar o escritor José Rentes de Carvalho, como o melhor e maior escritor português da actualidade.
Com tais factos, fico preocupado com a sua mais que certa consagração futura, fico na expectativa assustadora de um dia vê-lo como candidato a candidato ao Nobel da Literatura. É bem menino para promover uma campanha dessas...

A fotografia ao alto, representa bem o ambiente da sua prosa, à pretensão literária, adiciona-se a pretensão adivinhatória, típica dos seres que habitam uma dimensão superior, plasmada na questão que serve de chamariz para a venda de um livro seu.

do escano e da soalheira (4)


No princípio do século XX existia no bairro da Trapa um homem que passava as noites na taberna. Quando saía já costumava estar bem bebido.
Uma noite, no tempo da ceva dos porcos, em vez de entrar na porta de casa, foi entrar na loja dos porcos e deitou-se ao lado de uma porca, que nessa altura, era alimentada, sobretudo, à base de castanhas. Pensando que estava ao lado da mulher exclama:
– Vira-te p’rá í ó Rosa, que te apesta o bafo!
(Abril, 2007)

02 fevereiro 2016

do escano e da soalheira (3)


Numa manhã, em que já tinha bebido umas boas cachaças, o Bouça, tal como fazia todos os dias, estava a mungir as suas cabras, mas não deu pela diferença e, em vez de apanhar uma cabra, agarrou um bode (chibo) e vai de lhe apertar violentamente os testículos, tal qual fazia com as tetas das cabras. O pobre do animal mais não podia berrar e o Bouça estranhando isso e o facto de não sair uma gota de leite diz:
– Berres que não berres, o litro hás-d’o botar! 
(Março, 2007)

01 fevereiro 2016

mediascape: da putice

Dias depois das últimas eleições legislativas, o governo PSD-CDS aumentou os salários de três dirigentes da Autoridade Nacional de Aviação Civil em cerca de 150%. Com retroactividade ao mês de Julho, o presidente da ANAC passou a auferir 16.075 euros por mês (em vez de 6.030), o vice-presidente 14.468 (em vez de 5.499) e uma vogal 12.860 (em vez de 5.141). Resta acrescentar o facto de estes aumentos terem sido mantidos até agora em segredo, não obstante a lei exigir a sua divulgação pública e o facto de ser a ANAC a responsável pela tarefa de apreciar (a decorrer) se o processo de privatização da TAP respeita, ou não, a legislação europeia. Mafiosas coincidências!

do escano e da soalheira (2)

O Luís Bouça era um pobre pastor (cabreiro), amigo da cachaça e muito convencido da sua esperteza. O Mâncio era um solteirão convencido da sua beleza e da cobiça de todas as mulheres. Certo dia, na taberna do Xenxo sai-se o Luís Bouça: 
– Pois olha... se eu tibesse a bonitura do Mâncio e ele a minha finura não habia homes p’ra nós dois!...
(Março, 2007)

mediascape: casta de intocáveis

Notícia desta manhã:
"Médicos reformados que voltarem ao SNS podem acumular pensão e salário" (Expresso online)

Algo vai mal no reino dos Algarves e arredores quando lemos uma notícia com este título. Mas se essa estranheza e uma certa dose de curiosidade nos fizer ler o seu texto ainda mais confusos ficamos, pois se por um lado são precisos médicos no SNS ao ponto de ter que repescar os médicos já reformados, por outro lado, diz-nos o bastonário da ordem dos médicos que “o número de novos médicos é muito alto, é o dobro dos reformados e, portanto, se prevê que no futuro um terço não tenha emprego”. Desculpem-me, mas não entendo este paradoxo. Se há muitos médicos novos, porquê é que não colocados no SNS? Porquê se deixa escapar para o estrangeiro esse capital humano? Algo de estranho se passa e tratando-se de médicos, essa casta rara e tão corporativismo, não devemos ter dúvidas que continuarão a impor a sua vontade e manterão a sua condição de privilegiados.

