Ora aqui está a mais recente aquisição e leitura. J. Rentes de Carvalho no seu melhor, ou seja, no seu universo rural, recheado de memórias e de personagens bem característicos desse mundo. Destaque para a centralidade e importância da memória no desenvolvimento da narrativa e até na construção das personagens. Muito bom.
---------"Viajar, ou mesmo viver, sem tirar notas é uma irresponsabilidade..." Franz Kafka (1911)--------- Ouvir, ler e escrever. Falar, contar e descrever. O prazer de viver. Assim partilho minha visão do mundo. [blogue escrito, propositadamente, sem abrigo e contra, declaradamente, o novo Acordo Ortográfico]
29 março 2016
26 março 2016
pascoelas
Aproveitando o dia santificado por parte da humanidade e a sorte de um dia primaveril e ameno, fomos dar um passeio pelo "termo" da aldeia, visitando e conhecendo as propriedades que um dia herdaremos. Durante cerca de quatro horas percorremos vales e encostas, cumeeiras e montes, deambulámos por matas serradas, habitat de javalis e outros animais do monte. Guiados pelo nosso pai, fomos percorrendo esses recantos da sua juventude, recheados de memórias desse tempo em que o monte era ainda trabalhado, vivido e partilhado. Agora, tudo é monte. A esquadria das "amarras" que dividiam as sortes, são agora irreconhecíveis e só alguns, os mais velhos, conseguem identificar esses marcos estruturadores do território.
Para além da descoberta de alguns lugares magníficos, a experiência ficou marcada pelo reencontro com as bonitas pascoelas. Pequenas flores amareladas que se espalham pelos lameiros, principalmente em lugares húmidos ou junto aos riachos e águeiras, no início da Primavera e que eram, e talvez ainda sejam, colhidas pelas crianças para forrar as entradas das casas na hora da visita pascal. É uma recordação da minha infância na aldeia e, nesse tempo, tenho a sensação, seriam mais abundantes. Agora, encontrei muitas, mas com menor densidade. Continuam bonitas.
19 março 2016
17 março 2016
mediascape: o Estado desunido do Brasil
As notícias que nos chegam da terra de Vera Cruz não podem deixar de nos preocupar. Contudo, face à pouca informação transmitida pelos media portugueses, que não têm feito mais do que reproduzir aquilo que recebem dos media brasileiros, não estou em condições de tecer grandes comentários, apenas manifestar a minha inquietação face aos perigos eminentes, assim como partilhar a dualidade dos meus sentimentos face àquilo que cá sabemos.
Por um lado, parece-me evidente que existe uma perseguição política, e agora pessoal e de carácter, aos dirigentes do PT e do actual governo. Não é uma teoria da conspiração, nem é a negação dos casos de corrupção, mas parece-me mais um tipo de vingança, por parte de uma determinada parte da sociedade brasileira, que talvez possamos chamar de classe média, media-alta, por tudo o que Lula e os seus governos fizeram pelos milhões de pobres e miseráveis, através de programas alimentares e de educação.
Por outro lado, o comportamento do partido de Lula e Dilma, a reacção à detenção de Lula e agora a sua nomeação para ministro do governo do PT, para lhe garantir imunidade e assim impedir a sua prisão, são atitudes no mínimo intoleráveis em regimes democráticos. Obstrução à justiça, garantindo a liberdade para indiciados pela justiça não é digno, nem coincide com o discurso moral e ético que os mesmos protagonistas, ao longo das suas vidas políticas, sempre defenderam. É lamentável e acima de tudo triste ver um país como o Brasil enterrar-se num pântano político e social. Até quando?
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15 março 2016
a quem interessar...
Gostava muito de lá ir e partilhar mais um momento grande e bonito com o meu amigo Henrique, mas desta vez a escolha do dia colide com a data em que cá em casa se assinala o dia do filho e vai ser um dia repleto de aventuras. Infelizmente, eu não vou poder estar presente. Façam o favor de aparecer, não se vão arrepender...
