23 fevereiro 2017

diálogos maiores

Encontrado, quase por mero acaso, numa feira de livros a preços reduzidos, aquilo que me despertou a atenção foi o nome de Marguerite Duras. Pois bem, por 4,90 € comprei este livro que compila cinco conversas entre a referida escritora e o então Presidente da República Francesa, François Mitterrand. Conversas improváveis pensarão muitos, e pensei eu, pois desconhecia a amizade e a longa história que este dois ilustres gauleses partilhavam, desde que a segunda guerra mundial os uniu na resistência francesa.
A estação de correios da rua Dupin, foi o título escolhido para esta edição, pela própria Duras e conta com um prefácio de Mazarine Pingeot, filha de François Mitterrand. Foi leitura das últimas horas e, uma vez mais, foi com surpresa que percebi a cumplicidade, o respeito e a amizade que se percebe a cada momento das conversas, que ocorreram entre 24 de Julho de 1985 e 16 de Abril de 1986, sendo que a primeira tem por título: "A estação dos correios da rua Dupin"; a segunda: "O último país antes do mar"; a terceira: "O Céu e a Terra"; a quarta: "África, África"; e a quinta: "A Nova Angoulême".
Mesmo tendo em conta a diversidade dos temas abordados e a frontalidade e franqueza perceptível em cada frase ou afirmação, a conversa que mais gostei foi a segunda, o último país antes do mar, que aconteceu no dia 23 de Janeiro de 1986, no Palácio do Eliseu e na qual os dois reflectem sobre o seu país, as suas qualidades, os seus defeitos, o seu ethos;e, parece-me, o seu pathos. Ao ler este diálogo pude perceber como a percepção da realidade social francesa era tão distinta da actual, ou então, como tudo evoluiu desde então e até à actualidade.


Como não poderia deixar de ser, fiz uma pequena ficha de leitura, que agora aqui partilho e onde se destacam alguns dos seus pensamentos:

[conversa: o último país antes do mar (23/01/1986)]
M.D. - A França é um país muitas vezes invadido e outras completamente invadido. (p.46)
F.M. - Mas é um país que absorve, absorve tudo. E com o que absorve faz uma coisa original. Uma catálise é sempre extraordinária. Sabe, o contributo das populações exteriores não me inquieta nada, não tenho de modo algum a impressão de que vamos perder um valor qualquer - aliás, bastante vago - que seria a "alma francesa". A alma francesa também é feita desses contributos e é muito bom que assim seja. (p.46)
F.M. - Há muito poucos excessos racistas em França. Há minorias racistas, mas raramente contaminam a nação inteira... (p.49)
M.D. - Você diz que é o passado comum, a História comum, nos eventos, feitos e ideias, que fazem a nação. Mas eu digo que somos compatriotas porque lemos os mesmos livros na mesma língua que aprendemos. (p.51)

[conversa: África, África (25/02/1986)]
F.M. - Na Palestina, a Bíblia reinventou uma das mais belas paisagens do mundo que se pode, assim, ler duas vezes. A alma tem a impressão de contornar a curva das colinas e de penetrar no segredo da terra e do mundo. Mas reconheço que você também tem razão: é necessário passar pela escrita. (p.98)
F.M. - Agora, é diferente. Há Israel.
M.D. - Sim, agora Israel é temível. É o segundo exército mais poderoso do mundo.
F.M. - Evitemos as comparações com as grandes potências. Mas se a grandeza está, como creio, na resolução, na força do espírito, Israel não está mal colocado.
M.D. - O Ocidente é judeu. Esta faculdade de o homem europeu ser simultaneamente o outro e ele mesmo é judia.
F.M. - O nosso mundo ocidental, sim, talvez. Os outros, os Chineses, os Indianos, já não.
M.D. - Concordo que é unicamente o nosso mundo ocidental. Somos todos judaico-cristãos. É a nossa origem comum. (p.99)
F.M. - Você faz-me pensar nos Carvalhos que eu planto. Serão adultos aos cem anos. Os meus netos não os verão na sua plenitude. É assim. Prever o que se passará depois de nós dá à vida a sua dimensão, uma dimensão individual - eu planto - e colectiva - os outros desfrutarão a doçura da sombra, admirarão a força e a harmonia de uma arquitectura viva. Existe uma filosofia da árvore. (p.103)

[conversa: a nova Angoulême (16/04/1986)]
F.M. - Nada se constrói assente no medo. O que espero da França é que não tenha medo do amanhã, nem da ciência, nem do pensamento, nem das formas. E que ela ouse e persevere no seu apreço pelas considerações universais, que ela se interrogue sobre os outros, sobre si mesma. Isso não proíbe nem as ideias, nem as palavras, nem as acções quotidianas. (p.123)

O encontro de dois vultos maiores da história recente francesa, que eu há muito e por razões diferentes admiro, resultou neste livro, que se apresenta também como um documento histórico e testemunha das experiências vividas pelos dois intervenientes. Leitura que se recomenda.

20 fevereiro 2017

imperdível, apurriar no Alvim

Para aqueles e aquelas que, por distracção ou omissão, não assistiram ao vivo, aqui fica o registo imperdível e para memória futura.
 

16 fevereiro 2017

amor inteiro

Ela diz que se devia conseguir viver como eles vivem, o corpo abandonado num deserto e, no espírito, a recordação de um único beijo, de uma única palavra, de um único olhar para um amor inteiro.
(Margarite Duras, in "olhos azuis, cabelo preto", 2014:53)

14 fevereiro 2017

ao espelho

Eu e o apurriar fomos conversar com o Alvim. Gravámos hoje de manhã, vai passar no próximo dia 17, sexta-feira, pelas 24 horas, no Canal Q. Não percam.

