03 maio 2018

Afonso Dhlakama


Acabo de saber, através da RTP3, da morte de Afonso Dhlakama, líder histórico da Renamo - Resistência Nacional Moçambicana - aos 65 anos, alegadamente, vítima de complicações associadas aos diabetes. Pouco ou nada me atrai nesta personagem, mas isso não me impede de perceber a sua importância no período pós-independência, em concreto, no período da guerra civil, enquanto figura máxima do contra-poder, e depois, no processo de pacificação do país, enquanto representante maior do principal partido da oposição.
O problema que se apresenta com o seu desaparecimento, é o vazio imediato de poder, pelo menos simbólico, na Renamo e essa situação pode propiciar um conjunto de consequências, por hora, não alcançáveis ou impossíveis de adivinhar. Esperemos que o bom senso e a razoabilidade impere neste momento dramático para a frágil democracia moçambicana. Esperemos que o desaparecimento de Afonso Dhlakama não signifique, tal como em Angola, a hegemonia totalitária de um único partido.

Adenda: Em 1994, participei nas primeiras eleições livres e democráticas em Moçambique, enquanto membro da equipa (empresa) que deu apoio político - sondagens políticas, marketing, imagem e comunição, sob patrocínio da ONU.

01 maio 2018

nem de propósito

Dia feriado, almoço demorado, com conversa amena até para lá da hora da (desejada) sesta. Sem que nada o fizesse prever, o desafio para uma suecada que foi prontamente aceite. Problema inesperado: baralho de cartas que não se encontra. Solução: ir à loja dos Chineses comprar um. A caminho encontro uma papelaria (portuguesa) aberta e resolvo entrar. Surpresa total ao dar de caras com a funcionária a jogar calmamente às cartas com um idoso, cada um do seu lado do balcão, e que me recebeu de sorriso nos lábios. Eu, surpreendido, apenas atirei: - Nem de propósito! Também quero… dois baralhos de cartas.
Saí e depressa regressei a casa, onde me aguardava uma rica e soalheira tarde de sueca. Há tanto tempo que isto não me acontecia.

18 abril 2018

a escrever


Nem imaginam o trabalho que me tem dado, e o prazer também. Depois de mais de trinta anos sem praticar, ter que entrar no ritmo, decorar acordes e não me enganar nas melodias, tem sido um desafio. As horas que passam e eu, absorvido, a (re)ganhar o gosto e o entusiasmo.

25 março 2018

cidade luz

Há cerca de dez anos que não visitava Paris. Estive agora lá, entre a Disney, o centro de Paris e subúrbios - Poissy, St. Germain e Versailles - durante a última semana. Entre 2008 e 2018 muito aconteceu na e à capital francesa. Aquilo que mais se nota é a preocupação com a segurança, que está bem visível nas ruas, instituições e recintos. De forma declarada e assumida, os militares e polícias passeiam-se pelas ruas e avenidas da cidade e há um controle apertado (eu diria, quase paranóico) em tudo o que é local turístico, monumento ou concentração de pessoas. O medo do terrorismo, real e perceptível, instalou-se definitivamente na vida quotidiana de Paris, dos parisienses e dos seus visitantes, sendo o acesso à Torre Eiffel o exemplo paradigmático desse receio. Aquilo que era um espaço amplo, enquadrado pelos grandes e bonitos jardins a Sul e o Trocadero a Norte, passou a ser um estaleiro de obras, cercado por alta cerca de chapa e com acessos diferenciados de entrada e saída, protegidos por sofisticados sistemas de vigilância e onde nada é negligenciado. Percebo e compreendo a necessidade de tal aparato, mas a verdade é que a experiência turística, ou a do visitante, ou ainda a do próprio habitante é fortemente transtornada por esta paranóica necessidade. É pena.

(na foto é visível a cerca metálica que circunda toda a torre)

19 março 2018

eu também...

Pela primeira vez escrito pela sua mão. Acredito que tenha sido sincero. Obrigado.




15 março 2018

terceiro mundismo

A notícia da execução da vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, na noite passada, no centro da cidade, com quatro tiros na cabeça, é um assassinato político numa cidade policiada por militares e será mais um, apenas mais um, sintoma da grave doença que o Brasil sempre sofreu e que, nem com toda a cosmética de modernidade urbanizada, cosmopolita e global, se consegue disfarçar. O Brasil pertence ao terceiro mundo, pelo menos naquilo que é o seu ethos social, naquilo que são as suas instituições, organizações e estruturas. Como temos vendo a assistir o próprio poder de Estado e dos diferentes níveis de Administração Pública está refém dessas lógicas de poder - da normalização, e até banalização, da corrupção, do culto de personalidade, da lei do mais forte, da subjugação ao poder económico, da subtração dos direitos sociais e da transformação da democracia em algo que poderá ser tudo menos democracia. Lamento muito, mas assim é o Brasil que sempre me deram a conhecer.

desaparecimento de um génio maior

Por falta de tempo, ontem não pude assinalar, com a devida vénia, o desaparecimento de Stephen Hawking, matemático, físico e cosmologista, que faleceu com 76 anos. Nome grande da ciência, a sua vida foi uma inspiração para milhares e milhares de pessoas, não só pelo seu trabalho, pelo seu génio, mas também, e acima de tudo, pela sobrevivência durante mais de cinquenta anos a uma grave doença degenerativa, diagnosticada aos vinte e poucos anos e que lhe foi tolhendo o físico. Mente brilhante, a ele devemos grandes descobertas e teorias no campo da física e da cosmologia. Sem dúvida, uma referência maior que o universo.

13 março 2018

finalmente

Ontem fui ao quiosque para comprar o Le Monde e, para surpresa minha, encontrei a LER. O seu número de Inverno acaba por chegar até nós no seu fim. Portanto, poderemos aguardar pela de Primavera lá para meados de Junho. Paciência. 