14 março 2016
Nicolau Breyner, o sr. contente morreu
Só ao final da tarde soube da morte de Nicolau Breyner. Para alguém como eu, da geração de 70, que cresci com ele sempre presente nos horários nobres da televisão, é um dia triste. O seu desaparecimento significa também o fim de um imaginário infantil de um personagem versátil e com piada. Entre outros momentos marcantes, recordo-me do Eu Show Nico e da telenovela Vila Faia, que nos faziam ficar presos em frente à televisão durante os serões desse tempo. Será, com toda a certeza, uma referência transversal para toda a sociedade portuguesa e, em particular, para as diferentes gerações de actores, cineastas e humoristas. Lamento que "isto tenha acabado mais cedo do que tarde".
12 março 2016
Ortega y Gasset dixit...
Não se pode conhecer o segredo, a intimidade de um povo, se não se ama nele a mulher. A mulher é o mais recôndito segredo dos segredos de um povo. Em si mesma, a feminilidade, é segredo essencial. cada mulher tem o seu segredo, o seu segredo profissional. Mais ainda, a mulher é a profissional do segredo. O seu papel perante o homem, é apresentar-se-lhe como fascinante enigma, que atrai e obceca tal como um hieróglifo.
(in nota de trabalho sobre "saudade", 1943)
09 março 2016
de fio a pavio
No fim deste dia nove de Março de 2016, dia em que tomou posse o novo Presidente da República e, por isso mesmo, terminou o mandato do anterior, não poderia deixar de trazer aqui a minha alegria e satisfação por ver chegar ao fim o ciclo político de Anibal Cavaco Silva. (Como é significativa esta fotografia...)
Numa pequena nota introspectiva e pessoal, relembrar que quando votei pela primeira vez, há mais de vinte anos, já Cavaco Silva tinha vencido duas vezes as eleições legislativas (1985 e 1987) e tinha já uma longa carreira política. Nesse tempo eu não tinha a consciência política e, mais importante, social que actualmente possuo, mas mesmo assim, não me recordo de simpatizar com a personagem. Entretanto, deixei de ser um inconsciente mancebo e fiz-me homem, virei e revirei, fui e vim, fiz e aconteci e Cavaco Silva manteve-se presente nas nossas vidas. É, a nível político, a maior invariância da nossa, da minha existência. Enfim, chegou ao fim, depois destes últimos anos de degeneração das suas qualidades ou deteriorização da sua atitude. Com certeza conquistou o seu lugar na história recente do nosso país, resta agora só saber qual será o seu legado e que memórias conseguirá impor às gerações vindouras
Marcelo Rebelo de Sousa não foi o meu candidato, nem votei nele, mas isso não me impede de estar expectante e esperançoso que ele seja, finalmente, o Presidente de todos os portugueses e meu também. Sempre com alguma desconfiança, ou como se costuma dizer, sempre com um pé atrás, veremos se mantém a atitude descontraída, mas responsável, inclusiva e conciliadora que anunciou na campanha eleitoral e mesmo antes. Cá estaremos.
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08 março 2016
a quem interessar...
Vai ser apresentado no próximo dia 10 de Março, pelas 21 horas, na livraria Traga Mundos, em Vila Real. Uma investigação muito interessante de uma colega antropóloga. A apresentação da obra será feita pelo meu amigo Prof. Dr. Xerardo Pereiro. Gostaria muito de lá ir, mas não vou poder.
04 março 2016
instante urbano xxxiv
Fui convidado por um amigo para ir jantar a sua casa e, ao mesmo tempo, assistir a uma demonstração de um robot de cozinha que dá pelo nome de bimbi. Numa destas noites lá fui eu com a restante família conhecer o animal...
