14 abril 2017

caminhar pelo monte

Todos os anos por esta altura dedico um dia para passear, caminhando pelo monte, naquilo que é o termo de Vila Boa, meu axis mundi, procurando sempre percursos diferentes e alternativos que possibilitem andar durante grande parte do dia sem sentir qualquer sinal de civilização. São passeios magníficos e, a cada momento, a contemplação de paisagens fabulosas faz-nos esquecer o cansaço crescente que nos invade o corpo. Em pequeno grupo familiar, sempre liderado e orientado pelo patriarca, é sempre um prazer observar a natureza neste seu momento de cíclico rejuvenescimento. Estes passeios remetem-me sempre para Jean-Jacques Rousseau e os seus "Devaneios do caminheiro solitário" (2007, Livros Cotovia), onde aproveita os seus passeios pelo campo para reflectir sobre as questões que lhe importunam a mente. É uma obra que me marcou e à qual, por razões várias, regresso regularmente.
Vou sair para o monte daqui a minutos e quando regressar, aproveitando as maravilhas da nova tecnologia, aqui partilharei alguns desses momentos e lugares. Bom passeio.






12 abril 2017

finalizando colecção

Aproveitando os dias estivais e o menor trânsito no centro da cidade Invicta, dediquei o início das manhãs desta semana à visita de livreiros e alfarrabistas, com o propósito de completar a minha colecção da revista Brigantia. Revista de Cultura, editada desde 1981, pela Assembleia Distrital de Bragança. Já há muito tempo decidi reunir todos os seus números, tarefa bastante difícil, principalmente, a partir do momento em que os seus promotores desinvestiram nesta publicação e a levaram quase à extinção. Ela ainda existe, mas já nada tem de parecido com as edições mais antigas e o momento decisivo para essa degenerescência foi o desaparecimento do seu fundador e director, Dr. Belarmino Afonso. Desde a sua morte que a revista deixou de ter a dinâmica que possuía anteriormente e, daí para cá, foi sempre em perda. Está na altura de lhe dar uma nova vida, pois continuo a acreditar que há lugar e espaço para a sua sobrevivência enquanto projecto editorial e cultural.
Regressando às deambulações matinais pelas livrarias alfarrabistas. Visitei a Livraria Sousa & Almeida, na rua da Fábrica, que soube através de notícia no JN, irá fechar até ao final do ano, pois o edifício foi vendido e será ocupado por uma unidade hoteleira (só podia...). Segundo me disse o seu proprietário, tem todos os livros a, pelo menos, 50% do preço de capa e está a tentar vender o maior número de livros possível para fechar as portas. Lá encontrei algumas preciosidades e questionei-o sobre a revista Brigantia, ao que me respondeu que sim, sabe que tem vários números no armazém, mas tem que ter tempo para lá ir e depois me dirá alguma coisa... até hoje, ainda não me disse nada. Vou lá regressar amanhã de manhã. Entretanto, fui à Livraria Académica, na rua Mártires da Liberdade, e falando com o Sr. Nuno Canavez, logo consegui o que pretendia. Faltavam-me 15 números da revista e na Académica consegui, desde já, 10 deles a um preço espectacular. Assim e agora, apenas me faltam 5 números da revista, que sei o Sr. Nuno lá tem, mas como fazem parte da sua colecção completa, ele não a quer desfazer e prefere esperar para a tentar vender inteira. Compreensível e por isso não insisti, apenas lhe pedi para me ligar caso consiga encontrar esses últimos números em falta.
Satisfeito termino estas palavras.

04 abril 2017

é hoje...

Daqui a pouco estarei na Universidade Católica a falar sobre Trás-os-Montes, numa viagem através dos seus caracteres culturais e identitários. Conceitos como a identidade, a alteridade, a nomeação e tradução cultural serão abordados. Apareçam.

01 abril 2017

a obsessão da portugalidade

Aproveitando a ilusão de promoções (flash sales) da Fnac, trouxe hoje comigo o mais recente livro de Onésimo Teotónio Almeida, publicado já em 2017 e que versa sobre as nuances da identidade nacional, ou melhor sobre a identidade da portugalidade. Sendo uma questão que me interessa - a identidade - e sobre a qual também tenho dedicado algum tempo e trabalho, ainda que numa outra perspectiva e dimensão, as expectativas são elevadas também porque se trata de Onésimo Teotónio Almeida. No momento em que releio partes do seu despenteando parágrafos, vou colocar este novo livro no cimo do monte de livros para ler. Em breve regressarei com os devidos comentários.

Os intelectuais, bem como os cientistas sociais, ignorarão à sua própria custa esta questão da identidade. Ela não passará, todavia, por mais que eles lhe fechem os olhos. Poderá mudar de nome - e talvez até conviesse, dado que, como espero ter demonstrado, o termo hoje incorpora um complexo de realidades em simultâneo. Todavia, ainda que mudasse de nome, não deixaria de existir. (autor, folha prévia ao frontispício)

pita arisca

Foi no passado fim-de-semana que, em grupo de amigos, me levaram a jantar à casa de pasto Pita Arisca, em Torno, concelho de Lousada. A única informação que tinha era que iria comer um cabrito no forno delicioso. Apreciador como sou dessa carne, foi com alguma expectativa que viajei pela velhinha nacional 15 (a caminho de Amarante), trajecto que fiz semanalmente, durante anos e anos, até à conclusão da A4 entre o Porto e Amarante, mas que desde então não voltei a fazer. Também por isso foi uma experiência interessante, pois reconheci todas as curvas dessa estrada e muitos dos elementos da paisagem que permanecem.
Mal acabados de sentar à mesa, logo começaram a servir as fartas travessas de cabrito e de batatas assadas em forno a lenha. Se o cabrito é bom, as batatas não lhe ficam atrás, sendo que o segredo para o seu excelente sabor é serem assadas em tabuleiros colocados por baixo das grelhas onde assam os cabritos. Muito, muito bom. Tudo isto acompanhado por um verde tinto da casa, bem fresco e bebido em tigelas de louça branca e que encaixou superiormente com a carne do cabrito.
Comemos e bebemos até ficarmos consolados e o preço final não foi além daquilo que a casa anuncia, ou seja, vinte euros por pessoa. Foi tempo então de regressar a casa e acabar a noite com um refrescante Gin Tónico.
Nota final para reafirmar o meu prazer em descobrir novos locais, em viajar para degustar aquilo que de bom se faz um pouco por todo o nosso país, sempre acompanhado por bons amigos igualmente amantes de boa comida.