31 janeiro 2016

do escano e da soalheira (1)

Um certo dia, na operação diária de mungir as cabras, o Bouça diz para uma vizinha que também estava ocupada na mesma tarefa:
– Óh Senhora Antoninha, eu sou tão fino, tão fino, que se soubesse ler, até fazia contas sem cabeça! 
(Março, 2007)

nove anos, aqui e disto...

Começa a ser hábito esquecer-me de assinalar a efeméride. No passado dia 24 de Janeiro, este meu espaço completou nove anos de existência. São já muitos anos e muito tempo de dedicação, são já muitos textos e muitas pantominas, muitos momentos e muitos equívocos.
Sem poder fazer futurologia, manifesto desde já a intenção de o manter e de assinalar convenientemente o décimo aniversário em 2017. Sem poder e sem querer adiantar o que seja, alguma coisa há-de surgir. A ver vamos como decorre este próximo ano.

depois da tempestade


Deixei passar o sobressalto da morte do artista e consequente ávida procura da sua discografia, para agora, com calma e paciência, ouvir o seu derradeiro trabalho - black star. A primeira e segunda audição foram difíceis, pois o som é estranho aos ambientes de Bowie, mas à medida que se vai ouvindo começamos a perceber e a entranhar a música, chegando ao ponto de, afinal, reconhecermos muitos pormenores dos seus tão característicos ambientes. Bowie no seu melhor, ele que foi sempre bom. Vou continuar a ouvi-lo nos próximos dias.

29 janeiro 2016

a greve sem razão válida

Estamos a viver um dia de greve da função pública promovida pelos sindicatos associados à CGTP, cuja motivação é o regresso às 35 horas de horário semanal, mas na verdade esse é, quanto a mim, um dos males menores de toda a malfeitoria do governo PaF contra os trabalhadores do sector público. Tantas foram as medidas, os cortes e as taxas implementadas durante os últimos quatro anos, que me parece ridículo promoverem esta greve para exigirem o regresso imediato ao referido horário semanal (é preciso referir que o actual governo garantiu esse regresso para o mês de Julho...). Por outro lado, num momento político como o actual, parece-me muito perigoso promover esta greve, pois o governo socialista, apoiado também pelo PCP, está empenhado na apresentação do orçamento de estado de 2016 e tem à perna os condicionalismos burocráticos de Bruxelas e arredores, que a todo o custo querem combater as políticas já promovidas de inversão daquilo que foi realizado nos últimos anos. No fundo, este momento não é mais do que uma prova de vida para o partido comunista que, depois dos miseráveis resultados nas urnas, precisa de uma manifestação pública do seu poder. Estava nas mãos do PCP o cancelamento desta greve, não o fez, preferiu mantê-la, irá pagar o preço dela.

28 janeiro 2016

vergonha civilizacional

Outra notícia destes dias que nos envergonha a todos, pelo menos àqueles que partilham os valores da civilização ocidental, é a lei aprovada pelo parlamento dinamarquês que permite o confisco dos bens monetários e de valor dos refugiados que chegam às suas fronteiras. Uma vergonha para quem ainda tem na sua memória colectiva aquilo que os alemães, ali bem perto, fizeram com os judeus e com outras minorias. Esta crise dos refugiados apresenta-se como um problema que a Europa não está a conseguir resolver e razão terá António Guterres, ex-comissário para os refugiados, quando afirma que a não resolução desta crise poderá ser o fim da Europa, tal qual a conhecemos nas últimas décadas. Ainda assim, não deixa de ser vergonhoso, ver cada estado a tentar salvar o seu quintal, sem se preocupar com o dos vizinhos. Assim vai a Europa.

mediascape: cobarde submissão


A notícia já é de ontem ou mesmo do dia anterior, mas é digna de registo pelas piores razões. O estado italiano resolveu cobrir as estátuas de nus nos locais que seriam visitados pelo presidente iraniano. Inadmissível. Das duas, uma: ou se trata de uma submissão cultural, ou o estado italiano tem vergonha da sua história milenar. Inadmissível. Itália não tem que se preocupar com o embaraço de terceiros perante as manifestações culturais que fazem parte da sua história. Era o que mais faltava, até porque em situações análogas, o Irão ou qualquer outro estado dessa região não altera os seus hábitos e costumes, só porque um qualquer ocidental os visita, ainda que um chefe de estado. É uma vergonha para Itália e uma ofensa para a sua história este tipo de comportamento.

a quem interessar...

