25 outubro 2016

serões sem ditadura


Como são bem mais agradáveis os serões sem a TV ligada. Escolher manter o aparelho, todo poderoso da vida de todos nós, desligado, liberta-me para tantas outras opções tão bem mais interessantes e aprazíveis que a ditadura da televisão impede ou oculta. Ainda por cima é sem qualquer tipo de sacrifício que a mantenho em off, pois o lixo televisivo é cada vez mais tóxico e prejudicial à saúde e à inteligência de cada um de nós. É cada vez mais, para mim, um modo de vida. Poder escolher aquilo que queremos ouvir e fazer uma selecção musical ao sabor do humor; lermos aquilo que queremos ler em paz e sem ruídos perturbadores; procurarmos as notícias e o ritmo do mundo que nos rodeia em modo self-service, sem promoções e sem adds; escrever, teclar e bloggar sem interferências e o vinho, generoso e velho.
Longa e boa noite.

regresso à grande tela

Num fim-de-semana pachorrento como este último, pûs-me a ver, com olhos de quem está mesmo interessado, a lista de filmes que estão disponíveis nas salas de cinema. Nada de interessante que segurasse os meus sentidos e a minha curiosidade, a não ser um filme que está em exibição apenas no Arrábida Shopping e num único horário, às 17:50 horas - para um pai de família não deve haver pior hora para decidir ir ao cinema. Não havendo alternativo, acomodadas as crianças, lá fui eu, no Domingo, ver "Um editor de génios" de Michael Grandage e com um elenco superior onde se destacam os papeis desempenhados por Jude Law, Colin Firth, Nicole Kidman e Laura Linney, num ambiente dos "loucos" anos 20 e sobre a relação de um editor conceituado e respeitado no mundo literário com um jovem brilhante escritor. Gostei muito do filme e, uma vez mais, Jude Law e Colin Firth, jovem escritor e editor, respectivamente, demonstram toda a sua arte enquanto actores.
Tendo em conta o horário da única sessão disponível, sempre pensei que iria estar sozinho ou quase na sala de cinema. Enganei-me. Éramos oito pessoas e eu fui acompanhado pela pessoa com quem mais gosto de ir ao cinema.

23 outubro 2016

o que elas são

Na semana passada, estava a caminhar por uma rua de Dublin - o tempo estava assim como hoje; suave, de final de Primavera, início de Verão - quando uma rapariga passou por mim e eu apanhei o perfume dela no ar: um perfume maravilhoso... Só os homens conseguem captar esta espantosa essência feminina, feita delas mesmas. Não é um perfume artificial; é o cheiro delas, das mulheres e do que elas são. Por momentos, fiquei num estado de felicidade absoluta. (John Banville, in LER)

18 outubro 2016

para este outono

Não sei qual ou quais as razões, mas a edição desta revista está cada vez mais difícil. Dá a sensação que é a custo que a publicam. É pena, pois faz-me sempre falta. É com avidez que a procuro nas bancas e, depois, a leio. Obter informações sobre ela é quase impossível, pois o seu portal está desactualizado e mesmo a página do facebook não tem quase actividade.
Este número de Outono apresenta, tal como tantas outras vezes, uma capa lindíssima. Vamos LER.

14 outubro 2016

materialidade e metamorfose de joan miró

(sem título, óleo sobre cartão, 1935)

Aproveitando o vazio do inicio de tarde desta sexta-feira, tentando fugir às confusões dos fins-de-semana, fui a Serralves ver a famosa e mediática colecção de Joan Miró. Instalada em várias salas da casa principal de Serralves, a colecção contempla setenta e oito obras do artista catalão. Expressiva, intensa e impressionante obra, nalguns casos pela simplicidade do traço, das cores ou das morfologias, noutros pela complexidade das perspectivas e pela exploração dos materiais. A mim impressionaram-me particularmente seis ou sete trabalhos e a que mais gostei é a que em cima reproduzo (pedindo desculpa pela fraca qualidade da câmara do meu telemóvel).
Numa outra abordagem, agora e com mais propriedade, eu diria que aqueles que um dia pensaram desfazer-se deste imenso património são umas bestas, sem uma réstia de sensibilidade e incultos, mercadores do vil metal cujo fito é sempre e exclusivamente o dinheiro.
Meus senhores, minhas senhoras, meninos e meninas, não deixem de visitar esta colecção, pois é o único e o autêntico em todo o seu esplendor.

(na sala 4 da exposição, junto do referido quadro e para memória futura)

13 outubro 2016

pedrada no charco da escrita

Para espanto generalizado da ortodoxia literária mundial, soube-se hoje que a Academia Sueca atribuiu o Nobel da Literatura a Bob Dylan. Não sendo eu um admirador da sua música, respeito e considero a sua carreira e portanto está bem entregue. A única consideração que esta escolha me merece é confessar que, tendo em conta o meu conhecimento, o meu gosto e a minha sensibilidade musical, preferia que o escolhido fosse Leonard Cohen. Digo eu para mim.

09 outubro 2016

mediascape: a morte

Hoje no Jornal Público é publicada uma entrevista ao Padre José Nuno, capelão do Santuário de Fátima, onde, a propósito da Eutanásia e da proposta sobre a morte assistida, se refere à actual erradicação da morte do espaço público e de como a sociedade vive convencida, perante o poder da tecnologia e da ciência (medicina) para iludir a morte, que a vida não contempla a morte. Tem razão, e não só tem razão como apresenta uma proposta, em tese, muito interessante, de incluir o ensino sobre a morte nas escolas. Não importa se estamos ou não a falar da morte "religiosa", ou se ele não está mais do que a defender a manutenção e o reforço da disciplina de Religião e Moral nos programas escolares, mas releva o facto de ser verdade que a nossa sociedade - a família, a escola, as organizações e até as religiões - nos terem vindo a educar de costas para esse momento último da vida. Haverá, com certeza, várias causas e explicações para isso ter acontecido, das quais talvez eu destacasse duas: a 1ª) a alteração do modo de vida, ou seja, a urbanização dos indivíduos e famílias às custas da desruralização do país (reparem como há, ainda hoje, enormes diferenças entre os enterros no mundo rural e nas grandes cidades) e, a 2ª) o paradigma dominante do elixir da eterna juventude, em que as diferentes indústrias apostaram e fizeram acreditar que, nos modos, nos trajes e na alimentação, as idades não contam e a morte, essa, estará sempre bem longe e bem iludida.
Uma das características mais notórias dessa nova percepção da vida e que remete a morte para espaços e tempos de exclusão, é o completo e obcecado afastamento das crianças desses rituais de passagem, dando razão ao referido padre quando sugere "levar a morte" para a escola. Bem sei que quando se é ainda jovem a noção do tempo, a noção desse inolvidável fim é algo muito abstracto e sem importância, talvez por isso também, os adultos queiram proteger as suas crianças e suas consciências desse fatídico momento.
Uma boa reflexão para os próximos tempos.

05 outubro 2016

mediascape: não me toquem nos 'cojones'

Chamaram-me hoje à atenção para este pequeno vídeo de uma conferência de imprensa de um jogador de futebol espanhol. Nunca na vida vi nada assim. Surpreendido, fiquei siderado com a qualidade, com a coerência e com a veemência, mas também com a coragem, a potência e a elevação com que o jogador se dirigiu a um determinado jornalista. Aqui fica o vídeo e aqui o link para a notícia com todos os detalhes deste magnífico momento.


É que o estereótipo de jogador de bola nunca coincidiu com tal personalidade, com tal discurso. Estamos habituados ao futebolês de sempre, do vira-o-disco-e-toca-o-mesmo, das frases feitas, das perguntas e respostas mais que previsíveis, do graças-a-Deus, dos tropeções à língua, etc., etc.
Ficou-me uma questão final por responder. Deixo-a aqui à comunidade para reflexão e, se assim entenderem, responderem:
Conhecem algum jogador português, actual ou do passado, capaz de realizar algo parecido? Eu, com dificuldade e com sérias reservas, identifiquei um, mas vou esperar por algum comentário para identifica-lo.

