02 fevereiro 2016

do escano e da soalheira (3)


Numa manhã, em que já tinha bebido umas boas cachaças, o Bouça, tal como fazia todos os dias, estava a mungir as suas cabras, mas não deu pela diferença e, em vez de apanhar uma cabra, agarrou um bode (chibo) e vai de lhe apertar violentamente os testículos, tal qual fazia com as tetas das cabras. O pobre do animal mais não podia berrar e o Bouça estranhando isso e o facto de não sair uma gota de leite diz:
– Berres que não berres, o litro hás-d’o botar! 
(Março, 2007)

01 fevereiro 2016

mediascape: da putice

Dias depois das últimas eleições legislativas, o governo PSD-CDS aumentou os salários de três dirigentes da Autoridade Nacional de Aviação Civil em cerca de 150%. Com retroactividade ao mês de Julho, o presidente da ANAC passou a auferir 16.075 euros por mês (em vez de 6.030), o vice-presidente 14.468 (em vez de 5.499) e uma vogal 12.860 (em vez de 5.141). Resta acrescentar o facto de estes aumentos terem sido mantidos até agora em segredo, não obstante a lei exigir a sua divulgação pública e o facto de ser a ANAC a responsável pela tarefa de apreciar (a decorrer) se o processo de privatização da TAP respeita, ou não, a legislação europeia. Mafiosas coincidências!

do escano e da soalheira (2)

O Luís Bouça era um pobre pastor (cabreiro), amigo da cachaça e muito convencido da sua esperteza. O Mâncio era um solteirão convencido da sua beleza e da cobiça de todas as mulheres. Certo dia, na taberna do Xenxo sai-se o Luís Bouça: 
– Pois olha... se eu tibesse a bonitura do Mâncio e ele a minha finura não habia homes p’ra nós dois!...
(Março, 2007)

mediascape: casta de intocáveis

Notícia desta manhã:
"Médicos reformados que voltarem ao SNS podem acumular pensão e salário" (Expresso online)

Algo vai mal no reino dos Algarves e arredores quando lemos uma notícia com este título. Mas se essa estranheza e uma certa dose de curiosidade nos fizer ler o seu texto ainda mais confusos ficamos, pois se por um lado são precisos médicos no SNS ao ponto de ter que repescar os médicos já reformados, por outro lado, diz-nos o bastonário da ordem dos médicos que “o número de novos médicos é muito alto, é o dobro dos reformados e, portanto, se prevê que no futuro um terço não tenha emprego”. Desculpem-me, mas não entendo este paradoxo. Se há muitos médicos novos, porquê é que não colocados no SNS? Porquê se deixa escapar para o estrangeiro esse capital humano? Algo de estranho se passa e tratando-se de médicos, essa casta rara e tão corporativismo, não devemos ter dúvidas que continuarão a impor a sua vontade e manterão a sua condição de privilegiados.

31 janeiro 2016

do escano e da soalheira (1)

Um certo dia, na operação diária de mungir as cabras, o Bouça diz para uma vizinha que também estava ocupada na mesma tarefa:
– Óh Senhora Antoninha, eu sou tão fino, tão fino, que se soubesse ler, até fazia contas sem cabeça! 
(Março, 2007)

nove anos, aqui e disto...

Começa a ser hábito esquecer-me de assinalar a efeméride. No passado dia 24 de Janeiro, este meu espaço completou nove anos de existência. São já muitos anos e muito tempo de dedicação, são já muitos textos e muitas pantominas, muitos momentos e muitos equívocos.
Sem poder fazer futurologia, manifesto desde já a intenção de o manter e de assinalar convenientemente o décimo aniversário em 2017. Sem poder e sem querer adiantar o que seja, alguma coisa há-de surgir. A ver vamos como decorre este próximo ano.

depois da tempestade


Deixei passar o sobressalto da morte do artista e consequente ávida procura da sua discografia, para agora, com calma e paciência, ouvir o seu derradeiro trabalho - black star. A primeira e segunda audição foram difíceis, pois o som é estranho aos ambientes de Bowie, mas à medida que se vai ouvindo começamos a perceber e a entranhar a música, chegando ao ponto de, afinal, reconhecermos muitos pormenores dos seus tão característicos ambientes. Bowie no seu melhor, ele que foi sempre bom. Vou continuar a ouvi-lo nos próximos dias.

29 janeiro 2016

a greve sem razão válida

Estamos a viver um dia de greve da função pública promovida pelos sindicatos associados à CGTP, cuja motivação é o regresso às 35 horas de horário semanal, mas na verdade esse é, quanto a mim, um dos males menores de toda a malfeitoria do governo PaF contra os trabalhadores do sector público. Tantas foram as medidas, os cortes e as taxas implementadas durante os últimos quatro anos, que me parece ridículo promoverem esta greve para exigirem o regresso imediato ao referido horário semanal (é preciso referir que o actual governo garantiu esse regresso para o mês de Julho...). Por outro lado, num momento político como o actual, parece-me muito perigoso promover esta greve, pois o governo socialista, apoiado também pelo PCP, está empenhado na apresentação do orçamento de estado de 2016 e tem à perna os condicionalismos burocráticos de Bruxelas e arredores, que a todo o custo querem combater as políticas já promovidas de inversão daquilo que foi realizado nos últimos anos. No fundo, este momento não é mais do que uma prova de vida para o partido comunista que, depois dos miseráveis resultados nas urnas, precisa de uma manifestação pública do seu poder. Estava nas mãos do PCP o cancelamento desta greve, não o fez, preferiu mantê-la, irá pagar o preço dela.

28 janeiro 2016

vergonha civilizacional

Outra notícia destes dias que nos envergonha a todos, pelo menos àqueles que partilham os valores da civilização ocidental, é a lei aprovada pelo parlamento dinamarquês que permite o confisco dos bens monetários e de valor dos refugiados que chegam às suas fronteiras. Uma vergonha para quem ainda tem na sua memória colectiva aquilo que os alemães, ali bem perto, fizeram com os judeus e com outras minorias. Esta crise dos refugiados apresenta-se como um problema que a Europa não está a conseguir resolver e razão terá António Guterres, ex-comissário para os refugiados, quando afirma que a não resolução desta crise poderá ser o fim da Europa, tal qual a conhecemos nas últimas décadas. Ainda assim, não deixa de ser vergonhoso, ver cada estado a tentar salvar o seu quintal, sem se preocupar com o dos vizinhos. Assim vai a Europa.

mediascape: cobarde submissão


A notícia já é de ontem ou mesmo do dia anterior, mas é digna de registo pelas piores razões. O estado italiano resolveu cobrir as estátuas de nus nos locais que seriam visitados pelo presidente iraniano. Inadmissível. Das duas, uma: ou se trata de uma submissão cultural, ou o estado italiano tem vergonha da sua história milenar. Inadmissível. Itália não tem que se preocupar com o embaraço de terceiros perante as manifestações culturais que fazem parte da sua história. Era o que mais faltava, até porque em situações análogas, o Irão ou qualquer outro estado dessa região não altera os seus hábitos e costumes, só porque um qualquer ocidental os visita, ainda que um chefe de estado. É uma vergonha para Itália e uma ofensa para a sua história este tipo de comportamento.

a quem interessar...

Eu vou lá estar.

25 janeiro 2016

I'm on my way

"não somos capazes de mudar"


Foi esta a confissão final de Jerónimo de Sousa, ontem, no rescaldo do péssimo e humilhante resultado que o candidato comunista, Edgar Silva, obteve. Mas o pior da sua intervenção, que acabou por se transformar na pior intervenção da noite, foi quando, paternalista, se referiu à candidata do Bloco de Esquerda, nos seguintes termos:
"Podíamos arranjar uma candidata mais engraçadinha e com um discurso ajeitadamente populista..."
Inadmissível este tratamento sexista e paternalista, principalmente vindo de um partido de esquerda e que se gaba de ser um defensor dos direitos das mulheres e da igualdade de género. Também não se percebe a indiferença da comunicação social perante tal afirmação. Fosse outro dirigente partidário a falar assim e seria um pé de vento. Não pode ser. Seria bom para todos que a atávica ortodoxia comunista pudesse mudar...

23 janeiro 2016

o neo pós-colonialismo lá da terrinha*

Eu até acho que já falei deste assunto aqui, mas como não me apetece ir à procura desse texto, nem sei quando foi que o escrevi, aqui vai:
Aqui há dias levaram-me a um restaurante cuja especialidade é o rodízio brasileiro, lá para os lados de S. João da Madeira. Era fim-de-semana e até música ao vivo tinha. O ambiente quente contrastava com o frio que se fazia sentir na rua e foi com algum prazer que nos pudemos aliviar dos trapos de Inverno.
Não recordo a última vez que entrei num restaurante destes, pois por iniciativa própria nunca os frequento. Eu sou daqueles que gosto de pagar para comer bem, que gosta de viajar para comer. Mas dos rodízios não, não gosto deles e vou explicar porquê.
Gosto de comer aquilo que me apetece, quando me apetece, mas nestes restaurantes são os empregados que determinam o que eu como e quando como. Não pode ser;
Gosto muito de algumas das carnes que estão incluídas no rodízio, mas detesto que me estejam, durante várias dezenas de minutos, a impingir legumes, frutas e mandioquices, como quem nos tenta encher o estômago, antes de trazerem as carnes que importam;
Não gosto de pagar tanto por tão pouco;
Mas acima de tudo, não gosto da filosofia que estrutura estes negócios, pois para além de não serem honestos, querem fazer-nos de parvos e idiotas, numa atitude sobranceira de chicos-espertos. Aliás, se repararmos, o desenvolvimento da própria refeição é, em si, uma manifestação dessa sobranceria cultural;
Incluo este negócio, vindo originalmente do Brasil, naquilo que são os discursos e as práticas pós-coloniais, que normalmente se traduzem numa inversão da supremacia cultural, económica e até social das comunidades anteriormente colonizadas. Actualmente, estaremos já numa fase posterior a essa inversão cultural e, numa lógica globalizadora, o equilíbrio cultural ter-se-á imposto com naturalidade, salvaguardando as identidades e suas diferenças. Estaremos assim numa fase de neo pós-colonialismo, onde cada comunidade exporta e importa aquilo que entende e gosta.