10 março 2018

leitura interminável

Acabei por estes dias a leitura dos Diários - diários de viagem, de Franz Kafka, numa edição da Relógio d'Água. Face àquilo que já conhecia deste autor e face à qualidade da sua escrita, confesso que a leitura destes Diários foi uma tarefa penosa e demorada. Apesar de se perceber o génio da sua escrita, a descrição dos seus dias e diferentes momentos pareceram-me entediantes, depressivos e sem grandes motivos de interesse. Kafka, às páginas tantas, afirma: uma vantagem de escrever um diário consiste em ganharmos consciência, com uma clareza apaziguadora, das mudanças a que estamos constantemente submetidos...
Acredito nas suas palavras, mas a leitura do seu diário nem sequer me deixou perceber essas mudanças da sua vida e apenas e só por teimosia mantive a sua leitura.

terapias, energias e fantasias

A Fundação Francisco Manuel dos Santos lançou mais três reportagens da série retratos da fundação. Com eles a colecção chega às trinta unidades. Destes três últimos volumes, quero destacar o trabalho de João Villalobos acerca do poder da energia, quando aplicada sob a designação de terapia alternativa e através das mais variadas promessas de sucesso, de fortuna, de amor e, principalmente, de saúde. Mal o comprei li-o de uma só vez e num ápice, pois veio mesmo a calhar com o início de mais um semestre de Epistemologia. Vou levá-lo para a sala de aulas.
Curioso como nos últimos tempos - e falo de meses ou até anos - assistimos a uma necessidade de salvaguardar a ciência, naquilo que são a sua prática e o seu discurso, do assédio, do engano e da pseudo-ciência que, hegemónica, invadiu o espaço social e mediático. Há muitas décadas que vivemos rodeados, no quotidiano das nossas vidas, de ciência, vertida em tecnologia, gadgets, medicamentos e utilitários, mas nesses últimos tempos, passámos a viver atolados em discursos - marketing e publicidade, e em práticas - diversidade de terapias/métodos/ferramentas, tais como o Reiki e outras que tais...
Mas voltemos a João Villalobos que nos apresenta este seu pequeno texto assim:
As terapias alternativas têm milhões de seguidores, mas de onde veio esta onda avassaladora da energia que promete curar sem tocar? Saber quem são os defensores, os críticos e que argumentos têm é talvez a melhor forma de começar a responder à pergunta. Da Bíblia ao anúncio do cabeleireiro holístico, passando pelo Reiki, e sem deixar de fora o cardápio de anjos e guias espirituais, este é o retrato do fenómeno de que muitos falam mas sobre o qual ainda há muito para contar.

27 fevereiro 2018

mediascape: sistema eléctrico

Jorge Costa, deputado do BE na Assembleia da República, escreve no Jornal Le Monde Diplomatique - edição portuguesa deste mês de Fevereiro, um grande e excelente, porque claro, factual e fundamentado, artigo sobre a privatização do sistema eléctrico, sobre o rentismo garantido associado a essa privatização e sobre os consequentes prejuízos para o estado português e, principalmente, sobre o abuso permanente sobre os consumidores nacionais. A minha vontade seria transcrever todo o artigo, mas é mesmo extenso e tornaria a sua leitura mais difícil, por isso, opto por transcrever apenas as passagens que me parecem mais importantes e pertinentes.

Metade dos agregados com carência económica não consegue ter a casa adequadamente aquecida no Inverno. A principal explicação são os elevados preços da electricidade e do gás, os mais altos da Europa em paridade de poder de compra. Em 2013, no pico da crise, Portugal foi o país europeu com maior número de cortes de electricidade por falta de pagamento, acima da Grécia.
(...)
O que distingue a factura portuguesa é o peso dos encargos administrativos - que o Eurostat também contabiliza nas taxas e impostos. Esses encargos somam um terço da factura doméstica - são os chamados Custos de Interesse Económico Geral (CIEG) - e incluem os subsídios excessivos pagos pelos consumidores às grandes eléctricas.
(...)
Ao longo dos últimos dez anos, os Custos de Manutenção do Equilíbrio Contratual (CMEC) representaram 2500 milhões de euros a cargo dos consumidores de electricidade (300 milhões em 2017). Segundo a Autoridade da Concorrência, os CMEC garantiram um terço dos lucros da EDP antes dos impostos, entre 2009 e 2012. E nada de substancial mudou depois disso.
(...)
O corte dos CMEC esteve previsto pela Troika no Memorando de Entendimento assinado em 2011. O então secretário de Estado da Energia, Henrique Gomes, chegou a encomendar um estudo sobre as rendas excessivas no sector eléctrico. Elaborado pela Cambridge Economic Policy Associates, esse estudo situou o valor total da renda excessiva em 2133 milhões de euros, cobrados aos consumidores só entre 2007 e 2020.
Ante a oposição do ministro das Finanças, Vítor Gaspar - que preparava a privatização da EDP a favor da China Three Gorges e não queria desvalorizar a empresa eliminando estas receitas garantidas - Henrique Gomes não resistiu muito tempo no governo. O seu ministro da Economia e do Emprego, Álvaro Santos Pereira, fez saber mais tarde que a demissão foi festejada com champanhe nas sedes das produtoras eléctricas.
(...)
O peso das rendas pagas à produção renovável aumentou muito com decisões do governo PSD/CDS. Nos anos da austeridade, a tutela continuava a outorgar licenças altamente subsidiadas em processos obscuros, alguns dos quais estão hoje nas mãos do Ministério Público. Mas o escândalo maior ocorreu em 2013, quando o ministro do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia, Jorge Moreira da Silva, adiou o fim da subsidiação das eólicas de 2020 para 2027, fixando novas tarifas garantidas para este período adicional. O negócio consistiu numa ruinosa antecipação de receitas.
(...)
O próprio ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, admitiu que este regime transformou a renda das renováveis em "renda e meia".
(...)
Só o controlo público e corte das rendas excessivas pagas às grandes eléctricas será possível obter os meios para impulsionar novos avanços tecnológicos ou o desenvolvimento da produção solar descentralizada e da eficiência energética.
A estratégia privatizadora resultou sempre em custos crescentes para os consumidores. Desde 2006, os aumentos acumulados da factura eléctrica perfazem quase 50%.
(...)
Quanto aos novos donos, em apenas cinco anos de dividendos já recuperaram um terço do que aplicaram na EDP. Nas palavras de Cao Guanjing, presidente da estatal China Three Gorges, "a EDP foi barata".
Do início da privatização até ao domínio chinês, a porta giratória com a política não parou de rodar. Um ex-ministro das Finanças, Joaquim Pina Moura, presidiu à Iberdrola Portugal, a Endesa tem sido representada por um secretário de Estado da Energia dos tempos de Anibal Cavaco Silva e mesmo António Mexia, presidente executivo da EDP, não dispensou uma passagem pelo governo de Santana Lopes, apesar das suas já vastas ligações políticas. Tem hoje ao seu lado, como presidente não executivo, o ex-ministro das Finanças, Eduardo Catroga, ligado ao grupo Mello e representante do PSD nas negociações do Memorando com a Troika, onde ficou decidida a privatização final da EDP. (...) Além destes casos, outros 24 membros de governos passaram por órgãos sociais da EDP. Conhecer esta promiscuidade ajuda a compreender a força que permite manter no sector eléctrico uma pilhagem tão sistemática e permanente contra a maioria da população.
(...)
A dependência do acesso à energia torna-nos vulneráveis à concentração de riqueza através do sector eléctrico. Nenhuma regulação tem sido capaz de travar esse processo. O poder oligopólio da energia torna-o central no regime liberal, nas orientações da União Europeia, na composição da elite política, nas crónicas mediáticas da "livre concorrência". Ora, a energia não é uma mercadoria como as outras. Para não geral novas formas de injustiça e pobreza, como hoje sucede em Portugal, o sistema eléctrico deve ser tratado como bem comum, recurso estratégico e serviço público.