04 outubro 2016

hortelã mijada

Não gosto do cheiro nem do sabor da hortelã. Com grande certeza serei dos poucos que não aprecia tal aroma, dada a proliferação desta planta por todos os cantos e recantos da nossa civilização. Diz a história que a hortelã-vulgar, cujo nome científico é Mentha Spicata, sempre esteve presente na farmacopeia chinesa, que os romanos acreditavam que o seu consumo beneficiava a mente e, em concreto, a inteligência, mas terão sido os egípcios os primeiros a documentarem a sua utilização. Os entendidos na coisa dizem-nos que esta planta aromática e com inúmeras propriedades medicinais é indicada para variadíssimas patologias, tais como as más digestão, as náuseas, os vómitos, febres, dores de cabeça e constipações. Para além disto, é anti-séptica, diurética e estimulante. Depois, temos as diferentes formas de a consumir, sendo que a mais habitual é a infusão, mas também há registos da sua mastigação para cuidar do hálito e para cuidar da garganta, assim como a relativa secagem das suas folhas para compressas e para inalação de vapores. Mais recentemente, assistimos à sua transformação num produto gourmet e na moda, através da sua utilização massificada na actual culinária de empratamentos, de autores e de grandes fomes. Iguaria omnipresente em tudo que é saladas, sobremesas, bebidas, gelados, doçarias, rebuçados, pastilhas elásticas e afins, serve igualmente como aroma para anular qualquer outro cheiro ou sabor presente, naquilo que eu chamaria de ditadura da hortelã...
Se a enquadrarmos num ambiente popular e tradicional, facilmente a encontramos e verificamos que a sua utilização motiva não só a sua procura, como principalmente, o seu cultivo, naquilo que poderemos entender como uma autonomia de produção e consumo. Aquilo que esta sabedoria popular nos diz desta planta não difere muito daquilo que a sapiência afirma, muitas vezes divergindo apenas na nomenclatura dos males ou aflições em que é remédio santo. Também é neste ambiente e neste conhecimento popular que encontraremos todas as divergências geográficas relativas ao seu uso e consumo, ou seja, o conhecimento acerca da planta e suas especificidades poderá variar geograficamente, levando a relativas diferenças no seu uso.
Terá sido algures na segunda metade da década de noventa, numa conversa com um velho conhecido, homem já na sua oitava década de existência, bem perto da porta de sua casa e aproveitando a sombra de uma velha parede semi-ruída e a ligeira brisa que o estreito canelho proporcionava, que ele me revelou o segredo de tamanho sucesso da hortelã. Ele tinha por hábito mascar as folhas frescas ou já algo secas desta planta. Dizia ele que como fumava muito, a hortelã o ajudava na tosse e no catarro. Quando estava à rasca nada lhe fazia melhor do que a hortelã. Ao mesmo tempo que me ia dizendo estas coisas, também afirmou, num tom de confidência mas com um certo ar trocista, que o segredo da hortelã era o mijo. O mijo dos animais e das pessoas. Perante a minha admiração, disse ele:
- Já reparaste que a hortelã aparece em todo o lado aqui pela aldeia, nos lameiros e pelo monte? Se vires com atenção, ela cresce por aí encostada a qualquer muro... e sabes, principalmente onde os homens, os cães, os gatos e até as raposas vão mijar. Eu até acho que nós procuramos o sítio delas para nos aliviarmos. Elas chamam por nós porque precisam do nosso mijo. Os homens quando saem da taberna vão sempre mijar em cima das hortelãs e elas estão lá sempre mimosinhas. Porque será? Nunca tiveras pensado nisto?!
- Não senhor. Respondi eu, com certeza, incomodado. Às tantas, por causa deste saber adquirido há tanto tempo, sempre que em contacto com esse aroma ou sabor, não consigo deixar de os relacionar com urina e de questionar se o segredo para o seu sucesso não será mesmo essa rega suplementar.

03 outubro 2016

provinciano és tu e a tua tia

A propósito da instalação definitiva(?) da colecção Miró na Fundação Serralves da cidade do Porto, apanhei um pequeno comentário do colunista do jornal Público, Manuel Carvalho, sobre declarações de um tal Nuno Vassalo Silva, director-adjunto do Museu Gulbenkian. Desconhecendo essas palavras fui à sua procura e lá acabei por encontrar isto:
“É uma decisão lamentável, a ceder ao imediato, e que só demonstra como em Portugal é difícil implementar um programa de cultura, porque a tentação mais imediata é seguir os caminhos mais fáceis e atractivos”;
“Se expor a colecção em Serralves é uma boa ideia”, decidir que ela fique depois na cidade manifesta “uma visão provinciana”, acrescenta Vassalo e Silva, descrendo que ela faça “desviar os turistas que vão a Barcelona, a Madrid ou a Nova Iorque” ver os Mirós.
Que raio de mania desta elite da metrópole de considerar que o mundo centrifuga à volta de Lisboa e que o país se esgota para lá dos seus arrabaldes. Meus senhores, há muito país, muita gente, muito conhecimento, arte e cultura para além dos Pastéis de Belém e dos pseudo-cosmopolitas da capital. O problema destas afirmações é que são o espelho da real perspectiva que estas personagens têm da cultura, do seu acesso às comunidades e aos indivíduos e do próprio país; o problemas destas personagens é que são elas que estão no poder ou no seu círculo e determinam ou influenciam as políticas culturais não só para a cidade capital, mas também para o resto do país que, provavelmente, não conhecem.
Mas regressemos ao comentário de Manuel Carvalho, bem mais acertivo na crítica a Nuno Vassalo Silva:
Alguns intelectuais da capital não resistem ao disparate sempre que no ar há um ténue perfume de descentralização cultural. A história repete-se com a colecção Miró, cuja instalação no Porto levou Nuno Vassallo Silva, director-adjunto do Museu Gulbenkian a falar de uma “visão provinciana” que denuncia a tentação do poder político em seguir “os caminhos mais fáceis e atractivos”. Bom, que se saiba, “os caminhos mais fáceis e atractivos” são os que levam ao umbigo dos agentes culturais lisboetas, uma constatação do corporativismo da elite que não vale mais do que um vintém. Mas, agora, dizer que a instalação de uma colecção de arte do Estado fora de Lisboa se sustenta numa “visão provinciana” da cultura já expressa com exuberante luminosidade o que pensam e que ideia projectam estes cérebros sobre o país. Para a oligarquia cultural lisboeta, na qual o responsável pelo museu Gulbenkian se inclui, o mundo só existe se rodar em torno da pequena corte do Terreiro do Paço. Ó doutor Nuno Vassallo Silva, haverá algo mais provinciano do que essa mundivisão? (2/10/16)

escrito por aí...

O Governo não está em risco pelos desentendimentos interiores da coligação, nem pela hostilidade da opinião pública, com as sondagens a revelarem uma queda crescente do PSD, está em risco porque existe uma enorme coacção sobre a sua política e um dia a corda quebra.

Uns e outros não olham da mesma maneira para os mesmos lados: o PSD e o CDS são os guardiões da ofensiva fiscal sobre o trabalho, os salários, pensões e reformas e sobre a débil melhoria que uma parte da “classe média” teve em Portugal depois do 25 de Abril, o Governo pretende “reverter” essa situação.

O actual Governo é sustentado pela política no mais nobre sentido da palavra, pela política em democracia, sem se disfarçar de “realidade”, como hoje a ideologia de direita faz. O actual Governo é o único da Europa assente neste tipo de alianças partidárias. Convém lembrar que o que permite a sua existência é a recusa liminar de que o PSD e o CDS governem (que o PS português aceitou e o PSOE espanhol não, com as consequências desastrosas que se conhecem), e esse acto genético é traumático para a direita, que nunca conviverá com ele.

(José Pacheco Pereira, in jornal Público, dia 1 de Outubro de 2016)

vamos à luta...

(in Jornal Público, 1 de Outubro de 2016)

mediascape: o diabo não veio, mas há-de vir

João Miguel Tavares (JMT) na sua crónica deste Sábado escreveu sobre o vaticínio que Passos Coelho em Julho fez sobre a chegada do Diabo para depois das férias. JMT critica essa estratégia adivinhatória pois não só foi mais uma promessa por cumprir, como o adivinhador acabou por fazer figura de parvo. Segundo o autor não adianta a dramatização excessiva do futuro próximo, pois com isso só se está a ajudar o governo de António Costa.
O que é curioso nesta ilustre opinião é que se considera que o Diabo não chegou agora, mas há-de chegar e, pelos vistos, a sua aparição está já programada para 2017, ou seja, critica-se o anúncio prévio do tempo de Belzebu, mas o que ele próprio faz logo a seguir é precisamente o mesmo, ao dizer que o cheiro a enxofre sente-se no ar.
Os cavaleiros do apocalipse não se cansam, não desistem, não aceitam, não compreendem. Mais do mesmo.

26 setembro 2016

mein kampf


Nos últimos dias de descanso deste Verão, dei comigo sem ter nada para ler. Esgotado o stock de livros levados para esses dias de remanso, socorri-me da pequena biblioteca que meu pai vai construindo na casa da aldeia e dei com os olhos nesta nova edição da Guerra & Paz do famoso livro de Adolf Hitler.
Na verdade, apesar de saber há muitos anos da sua existência e do estigma que sempre possuiu, nunca foi personagem ou assunto que me tenha despertado qualquer tipo de interesse ou sequer curiosidade. Contudo, nesse dia ao folhea-lo pensei que talvez já fosse tempo de, pelo menos, tentar lê-lo.
Foi o que fiz ao longo deste último mês, nas horas vagas e mentalmente disponíveis, pois a sua leitura obriga a alguma concentração e atenção. A este propósito dizer que esta edição tem uma letra pequena e muito texto por página, o que complica ainda mais a sua leitura. Apesar de possuir uma capa dura e visualmente ser bonito, não gostei do livro (objecto). Tal como percebi logo nas primeiras páginas, o melhor mesmo foi fazer uma ficha de leitura da obra, o que me facilitou a sua compreensão, mas atrasou a leitura. Nessa ficha de leitura fui coleccionando inúmeras passagens que, aos meus olhos, são significativas daquilo que é a própria obra, daquilo que foi a consequência prática do nacional-socialismo, assim como daquilo que me permitiu fazer um juízo, em jeito de recensão, do pensamento político de seu autor. Eis algumas passagens...