Começo por dizer que foi uma experiência interessante, pois jamais tinha visto uma coisa daquelas em funcionamento, ou mesmo parada. Não a reconheceria se passasse por ela na rua... A promotora era jovem e simpática, formada em psicologia, o que contribuiu para melhorar substancialmente o nível da conversa. Enquanto todos experimentavam as facilidades, as comodidades, as artes e as capacidades da bimbi e íamos provando dessas bimbalhadas, dei comigo a imaginar o espanto que não seria para as minhas avós assistirem a uma demonstração destas. Elas que passaram as suas vidas agarradas aos fogões, aos tachos e panelas, iriam ficar estarrecidas se vissem a facilidade e a rapidez com que a máquina faz massa quebrada, ou se vissem o bacalhau desfiado milimetricamente e linear, ou ainda se pudessem fazer o caldo em meia dúzia de segundos. Elas que tinham a cozinha equipada com fogão, uma modernice para o seu tempo, que lhes permitia abreviar o tempo de confecção da comida, era em frente do lume, que se realizavam enquanto cozinheiras. Era aí que gostavam de estar: a controlar as brasas, para menor ou maior temperatura; a manusear os seus velhos, resistentes e pesados potes de ferro preto; a apontar um estrugido para que ficasse no ponto, a temperar um coelho para o guisar no pote; a segar as couves para o caldo; a fazer torradas de pão com unto ou azeite e, mais tarde, com manteiga; a grelhar um bom naco de vitela, ou a assar a alheira, a chouriça de carne ou o salpicão, acabados de retirar do fumo. E a habilidade com que manuseavam esses, por vezes, grandes potes, com que controlavam o lume com as tenazes e com o fole, e com que apresentavam essas iguarias na mesa. Memórias de momentos, cujos sabores e cheiros perduraram até hoje.
Agora, passadas poucas décadas, perceber esta diferença em que a experiência de cozinha pós-moderna, ou quiçá, neo-pós-moderna, tem por principais critérios a rapidez, a simplificação e a automatização de processos é para mim redutora e ilusória de uma realidade que, julgo, não faz ainda parte da vida de maior parte das famílias, ou daqueles(as) que no seu quotidiano têm que cozinhar. Não pude deixar de constatar que a bimbi, salvo raras excepções, é sempre objecto de criação de novas necessidades, ou seja, necessidades que não existiam e que o discurso promocional inventa, cria, descobre ou impinge aos seus potenciais compradores.
O jantar estava óptimo, a companhia era excelente e o vinho também. Saímos tarde e, já na rua, ao despedir-se de mim, a promotora diz-me: - Muito obrigada pela luta que me deu durante toda a noite. Ao que eu só pude responder que o prazer tinha sido todo meu.
Nota: o esquiço acima apresentado é do mano Daniel e representa fielmente a lareira da cozinha de casa da minha avó paterna. Lugar pequeno e humilde, lugar de todas as memórias aqui trazidas.
mediascape: estupefacção
A notícia já é de ontem e foi amplamente discutida e comentada nos órgãos de comunicação social e, principalmente, nas redes sociais.
Facto:
A ex-ministra das finanças, Maria Luís Albuquerque foi contratada pela Arrow Global, uma empresa anglo-saxónica que esteve envolvida na negociação com o Banif.
Considerações:
Confesso que visualmente sempre senti uma simpatia pela Maria Luís Albuquerque, pena é não haver a mesma impressão quanto ao seu caracter e à sua personalidade.
Em democracia não deveriam ser possíveis situações como estas. Não é, nem nunca será uma questão de legalidade, mas sim uma questão de moralidade e de idoneidade pessoal e das instituições. Alguém que foi ministra de estado e mal termina o seu mandato aceita trabalhar para uma instituição que esteve envolvida, durante o seu mandato, em negócios com o Estado, só pode levantar suspeições e desconfianças nos cidadãos. Alguém que teve real poder no Estado durante os últimos anos deveria remeter-se a relativo recato. Por outro lado, esta situação relembra-nos que o estatuto ou a missão de deputado deveria ser exercida ou desempenhada em exclusividade e a lei das incompatibilidades deveria ser revista pela Assembleia da República. Pena é que os partidos, nomeadamente o PS e o PSD, não queiram rever a lei.