* aproveito a designação dada por um jornal brasileiro ao referir-se à super-modelo portuguesa Sara Sampaio, como sendo lá da "terrinha", ou seja, lá de Portugal. Ora aqui está mais um exemplo daquilo a que chamo de discurso neo pós-colonialista.

22 janeiro 2016

depois de tudo, depois dos nadas...

presidenciais 2016


Aproveitando o último dia da campanha eleitoral para a presidência da República, mesmo numa perspectiva de relativo afastamento ao processo, apesar de comprometido, não posso deixar de manifestar a minha opinião, em jeito de balanço, sobre aquilo que fui percebendo ao longo desta campanha eleitoral.
Tal como referi anteriormente nada tenho contra as iniciativas individuais de qualquer cidadão se candidatar à presidência da República, considero até que, em teoria, quantos mais candidatos houver, melhor será o debate e mais enriquecida sairá a nossa democracia republicana. Infelizmente não foi nada disso que aconteceu nesta campanha. Muito pelo contrário, não só o debate foi paupérrimo, como o nível dos candidatos mediu-se, regra geral, pela mediocridade, transformando um acto da maior importância para a nossa vida colectiva, em algo desprestigiante e caricaturável. Se não, vejamos:
a) ao nível do ridículo e da vergonha alheia:
Vitorino Silva ("Tino") - o seu ego do tamanho do mundo e a sua sede por notoriedade e reconhecimento, não lhe permitem conhecer o seu Complexo de Peter, ou seja, não lhe permite reconhecer as fortes limitações e como é baixo o seu tecto de competências. Pertencerá sempre ao burlesco nacional, conseguindo satisfazer o seu propósito de notoriedade ao aparecer nas TV's e nas revistas da especialidade. Qualquer coisa sirva para evitar o seu posto de trabalho e, com certeza, irá regressar, mais tarde ou mais cedo, num outro papel, num outro formato;
Jorge Sequeira - não se percebendo minimamente qual o seu propósito, este arauto da parafernália motivacional e das auto-ajudas metafísicas, nunca foi além das trocas e baldrocas semânticas, parecendo que o seu propósito era ter os seus 5, 10 ou mesmo 15 minutos de alguma notoriedade. O triste, nem isso conseguiu;
b) ao nível do populismo e da falta de vergonha:
Cândido Ferreira - o que terá motivado este senhor a candidatar-se a Presidente da República? É que projecto, ideias e políticas não apresentou nenhuma. Limitou-se a barafustar, reclamar e a dizer mal de toda a gente. Pelos vistos tem dinheiro, deve-lhe é faltar reconhecimento e prestígio, por isso, mal, veio aqui à procura dele;
Paulo Morais - na minha opinião, o mais triste dos candidatos, porque sempre tentando dar de si uma imagem de pessoa séria e rigorosa, nunca conseguiu transmitir uma ideia, um pensamento para o país, enredando-se exclusivamente na ladainha da corrupção, sem nunca apresentar um facto ou um nome concreto, acabou por se enquadrar ao nível dos ridículos desta campanha;
c) ao nível da intriga político-partidária:
Maria de Belém - como ficou bem explícito no caso das subvenções vitalícias, esta candidata sob a manta da seriedade e da experiência política, apresentou-se aos portugueses ao serviço da facção segurista e numa lógica de contra-poder interno no PS. Muitos dos que a apoiaram pertencem aos escorraçados da direcção socialista, protagonizada por António Costa. Demonstrou que não trazia uma única ideia para a campanha, que não tem qualquer carisma, nem capacidade agregadora. Prestou-se a uma figura muito triste e humilhante;
d) ao nível da fidelização do voto:
Edgar Silva - o candidato proposto e apoiado pelo PCP revelou-se uma aposta fraca e sem perfil para este papel de candidato à Presidência da República. O seu mérito político e a sua luta na região autónoma da Madeira, não foram suficientes para catalizar a sua mensagem no resto do país, para além da gente e das estruturas do PCP . Em teoria, esta fraqueza do candidato e do PCP seria uma vantagem para a candidata do BE. Veremos;
Marisa Matias - tenho para mim que tanto esta candidatura, como a de Edgar Silva só existiram porque surgiu a candidatura de Maria de Belém. Caso contrário, Sampaio da Nova seria o candidato dos vários partidas da esquerda. Para além de um ou dois equívocos e gafes, Marisa Matias fez uma boa campanha, percebeu e aproveitou-se das fragilidades de outras candidaturas, nomeadamente da de Edgar Silva e Maria de Belém. É, por mera aritmética partidária a minha candidata;
e) ao nível da disputa final:
Marcelo Rebelo de Sousa - passeou a sua "beleza" pelo país, quase sozinho, sem máquina partidária e sem espalhafato. Muito pragmático, percebeu há muito que o modelo tradicional de campanhas eleitorais em Portugal estava esgotado. Passou os dias e os momentos a beber, a comer, a brindar e a conversar com as pessoas. Foram os quinze dias da sua consagração. Campanha fê-la durante todos os anos que esteve nas televisões, sem contraditório, a educar e mentalizar os portugueses;
Sampaio da Nóvoa - desde o primeiro momento o meu candidato. De ilustre desconhecido, passou a única alternativa à candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa. Sem o apoio de qualquer partido (se excluirmos o moribundo LIVRE), e apesar de lhe terem sido garantidos apoios do PS, fez o percurso e chegou ao fim sem esse apoio. Bem organizada e estruturada e agregadora, esta candidatura foi crescendo e juntando cada vez mais apoios. Teria sido o meu candidato, caso Maria de Belém não tivesse aparecido. Assim, sê-lo-á na segunda volta.

Acima de tudo, importante é que todos e todas as portuguesas vão votar no próximo Domingo. Essa será sempre a melhor resposta a dar ao desencanto que se pressente na sociedade portuguesa. Até lá.

odioso e sem populismo

Mesmo consciente de todos os aproveitamentos partidários e políticos que a decisão do Tribunal Constitucional sobre as subvenções vitalícias proporcionou, considero uma cobardia aquilo que os referidos deputados fizeram. Não estará em causa a justiça ou legalidade da medida e desta decisão do TC, para mim o mais importante é o próprio procedimento, numa época em que a todos os portugueses foi exigido sacrifício e empobrecimento, estes deputados, quais casta superior, privilegiados, não quer, não aceita ser sacrificada tal como os demais portugueses. Relembro que este procedimento de fiscalização é um poder vedado ao comum dos portugueses e entregue aos seus representantes na Assembleia da República. Para mim o odioso (sem populismo ou demagogia) é esse, pois os mesmos ilustres deputados não se lembraram de pedir ao TC a fiscalização de todos os cortes de rendimentos e pensões que os portugueses sofreram nos últimos anos.
Maria de Belém foi apanhada no meio desta tempestade. Propositadamente ou não, não sei, a verdade é que acabou por ser reveladora do seu carácter e, acima de tudo, do seu pathos. As consequências na sua candidatura só podiam ser estas, e ainda bem, fez-se justiça, pois a sua razão de existir era, única e exclusivamente, o rancor intestino e a sede de vingança dos espoliados seguristas. Toda a gente percebeu isso e a candidata termina a campanha a falar sozinha.

20 janeiro 2016

baú da memória XII

A propósito da quantidade de informação e dados que vamos armazenando nos gadgets à nossa disposição, naquilo que são contactos, notas, agendas, etc., lembrei-me do meu velhinho filofax que, à época (década de noventa), era uma das ferramentas mais bem estruturadas e úteis que podíamos ter. Com o advento das novas tecnologias e consequente desmaterialização da informação, a grande maioria das pessoas abandonou o sistema analógico dos filofax's e similares e adoptou com facilidade as novas ferramentas que essa tecnologia digital possibilitava. Eu não fiz diferente e passei a usar o telemóvel, o portátil e o Ipad como agenda, como lista de contactos e como bloco de notas, sincronizando (essa maravilhosa capacidade) toda a informação entre os diferentes aparelhos que possuo, acrescentando às informações alarmes, lembretes e recados sonoros. Apesar disto, continuo a sentir a necessidade de transportar sempre comigo um pequeno bloco de notas, onde posso assentar e escrever aquilo que, a qualquer momento, necessite. Já não uso o filofax, que sei perdido algures por aqui em casa, mas mantenho o gosto de escrever as notas, contactos e compromissos em agendas de papel.
O meu filofax, que não consegui encontrar, foi comprado naquele tempo em que a marca surgiu com grande fulgor e adesão por parte dos portugueses. Era azul e dos mais simples e baratos, mas permitia-me transportar nele quase toda a minha documentação pessoal, cheques e demais documentos.
A esta distância parecerá obsoleto e calhau, mas eu gostava mesmo de o usar.


Adenda: ao reler aquilo que acima escrevi, apercebi-me que faltou referência à questão importantíssima e ainda actual da fiabilidade e perenidade das ferramentas, ou seja, dura mais tempo a informação escrita numa folha de papel, ou aquela que desmaterializamos num qualquer disco digital? É uma questão pertinente, pois o papel já deu provas de longuíssima durabilidade, o digital ainda está para provar a sua perenidade, mas pelos exemplos que conheço, a verdade é que os suportes digitais são muito falíveis...