Só conhecendo os judeus, se pode compreender os propósitos íntimos e, por isso, reais da social-democracia. (p.137)

Com o decorrer dos séculos, o aspecto do Judeu havia-se europeizado e ele tornara-se parecido com um ser humano. (p.137)

Acredito agora que ajo de acordo com a vontade do Criador Omnipotente lutando contra o judaísmo, realizo a obra de Deus. (p.144)

Não se deve esquecer nunca que o mais elevado fim da existência humana não é a conservação de um Estado ou de um governo, mas o de conservar o seu carácter racial. (p.159)

Se na luta pelos direitos humanos, uma raça é subjugada, isso significa que ela pesou muito pouco na balança do destino para ter a felicidade de continuar a existir neste mundo terrestre, pois quem não é capaz de lutar pela vida tem o seu fim decretado pela Providência. (p.159)

O mundo não foi feito para povos covardes. (p.159)

O pecado contra o sangue e a raça é o pecado original deste mundo e o fim da humanidade que o comete. (p.239)

O judaísmo nunca foi uma religião e sim sempre um povo com características raciais bem definidas. (p.269)

Do ponto de vista ariano, é impossível imaginar-se, de qualquer maneira, uma religião sem a convicção da vida depois da morte. Em verdade, o Talmude também não é um livro de preparação para o outro mundo, mas sim para uma vida presente voa, suportável e prática. (p.269)

Os judeus foram responsáveis por trazer negros para o Reno, com o intuito final de abastardar a raça branca, por eles odiada, e assim diminuir o seu nível cultural e político, para que o judeu pudesse dominar.  (p.279)

A força motriz dos grandes avanços, em todos os tempos, não foi o conhecimento científico das grandes massas, mas sim um fanatismo entusiasmado e, às vezes, uma onda histérica que os impulsionava. (p.285)

O novo movimento é, na sua essência e na sua organização, anti-parlamentarista, isto é, rejeita, em princípio, qualquer teoria baseada na maioria de votos, que implique a ideia de que o líder do movimento se degrada à posição de cumprir as ordens dos outros. Nas pequenas como nas grandes coisas, o movimento baseia-se no princípio da indiscutível autoridade do chefe, combinada com uma responsabilidade integral. (p.288)

A concepção racista não admite, em absoluto, a igualdade das raças e sente-se no dever de promover a vitória dos melhores, dos mais fortes e exigir a subordinação dos piores, dos mais fracos. (p.308)

Não pode aprovar a ideia ética do direito à existência, se essa ideia representa um perigo para a vida racial dos portadores de uma ética superior.(p.308)

Os princípios políticos do partido em formação devem ser como os dogmas para a religião. (p.309)

Não passara pela ideia de ninguém que essa piolheira judaica, que, no Oriente, fala o alemão, só por isso deve ser vista como de ascendência alemã, como pertencente ao povo alemão. (p.312)

A condição essencial para a formação de uma humanidade superior não é o Estado, mas a raça. (p.313)

A paz do mundo não se mantém com as lágrimas de carpideiras pacifistas, mas pela espada vitoriosa de um povo dominador que põe o mundo ao serviço de uma alta cultura. (p.315)

Deve-se providenciar para que só pais sadios possam ter filhos. Só há uma coisa vergonhosa: é que pessoas doentes ou com certos defeitos possam procriar, e deve ser considerada uma grande honra impedir que isso aconteça. (p.319)

A rapariga deve conhecer o seu cavalheiro. Se a beleza física não se ocultasse hoje, completamente, sob as vestes da moda idiota, a sedução de centenas de milhares de moças, por judeus bastardos, de pernas tortas e desengonçados, não seria possível. Está também no interesse da Nação que se chegue à formação de corpos perfeitos, a fim de se criar um novo ideal de beleza. (p.323)

A missão de um Estado nacionalista é a de se esforçar para que seja escrita uma história do mundo em que a questão racial seja o problema dominante. (p.328)

O Estado nacionalista racista deve resumir o ensino intelectual, reduzindo-o ao que é essencial. Só depois disso é que se oferecerá a possibilidade de uma educação especializada, sobre bases sólidas. (p.328)

A educação deve ser orientada de tal modo que um jovem, ao deixar a escola, não seja um pacifista democrata ou coisa que o valha, mas um verdadeiro a alemão, na mais ampla acepção da palavra. (p.330)

Realizações criadoras só podem surgir quando se dá a aliança do saber com a capacidade. (p.331)

Deve partir do princípio de que a prosperidade do género humano nunca é devida às massas, mas às cabeças criadoras, que, por isso, devem ser vistas como benfeitoras da espécie. (p.340)

Todas as grandes modificações históricas foram devidas à palavra falada e não à escrita. (p.356)

A força vital de um povo, o seu direito à vida manifestam-se da maneira mais impressionante, no momento em que esse povo recebe a graça de um homem que o destino reservou para a realização das suas aspirações, isto é, para a libertação de um grande cativeiro, para a supressão de amargas dificuldades. (p.374)

Não devemos ter a mínima dúvida de que o inimigo mortal , inexorável, do povo alemão é e será sempre a França. (p.432)

O judeu é hoje em dia o grande instigador do absoluto aniquilamento da Alemanha. Todos os ataques contra a Alemanha, no mundo inteiro, são da autoria de judeus. (p.434)

...os defensores da ditadura universal judaica... (p.441)

Seja qual for o destino que o céu nos reserve, hão-de reconhecer-nos pelo nosso altivo programa. (p.456)

Entre outras passagens mais extensas e mais complexas, este livro condensa em si todo o pensamento desse homem que depois veio a ser o responsável máximo pelo holocausto. A história está escrita e não adianta querer reescrevê-la. Não haverá nunca espaço para qualquer epifania ad hoc e qualquer tentativa nesse sentido será sempre num modo self-service e sem futuro. Este não é um livro de ódio, como tantas vezes foi e é nomeado, ou pelo menos, não é um livro apenas de ódio, pois para quem o conhece e leu, são vários os sentimentos que nele se encontram, tais como a xenofobia, o racismo, a soberba, a ignomínia, o ego e o etno-centrismo, a inveja, o narcisismo e a eugenia. Enfim, um livro de horrores.
A sua leitura permite também perceber a debilidade autoral, pois não é preciso ser um conhecedor ou um estudioso para encontrar alguns erros históricos e uma propensão para a análise superficial e para o julgamento ou valorização rápida.
Apesar de tudo e com o estigma ou com o carisma, dependendo do ponto de vista, do seu autor, percebe-se a transformação deste livro num objecto de culto, veneração e admiração, ou por outro lado, num objecto maldito e interdito.
No fim fica a profunda convicção que tudo aqui vertido é o resultado de uma mente doente, de um indivíduo com um enorme complexo de inferioridade e com uma imensa inveja da cultura judaica e do indivíduo judeu.

25 setembro 2016

finais de Verão, prefácios de Outono

lavagem de roupa suja

Depois de vários dias a ser notícia, a ser excomungado e vilipendiado, depois de vários opinadores da nossa praça terem dito e escrito tudo e mais alguma coisa sobre o novo livro de José António Saraiva, hoje fui surpreendido com uma cópia em pdf desse mesmo livro, que me chegou via email de um amigo, com o seguinte aviso: "evitar lucros". A minha primeira atitude, como que instintiva, foi eliminar o email, mas depois, reflectindo um pouco, fui recupera-lo ao caixote do lixo do gmail. Não sei se o vou ler ou não, mas em todo o caso, parece-me estúpido corroborar toda a crítica já produzida sem sequer saber do que se trata. Está devidamente guardado no computador, numa pasta chamada "leituras adiadas" para um dia destes, talvez, ser lido.

reflectir sobre territórios rurais

Nesta semana que passou, talvez 4ª ou 5ª feira, João Ferrão em entrevista ao Jornal de Notícias, reflecte sobre os territórios do interior do nosso país e, em particular, sobre as regiões do Norte de Portugal. Uma reflexão que importa trazer para a agenda política e que urge solucionar...

