22 janeiro 2017

lançamento apurriar (2007-2017)

Aconteceu ontem, dia 21 de Janeiro, a partir das 17 horas, o lançamento do livro apurriar (2007-2017). Foi um momento muito bom e de convívio com todos e todas que fazem parte do meu universo e mais alguns amigos. Como não consegui perspectivar todo o evento e porque o meu repórter fotográfico nem sequer conseguiu ligar a máquina, estou a solicitar a todos aqueles que foram tirando fotografias que mas enviem para poder ficar com esses registos e para, também, as poder ir partilhando aqui. Ainda que venham a ser bem mais, deixo aqui alguns instantes, entretanto, já recolhidos.
Agradece o apurriar e agradeço eu aos que fizeram o favor de estar connosco.
Obrigado.




























(agradecido pelas imagens a: Ana Seixas, Cristina Pimentão, Ricardo Vale, Luís Silva e Rui Batista) 

20 janeiro 2017

lembrete

Porque vai acontecer já amanhã, relembro todos, e todas, que serão muito bem-vindos. Dizem que vai ser espectacular e, por isso, apenas por isso, eu vou lá estar. Dizem.

19 janeiro 2017

boicotar leitura

Apesar de acreditar que são necessários e fazem mesmo parte da nossa vida em comunidade, não tenho por hábito partilhar e solicitar boicotes ou manifestações. Eu aceito-os, subscrevo-os e participo neles, mas serão sempre coisas minhas. Também, por muito que me custe, boicotar a leitura, apenas isso, a leitura, é algo que me repele, mas neste caso não posso estar mais de acordo e assim farei. Aliás, já o fiz há algum tempo e aqui dei nota disso, não estou arrependido. Como não existo no universo facebook, roubo o texto do blogue Entre as brumas da memória, solicitando aos meus parcos, mas excelentes amigos que, por empatia ou simpatia, leiam o apelo de Mário de Carvalho e assim procedam. Agradeceremos todos. 

«Possuo cerca de 5000 amigos no FB. Não conheço a maioria, mas, para terem aqui apostado, benevolentemente, é porque são gente de bem. Eu venho então, assim confiado, solicitar-lhes uma coisa que uma já longa convivência consente: POR FAVOR, DEIXEM DE COMPRAR O PÚBLICO. O jornal foi abastardado, transformou-se numa tarjeta panfletária de interesses muito localizados, muito desmascarados, muito à mostra. Todo um fingimento descaradamente foleiro. Não há, a nenhum respeito, a menor confiança naquilo. Um cartaz ou uma pichagem («Vivam os nossos amados patrõezinhos, mai-las suas opiniões!») resolvia-lhes o servilismo, escusavam de tanto aparato de letras e bonecos. Menos 5000 leitores, eu sei, significa pouco. Basta que o engenheiro beneficiário suba o preço de alguns iogurtes e estará compensado. Mas o sentimento de deixarmos de andar enrolados numa farsa, encenada por gentalha menor, também compensa não?» Mário de Carvalho

16 janeiro 2017

aparências

À porta do jardim infantil, cruzo-me com uma criança que vai, pela mão da avó, a caminho de casa. Sem grande cerimónia, dirige-se a mim nos seguintes termos:
- Olá.
- Olá - respondo eu a sorrir.
-Tu és o avô de quem?
Não segurando uma gargalhada, respondi:
- Sou o pai do Rodrigo.
- Não és o avô?!... Então adeus.
- Adeus.

12 janeiro 2017

um estranho

Há cerca de um mês que a minha criança tem vindo a manifestar um comportamento estranho quando está em casa, não querendo que estejamos todos juntos numa mesma divisão da casa, obrigando-nos a estar em espaços diferentes durante o jantar, enquanto brinca e mesmo quando vai dormir. Esse comportamento só se manifesta em casa (nossa ou dos avós) e tem estrangalhado os nervos aos pais e demais familiares, assim como tem rebentado com qualquer tentativa de estarmos em família. Ainda que as consultas com os especialistas estejam já marcadas, a estratégia tem sido tentar perceber o que se passa e procurar devolver-lhe a paz e a tranquilidade no espaço que deveria ser, por excelência, seguro e calmo. Está nos livros que as crianças passam em idades distintas por períodos de maior melindre. Dizem que os cinco anos é uma dessas idades de medos variados, nomeadamente, da morte. Eu e a mãe lá vamos fazendo perguntas sobre os receios que o sobressaltam, mas ele não tem colaborado, até que hoje, quando a mãe lhe pediu para desenhar a causa do seu medo, ele desenhou este boneco, dizendo que tem medo que este estranho entre em casa...

10 janeiro 2017

reza por mim

- Reza por mim Luís Miguel.
Foram estas as últimas palavras que lhe ouvi, deitado no seu leito e consciente do que o esperava. Com a vida a fugir-lhe e numa agonia sofrida, nada mais me disse. Guardei desse derradeiro momento o seu olhar, negro e profundo, mas ao mesmo tempo vago, a caminho de um vazio eterno. Aproximei-me e, debruçando-me sobre ele, despedi-me com um beijo no rosto. Nada mais disse.
Esse Natal, recordo, foi particularmente frio, o que nos obrigava a permanecer dentro de casa e por bem perto do lume. Em casa o ambiente, como seria expectável, era taciturno, ao contrário da agitação, ruído e confusão que, normalmente, acompanhavam os dias de férias e de descanso. O silêncio, apenas entrecortado pelas dores de meu avô, reinava. A única agitação que se fazia sentir era a dos filhos e filhas que, tentando acudir ao pai, se revezavam nas vigílias às horas todas de cada dia. Estranhamente, não consigo localizar a minha avó por esses dias...
Entretanto, o regresso ao Porto e às rotinas quotidianas, no início de Janeiro, impuseram um relativo distanciamento daquela situação terminal, mas não foram precisos muitos dias até sermos confrontados com a notícia da sua morte. O meu avô João morreu assim, ladeado pelos filhos, neste dia dez de Janeiro, faz hoje vinte anos.