15 janeiro 2016

mimetismo

Conversa com o meu filho, no carro, a caminho de casa:
- Pai, a mana está doente?
- Sim, está mal da barriga.
- Pai, a mim também me está a doer a barriga.
- Queres ir à casa-de-banho?
- Não. Estou com o período...

11 janeiro 2016

David Bowie (RIP)

Acordei com a triste notícia da sua morte. O genial e versátil Bowie não resistiu a um cancro aos 69 anos. Morte precoce. Lamento muito. Desde muito novo comecei a ouvir a sua música, a sua voz inconfundível e, desde então, passou a fazer parte da minha shortlist de música para todos e qualquer momento e que, sei, vai-me acompanhar até ao fim. Neste momento triste e de reflexão sobre a sua obra, não consigo eleger uma música ou um álbum para o elogiar, pois são tantos os momentos de pura genialidade musical. Estou desde o início da manhã a ouvir a sua música e vou passar o dia a ouvi-la. Aliás, essa será a melhor forma de o celebrar, de o recordar. Dia triste para todos nós.

09 janeiro 2016

globalization and stupidification

Abriu recentemente a primeira loja na região do Porto, no El Corte Ingles de Vila Nova de Gaia, a marca americana Starbucks, que pelos vistos é a loucura para os mais jovens. Tal como seria de esperar, a jovem que temos cá em casa não se calou enquanto não foi experimentar as famosas bebidas quentes, servidas em copos plásticos ou de papel.
Foi hoje o dia em que em família lá fomos conhecer e experimentar os exóticos e fabulosos líquidos. Para além de um espaço exíguo e com poucos lugares sentados, um serviço impessoal e confuso, a pastelaria, apesar de muito colorida e apelativa, mais parecia plástica. As bebidas, tal como eu suspeitava e, agora, pude confirmar, não valem nada. O café é uma água tingida, mais parecido com uma cevada manhosa escaldante e servido num copo enorme e as restantes bebidas eram igualmente fracas e com nomes esquisitos que eu não recordo. Para além de tudo isto, foi uma visita interessante, pois as elevadas expectativas que a jovem levava, transformaram-se rapidamente em relativa desilusão.
Impressionante como qualquer porcaria que venha com o carimbo EUA e cujo prestígio assente na indústria televisiva e/ou cinematográfica, é facilmente exportável, e depois recebido e adoptado pelo resto do mundo, sem resistências ou estranhamento, num processo de globalização e de autêntica alienação, eu diria de estupidificação!


05 janeiro 2016

"Portugal é um pais de escritores ricos"

Não tenho por hábito transcrever para aqui textos escritos e publicados por outras pessoas, mas de tão interessante e tão verdadeira a opinião da autora, achei por bem transcrevê-lo na íntegra. Os negritos são meus, dando destaque às ideias, para mim, centrais neste contexto.

Portugal é um país de escritores ricos
por Alexandra Lucas Coelho, in Público (3/1/16)

1. Há quase 20 anos um poema de Nuno Moura dizia Portugal é um país de poetas ricos. Hoje podemos dizer mais, Portugal é um país de escritores ricos. Ao contrário dos alemães, que não têm onde cair mortos e são pagos sempre que vão fazer uma leitura para poderem continuar a escrever, ou dos pelintras dos ingleses, que em 2015 bateram o recorde de candidaturas a subsídios de escrita, os portugueses são tão ricos que não precisam de dinheiro para pesquisar um livro, nem para viver enquanto o escrevem. Entretanto, dão o seu tempo a câmaras, bibliotecas, festivais, centros e demais instituições cada vez mais envolvidas na promoção da literatura. Em suma, se os escritores portugueses já não precisavam de dinheiro, em 2016 também já não precisam de tempo. Superaram a fase da criação, estão em pleno criacionismo: o livro é um PDF de Deus, vem já revisto e tudo.
2. Eis a ficção que tende a enredar estes abastados imortais que cada vez mais não escrevem a futura literatura portuguesa. Há dois motivos para falar deles agora: primeiro, Portugal voltou a ter Ministério da Cultura, e se o actual Governo fez disso bandeira há que cobrá-la na prática, ver como lidará com a falta de meios e equipas exauridas; segundo, nunca em Portugal tantas câmaras, bibliotecas e instituições com orçamentos se envolveram tanto na promoção da literatura. O Ministério da Cultura pode, por exemplo, retomar de alguma forma as bolsas de criação literária. Câmaras, bibliotecas e instituições com orçamento podem apoiar a criação. E esses apoios devem coexistir com meios novos na Internet, porque não asseguram o mesmo, como explicarei adiante.
3. Começando pelas bolsas. Entre 1997 e 2002, o Ministério da Cultura atribuiu 12 bolsas anuais (poesia, narrativa, banda desenhada, dramaturgia) de 250 contos por mês (o equivalente hoje a 1250 euros, quando os preços eram bem mais baixos). Os júris variavam com os anos, e entre os contemplados contaram-se Al Berto, Armando Silva Carvalho, Maria Velho da Costa, Mário de Carvalho, Luísa Costa Gomes ou Almeida Faria; então desconhecidos como Gonçalo M. Tavares e Dulce Maria Cardoso; ou ainda Pedro Rosa Mendes, Mafalda Ivo Cruz, José Luís Peixoto, Paulo José Miranda, Adília Lopes, Nuno Moura, Rita Taborda Duarte, Carlos Luís Bessa, Filipe Abranches, José Carlos Fernandes, Inês Pedrosa. Quando as bolsas foram suspensas, era já possível contar uma grande maioria de projectos publicados nos três primeiros anos. Para dar ideia da diversidade de opiniões na altura, Inês Pedrosa propôs separar o concurso de estreantes e já publicados, Francisco José Viegas era contra bolsas para primeiras obras, Maria Velho da Costa privilegiava primeiras obras, e Vasco Graça Moura opunha-se a qualquer apoio estatal directo. Chegou a ser feito um novo regulamento em que primeiras obras não podiam concorrer e os escritores tinham de cumprir o prazo, senão devolviam o dinheiro, mas não avançou. De resto, o investimento do Ministério da Cultura na literatura foi diminuindo, mantendo-se só o apoio a alguns prémios e à tradução, com as ajudas à internacionalização a assentarem no Instituto Camões (Ministério dos Negócios Estrangeiros).
4. Entretanto, câmaras, bibliotecas e demais instituições multiplicaram iniciativas em que convidam escritores. Por vezes são festivais, por vezes programas ou séries, funcionários, moderadores, entrevistadores ou outros artistas recebem, mas não quem escreve. Presume-se sempre que o escritor está a divulgar os livros e a ganhar pela venda, mesmo quando lhe pedem que fale sobre outro tema, mesmo quando aparece meia dúzia de pessoas e ele não vende nada (e, quando vende, ganha dez por cento). O escritor é, assim, o pretexto de iniciativas que alimentam programações com assalariados e colaboradores, sendo ele o único a deslocar-se para dar o seu tempo e pensamento, quando não textos. Tudo a bem da literatura, mas certamente para mal da literatura que entretanto não está a ser escrita, e dizer isto não menospreza o contacto com os leitores. Para quem o faz com prazer ou por convicção, esse contacto é tão parte do trabalho como dar entrevistas, muitas vezes até um encorajamento ou reajuste. Mas não só o escritor tem o direito, por natureza ou convicção, de apenas escrever, como o prazer e convicção de quem divulga o que escreve não devem ser explorados até ao absurdo de inviabilizar a escrita. Todas estas iniciativas, sempre apertadas de orçamento, têm de buscar alternativas para remunerar o escritor. E as instituições que as programam poderiam pensar em residências, workshops, comunidades de leitores, subsídios, tudo ajudas à criação, através de trabalho pago, de tempo e espaço, ou simplesmente de dinheiro. Uma ressalva: festivais remunerados podem beneficiar leitores e indirectamente a criação, mas os escritores não são malabaristas do sinal vermelho. O escritor escreve; os convites para falar devem partir do seu trabalho; e só ele pode decidir falar de replicantes ou do exílio de Cavaco Silva.
5. Escrever um livro leva meses, anos. Há quem tenha, de facto, livros na cabeça mas entre sustentar casa, filhos e trabalhar no que paga tudo isso, acabe por nunca os escrever (sobretudo mulheres, não tenho espaço agora, mas é todo um tema). E mesmo que roube um par de horas à madrugada não fará esses livros se eles precisarem de pesquisas longas, bibliografia, viagens. Escrever um romance pode custar milhares de euros, e a esmagadora maioria dos escritores portugueses não tem adiantamentos (não sou adepta, mas há quem os ache úteis). Isso também determina a amplitude de livros que uma literatura tem, ou não. No cinema, há apoios para a escrita de argumento, na academia há bolsas para teses, mas em Portugal não há um único fundo regular, sem limite de idade ou âmbito, para escrita de poesia, romance, não-ficção literária, dramaturgia, banda desenhada.
6. Hoje existem meios como a Unbound ou a Kickstarter, plataformas de crowdfunding para criação ou edições que os leitores viabilizam. Um crowdfunding viabilizou o trabalho fotográfico do Condor, de João Pina, em vários países da América Latina (não a edição). Estes e outros meios permitirão não apenas livros clássicos como formas novas. Mas nada disto, acredito, exclui a necessidade de apoios institucionais à criação. No Reino Unido, onde as plataformas online são vibrantes (pagando livros e revistas como The White Review, que por sua vez dá trabalho a escritores e organiza encontros), a Sociedade de Autores gasta por ano 100 mil libras em fundos para escrita, mais bolsas de 2000 libras para sócios, e no ano passado bateu o seu recorde de pedidos, incluindo escritores estabelecidos. Ou seja, sim, há cada vez mais meios para viabilizar livros, mas os autores, mesmo com obra, ganham cada vez menos. Para além disso, o apelo junto dos leitores, à partida, não pode ser critério único para um livro existir. É bom que leitores viabilizem livros, mas também será bom que livros que não sabiam o que iam ser, que não eram sequer “projectos”, muito menos “apelativos”, possam existir, porque houve tempo para o escritor chegar a eles, e isso, sim, será a riqueza de uma cultura. O que quem está no Governo, nas câmaras e por aí fora tem de pensar, creio, é se quer ter ainda algum papel nisso, o fortalecimento de um país pela criação.