31 março 2017

pena é não ser ouvido por quem deveria

Frederico Lourenço, escritor e filólogo, ao receber o Prémio Fernando Pessoa, no dia 29 de Março, referiu-se à importância das línguas clássicas e à necessidade de as incluir novamente nos programas do ensino secundário. O Latim e o Grego não são línguas mortas e são centrais para a compreensão da nossa História, enquanto nação, enquanto cultura, enquanto civilização. As ciências humanas, tão desprezadas nas últimas décadas pelos decisores políticos e pelos responsáveis do ministério da educação, dependem de um conhecimento claro e estabelecido destas línguas.
Eu, felizmente, quando ingressei no 10º ano, ainda tive a oportunidade de escolher uma delas, tendo optado pelo Latim. O fascínio pela História e pela civilização Romana foram as motivações para a escolha, mas na altura estava longe de imaginar que um dia esse conhecimento, ainda que básico e pouco trabalhado, me iria ser útil para o meu "modo de vida".
Deixo aqui a ligação para a notícia da excelente intervenção de Frederico Lourenço.

29 março 2017

sobressalto pessoal

Foi por estes dias, durante uma aula, quando eu falava da relação entre cuidador, tratador ou médico e doente, paciente ou utente, que fui interrompido por uma aluna de enfermagem que me disse que agora o termo utilizado não seria doente, paciente ou utente, mas sim cliente. Não me apercebi logo do que estava a ser dito e questionei a referida aluna sobre o contexto onde essa alteração se tinha verificado, ao que ela respondeu que tinha sido na própria universidade que um, ou mais professores (?), lhes ensinara que o termo apropriado é cliente.
Não quis acreditar, mas acho que me consegui controlar e ninguém terá percebido a minha súbita indisposição. Então agora são as próprias instituições de ensino especializado e superior, que preparam e formam os profissionais da saúde de amanhã, quem incute e "evangeliza" o credo liberal. Irei tentar perceber o que está acontecer...
A transformação de doentes, pacientes e utentes em clientes é mais uma prova de como o capital subtraiu aos sistemas de saúde, qualquer réstia de humanismo, de cuidado, de relação pessoal entre cuidadores e seus doentes. É também uma transformação radical nas percepções e nas representações sociais relativamente aos sistemas de saúde. Agora, mais do que nunca, apenas os clientes - leia-se, apenas quem tem dinheiro - poderão aceder a cuidados de saúde com qualidade. Depois, mesmo etimologicamente, ser cliente implica a presença do factor valor (dinheiro), enquanto que os termos doente, paciente e utente ilibam ou permitem a ausência desse factor. Daí esta persistência liberal em conquistar e dominar os sistemas de saúde. Estes e a Segurança Social são e serão, nos próximos anos, os grandes negócios para o capital, que só descansará quando conseguir eliminar o Estado desses sectores, ou melhor, quando conseguir eliminar o Estado da nossa sociedade.
Resistirei, resistiremos até não podermos mais. Quando vou ao médico, ao centro de saúde, ou ao hospital e necessito de qualquer cuidado médico, sou e serei sempre um doente, um paciente, ou quando muito, um mero utente do Serviço Nacional de Saúde.

25 março 2017

passado recente da cultura e sociedade portuguesa


Tive conhecimento deste livro na última revista LER (Inverno 2016), onde o autor, António Araújo é entrevistado e apresenta o livro. Chamou-me a atenção o propósito da obra e o jeito, claro, objectivo e desempoeirado, com que o autor falava desse passado recente e, em concreto, da década de 80, tão desprezada pelo mainstream cultural e editorial da actualidade, procurando, a partir da direita, as clivagens que continuam a dividir as culturas de esquerda e de direita. Tal como explica o autor no inicio do livro e também explicara na entrevista à revista LER, este projecto editorial implicou a edição de um outro livro, escrito por João Pedro George, sobre o mesmo período histórico só que do ponto de vista da esquerda e que virá a público ainda este ano de 2017.
Rapidamente procurei o livro e o trouxe para casa. Foi a leitura das últimas noites - naqueles momentos em que já nada mais poderá acontecer a não ser esperar que o sono chegue.
Aconselho a todos e a todas que queiram conhecer um pouco melhor a nossa sociedade das últimas décadas.
Espero com alguma expectativa o livro de João Pedro George.

21 março 2017

racismo, europa e democracia

Nem de propósito, ou nem a pedido. Estava eu a dizer no texto anterior que os europeus deveriam cuidar dos seus cidadãos para evitarem populismos e suas personagens, quando nos chega esta pérola da boca de Jeroen Dijsselbloem, ainda ministro das finanças da Holanda e ainda presidente do Eurogrupo, que acusou os europeus do Sul de gastarem o seu dinheiro “em copos e mulheres” e “depois pedirem que os ajudem”. Pois muito bem, para além do óbvio, ou seja, que este senhor não tem condições para exercer os cargos que exerce, esta declaração diz muito mais acerca da sua mundivisão do que diz dos povos do sul da Europa. Este senhor, desesperado pelo resultado obtido pelo seu partido na Holanda e vendo o seu chão a desabar, revela-se em todo o seu ressentimento e racismo. Sim, esta declaração não é xenófoba, esta declaração é completamente racista e transmite todo o ódio e incompreensão pelos diferentes e variados modos de vida existentes na Europa democrática e pluralista.
Só tem uma escolha, demitir-se dos cargos europeus e regressar ao seu mundo perfeito, sério e responsável, aquele das virtudes públicas e dos vícios truncados pela privacidade. Siga sr. coiso.

populismos, europa e democracia

Ainda a propósito do rescaldo das eleições na Holanda e quando todos, ou quase todos, suspiram de alívio pela não vitória do partido de extrema-direita de Wilders, fartam-me os comentários dos eruditos do costume. É tão simples quanto isto:
Eu também fiquei satisfeito pela relativa derrota dessa política nacionalista, extremista e xenófoba, mas não entendo a deriva generalizada, na opinião publicada, acerca daquilo que é comum tratar-se por populismo. Estou farto desse raciocínio. E mais agoniado estou com o lugar comum das justificações encontradas para o crescimento desses populismos pela Europa. Reparem, segundo a maioria dos opinadeiros da nossa praça, a razão quase exclusiva dessa evolução é o esvaziamento dos centros políticos ou partidários (numa lógica direita/centro/esquerda). Não estou com isto a defender esse ou outro populismo, mas, parece-me esta explicação muito redutora e insuficiente, principalmente, quando e porque proferida sempre por quem ocupa esse centro, habituado aos privilégios das grandes organizações, ao mainstream da comunicação social e, não menos importante, à grande resistência e conservadorismo desses privilegiados do sistema em relação às periferias e, acima de tudo, em relação às mudanças de paradigma.
Minhas senhoras, meus senhores, vivemos ou não em democracia?! E a democracia é isso mesmo, permitir a existência de quem pensa, opina, age e acredita noutra estruturação para a sociedade. Podemos gostar ou não, podemos acreditar ou não, mas em democracia deveremos sempre aceitar os resultados do voto livre, consciente e democrático.
Tal como referi em relação aos EUA e à vitória de Trump - que me subtraiu qualquer vontade de comentar o que passou a chegar do outro lado do Atlântico - e direi sempre, vencedores e vencidos deverão sempre adaptar-se às novas realidades. Se não são dignas ou são impróprias, tratem de alterar as leis e os regulamentos, tratem de cuidar dos cidadãos e das suas comunidades. Assim se derrotarão todos e quaisquer populismos e seus personagens.