09 janeiro 2017

perspectiva de Appadurai

Por manifesta falta de tempo, aproveitei os dias de descanso do final do ano passado para actualizar grandes e pequenas leituras que se foram acumulando ao longo dos últimos tempos. Uma delas foi a entrevista do antropólogo cultural Arjun Appadurai ao P2 do Jornal Público, realizada por Alexandra Prado Coelho, no dia 18 de Dezembro de 2016.
Tendo estado recentemente em Portugal, orador convidado para as comemorações do 25º aniversário da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica de Lisboa, Appadurai, nascido na Índia e a viver nos EUA, onde lecciona Media, Cultura e Comunicação na Universidade de Nova Iorque, falou acerca da sua perspectiva sobre a actualidade mundial e, em particular, norte americana.
Sobre a vitória de Donald Trump nas últimas eleições este antropólogo refere que existiu um hiato entre a passagem de ridículo a real, que foi rápido, e a capacidade de análise e interpretação que não foi assim tão rápida. Para além do choque inicial, há que perceber o que se passou, entender a coligação de muita gente diferente que se criou em torno de Trump... éuma coligação da maioria branca que ultrapassa as divisões de classe e, de certa forma, até de género. Coligação de gente ressentida, desapontada e zangada com as políticas de Obama e cépticas em relação ao liberalismo. Para além disto, houve um grupo de pessoas que odiava o facto de ter um negro à frente do país.
O grande mérito de Trump, diz Appadurai, foi conseguir ligar duas mensagens bem distintas: a mensagem sobre a América e o mundo com a mensagem sobre os brancos na América, o que resultou em algo do género, vamos tomar conta disto outra vez, e a América vai tomar conta do mundo outra vez.
Outro problema identificado por Appadurai foi o desconhecimento por parte dos média e do universo mediático e académico da América profunda, dando o exemplo dos media tradicionais que são mais liberais, assim como muitas das pessoas que marcam o debate público e que estão protegidos desse mundo real e desses sentimentos da população; outro exemplo dado é o das universidades, onde pouco se sabe sobre a vida religiosa dos cidadãos norte-americanos e quando 80% destes são profundamente religiosos. Mas este pensador ainda identificou outro problema, que foi a tendência que existe para muita gente associar os liberais com uma ideia de elite e não uma ideia de massas. Diz Appadurai: o liberalismo não pode ser apenas uma posição por defeito. Tem de ter uma qualidade que se assemelhe ao espírito revolucionário em França.
Em relação a Bernie Sanders afirma que havia aí um verdadeiro potencial e que a verdade é que nos EUA existe uma longa história de medo de alguém que soe como um socialista, pois esta palavra está demasiado próxima do comunismo... Sanders fez um trabalho magnífico ao tornar a mensagem socialista séria e respeitada. Mostrou que se pode criar um movimento sem se ser um demagogo, falando apenas a verdade. Mas foi uma oportunidade perdida.
Por falar em verdade, quando questionado sobre a "pós-verdade", Appadurai refuta a ideia actualmente criada de que se vive num mundo da "pós-verdade", em que tudo se tornou imagem, opinião e perspectiva e tudo não passa de uma batalha de imagens, preferindo ser mais insidioso, ao afirmar que as más notícias estão sempre a empurrar as boas. As más movem-se mais rapidamente.Levanta a questão de como podem as visões liberais, de inclusão, de não violência, ganhar alguma força, face ao desafio retórico sobre como usar os meios de comunicação de massas para mobilizar o sentimento liberal.
Há um padrão global que avança para um mundo mais populista, afirma o autor, reforçando esta ideia com alguns exemplos de líderes de países importantes que têm exercido o seu poder de forma autoritária e populista, tais como na Rússia, na Turquia, na Hungria, nas Filipinas e agora nos EUA. Isto é tanto mais importante quando as questões das soberanias nacionais se deslocou da economia para as questões da identidade e da cultura nacional. Para estes líderes populistas que querem controlar o Estado é muito mais fácil dizer que o jogo está no debate sobre a censura, comportamentos sexuais, direitos das mulheres, minorias e questões de pureza étnica.
Regressando aos EUA e à sua actual situação, Appadurai relembra que aí sempre houve um fascínio pelos homens ricos e de sucesso. É a terra das oportunidades de uma forma extrema e totalmente individualista. É a terra onde equidade significa que pessoas como Trump devem ter uma oportunidade para fazer negócios e dinheiro, e equidade significa que todos devem tentar e que alguém irá ganhar. Justiça significa que não devemos todos estar a lutar.
Aborda também as questões económicas, alertando para a transferência do capital das manufacturas e da indústria, dos bens e dos serviços, para a troca de instrumentos financeiros, o que transforma radicalmente a economia, não havendo escassez e possibilitando uma acumulação de capital sem fim... a dívida é o nosso principal trabalho hoje. Fazemos dívida para que outros possam monetarizar sobre ela.Termina esta entrevista dizendo que temos que encontrar a fórmula de nos apoderarmos desses instrumentos financeiros e de os democratizar. O risco faz parte das nossas vidas de qualquer forma - só que há outras pessoas a transformá-lo em dinheiro. Porque é que não podemos ser nós?