(copiado daqui...)

03 janeiro 2016

a quem interessar...

mediascape: candidatos presidenciais em debate

Apesar de nada ter contra o facto de haver muitos candidatos à Presidência da República, aceito as reservas de alguns comentadores quanto ao facto de ser muito difícil reunir sete mil e quinhentas assinaturas válidas para legalizar uma candidatura destas. De facto, mesmo para os aparelhos partidários não é tarefa fácil, quanto mais para um simples cidadão. Terá o Tribunal Constitucional verificado correctamente todos os processos concorrentes antes de os validar? É a questão que persiste.
Por outro lado, aquilo que assistimos ontem é por demais deprimente. Nada contra debates entre candidatos, mas assim não. Ninguém vai ver, ninguém tem paciência para isso. A consequência será óbvia, abstenção. Houve mesmo um candidato à Presidência da República que no seu primeiro debate, quando lhe deram a palavra, teve que ler um papel para dizer que não concorda com o formato dos mesmos e com a diferenciação dada pela comunicação social aos diferentes candidatos e que, por isso, se iria retirar do debate. Coitado, pensou que estaria a chamar para si todos os holofotes, mas não, apenas teve direito aos seus escassos minutos de fama e regressou à sua insignificância.
Assim, estamos a contribuir para o descrédito das instituições nacionais, do sistema e da própria república. Deveria haver mais cuidado com a selecção dos candidatos e depois sim, dar-lhes iguais condições e oportunidades.

novo ano, jornal novo

Com o regresso à Invicta, depois de uns dias no remanso da aldeia, dou com um novo jornal Público, pelo menos ao Domingo e pelo que já pude ler e ver, esta mudança não é muito feliz. Passo a justificar. Sou seu leitor desde os primeiros tempos de vida do jornal, algures no início da década de noventa do século passado. Época coincidente com as minhas primeiras preocupações com a realidade e actualidade, que me levavam a comprar, ainda que por motivações distintas, o Público e o Independente. Durante todos estes anos, o jornal evoluiu, actualizou a sua linha gráfica, os seus colaboradores, o seu projecto editorial, a sua imagem e eu, umas vezes mais, outras vezes menos agradado, mantive-me fiel e quase diariamente seu leitor. Agradou-me em particular, a não adopção do novo acordo ortográfico. Até mesmo quando surgiram as novas plataformas de leitura e formatos de jornal, mantive-me leitor do Público. Contudo, nos últimos meses tenho vindo a notar e a sentir uma tendência editorial que não me agrada mesmo nada. A escolha declarada pelo apoio à PaF, a desqualificação das oposições e a falta crescente de contraditório, somadas às edições que, por vezes, são autênticos vazios, autênticos nadas de informação e, agora, esta nova roupagem ao Domingo, levam-me a por em questão a sua manutenção como "o meu jornal diário". Em Editorial, é-nos dito que "foi pensado como uma edição para ler sem pressa, centrada na escolha de temas importantes da actualidade e no seu aprofundamento. (...) Deixamos hoje de publicar a Revista 2. não é sem mágoa que o fazemos, mas o jornalismo pensado para ler devagar passa a dominar agora todo o jornal."
Pois bem, façamos a recensão desses temas importantes da actualidade
a) Capa com grande destaque para a fotografia do candidato Marcelo Rebelo de Sousa;
b) Sete páginas dedicadas a uma entrevista a Marcelo Rebelo de Sousa (2 a 8);
c) Seguidas de duas páginas em que se questiona as duas candidaturas femininas, só por serem mulheres e por putativas alterações do paradigma?!? (10 e 11);
d) Uma peça de duas páginas sobre as utopias e seus lugares comuns, apresentadas graficamente como se houvesse alguma novidade ou nova perspectiva para o futuro (12 e 13);
e) Depois, quatro páginas de guerra, Daesh, Hollande e afins (14 a 19);
f) Notícias do mundo, duas: Maduro na Venezuela e Execuções na Arábia Saudita;
g) Reportagens sobre sobrevivência de negócios do tempo de antanho e sobre ser africano em Cabo Verde (?!?) (24 a 28 e 32 a 39);
h) Peça sobre os primórdios da fotografia, com destaque para Julia Margaret Cameron e outras pioneiras da fotografia (40 a 42);
i) Caderno de desporto com seis páginas (futebol nacional e europeu e Paris Dakar (53 a 58);
j) Apresentada como novidade desta nova edição, a secção Curtas contempla sete "notícias" 

Gostei da peça sobre a loja de cidadão que vai de aldeia em aldeia (44 e 45) e do artigo da Alexandra Lucas Coelho (43). Sobreviveram (ainda bem) alguns comentadores e algumas rubricas: Miguel Esteves Cardoso, Jorge Almeida Fernandes, Alexandra Lucas Coelho, Vasco Pulido Valente, Frei Bento Domingos e Teresa de Sousa mantém o seu espaço;
A verdade é que também não tenho grandes e boas alternativas, pois toda a imprensa diária está pautada pela fraca qualidade. Talvez o Diário de Notícias seja aquele que se apresenta como a melhor entre as más opções possíveis. Estou disponível, ainda assim, para dar mais dois ou três Domingos de tolerância ao Público. Veremos.

estado da saúde

Não é que fosse uma novidade para mim, ou para todos nós portugueses, mas quando nos acontece a nós ou a alguém próximo ou familiar, sentimos a questão com outro vigor. Também é só um caso, mais um caso entre tantos outros, que se repetem aqui e ali, em toda a parte, mas que não deveriam acontecer. Eis o caso:
Noite de passagem de ano numa aldeia de Trás-os-Montes, senhora de 86 anos, levanta-se da cama para urinar, escorrega e cai desamparada sobre uma perna. Com fortes dores, levanta-se e arrasta-se para a cama, onde fica sem dizer nada aos familiares até de manhã. A filha quando se apercebe leva-a imediatamente, e em carro próprio, à urgência do hospital distrital de Bragança, onde chegam por volta das 11 horas do dia 1 de Janeiro. Depois da triagem é vista por uma médica de clínica geral que pede um raio X à perna da senhora. Depois do raio X, mandam-na para a sala de espera da urgência onde, sentada numa cadeira de rodas, espera até às 16 horas pelo resultado dessa radiografia. Volta à presença da médica que lhe diz que não há qualquer lesão grave ou fractura, receita-lhe alguns analgésicos para as dores e manda-a para casa. Mesmo tomando esses comprimidos a noite seguinte foi passada entre gemidos e mal-estar, não estando bem em qualquer posição. Na manhã seguinte e porque as dores aumentavam cada vez mais, a filha resolve regressar ao hospital com a mãe. Nova consulta, novo médico, nova visualização da radiografia, novo exame (TAC) e o diagnóstico: fractura total do osso, internamento e nova espera pelo especialista que a irá operar, pois nos feriados e fins-de-semana não está no hospital.
Este é o estado em que está a saúde pública em Portugal. A racionalidade e a excelência do anterior ministro da saúde deu nisto, ou seja, na desqualificação, no esvaziamento dos serviços, no encerramento de valências nos hospitais. A vergonha de ter o poder de deixar morrer doentes e utentes dentro dos próprios hospitais por falta de assistência. É por todos estes casos e exemplos que acredito cada vez mais que o SNS é um dos elementos centrais e prioritários para as políticas públicas nacionais. Esperemos que com os novos protagonistas no sector e, principalmente, com as novas políticas, o Serviço Nacional de Saúde reganhe qualidade, proximidade e esteja ao serviço efectivo e eficaz de todos os portugueses.

na volta do correio

No final do mês de Abril enviei ao Papa Francisco um exemplar do livro que escrevi sobre a vida de D. Manuel António Pires, acompanhado de uma pequena carta onde manifestei alguns sentimentos relativos ao processo de investigação que desenvolvi nesse projecto. Agora, passados cerca de oito meses, recebi uma cordial missiva em resposta a essa carta e oferta. Esta carta chegou-me no dia 22 de Dezembro de 2015, via Nunciatura Apostólica de Lisboa, vem assinada por um assessor da Secretaria de Estado do Vaticano e trazia apensa uma fotografia do Papa Francisco. Chamou-me a atenção o meu pai para a benção apostólica que a carta contém. Fica o registo.


31 dezembro 2015

último dia

Chegados a mais um final de ano, e já lá vão várias dezenas, é tempo de balanços, reflexões e planeamentos para o novo ano que está prestes a iniciar. Este último dia de um qualquer ano era, provavelmente ainda será, dia de rituais limpezas e abluções, nas quais pessoas, animais e lugares/espaços eram purificados e libertados de todas as energias acumuladas ao longo do velho ano que terminava e se preparavam, renascidos e com novo ânimo, para receber e aceitar tudo o que o novo ano lhes reservava. Isolado nestes últimos dias do ano no silêncio e tranquilidade da aldeia, o tempo passou-se entre leituras e jogos de Play Station. Sem internet e sem informação actual, chegamos ao final deste ano apenas com a agitação das crianças e com as tarefas domésticas obrigatórias. Claro que se pensa no futuro, claro que se reflectiu sobre o passado. O que há-de vir, não sei, não sabemos, mas há-de vir e nós, esperemos, cá estaremos. Tal como os antigos, apesar das novas ritualizações e abluções, estamos preparados para novo ano, com a simples expectativa de manter a alegria de viver. O resto lá virá.