20 março 2017

a quem interessar...


Aula aberta a toda a comunidade escolar e não escolar. A quem interessar, apareça.

15 março 2017

hoje, na Holanda...

No próprio dia em que decorrem as eleições na Holanda e quando um dos possíveis vencedores poderá ser um extremista de direita, partilho aqui a minha preocupação perante tal possibilidade. Bem sei que será só mais um país onde o projecto europeu caducou, mas assusta verificar que os nacionalismos, ainda por cima populistas, estão de regresso um pouco por toda a Europa. Para além dessa preocupação, um outro sentimento me assaltou um destes dias, quando espreitei o "tempo contado" de J. Rentes de Carvalho e li:

Digo então, para surpresa de quase todos, que vou dar o meu voto a Wilders. E pacientemente explico que partilho a sua ideia de deportar os marroquinos que, na Holanda, encabeçam as estatísticas da criminalidade; que a Holanda teria vantagem em se separar da EU (o que não acontecerá); que se deveriam ter fechado as fronteiras (o que está provado ser impossível ); que os idosos, os pobres e os deficientes não recebem os cuidados a que têm direito; que mesmo um país rico e bem organizado não tem capacidade para absorver a vaga de refugiados – problemática que os sucessivos governos empurram com a barriga no aguardo de milagres.
Discordo de Wilders pela irrealidade das suas intenções, pelo seu autoritarismo, pela nada democrática prática de ter um partido em que se pode votar, mas não aceita filiados.
Mas dando-lhe o meu voto - o meu protesto - espero contribuir para que, alcançando um bom resultado eleitoral, ele tenha em mãos a possibilidade de fazer uma oposição construtiva, que seja um contrapeso a vinte e tal anos de governos tão politicamente correctos que a grande maioria dos cidadãos se pergunta de que maus sonhos é prenúncio a realidade que estão a viver.

Cada um de nós tem o direito à sua opinião e a todas elas é devido o respeito e a tolerância democrática. Em relação a esta declaração de voto de Rentes de Carvalho, eu não posso deixar de a respeitar, mas desapontado direi que eu até poderia subscrever grande parte das suas preocupações e protestos, mas discordo totalmente quando esse voto é justificado como um instrumento para uma oposição construtiva, pois havendo a possibilidade de Wilders vencer, aquilo que teremos não será uma oposição nacionalista e defensora dos cidadãos holandeses, será a execução de um programa xenófobo e racista, que conduzirá a Holanda e, depois, a Europa, para um percurso perigoso e desconhecido.
Espero e quero que Wilders perca e bem estas eleições.

12 março 2017

na livraria Traga-Mundos, em Vila Real



Eu e o António Sá Gué à conversa sobre o livro "apurriar (2007-2017)" e sobre tantas outras coisas que o ambiente, acolhedor e intimista, proporcionou. No fim, registámos o momento com um trago de Porto. Simpático.

09 março 2017

mediascape: velha portugalidade

Depois do tão propalado e infeliz incidente com a conferência que Jaime Nogueira Pinto foi impedido de proferir na Universidade Nova, dei conta da existência de uma coisa chamada "nova portugalidade" e fiquei curioso. Vai daí e pûs-me a googlar e encontrei, para além dos feeds das notícias sobre o caso, uma página de facebook dessa associação(?), movimento(?), ou lá o que isso é(?) e fui conhecê-la. Bem, se a portugalidade nova é isto, se é assim que se apresentam ao mundo, então temos duas hipóteses: ou fugimos para bem longe dessa novidade, ou então rimos a bom rir, pela estupidez e soberba deste(s) indivíduo(s). Eu optei pela segunda hipótese, pois chega a ser vergonhosa a ideia de "novo" Portugal que se defende, pois não é mais do que um saudosismo bacoco dos mitificados feitos dos nossos lusos antepassados, uma glorificação masturbadora de personagens anacrónicos e perdidos na penumbra do tempo, uma sobrevivência ignorante de algo em extinção. Lamento informar, mas o que lá vai, já foi, não volta a ser e Portugal será sempre novo e, em simultâneo, sempre velho. Não tenho dúvidas, este protagonismo mediático foi o clímax de uma existência breve, pois aquilo que aqui se pretende não é uma nova, mas sim uma velha portugalidade.
Não, muito obrigado.

Adenda:
para que não julguem que é conversa minha ou fiada de alguém, deixo aqui duas ligações importantes para perceber ao que esta gente vem...

https://www.facebook.com/novaportugalidade/?ref=ts&fref=ts 
(página facebook nova portugalidade)

http://bomdia.lu/reerguer-a-portugalidade-e-o-dever-da-hora/ 
(um artigo do seu membro fundador(?) - aqui poderão encontrar autênticas preciosidades ou pérolas significantes da ignorância deste rapaz. Leiam, é giro!)

semiótica infantil

Ontem, dia em que se assinalou o dia internacional da mulher, a criança trouxe da escola um presente para a mãe. Em grande excitação entregou-lhe este desenho, dizendo-lhe que era pelo dia das mulheres.


Como não poderia deixar de ser, a mãe ficou toda contente e embevecida pela arte do filho. Ao olhar com atenção para o desenho não percebeu alguns pormenores e pediu ao seu autor para lhe explicar todos os elementos figurados, o que este fez com desembaraço e sem qualquer hesitação. Para além do óbvio, a figura humana é a mãe e o ponto que se vê entre as pernas desta é, disse ele, o umbigo. A mãe, tentando ser pedagógica, quis-lhe explicar que o umbigo é na barriga e não a meio das pernas. Resposta imediata da criança:
- ó mãe, não percebes nada! Se eu fizesse o pontinho na barriga da menina, não era um umbigo, ia ser um botão da roupa... por isso fiz ali e assim ninguém diz que é um botão.

08 março 2017

brinde a nós

Não me perguntem porquê, mas sinto-me invadido por uma alegria, talvez próxima da euforia. Estou sentado, e sozinho, num sofá e essa invasão repentina fez-me lembrar esta bonita e pouco sóbria cantiga. Estou a ouvi-la e a saborear cada estrofe da sua letra. Brinde a nós, a vós e a quem aí vier.

04 março 2017

solilóquio

Ainda que frequente, por opção, as caóticas praças de alimentação da modernidade, procuro sempre um canto ou recanto que me possibilite a sensação, ainda que ilusória, de refúgio desse caos visual, sonoro e olfativo.

nova paragem


Para quem possa estar ou passar por perto. Até lá.