O descaramento da senhora deputada, ao tentar defender-se das expectáveis reacções, afirmando a legalidade do procedimento, só demonstram bem o seu caracter, pois quer dizer que para ela, poderemos ser todos uns pulhas e aldrabões, desde que não infrinjamos a lei. Muito bem senhora deputada. E queriam alguns iluminados do PSD propor o seu nome para futura presidente do PSD!?... Força com isso.
A democracia, a nossa democracia, não deveria aceitar estes comportamentos duvidosos que teimam em repetir-se ao longo do tempo. Não é a primeira nem a segunda vez e, desconfio, vai continuar a acontecer. A grande promiscuidade entre o poder político e o poder económico/financeiro tem que ser definitivamente expurgado da nossas vidas. É essencialmente uma questão de saúde pública.
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29 fevereiro 2016
mediascape: a expressão e a sua liberdade
Ainda em relação ao cartaz do Bloco de Esquerda e às imediatas e expressivas reacções, gostaria de realçar o seguinte:
a) Reafirmo a má opção na comunicação, pois a comparação ou analogia não é eficaz;
b) Não considero que tenha sido propriamento um erro do BE;
c) Confirma-se a intolerância radical perante o outro, o diferente, ainda que em minoria;
d) Registo o bom-senso do BE ao ter desistido da distribuição desse outdoor;
e) Não aceito a restrição ou o interdito estabelecido em relação ao futebol e à religião;
28 fevereiro 2016
27 fevereiro 2016
perdida entre Portugal e o Brasil
A minha mãe nasceu no Brasil, logo tenho uma brasileira em casa.
As vezes admiro-me quando as pessoas ficam espantadas por a minha mãe ser brasileira, pois acho que na cabeça das pessoas ser brasileira é ter um rabo grande, ter curvas e dançar no sambódromo com aqueles bikinis quase inexistentes, mas não; ser brasileira é ser portuguesa, mas com uma grande dificuldade em pronunciar a letra l e tentar conter a expressão graças a deus.
Conviver 24 horas com a minha mãe é sinónimo de aprender palavras novas, como: bombril (palha de aço), leite moça (leite condensado), durex (fita cola), xerox (fotocopia), rocambole (torta), farinha de rosca (pão ralado), bandade (curitas/penso rápido)…
Também são interessantes aquelas conversas ao telemóvel que a minha mãe me obriga a ter com familiares do Brasil, que a única coisa que sei sobre eles é o nome e, para não parecer mal, tento falar o máximo português do Brasil que sei, conseguindo quase sempre sair-me bem…
Para me sentir em copa-cabana só falta mesmo as havaianas e a água-de-coco, de resto tenho tudo em casa.
(texto da minha filha para ser lido numa aula de língua portuguesa do 9º ano)
(texto da minha filha para ser lido numa aula de língua portuguesa do 9º ano)
26 fevereiro 2016
mediascape: qual liberdade de expressão?
Tal como eu previra, a confusão está na rua com a nova campanha de cartazes de BE. Desta vez e para celebrar a data (10 de Fevereiro) em que foi aprovada, pela Assembleia da República, a adopção por casais do mesmo sexo, o Bloco resolveu criar um conjunto de outdoors alusivos ao tema e um deles é este que aqui reproduzo. As reacções não se fizeram esperar e parece-me que o assunto ainda vai dar pano para mangas...
Uma das primeiras reacções foi a da Conferência Episcopal, como não poderia deixar de ser, que se insurgiu contra a comparação dos dois universos em causa, principalmente nesta altura de Quaresma e Páscoa. Também um grupo de jovens católicos se manifestou escandalizado e por isso promoveu uma petição pública exigindo a retirada dessa imagem e um pedido de desculpas ao BE. Com toda a certeza, ainda durante o dia de hoje e nos próximos, irão surgir outras opiniões indignadas e uma delas, aposto, será a de Henrique Raposo, ou a de Laurinda Alves.