10 fevereiro 2017

solilóquio

Serei um cáustico? Sim, sou. Sou um cáustico e com sádico prazer! Sempre. Qualidade indispensável para uma mente sã.

alma da vinha

Foi algures neste último Verão que eu conheci este vinho. Por um mero acaso, quando fui comprar um maduro branco chamado Porrais, que descobrira uns meses antes e do qual fiquei bebedor, a funcionária da loja aconselhou-me este Alma da Vinha, também maduro branco e com um preço excepcional. Aceitei o desafio apenas porque adorei o seu nome. Trouxe uma caixa de seis garrafas.
Entretanto, o Verão que durou até finais de Outubro, obrigou-me a bebê-lo e a querer sempre mais. Afrutado e bem fresquinho encaixou sempre muito bem nas conversas estivais, diurnas ou nocturnas, que foram acontecendo.
Mais tarde e com a chegada do tempo mais fresco, foi altura de experimentar a sua versão tinta, ou seja, maduro tinto. Boa escolha, também com um preço estúpido e de razoável qualidade, apesar de não ter o mesmo nível que o branco, até porque se exige sempre mais de um tinto, a verdade é que fiquei seu consumidor e, nos momentos quotidianos em que me apetece beber um copo de vinho, é a ele que me dirijo.
Foi por isto e assim que me lembrei de contactar os seus produtores, a empresa Caves do Monte, para me patrocinarem, com maduro branco, o livro que agora lancei. Foi com reforçado prazer que pudemos confraternizar nessa tarde de Janeiro e enrolar as palavras no sabor da alma dessa vinha.

09 fevereiro 2017

caminho certo

EDITORIAL

A nova ortografia vai nua? Vistam-na, depressa!

Depois de a Academia vir a terreiro dizer “o rei vai nu” já não é possível fingir que nada se passa.
Provavelmente nenhum outro país, como Portugal, é tão cioso de querelas ortográficas. As línguas com maior difusão no planeta lidam com o tema de forma simples: aceitam as suas diversidades e seguem adiante. Isso sucede com o Inglês, o Francês ou o Espanhol, sendo que, no caso dos dois últimos, as respectivas academias não se coíbem de propor alterações, mas meramente indicativas.
Os acordos ortográficos são, também, uma originalidade nossa. Depois da revolucionária reforma de 1911, feita a pretexto de “simplificar” a escrita e o ensino, veio o AO de 1945 e, por fim, o AO de 1990 (ressuscitado em 2006 para ser depois imposto em 2011). Pelo meio, houve várias alterações e mexidas de pormenor e tentativas abortadas de fazer outros acordos, alguns até bastante radicais (o de 1986, por exemplo, abolia quase todos os acentos e criava palavras absolutamente ininteligíveis).
Chegámos a 2017 com um quadro muito pouco animador: um comprovado caos na escrita (há cada vez mais exemplos, estão online, e todos os dias são coligidos mais) e as mesmas críticas de sempre, dia a dia ampliadas pela absoluta inércia dos poderes decisórios. A diferença é que, além de vários grupos de cidadãos não terem desmobilizado, a Academia das Ciências de Lisboa veio enfim apontar uma série de erros evidentes e propor a sua correcção. Porquê? Porque a Academia está a refazer o seu Dicionário (até finais de 2018) e quer usar nele uma ortografia digna desse nome. Por isso veio propor um conjunto de “aperfeiçoamentos” que põem em causa muitas opções consagradas no AO.
Claro que, a isto, o ministro Augusto Santos Silva já veio dizer “não”, embora acrescente que “nada está isento nem de crítica nem de possibilidade de melhoria”. Ou seja: está mal, mal continuará. Que as crianças aprendam erros, problema delas. Que pais e professores sejam obrigados a ensiná-los, pouco importa. Isto é uma posição insustentável e mostra como o PS, que revê e reverte tudo e mais alguma coisa, só não revoga aquilo que manifestamente não entende: e isso chama-se ortografia.
O problema é que, depois de a Academia vir a terreiro dizer “o rei vai nu” já não é possível fingir que nada se passa. Políticos e partidos não podem furtar-se à responsabilidade. É preciso agir, de forma consciente (e, como diz a Academia, com bases científicas), abandonando de vez a inércia. A nova ortografia vai nua? Vistam-na, depressa! Ou dispam-na de vez. Mas façam algo digno, por favor.
(Nuno Pacheco, in Jornal Público, 9/2/17)

03 fevereiro 2017

embaraço meu

Foi com prazer que, pela primeira vez, pude declarar na contra-capa de um livro, a minha repulsa pelo acordo ortográfico que está em uso por decreto. É que já em momentos anteriores, leia-se publicações, tentei fazê-lo, mas fui sempre convencido por terceiros a não vincar de tal forma esse meu sentimento, e acabei sempre por remeter para a ficha técnica a minha agonia. Curioso, eu diria mesmo, desconcertante é agora aperceber-me que, afinal, também escrevi palavras segundo a nova regra. Pois foi. Neste exercício masoquista de ler em busca de gralhas e erros, aterrador foi encontrar essas palavras mal escritas. Eu até sei que para muitos leitores não passam de pequenos nadas, mas para quem vincou de tal forma a indisposição face à nova prática, não deixa de ser embaraçoso. Lamento.

apurriado

Não é que seja novidade, ou sequer caso único, mas apurria-me solenemente encontrar gralhas, falhas ou erros nos textos depois de publicados, principalmente porque, apesar de não dispor de uma equipa de revisores especializados, procuro ter cuidado com as revisões que faço dessa escrita e peço sempre a mais do que uma pessoa para ler o que irá ser publicado. Fico apurriado, pois não é desleixo, não é incúria, nem tão pouco ignorância. Fico até com a impressão que na maior parte dessas gralhas o factor humano não é responsável. Enfim.