13 setembro 2016

história ou historicismo

No passado Sábado, dia 10 de Setembro, Pacheco Pereira na sua crónica semanal no jornal Público escreveu sobre a noção do Tempo e as diferentes perspectivas políticas desse factor como regulador de regimes e estados, assim como sobre o uso e o abuso do historicismo como fundamento e justificação para a imposição de austeridades e ajustamentos no presente, ou seja, o frequente hábito de ir ao tempo passado, seleccionar determinados momentos ou episódios e realizar um paralelismo entre esse pretérito e a situação experimentada no presente. Um erro e uma deturpação, considera Pacheco Pereira e eu não podia estar mais de acordo. Aliás, sempre me fez muita confusão a permanente necessidade de justificar, por exemplo, a crise que vivemos nos últimos anos, à luz da crise de 1929; ou estabelecer um paralelismo entre o tempo da geringonçae o tempo do PREC; Não faz qualquer sentido, nem histórico, nem social, nem económico, pois a montante de cada um desses momentos estiveram causas distintas, contextos diversos. Uma coisa é conhecer a História e saber interpretar os seus factos à luz de uma determinada época, outra é rasgar o Tempo e, sem critério e em modo self-service, trazer para o presente tudo e mais. Regressando ao texto de Pacheco Pereira, ele escreve: O tempo do Senhor D. João VI, do conselheiro Luciano de Castro, de D. Carlos, de Afonso Costa, de Salazar, de Delgado, de Marcelo Caetano, do 25 de Abril, de Otelo, de Mário Soares, mesmo já de Sócrates, não é o nosso tempo e é preciso muito cuidado para os paralelismos, a não ser como boas metáforas.
Mas o seu texto diz muito mais e é um excelente documento para a desconstrução dos paradigmas inventados e impostos nos últimos tempos em Portugal e na Europa. Por esta razão, incluo o texto na íntegra para que o possam ler e, quem sabe, para que possam aprender alguma coisa.

12 setembro 2016

mediascape: extermínio das praxes

Foi notícia na última semana, mas a mim passou-me despercebida e só agora a conheci, que Manuel Heitor, actual ministro do ensino superior, enviou carta às instituições de ensino superior exortando-as a não reconhecerem as comissões de praxes e outros órgãos que as regulam e propondo um outro modelo de recepção para os novos alunos.
Finalmente, alguém responsável e com o poder executivo nessa tutela tem a coragem de ir mais além do que a mera condenação das praxes. Que este possa ser o primeiro momento da decapitação de tal aberração que são os rituais das praxes académicas nas nossas universidades, escolas e institutos superiores.

10 setembro 2016

partilhar uma pequena satisfação

Pela primeira vez e desde hoje tenho livros da minha autoria à venda na Feira do Livro do Porto. No stand nº 68 daTraga-Mundos - livros e vinhos, coisas e loisas do Douro Património Mundial, livraria do amigo António Alberto Alves. Pronto, era só isto. Obrigado.

08 setembro 2016

bonita avenida das tílias

É sempre com enorme prazer que visito a Feira do Livro do Porto, mas desde que ela se mudou para a Avenida das Tílias, nos jardins do Palácio de Cristal, esse prazer é acompanhado por uma tranquilidade que nos envolve e nos obriga a demorar. A organização deste evento não teria encontrado na cidade do Porto outro lugar tão excepcional para esta realização.
Decidi visitar a Feira ontem porque me pareceu que o dia, mais fresco, era propício para poder andar para trás e para a frente entre livros. Assim foi, acompanhado pela filha e sem qualquer pressa, stress ou confusão, pude visitar cada um dos cerca de 130 expositores e conversar com alguns deles. Claro que há sempre muito e variado para se comprar, mas os meus olhos recaem sempre para os alfarrabistas que lá vão e que têm sempre tanta coisa que eu gostava de trazer para casa.
Ainda que não tenha regressado de mãos a abanar, nem, por outro lado, carregado de livros, trouxe estes cinco que em baixo as capas reproduzo. Para o ano haverá mais.

31 agosto 2016

mediascape: privado falido

Enquanto vou assistindo ao processo de destituição de Dilma Rousseff no Brasil, faço zapping e apanho as notícias das 18 horas e uma peça sobre um colégio ou escola privada - Arcorensis, cooperativa de ensino, em Vila Praia de Âncora, que tendo vivido às custas dos contratos com o ministério da educação, vai encerrar as portas por falta de financiamento e já não abre neste início de ano lectivo, o que deixou surpresa em toda a comunidade escolar local.
Excelente exemplo daquilo que estava errado no antigo modelo de atribuição de subsídios do Estado, pois bastou este fechar a torneira para o dito colégio privado pura e simplesmente fechar as portas, ou seja, era totalmente dependente do financiamento público. São casos como este paradigmáticos do rentável negócio do ensino em Portugal e que importa denunciar por todo o país. Nunca esteve em causa a existência de oferta privada no ensino, mas sim todas as situações de fraude e de total subsídio dependência.
Agora no ensino, num futuro próximo na saúde. Assim seja.

mediascape: impeachment brasileiro

Fui acompanhando à distância o processo de destituição da Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, ao longo dos últimos meses. Agora que o processo chegou ao fim e o Senado está a votar a destituição definitiva e o impedimento de ocupar cargos de eleição durante oito anos, acompanho, através da Globo News, essas votações e seus debates. Dilma foi condenada e perdeu o mandato com uma votação de 61 votos a favor e 20 contra. Está consumado o golpe. Sim, trata-se de um autêntico golpe de estado. É inacreditável como, sob um discurso e um ritual que obedece às regras e aos princípios democráticos e republicanos, um bando de corruptos e criminosos engravatados derrubam uma Presidente honesta e democraticamente eleita. Ouvir os senadores brasileiros que, sem vergonha e curvados pelo peso de tantos indícios de fraudes e crimes, se permitem ajuizar a presidência da República, é perturbador e demonstrativo da podridão ética e moral que atravessa a elite política brasileira. Lamento muito. Um país com as potencialidades do Brasil não consegue libertar-se das amarras e dos estigmas do terceiro mundo, ao qual parece estar destinado a pertencer eternamente.

12 agosto 2016

a falta que me faz

Nas horas que antecedem a partida para aquilo que toda a gente denomina de férias e que para mim, espero, possam ser horas, dias e semanas de algum descanso, leituras e algum trabalho de campo, ocorre-me a falta que sinto do café Lexinho. Há dois, talvez três anos a família resolveu fechar definitivamente a antiga taberna, agora café, deixando-me órfão de lugar para estar e socializar na pequena aldeia, que apesar de não me ter visto nascer, é a ela que eu me sinto pertencer.
O Lexinho, alcunha do seu proprietário, o Sr. Mário dos Santos, entretanto falecido, era uma personagem peculiar, reconhecido negociante e conhecido por toda a região. Amigo do seu amigo, era um conversador nato e contador de histórias inacreditáveis e caricatas. Quando o recordo lamento não ter conversado mais com ele, não ter aproveitado a sua fantástica memória e sabedoria. Enfim.
A taberna para onde eu diariamente ia, onde eu estava e onde toda a gente me conhecia, era o meu lugar em Vila Boa no Verão, no Natal, Carnaval e Páscoa, assim como em muitos fins-de-semana. Mais tarde, por razões maiores, só a espaços ia à aldeia, mas foi lá que passei as melhores tardes de Domingo, à conversa ou, de preferência, a jogar à Blota - jogo de cartas importado há muitas décadas e adaptado pelos locais, jogado com baralhos de cartas espanholas. Recordo também os finais de tarde em que regressando da escola de Vinhais onde leccionava, me sentava na sua pequena esplanada a beber cerveja e a contemplar o horizonte a poente e a conversar com os poucos que apareciam ou passavam.
Agora só pontualmente vou à aldeia e para além de visitar um ou outro familiar, recolho-me em casa e por lá fico nas brincadeiras com os miúdos ou nas minhas actividades de sempre. Com tristeza a aldeia perde centralidade na minha vida e essa nostalgia que me acompanha, relembra-me sempre como o tempo passa célere e como as referências, apesar de todas as distâncias, se mantêm. Faz-me muita falta esse lugar.