Adenda: o conceito de mediascape, que eu adaptei e uso aqui no blogue, é um conceito de Arjun Appadurai, retirado precisamente da sua obra de referência "Dimensões Culturais da Globalização", que eu li em contexto de mestrado, mas que me tem servido de referência em vários momentos e contextos.

assim sendo...

08 janeiro 2017

gato morto

Aqui está um novo projecto musical muito interessante, digo eu. Para além do mano mais novo, o puto Ramon, que aqui toca as guitarras, o gato morto é constituído ainda pelo Elísio Donas (Ornatos Violeta) no piano e teclas e pelo Paulo Franco na bateria. Ainda que quase de relance, podemos ver o Lopes, o grande Carlos Lopes, a produzir qualidade. Para ouvir bem alto e esperar pelo que há-de vir.

07 janeiro 2017

Mário Soares

Morreu Mário Soares.
Morreu a figura principal da democracia portuguesa, o principal responsável pelo país que hoje somos, o ideólogo do percurso que a sociedade portuguesa seguiu, pelo menos, nos últimos quarenta anos. Independentemente de concordarmos ou não com aquilo que fez e aquilo que disse, ao longo da sua extensa vida pública e política, não restarão dúvidas da sua centralidade nos momentos de decisão e nos meandros do poder. Morreu a figura maior do nosso país, livre e democrático, e acaba de nascer um vulto da nossa história que figurará por muitas gerações na nossa memória colectiva.
Mário Soares nunca mereceu a minha simpatia, nunca me senti confortável com o seu discurso, nunca fui um soarista, nem sequer algum dia votei nele, mas isso não me impede o reconhecimento, a referência e o respeito pela sua vida, pela sua intervenção cívica e política. A primeira recordação que tenho dele é a campanha de 1985 e do seu slogan: Soares é fixe.
Morreu o badochas e, apesar de expectável, este é um dia triste.

04 janeiro 2017

mediascape: masturbação

Hoje foi notícia (aqui) a pretensão de um deputado federal brasileiro criminalizar a masturbação. Eu, perante tal dislate, não sei se ria ou se chore! Mas posso estar enganado, pois face ao que tem sido o passado recente deste mundo, eu ando completamente desfasado da realidade, ou seja, aquilo que eu dou como adquirido pela civilização, afinal não é assim tão consensual e hegemónico, muito pelo contrário, diz apenas respeito a uma pequena minoria.
O que me irrita a tiróide em notícias e factos deste género é haver segmentos da sociedade, normalmente associados a religiões ou com ligações a movimentos religiosos e suas intangíveis morais, que considera que pode regulamentar e ajuizar aquilo que são os costumes, hábitos e práticas dos cidadãos. O seu conservadorismo no que diz respeito aos costumes é obtuso, obsoleto e com cheiro a naftalina, uma vez que regressam sempre a este discurso moralizador do que deve e não deve ser a conduta íntima e pessoal de cada indivíduo. Era o que mais faltava que alguém, que não eu, me impedisse a masturbação. O corpo é meu e o prazer daí obtido será apenas meu, pessoal e intransmissível. Não percebo o incómodo.
Para ser intelectualmente honesto, eu até considero que o mal de muitos indivíduos (gajos e gajas), com quem me cruzo por aí, é a falta de prazer, de satisfação sexual e de libertação da sua libido, ainda que num formato "a solo". Tal como cantavam os Ena Pá 2000: Masturbação para o bem da Nação... (era mais ou menos isto).
Força nisso!

depois de muito esperar, aqui está ela, a LER


Nem no blogue, nem na página do facebook, se encontra a referência a este novo número. Não sei o que se passa, mas para desgosto meu, parece que cada vez é mais difícil publicar a LER.

01 janeiro 2017

a paz como ambição

António Guterres iniciou hoje oficialmente o seu mandato como Secretário Geral das Nações Unidas e no seu primeiro discurso deu ênfase àquilo que poderá, deverá, ser a sua prioridade, a paz. A paz a nível global, regional e local. Grande ambição. Assim seja.

m train

As últimas horas de 2016 e as primeiras de 2017 foram passadas a ler o que faltava do livro M Train de Patti Smith. Já em Agosto escrevi sobre a sua escrita, quando a propósito da leitura do seu outro livro Apenas Miúdos. Apesar de se tratarem de ambientes - espaços e tempos - distintos, percebe-se uma coerência existencial, uma continuidade na escrita, nas reflexões e na sua visão do mundo. Se o primeiro livro me surpreendeu, este apenas veio confirmar a autora como uma excelente escritora. Entre um e outro percebe-se uma evolução ontológica, naquilo que é o processo do seu amadurecimento e de uma certa paz com o seu mundo, de relativa aceitação pelo destino pessoal. Desconheço o resto da sua obra literária, mas gostaria de ler mais e de conhecer o resto do seu universo. 

31 dezembro 2016

à la palice

Acabo de receber um email com a seguinte pergunta: comeu demasiado no Natal?(apresentam depois umas dicas para se emagrecer ou recuperar desse excesso...)
Eles não querem que eu responda, mas eu respondo, aqui:
Não! Não comi. No Natal eu como sempre é pouco, muito pouco. Natal é dia de fome para mim e a única dica que eu daria, para evitar excessos, seria: não comam.
Simples e barato.