Fonte: SELECTRA

22 fevereiro 2018

opúsculo

Tendo estado até madrugada às voltas com as Nomeadas Transmontanas, apercebi-me da necessidade de consultar os dois volumes da obra de A.M. Pires Cabral "A Língua Charra - regionalismos de Trás-os-Montes e Alto Douro", publicado pela Âncora Editora em 2013. Depois de uma consulta rápida na internet e de ter verificado o seu preço algo exagerado (porque dois volumes), logo pensei e fiz planos para esta manhã ir à Biblioteca Pública Municipal do Porto para a consultar. Assim fiz, só que nenhum dos volumes, apesar de referênciados, existe no depósito local. Desapontado, saí directo para a FNAC da Santa Catarina, mas também não tive sorte, pois não está disponível em nenhuma loja do país. Frustrado, resolvi tentar a Bertrand no Via Catarina, mas esbarrei na mesma ausência. Porra, nem a querer gastar dinheiro se consegue arranjar os livros. Não desisti. Uma vez na Invicta, resolvi ligar directamente para a editora, em Lisboa, que também não me conseguiu, de imediato, dizer em que livrarias do Porto poderia encontrar esses livros. Disseram-me que iriam averiguar e depois me ligariam. Aguardei, mas entretanto pus-me a caminho da Livraria Académica, do meu quase conterrâneo Nuno Canavez. Foi já quando estava à conversa com ele que me ligaram da Âncora, informando-me que aqui perto só a Livraria Traga-Mundos, em Vila Real, é que tinha esses livros à venda. Muito bem, agradeci a disponibilidade e desliguei. Foi a sorrir que comentei o sucedido com o meu interlocutor e ele, também a sorrir, disse-me para não estranhar, pois esta coisa dos livros é muito esquisita... Ele também não tem os livros que procuro, mas ao ouvir o nome do poeta e autor A. M. Pires Cabral, lembrou-se logo de algo que teria para ali guardado e que lhe tinha sido enviado. Um pequeno opúsculo de quatro faces, formato A5, em papel de qualidade amarelado e cuidado, com um pequeno texto e do qual ele me deu esta cópia, dizendo:
- Este é o texto sobre Trás-os-Montes com o qual me identifico mais. Nem o Reino Maravilhoso me satisfaz tanto. Muito bonito, muito bem escrito. Esta é a minha terra.

Vou ler.

por falar em estupidez humana...

Só podia estar a referir-me a Donald Trump!
Quando tudo aconselhava a uma reflexão, a uma ponderação e a uma decisão cautelosa, mas acertiva, o Presidente dos EUA, a propósito dos tiroteios nas escolas americanas que, normalmente, redundam em autênticos massacres e na chacina de inúmeros inocentes, pronunciou-se favorável a que os professores andem armados nas escolas e suas salas de aula, para proteger os alunos em caso de ataques similares ao sucedido nos últimos dias.
Lindo! Professores a dar aulas, ostentando à cintura o seu revolver, ou com a sua carabina de canos cerrados pousada em cima da secretária.
Espectacular! Como é que nunca ninguém se lembrou desta solução?! Agora é que vai ser!

21 fevereiro 2018

mediascape: o bandido


Este é o Ruben Semedo, jogador de futebol português, actualmente a jogar no campeonato espanhol, ao serviço do Vilarreal. Foi detido, se não estou em erro, sob a acusação de agressão, sequestro e roubo. E pelos vistos, já não é a primeira vez que tem problemas com a justiça, sendo já bem conhecido pelas autoridades espanholas, que só nos últimos quatro meses já o detiveram por três vezes. Sendo alguém que teve e tem acesso ao fantástico mundo do futebol, em que nada lhes falta, estranha-se este comportamento desviante, reincidente e assíduo, com ligações a personagens do mundo do crime e do banditismo. Estranho, estúpido, incompreensível. Enfim, um bandido.