Em todo o caso, é muito interessante verificar que afinal muitos daqueles que se indignaram com a reacção do Islão para com a sátira e o humor na utilização de Maomé e defenderam a liberdade de expressão, agora são eles a ficaram escandalizados com esta imagem e mensagem do Bloco de Esquerda. Liberdade de expressão? Depende. Podemos sempre gozar com os Outros e suas crenças, agora connosco, com as nossas crenças, nem pensar. Cadeia, pelo menos, com esses apóstatas...
Quanto a mim, não fiquei nada incomodado, assim como nunca me incomodaram as sátiras em relação ao Islão ou ao judaísmo. Inclusive, não acho que a comparação pretendida seja feliz, pois são universos diferentes, e se de uma analogia se trata, também me parece forçada. Resulta, e está visto que resulta, enquanto veículo para afirmar ou reafirmar uma determinada visão da sociedade, que vai esbarrar na moral e nos costumes conservadores de largos sectores da nossa sociedade. O choque é esse e apenas esse.
24 fevereiro 2016
as casas da minha existência (um exercício de memória visual)
Quando vim ao mundo, na cidade do Porto, meus pais estavam mais ou menos estabelecidos em Delães, uma pequena freguesia do concelho de Famalicão que, basicamente, servia de dormitório à mão-de-obra da ainda forte indústria do Vale do Ave. Nesse ambiente e num contexto marcelista, estertor do bafiento salazarismo e antecâmera da revolução, a condição de professores primários não lhes garantia qualquer estabilidade, muito menos tranquilidade financeira. Foi em Delães que terão conseguido efectivar pela primeira vez numa escola e também foi aí que trabalharam pela primeira e última vez os dois na mesma escola. Habitavam uma pequena casa térrea, construída com o granito cinzento-azulado, originário e muito utilizado naquela região e rodeada de arbustos e algumas árvores de frutos. Não guardo qualquer memória do interior dessa casa, mas preservo pequenos fragmentos de momentos passados no seu exterior. Era uma casa muito bonita e cujo perfil e tipologia ainda hoje me seduz.
Casa na avenida das lameiras, em Delães. Casa onde vivi os primeiros meses de vida.
Pouco tempo depois, talvez por causa da gravidez e nascimento do seu segundo filho, os meus pais mudaram-se para uma outra casa na mesma freguesia, igualmente alugada, mas maior, mais espaçosa e com mais área exterior. Localizada mais perto do centro da localidade, leia-se, mais perto da igreja e mesmo em frente ao cemitério, as minhas primeiras memórias de criança são desta casa... As brincadeiras com o meu irmão, as corridas nos triciclos e nos carrinhos a pedais, as bolas que teimavam em ir parar à rua, os banhos de Verão no tanque de pedra construído no pátio da cozinha, a loja do Sr. Sampaio, no piso térreo, uma pequena boutique que servia as necessidades e os gostos locais, e as fantásticas aventuras de cowboys e índios nos terrenos anexos, foram momentos que guardei e ainda hoje recordo com alguma nostalgia e onde gosto sempre de regressar.
Casa no cruzamento entre a rua de Penavila e a rua da Liberdade, em Delães. Casa onde vivi até aos cinco anos.
Em 1979, por força da transferência de escola do meu pai, da minha mãe ou de ambos, não sei, a família mudou-se para Vila Nova de Gaia e para uma das suas freguesias litorais. Pela primeira vez compram uma casa, neste caso, um apartamento, situado numa pequena rua da Madalena. Neste momento tinha cinco anos de idade e vou viver durante oito anos e até aos meus treze, catorze anos na Madalena. São anos de feliz e vadia criancice. Aquela rua era pequena, mas nela moravam inúmeras famílias e muitas crianças e jovens, criando um ambiente propício para a brincadeira, para a aventura e para um crescimento saudável. São daqui as maiores e mais pormenorizadas memórias de pessoas, lugares e momentos da minha infância e pré-adolescência (factos, momentos e nomes que já aqui trouxe num outro texto...).
Apartamento no 1º esquerdo do nº 115, na rua Trás do Maninho, na Madalena. Casa onde vivi até aos catorze anos.