30 dezembro 2016

ad eternum, ou melhor, ad nauseam

Não sou comprador, nem sequer leitor, desta publicação. Muito de vez em quando, lá me vem parar às mãos e, então aí, folheio-a e leio com atenção e interesse um ou outro cronista. A edição cuja capa aqui reproduzo é bem paradigmática das razões pelas quais eu não a leio... Até quando vão repetir a receita? E os ingredientes? É que todos os anos são sempre os mesmos! Para além de estarmos fartos de saber as suas opiniões sobre tudo e mais alguma coisa, fica a sensação de que estas personagens nos acompanham desde sempre e até sempre e, na verdade, já estamos nauseados.

28 dezembro 2016

o regresso aos cromos

A minha criança, há cerca de dois meses, trouxe do jardim infantil uma caderneta de cromos do campeonato nacional deste ano 2016/17. Achou piada e quis fazer a colecção. Eu, confesso, também lhe achei piada e, nostálgico da idade em que fiz inúmeras colecções, passei a comprar-lhe quase diariamente algumas saquetas de cromos. Estão caros! Todos os dias, ou quase, o ritual de abrir essas saquetas de 6 cromos e ver se faltam ou são repetidos, tornou-se hábito cá em casa. Agora, com a caderneta quase completa, tornou-se mais difícil conseguir cromos novos e, ao contrário do que aconteceu na minha meninice, não há por perto com quem trocá-los. A maravilha da internet permitiu-me descobrir vários fóruns e sítios onde se podem trocar cromos de toda a espécie e qualidade - novos, velhos, nacionais, internacionais, entre outros - e cá ando eu todo satisfeito a traficar cromos, em encontros previamente combinados, ou através dos CTT. A verdade é que só já faltam vinte ou trinta cromos para completar a caderneta e não vamos parar até o conseguir.
A minha criança completará assim a sua primeira caderneta, que eu com cuidado guardarei para um dia lha entregar. Eu, tal como noutras situações esperadas na vida dos miúdos, cá ando entretido e divertido com os cromos e a reviver tempos idos.

26 dezembro 2016

panóptica do eu

(primeiras linhas do que está já em produção)
Dez anos, aqui e agora, vertidos em textos. Sinto este volume como uma transparência que permite tudo ver e perceber. O panóptico está aqui, através dele, quem quiser, poderá ver-me a mim, translúcido e desmascarado, às vezes eufórico, outras vezes cáustico, nem sempre optimista, mas sempre crítico. Será, em todo o caso, um bom retrato meu.

22 dezembro 2016

alheado e obcecado

Decisão com algum tempo de vida, esta de me manter, confortável e sossegadamente, afastado da torrente informativa e noticiosa que nos empurra numa vertigem cronológica. Alheado então desse abismo contemporâneo, tenho vivido as minhas horas e dias a fazer o que mais gosto, tranquilo e apenas obcecado pelo cumprimento dos prazos estabelecidos e combinados. Assim, não só os dias crescem, como a produção é mais rentável, possibilitando ainda outros prazeres que, por pudor relativo a todos os meus amigos e amigas que labutam das "9 às 6", me abstenho pronunciar. Por outro sim, importa salientar que neste findar de mais um ano civil, as perspectivas para o novo e próximo ano são muito interessantes e, para ser verdadeiro, nada me é mais catalisador do que perceber que não tenho, ou terei, tempo útil para o tudo que tenho em mãos. Por outro não, talvez seja melhor não estar para aqui com esta atitude de cigarra e regressar ao modus faciendi da pequenina formiga.
Não sei, talvez, há quem diga que sim. Fui.

12 dezembro 2016

regresso da luta, agora com força...

"No dia em que aceitarmos de olhos fechados situações que ferem a nossa inteligência, o senso comum e a tradição científica, não estamos a cumprir as nossas obrigações." (Artur Anselmo in Jornal Público)

Hoje ainda regressarei a este assunto. Vou comprar o jornal Público, pois a entrevista dada pelo Presidente da Academia de Ciências de Lisboa é muito importante para o futuro da língua portuguesa.

(em actualização)

10 dezembro 2016

palestra de Manuel Castells

Esta tarde foi dedicada à conferência que Manuel Castells veio proferir, por convite da Câmara Municipal de Gaia, às Conferências de Gaia, realizada nas Caves Ferreira. Não tendo grande expectativa, nem sendo um seu leitor atento, na medida em que os assuntos sobre os quais versa não me excitam a amígdala, havendo esta oportunidade para o ouvir ao vivo, aproveitei.
A conferência versava sobre "uma cidade inteligente num mundo global e em rede" e, de facto, Manuel Castells é um entendido globalizado dessa conexão em rede que é a sociedade actual. Num tom agradável e, a espaço, com sentido de humor, apresentou a sua perspectiva sobre as sociedades actuais e de futuro, relevando a importância da conexão dos territórios, das instituições e dos indivíduos, alertando para o facto de o futuro estar já captado ou colonizado por aqueles que conseguirem manter-se em rede. Sua visão é, aqui, radical, afirmando que só existem duas possibilidades: ou estamos conectados e sobreviveremos, ou estamos desconectados e seremos dispensados pelos processos globalizantes.
O que percebi, estando perante um "guru" à escala mundial destas matérias, é que a sua perspectiva, a sua opinião, o seu pensamento, estão perfeita e completamente dominados e ajustados pelos paradigmas vigentes e, foi curioso, no período final de perguntas, terem sido várias as questões colocadas sobre a dimensão humana relacionalmente: as implicações deste novo habitat no ser humano; onde fica o Ser ontológico, etc. e ele, habilmente, não deu resposta directa a nenhuma dessas questões, afastando-se de qualquer perspectiva humanista da sociedade.
Relembrando aquilo que foi o seu percurso, o seu brilhante percurso académico até ao estrelato, hoje pude confirmar como evoluiu o seu pensamento, desde os primeiros tempos em que questionava o sistema, os paradigmas e os dogmas, numa atitude que poderíamos considerar anti-sistema, até à actualidade em que se percebe nitidamente o seu à-vontade nos meandros dos poderes, sistemas e instituições do mainstream liberais e capitalistas, naquilo que é a sua apologia da tecnologia, dos sistemas de informação e das redes comunicacionais.
Hoje fiquei a saber que para este ilustre pensador não há possibilidade de existência, não haverá possíveis futuros sem ser em rede, sem ser em permanente e eterna comunicação. Para além de não aceitar este determinismo, acredito que poderemos sempre estar e viver desconexados, desligados da rede. É ainda uma questão de opção.