20 fevereiro 2018

mediascape: antes de ser, já não era

Não foi preciso chegar ao 37º Congresso do PPD/PSD para termos percebido a forte resistência e o enorme mal-estar no seio das suas elites da metrópole, por Rui Rio ter vencido as eleições directas e vir a ser o novo presidente do partido. Agora que o Congresso da sua tomada de posse aconteceu, o país inteiro percebeu aquilo que está a acontecer no PSD, percebeu a má vontade, o boicote e as ameaças que o novo líder já enfrenta. Ainda não teve tempo para apresentar uma só ideia e já é questionado, coagido e intimidado pelos seus pares com o cadafalso de 2019, e tudo isto com o beneplácito das televisões, rádios e jornais, quais megafones dessa contestação.
Não que me diga respeito, nem que admire particularmente Rui Rio. Conheci-o bem enquanto presidente da Invicta e detestei o seu desempenho. O Porto, ao contrário do que consta pelo país, não beneficiou com os seus mandatos na presidência da autarquia. Aquilo que me admira é a má vontade declarada de grande parte dos ilustres deste partido - deputados, senadores, opinadores e afins - para com o seu novo presidente. Espero estar enganado, mas ser do Porto vai aniquilar-lhe qualquer possibilidade de sucesso.  Cá estaremos para o verificar, ou não.

mediascape: o despudor

É mesmo à descarada e sem perder a face que Pedro Ferraz da Costa, Presidente do Fórum para a Competitividade, numa entrevista ao jornal i, afirma que face ao crescimento do PIB de 2,7% em 2017, a economia teve uma "performance fraquinha" e que se quiséssemos poderíamos crescer acima de 4%. Mais, a propósito da competitividade das empresas nacionais, teve o descaramento de dizer que as empresas não conseguem contratar porque as pessoas não querem trabalhar. Isto, assim e sem mais. Faltou-lhe dizer que as pessoas não querem trabalhar sem receber a respectiva e merecida remuneração e que os seus pares, seres privilegiados e imunes a qualquer crise, procuram trabalho escravo e sem qualquer direito ou garantia. Assim, ainda bem que não conseguem trabalhadores. Ele deveria era sugerir ao seu clã oferecerem um salário digno às pessoas, com garantias e sem precariedades. Talvez aí houvesse quem quisesse trabalhar. Talvez aí as "pessoas" seriam mais produtivas e todos beneficiariam.

Nota pessoal: não fui mal educado com o senhor, apesar da grande vontade. Ainda assim, quando soube deste dislate, muitos nomes feios lhe chamei. Porque o despudor desta gente, que se julga merecedora de todas as benesses e privilégios, tem que ser combatido com tenacidade e vigor.

que mal pergunte

O que se passa com a revista LER? Está a terminar o Inverno e o seu respectivo número ainda não saiu... Vai sair? Ou o projecto findou? Só para saber, desenganar-me e deixar de andar atrás dela...

08 fevereiro 2018

mediascape: sexo, o dogma

D. Manuel Clemente publicou um documento com algumas normas para regular o acesso aos sacramentos católicos de pessoas em situação irregular, isto é, divorciados e recasados, das quais se destaca, a proposta para uma vida de continência, ou seja, uma vida sem sexo, sem relações sexuais. Espanto?! Nem por isso. Uma Igreja conservadora como a Católica não é capaz, às tantas nem era suposto ser, de acompanhar a evolução das sociedades - o seu modo de vida, as dinâmicas sociais, os desafios dos indivíduos e famílias, etc., etc. - da contemporaneidade, mesmo quando está pejada de indivíduos doentes, tarados sexuais, abusadores, criminosos, que viveram e vivem impunes e sem serem incomodados, beneficiando do silêncio cúmplice da hierarquia religiosa. Hipocrisia é o termo apropriado - "façam o que eu digo e não o que eu faço". Por outro lado, só mentes perversas, bolorentas e completamente ausentes da realidade da vida das pessoas, podem acreditar num dogma chamado sexo e que uma existência celibatária é, em si, uma felicidade, uma condição humana superior, ou o atingir de um nirvana qualquer.
Alguns estarão já a dizer: lá está este a implicar com a Igreja. Não, não estou. Mas o facto noticiado é de tal forma ridículo que me era impossível ficar quedo e mudo sobre o assunto. Tal como o teólogo Anselmo Borges, citado pela mesma notícia, afirma: Não faz sentido admitir que estão casados, por um lado, e pedir-lhes que não tenham vida sexual, por outro. É contra a natureza humana. Ao impossível ninguém é obrigado.
Resta-me uma dúvida: qual será a percentagem de fiéis católicos praticantes que aceitam para as suas vidas os preceitos sexuais da sua religião? Gostava de saber, apesar de ter uma ideia muito clara sobre os valores residuais dessa percentagem.
Depois admiram-se do esvaziamento das igrejas, do afastamento dos jovens e menos jovens, da diminuição do número de baptizados, casamentos e até celebrações fúnebres religiosas. Como não?!

28 janeiro 2018

fascínio biográfico

Se não estou em erro, terá sido na noite do dia 18 de Janeiro, já bem tarde, que dei de caras com um documentário sobre o poeta Eugénio de Andrade na, tão mal tratada, RTP Memória. Foi num zapping,enquanto procurava vontade de me ir deitar, que encontrei esse testemunho datado de 1992 e gravado na cidade do Porto. Pelas imagens consegui identificar quase todos os lugares por onde o poeta existiu na Invicta. Tendo percorrido toda a sua vida e todas as cidades por onde passou, a narrativa da sua vida acaba por ter na cidade do Porto o seu maior capítulo, pois foi nela que viveu entre 1950 e o dia de sua morte, 13 de Junho de 2005. Na altura, em 1992, Eugénio de Andrade estava já reformado e grande parte do seu tempo era passado em sua casa, então na Rua Duque de Palmela.
Mais do que a sua obra poética, que conheço mal, a mim fascina-me a dimensão biográfica que, normalmente, fica na sombra destes vultos das artes. Dei comigo, qual voyeur, a tentar ler as lombadas dos livros que aparecem por trás do poeta e que com certeza ele um dia leu, a espreitar para os sofás e as poltronas que se vislumbravam, a tentar conhecer a sua secretária e a sua máquina de escrever. O fascínio de procurar e encontrar pequenos e ordinários caracteres do quotidiano e comuns a milhares de pessoas, nas vidas destes génios literários.
No dia seguinte, portanto, dia 19 de Janeiro, tive que ir ao Porto e ao passar junto à Biblioteca Municipal do Porto, junto ao jardim de S. Lázaro, lembrei-me que a Duque de Palmela era ali bem perto e, sem hesitar, lá fui eu à procura do número 111 dessa artéria. Logo a encontrei. Encostei o carro como pude e fui-me por em frente do prédio, do outro lado da rua. Nenhum sinal de vida no 2º andar onde ele vivera, as persianas estavam a meio e mesmo no resto do prédio não percebi qualquer movimento. Ali fiquei uns minutos num estado contemplativo e reflexivo. No fim e com muito pudor tirei esta fotografia ao prédio. Entretanto, aproveitando as maravilhas da tecnologia televisiva, já voltei a ver o documentário.