25 fevereiro 2017

possuir

Ao percorrer a paisagem de sempre, por caminhos e canelhas dos lugares que sempre conheci, vou descobrindo as alterações que se vão verificando, aqui e ali, nem sempre felizes ou positivas, mas quase sempre significantes do tempo que passa, ou do desgaste e envelhecimento dos materiais e das pessoas, ou ainda do abandono compulsivo do território. É por tudo isto que o sobressalto é maior quando deparamos com algo como o que está na fotografia... Uma porta com carabelho, bem característica deste lugar, gasta pelo tempo e pelo uso, remendada para a poder perpetuar até um futuro desconhecido e uma imponente soleira, que para além de gasta, partida significa o abandono e a falta de serventia. Uma porta que já não serve nada, nem ninguém, mas ainda assim merece o cuidado da nomeação. Essa eterna preocupação da identidade e, acima dela, a essencialista necessidade de posse da terra e do património, que teima em perseguir o Homem, ainda que seja a posse de um monte de pedras, ou de um pedaço de nada.

23 fevereiro 2017

refúgios

Mesmo em espaços concebidos e destinados para considerável confusão e visível anarquia, como são as praças de alimentação dos centros comerciais, que eu também com regularidade frequento, procuro sempre um espaço, canto ou recanto, mais sossegado. Nem sempre o consigo, ou nem sempre é possível, o que me leva a querer sair dali. Por vezes, mesmo perante o aparente caos visual e sonoro, consigo encontrar refúgios improváveis e, assim, manter-me em paz e sossegado, alheado de tudo que me rodeia.

diálogos maiores

Encontrado, quase por mero acaso, numa feira de livros a preços reduzidos, aquilo que me despertou a atenção foi o nome de Marguerite Duras. Pois bem, por 4,90 € comprei este livro que compila cinco conversas entre a referida escritora e o então Presidente da República Francesa, François Mitterrand. Conversas improváveis pensarão muitos, e pensei eu, pois desconhecia a amizade e a longa história que este dois ilustres gauleses partilhavam, desde que a segunda guerra mundial os uniu na resistência francesa.
A estação de correios da rua Dupin, foi o título escolhido para esta edição, pela própria Duras e conta com um prefácio de Mazarine Pingeot, filha de François Mitterrand. Foi leitura das últimas horas e, uma vez mais, foi com surpresa que percebi a cumplicidade, o respeito e a amizade que se percebe a cada momento das conversas, que ocorreram entre 24 de Julho de 1985 e 16 de Abril de 1986, sendo que a primeira tem por título: "A estação dos correios da rua Dupin"; a segunda: "O último país antes do mar"; a terceira: "O Céu e a Terra"; a quarta: "África, África"; e a quinta: "A Nova Angoulême".
Mesmo tendo em conta a diversidade dos temas abordados e a frontalidade e franqueza perceptível em cada frase ou afirmação, a conversa que mais gostei foi a segunda, o último país antes do mar, que aconteceu no dia 23 de Janeiro de 1986, no Palácio do Eliseu e na qual os dois reflectem sobre o seu país, as suas qualidades, os seus defeitos, o seu ethos;e, parece-me, o seu pathos. Ao ler este diálogo pude perceber como a percepção da realidade social francesa era tão distinta da actual, ou então, como tudo evoluiu desde então e até à actualidade.


Como não poderia deixar de ser, fiz uma pequena ficha de leitura, que agora aqui partilho e onde se destacam alguns dos seus pensamentos:

[conversa: o último país antes do mar (23/01/1986)]
M.D. - A França é um país muitas vezes invadido e outras completamente invadido. (p.46)
F.M. - Mas é um país que absorve, absorve tudo. E com o que absorve faz uma coisa original. Uma catálise é sempre extraordinária. Sabe, o contributo das populações exteriores não me inquieta nada, não tenho de modo algum a impressão de que vamos perder um valor qualquer - aliás, bastante vago - que seria a "alma francesa". A alma francesa também é feita desses contributos e é muito bom que assim seja. (p.46)
F.M. - Há muito poucos excessos racistas em França. Há minorias racistas, mas raramente contaminam a nação inteira... (p.49)
M.D. - Você diz que é o passado comum, a História comum, nos eventos, feitos e ideias, que fazem a nação. Mas eu digo que somos compatriotas porque lemos os mesmos livros na mesma língua que aprendemos. (p.51)

[conversa: África, África (25/02/1986)]
F.M. - Na Palestina, a Bíblia reinventou uma das mais belas paisagens do mundo que se pode, assim, ler duas vezes. A alma tem a impressão de contornar a curva das colinas e de penetrar no segredo da terra e do mundo. Mas reconheço que você também tem razão: é necessário passar pela escrita. (p.98)
F.M. - Agora, é diferente. Há Israel.
M.D. - Sim, agora Israel é temível. É o segundo exército mais poderoso do mundo.
F.M. - Evitemos as comparações com as grandes potências. Mas se a grandeza está, como creio, na resolução, na força do espírito, Israel não está mal colocado.
M.D. - O Ocidente é judeu. Esta faculdade de o homem europeu ser simultaneamente o outro e ele mesmo é judia.
F.M. - O nosso mundo ocidental, sim, talvez. Os outros, os Chineses, os Indianos, já não.
M.D. - Concordo que é unicamente o nosso mundo ocidental. Somos todos judaico-cristãos. É a nossa origem comum. (p.99)
F.M. - Você faz-me pensar nos Carvalhos que eu planto. Serão adultos aos cem anos. Os meus netos não os verão na sua plenitude. É assim. Prever o que se passará depois de nós dá à vida a sua dimensão, uma dimensão individual - eu planto - e colectiva - os outros desfrutarão a doçura da sombra, admirarão a força e a harmonia de uma arquitectura viva. Existe uma filosofia da árvore. (p.103)

[conversa: a nova Angoulême (16/04/1986)]
F.M. - Nada se constrói assente no medo. O que espero da França é que não tenha medo do amanhã, nem da ciência, nem do pensamento, nem das formas. E que ela ouse e persevere no seu apreço pelas considerações universais, que ela se interrogue sobre os outros, sobre si mesma. Isso não proíbe nem as ideias, nem as palavras, nem as acções quotidianas. (p.123)

O encontro de dois vultos maiores da história recente francesa, que eu há muito e por razões diferentes admiro, resultou neste livro, que se apresenta também como um documento histórico e testemunha das experiências vividas pelos dois intervenientes. Leitura que se recomenda.

20 fevereiro 2017

imperdível, apurriar no Alvim

Para aqueles e aquelas que, por distracção ou omissão, não assistiram ao vivo, aqui fica o registo imperdível e para memória futura.
 