08 dezembro 2016

desaparecimento


Este era e é, mas vai deixar de ser, o meu whisky predilecto. Um dos manos andava à sua procura e em nenhum lugar o encontrou, nem qualquer explicação para o seu desaparecimento. Apenas em garrafeiras gourmet e em leilões na net se encontram garrafas destas. Ao comentar comigo eu não reconheci essa dificuldade, nem aceitei os preços que ele me apresentou por garrafa (cento e muitos a duzentos e tal euros). Nem pensar, disse eu, pois recordo-me ter comprado deste whisky abaixo dos cem euros. A explicação surgiu hoje. Esta marca acabou, ou faliu, ou foi vendida, e, por isso mesmo, só se encontra o que estava em stock nos pontos de venda e, agora, com preços altamente inflaccionados. Lamento profundamente.

06 dezembro 2016

a quem interessar...


Eu vou lá estar. Quem estiver interessado poderá inscrever-se gratuitamente até amanhã, 4ª feira, através do seguinte email: conferenciasdegaia@cm-gaia.pt

01 dezembro 2016

constatação

Alguém que ocupa um lugar público por nomeação e não apresenta declaração de rendimentos, nem quer apresentar, manifesta uma profunda desconsideração pelo Estado. A atitude do presidente demissionário da Caixa Geral de Depósitos é ofensiva para todos nós. Um indivíduo destes jamais deveria ter ocupado um cargo público, pois não quer saber, nem acredita no Estado. Boa viagem.

ecos de uma entrevista

A propósito do colóquio sobre Monsenhor José de Castro que já aqui publicitei, enviei para publicação no jornal Mensageiro de Bragança e para a Voz Portucalense este pequeno contributo sobre a oportunidade e o valor deste iniciativa (fica aqui em primeira mão):

"
No próximo dia 9 de Dezembro a diocese de Bragança-Miranda e a Câmara Municipal de Bragança vão homenagear Monsenhor José de Castro, figura maior do clero e da cultura nacional. Nesse dia, e no âmbito dos 50 anos do seu falecimento, vai ter lugar um colóquio subordinado ao estudo da sua vida, obra e pensamento. Tendo tido conhecimento desse evento através deste jornal (edição de 24 de Novembro), não posso deixar de me associar à iniciativa, pois considero que este ilustre bragançano nunca mereceu por parte das autoridades locais e regionais as devidas honras e considerações, se não vejamos a diferença entre o reconhecimento póstumo à figura e à obra do Abade Francisco Manuel Alves, vulgo, Abade de Baçal e a perfeita amnésia colectiva em relação a Monsenhor José de Castro. Nessa edição de 24 de Novembro do “Mensageiro de Bragança” é publicada uma pequena entrevista ao presidente da Comissão Organizadora deste evento, o Professor Doutor Henrique Manuel Pereira que, de forma simples e bem explicita, se refere à ambição de recuperar para o presente o nome, a vida e, principalmente a vasta obra de Monsenhor José de Castro, possibilitando assim às actuais e às futuras gerações conhecerem o seu extraordinário legado. No fim dessa entrevista Henrique Manuel Pereira perspectiva aquilo que poderá ser o caminho certo para a recolocação de Monsenhor no lugar devido, nomeadamente através de um centro de estudos e um serviço educativo centrado na sua personalidade, ou através do estudo e reedição da sua obra, ou através da edição de textos inéditos e da realização de documentários e afins.
Na referida entrevista, historia-se o que entre nós tem merecido a memória de Mons. José de Castro, sem esquecer de louvar o esforço para a reabilitar por parte de personalidades como Belarmino Afonso e D. António José Rafael. De resto, este não é o primeiro serviço que Henrique Manuel Pereira presta à figura de Mons. José de Castro. Bastará lembrar a competente e rigorosa organização dos livros “D. Frei Bartolomeu dos Mártires e outros textos sobre o venerável” (2014) e mais recentemente “In Memoriam: Pe. Francisco Manuel Alves, Abade de Baçal” (2016), ambos editados pela diocese de Bragança-Miranda.
Das iniciativas para o futuro, avançadas na entrevista a que nos vimos referindo, sem desmerecer qualquer uma delas, merece-me destaque a vertente pedagógica, naquilo que poderá e deverá ser um serviço educativo ao dispor das comunidades escolares e, em particular, dos estudantes da região e para além dela. Será relevante, do ponto de vista educacional, cultural e até social, levar Monsenhor José de Castro até às escolas básicas e secundarias de Bragança e não só, proporcionando assim um efectivo conhecimento do cidadão bragançano, do laborioso estudioso e, não menos importante, do produtor cultural que Monsenhor foi. Importa que essas novas gerações percebam e entendam o seu contributo para aquilo que Bragança hoje é, enquanto diocese e mesmo enquanto cidade e região.
Apesar de já conhecer a figura de Monsenhor e de já conhecer parte da sua obra, o primeiro contacto sério e aprofundado com a sua obra foi no âmbito da minha investigação sobre a vida de D. Manuel António Pires, publicada em 2015. Ao analisar a sua correspondência logo percebi uma proximidade e entre ambos e, se assim poderei dizer, uma relação onde Monsenhor desempenharia um papel tutelar e até paternalista, no melhor sentido do termo, em relação ao então jovem seminarista e estudante em Bragança e Roma e, também, depois sacerdote na diocese de Bragança e bispo em Silva Porto, Angola.
Do que já conheço da pessoa e obra de Monsenhor José de Castro aquilo que mais admiro e mais me impressiona é a sua elevadíssima capacidade de trabalho, seja na investigação, seja na produção escrita e cultural. Tendo sido quem foi e tendo ocupado os lugares que ocupou, como conseguiu ele espaço e tempo para tamanha obra? Teria ele tido consciência da dimensão hercúlea do seu esforço? Teria ele tido consciência que estaria a trabalhar, não para si e para os seus contemporâneos, mas para aqueles que um dia viriam, ou seja, nós?
Estamos perante uma obra singular e que, sem dúvida, urge conhecer e dar a conhecer. Será essa a melhor forma de dignificar a sua vida e a sua memória.