19 janeiro 2018

novo projecto

Pois é, ano novo, vida nova, como se costuma dizer. Na verdade, a ideia tem já vários meses e foi sendo desenvolvida ao longo do ano de 2017. Trata-se de uma pequena organização que denominei "A EIRA" e que tem por objectivo trabalhar, estudar e reflectir sobre os caracteres sociais e, acima de tudo, culturais. Perspectivar os territórios e seus agentes naquilo que foram, são e serão, as suas dinâmicas e manifestações culturais.
A percepção de que que existem lacunas no pensamento e, principalmente, na reflexão cultural, foi uma das motivações principais para este empreendimento.
Criei um espaço na internet, como que um cartão de apresentação, que poderão visitar em www.aeira.org - para conhecer.

11 janeiro 2018

legalização da canábis



Foi hoje discutida na Assembleia da República um projecto do BE e do PAN para a legalização da canábis com fins medicinais. Acontece que já se sabia que o PSD, o CDS e o PCP iriam votar contra. Talvez por isso, o BE e o PAN, antecipando-se, propuseram que a proposta baixasse à especialidade, em sede de comissão de saúde, sem votação. Aquilo que me parece importante, para além da qualidade e defeitos das propostas hoje apresentadas, é a evidência científica mais do que consensual do uso da canábis como terapia para algumas doenças crónicas ou terminais. Não sou consumidor da substância, apesar de lhe achar alguma piada, mas nada abstenho ao seu uso e consumo, seja para fins terapêuticos, seja para puro e simples prazer e recreio. A sua legalização, se mais não fizesse, impediria o tráfico e a enorme especulação do produto. Tal como noutras matérias ditas fracturantes (aborto, casamento homossexual, etc) a hipocrisia de muitos daqueles que nos representam é gritante. Fartam-se de consumir todo o tipo de drogas, mas tornar isso lei e acessível a quem mais precisa delas não. Isso não. É pecado.

frenesim

Diz-me quem sabe, porque o tem sentido no seu serviço, que a função pública - administração central e administração local - anda num frenesim louco por causa do descongelamento das carreiras da função pública, inscrito no orçamento de estado de 2018, e com entrada em vigor no passado dia 1 de Janeiro. São manifestas as incapacidades dos muitos e diversos serviços em conseguirem actualizar todas as situações, num tão curto espaço de tempo, mas a está a ser feito e tem efeitos retroactivos desde o dia 1 de Janeiro.
Não deixa de ser um facto interessante e digno de atenção, pois não só reflectirá o sentimento desses muitos cidadãos, como releva a importância social desse instrumento que são as progressões nas carreiras. Congeladas há muitos anos - há pessoas com a carreira congelada desde 2007/2008 - as carreiras eram um dos atractivos para quem ingressava na função pública e, como será fácil entender, toda a gente gostava e queria progredir na sua carreira profissional, pois não só lhe permitia ter um incremento no salário, como acumular melhores condições para uma reforma futura. Depois destes anos todos em que tudo esteve estagnado, de muita resignação e desânimo, compreensível é a ansiedade e a excitação dos funcionários públicos para saberem da sua situação: se têm ou não direito a uma actualização, leia-se progressão, na carreira.
A política de reposição, prometida por este governo, está a concretizar-se e este descongelamento é um momento importante. Portanto, senhores e senhoras, não se esqueçam de nas próximas eleições votarem no CDS!

mediascape:importunar

« Nous défendons une liberté d’importuner, indispensable à la liberté sexuelle »

Contra um determinado feminismo que hoje impera por todo o lado, um colectivo de cem mulheres francesas assinaram um manifesto publicado no jornal Le Monde. Dessas signatárias destacam-se várias escritoras, jornalistas, pensadoras, cineastas e actrizes, sendo o rosto mais mediático o da actriz Catherine Deneuve. O documento que se afirma contra esse feminismo que "odeia os homens" e que confunde uma violação com o galanteio ainda que desajeitado ou insistente, teve impacto, não só em França, naquilo que é a opinião publica e publicada, e as reacções fundamentalistas desse tal feminismo não se fizeram esperar.
Finalmente, alguém teve a coragem para desconstruir esta irritante e estúpida tendência feminista, que se afirma tão moderna, actual e politicamente correcta (esse dogma da superficialidade), manifestando-se de forma tão radical e extremista, que acaba por incorrer nos mesmos erros daqueles que recrimina. Sim, sou defensor da igualdade de géneros (deveres e direitos), nunca me considerei machista, mas também não consigo aceitar este novo discurso de gajas ressabiadas, complexadas e descompensadas. É que ser homem e ser mulher não é a mesma coisa, e a diferença não é só biológica - genética, fisiológica, psicológica, é também cultural e social - hábitos, costumes, práticas, rituais, rotinas. Por muito folclore e ruído que esse tal feminismo faça ou venha a fazer, a diferença permanecerá, sem que isso tenha obrigatoriamente que ser um facto negativo.
Somos diferentes e ainda bem.