16 fevereiro 2017

amor inteiro

Ela diz que se devia conseguir viver como eles vivem, o corpo abandonado num deserto e, no espírito, a recordação de um único beijo, de uma única palavra, de um único olhar para um amor inteiro.
(Margarite Duras, in "olhos azuis, cabelo preto", 2014:53)

14 fevereiro 2017

ao espelho

Eu e o apurriar fomos conversar com o Alvim. Gravámos hoje de manhã, vai passar no próximo dia 17, sexta-feira, pelas 24 horas, no Canal Q. Não percam.

10 fevereiro 2017

solilóquio

Serei um cáustico? Sim, sou. Sou um cáustico e com sádico prazer! Sempre. Qualidade indispensável para uma mente sã.

alma da vinha

Foi algures neste último Verão que eu conheci este vinho. Por um mero acaso, quando fui comprar um maduro branco chamado Porrais, que descobrira uns meses antes e do qual fiquei bebedor, a funcionária da loja aconselhou-me este Alma da Vinha, também maduro branco e com um preço excepcional. Aceitei o desafio apenas porque adorei o seu nome. Trouxe uma caixa de seis garrafas.
Entretanto, o Verão que durou até finais de Outubro, obrigou-me a bebê-lo e a querer sempre mais. Afrutado e bem fresquinho encaixou sempre muito bem nas conversas estivais, diurnas ou nocturnas, que foram acontecendo.
Mais tarde e com a chegada do tempo mais fresco, foi altura de experimentar a sua versão tinta, ou seja, maduro tinto. Boa escolha, também com um preço estúpido e de razoável qualidade, apesar de não ter o mesmo nível que o branco, até porque se exige sempre mais de um tinto, a verdade é que fiquei seu consumidor e, nos momentos quotidianos em que me apetece beber um copo de vinho, é a ele que me dirijo.
Foi por isto e assim que me lembrei de contactar os seus produtores, a empresa Caves do Monte, para me patrocinarem, com maduro branco, o livro que agora lancei. Foi com reforçado prazer que pudemos confraternizar nessa tarde de Janeiro e enrolar as palavras no sabor da alma dessa vinha.

09 fevereiro 2017

caminho certo

EDITORIAL

A nova ortografia vai nua? Vistam-na, depressa!

Depois de a Academia vir a terreiro dizer “o rei vai nu” já não é possível fingir que nada se passa.
Provavelmente nenhum outro país, como Portugal, é tão cioso de querelas ortográficas. As línguas com maior difusão no planeta lidam com o tema de forma simples: aceitam as suas diversidades e seguem adiante. Isso sucede com o Inglês, o Francês ou o Espanhol, sendo que, no caso dos dois últimos, as respectivas academias não se coíbem de propor alterações, mas meramente indicativas.
Os acordos ortográficos são, também, uma originalidade nossa. Depois da revolucionária reforma de 1911, feita a pretexto de “simplificar” a escrita e o ensino, veio o AO de 1945 e, por fim, o AO de 1990 (ressuscitado em 2006 para ser depois imposto em 2011). Pelo meio, houve várias alterações e mexidas de pormenor e tentativas abortadas de fazer outros acordos, alguns até bastante radicais (o de 1986, por exemplo, abolia quase todos os acentos e criava palavras absolutamente ininteligíveis).
Chegámos a 2017 com um quadro muito pouco animador: um comprovado caos na escrita (há cada vez mais exemplos, estão online, e todos os dias são coligidos mais) e as mesmas críticas de sempre, dia a dia ampliadas pela absoluta inércia dos poderes decisórios. A diferença é que, além de vários grupos de cidadãos não terem desmobilizado, a Academia das Ciências de Lisboa veio enfim apontar uma série de erros evidentes e propor a sua correcção. Porquê? Porque a Academia está a refazer o seu Dicionário (até finais de 2018) e quer usar nele uma ortografia digna desse nome. Por isso veio propor um conjunto de “aperfeiçoamentos” que põem em causa muitas opções consagradas no AO.
Claro que, a isto, o ministro Augusto Santos Silva já veio dizer “não”, embora acrescente que “nada está isento nem de crítica nem de possibilidade de melhoria”. Ou seja: está mal, mal continuará. Que as crianças aprendam erros, problema delas. Que pais e professores sejam obrigados a ensiná-los, pouco importa. Isto é uma posição insustentável e mostra como o PS, que revê e reverte tudo e mais alguma coisa, só não revoga aquilo que manifestamente não entende: e isso chama-se ortografia.
O problema é que, depois de a Academia vir a terreiro dizer “o rei vai nu” já não é possível fingir que nada se passa. Políticos e partidos não podem furtar-se à responsabilidade. É preciso agir, de forma consciente (e, como diz a Academia, com bases científicas), abandonando de vez a inércia. A nova ortografia vai nua? Vistam-na, depressa! Ou dispam-na de vez. Mas façam algo digno, por favor.
(Nuno Pacheco, in Jornal Público, 9/2/17)

03 fevereiro 2017

embaraço meu

Foi com prazer que, pela primeira vez, pude declarar na contra-capa de um livro, a minha repulsa pelo acordo ortográfico que está em uso por decreto. É que já em momentos anteriores, leia-se publicações, tentei fazê-lo, mas fui sempre convencido por terceiros a não vincar de tal forma esse meu sentimento, e acabei sempre por remeter para a ficha técnica a minha agonia. Curioso, eu diria mesmo, desconcertante é agora aperceber-me que, afinal, também escrevi palavras segundo a nova regra. Pois foi. Neste exercício masoquista de ler em busca de gralhas e erros, aterrador foi encontrar essas palavras mal escritas. Eu até sei que para muitos leitores não passam de pequenos nadas, mas para quem vincou de tal forma a indisposição face à nova prática, não deixa de ser embaraçoso. Lamento.

apurriado

Não é que seja novidade, ou sequer caso único, mas apurria-me solenemente encontrar gralhas, falhas ou erros nos textos depois de publicados, principalmente porque, apesar de não dispor de uma equipa de revisores especializados, procuro ter cuidado com as revisões que faço dessa escrita e peço sempre a mais do que uma pessoa para ler o que irá ser publicado. Fico apurriado, pois não é desleixo, não é incúria, nem tão pouco ignorância. Fico até com a impressão que na maior parte dessas gralhas o factor humano não é responsável. Enfim.

25 janeiro 2017

e agora, num registo diferente...


Agradecimento ao Luís Silva pela captação das imagens e ao José Lourenço pela edição e produção das mesmas.