Luís Vale

Vila Boa, 30 de Novembro de 2016 "

29 novembro 2016

peditório

Nunca aqui o tinha realizado, mas chegou a hora de tal acontecer.
Pois é, aproximando-se um evento editorial de substancial relevância para nós, para vós e, quem sabe, até para a própria humanidade, cabe-me, enquanto escrevente da coisa, questionar a comunidade de apurriados se alguém está interessado em patrocinar, apoiar, sustentar ou financiar o dito projecto. O pedido é extensível a familiares, amigos, amantes e afins.
Dar-se-ão alvíssaras e um forte abraço como contra-partida.
Agradece o autor e, depois, agradecerão todos os leitores.
Obrigado.

28 novembro 2016

solilóquio

Hábito meu, hábito este de me antecipar à pontualidade. Momento após momento, dia após dia, constato o facto. Sou o primeiro a chegar, sou eu que espero. Sempre.

a quem interessar...

Enquanto membro da comissão organizadora, com certeza, lá estarei.

26 novembro 2016

solilóquio

Se na contemporaneidade o comando da tv é um símbolo de poder, então cá em casa eu estou bem longe desse privilégio.

fidel castro


No dia em que sabe da sua morte, para o bem e para o mal, foi uma figura incontornável do século XX. Por motivações e atitudes questionáveis e com as quais poderemos ou não concordar, conquistou o seu lugar na história universal. Estranho é ver parte da sua população a chorar e outra a festejar.

sexta-feira negra

Para além da triste escolha na designação de "black friday" para o dia de descontos em muitas lojas e marcas que ontem aconteceu, parece-me ridículo e até ofensivo à inteligência das pessoas, se quiserem dos consumidores, apelar às suas carteiras com descontos que não são nada de extraordinário e que vão acontecendo ao longo do ano sem a etiqueta "black friday". Mais uma importação parva. Não sei se houve ou não grandes confusões e se houve ou não um volume de vendas significativo, mas irrita-me saber que mesmo depois dos muitos avisos e alertas, haja portugueses que correram para as lojas ávidos de "promoções".
Depois, ainda há a questão da desonestidade e falta de escrúpulos de muitas empresas que, previamente, inflacionam os preços para depois poderem apresentar os tais descontos fenomenais. Fica uma ilustração daquilo que pretendi manifestar.

hipocrisia à fome

Anda para aí meio país, quer dizer, anda para aí a comunicação social toda, quer dizer, anda para aí alguma comunicação social excitadíssima com a atribuição de estrelas Michelin a restaurantes portugueses. Tratando-se de gostos e de assuntos do palato, não vale a pena discutir, mas caramba, verdade seja dita, ou pelo menos corroborada, trata-se apenas da elegia à gastronomia da fome. Que tipo de sociedade se pode dar ao luxo de premiar este modo de comer, esta forma de vender refeições? Apenas e só uma sociedade hipócrita e sem a experiência ou memória da fome.

23 novembro 2016

she just want to be somewhere
and I,
I will chose to stay here, always.

21 novembro 2016

eles não vão comer tudo

Ainda dizem que não há diferenças entre a esquerda e a direita?! A Carris passou a ser da responsabilidade da Câmara Municipal de Lisboa a partir de hoje. Aqui está um exemplo paradigmático, a ser reproduzido, daquilo que deveria ser o comportamento, a atitude de um estado responsável e preocupado com o interesse do seu povo. Sim, sim e sim. Se a Carris presta um serviço público de transporte na cidade de Lisboa e arredores, porque não estar na tutela da autarquia, em vez de na mão de um qualquer privado? Se estamos a falar do interesse e da qualidade de vida dos habitantes de uma cidade como Lisboa, só tem que ser a Câmara Municipal a cuidar desses serviços. E não me venham falar do lucro, pois considero que se o serviço tiver qualidade e eficiente não terá que ter, obrigatoriamente, lucro, apenas se exige que seja bem gerido.
E ainda que possam, alguns, advertir para a proximidade das eleições autárquicas e, assim, ser esta uma medida eleitoralista, que seja, que digam, pois há inequivocamente um benefício claro e imediato para os seus utentes. Aliás, as medidas agora anunciadas promoverão a Carris e os seus serviços e atrairão novos utilizadores. Fernando Medina, actual presidente da autarquia alfacinha, anunciou hoje várias medidas e várias alterações que pretende implementar com a sua gestão na Carris. Desde logo a aquisição de 250 novos autocarros e a contratação de 220 motoristas e, depois e principalmente, o passe gratuito para menores de 12 anos e descontos para idosos, entre outras medidas. Palmas, se isto não é serviço público, se isto não é interesse público, então expliquem lá!...
A defesa do interesse da população e não do interesse de uma minoria que está habituada a comer tudo, é a atitude correcta da esquerda em que me incluo e acredito.
Muito bem feito. Muito bem.