09 janeiro 2018

intangível

Nos seus Diários de Viagem, Franz Kafka, às páginas tantas escreveu:
...ofuscada de imediato com a meia-luz do quarto, quis esconder depressa a cara atrás das mãos, mas pela janela, diante de cujo caixilho a neblina que ascendia da iluminação da rua finalmente se detinha sob a escuridão. (página 69)
Agora que os estou a reler, fixo-me novamente nesta frase, e desta vez por causa de uma nota de margem que um dia lá registei. Por mais que a leia não consigo vislumbrar o cenário que ele pretende descrever. É para os meus sentidos e sensibilidade impossível atingir tal paisagem.
A nota, a lápis, que lá escrevi, diz: que puta de frase!

decepção

Desde que descobri que se vendiam livros no OLX, passei a frequentar assiduamente e a pesquisar frequentemente por livros que quero ter e à descoberta de bons "negócios". Durante o ano de 2017 terei comprado, através desta plataforma, várias dezenas de livros que, na sua esmagadora maioria, estavam em excelente estado de conservação. Por assim ter sido, foi uma desilusão quando abri o último livro que lá comprei e que me chegou às mãos por estes dias. Trata-se de um pequeno livro chamado "A Sociedade Transparente" de Gianni Vattino, que sem saber se teria interesse ou não, o comprei porque era quase de graça e publicitava-se em bom estado. Não está. Todo sublinhado, com anotações a caneta por todas as margens e com parágrafos inteiros pintados a verde florescente, transformando-os em passagens importantes do texto, quando na realidade não o são. O estado lastimável do seu miolo fez-me lembrar os estudantes que, ávidos de conhecimento, quando a ler apontamentos, fotocópias de artigos ou mesmo livros, sublinham e sublinham quase tudo... ridículo e contra-producente.
Queria incluí-lo no meu acervo, mas estou a ponderar se o devo ou não fazer. Foi a primeira vez que tal me aconteceu, o que me levou a suspender as visitas quase diárias à plataforma e a suspender alguns negócios que estavam em andamento.

solilóquio

Sempre gostei de gostar de café; agora, detesto não gostar de café.

03 janeiro 2018

ctt, uma vez mais!

Aquilo que está a acontecer nos CTT é uma vergonha nacional. A sua privatização deu nisto - um conjunto de accionistas única e exclusivamente preocupados com os seus lucros e a desprezar o serviço público de distribuição postal a que está obrigado. Já aqui escrevi sobre esta privatização, mas agora, com a notícia do fecho de vinte e dois balcões por todo o país, maioria dos quais em concelhos do interior, temos a prova das verdadeiras e únicas intenções da empresa. Uma vergonha que deveria merecer a intervenção do Estado e a reversão da sua privatização, regressando o serviço público para o Estado, de onde nunca deveria ter saído. Por outro lado, fica também aqui manifestada a verdadeira essência do sector privado quando consegue a adjudicação de qualquer serviço público. É por este exemplo, como o da ANA, ou o da REN, que acredito que deve ser o Estado o dono destes sectores estratégicos nacionais. Sem hesitações, contemplações, ou qualquer receio, o Estado deve ser muito mais do que um simples regulador ou supervisor.

31 dezembro 2017

designated survivor


Aconselhadas e partilhadas por um amigo, trouxe para estes dias de retiro transmontano duas séries televisivas. A primeira foi a sétima temporada de Californication, cujos doze episódios vi de uma vez só e que é a mais brilhante série alguma vez vista por mim; vi e guardei todas as suas temporadas. Mas a surpresa foi a serie Designated Survivor, cuja primeira temporada tem vinte episódios e nos conta a vida de um presidente dos EUA independente, não eleito, mas nomeado depois de todo o governo e altos cargos do sistema de estado terem sido mortos num atentado. Estou completamente agarrado e tenho consumido 3 a 4 episódios por madrugada. A série conta com Kiefer Sutherland no papel principal, de presidente dos EUA nomeado, e com a talentosa e belíssima Natascha McElhone no papel de primeira-dama. Já vi onze dos vinte episódios e sei que irei terminar nas próximas horas. Satisfação suplementar, saber que haverá segunda temporada.

ciclos que se renovam

Chegados a mais um final de ano e a sensação que se repete. Um ano que termina para dar lugar a um novo, numa passagem de testemunho que em nada se distingue de uma qualquer outra noite passada, a não ser o ruído humano, sempre demonstrativo da carência individual e, depois, colectiva de festa, de ânimo, de alegria. Talvez ainda significativo da consciência e nostalgia da perda que é a passagem de cada ano para a vida de cada um dos seres humanos. Dois mil e dezassete acaba hoje e vai-se juntar de imediato à soma de anos que já vivemos, transformando-se em mais uma memória temporal que poderemos num presente futuro evocar ou relembrar.
Ainda que abstraídos dessa dimensão temporal, iremos entrar num novo ano, num novo ciclo que, por estes dias, fazemos questão de ponderar, de perspectivar ou antecipar. Sobrará a eterna questão de sabermos quantos mais ciclos poderemos experimentar. Venha 2018.

é, pois

...Bem diferente é o caso daqueles (intelectuais) que não intervêm ou nunca intervieram, mais por subestimarem as suas aptidões, por timidez ou por falta de oportunidade do que por atitude sistemática. Estes fazem falta, sabem-no, mas quase sempre revelam dificuldade em descobrir o meio adequado para intervir.
(...)
Sabemos do pavor que a tantos "intelectuais" inspira a palavra "organização". Como se a circunstância de integrarem uma organização, por pouco formal que seja, lhes coarctasse a expressão ou lhes condicionasse o pensamento.
(...)
Segundo se diz, o que menos se espera de um "intelectual" é o conformismo.
(Arlindo Fagundes in Le Monde Diplomatique)

28 dezembro 2017

a minha consoada

Já passaram alguns dias e a dieta foi já reposta. Esta foi a consoada em que, pela primeira vez, recusei qualquer iguaria ou confecção diferente daquela que toda a família reunida iria comer - bacalhau e polvo cozidos com couve, batata e rabas - e como não gosto de bacalhau cozido, nem valorizo o polvo, foi noite de quase não comer. Em relação aos doces, nem vale a pena referir, pois nem nesta, nem em qualquer outra consoada, eles existem para mim. Portanto, o Natal e, em particular, a consoada, não é tempo de perdição, nem de consumos excessivos, muito pelo contrário, é tempo de alguma privação, devidamente compensada, claro está, pelos volumosos consumos de vinhos e afins. Bem haja.