25 janeiro 2017

e agora, num registo diferente...


Agradecimento ao Luís Silva pela captação das imagens e ao José Lourenço pela edição e produção das mesmas.

24 janeiro 2017

uma década

Dez anos. Tanto tempo.
Aqui estamos a assinalar uma década de existência do meu, nosso, apurriar. 
Quando a ideia surgiu e, depois, se materializou, jamais se imaginou esta duração, esta permanência. Seria o que fosse... Agora que aqui estamos, ao retroperspectivar, percebo a dimensão do que está realizado: a quantidade de textos, imagens, filmes e outros, que fui amealhando dia após dia, ano após ano, nem sempre com a melhor verve, nem sempre capaz de comunicar, mas sempre com o propósito de registar, de manifestar, aquilo que considerei merecedor de umas poucas palavras. Ao reler toda essa produção de dez anos, percebe-se o registo pessoal, muitas vezes confessional, de seu autor. Sendo um blogue pessoal, será compreensível que se enquadre num ambiente diarístico, onde se manifesta um determinado perfil pessoal, psicológico e profissional.
Não entendo este momento como um fim, mas sim e apenas, como um pequeno marco na vida do blogue e, consequentemente, na minha vida. Por isso, aquilo que foi planeado para o dia de hoje, nada mais será do que, considero eu, uma devida e merecida celebração. A reunião de alguns textos em livro, pareceu-me a forma mais óbvia de assinalar a data e, para além disso, a produção deste livro permitirá a recuperação de alguns textos mais antigos, sua revisão e, depois, partilha com outros leitores. Sem qualquer ambição literária, comercial ou pessoal, esta partilha visa chegar, apenas e só, a todos aqueles que fizeram e fazem parte do meu apurriado universo. Por outro lado, terei que o reconhecer, este registo em livro é também a consequência da minha perene desconfiança das imaterialidades virtuais. Tal como já aqui escrevi, a certeza que tenho é que o suporte papel é fiável (tem dado seculares provas), é durável e conseguirá sempre chegar ao depois de mim. 
Tal como sempre aqui se afirmou, não há compromisso ou promessa para o futuro, apenas e só a declaração de disponibilidade para, por livre, espontânea e prazerosa vontade, prosseguir caminho e ir registando a vida possível e anotando o tempo que por nós passará.
Muito e muito obrigado.
O bloguer e autor

23 janeiro 2017

assalto

Eu queria comprar sacos plásticos. Simples sacos de plástico, daqueles básicos, sem qualquer estampado ou trabalho. Apenas sacos de plástico. Estava difícil encontrá-los e um amigo, querendo ser prestável, levou-me a uma grande superfície onde sabia existirem, em quantidade e quantidade e variedade suficiente para eu poder satisfazer a minha necessidade. Solícito, lá me foi mostrando os diferentes tipos de sacos até termos escolhido precisamente um modelo que não tinha referência, nem código, nem mais unidades. Dirigímo-nos a uma caixa para tirar a dúvida e, se possível, pagar. Foi chamado um colaborador que nada mais fez do que ir confirmar na respectiva secção aquilo que nós já víramos. Agradecemos à menina da caixa e regressámos à referida secção com o intuito de escolhermos outro modelo. Irritado com a atitude do tal colaborador que por ali ainda andava, o meu amigo, quando se viu sozinho, pegou novamente nos mesmos sacos (em rolo de 50 unidades) e disse-me para o acompanhar. Dirigiu-se, resolvido e sem hesitações, para a saída, com os sacos metidos num dos bolsos do casaco. Surpreendido pela atitude, segui-lhe os passos, sempre desconfiado e convencido que teríamos sido filmados e que, a qualquer momento, iríamos ser abordados por um corpulento segurança e, assim, apanhados em flagrante delito, ou que os sensores de alarme da loja iriam disparar à nossa passagem. Nada aconteceu.
Já na rua disse-me que eram estes os sacos que nós queríamos e eram estes que eles não queriam vender… ficou toda a gente satisfeita.
Eu só queria sacos de plástico.

22 janeiro 2017

ao espelho


(notícia no Jornal de Notícias de hoje, dia 22 de Janeiro de 2017)

palavras de António Sá Gué

Diz que não se sente escritor embora goste de escrever. E que não se sente capaz de criar uma narrativa imaginada completa e daí optar por este registo onde valoriza o relato e o testemunho.
Esta é a única incongruência que encontro no Luís. ELE é um escritor completo.Todas as obras são introspectivas sejam elas ficcionadas ou não. Esta também não foge à regra. Bem pelo contrário, nela o autor desnuda-se completamente em todos os aspectos da sua vida. Numa obra ficcionada ainda nos podemos esconder atrás das personagens ficcionadas, atrás das palavras do narrador, mas aqui não há hipótese de fuga.
(...)
Este é um Luís Vale que encontrei neste «apurriar» de 10 anos: Canhoto, modesto, culto, nostálgico, socialmente atento e interventivo, sensível, pai e marido extremoso, inconformado, irreverente - ás vezes cáustico, de bem com consigo próprio, pelo menos agnóstico, poeta e leitor compulsivo.
(Valadares, 21 de Janeiro de 2017)

apurriar (2007-2017)


Aqui está ele. Novo rebento, acabado de ser apresentado ao mundo.
Para mais informações e para compra, visite a loja da editora Lema d'Origem - aqui.

lançamento apurriar (2007-2017)

Aconteceu ontem, dia 21 de Janeiro, a partir das 17 horas, o lançamento do livro apurriar (2007-2017). Foi um momento muito bom e de convívio com todos e todas que fazem parte do meu universo e mais alguns amigos. Como não consegui perspectivar todo o evento e porque o meu repórter fotográfico nem sequer conseguiu ligar a máquina, estou a solicitar a todos aqueles que foram tirando fotografias que mas enviem para poder ficar com esses registos e para, também, as poder ir partilhando aqui. Ainda que venham a ser bem mais, deixo aqui alguns instantes, entretanto, já recolhidos.
Agradece o apurriar e agradeço eu aos que fizeram o favor de estar connosco.
Obrigado.




