10 agosto 2016

mediascape: país que arde e toda a gente vê

Anda o país a arder e estamos todos muito preocupados com a situação. Vivemos nos últimos dias sob um céu de fumo que se vai estendendo por todo o país. As imagens desses incêndios são sempre impressionantes, mas aquelas que ontem, e ainda hoje, nos chegam da Madeira são dantescas e aflitivas. Como é possível?
Bem sei que em tempo de guerra não devemos desviar a atenção que deve e tem que estar toda concentrada no combate aos fogos e na salvaguarda das vidas humanas e dos seus bens, mas na verdade não podemos deixar de questionar: Como é possível?
Sabemos todos, sabe o Estado e suas instituições, sabem as corporações de bombeiros, sabe o Governo e seus elementos que este é um fenómeno cíclico e que, por estes meses, todos os anos, aqui, ali ou acolá estas coisas acontecem. Portanto, o país deveria estar equipado e preparado para dar resposta a estas situações.
Depois, temos a questão da floresta e aí não basta ao Primeiro Ministro dizer que temos que requalificar a nossa floresta. Para além de ser uma verdade, não é em tempo de crise que se fazem afirmações dessas, pois não passam de um mero recurso discursivo do politicamente correcto. O ordenamento do território, a gestão dos recursos florestais, a selecção das espécies de árvores e da flora são assuntos que requerem planeamento, tempo e muito dinheiro. Algo que já deveria estar feito há muito tempo e continua por fazer. Para além disto, o cadastro das propriedades e a sua limpeza é outra das premissas a ter em conta nesta requalificação, pois em cada imagem que nos chega dos cenários a arder, podemos identificar circunstâncias e caracteres altamente inflamáveis e pasto para as chamas dentro das localidades e à volta de cada habitação. Como é possível?
Os incêndios e os fogos são uma indústria forte em Portugal (assim como, provavelmente, noutros países), e que sempre funcionou e foi gerido de uma forma obscura. Os negócios que se fazem, os valores que se envolvem e as pessoas que com isso lucram, é tudo desconhecido dos portugueses, pois esses cartéis vivem sob o lema do voluntariado dos bombeiros e da simpatia do povo para com os seus heróis que, muitas vezes, dão a vida nessa luta. É por isto, também, que me revoltam as campanhas de solidariedade que surgem sempre nestes momentos, com peditórios de água, leite e alimentos para os bombeiros. Caramba, o Estado nem isso consegue fornecer às corporações? Como é possível?
Mais duas questões: porquê é que os fogos continuam a ser combatidos por "voluntários" e não por profissionais? e, porque é que não se podem utilizar meios aéreos no combate às chamas durante a noite?
No fim, sou e estou solidário com todos os homens e mulheres que dão o corpo ao manifesto e enfrentam a besta do fogo; estou e sou solidário para com todos aqueles que perdem os seus familiares e os seus bens.

08 agosto 2016

rotas e gastas, que raio de moda

Não consigo perceber o sentido estético ou a beleza que as pessoas, nomeadamente as mulheres, encontram nas calças rasgadas ao longo das pernas. Ainda mais me custa perceber como é que elas conseguem gastar euros, por vezes muitos, a comprar calças já rasgadas. Claro que nada tenho com isso e cada um faz o que quer com o dinheiro e cada um tem o seu gosto e sentido estético, mas a confusão no meu cérebro é real e justificada pela memória que teima em recordar-me o conceito de roupa nova, ou se preferirem, a ideia de comprar roupa nova. Não é birra de idade adulta ou má vontade, é mesmo uma questão de racionalidade e de bom senso.
Não será preciso recuar muitos anos ou décadas para encontrarmos aquilo que acontecia com a maioria da roupa e o cuidado que ela merecia por parte de quem a vestia ou comprava. Comprar ou usar roupa nova significava usar peças impecavelmente bem feitas, sem qualquer defeito e com garantia. Aos olhos desse tempo, as peças de hoje têm todas defeito e não são passíveis de qualquer garantia por parte dos fabricantes, pois já estão acabadas, rotas, descosidas e afins. É a perversão completa dessa ideia. Por outro lado, essa mesma memória leva-me até ao tempo em que as nossas mães e avós, viviam agarradas à linha e agulhas ou à máquina de costura para coser e recoser a roupa, para fazer remendos, para tentar dar longevidade às peças que teimavam em desgastar-se.
Esta questão ganhou relevância na minha vida a partir do momento em que a adolescente que lá tenho em casa começou a olhar para essas calças e a dizer que também gostava de ter calças assim. Claro que não, disse eu. Nem pensar em gastar dinheiro em calças já gastas e todas cortadas. Não faz sentido e fere-me a memória. Uma coisa são as calças que naturalmente se vão gastando e depois poderão ser utilizadas para mostrar pedaços das pernas, outra coisa é investir em roupa rota e gasta.
Não e não.


sempre, sempre, a luta

Justiça seja feita ao Jornal Público que não esquece a questão do Acordo Ortográfico e mantém a luta pela defesa da língua portuguesa. Este artigo é do dia de ontem, dia 7 de Agosto.

05 agosto 2016

apenas miúdos


Não sendo um conhecedor da obra de Patti Smith, foi com entusiasmo e avidez que li em pouco mais de 24 horas o seu livro "Apenas Miúdos". Neste seu primeiro livro em prosa, ela guia-nos pela sua memória ao longo da sua infância e, principalmente, ao longo do final da década de sessenta, setenta e oitenta. Através da sua escrita sensata é-nos dado a conhecer Nova Iorque e suas transformações: as suas ruas, cantos e recantos, lugares vividos e espaços experimentados. Num discurso na primeira pessoa, Patti Smith reconstrói o seu crescimento enquanto mulher e artista e dá-nos a conhecer a cena musical e artística e muitos dos personagens que povoaram Nova Iorque daquela época. Só no fim do livro nos confidencia a sua verdadeira motivação: prometera a Robert Mapplethorpe (na foto), o seu companheiro de "viagem" e também artista visual, quando este estava a morrer, que um dia escreveria a história da caminhada que juntos fizeram.
Tenho para ler o seu mais recente livro, "M Train", mas vou deixar para mais tarde. Partirei agora para outros e ainda desconhecidos universos.

03 agosto 2016

01 agosto 2016

aí está ela, a luta...

saber popular

Diz a sabedoria popular, pelo menos aquela que habita e conhece essa realidade, que é nas três primeiras noites do mês de Agosto que as castanhas germinam nos castanheiros. Para tal acontecer, o ideal é que as noites sejam calmas, com ou sem luar, mas sem humidade e sem vento. Se assim for a colheita estará assegurada e, lá para Novembro, podem esperar-se dias e dias de apanha e grande estafa. Assim seja.

falta de vergonha

Inadmissível o comportamento da empresa Metro do Porto que, nos dias um de cada mês, dia em que maior parte dos seus "clientes" recarrega os passes e os andantes, transforma as suas vidas num caos. Não é o primeiro, nem o segundo mês, é já um comportamento habitual, em que as máquinas existentes nas estações do Metro não aceitam dinheiro, ou não aceitam cartão, ou não aceitam moedas, ou não aceitam notas, ou não dão troco, ou seja, tornam impossível o recarregamento dos passes e andantes. Claro que mais logo ou amanhã já estará tudo a funcionar em pleno.
Trata-se de uma verdadeira e inqualificável falta de respeito para com os utentes e utilizadores do serviço de metro, numa atitude bem característica das empresas que vivem com o monopólio ou a exclusividade nos seus sectores. Haja alguém (administração) com vergonha e que normalize a situação.

30 julho 2016

ler e gostar, muito

Está escolhido e eleito o texto do número sete da revista Granta portuguesa. Acabada de ler, o melhor ficou quase para o fim, isto porque é meu hábito lê-la do fim para o princípio, excluindo o Editorial. O texto "Quando em meu mudo e doce pensamento", de Tiago Rodrigues (desconhecido até então para mim), arrebatou-me os sentidos e remexeu-me os sentimentos. Pelo fio da navalha, somos levados alternadamente por um actor em palco, uma conversa com George Steiner, uma aldeia do Portugal remoto e a poesia de Shakespeare. Bonito, intenso e arrebatador. Mais uma forte razão para continuar a comprar e ler a revista Granta. Sempre boa. Nunca mais é Novembro.

29 julho 2016

21 julho 2016

mediascape: caixa de pandora


Hoje, no jornal Público, o acto primeiro de algo que degenerou até chegar à vergonha actual. Digo eu.

15 julho 2016

baú da memória XIII

Hoje entrei no café Mon Ami em Vila Nova de Gaia, depois de mais de vinte anos sem lá ir. Apesar da sala ser a mesma, tudo está diferente daquilo que guardo na memória desse café, desde a disposição da sala (mesas e cadeiras), empregados, balcão, serviço, movimento, clientela, gerência, etc., apenas o quiosque lá se mantém mais ou menos como o recordo no canto direito, junto à entrada e em frente à escadaria que dá acesso ao primeiro andar.
Pedi uma bebida e lá estive numa contemplação comparativa e retrospectiva com o início da década de noventa, altura em que quase diariamente lá ia, lá estava e lá ficava. Nesse tempo, em que era apenas estudante e em que não tinha carro, nem sequer carta de condução, e me deslocava de autocarro entre casa e as escolas que frequentava em Gaia - a Escola Profissional de Soares dos Reis e a Escola Secundária Almeida Garrett, e as muitas horas de espera pelo transporte que eram passadas no Mon Ami à conversa com colegas e amigos, ou sozinho a ler. Recordo bem as noites de sexta-feira, em que comprava e lia o saudoso semanário Independente e delirava com a perspicácia e acutilância de Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas, assim como me deliciava com as boas francesinhas que lá havia. Depois, o regresso a casa no último autocarro da noite, o da uma da madrugada. Mas também era lugar de rotinas a horas diversas, de comprar o jornal, beber um café, dar duas de letra, jogar no totobola e comprar tabaco. Lugar de encontro e de celebração, várias vezes participei em almoços e jantares lá organizados.
Um lugar, no verdadeiro sentido da palavra, ou seja, usado e experimentado pelas pessoas. Agora, agora não sei como vive. Desconfortável não me senti, mas já não é a mesma coisa.

chegou-me há dias

"No elevador de um hotel em Macedo de Cavaleiros. 
Muito bom gosto..."