Eu vou lá estar.

25 janeiro 2016

I'm on my way

"não somos capazes de mudar"


Foi esta a confissão final de Jerónimo de Sousa, ontem, no rescaldo do péssimo e humilhante resultado que o candidato comunista, Edgar Silva, obteve. Mas o pior da sua intervenção, que acabou por se transformar na pior intervenção da noite, foi quando, paternalista, se referiu à candidata do Bloco de Esquerda, nos seguintes termos:
"Podíamos arranjar uma candidata mais engraçadinha e com um discurso ajeitadamente populista..."
Inadmissível este tratamento sexista e paternalista, principalmente vindo de um partido de esquerda e que se gaba de ser um defensor dos direitos das mulheres e da igualdade de género. Também não se percebe a indiferença da comunicação social perante tal afirmação. Fosse outro dirigente partidário a falar assim e seria um pé de vento. Não pode ser. Seria bom para todos que a atávica ortodoxia comunista pudesse mudar...

23 janeiro 2016

o neo pós-colonialismo lá da terrinha*

Eu até acho que já falei deste assunto aqui, mas como não me apetece ir à procura desse texto, nem sei quando foi que o escrevi, aqui vai:
Aqui há dias levaram-me a um restaurante cuja especialidade é o rodízio brasileiro, lá para os lados de S. João da Madeira. Era fim-de-semana e até música ao vivo tinha. O ambiente quente contrastava com o frio que se fazia sentir na rua e foi com algum prazer que nos pudemos aliviar dos trapos de Inverno.
Não recordo a última vez que entrei num restaurante destes, pois por iniciativa própria nunca os frequento. Eu sou daqueles que gosto de pagar para comer bem, que gosta de viajar para comer. Mas dos rodízios não, não gosto deles e vou explicar porquê.
Gosto de comer aquilo que me apetece, quando me apetece, mas nestes restaurantes são os empregados que determinam o que eu como e quando como. Não pode ser;
Gosto muito de algumas das carnes que estão incluídas no rodízio, mas detesto que me estejam, durante várias dezenas de minutos, a impingir legumes, frutas e mandioquices, como quem nos tenta encher o estômago, antes de trazerem as carnes que importam;
Não gosto de pagar tanto por tão pouco;
Mas acima de tudo, não gosto da filosofia que estrutura estes negócios, pois para além de não serem honestos, querem fazer-nos de parvos e idiotas, numa atitude sobranceira de chicos-espertos. Aliás, se repararmos, o desenvolvimento da própria refeição é, em si, uma manifestação dessa sobranceria cultural;
Incluo este negócio, vindo originalmente do Brasil, naquilo que são os discursos e as práticas pós-coloniais, que normalmente se traduzem numa inversão da supremacia cultural, económica e até social das comunidades anteriormente colonizadas. Actualmente, estaremos já numa fase posterior a essa inversão cultural e, numa lógica globalizadora, o equilíbrio cultural ter-se-á imposto com naturalidade, salvaguardando as identidades e suas diferenças. Estaremos assim numa fase de neo pós-colonialismo, onde cada comunidade exporta e importa aquilo que entende e gosta.


* aproveito a designação dada por um jornal brasileiro ao referir-se à super-modelo portuguesa Sara Sampaio, como sendo lá da "terrinha", ou seja, lá de Portugal. Ora aqui está mais um exemplo daquilo a que chamo de discurso neo pós-colonialista.