(agradecido pelas imagens a: Ana Seixas, Cristina Pimentão, Ricardo Vale, Luís Silva e Rui Batista) 

20 janeiro 2017

lembrete

Porque vai acontecer já amanhã, relembro todos, e todas, que serão muito bem-vindos. Dizem que vai ser espectacular e, por isso, apenas por isso, eu vou lá estar. Dizem.

19 janeiro 2017

boicotar leitura

Apesar de acreditar que são necessários e fazem mesmo parte da nossa vida em comunidade, não tenho por hábito partilhar e solicitar boicotes ou manifestações. Eu aceito-os, subscrevo-os e participo neles, mas serão sempre coisas minhas. Também, por muito que me custe, boicotar a leitura, apenas isso, a leitura, é algo que me repele, mas neste caso não posso estar mais de acordo e assim farei. Aliás, já o fiz há algum tempo e aqui dei nota disso, não estou arrependido. Como não existo no universo facebook, roubo o texto do blogue Entre as brumas da memória, solicitando aos meus parcos, mas excelentes amigos que, por empatia ou simpatia, leiam o apelo de Mário de Carvalho e assim procedam. Agradeceremos todos. 

«Possuo cerca de 5000 amigos no FB. Não conheço a maioria, mas, para terem aqui apostado, benevolentemente, é porque são gente de bem. Eu venho então, assim confiado, solicitar-lhes uma coisa que uma já longa convivência consente: POR FAVOR, DEIXEM DE COMPRAR O PÚBLICO. O jornal foi abastardado, transformou-se numa tarjeta panfletária de interesses muito localizados, muito desmascarados, muito à mostra. Todo um fingimento descaradamente foleiro. Não há, a nenhum respeito, a menor confiança naquilo. Um cartaz ou uma pichagem («Vivam os nossos amados patrõezinhos, mai-las suas opiniões!») resolvia-lhes o servilismo, escusavam de tanto aparato de letras e bonecos. Menos 5000 leitores, eu sei, significa pouco. Basta que o engenheiro beneficiário suba o preço de alguns iogurtes e estará compensado. Mas o sentimento de deixarmos de andar enrolados numa farsa, encenada por gentalha menor, também compensa não?» Mário de Carvalho

16 janeiro 2017

aparências

À porta do jardim infantil, cruzo-me com uma criança que vai, pela mão da avó, a caminho de casa. Sem grande cerimónia, dirige-se a mim nos seguintes termos:
- Olá.
- Olá - respondo eu a sorrir.
-Tu és o avô de quem?
Não segurando uma gargalhada, respondi:
- Sou o pai do Rodrigo.
- Não és o avô?!... Então adeus.
- Adeus.

12 janeiro 2017

um estranho

Há cerca de um mês que a minha criança tem vindo a manifestar um comportamento estranho quando está em casa, não querendo que estejamos todos juntos numa mesma divisão da casa, obrigando-nos a estar em espaços diferentes durante o jantar, enquanto brinca e mesmo quando vai dormir. Esse comportamento só se manifesta em casa (nossa ou dos avós) e tem estrangalhado os nervos aos pais e demais familiares, assim como tem rebentado com qualquer tentativa de estarmos em família. Ainda que as consultas com os especialistas estejam já marcadas, a estratégia tem sido tentar perceber o que se passa e procurar devolver-lhe a paz e a tranquilidade no espaço que deveria ser, por excelência, seguro e calmo. Está nos livros que as crianças passam em idades distintas por períodos de maior melindre. Dizem que os cinco anos é uma dessas idades de medos variados, nomeadamente, da morte. Eu e a mãe lá vamos fazendo perguntas sobre os receios que o sobressaltam, mas ele não tem colaborado, até que hoje, quando a mãe lhe pediu para desenhar a causa do seu medo, ele desenhou este boneco, dizendo que tem medo que este estranho entre em casa...

10 janeiro 2017

reza por mim

- Reza por mim Luís Miguel.
Foram estas as últimas palavras que lhe ouvi, deitado no seu leito e consciente do que o esperava. Com a vida a fugir-lhe e numa agonia sofrida, nada mais me disse. Guardei desse derradeiro momento o seu olhar, negro e profundo, mas ao mesmo tempo vago, a caminho de um vazio eterno. Aproximei-me e, debruçando-me sobre ele, despedi-me com um beijo no rosto. Nada mais disse.
Esse Natal, recordo, foi particularmente frio, o que nos obrigava a permanecer dentro de casa e por bem perto do lume. Em casa o ambiente, como seria expectável, era taciturno, ao contrário da agitação, ruído e confusão que, normalmente, acompanhavam os dias de férias e de descanso. O silêncio, apenas entrecortado pelas dores de meu avô, reinava. A única agitação que se fazia sentir era a dos filhos e filhas que, tentando acudir ao pai, se revezavam nas vigílias às horas todas de cada dia. Estranhamente, não consigo localizar a minha avó por esses dias...
Entretanto, o regresso ao Porto e às rotinas quotidianas, no início de Janeiro, impuseram um relativo distanciamento daquela situação terminal, mas não foram precisos muitos dias até sermos confrontados com a notícia da sua morte. O meu avô João morreu assim, ladeado pelos filhos, neste dia dez de Janeiro, faz hoje vinte anos.