27 dezembro 2017

mediascape:rentismo

Aproveito estes dias de vazio, de horas repletas de nada, para ler, ler e ler. Guardei até estes dias o Le Monde Diplomatique e agora, tal como é frequente, encontro excelentes textos e artigos que me fazem reflectir. Como logo no editorial, Sandra Monteiro escreve a propósito do adiamento da proposta de criação de uma contribuição de solidariedade sobre os produtores de energias renováveis:
Configurando um caso de rendas excessivas, nada justifica a manutenção dessas condições de excepção. A criação de uma sobretaxa viria apenas mitigá-las. Nenhuma preocupação ecológica pode justificar este privilégio. (...) Ela apenas garante lucros estratosféricos, e quase sem riscos. Entendeu o governo que havia que estudar melhor o desenho da medida e as consequências que ela poderia ter sobre potenciais investimentos na economia, em particular na compra de dívida portuguesa, e sobre a eventual litigância na justiça. Será de acompanhar com o maior interesse a evolução dessa reflexão e desse estudo. Será mesmo um acto fundamental de cidadania. Porque o que dele resultar será decisivo para se compreender se os Estados e os poderes políticos nacionais têm (ou não) capacidade para defender os seus povos para lá do simples apagar de fogos a seguir à fase aguda de cada crise. Isto é, será um laboratório muito útil para se concluir se é possível afrontar o parasitismo rentista de empresas transaccionais sobre os Estados nacionais, mesmo em sectores tão estratégicos para a economia como a energia. (...) Muito útil, por fim, para se compreender que respostas dará a União Europeia a Estados, como o português, que para saírem desta armadilha da dívida e do rentismo, tenham de colocar em cima da mesa propostas robustas de reestruturação da dívida pública.
(negritos meus)

20 dezembro 2017

há mais de trinta anos...

Amigos desde sempre e, sei, para sempre. Pena é não reunirmos mais vezes. Hoje e depois de uma rica francesinha e de uns divinais rissóis de carne, no Capa Negra.

eu quero

- Pai, eu quero ir para a escola do Porto!
- Escola do Porto?! Que escola?
- Do futebol.
- Porquê?
- Para depois ir dar as bolas aos jogadores (ser apanha bolas).

16 dezembro 2017

clave de sol


Chave para a decifração dos caracteres musicais inscritos nas linhas de um pentagrama, permite aos leitores identificar a ordem e a sequência das notas a executar. Ao recordar aquilo que um dia aprendi e ainda hoje consigo ler, dou comigo, sem qualquer razão ou propósito, a esquissar os seus contornos em qualquer pedaço de papel.
Independentemente da sua qualidade musical ou técnica, que sei relativa ou discutível, na verdade, a sua presença gráfica sempre me foi aprazível ao olhar e, não estarei a exagerar ou generalizar se afirmar que será o símbolo musical mais universalizado, mais denotativo e significativo, para doutos ou leigos, nessa arte de escrever e ler uma pauta musical.
Ao percorrer os inúmeros cadernos de apontamentos, agendas, folhas soltas e cadernos escolares, que ao longo da vida preenchi, é o símbolo gráfico que mais encontro rabiscado. Desde muito cedo, talvez desde que o descobri, aprendi e percebi, passou a ser o símbolo que mais rabisquei e que gosto rabiscar. Se me pedissem para eleger o meu símbolo, não hesitaria em o destacar de todos os demais.

quando eu for grande...

- Mamã, eu quero ser professor.
- Ai sim?!
- Sim, quero ser professor.
- Queres ensinar os meninos a escrever e a ler?
- Não Mamã. Quando eu for professor vou mandar os meninos brincar todo o dia, de manhã até à tarde e eu também vou brincar com eles.
- Brincar?!... Então e estudar?
- Não. Os meninos não querem isso, querem é brincar. Brincar é que é fixe.

08 dezembro 2017

jawline

- what the fuck is that?!
Esta foi a minha primeira reacção quando ouvi a minha filha referir-se às pessoas que por nós passavam. Ela, contemplativa, estava a apreciar os rostos daqueles e daquelas que desfilavam à nossa frente, referindo-se, em concreto, à perfeição dessa jawline(?), ou se tinham ou não essa jawline(?). Mas que raio de conversa, disse-lhe eu. Ela ainda tentou explicar-me, mas a minha surpresa por tal observação e especificidade do critério para julgar a beleza humana, deixou-me abismado. Segundo ela, os rostos bonitos e perfeitos são aqueles que têm essa jawline(?) bem vincada e visível no rosto. De imediato, a minha reacção foi tentar rebater essa ideia, dizendo-lhe que é natural que só os rostos bem vincados, magros e esguios, poderiam manifestar essa característica, pois os rostos mais redondos e com mais carnes, ocultam os recortes da estrutura do crânio.
Pouco tempo depois já estava eu em busca dessa jawline(?), do seu significado, origem, etc. e afins. Pois bem, jawline significará "queixo", ou "linha do maxilar" e é um termo relativo à anatomia humana. Pelo que percebo, o ideal será ter essa linha bem vincada no rosto, adquirindo assim uma forma triangular.
Caramba, com toda a certeza, este conceito não é novo, mas foi preciso a minha filha adolescente se referir a ele, para eu aprender algo que jamais me chamara a atenção num rosto. Quanto a mim, ignoto, a beleza de um rosto continuará a ser avaliada por outros caracteres fenótipais, tais como os olhos, a boca, o cabelo, o sorriso, os lábios, o olhar. E uma cara laroca, ainda que rechonchuda, continuará a ser uma cara bonita, admirável e consumível.

Segundo o critério da jawline, a imagem superior apresenta um rosto mais bonito, mais perfeito, do que o rosto da imagem inferior. Eles lá sabem.