18 dezembro 2015

elixir da juventude

Esta necessidade que a sociedade moderna tem de se manter jovem toda a vida é completamente contra natura. (Alexandre Castro Caldas, in SOL, citado pela Revista LER nº 140)

Aproveitando esta citação retirada da revista LER, roubo o título à letra de Sérgio Godinho para falar da mais que perceptível vontade que a sociedade actual manifesta em permanecer jovem, ou melhor, dos padrões de juventude ou de rejuvenescimento que a sociedade impõe aos indivíduos. Nada contra a juventude ou contra o facto das pessoas gostarem de se sentir jovens, mas não percebo a necessidade de isso acontecer. É-se jovem aos vinte, aos vinte e cinco e até se é jovem aos trinta anos, mas a partir dessa idade, é-se plenamente adulto, o corpo e a mente adequam-se ao natural e inevitável envelhecimento. Claro que se é mais velho aos cinquenta ou sessenta e, por isso, também mais ridículo é quando nessas idades alguém se comporta, se veste ou se manifesta como se nem pêlo na benta tivesse. Não adianta lutar contra o passar do tempo, contra o envelhecimento. Ele acontece quer gostemos ou quer não gostemos. Não existem elixires para uma eterna juventude. Tudo aquilo que nos é vendido e imposto pelo marketing e publicidade não é mais do que enganador cosmético para adiar o inadiável. A nossa vergonha não são os cabelos brancos que se impõem, as rugas que vão cavando o rosto e arredores, ou as carnes que cedem à magnética força da gravidade, mas sim a negação desse testemunho do tempo que passa e as práticas milionárias, invasivas, agressivas e muitas vezes contra-producentes, para mascarar o que a natureza impôs.
A teoria moderna, reflexo do capitalismo vigente nas últimas décadas, de que os indivíduos devem-se socorrer de todos instrumentos disponibilizados, pela ciência e pela tecnologia, para se sentirem bem consigo mesmos, não é mais do que um discurso muito eficaz para o condicionamento psicológico e que desculpabiliza e naturaliza os consumos, os investimentos em terapias e tratamentos. Vejam como se transformaram em ordinárias e usuais as intervenções cirúrgicas cuja única motivação é a aparência!: Aumentar, subir, alinhar os seios, modelar pernas e nádegas, corrigir e endireitar narizes, lábios e bochechas, etc., etc.. Recauchutamentos com os quais passamos a viver alegre e pacificamente.
Eu gostei muito de ser jovem e trago comigo recordações magníficas desse tempo, mas acabou. Felizmente pude e posso experimentar outras idades que trazem experiências outras, trazem gostos, prazeres e belezas diversificadas. Quando muito poderei sentir alguma nostalgia por pessoas, lugares e momentos que vivi e conheci. O resto é tempo. E como gosto de o sentir passar, às vezes veloz demais, é certo, mas sempre tentando aproveitar cada pedacinho seu.

17 dezembro 2015

baú da memória XI

Foi no longínquo ano de 1991 que este momento aconteceu. Em final de primeiro período, o nosso grupo resolveu (digo resolveu, porque já não me lembro de quem foi a ideia, nem porque houve esta iniciativa) organizar um sarau cultural, ao qual deu o nome de ERECTOMANIAS - acrónimo de espectacular reportório encenado com todos os malucos. Aintão ninguém ia acreditar sebisse*.
A recordação dessa manhã de 17 de Dezembro de 1991 é muito boa e aquilo que se fez nesse último dia de aulas, trouxe-nos relativa fama e prestígio na comunidade escolar, assim como a reprovação no ano lectivo para alguns de nós.
Do programa vastíssimo e de enorme qualidade, praticamente todo improvisado, houve momentos muito bons e que jamais esquecerei. Um deles foi o Natal do Joãozinho, aproveitando o facto de termos efectivamente um Joãozinho no grupo, dedicamos-lhe este momento.
Ficam três registos desse espectáculo, que implicou toda a turma e mais alguns amigos e amigas que connosco estavam regularmente.


(alinhamento do espectáculo in Xavier, Jaime e Vale, Luís (1995), Conferências da Varanda, Vila Nova de Gaia, edição dos autores)


(letra da música Natal do Joãozinho, com a data e nome dos intervenientes, acervo Luís Vale)


(fotografia do ensaio final dessa performance. Em primeiro plano, Joãozinho, em segundo plano e da esquerda para a direita, Daniel, João Paulo, Jaime, Zé e Luís)



* In Xavier, Jaime e Vale, Luís (1995), Conferências da Varanda, Vila Nova de Gaia, edição dos autores.

16 dezembro 2015

LER 140 para o Inverno


Já cá está. Vamos LER.

ao espelho

Dia 15 de Dezembro foi dia dedicado a acompanhar Marisa Matias, candidata à presidência da República, pelos distritos de Bragança e Vila Real. De manhã visitamos o IPB - Instituto Politécnico de Bragança, onde fomos recebidos pelo seu presidente e todo o corpo directivo. De tarde, visitámos a UTAD em Vila Real, onde fomos recebidos e guiados pelas instalações pelo seu Vice-Reitor e fez-se uma sessão com os alunos da instituição. À noite, jantar-comício também em Vila Real.



Os momentos aqui registados, dizem respeito à recepção no IPB e ao jantar-comício em Vila Rela. Fotografias de Paulete Matos, retiradas do EsquerdaNet.

13 dezembro 2015

adiar sine die, mas até quando?

"Sempre que Marine Le Pen obtém uma vitória suscita uma torrente de exorcismos verbais com ressonâncias antifascistas. É um logro."

A citação é de Jorge Almeida Fernandes que hoje no jornal Público, ainda sem saber os resultados desta segunda volta das eleições regionais em França, faz uma análise sobre a estratégia de Marine Le Pen e as razões que a possibilitaram. Pois bem, à hora que escrevo, já se conhecem algumas estimativas e projecções que afinal a Frente Nacional (FN) não conseguiu ganhar em nenhuma das regiões em que tinha vencido na primeira volta. Dizem-nos os comentadores que esta clara derrota se deveu a dois principais factores: A descida acentuada da abstenção e a desistência dos socialistas a favor dos republicanos de Nicolas Sarkosy nas três regiões em que a FN estava na eminência de vencer.
Independentemente dos resultados desta eleição, há um facto incontornável. A FN não representa, hoje, apenas o protesto, o marginal e o desviante. É uma realidade social e política em França e só com uma forte e larga participação democrática poderá, em cada momento, ser derrotada. Numa sociedade cultural, económica e religiosamente estratificada, como não há outra na nossa Europa, as mensagens populistas, proteccionistas e radicais da FN encontram chão muito fértil. Não adiantará muito continuar a agitar-lhes as parangonas da xenofobia, do anti-semitismo e do fascismo-nazismo, pois inteligentes como também são, adequaram convenientemente o seu programa, o seu ideário e os seus discursos às realidades sociais perceptíveis e experimentadas em França.
Fico satisfeito com este resultado, mas não tranquilo, pois sei que este é só mais um momento adiado sine die e que num futuro próximo, poderemos encontrar a FN no poder. Então aí, não sei, será tudo muito diferente e outro(a) galo(a) cantará.

mediascape: terrível emergência

Um dos momentos da semana que agora acaba, do mês que acaba o ano, do ano que medeia uma década e da década que inaugura a urgência dos cuidados a ter com esta nossa casa, foi ontem, dia 12, vivido em França com o acordo, finalmente, alcançado na Cimeira do Clima. Foram vários dias de reuniões políticas, técnicas e jurídicas para se conseguir que todos os países participantes assinassem a declaração final.
Fui acompanhando os trabalhos, na medida em que os media e a internet me transmitiam informações. Dou como certo a boa vontade e o esforço de todos os participantes, mas também sei que nas mesas das conversações estavam presentes muitos interesses privados, muitas corporações e muitos grupos de pressão, o que ainda reforça mais o feito alcançado. Contudo, convém dizer que ainda nada está conseguido. Este acordo é um manifesto de boas intenções que remetem para um futuro relativamente próximo ou distante a resolução efectiva dos graves problemas climáticos que agora experimentamos.
Ainda assim, importa enfatizar o feito de Paris. São momentos como este que nos permitem imaginar um futuro possível para as novas gerações.
Foi com esta imagem do twitter e publicada por alguém que estava na sala de imprensa do evento em Paris, que eu tomei conhecimento do acordo. Não dei pulos, nem berrei, mas devia, devíamos todos. Fiquei entusiasmado e emocionado por ver a espontaneidade e alegria destas pessoas. Que bom.

inquietação vs ignorância

Nem de propósito!
Acabei de encontrar no twitter esta fotografia tirada hoje no estádio do Sporting. O comentário à fotografia apenas reforçava a sua mensagem, a importância da vitória conseguida e o facto de permanecerem como líderes no campeonato nacional. Para mim, no entanto, serve-me para ilustrar algo que me tem atormentado a tiróide nos últimos tempos...
Falo da utilização indiscriminada, verbal e escrita, da palavra "muita", enquanto quantificativo ou mesmo qualificativo. Em todo o lado, rádio, televisão, jornais, internet, nas ruas e afins, ouvimos expressões como:
Jogou muita bem!,A gaja é muita boa!,O comentador é muita bom!, Continuamos muita fortes!, etc. etc.
Confesso que me confunde. Eu considero errada a conjugação do feminino de muito nestas frases e outras que tais. Penso até que se tratou, inicialmente, de um regionalismo, um tique do calão sulista e que, entretanto, foi-se alastrando pelo país. Custa-me ouvir jornalistas, políticos, animadores de rádio e tv, a falar assim. Já indaguei, já questionei pessoas entendidas e todas elas me confirmam a minha suspeita. Está errada essa utilização. Instituiu-se verbalmente e foi ganhando espaço no léxico popular e corrente.
Muito bem. Espero que não seja mais do que uma moda, tal como tantas outras que têm aparecido ( estou a lembrar-me de uma recente, que andava, e ainda anda, na boca de muitos portugueses - ...então é assim...), e que em breve, naturalmente, caia em desuso. 
Já há algum tempo eu queria esclarecer esta dúvida que me inquietava, pois receava ser mais uma manifestação da minha farta ignorância.


efeitos da socialização

Conversa com o meu filho, depois deste andar de bicicleta...
- Então, já te cansaste?
- Não, mas aleijei-me...
- Caíste?
- Não, mandei um tralho!