09 janeiro 2017

perspectiva de Appadurai

Por manifesta falta de tempo, aproveitei os dias de descanso do final do ano passado para actualizar grandes e pequenas leituras que se foram acumulando ao longo dos últimos tempos. Uma delas foi a entrevista do antropólogo cultural Arjun Appadurai ao P2 do Jornal Público, realizada por Alexandra Prado Coelho, no dia 18 de Dezembro de 2016.
Tendo estado recentemente em Portugal, orador convidado para as comemorações do 25º aniversário da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica de Lisboa, Appadurai, nascido na Índia e a viver nos EUA, onde lecciona Media, Cultura e Comunicação na Universidade de Nova Iorque, falou acerca da sua perspectiva sobre a actualidade mundial e, em particular, norte americana.
Sobre a vitória de Donald Trump nas últimas eleições este antropólogo refere que existiu um hiato entre a passagem de ridículo a real, que foi rápido, e a capacidade de análise e interpretação que não foi assim tão rápida. Para além do choque inicial, há que perceber o que se passou, entender a coligação de muita gente diferente que se criou em torno de Trump... éuma coligação da maioria branca que ultrapassa as divisões de classe e, de certa forma, até de género. Coligação de gente ressentida, desapontada e zangada com as políticas de Obama e cépticas em relação ao liberalismo. Para além disto, houve um grupo de pessoas que odiava o facto de ter um negro à frente do país.
O grande mérito de Trump, diz Appadurai, foi conseguir ligar duas mensagens bem distintas: a mensagem sobre a América e o mundo com a mensagem sobre os brancos na América, o que resultou em algo do género, vamos tomar conta disto outra vez, e a América vai tomar conta do mundo outra vez.
Outro problema identificado por Appadurai foi o desconhecimento por parte dos média e do universo mediático e académico da América profunda, dando o exemplo dos media tradicionais que são mais liberais, assim como muitas das pessoas que marcam o debate público e que estão protegidos desse mundo real e desses sentimentos da população; outro exemplo dado é o das universidades, onde pouco se sabe sobre a vida religiosa dos cidadãos norte-americanos e quando 80% destes são profundamente religiosos. Mas este pensador ainda identificou outro problema, que foi a tendência que existe para muita gente associar os liberais com uma ideia de elite e não uma ideia de massas. Diz Appadurai: o liberalismo não pode ser apenas uma posição por defeito. Tem de ter uma qualidade que se assemelhe ao espírito revolucionário em França.
Em relação a Bernie Sanders afirma que havia aí um verdadeiro potencial e que a verdade é que nos EUA existe uma longa história de medo de alguém que soe como um socialista, pois esta palavra está demasiado próxima do comunismo... Sanders fez um trabalho magnífico ao tornar a mensagem socialista séria e respeitada. Mostrou que se pode criar um movimento sem se ser um demagogo, falando apenas a verdade. Mas foi uma oportunidade perdida.
Por falar em verdade, quando questionado sobre a "pós-verdade", Appadurai refuta a ideia actualmente criada de que se vive num mundo da "pós-verdade", em que tudo se tornou imagem, opinião e perspectiva e tudo não passa de uma batalha de imagens, preferindo ser mais insidioso, ao afirmar que as más notícias estão sempre a empurrar as boas. As más movem-se mais rapidamente.Levanta a questão de como podem as visões liberais, de inclusão, de não violência, ganhar alguma força, face ao desafio retórico sobre como usar os meios de comunicação de massas para mobilizar o sentimento liberal.
Há um padrão global que avança para um mundo mais populista, afirma o autor, reforçando esta ideia com alguns exemplos de líderes de países importantes que têm exercido o seu poder de forma autoritária e populista, tais como na Rússia, na Turquia, na Hungria, nas Filipinas e agora nos EUA. Isto é tanto mais importante quando as questões das soberanias nacionais se deslocou da economia para as questões da identidade e da cultura nacional. Para estes líderes populistas que querem controlar o Estado é muito mais fácil dizer que o jogo está no debate sobre a censura, comportamentos sexuais, direitos das mulheres, minorias e questões de pureza étnica.
Regressando aos EUA e à sua actual situação, Appadurai relembra que aí sempre houve um fascínio pelos homens ricos e de sucesso. É a terra das oportunidades de uma forma extrema e totalmente individualista. É a terra onde equidade significa que pessoas como Trump devem ter uma oportunidade para fazer negócios e dinheiro, e equidade significa que todos devem tentar e que alguém irá ganhar. Justiça significa que não devemos todos estar a lutar.
Aborda também as questões económicas, alertando para a transferência do capital das manufacturas e da indústria, dos bens e dos serviços, para a troca de instrumentos financeiros, o que transforma radicalmente a economia, não havendo escassez e possibilitando uma acumulação de capital sem fim... a dívida é o nosso principal trabalho hoje. Fazemos dívida para que outros possam monetarizar sobre ela.Termina esta entrevista dizendo que temos que encontrar a fórmula de nos apoderarmos desses instrumentos financeiros e de os democratizar. O risco faz parte das nossas vidas de qualquer forma - só que há outras pessoas a transformá-lo em dinheiro. Porque é que não podemos ser nós?

Adenda: o conceito de mediascape, que eu adaptei e uso aqui no blogue, é um conceito de Arjun Appadurai, retirado precisamente da sua obra de referência "Dimensões Culturais da Globalização", que eu li em contexto de mestrado, mas que me tem servido de referência em vários momentos e contextos.

assim sendo...

08 janeiro 2017

gato morto

Aqui está um novo projecto musical muito interessante, digo eu. Para além do mano mais novo, o puto Ramon, que aqui toca as guitarras, o gato morto é constituído ainda pelo Elísio Donas (Ornatos Violeta) no piano e teclas e pelo Paulo Franco na bateria. Ainda que quase de relance, podemos ver o Lopes, o grande Carlos Lopes, a produzir qualidade. Para ouvir bem alto e esperar pelo que há-de vir.