(recebido há dias no email e proveniente de um aluno amigo)

01 julho 2016

para os dias de veludo que se aproximam...

palavras razoáveis e certeiras

Na última revista LER, que por falta de tempo, ando a ler muito devagar e a espaços, Maria do Rosário Pedreira, editora e poetisa, fala sobre a sua vida e, essencialmente, sobre livros e edição. Porque já a leio há muito tempo, visito regularmente o seu blogue, li com atenção as suas palavras e reconheci-me em muitas delas...

Acredito que haja um público que se interessa por poesia. Acho é que há menos público para a literatura em geral porque se minou a edição com livros que não valiam nada e se educou o gosto por uma bitola muito baixa e é muito difícil trazer essas pessoas que estão habituadas a esse tipo de livros para a verdadeira literatura,  que exige atenção, esforço, concentração, cultura, exige uma data de coisas que hoje os leitores provavelmente não têm. E isso é que é problemático.
(...)
Isso hoje é que não se faz nas escolas. Duvido que numa escola primária os miúdos leiam poemas a sério. Devem ler as quadrilhas dos livros infantis, da girafa e do elefante, mas não sei se se dá, hoje em dia, às crianças poesia a sério. Mesmo que não compreendam tudo, é importante.
(...)
Não consigo desistir desta minha vontade de dar visibilidade a quem tem talento. Não posso demitir-me da minha responsabilidade de publicar uma pessoa que pode fazer a diferença e ser lembrada daqui a muitos anos. Embora fosse mais fácil para mim, para fazer os meus números, fazer livros maus de pessoas conhecidas. Mas não é isso que me move. O que me move é aquilo que pode ficar. Obviamente, só daqui a 50 anos é que saberemos se estes autores novos que foram lançados já no século XXI ficaram, mas eu gostava que alguns ficassem. Sei que não acontecerá com todos. 
(...)
O que eu gostava é que as pessoas lessem um livro e o livro não fosse mal escrito, não fosse estúpido, não fosse manipulador, que também há, como aquele tipo de "literatura Paulo Coelho", que é sobretudo manipuladora porque aquilo nem sequer está mal feito mas é horrível, as pessoas vão atrás daquilo.
(...)
O que mais me irritou nestes últimos anos foi a quantidade de gente que se convenceu de que era mais importante pagar uma dívida externa do que alimentar os filhos. Isto irritou-me muito porque acho que é mais importante dar de comer a quem tem fome do que pagar a conta ao merceeiro. Claro que é importante não fazer dívidas, mas há coisas que acho que estão acima de outras. 

mediascape: ar abençoado

Já tinha ouvido falar deste novo produto associado a outras geografias, mas agora chegou até nós e mais em concreto até Fátima (só podia). Há gente sem qualquer escrúpulo. Vender latas com "ar sagrado" de um qualquer lugar é vender latas vazias ou cheias de nada. Mais me impressiona é haver quem acredite neste logro e pague três euros por algo que não existe. O ar ainda é de todos e não se paga para respirar. O aproveitamento da fé e da crença das pessoas, principalmente daquelas menos esclarecidas, é algo que não deveria ser permitido. Aliás, a Igreja deveria intervir e impedir que sob a influência do seu santuário Mariano houvesse charlatães a vender a banha da cobra.

30 junho 2016

pois é, a literatura

Bem escreve Francisco José Viegas na última LER.

26 junho 2016

mediascape: resultados eleitorais

No final desta noite de Domingo, sentado em frente à TV e com o IPAD no colo, assisto com alguma amargura aos resultados das eleições espanholas e às diferentes reacções dos líderes dos partidos. Confesso, tinha alguma espectativa em relação ao resultado da coligação Unidos Podemos, que juntou Podemos e Esquerda Unida. Ainda ontem de manhã tive a oportunidade de ouvir, em Lisboa, uma intervenção de Miguel Urbán, representante dessa coligação, e gostei das suas palavras, da sua energia e dos seus planos. O resultado agora conhecido não pode deixar de ser considerado uma desilusão, principalmente porque PP não só vence, como reforça o número de mandatos.
Entretanto, e ao procurar mais informações sobre estas eleições constato que os canais informativos nacionais estão mais interessados, preocupados e ocupados com o futebol e com as ronaldices. O muito que está a acontecer nos diferentes países europeus e nós enebriados com a bola, com os boleiros e com os intelectualeiros do costume.
Por falar em eleições ou referendos, em jeito de adenda ao texto anterior, como foi interessante verificar e convenientemente registar, que todos aqueles que agora se indignaram com a escolha livre do povo britânico em abandonar a UE, são os mesmos que nos últimos dois anos se fartaram de condenar e apoiar a expulsão da Grécia da mesma União. A hipocrisia desta gente, sem vergonha nas palavras e nos processos de intensão, é gritante e vergonhosa.

23 junho 2016

brexit or not

Hoje decide-se muito do que será a União Europeia e a própria Europa no futuro. Os Ingleses são hoje chamados, em referendo, para decidirem se ficam ou saem da União. Eu espero, porque ainda assim quero acreditar que é possível alterar o desmando europeu actual, que eles permaneçam, mas seja qual for o resultado ao final da noite, para a Europa nada será como até aqui. Aguardemos pelo veredicto soberano do povo de Sua Majestade.
Entretanto, a pergunta que hoje se coloca, já há muito estes senhores colocaram, e bem...

22 junho 2016

J. Rentes de Carvalho e os meus alunos

Não sou professor de literatura, nem de qualquer outra disciplina relacionada. As minhas aulas são, como um destes dias um novo aluno qualificou, mais ou menos filosofia e, por isso, muito aborrecidas. Tratando-se de jovens e, alguns, menos jovens adultos, as matérias leccionadas permitem-me questionar e espicaçar as suas mentes, de uma forma que, tendo em conta as suas expressões faciais e verbais, os seus espantos e as suas incompreensões, muitas vezes a mim próprio me surpreende.
Em Epistemologia, na tal que muitos consideram como um ramo da filosofia, o objectivo é que se perceba o que é a Ciência, o que não é Ciência e ainda o que é a pseudo-ciência, assim como distinguir os diferentes tipos de conhecimento em duas grandes tipologias: senso comum e científico. Pois bem, este último semestre e para grande surpresa minha e sem me recordar a que propósito, dei comigo a tentar passar a mensagem da importância da literatura para o (re)conhecimento das diferentes épocas históricas, para a importância etnográfica das descrições dos lugares e ambientes e para a mais-valia dos diálogos e das suas personagens para a localização temporal e espacial das mesmas. A determinado momento fui interpelado por um aluno que me perguntou por autores portugueses que eu considerava exemplares dessa importância literária. Apresentei alguns autores e destaquei, como poderão adivinhar, o nome de J. Rentes de Carvalho. Nem uma daquelas almas reconheceu este nome. Escrevi-o no quadro e alguns, num esforço de associação, perguntaram-me por títulos da sua obra. Indiquei três ou quatro, dando destaque ao último: "Meças", ao primeiro: "Com os Holandeses" e ao primeiro que li: "Ernestina". Nada.
Passados uns dias, o nome de J. Rentes de Carvalho era presença assídua nas minhas aulas e livros seus circulavam pelas mãos de alguns alunos. Um deles, já no fim do semestre, ao falar comigo em privado, pediu-me para lhe dar conhecimento de visitas deste autor à região do Porto, pois gostaria de assistir a alguma sessão de apresentação ou lançamento de obra sua. Ficou registada a vontade e a promessa de assim acontecer.

uma aldeia francesa


Foi com alguma curiosidade que vi o primeiro episódio, algures em Março, desta série que nos transportou para uma pequena povoação fictícia francesa - Villeneuve, durante a ocupação nazi, entre 1940 e 1945, na segunda guerra mundial. Na verdade, gostei tanto do que vi que fiquei agarrado à trama construída para as diferentes personagens e à ficção histórica que, apesar de ter privilegiado determinados momentos ou períodos históricos, fez uma representação muito interessante do quotidiano dos diferentes intervenientes - boches, colaboracionistas, milícias, comunistas, informadores, resistentes e demais movimentos, assim como da restante população que viveu nesse tempo. Acabei por assistir a todos os 60 episódios, cujo último passou ontem (21 de Junho) no canal 2 da RTP. Excelente série que poderão rever episódio a episódio na RTP Play.