24 janeiro 2017

uma década

Dez anos. Tanto tempo.
Aqui estamos a assinalar uma década de existência do meu, nosso, apurriar. 
Quando a ideia surgiu e, depois, se materializou, jamais se imaginou esta duração, esta permanência. Seria o que fosse... Agora que aqui estamos, ao retroperspectivar, percebo a dimensão do que está realizado: a quantidade de textos, imagens, filmes e outros, que fui amealhando dia após dia, ano após ano, nem sempre com a melhor verve, nem sempre capaz de comunicar, mas sempre com o propósito de registar, de manifestar, aquilo que considerei merecedor de umas poucas palavras. Ao reler toda essa produção de dez anos, percebe-se o registo pessoal, muitas vezes confessional, de seu autor. Sendo um blogue pessoal, será compreensível que se enquadre num ambiente diarístico, onde se manifesta um determinado perfil pessoal, psicológico e profissional.
Não entendo este momento como um fim, mas sim e apenas, como um pequeno marco na vida do blogue e, consequentemente, na minha vida. Por isso, aquilo que foi planeado para o dia de hoje, nada mais será do que, considero eu, uma devida e merecida celebração. A reunião de alguns textos em livro, pareceu-me a forma mais óbvia de assinalar a data e, para além disso, a produção deste livro permitirá a recuperação de alguns textos mais antigos, sua revisão e, depois, partilha com outros leitores. Sem qualquer ambição literária, comercial ou pessoal, esta partilha visa chegar, apenas e só, a todos aqueles que fizeram e fazem parte do meu apurriado universo. Por outro lado, terei que o reconhecer, este registo em livro é também a consequência da minha perene desconfiança das imaterialidades virtuais. Tal como já aqui escrevi, a certeza que tenho é que o suporte papel é fiável (tem dado seculares provas), é durável e conseguirá sempre chegar ao depois de mim. 
Tal como sempre aqui se afirmou, não há compromisso ou promessa para o futuro, apenas e só a declaração de disponibilidade para, por livre, espontânea e prazerosa vontade, prosseguir caminho e ir registando a vida possível e anotando o tempo que por nós passará.
Muito e muito obrigado.
O bloguer e autor

23 janeiro 2017

assalto

Eu queria comprar sacos plásticos. Simples sacos de plástico, daqueles básicos, sem qualquer estampado ou trabalho. Apenas sacos de plástico. Estava difícil encontrá-los e um amigo, querendo ser prestável, levou-me a uma grande superfície onde sabia existirem, em quantidade e quantidade e variedade suficiente para eu poder satisfazer a minha necessidade. Solícito, lá me foi mostrando os diferentes tipos de sacos até termos escolhido precisamente um modelo que não tinha referência, nem código, nem mais unidades. Dirigímo-nos a uma caixa para tirar a dúvida e, se possível, pagar. Foi chamado um colaborador que nada mais fez do que ir confirmar na respectiva secção aquilo que nós já víramos. Agradecemos à menina da caixa e regressámos à referida secção com o intuito de escolhermos outro modelo. Irritado com a atitude do tal colaborador que por ali ainda andava, o meu amigo, quando se viu sozinho, pegou novamente nos mesmos sacos (em rolo de 50 unidades) e disse-me para o acompanhar. Dirigiu-se, resolvido e sem hesitações, para a saída, com os sacos metidos num dos bolsos do casaco. Surpreendido pela atitude, segui-lhe os passos, sempre desconfiado e convencido que teríamos sido filmados e que, a qualquer momento, iríamos ser abordados por um corpulento segurança e, assim, apanhados em flagrante delito, ou que os sensores de alarme da loja iriam disparar à nossa passagem. Nada aconteceu.
Já na rua disse-me que eram estes os sacos que nós queríamos e eram estes que eles não queriam vender… ficou toda a gente satisfeita.
Eu só queria sacos de plástico.

22 janeiro 2017

ao espelho


(notícia no Jornal de Notícias de hoje, dia 22 de Janeiro de 2017)

palavras de António Sá Gué

Diz que não se sente escritor embora goste de escrever. E que não se sente capaz de criar uma narrativa imaginada completa e daí optar por este registo onde valoriza o relato e o testemunho.
Esta é a única incongruência que encontro no Luís. ELE é um escritor completo.Todas as obras são introspectivas sejam elas ficcionadas ou não. Esta também não foge à regra. Bem pelo contrário, nela o autor desnuda-se completamente em todos os aspectos da sua vida. Numa obra ficcionada ainda nos podemos esconder atrás das personagens ficcionadas, atrás das palavras do narrador, mas aqui não há hipótese de fuga.
(...)
Este é um Luís Vale que encontrei neste «apurriar» de 10 anos: Canhoto, modesto, culto, nostálgico, socialmente atento e interventivo, sensível, pai e marido extremoso, inconformado, irreverente - ás vezes cáustico, de bem com consigo próprio, pelo menos agnóstico, poeta e leitor compulsivo.
(Valadares, 21 de Janeiro de 2017)

apurriar (2007-2017)


Aqui está ele. Novo rebento, acabado de ser apresentado ao mundo.
Para mais informações e para compra, visite a loja da editora Lema d'Origem - aqui.

lançamento apurriar (2007-2017)

Aconteceu ontem, dia 21 de Janeiro, a partir das 17 horas, o lançamento do livro apurriar (2007-2017). Foi um momento muito bom e de convívio com todos e todas que fazem parte do meu universo e mais alguns amigos. Como não consegui perspectivar todo o evento e porque o meu repórter fotográfico nem sequer conseguiu ligar a máquina, estou a solicitar a todos aqueles que foram tirando fotografias que mas enviem para poder ficar com esses registos e para, também, as poder ir partilhando aqui. Ainda que venham a ser bem mais, deixo aqui alguns instantes, entretanto, já recolhidos.
Agradece o apurriar e agradeço eu aos que fizeram o favor de estar connosco.
Obrigado.




























(agradecido pelas imagens a: Ana Seixas, Cristina Pimentão, Ricardo Vale, Luís Silva e Rui Batista) 

20 janeiro 2017

lembrete

Porque vai acontecer já amanhã, relembro todos, e todas, que serão muito bem-vindos. Dizem que vai ser espectacular e, por isso, apenas por isso, eu vou lá estar. Dizem.

19 janeiro 2017

boicotar leitura

Apesar de acreditar que são necessários e fazem mesmo parte da nossa vida em comunidade, não tenho por hábito partilhar e solicitar boicotes ou manifestações. Eu aceito-os, subscrevo-os e participo neles, mas serão sempre coisas minhas. Também, por muito que me custe, boicotar a leitura, apenas isso, a leitura, é algo que me repele, mas neste caso não posso estar mais de acordo e assim farei. Aliás, já o fiz há algum tempo e aqui dei nota disso, não estou arrependido. Como não existo no universo facebook, roubo o texto do blogue Entre as brumas da memória, solicitando aos meus parcos, mas excelentes amigos que, por empatia ou simpatia, leiam o apelo de Mário de Carvalho e assim procedam. Agradeceremos todos. 