07 janeiro 2017

Mário Soares

Morreu Mário Soares.
Morreu a figura principal da democracia portuguesa, o principal responsável pelo país que hoje somos, o ideólogo do percurso que a sociedade portuguesa seguiu, pelo menos, nos últimos quarenta anos. Independentemente de concordarmos ou não com aquilo que fez e aquilo que disse, ao longo da sua extensa vida pública e política, não restarão dúvidas da sua centralidade nos momentos de decisão e nos meandros do poder. Morreu a figura maior do nosso país, livre e democrático, e acaba de nascer um vulto da nossa história que figurará por muitas gerações na nossa memória colectiva.
Mário Soares nunca mereceu a minha simpatia, nunca me senti confortável com o seu discurso, nunca fui um soarista, nem sequer algum dia votei nele, mas isso não me impede o reconhecimento, a referência e o respeito pela sua vida, pela sua intervenção cívica e política. A primeira recordação que tenho dele é a campanha de 1985 e do seu slogan: Soares é fixe.
Morreu o badochas e, apesar de expectável, este é um dia triste.

04 janeiro 2017

mediascape: masturbação

Hoje foi notícia (aqui) a pretensão de um deputado federal brasileiro criminalizar a masturbação. Eu, perante tal dislate, não sei se ria ou se chore! Mas posso estar enganado, pois face ao que tem sido o passado recente deste mundo, eu ando completamente desfasado da realidade, ou seja, aquilo que eu dou como adquirido pela civilização, afinal não é assim tão consensual e hegemónico, muito pelo contrário, diz apenas respeito a uma pequena minoria.
O que me irrita a tiróide em notícias e factos deste género é haver segmentos da sociedade, normalmente associados a religiões ou com ligações a movimentos religiosos e suas intangíveis morais, que considera que pode regulamentar e ajuizar aquilo que são os costumes, hábitos e práticas dos cidadãos. O seu conservadorismo no que diz respeito aos costumes é obtuso, obsoleto e com cheiro a naftalina, uma vez que regressam sempre a este discurso moralizador do que deve e não deve ser a conduta íntima e pessoal de cada indivíduo. Era o que mais faltava que alguém, que não eu, me impedisse a masturbação. O corpo é meu e o prazer daí obtido será apenas meu, pessoal e intransmissível. Não percebo o incómodo.
Para ser intelectualmente honesto, eu até considero que o mal de muitos indivíduos (gajos e gajas), com quem me cruzo por aí, é a falta de prazer, de satisfação sexual e de libertação da sua libido, ainda que num formato "a solo". Tal como cantavam os Ena Pá 2000: Masturbação para o bem da Nação... (era mais ou menos isto).
Força nisso!

depois de muito esperar, aqui está ela, a LER


Nem no blogue, nem na página do facebook, se encontra a referência a este novo número. Não sei o que se passa, mas para desgosto meu, parece que cada vez é mais difícil publicar a LER.

01 janeiro 2017

a paz como ambição

António Guterres iniciou hoje oficialmente o seu mandato como Secretário Geral das Nações Unidas e no seu primeiro discurso deu ênfase àquilo que poderá, deverá, ser a sua prioridade, a paz. A paz a nível global, regional e local. Grande ambição. Assim seja.

m train

As últimas horas de 2016 e as primeiras de 2017 foram passadas a ler o que faltava do livro M Train de Patti Smith. Já em Agosto escrevi sobre a sua escrita, quando a propósito da leitura do seu outro livro Apenas Miúdos. Apesar de se tratarem de ambientes - espaços e tempos - distintos, percebe-se uma coerência existencial, uma continuidade na escrita, nas reflexões e na sua visão do mundo. Se o primeiro livro me surpreendeu, este apenas veio confirmar a autora como uma excelente escritora. Entre um e outro percebe-se uma evolução ontológica, naquilo que é o processo do seu amadurecimento e de uma certa paz com o seu mundo, de relativa aceitação pelo destino pessoal. Desconheço o resto da sua obra literária, mas gostaria de ler mais e de conhecer o resto do seu universo. 

31 dezembro 2016

à la palice

Acabo de receber um email com a seguinte pergunta: comeu demasiado no Natal?(apresentam depois umas dicas para se emagrecer ou recuperar desse excesso...)
Eles não querem que eu responda, mas eu respondo, aqui:
Não! Não comi. No Natal eu como sempre é pouco, muito pouco. Natal é dia de fome para mim e a única dica que eu daria, para evitar excessos, seria: não comam.
Simples e barato.

30 dezembro 2016

ad eternum, ou melhor, ad nauseam

Não sou comprador, nem sequer leitor, desta publicação. Muito de vez em quando, lá me vem parar às mãos e, então aí, folheio-a e leio com atenção e interesse um ou outro cronista. A edição cuja capa aqui reproduzo é bem paradigmática das razões pelas quais eu não a leio... Até quando vão repetir a receita? E os ingredientes? É que todos os anos são sempre os mesmos! Para além de estarmos fartos de saber as suas opiniões sobre tudo e mais alguma coisa, fica a sensação de que estas personagens nos acompanham desde sempre e até sempre e, na verdade, já estamos nauseados.