11 dezembro 2015

prenúncios

Se estivéssemos noutro qualquer país, ou a falar de uma qualquer outra realidade, tenderia a dizer que não acreditava nos resultados destas sondagens, mas como estamos em Portugal e a experiência recente nos diz que as empresas especializadas neste tipo de estudo, normalmente, acertam ou andam muito perto da verdade, eu diria que é com enorme tristeza que constato a vitória inequívoca de Marcelo Rebelo de Sousa, logo na primeira volta das eleições presidenciais, que se realizará no próximo dia 24 de Janeiro.
Como podem verificar nesta sondagem publicada pelo DN, Marcelo Rebelo de Sousa atinge um score de 62% e derrota todas as oposições. Claro que ainda falta algum tempo e estes números sofrerão algumas alterações, mas não deixa de ser impressionante tamanha votação. Está pré-anunciado o vencedor...
Lamento não haver espaço para uma segunda volta, onde, julgo, poderia haver um equilíbrio maior entre essas duas candidaturas finalistas. Assim, só me resta desejar que a abstenção seja pequena e que todos os eleitores apoiantes dos restantes candidatos vão votar.

downtown

Gosto particularmente de caminhar pelas ruas da cidade nos dias frios. Nesta manhã fresca e solarenga de Dezembro, vim até à baixa do Porto e passeei-me pelas suas ruas principais. Sendo um dia de semana, a agitação quotidiana predomina, mas percebe-se no ar e no rosto das pessoas que passam um stress suplementar de vésperas de Natal. Vir até à baixa da cidade nestes dias é estar disponível para essa agitação, é estar disponível para a confusão do trânsito e para a dificuldade do estacionamento. Desagrada-me o abandono de alguns edifícios, o comércio com as portas fechadas ou falido e os pobres que, a cada esquina, irregelados, pedem esmola; agrada-me a sensação reconfortante de entrar num café e perceber a diferença térmica entre o desconforto exterior e o conforto interior; agrada-me cruzar-me com as pessoas na rua e perceber, nos seus modos, nas suas roupas e nos seus trejeitos, o frio que lhes atravessa o corpo e a alma. Gosto de aqui vir, gosto de aqui estar.

Nota: Ao meu lado, numa mesa contígua, igualmente abrigadas do frio da rua, quatro jovens raparigas passam o seu tempo jogando àquele jogo, cujo nome desconheço, mas que se joga, dizendo ou escrevendo nomes de países, cidades, animais, cores, etc., consoante uma letra do abecedário.

10 dezembro 2015

machina horribilis

Começo pelo manifesto do meu total apoio e concordância com uma tributação justa e equitativa, abrangente e eficaz por parte do Estado. Defendo que todos devem contribuir e o combate fiscal deve ser intransigente e implacável para com os faltosos e para com os criminosos.
Aquilo que se passa com o actual sistema de tributação de IRS é incompreensível e, mais do que isso, impossível. A ferramenta E-Factura é algo inenarrável. Acho muito bem que a máquina fiscal seja eficiente e solicite aos contribuintes todas as informações possíveis, mas transformar cada cidadão contribuinte num especialista em fiscalidade e num eficiente contabilista não só é difícil, como é estúpido. Não haja dúvida que este novo sistema, que era suposto simplificar processos e desafogar o aparelho fiscal, só vem, pelo contrário, afogar ainda mais os serviços, como complicar muito a vida das pessoas. Para trabalhar com o E-Factura é preciso, no mínimo, ser um entendido em contabilidade, ou então, fazer uma especialização, pois a quantidade de informação, de facturas, de NIF's e de outros dados a trabalhar é enorme para um comum mortal: registar facturas, ter que saber taxas de iva, enquadrar actividades e números de facturas desencontrados, etc.
O objectivo último será, por um lado, por os cidadãos ao serviço do Estado e, assim, ir-se demitindo das suas obrigações e, ao mesmo tempo, aliviar os seus recursos humanos; por outro lado, por incompetência ou ignorância, será enorme a perda e desencontro de informação, logo, serão milhares de euros que o Estado não devolverá em reembolsos de IRS. Assim não.

05 dezembro 2015

fios, fios, fios...


Aproveitando esta bonito cartoon, roubado do blogue Entre as Brumas da Memória, e não sendo eu pertencente a esta nova geração wifi, mas antes à geração amarrada por inúmeros cordões umbilicais, declaro a enorme alegria que é para mim poder viver neste tempo em que os fios tendem a desaparecer. Sem querer exagerar, as redes wifi foram a maior e melhor invenção para sistemas nervosos como o meu. Irrita-me profundamente, ao ponto de perder o norte e o calote, lidar com fios. Tudo tem, ou tinha, fios e ainda por cima, exercem uns sobre os outros um forte poder magnético que os leva a baralharem-se ou emaranharem-se. Terrível.
A minha paranóia com os fios faz-me sempre recordar uma música de David Byrne - Girls on my mind, cuja letra diz:
People say that I am crazy / People say that I am strange / But I don't care about what people say / They can't see inside my brain.
E cantarolar... I've got girls, girls, girls, girls, girls, girls in my mind. - substituindo girls por wires (fios).
Enfim, cada macaco no seu galho, mas a música até é fixe...

de lugar a não-lugar

Visitei pela primeira vez o novo espaço da livraria Almedina no Arrábida Shopping e fiquei triste, porque não só perdi um lugar onde gostava de ir e estar, como se perdeu mais uma livraria, para dar lugar a um espaço aberto, descaracterizado, anódino, forrado de prateleiras, sem recantos e sem cafetaria, onde por acaso o que se vende são livros. Detesto estes espaços, pois não são convidativos para a estadia, dão-nos a sensação que estamos sempre a estorvar, não permitem experimentar os livros e são de consumo imediato, ou seja, entrar, comprar e sair, lembrando as zonas comerciais dos aeroportos. Também, não sendo o mais importante, não haver um espaço como uma cafetaria, onde demoradamente podemos conhecer, ler e reler, apreciar e até trabalhar, é um atributo que continua a atrair-me. Lamento que a lei do mercado force o desaparecimento destes lugares e que a lógica actual seja a sua descaracterização e conversão em não-lugares.

03 dezembro 2015

tempo, o imperturbável e cruel elemento da nossa vida

Eles são dias de nomeada, de alguma forma especiais nas nossas vidas. Momentos apropriados para mentes inquietas meditarem, reflectirem e sofrerem com o peso do tempo que lhes transforma o corpo e a mente. Sem esquizofrenias (julgo eu) , os dias de aniversários, fazem-me reviver todos os anos que já conto, todos os momentos que já acumulei na memória e que terão sido turned points na minha vida, numa espécie de nostalgia pelo tempo já experimentado. Vida que se prolonga já na vida de novos seres, com o seu crescimento, com a construção das suas personalidades e com as suas emancipações. O que me espera o futuro? Que futuro? Esse tempo misterioso e que chega a cada momento, sem contemplações ou hesitações. O que me resta desse tempo é, enfim, a questão que me vai acompanhando no tempo.

26 novembro 2015

mediascape: ódio racista e xenofóbico


Com grande destaque no twitter, encontrei hoje esta imagem da capa do jornal Correio da Manhã (CM). Tal como alguns, muitos, já a adjectivaram, trata-se de um jornal que pratica um jornalismo de merda. Tenho, aliás, dúvidas que se possa chamar àquilo jornalismo, ou mesmo jornal. Mas enfim. Convém referir que nunca fui leitor desse tablóide, nunca o comprei e, tenho a certeza, jamais o comprarei ou lerei.
Mas esta chamada da primeira página é insultuosa para qualquer cidadão. Não bastava a ironia, fizeram questão de afirmar o seu ódio pelas minorias e pelas pessoas com alguma deficiência. Com certeza, para esses pseudo-jornalistas, um cego, um surdo, um mudo, um deficiente motor, ou com qualquer outra doença, não são cidadãos plenos, falta-lhes parte dessa cidadania. Assim como também a pertença a um grupo minoritário é impeditiva de exercer ou usufruir da plena cidadania.
Que nojo!