17 junho 2016

mediascape: a europa e a barbárie

Dirão alguns, ou muitos outros, que a barbárie nunca chegou a abandonar a Europa, ou mesmo o mundo inteiro. Dizem inclusive que ela faz parte da condição humana. Não sei quem tem razão, mas consigo perceber que existe um sentimento crescente de tolerância perante as manifestações que vão acontecendo um pouco por todo o lado e, em particular, na Europa.
Hoje, enquanto viajava, ouvi num noticiário da TSF que uma deputada trabalhista britânica, Jo Cox, foi assassinada enquanto participava numa acção de campanha do referendo sobre o famoso "brexit". Incrédulo e tentando perceber todos os pormenores sobre o caso, fui reflectindo sobre a violência visivelmente crescente que temos vindo a experimentar. Mais, reparemos na actualidade do nosso continente e na sequência dos factos, momentos, eventos, catástrofes e crimes que nos assaltam diariamente os sentidos. Se nos conseguirmos afastar emocionalmente e distanciar de todos e cada um dos casos conhecidos, tentando uma perspectiva à posteriori, como que num filme relativo a uma época histórica passada, verificaremos como a Europa, depois de tantas décadas de paz, tranquilidade e algum sossego social, vive a ferro e fogo, num estado de guerra latente, se não mesmo eminente. Hoje foi mais um episódio que um dia fará parte desse filme, mas o triste é sabermos isso mesmo, que foi só mais um episódio e que amanhã será um novo dia. A Europa está ferida, séria e dolorosamente ferida, quiçá, de morte.

14 junho 2016

mediascape: futebol sitiado


Em pleno Europeu de Futebol, disputado em França, e ao qual pouca atenção tenho dispensado, têm-me chamado a atenção os distúrbios diários provocados pelos adeptos dos diferentes países nas várias cidades francesas e os discursos mediáticos, dos especialistas do costume, sobre essa violência associada ao futebol e ao movimento hooliganista.
Como simples espectador, é com incredulidade que tenho visto algumas dessas imagens que nos chegam de França, mas é com maior espanto que ouço os tais especialistas afirmarem com uma certeza absoluta a origem da mesma. Não vos parece estranho haver distúrbios e violência em praticamente todos os jogos, independentemente da cidade anfitriã e dos países envolvidos?! Os adeptos de todas as selecções foram para França para guerrearem os adeptos dos outros países?! Eu não sou especialista, nem sequer percebo nada sobre o fenómeno hooligan, mas não me parece lógico, ou sequer razoável, pensar assim e aceitar tais justificações. Longe de ser adepto de conspirativas teorias, sempre posso dizer que considero que algo de mais sinistro estará na origem deste fenómeno e algum movimento instigador estará interessado e a beneficiar com a confusão gerada.
O Europeu de Futebol é um evento que também contribui para a nossa cultura, para a nossa identidade enquanto Europa, enquanto civilização. Estes actos de desestabilização e de intranquilidade poderão ser um instrumento ao serviço daqueles que querem destruir o edifício europeu, ou ao serviço daqueles que não toleram o nosso modo de vida ocidental. Aguardemos pelos próximos episódios diários.

09 junho 2016

a bem do mundo

Hillary Clinton garantiu, finalmente, a sua nomeação para candidata à presidência dos EUA pelo partido democrata. Fico, acima de tudo, descansado com essa nomeação, pois a alternativa não me dava garantias de conseguir vencer o terrível e mais que provável candidato republicano. Simpatizo com o discurso de Sanders, mas não me parece que a nação, as suas estruturas e diferentes poderes aguentassem um presidente com tais propostas. Fico descansado também porque o mundo não suportaria um presidente estúpido e analfabeto como Donald Trump. A bem de todos nós, Hillary Clinton deverá ser a próxima Presidente dos EUA.

08 junho 2016

Verão na LER no Verão

Foi, na sua essência, um instante urbano, aquilo que me sucedeu hoje, pois fui ao quiosque sem saber que a revista já saíra e, sem reparar, coloco a mão precisamente nela e começo à sua procura pela prateleira fora, sem reparar que estava com ela na mão. Não fora a minha filha avisar, teria regressado sem ela. Face à estranha capa, não admira que não a tenha reconhecido. Mas gosto da capa.

mediascape: territórios surpreendentes


Hoje, dia 7, no Jornal de Notícias, António Covas, professor da Universidade do Algarve e especialista dedicado aos assuntos da ruralidade em Portugal, escreve sobre esse interior rural e as suas variadas territorialidades e potencialidades. Para lermos e reflectirmos sobre esse vasto e rico território.

05 junho 2016

a festa em Serralves

Tal como temos feito nos últimos anos, hoje foi dia de visitar e passear pelos magníficos espaços da casa de Serralves, naquilo que é já um marco na cultura da cidade do Porto e mesmo do país. Serralves em Festa são quatro dias de participação, de liberdade e de democracia na utilização do recinto da Fundação Serralves. Para além de um lugar onde eu muito facilmente me sentiria em casa, a adesão da população a esta iniciativa representa bem o sucesso da festa. Hoje, para além dos habituais passeios pelos diferentes jardins da propriedade, parámos algum tempo no Prado para assistir a duas sessões da actuação da OGBE - orquestra de guitarras e baixos eléctricos (Casa da Música), na qual participa o puto Ramon.
Ainda a propósito da casa e restante propriedade, devo admitir que, sempre que a visito, sem esforço me imagino a ali viver e a considerar que poderia lá viver toda uma vida sem sentir necessidade de sair para o exterior. Devaneios meus.


04 junho 2016

estimadas e quejandas farpelas

Nunca gostei de estragar roupa, muito menos, estragar roupa que gosto de vestir e com a qual me sinto confortável. Para além disto, não sou pessoa de desgastar muito a pouca roupa que vou tendo. É por isso que, com amargura, anuncio que dei cabo de duas estimáveis indumentárias que me acompanharam ao longo da última década. Vesti hoje, pela última vez, duas peças que muito prezava. Parece conversa de tolinho, mas não é. É conversa de quem fez asneira e deu cabo de roupa que muito gostava. Alguém dizia que o algodão não engana, mas eu talvez dissesse que é a lixívia quem nunca engana e sempre, sempre, mas sempre, impõe a sua força e a as suas tonalidades.
Idiota que sou, dou comigo a tentar colocar-me na pele desta roupa que agora irei desprezar e, às tantas, transformar em panos e farrapos para todo o serviço... Quando, hoje bem cedo, se viram arrancadas do armário jamais imaginaram que seria a sua última vez e que estariam a viver os últimos momentos da sua utilitária e, acima de tudo, estética existência. Pronto.

30 maio 2016

faz sol na minha terra

Circula na internet esta dedicatória a José Cid. Parece-me apropriada. Não sei é se todos compreenderão o que aqui é dito...

mediascape: quem não sente não é filho de boa gente

Polémica das últimas horas: José Cid, numa entrevista a Nuno Markl no Canal Q, ter-se-á referido aos transmontanos como "pessoas medonhas, desdentadas".
Tal como seria de esperar, numa sociedade mediatizada e de consumos instantâneos e efêmeros, as redes sociais explodiram em reacções tão parvas como as palavras que as originaram.
Claro que como transmontano também não consigo ficar indiferente a tal provocação, mas também quero dizer que as ditas palavras dirão sempre mais sobre o caracter de seu autor do que do povo e de cada indivíduo transmontano. Ao mesmo tempo, é interessante verificar com basta vomitar qualquer estupidez para os holofotes do mediatismo recuperarem todos os proscritos da fama e do mainstream nacional. Assim, José Cid consegue regressar ao palco e ao lugar que julga seu.
Esvaziemos o autoclismo e passemos à próxima polémica.

27 maio 2016

até que enfim...

Para as próximas horas de algum descanso, que passarei para lá do Marão.

o tempo que passa

Todos nós teremos dias em que estamos mais susceptíveis à dimensão do tempo. Normalmente, em dias de nomeada ou de diferentes celebrações. Pois bem, para mim e já há alguns anos, esse tempo que passa por mim, ou se preferirem, esse tempo pelo qual eu passo, manifesta-se de forma bem marcante. Experimento por estes dias as angústias dessa passagem. Nada que me derrote, mas que me vai desgastando e agastando.
Ao olhar em redor, apercebo-me da indiferença generalizada que o tempo que passa merece e como alegremente se vão celebrando e festejando os ciclos que se fecham nas vidas outras. Tudo isso faz cada vez menos sentido para mim, mas gostaria muito de nem sequer pensar nisto e de, apenas e só, brindar ao que já foi e ao desconhecido que aí virá. Talvez fosse mais fácil.

23 maio 2016

a ler


Mais um excelente ensaio da Fundação Francisco Manuel dos Santos, desta vez sobre o turismo em Portugal. É o número 63 da colecção.

13 maio 2016

a quem interessar...