«Possuo cerca de 5000 amigos no FB. Não conheço a maioria, mas, para terem aqui apostado, benevolentemente, é porque são gente de bem. Eu venho então, assim confiado, solicitar-lhes uma coisa que uma já longa convivência consente: POR FAVOR, DEIXEM DE COMPRAR O PÚBLICO. O jornal foi abastardado, transformou-se numa tarjeta panfletária de interesses muito localizados, muito desmascarados, muito à mostra. Todo um fingimento descaradamente foleiro. Não há, a nenhum respeito, a menor confiança naquilo. Um cartaz ou uma pichagem («Vivam os nossos amados patrõezinhos, mai-las suas opiniões!») resolvia-lhes o servilismo, escusavam de tanto aparato de letras e bonecos. Menos 5000 leitores, eu sei, significa pouco. Basta que o engenheiro beneficiário suba o preço de alguns iogurtes e estará compensado. Mas o sentimento de deixarmos de andar enrolados numa farsa, encenada por gentalha menor, também compensa não?» Mário de Carvalho

16 janeiro 2017

aparências

À porta do jardim infantil, cruzo-me com uma criança que vai, pela mão da avó, a caminho de casa. Sem grande cerimónia, dirige-se a mim nos seguintes termos:
- Olá.
- Olá - respondo eu a sorrir.
-Tu és o avô de quem?
Não segurando uma gargalhada, respondi:
- Sou o pai do Rodrigo.
- Não és o avô?!... Então adeus.
- Adeus.

12 janeiro 2017

um estranho

Há cerca de um mês que a minha criança tem vindo a manifestar um comportamento estranho quando está em casa, não querendo que estejamos todos juntos numa mesma divisão da casa, obrigando-nos a estar em espaços diferentes durante o jantar, enquanto brinca e mesmo quando vai dormir. Esse comportamento só se manifesta em casa (nossa ou dos avós) e tem estrangalhado os nervos aos pais e demais familiares, assim como tem rebentado com qualquer tentativa de estarmos em família. Ainda que as consultas com os especialistas estejam já marcadas, a estratégia tem sido tentar perceber o que se passa e procurar devolver-lhe a paz e a tranquilidade no espaço que deveria ser, por excelência, seguro e calmo. Está nos livros que as crianças passam em idades distintas por períodos de maior melindre. Dizem que os cinco anos é uma dessas idades de medos variados, nomeadamente, da morte. Eu e a mãe lá vamos fazendo perguntas sobre os receios que o sobressaltam, mas ele não tem colaborado, até que hoje, quando a mãe lhe pediu para desenhar a causa do seu medo, ele desenhou este boneco, dizendo que tem medo que este estranho entre em casa...

10 janeiro 2017

reza por mim

- Reza por mim Luís Miguel.
Foram estas as últimas palavras que lhe ouvi, deitado no seu leito e consciente do que o esperava. Com a vida a fugir-lhe e numa agonia sofrida, nada mais me disse. Guardei desse derradeiro momento o seu olhar, negro e profundo, mas ao mesmo tempo vago, a caminho de um vazio eterno. Aproximei-me e, debruçando-me sobre ele, despedi-me com um beijo no rosto. Nada mais disse.
Esse Natal, recordo, foi particularmente frio, o que nos obrigava a permanecer dentro de casa e por bem perto do lume. Em casa o ambiente, como seria expectável, era taciturno, ao contrário da agitação, ruído e confusão que, normalmente, acompanhavam os dias de férias e de descanso. O silêncio, apenas entrecortado pelas dores de meu avô, reinava. A única agitação que se fazia sentir era a dos filhos e filhas que, tentando acudir ao pai, se revezavam nas vigílias às horas todas de cada dia. Estranhamente, não consigo localizar a minha avó por esses dias...
Entretanto, o regresso ao Porto e às rotinas quotidianas, no início de Janeiro, impuseram um relativo distanciamento daquela situação terminal, mas não foram precisos muitos dias até sermos confrontados com a notícia da sua morte. O meu avô João morreu assim, ladeado pelos filhos, neste dia dez de Janeiro, faz hoje vinte anos.

09 janeiro 2017

perspectiva de Appadurai

Por manifesta falta de tempo, aproveitei os dias de descanso do final do ano passado para actualizar grandes e pequenas leituras que se foram acumulando ao longo dos últimos tempos. Uma delas foi a entrevista do antropólogo cultural Arjun Appadurai ao P2 do Jornal Público, realizada por Alexandra Prado Coelho, no dia 18 de Dezembro de 2016.
Tendo estado recentemente em Portugal, orador convidado para as comemorações do 25º aniversário da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica de Lisboa, Appadurai, nascido na Índia e a viver nos EUA, onde lecciona Media, Cultura e Comunicação na Universidade de Nova Iorque, falou acerca da sua perspectiva sobre a actualidade mundial e, em particular, norte americana.
Sobre a vitória de Donald Trump nas últimas eleições este antropólogo refere que existiu um hiato entre a passagem de ridículo a real, que foi rápido, e a capacidade de análise e interpretação que não foi assim tão rápida. Para além do choque inicial, há que perceber o que se passou, entender a coligação de muita gente diferente que se criou em torno de Trump... éuma coligação da maioria branca que ultrapassa as divisões de classe e, de certa forma, até de género. Coligação de gente ressentida, desapontada e zangada com as políticas de Obama e cépticas em relação ao liberalismo. Para além disto, houve um grupo de pessoas que odiava o facto de ter um negro à frente do país.
O grande mérito de Trump, diz Appadurai, foi conseguir ligar duas mensagens bem distintas: a mensagem sobre a América e o mundo com a mensagem sobre os brancos na América, o que resultou em algo do género, vamos tomar conta disto outra vez, e a América vai tomar conta do mundo outra vez.
Outro problema identificado por Appadurai foi o desconhecimento por parte dos média e do universo mediático e académico da América profunda, dando o exemplo dos media tradicionais que são mais liberais, assim como muitas das pessoas que marcam o debate público e que estão protegidos desse mundo real e desses sentimentos da população; outro exemplo dado é o das universidades, onde pouco se sabe sobre a vida religiosa dos cidadãos norte-americanos e quando 80% destes são profundamente religiosos. Mas este pensador ainda identificou outro problema, que foi a tendência que existe para muita gente associar os liberais com uma ideia de elite e não uma ideia de massas. Diz Appadurai: o liberalismo não pode ser apenas uma posição por defeito. Tem de ter uma qualidade que se assemelhe ao espírito revolucionário em França.
Em relação a Bernie Sanders afirma que havia aí um verdadeiro potencial e que a verdade é que nos EUA existe uma longa história de medo de alguém que soe como um socialista, pois esta palavra está demasiado próxima do comunismo... Sanders fez um trabalho magnífico ao tornar a mensagem socialista séria e respeitada. Mostrou que se pode criar um movimento sem se ser um demagogo, falando apenas a verdade. Mas foi uma oportunidade perdida.
Por falar em verdade, quando questionado sobre a "pós-verdade", Appadurai refuta a ideia actualmente criada de que se vive num mundo da "pós-verdade", em que tudo se tornou imagem, opinião e perspectiva e tudo não passa de uma batalha de imagens, preferindo ser mais insidioso, ao afirmar que as más notícias estão sempre a empurrar as boas. As más movem-se mais rapidamente.Levanta a questão de como podem as visões liberais, de inclusão, de não violência, ganhar alguma força, face ao desafio retórico sobre como usar os meios de comunicação de massas para mobilizar o sentimento liberal.
Há um padrão global que avança para um mundo mais populista, afirma o autor, reforçando esta ideia com alguns exemplos de líderes de países importantes que têm exercido o seu poder de forma autoritária e populista, tais como na Rússia, na Turquia, na Hungria, nas Filipinas e agora nos EUA. Isto é tanto mais importante quando as questões das soberanias nacionais se deslocou da economia para as questões da identidade e da cultura nacional. Para estes líderes populistas que querem controlar o Estado é muito mais fácil dizer que o jogo está no debate sobre a censura, comportamentos sexuais, direitos das mulheres, minorias e questões de pureza étnica.
Regressando aos EUA e à sua actual situação, Appadurai relembra que aí sempre houve um fascínio pelos homens ricos e de sucesso. É a terra das oportunidades de uma forma extrema e totalmente individualista. É a terra onde equidade significa que pessoas como Trump devem ter uma oportunidade para fazer negócios e dinheiro, e equidade significa que todos devem tentar e que alguém irá ganhar. Justiça significa que não devemos todos estar a lutar.
Aborda também as questões económicas, alertando para a transferência do capital das manufacturas e da indústria, dos bens e dos serviços, para a troca de instrumentos financeiros, o que transforma radicalmente a economia, não havendo escassez e possibilitando uma acumulação de capital sem fim... a dívida é o nosso principal trabalho hoje. Fazemos dívida para que outros possam monetarizar sobre ela.Termina esta entrevista dizendo que temos que encontrar a fórmula de nos apoderarmos desses instrumentos financeiros e de os democratizar. O risco faz parte das nossas vidas de qualquer forma - só que há outras pessoas a transformá-lo em dinheiro. Porque é que não podemos ser nós?