25 novembro 2015

o monstro da matemática e seus explicadeiros

A propósito das dificuldades que a minha filha apresenta a matemática, dei comigo a questionar os meus botões cerebrais: porque é que há tantos alunos do ensino básico (2º e 3º ciclo) e do ensino secundário a recorrerem a apoios suplementares à disciplina de Matemática? Esta foi a questão inicial que me levou a uma reflexão e, depois, à procura de respostas. Se partilharmos com alguém esta questão, a resposta mais imediata é que na Matemática precisa-se ter bem consolidadas as bases e se estas falham então nunca mais se consegue acompanhar a construção do edifício. Pois bem, posso até concordar com essa premissa, mas parece-me bastante simplista ou redutora. Face à dimensão do problema, parece-me que existirão outras causas ou razões.
Num primeiro momento, o raciocínio foi o seguinte: Muitos professores de Matemática dão apoio ou explicações a outros alunos fora da sua escola; muitos alunos procuram apoio de outros professores que não os seus na escola; logo, existe um mercado de serviços prestados em rede, ou talvez melhor, uma troca de serviços entre professores... - ora dá cá os teus alunos, toma lá os meus...
Se acreditássemos em teorias da conspiração poderíamos logo denunciar: - pois claro, a classe profissional funciona em lobby e protege-se, estabelecendo um nivelamento por baixo da qualidade do ensino, incentivando assim a existência e manutenção de um mercado paralelo de ensino privado e isento de qualquer controlo.
Outro raciocínio, decorrente em parte desta conspirativa teoria, é que os professores de Matemática têm consciência das dificuldades sentidas e acreditam na perspectiva da falta de fundamentos para a construção do edifício, logo estão a admitir que, para além da aptidão natural dos alunos, eles não ensinam bem e com qualidade. Falta sempre alguma coisa no passado para justificar as presentes dificuldades e a recorrência ao mercado dos explicadeiros.
Procurámos algumas respostas para percebermos este cenário nacional actual e, também, passado.
Jorge Buescu, no seu ensaio "Matemática em Portugal - uma questão de Educação" (27), editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, numa perspectiva diacrónica e histórica, adianta algumas hipóteses:

A debilidade do sistema de ensino é particularmente visível e aguda na disciplina de Matemática. Um aluno não pode ter uma preparação universitária excelente em Matemática se não teve uma preparação pré-universitária excelente; e não pode ter uma preparação excelente, no final de cada ciclo de ensino pré-universitário, se no anterior não teve também uma preparação excelente.
Como já se afirmou diversas vezes, o ensino da Matemática é implacavelmente cumulativo e não permite que se saltem degraus. Esta razão, e a universalidade do seu ensino, fazem com que a Matemática possa funcionar como uma espécie de "termómetro de qualidade" de uma escola. (...) Uma escola em que o ensino da Matemática é medíocre não pode ser uma boa escola.
Sendo o nosso ensino das ciências, em particular da Matemática, muito pobre, seria surpreendente que alguma vez tivesse emergido um líder científico ou matemático de nível mundial em Portugal. (...) Não é por acaso que a esmagadora maioria dos matemáticos activos em Portugal trabalham no ensino superior.
(...) No caso específico da Matemática, há outras circunstâncias agravantes. O sistema educativo português parece ter horror à ideia de controlo de qualidade e do reconhecimento da diferença e do mérito. Isto é fatal para a Matemática. A inteligência matemática parece ser bastante democrática, caracterizando-se por uma distribuição razoavelmente uniforme na população. Os factores que depois farão a diferença no seu aproveitamento são, por um lado, a qualidade do sistema de ensino e, por outro, a detecção precoce do talento.

Claro que existirão outras opiniões e outras razões, neste caso parece-me pertinente a tónica na qualidade do ensino, que entre outras consequências, reforça a ideia que os professores dos ensinos pré-universitários carecem de qualidade e exigência. Esta poderá ser a razão seminal de todo o problema e não a imputação exclusiva aos alunos que têm ou não têm aptidão, ou que se esforçam ou não. Quero com isto tudo, terminar afirmando que estou convencido que não é culpa exclusiva dos alunos, por falta de atenção, gosto ou dedicação, mas sim algo mais estrutural e estruturante que tem, provavelmente desde sempre, norteado o ensino da Matemática em Portugal.

enfim...

Nas vésperas da tomada de posse do XXI Governo Constitucional, depois de um período de desnorte do finado Presidente da República, finalmente vai haver novo governo e, espera-se, um governo de esquerda. Não sei se António Costa dará ou não um bom primeiro-ministro, mas as expectativas em relação ao governo no seu conjunto são relativamente elevadas. Espero sinceramente que corra bem e, perspectivando da esquerda, lugar onde me encontro, espero que este governo possa dar respostas rápidas e eficazes aos problemas sociais que por cá existem.
Daquilo que tem sido apresentado pela comunicação social, o elenco ministerial não me merece qualquer comentário, preferindo dar-lhes o benefício da dúvida. De qualquer forma, ao verificar os nomes dos futuros ministros não posso deixar de referir a sensação mais do que evidente de que são muitas as caras do costume socialista. Percebo a necessidade da experiência e capacidade política na escolha de alguns elementos, mas parece-me redutor para o PS recorrer durante tantos anos sempre aos mesmos personagens. Mas vamos lá mostrar que há alternativa, que há outra forma de governar o país. Força.

24 novembro 2015

o estudo de alguns bois

Pois parece-me que ainda vou, um dia destes, dedicar-me ao estudo desse personagem tão carismático da vivência rural tradicional portuguesa. Foi o texto de A. M. Pires Cabral na última revista Granta que me despertou a actual curiosidade e agora encontrei este bonito livro de Bento da Cruz sobre o Boi do Povo em terras do Barroso, na visita ao Porto book stock fair. Vou ler com atenção e mastigar algumas ideias que por aqui trago.

porto book stock fair

Sou um assíduo visitante e um alegre adepto deste tipo de eventos, onde podemos com calma ver, sentir e ler livros. Sempre que tenho conhecimento desses eventos na Invicta ou arredores, lá estou eu à procura de algum livro que me interesse, ou de alguma promoção real, ou ainda de alguma raridade. Acontece que à medida que os eventos anualmente se repetem e à medida que o meu acervo vai crescendo, começa a ser mais difícil encontrar algo para trazer para casa. Na verdade, o meu critério tem vindo a ficar cada vez mais selectivo e, por isso, deixa de haver razão para continuar a frequentar esses certames.
Aconteceu uma vez mais com a recente visita ao pavilhão Rosa Mota, onde decorre até 6 de Dezembro a "Porto book stock fair", onde no meio de milhares de livros não consegui identificar mais do que uma meia-dúzia de livros que me fizeram parar, pegar, consultar índice e verificar preço. Constacto que lá vou apenas pelo prazer dos livros, pelo prazer de estar entre eles e de mexer neles. Acabei por apenas trazer um pequeno livro. Também em relação aos preços, apesar de podermos encontrar muitos livros descontinuados a um, dois e a três euros, a maioria dos livros que ainda estão em circulação no mercado têm descontos simbólicos de um ou dois euros apenas. Por último, uma nota crítica em relação ao nome do evento... não percebo a necessidade da designação em inglês. Qual será o objectivo?!... Prestígio?!... Chegar a públicos estrangeiros?! Não me parece. Quanto a mim desnecessário.

18 novembro 2015

or'era amor! *

O Estado Islâmico, auto-proclamado califado, terá por ambição ou objectivo último a reconquista de todos os territórios que um dia, num passado bastante longínquo foi terra de Alá. Actualmente está confinado a parte do Iraque e parte da Síria e, ou muito me engano, jamais crescerão para além das fronteiras desses países, quando muito, das fronteiras de um ou outro estado vizinho. Não deixa de ser impressionante olhar para estes mapas e imaginar a loucura que seria um grupo de fanáticos e assassinos alcançarem tal dimensão no mundo. Esta gente não tem sequer a noção da realidade actual. Em pleno século XXI, estes assassinos vivem ainda na baixa idade média (e estou a ser simpático). Espero que muito em breve a existência desta minoria muçulmana seja apenas uma página triste e lamentável na história da humanidade.

* A escolha deste título, implica algum prazer sádico por saber que jamais estes mapas serão uma realidade. E por isso mesmo utilizei esta expressão como título, pois representa uma interjeição que na minha aldeia é apenas utilizada quando alguém considera que algo não é possível ou algo que não se vai realizar.


a quem interessar...


terroristas e refugiados

No rescaldo do atentado de Paris e agora que a poeira assentou e muitos dos pormenores do massacre se começam a conhecer, podemos constatar como não há qualquer relação entre estes terroristas islâmicos e a vaga de refugiados que chegam diariamente à Europa provenientes da Síria. Nenhum dos terroristas implicados neste atentado é Sírio. Convém esclarecer, afirmando e reafirmando, esse facto, pois vários responsáveis europeus e vários órgãos de comunicação social logo se apressaram a estabelecer uma relação directa entre os dois acontecimentos, parecendo mais que estavam à procura de um pretexto para tomarem as medidas que sempre quiseram tomar, mas por pudor ou vergonha, foram protelando no tempo. Será uma vergonha civilizacional para a Europa, por reacção abandonar ou maltratar todos esses homens e mulheres que fogem da guerra, fogem do terrorismo nas suas casas.

fast and junk food


Não sendo um adepto fervoroso ou sequer assíduo da comida rápida ou da comida lixo, é ainda com relativa admiração que observo, e verifico pelos consumos, o fascínio que as gerações mais novas nutrem pelas diferentes e variadas ofertas desses cardápios. Qual será a substância secreta e, com certeza, proibida, cancerígena, ou pelo menos maléfica para a saúde, que arrebata o palato dessa enorme massa anónima que dá pelo nome de juventude?! Apesar de banal, simplificadora de processos e libertadora de trabalhos domésticos, é estranha e, para muitos, jamais se entranhará. Sem fundamentalismos, aceitando-a como mais uma opção dietética à qual, com parcimónia, poderemos recorrer, continuo a dar preferência a uma alimentação mais demorada e, mesmo quando penso em simplificar e acelerar processos, o que me ocorre é sempre algo como uma sande de panado, uns ovos estrelados, cozidos ou mexidos, omeletes, atum enlatado, sandes mistas e afins. Sempre bom e fácil. Digo eu.