28 dezembro 2016

o regresso aos cromos

A minha criança, há cerca de dois meses, trouxe do jardim infantil uma caderneta de cromos do campeonato nacional deste ano 2016/17. Achou piada e quis fazer a colecção. Eu, confesso, também lhe achei piada e, nostálgico da idade em que fiz inúmeras colecções, passei a comprar-lhe quase diariamente algumas saquetas de cromos. Estão caros! Todos os dias, ou quase, o ritual de abrir essas saquetas de 6 cromos e ver se faltam ou são repetidos, tornou-se hábito cá em casa. Agora, com a caderneta quase completa, tornou-se mais difícil conseguir cromos novos e, ao contrário do que aconteceu na minha meninice, não há por perto com quem trocá-los. A maravilha da internet permitiu-me descobrir vários fóruns e sítios onde se podem trocar cromos de toda a espécie e qualidade - novos, velhos, nacionais, internacionais, entre outros - e cá ando eu todo satisfeito a traficar cromos, em encontros previamente combinados, ou através dos CTT. A verdade é que só já faltam vinte ou trinta cromos para completar a caderneta e não vamos parar até o conseguir.
A minha criança completará assim a sua primeira caderneta, que eu com cuidado guardarei para um dia lha entregar. Eu, tal como noutras situações esperadas na vida dos miúdos, cá ando entretido e divertido com os cromos e a reviver tempos idos.

26 dezembro 2016

panóptica do eu

(primeiras linhas do que está já em produção)
Dez anos, aqui e agora, vertidos em textos. Sinto este volume como uma transparência que permite tudo ver e perceber. O panóptico está aqui, através dele, quem quiser, poderá ver-me a mim, translúcido e desmascarado, às vezes eufórico, outras vezes cáustico, nem sempre optimista, mas sempre crítico. Será, em todo o caso, um bom retrato meu.

22 dezembro 2016

alheado e obcecado

Decisão com algum tempo de vida, esta de me manter, confortável e sossegadamente, afastado da torrente informativa e noticiosa que nos empurra numa vertigem cronológica. Alheado então desse abismo contemporâneo, tenho vivido as minhas horas e dias a fazer o que mais gosto, tranquilo e apenas obcecado pelo cumprimento dos prazos estabelecidos e combinados. Assim, não só os dias crescem, como a produção é mais rentável, possibilitando ainda outros prazeres que, por pudor relativo a todos os meus amigos e amigas que labutam das "9 às 6", me abstenho pronunciar. Por outro sim, importa salientar que neste findar de mais um ano civil, as perspectivas para o novo e próximo ano são muito interessantes e, para ser verdadeiro, nada me é mais catalisador do que perceber que não tenho, ou terei, tempo útil para o tudo que tenho em mãos. Por outro não, talvez seja melhor não estar para aqui com esta atitude de cigarra e regressar ao modus faciendi da pequenina formiga.
Não sei, talvez, há quem diga que sim. Fui.

12 dezembro 2016

regresso da luta, agora com força...

"No dia em que aceitarmos de olhos fechados situações que ferem a nossa inteligência, o senso comum e a tradição científica, não estamos a cumprir as nossas obrigações." (Artur Anselmo in Jornal Público)

Hoje ainda regressarei a este assunto. Vou comprar o jornal Público, pois a entrevista dada pelo Presidente da Academia de Ciências de Lisboa é muito importante para o futuro da língua portuguesa.

(em actualização)

10 dezembro 2016

palestra de Manuel Castells

Esta tarde foi dedicada à conferência que Manuel Castells veio proferir, por convite da Câmara Municipal de Gaia, às Conferências de Gaia, realizada nas Caves Ferreira. Não tendo grande expectativa, nem sendo um seu leitor atento, na medida em que os assuntos sobre os quais versa não me excitam a amígdala, havendo esta oportunidade para o ouvir ao vivo, aproveitei.
A conferência versava sobre "uma cidade inteligente num mundo global e em rede" e, de facto, Manuel Castells é um entendido globalizado dessa conexão em rede que é a sociedade actual. Num tom agradável e, a espaço, com sentido de humor, apresentou a sua perspectiva sobre as sociedades actuais e de futuro, relevando a importância da conexão dos territórios, das instituições e dos indivíduos, alertando para o facto de o futuro estar já captado ou colonizado por aqueles que conseguirem manter-se em rede. Sua visão é, aqui, radical, afirmando que só existem duas possibilidades: ou estamos conectados e sobreviveremos, ou estamos desconectados e seremos dispensados pelos processos globalizantes.
O que percebi, estando perante um "guru" à escala mundial destas matérias, é que a sua perspectiva, a sua opinião, o seu pensamento, estão perfeita e completamente dominados e ajustados pelos paradigmas vigentes e, foi curioso, no período final de perguntas, terem sido várias as questões colocadas sobre a dimensão humana relacionalmente: as implicações deste novo habitat no ser humano; onde fica o Ser ontológico, etc. e ele, habilmente, não deu resposta directa a nenhuma dessas questões, afastando-se de qualquer perspectiva humanista da sociedade.
Relembrando aquilo que foi o seu percurso, o seu brilhante percurso académico até ao estrelato, hoje pude confirmar como evoluiu o seu pensamento, desde os primeiros tempos em que questionava o sistema, os paradigmas e os dogmas, numa atitude que poderíamos considerar anti-sistema, até à actualidade em que se percebe nitidamente o seu à-vontade nos meandros dos poderes, sistemas e instituições do mainstream liberais e capitalistas, naquilo que é a sua apologia da tecnologia, dos sistemas de informação e das redes comunicacionais.
Hoje fiquei a saber que para este ilustre pensador não há possibilidade de existência, não haverá possíveis futuros sem ser em rede, sem ser em permanente e eterna comunicação. Para além de não aceitar este determinismo, acredito que poderemos sempre estar e viver desconexados, desligados da rede. É ainda uma questão de opção.

08 dezembro 2016

desaparecimento


Este era e é, mas vai deixar de ser, o meu whisky predilecto. Um dos manos andava à sua procura e em nenhum lugar o encontrou, nem qualquer explicação para o seu desaparecimento. Apenas em garrafeiras gourmet e em leilões na net se encontram garrafas destas. Ao comentar comigo eu não reconheci essa dificuldade, nem aceitei os preços que ele me apresentou por garrafa (cento e muitos a duzentos e tal euros). Nem pensar, disse eu, pois recordo-me ter comprado deste whisky abaixo dos cem euros. A explicação surgiu hoje. Esta marca acabou, ou faliu, ou foi vendida, e, por isso mesmo, só se encontra o que estava em stock nos pontos de venda e, agora, com preços altamente inflaccionados. Lamento profundamente.