20 novembro 2016

literato ímpar


Foi a propósito da biografia de Luiz Pacheco, sobre a qual há dias escrevi aqui, que conheci a figura de Vitor Silva Tavares, editor da &etc e conhecedor profundo do universo literário da segunda metade do século XX em Portugal. Desde então tenho andado frenético a descobrir, através dessa maravilhosa ferramenta chamada youtube, todo o material que existe onde ele intervém.
Para além de ter testemunhado os meandros da cena literária de todo esse período histórico e ter privado com os maiores nomes da nossa literatura, entre os quais Natália Correia, Mario Cesariny de Vasconcelos, Luíz Pacheco, Herberto Helder, José Cardoso Pires, Almada Negreiros e João Cesar Monteiro, entre outros, impressionou-me a perspectiva do seu pensamento, liberto das amarras e constrangimentos da indústria do livro, da sua capacidade e facilidade comunicacional e, principalmente, da sua independência e liberdade, num espírito rebelde e anarca.
Vitor Silva Tavares faleceu em 21 de Setembro de 2015 com 78 anos. Com ele acabou também o projecto da &etc que fechou portas e entregou todo o seu catálogo à Letra Livre. Façam busca pelo seu nome e vão ficar surpreendidos com este personagem singular e último testemunho de uma época maior da nossa história literária.

14 novembro 2016

ansiedade de ti

O seu nome não era Luzia, mas a vontade de a encontrar, de a descobrir por entre a gente, era imensa. A sua simples presença era insuportavelmente desejada, a dúvida permanente se estaria ou não, se iria chegar ou não, toldava os sentidos até ao momento em que, finalmente, os olhares se encontravam. Depois, depois não importava, já ali estava e tudo o resto desvanecia.

baú da memória XIV

Um sabor indeterminado, por semelhança ou aproximação, trouxe-me à memória o abominável óleo de fígado de bacalhau. Só de pronunciar ou escrever o seu nome já fico nauseado. Em criança, isto no final da década de 70 e princípio da de 80 do século XX, fui terrivelmente perseguido pela gordura desse miúdo do bacalhau com sabor aromático a banana. Para me tentarem convencer a toma-lo, os meus pais bem diziam que no seu tempo de meninice era bem pior, pois não havia o aditivo de banana, nem de nada, tomavam-no puro, mas eu nunca queria. Tinha pesadelos com ele, chorava baba e ranho para o não tomar, fazia birras do tamanho do mundo, mas nada adiantava, pois o meu pai, determinado e persuasivo, conseguia sempre enfiar-me a porra da colher pela goela abaixo.
Não sei se ainda existe e se alguém o toma ou dá às suas crianças, mas uma coisa é certa, esse óleo era mau demais, não consigo identificar um sabor pior. Naquele tempo, pelo menos à minha volta, sei que eram várias as crianças que o tomavam e todas esperneavam nesse momento.
Desconheço as suas qualidades terapêuticas, quais os princípios activos e quais as indicações médicas, mas desconfio que se tratava de uma daquelas substâncias omnipotentes que os pediatras, nos anos 70 e 80 (pelo menos), prescreviam amiúde.
Foi, bem sei, pela melhor das razões que os pais me obrigaram a toma-lo, mas o trauma foi forte e cá ficou, e a marca do seu sabor vai-me acompanhar pelo resto dos meus dias.

mediascape: primeiro estranha-se, depois não se entranha

Passada quase uma semana desde as eleições americanas e da vitória de Donald Trump, depois do choque inicial e do estado de negação, passada a ressaca, é tempo de "cair na real" e aceitar o destino que nos espera, pelo menos nos próximos quatro anos. Do muito que se tem dito e escrito acerca do futuro dos EUA e do mundo com a vitória de Trump, nada ou quase nada se aproveita e eu também não estou nada interessado em saber o que é que esses iluminados, que até ao último minuto previam, acreditavam e justificavam uma vitória da democrata Hillary Clinton, têm para me dizer.
Sintoma muito perigoso é a reacção pouco ou nada democrática de muitos que teimam em rejeitar a realidade. Manifestações de repúdio, de rejeição das próprias eleições são uma patetice e inadmissíveis para quem acredita e quer viver em estados democráticos. Podemos não gostar, podemos detestar e ter receio das políticas vencedoras, podemos até não concordar com o formato, ou com as leis que regem as eleições e que permitem que um candidato com menos votos populares do que outro ganhe e seja eleito, mas este não é o momento para se discutir essa questão. Terão todo o tempo para o fazer e sempre em relação a eleições futuras. Numa sociedade como a americana que se gaba de ser a maior democracia do mundo, não fica bem questionar ou duvidar deste resultado.
Por muito que me custe, por muito que não goste da personagem e daquilo que ela significará para o mundo enquanto inquilino da Casa Branca, ele ganhou e temos que aprender a viver com esse facto.
Estranhamos, estranhamos e estranhamos, mas depois, mesmo não entranhando, a vida segue o seu rumo.