Em 1987, meus pais mudam-se pela última vez e desta vez para uma vivenda em Valadares. Uma vez mais a causa provável para esta mudança terá sido a pressão demográfica que, com a chegada de mais um filho e sequente crescimento, se começou a fazer sentir lá em casa. Na altura, foi para mim um tremendo sobressalto emocional, pois estava a afastar-me de todos aqueles que cresceram comigo e de todas as referências de menino. Era o fim de um ciclo que, por acaso ou não, coincidiu com a minha passagem para uma outra idade. Entretanto, e enquanto me adaptava ao novo bairro e rua, aos novos percursos e vizinhos, foram muitas e fortes as amarras que tive que libertar do lugar anterior. Fizeram-se novos e bons amigos que acabaram por substituir os anteriores e, nalguns casos, por ficar até hoje. A casa do Penedo era, e é, uma excelente casa, como jamais imaginara poder um dia habitar, julgo até que, nem os meus pais algum dia anteciparam poder ter uma casa como esta. Pela primeira vez tivemos direito a um quarto individual para cada um, tivemos anexos que pudemos transformar naquilo que bem entendemos e até animais, embora a custo, pudemos ter. Foi tempo de estudar, chegar à idade adulta e começar a trabalhar. Foi tempo de me ir soltando da família até ao dia em que fui, sem qualquer propósito, ver um prédio novo em Francelos e me apaixonei, vejam só, por um apartamento num condomínio fechado... Depois de duas ou três conversas e visitas, eu e a minha então já cara-metade sinalizámos e depois comprámos a casa. Recordo desse tempo a conversa que tive com o meu pai e a forma como ele me avisou: - Se achas que deves já pôr a corda ao pescoço, força...
Casa na rua da Gestosa, em Valadares. Casa onde vivi até aos vinte e seis anos.
Estávamos em 1998 e, visto a esta distância, éramos umas crianças e foi com essa alegre, excitada e descomprometida juventude que fomos preenchendo os espaços, então enormes, com a parafernália e indumentária que considerávamos necessária. Era um apartamento com excelentes áreas, se exceptuarmos a cozinha e o condomínio tinha piscina. Era aqui que morávamos quando nasceu a nossa primeira filha. Curiosamente, no mesmo prédio viviam vários jovens casais que, tal como nós, haviam adquirido aí a sua primeira casa e cujos passos coincidiam com os nossos. Isso contribuiu para uma aproximação com alguns desses casais, acabando por se transformar em sólida amizade.
Apartamento na rua Dr. Ferreira Alves, em Francelos. Casa onde vivi até aos trinta e três anos.
Mais tarde, algures na Primavera de 2006, recebemos uma proposta para vendermos a nossa casa, o que rapidamente aconteceu e nos levou por meio ano, e com as tralhas às costas, para casa dos meus pais. Foi um tempo complicado, de readaptação e de incerteza quanto ao lugar onde iriamos morar. Interessante neste processo foi ter percebido na minha filha sentimentos semelhantes, até na argumentação, àqueles que eu senti quando os meus pais promoveram a mudança da Madalena para Valadares.
Enfim, no final desse mesmo ano, a casa que escolhêramos e havíamos comprado, ficou pronta para a habitarmos. Nova mudança, novos desarranjos, novas rotinas e novo filho, para mais rápido ocuparmos todos os cantos e recantos da casa e, assim, termos de novo a sensação de que já não cabemos nela. Ainda lá estamos e estamos bem. Na verdade, sinto sempre a necessidade de mudança, simpatizo com a ideia de mudança e gostaria muito de poder mudar de casa nos próximos tempos, mas não sei se será possível. No entretanto, importa salientar que a minha casa, a nossa casa, é uma excelente casa, confortável, espaçosa e nela, julgo, habita uma família normalmente feliz.
Apartamento na avenida António Coelho Moreira, em Valadares. Casa onde actualmente vivo.
Posfácio:
Sincero agradecimento ao Google Street View pela experiência confortável, acessível e barata, ao me permitir viajar pelos lugares da minha memória e assim enriquecer este exercício.
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