14 novembro 2015

a nossa civilização

(bansky)

Uma vez mais, e mais uma vez em Paris. Quantas mais vezes serão precisas, quantas mais mortes inocentes serão precisas para a nossa civilização dar uma resposta séria e definitiva?! Tanta ciência, tanta nova tecnologia, tanto desenvolvimento e não se consegue erradicar deste mundo um grupo de fundamentalistas e radicais cujos referenciais são mitos e hipotéticos factos históricos com milhares de anos. Sentem-se pertencentes a uma civilização que já não pode existir na actualidade e querem-na impôr ao resto do mundo. Nem todo o relativismo cultural do mundo pode compreender estes actos de pura barbárie. Sabemos que se tivessem possibilidade, não hesitariam em nos matar a todos.
Sou um pacifista, nunca apoiei nenhuma guerra ou ofensiva contra minorias étnicas ou culturais, mas neste caso sou apologista de uma resposta drástica e sem qualquer contemplação. Destruir, matar e erradicar qualquer resquício dessa gente será o mínimo a fazer.
Outro problema é a questão social em França e mesmo em toda a Europa. Não podemos, nem devemos, num momento de dor e de consternação, confundir tudo. Julgo que não será por acaso, nem por questões de segurança, que a escolha destes terroristas é a França e, principalmente, Paris. Não podemos esquecer que a França será o país europeu com maior percentagem de cidadãos muçulmanos, emigrados e seus descendentes que permanecem agregados em comunidades religiosas fechadas e secretas, onde o fundamentalismo será facilmente disseminado. É essa realidade e, de certa forma, liberdade que dificulta o trabalho dos sistemas de informação e segurança nacionais. Por outro lado, a livre circulação de pessoas pelo espaço Schengen não só facilita a circulação desta gente, dificultando a sua localização e referenciação, como permite a criação de outras células terroristas noutras cidades europeias, tornando impossível termos sequer a ideia do seu número.
Nada contra o Islão, tudo contra o fundamentalismo religioso, seja ele associado a Alá, ou a Jeová ou a Deus. Nenhum problema de consciência nos deverá impedir de proteger a nossa civilização, o nosso modo de vida e a liberdade individual e colectiva que nos caracterizam e que a eles tanto custa a compreender e aceitar. Quero continuar a poder dizer bem alto: Liberdade, igualdade e fraternidade.

12 novembro 2015

analogia

Se a nossa mulher, por exemplo, nos põe constantemente demasiado açúcar no chã, não é porque tenha demasiado açúcar guardado na despensa; é porque não foi educada no melhor modo de lidar com a doçura. Da mesma forma, o problema de saber como viver uma vida boa nunca pode ser solucionado por recurso ao intelecto.
William Boyd, 2015:105 - in Granta nº 6

mediascape: santa ignorância


Esta foi a imagem (cartaz) que os putos do PSD resolveram colocar no facebook para tentar ilustrar o assalto ao poder dos partidos da esquerda portuguesa. Do lado direito da imagem e por trás de Jerónimo de Sousa colocaram uma das mais icónicas fotografias da 2ª guerra mundial e, mesmo do século XX, o hastear da bandeira da URSS na tomada de Berlim nazista. Para além da infeliz criatividade e da inocente comparação da PaF com o regime nazi, a iniciativa demonstra a imensa ignorância desses meninos e meninas. Procurei, mas não encontrei explicações por parte da direcção desses betos. Devem estar espantados assombrados com a importância histórica da fotografia. Devem tê-la escolhido por ser bonita e radical. Não sei, mas foi por aqui que andaram alguns dos ilustres senhores e senhoras que nos têm governado. Essas escolas do empreendedorismo nos gabinetes ministeriais e afins que são as jotas, deram e dão resultados destes. Só de pensar que serão estes os homens e mulheres que amanhã poderão conduzir os destinos do país, fico amargurado.

11 novembro 2015

o dia depois, a rua (4)

Outra constatação destes últimos dias é o interesse, a participação, eu diria melhor, a implicação de muita e muita gente neste processo. Não haverá português, exagerando um pouco, mesmo entre aqueles que são abstencionistas e indiferentes crónicos, que não se pronuncie, que não tenha opinião sobre o que está a acontecer no país. Para percebermos tal, basta sair e andar na rua ou frequentar lugares públicos.
Como a espuma dos dias de agora contrasta com a normal, histórica e crescente descrença e indiferença dos portugueses pela coisa da res publica dos últimos anos e até décadas! Seja para concordar, discordar ou vice-versa, com razão ou sem ela, com elegância ou trauliteiramente, a verdade é que a política retornou ao centro da nossa urbanidade e isso é positivo, muito positivo. Quem sabe, poderá até contribuir para a diminuição das abstenções em futuras eleições. Penso eu de que...

o dia depois, a tormenta (3)

A consciência da realidade que experimentamos por estes dias, leva-nos obrigatoriamente à reflexão sobre os dias que aí virão, sobre as enormes dificuldades que se adivinham no horizonte. Essa tormenta não é exclusiva a Portugal. Se olharmos à nossa volta, muito facilmente perceberemos como a Europa está à deriva, sem líderes capazes e competentes, sem políticas e, acima de tudo, repleta de elos fracos que, nas suas mais variadas manifestações, se predispõem a destruir, ou pelo menos questionar o edifício europeu. Entre outras, verificamos:
- Reservas sérias e programáticas britânicas quanto à manutenção na UE;
- Reforço da direita e extrema-direita em vários estados, incluindo vários governos e manifestando posições anti-europeias;
- Crise dos refugiados que, per si, já é potencialmente uma tragédia para a Europa, e que despelou sentimentos, manifestações e reacções por parte de alguns países, que julgávamos não serem possíveis numa espaço partilhado, sem fronteiras e de livre circulação;
- A construção de muros, barreiras, arames farpados, campos de refugiados, ou seja, ambientes pouco habituais na contemporaneidade europeia;
- Movimentos independentistas, como aqui ao lado em Espanha, onde a situação se extremou e poderá ser o precedente para outras experiências regionais;
- Fragilidades económicas de vários estados, que levaram à subtracção das capacidades democráticas um pouco por toda a Europa;
- Uma estrutura central Europeia enredada pela burocracia e seus burocratas, dominada pela tecnocracia e seus tecnocratas, que afastaram dos centros de decisão os cidadãos e substituíram a supremacia democrática - o perfil fundador da Europa, por um directório anti-democrático, chantagista e opressor, a quem todos devem obediência.
Perante estes factos ou realidades, a tormenta que se adivinha até poderá ser bem frutuosa. Claro que haverá riscos e alguns dos seus pressupostos são ainda desconhecidos. Aquilo que aconteceu na Grécia foi o primeiro sinal dessa mudança, agora em Portugal e daqui a dias será em Espanha. A ver vamos. Estou expectante perante a possibilidade de descontruirmos este edifício caduco e sem futuro. Penso eu de que...

o dia depois, a esperança (2)

Eu hoje acordei num país novo, num país diferente!
Não, não estou a delirar, nem estou em negação, nem estou a prognosticar. É verdade, pela simples razão de saber que Passos Coelho e o seu governo PaF foram demitidos pela democracia, na sua sagrada casa e não legislarão mais, sinto-me um rapaz novo, optimista e esperançoso. E tenho os dois pés bem pousados no chão, estou bem consciente das dificuldades destes novos dias e seus desafios. Mas não importa. A possibilidade de saber que, agora sim, pode ser diferente, liberta-me de todas as frustrações e derrotas que trazia comigo destes últimos anos. Não conheço os dias de amanhã, mas tenho esperança. Tenho esperança pela justiça, pela educação, pela saúde e pela qualidade de vida que é devida a todos. Esperança que homens e mulheres tomem decisões não a pensar em mercados, em credores ou em números, mas a pensar em pessoas reais e seus problemas.
Recolocar os cidadãos, os homens e as mulheres, no centro da estrutura a que chamamos país, estado ou nação; recolocar os cidadãos, os novos e os velhos, no centro das preocupações e decisões programáticas e políticas; recolocar os cidadãos, os activos e os passivos, no centro das opções possíveis, transformando as demais em não-opções. O Homem no lugar do dinheiro, o cidadão no lugar do burocrata, o político no lugar do economista, o humanista no lugar do financeiro. E assim teremos um país diferente. Assim a esperança permanecerá. Penso eu de que...

o dia depois, o odioso (1)

Bastou o amanhecer do dia seguinte à queda do governo PaF para se perceber como a sociedade portuguesa vive tempos conturbados. Muitos analistas políticos e opinadores de ocasião televisiva têm vindo a alertar para as fracturas, as crispações e as divisões sociais que a conjuntura política tem proporcionado. O resultado das últimas legislativas foi a consequência lógica, ou o epílogo desse ressentimento social. Esperariam os partidos da direita e os seus representantes que não houvesse alterações concretas e estruturais depois da governação autista, sobranceira, arrogante e discriminatória que exerceram durante os últimos quatro anos?! A queda desse governo era inevitável face, não à crispação, mas ao puro ódio social que se sente nas ruas. Não haja dúvidas que o ódio é o sentimento mais recorrente por estes dias e a fractura política verificada, apesar de eu não ter a certeza que corresponde à fractura social, pelo menos permitiu-nos perceber, definitivamente, a posição exacta de quase todos os partidos políticos com representação parlamentar. Digo quase todos porque há uma excepção que é o PS, pois dada a sua natural centralidade (aquilo a que alguns chamam "charneira"), terá sempre e a cada momento a possibilidade de poder escolher de que lado da fractura pretende ficar. Seria hipócrita se não reconhecesse que prefiro o PS do lado esquerdo dessa fractura, tal como aparentemente está hoje, mas sei que muito rápida e facilmente poderá trocar e empurrar a cisão política para o seu lado esquerdo e posicionar-se na outra margem. Claro que tudo isto implica que também seja o PS a carregar, a cada momento e situação, o odioso político e, acima de tudo, social, o que em última instância poderá provocar sérias e irreversíveis cisões dentro do PS, o que, a acontecer, não seria assim tão negativo até para o próprio partido. Penso eu de que...