06 dezembro 2016

a quem interessar...


Eu vou lá estar. Quem estiver interessado poderá inscrever-se gratuitamente até amanhã, 4ª feira, através do seguinte email: conferenciasdegaia@cm-gaia.pt

01 dezembro 2016

constatação

Alguém que ocupa um lugar público por nomeação e não apresenta declaração de rendimentos, nem quer apresentar, manifesta uma profunda desconsideração pelo Estado. A atitude do presidente demissionário da Caixa Geral de Depósitos é ofensiva para todos nós. Um indivíduo destes jamais deveria ter ocupado um cargo público, pois não quer saber, nem acredita no Estado. Boa viagem.

ecos de uma entrevista

A propósito do colóquio sobre Monsenhor José de Castro que já aqui publicitei, enviei para publicação no jornal Mensageiro de Bragança e para a Voz Portucalense este pequeno contributo sobre a oportunidade e o valor deste iniciativa (fica aqui em primeira mão):

"
No próximo dia 9 de Dezembro a diocese de Bragança-Miranda e a Câmara Municipal de Bragança vão homenagear Monsenhor José de Castro, figura maior do clero e da cultura nacional. Nesse dia, e no âmbito dos 50 anos do seu falecimento, vai ter lugar um colóquio subordinado ao estudo da sua vida, obra e pensamento. Tendo tido conhecimento desse evento através deste jornal (edição de 24 de Novembro), não posso deixar de me associar à iniciativa, pois considero que este ilustre bragançano nunca mereceu por parte das autoridades locais e regionais as devidas honras e considerações, se não vejamos a diferença entre o reconhecimento póstumo à figura e à obra do Abade Francisco Manuel Alves, vulgo, Abade de Baçal e a perfeita amnésia colectiva em relação a Monsenhor José de Castro. Nessa edição de 24 de Novembro do “Mensageiro de Bragança” é publicada uma pequena entrevista ao presidente da Comissão Organizadora deste evento, o Professor Doutor Henrique Manuel Pereira que, de forma simples e bem explicita, se refere à ambição de recuperar para o presente o nome, a vida e, principalmente a vasta obra de Monsenhor José de Castro, possibilitando assim às actuais e às futuras gerações conhecerem o seu extraordinário legado. No fim dessa entrevista Henrique Manuel Pereira perspectiva aquilo que poderá ser o caminho certo para a recolocação de Monsenhor no lugar devido, nomeadamente através de um centro de estudos e um serviço educativo centrado na sua personalidade, ou através do estudo e reedição da sua obra, ou através da edição de textos inéditos e da realização de documentários e afins.
Na referida entrevista, historia-se o que entre nós tem merecido a memória de Mons. José de Castro, sem esquecer de louvar o esforço para a reabilitar por parte de personalidades como Belarmino Afonso e D. António José Rafael. De resto, este não é o primeiro serviço que Henrique Manuel Pereira presta à figura de Mons. José de Castro. Bastará lembrar a competente e rigorosa organização dos livros “D. Frei Bartolomeu dos Mártires e outros textos sobre o venerável” (2014) e mais recentemente “In Memoriam: Pe. Francisco Manuel Alves, Abade de Baçal” (2016), ambos editados pela diocese de Bragança-Miranda.
Das iniciativas para o futuro, avançadas na entrevista a que nos vimos referindo, sem desmerecer qualquer uma delas, merece-me destaque a vertente pedagógica, naquilo que poderá e deverá ser um serviço educativo ao dispor das comunidades escolares e, em particular, dos estudantes da região e para além dela. Será relevante, do ponto de vista educacional, cultural e até social, levar Monsenhor José de Castro até às escolas básicas e secundarias de Bragança e não só, proporcionando assim um efectivo conhecimento do cidadão bragançano, do laborioso estudioso e, não menos importante, do produtor cultural que Monsenhor foi. Importa que essas novas gerações percebam e entendam o seu contributo para aquilo que Bragança hoje é, enquanto diocese e mesmo enquanto cidade e região.
Apesar de já conhecer a figura de Monsenhor e de já conhecer parte da sua obra, o primeiro contacto sério e aprofundado com a sua obra foi no âmbito da minha investigação sobre a vida de D. Manuel António Pires, publicada em 2015. Ao analisar a sua correspondência logo percebi uma proximidade e entre ambos e, se assim poderei dizer, uma relação onde Monsenhor desempenharia um papel tutelar e até paternalista, no melhor sentido do termo, em relação ao então jovem seminarista e estudante em Bragança e Roma e, também, depois sacerdote na diocese de Bragança e bispo em Silva Porto, Angola.
Do que já conheço da pessoa e obra de Monsenhor José de Castro aquilo que mais admiro e mais me impressiona é a sua elevadíssima capacidade de trabalho, seja na investigação, seja na produção escrita e cultural. Tendo sido quem foi e tendo ocupado os lugares que ocupou, como conseguiu ele espaço e tempo para tamanha obra? Teria ele tido consciência da dimensão hercúlea do seu esforço? Teria ele tido consciência que estaria a trabalhar, não para si e para os seus contemporâneos, mas para aqueles que um dia viriam, ou seja, nós?
Estamos perante uma obra singular e que, sem dúvida, urge conhecer e dar a conhecer. Será essa a melhor forma de dignificar a sua vida e a sua memória.

Luís Vale

Vila Boa, 30 de Novembro de 2016 "