12 novembro 2016

licor dos deuses

A confissão saiu espontânea e sem preocupação num encontro de amigos e conhecidos... jamais provara desse valioso e prestigiado vinho. A conversa divergiu e, depois, cada um de nós também seguiu o seu caminho. Passados alguns dias, o telefone toca e pedem-me para descer à rua. Sem tempo para qualquer reacção vejo-me com um embrulho no colo, que pelo formato percebo ser de uma garrafa. Nesse momento, iluminado, percebi o que estava escondido por trás de um papel manhoso e opaco. Tentei resistir à oferta, uma, duas e três vezes, mas a determinação era tremenda, fundamentada por um sentimento genuíno de amizade e consideração... seria para a celebração de uma data especial do casal.
Agora, aí está, tranquila e aguardando essa data que há-de vir e, desconfio, não irá demorar muito.

o escritor maldito


Confirmando a minha iliteracia, ou pelo menos as graves lacunas que possuo face à literatura portuguesa, seja a clássica, seja a contemporânea, a leitura da biografia de Luíz Pacheco, que apresenta o sugestivo título "Puta que os pariu", e que sôfrego li nos últimos dias, foi uma perfeita epifania. Não sendo um completo estranho, não conhecia a sua obra, nem estava consciente da sua personagem, da sua importância no universo da literatura nacional da segunda metade do século XX, do seu carisma e dos seus estigmas. Trata-se de alguém que dedicou toda a sua vida à literatura, que por opção viveu na indigência ou suas fronteiras, que abdicou do conforto do centro, do estabelecimento no mainstream literário lisboeta e preferiu sempre as margens e os seus habitantes, em nome de uma ética, de uma moral, de uma liberdade total para escrever.
Após a leitura da sua biografia percebe-se claramente a simbiose entre a vida e a obra produzida, numa atitude eminentemente auto-biográfica, em que a sua própria vida, as suas experiências e aventuras são a matéria-prima para a sua escrita. Identificado como pertencente à escola surrealista e/ou à escola abjeccionista, estigmatizado por muitos dos seus contemporâneos e pares pela implacável e feroz crítica que produzia, idolatrado por outros pela coragem, despudor e força dos seus escritos, Luíz Pacheco manteve-se fiel a esse princípio maior de liberdade (para muitos libertinagem) até ao fim.
Durante a leitura, investiguei todos aqueles que, aí mencionados, se relacionaram ou conviveram com Pacheco; vi dois documentários sobre ele: "O Libertino" e "A vida e o texto", ambos disponíveis na internet. Agora, terminada a leitura e conhecido o seu percurso, resta-me procurar, ler e conhecer a sua arte. Vou-me pôr a caminho, de imediato.

11 novembro 2016

I'm ready, my Lord *


Foi pela rádio que soube da notícia da morte de Leonard Cohen. Dia triste logo pela manhã. Desapareceu o maior entre os maiores. Morreu-me alguém muito próximo, a voz parceira de tantas e tantas horas, de tantas e tantas leituras, de muita escrita e trabalhos. Morreu aquele que sem nunca o saber, era um confidente da minha solidão, dos meus humores e das minhas incertezas.
Chorei comovido quando o ouvi pela primeira vez ao vivo, em Lisboa. Voltei a estar com ele, uns anos mais tarde, em Ourense (Espanha) e a tempestade foi a mesma. Choro agora o seu desaparecimento. Ficam-me os seus discos, a sua poesia, a sua voz inconfundível, a sua elegância e elevação. Pela vasta obra que deixa como legado, se não estou em erro, 14 álbuns de originais, que eu penso ter praticamente todos, não sou capaz de eleger qualquer canção, pois toda a obra é, como diz um amigo meu, sublime. Estou triste.

* Canta ele na canção "You want it darker", do álbum com o mesmo nome, lançado há poucos meses.

09 novembro 2016

its the end of the world as we know it

Hoje bem cedo, por volta das seis e meia da manhã, incrédulo e em negação, percebi que me enganara e que Donald Trump vencera mesmo as eleições presidenciais americanas. Muito se vai dizer, escrever e discutir sobre este momento e suas causas e consequências. Não importam, nem agora, nem aqui, mas perspectivado deste lado do Atlântico constata-se que desconhecemos por completo a sociedade americana, as suas nações, os seus ethos e seus pathos.
Em frente à TV tentei racionalizar o que estava a acontecer e da memória chegavam-me as palavras de um amigo americano que sempre me disse que os americanos são estúpidos e o título afirmativo desta canção dos R.E.M. A dúvida é se poderemos transformar, por enquanto, esse título numa dúvida ou numa questão. Veremos.


08 novembro 2016

nervoso miudinho

No próprio dia das eleições presidenciais americanas é num estado de alguma ansiedade que me encontro para saber o seu resultado final. Gostaria de estar tranquilo e confiante na inteligência dos americanos, mas não consigo, pois a mera suposição ou a mais ínfima hipótese de Trump vencer, deixa-me preocupado e expectante até ao último momento.
Na verdade e bem lá no meu fundo, porque ainda acredito no bom senso e nos valores democráticos, sei que Hillary Clinton sairá vencedora, com uma votação tranquila e com uma diferença bem acima daquilo que as últimas sondagens indicavam.
Esta vai ser uma longa noite e eu pretendo acompanhar até ao fim essas emissões, repletas de especialistas, cartomantes, adivinhadeiros e jornalistas encartados que nos entreterão madrugada dentro até à confirmação dos resultados. Como disse, estou confiante e será com horror que assistirei ao meu engano e à improvável vitória de Donald Trump. Neste possível último dia da civilização ocidental tal qual a conhecemos.
We will see.
God bless America.