Adenda: o conceito de mediascape, que eu adaptei e uso aqui no blogue, é um conceito de Arjun Appadurai, retirado precisamente da sua obra de referência "Dimensões Culturais da Globalização", que eu li em contexto de mestrado, mas que me tem servido de referência em vários momentos e contextos.

assim sendo...

08 janeiro 2017

gato morto

Aqui está um novo projecto musical muito interessante, digo eu. Para além do mano mais novo, o puto Ramon, que aqui toca as guitarras, o gato morto é constituído ainda pelo Elísio Donas (Ornatos Violeta) no piano e teclas e pelo Paulo Franco na bateria. Ainda que quase de relance, podemos ver o Lopes, o grande Carlos Lopes, a produzir qualidade. Para ouvir bem alto e esperar pelo que há-de vir.

07 janeiro 2017

Mário Soares

Morreu Mário Soares.
Morreu a figura principal da democracia portuguesa, o principal responsável pelo país que hoje somos, o ideólogo do percurso que a sociedade portuguesa seguiu, pelo menos, nos últimos quarenta anos. Independentemente de concordarmos ou não com aquilo que fez e aquilo que disse, ao longo da sua extensa vida pública e política, não restarão dúvidas da sua centralidade nos momentos de decisão e nos meandros do poder. Morreu a figura maior do nosso país, livre e democrático, e acaba de nascer um vulto da nossa história que figurará por muitas gerações na nossa memória colectiva.
Mário Soares nunca mereceu a minha simpatia, nunca me senti confortável com o seu discurso, nunca fui um soarista, nem sequer algum dia votei nele, mas isso não me impede o reconhecimento, a referência e o respeito pela sua vida, pela sua intervenção cívica e política. A primeira recordação que tenho dele é a campanha de 1985 e do seu slogan: Soares é fixe.
Morreu o badochas e, apesar de expectável, este é um dia triste.

04 janeiro 2017

mediascape: masturbação

Hoje foi notícia (aqui) a pretensão de um deputado federal brasileiro criminalizar a masturbação. Eu, perante tal dislate, não sei se ria ou se chore! Mas posso estar enganado, pois face ao que tem sido o passado recente deste mundo, eu ando completamente desfasado da realidade, ou seja, aquilo que eu dou como adquirido pela civilização, afinal não é assim tão consensual e hegemónico, muito pelo contrário, diz apenas respeito a uma pequena minoria.
O que me irrita a tiróide em notícias e factos deste género é haver segmentos da sociedade, normalmente associados a religiões ou com ligações a movimentos religiosos e suas intangíveis morais, que considera que pode regulamentar e ajuizar aquilo que são os costumes, hábitos e práticas dos cidadãos. O seu conservadorismo no que diz respeito aos costumes é obtuso, obsoleto e com cheiro a naftalina, uma vez que regressam sempre a este discurso moralizador do que deve e não deve ser a conduta íntima e pessoal de cada indivíduo. Era o que mais faltava que alguém, que não eu, me impedisse a masturbação. O corpo é meu e o prazer daí obtido será apenas meu, pessoal e intransmissível. Não percebo o incómodo.
Para ser intelectualmente honesto, eu até considero que o mal de muitos indivíduos (gajos e gajas), com quem me cruzo por aí, é a falta de prazer, de satisfação sexual e de libertação da sua libido, ainda que num formato "a solo". Tal como cantavam os Ena Pá 2000: Masturbação para o bem da Nação... (era mais ou menos isto).
Força nisso!

depois de muito esperar, aqui está ela, a LER


Nem no blogue, nem na página do facebook, se encontra a referência a este novo número. Não sei o que se passa, mas para desgosto meu, parece que cada vez é mais difícil publicar a LER.

01 janeiro 2017

a paz como ambição

António Guterres iniciou hoje oficialmente o seu mandato como Secretário Geral das Nações Unidas e no seu primeiro discurso deu ênfase àquilo que poderá, deverá, ser a sua prioridade, a paz. A paz a nível global, regional e local. Grande ambição. Assim seja.

m train

As últimas horas de 2016 e as primeiras de 2017 foram passadas a ler o que faltava do livro M Train de Patti Smith. Já em Agosto escrevi sobre a sua escrita, quando a propósito da leitura do seu outro livro Apenas Miúdos. Apesar de se tratarem de ambientes - espaços e tempos - distintos, percebe-se uma coerência existencial, uma continuidade na escrita, nas reflexões e na sua visão do mundo. Se o primeiro livro me surpreendeu, este apenas veio confirmar a autora como uma excelente escritora. Entre um e outro percebe-se uma evolução ontológica, naquilo que é o processo do seu amadurecimento e de uma certa paz com o seu mundo, de relativa aceitação pelo destino pessoal. Desconheço o resto da sua obra literária, mas gostaria de ler mais e de conhecer o resto do seu universo.