Uma iniciativa interessante, necessária e contemporânea. O que fazer com os territórios da raia luso-espanhola é uma questão central para a reestruturação desses territórios e à qual seria bom dar resposta efectiva e eficaz. Não é fácil, mas o debate impõe-se. Gostava de poder estar presente.

07 maio 2016

mediascape: aí está, a luta a crescer

(in Jornal Público, 7 Maio 2016)

finalmente, A4 mata IP4

(fotografia retirada da capa do jornal Público, 7 Maio 2016)

Com a sua inauguração e abertura agendada para as zero horas deste Domingo, o túnel do Marão conclui todo o trajecto da auto-estrada número quatro. Foram nove anos de longa obra, foram mais de vinte anos de desastres e mortes estúpidas nesse enorme monte, conhecido pelas gentes locais como o gigante Marão. Finalmente, podemos decretar a morte do IP4 e, se por um lado, não foi justo traçar a auto-estrada por cima do traçado desse itinerário principal, por outro lado, o custo em vidas humanas jamais será saldado.
Viajei muito pelo antigo traçado, conhecia-o como a palma das minhas mãos e sou ainda capaz de o reconstruir mentalmente. Assisti a alguns momentos dramáticos, umas vezes de longe e em filas intermináveis, outras vezes de muito perto e com muita sorte. Eu próprio tive problemas nesse traçado, nomeadamente, no cimo do Marão, perto da Pousada, quando no Natal de 1995, era eu ainda um jovem condutor, um outro menos jovem, que seguia no mesmo sentido, adormeceu ao volante e veio para cima de mim, provocando o despiste dos dois automóveis. Felizmente, sem danos físicos, mas com um processo em tribunal que durou quase dez anos. Sobrevivi ao IP4, conheci algumas pessoas que não tiveram essa sorte. Também é nelas que penso neste momento e pensarei quando atravessar pela primeira vez esse túnel.
Serve o presente para manifestar a minha satisfação pela conclusão desta obra e, em simultâneo, decretar a morte do IP4, pois não pretendo mais circular nesses poucos quilómetros que sobreviverão. A viagem entre o Porto e Bragança, centenas de vezes outrora realizada pelas nacionais e pelos IPs, passará a ser realizada com outra tranquilidade, outro conforto e rapidez. Das mais de cinco horas que demorava, encurtaremos a distância entre as duas cidades para menos de duas horas e isto sem cometer crimes de velocidade. Brutal.

mediascape: aí está, a luta revigorada

(in Jornal Público, 6 Maio 2016)

questão essencialista


No dia em que actua em Portugal a banda australiana AC/DC, partilho algumas questões sobre as polémicas que têm sido veiculadas sobre a vida desta banda e, mais recentemente, sobre a substituição do vocalista Brian Johnson por Axl Rose, ex-vocalista dos Guns n'Roses. Tal como aconteceu já com outras formações, também os AC/DC têm sofrido na pele as consequências da sua já longa longevidade, naquilo que são as capacidades físicas e psicológicas dos seus membros. Sempre foram uma formação muito susceptível e instável na sua constituição, mas eis alguns factos que, nos últimos anos, foram publicamente conhecidos sobre os seus elementos:
O afastamento definitivo do guitarrista Malcom Young por problemas mentais (demência), os problemas com a justiça de Phil Rudd (baterista) que levaram à sua saída dos AC/DC e o risco de surdez total de Brian Johnson, que o afastam dos palcos, obrigando à sua substituição por Axl Rose. Portanto, neste momento, da constituição base, ou pelo menos, daquela que mais tempo fez parte da banda, apenas actuam Angus Young (guitarrista solo) e Cliff Williams (baixista).
Esta última polémica sobre a escolha de Axl Rose para substituir Brian Johnson nas actuações ao vivo, traz consigo a dúvida sobre a continuidade da banda. Aliás, as questões que suscito nestas linhas serão, face ao já exposto, estruturalmente essencialistas. Numa perspectiva estruturalista, tal como os seres vivos, também as organizações têm um estrutura, naquilo que poderemos definir como um conjunto de relações existentes nesse conjunto e que permitem determinada invariância, e que se estabelece por níveis de organização. Assim, neste caso particular, aquilo que deverá ser questionado é se essa invariância se mantém ou foi destruída. Para tentar ilustrar o que pretendo afirmar, trago uma analogia com um caso clássico:
«O navio com que Teseu e os jovens de Atenas retornaram de Creta tinha trinta remos e foi preservado pelos atenienses até o tempo de Demétrio de Falero. Removiam as partes velhas que apodreciam e colocavam partes novas. O navio tornou-se motivo de discussão entre os filósofos relativamente às coisas que crescem: alguns diziam que o navio era o mesmo e outros diziam que não era». (Plutarco)
Tal como na analogia importa questionar: continuarão os AC/DC a existir? A banda que hoje actua em Lisboa são os AC/DC ou será apenas uma actuação de dois dos seus membros sob a sua marca registada e globalizada? Para além de todos os interesses financeiros e comerciais implicados, parece-me muito interessante esta reflexão e não a reduzo à simples substituição do vocalista. Por outros lado, sou levado à especulação sobre a existência ou não de um qualquer projecto musical que tenha sobrevivido à vida de todos os seus elementos fundadores. Assim de repente, não me recordo de nenhum caso, mas pode ser que exista. Recordo, igualmente, outros casos de bandas extintas que, por motivações várias, regressaram mais tarde e já depois do desaparecimento de alguns dos seus membros, para actuações pontuais ou tournées.

06 maio 2016

mediascape: ensino público vs ensino pseudo-privado

No dia em que a Assembleia da República debateu o despacho do Ministério da Educação que restringe o financiamento de colégios com contrato de associação, reflectindo um pouco sobre o assunto, começo por declarar que, por princípio, nada tenho contra a existência e o sucesso do ensino privado, mas também por princípio, acredito que compete ao Estado garantir uma rede de ensino público com qualidade e de acesso universal por todo o território nacional. Percebo que o Estado sinta a necessidade de contratualizar com entidades privadas de ensino, algumas áreas de aprendizagem específicas e que a escola pública não consegue oferecer ou satisfazer, como por exemplo o ensino artístico, o ensino especial e o ensino técnico/profissional, mas não posso aceitar que toda a estrutura de ensino em Portugal esteja a ser desviada para as entidades privadas, substituindo e num processo de degradação da rede de escola pública. O ensino privado significa que eu tenho que pagar para o poder frequentar e aprender. Foi, é e será assim, e bem. Eu, se quiser e/ou se puder pagar, tenho a liberdade de escolher a escola ou universidade privada para a minha formação. Assim fiz, sou um filho do ensino superior privado, mas fui eu que paguei a minha formação e não o Estado, é assim que deve ser, porque se assim não fosse estaríamos a perverter todo o sistema.
A escola pública é do Estado e compete-lhe a ele cuidar dela. O ensino privado, apesar do serviço público que presta, não deixa de ser negócio e carece do factor lucro para se manter de portas abertas. Não pode ser o Estado a garantia da sua manutenção.

instante urbano xxxvi

Hoje foi manhã de tratar de algumas burocracias e papeladas administrativas pendentes. Uma delas foi a renovação da matrícula da minha criança no ensino pré-escolar público. Aguardando a minha vez de ser atendido, fui ouvindo a conversa daqueles que, à minha frente, iam sendo atendidos. A todos eles - mães, pais e encarregados de educação, durante o preenchimento do formulário de matrícula online, lhes foi perguntado se eram ou não católicos. Como pode o Ministério da Educação da República Portuguesa incluir num seu processo administrativo essa informação? Qual o interesse, ou melhor, qual a necessidade para o Estado ter essa informação? Qual a relação entre o ensino básico - laico, republicano, democrático e universal, com a religiosidade de cada indivíduo e família? Significará um tratamento diferenciado das crianças? Significará uma tentativa da Igreja de controlar o ensino público?
Em 2016 nada disto faz sentido e eu senti-me muito incomodado. Como o meu filho ainda não vai frequentar a Primária a questão não me foi colocada, mas ainda assim não pude deixar de questionar a simpática funcionária, que me respondeu que essa informação estava relacionada com a frequência da disciplina de Religião e Moral e que elas, funcionárias e a própria escola, apenas tinham que preencher todos os campos do formulário que lhes aparecia no computador. Gostaria de ver esta questão esclarecida.

mediascape: de novo, a luta, revigorada

Aproveitando as declarações do Presidente da República, no âmbito da sua visita a Moçambique, acerca do Acordo Ortográfico e da sua implementação e qualidade, o debate em Portugal sobre o mesmo reabriu, e ainda bem. A ver vamos se, de uma vez por todas, se mata este aborto, pouco ou nada desejado pelos portugueses. O jornal Público concedeu ontem (5 de Maio) algum espaço a este debate e o seu editorial foi-lhe exclusivamente dedicado. Fica aqui esse editorial, excelente texto que bem aborda o problema.