07 dezembro 2017

crescendo

Depois de vários meses sem pesquisar ou procurar qualquer livro no OLX, regressei por estes dias e fui encontrar este lote de dezasseis revistas "Sociologia", editadas pela Faculdade de Letras do Porto, aqui bem perto em Vila Nova de Gaia e pela módica quantia de, pasmem, 6.90€, ou seja, a sensivelmente 43 cêntimos cada uma. Já cá estão no acervo, registadas, bem guardadas e estimadas.
Podem sempre vir mais.

04 dezembro 2017

para odiar

O novo rosto do ódio para os europeus, pelos menos para aqueles que estão sob o jugo do Euro e sua zona e, de entre estes, para todos os do Sul e mediterrânicos, será de agora em diante o nosso Mário Centeno, até ao presente nosso ministro das finanças.
Não consigo afastar do pensamento aquele seu ar apalermado, de perfeito desconhecido e sem créditos para quase todos nós, quando foi nomeado por António Costa. E agora, este burocrata luso chega ao topo da hierarquia das instituições europeias, e logo, por curiosidade, à instituição que representa o pior e o menos democrático que a Europa, esta Europa, tem.
Depois, falta referir este provincianismo português de afirmar a importância para o país, para todos nós enquanto portugueses, da eleição de um português para um cargo internacional. Alguém me consegue explicar quem, para além do eleito, beneficia com essa eleição?! O que beneficiou Portugal por Durão Barroso ter sido, durante dois mandatos, presidente da Comissão Europeia? Eu não percebi nenhum benefício ou vantagem para Portugal. Enfim, a mim tanto me faz que Mário Centeno seja ou não presidente do Eurogrupo, mas detesto este parolismo luso.

30 novembro 2017

"vida malvada"


Hoje tinha que aqui vir e escrever algo.
Estava a conduzir quando, na Antena 3, a locutora Isilda Sanches com a voz completamente embargada deu a notícia da morte de Zé Pedro, guitarrista dos Xutos e Pontapés. A comoção apoderou-se de tal forma da locutora que foi perceptível o seu chorar, o que, para além de demonstrar bem o seu sentimento, obrigou-me a um embargar da voz e a um estremecimento emocional.
Era sabido que o Zé Pedro estava doente, mas esta notícia apanha-nos sempre a todos de surpresa. Aqui há dias, o Tim deu uma entrevista ao Expresso (?) ou a outro jornal, que eu li e logo suspeitei, nas suas palavras, o estertor do amigo. Hoje chegou a confirmação.
Aproveito este momento de perda também para mim, para recordar a minha relação com a música dos Xutos. Se a memória não me atraiçoa, foi algures em 1987, aquando do lançamento do disco "Circo de Feras", que ouvi e registei o som da sua música. O single "os contentores" apareceu-me nos meus 13/14 anos e marcou. Motivou, se não estou em erro, o pedido persistente aos pais para comprarem esse disco em vinil - julgo, o primeiro que escolhi/escolhemos. A verdade é que ainda hoje, ao ouvir as músicas desse álbum, consigo acompanhar sem falhas, praticamente, todas as músicas do seu alinhamento. Ao contrário do que muitos dizem, a carreira dos Xutos não foi sempre pautada por boa música, considero que há períodos e alguns que nem sequer os dignificam, mas isso sou eu a dizer. O algum "Circo de Feras" foi o primeiro, foi por ele que conheci o universo dos Xutos & Pontapés, o resto veio depois e foi, na sua generalidade bom. É difícil escolher a minha música preferida, prefiro destacar algumas daquelas que mais me marcaram: "remar, remar"; "barcos gregos";  "homem do leme"; "sémen"; "Torres da Cinciberlândia"; "Esta cidade"; entre tantas, tantas outras.
Os Xutos foram, sem margem para dúvida, a banda cujos concertos eu mais assisti, por todo o país e mais do que uma vez em muitos sítios. A maior banda de música portuguesa perdeu um dos seus rostos e a música portuguesa ficou bem mais pobre. Mas isso só mais tarde o iremos perceber.
Do Zé Pedro recordo, principalmente em palco, o largo sorriso para todas as plateias e os largos movimentos de braços depois de mais um acorde na sua guitarra.
De tudo o que eles fizeram de tão bom, não tenho dúvidas em destacar "A vida malvada" como a música deles que mais me marcou e hoje foi, instantaneamente, a música que mais recordei, talvez porque, tal como eles cantam, a vida é sempre a perder.

27 novembro 2017

tempero

Conversa entre dois amigos, por estes dias, escutada num bar de hotel.
- Ela sempre foi assim... de sair... da noite... e de grande andamento.
- Pois é... É mesmo... Deus me livre de uma faneca dessas... mal por mal, velha por velha, prefiro a minha, que já está temperada a meu gosto.

23 novembro 2017

mediascape: curiosa indignação

A propósito da possível mudança da sede do INFARMED para a cidade do Porto, o que implicaria a transferência de grande parte dos seus trabalhadores, assistimos a um autêntico terramoto nos media e, principalmente, nas redes sociais. A indignação por, apenas, se ter avançado com essa possibilidade, foi generalizada e não deixa se ser curioso e até engraçado perceber o incómodo de quem orbita exclusivamente na capital por alguém ter ousado transferir um serviço da omnipotente Lisboa para a província.
Para além dos legítimos interesses dos trabalhadores directamente implicados nesta questão, não percebo o ruído, até porque nunca vi esta gente tão iluminada e tão cosmopolita indignarem-se quando os serviços públicos, tais como as finanças, a segurança social, os centros de saúde, etc., foram fechando por todo o país, que não Lisboa, obrigando igualmente os seus trabalhadores a deslocarem-se para outras cidades, ao longo dos últimos anos/décadas. Como é? Em que ficamos? Pois é, desde que não seja em Lisboa e arredores, está tudo bem. É sempre longe demais e é território desconhecido para essa "pseudo-elite bem falante" que se passeia pelas avenidas do twitter, facebook e afins, que nunca quis saber do resto do país, nem da sua desestruturação.
A mim, tanto me faz que a sede do INFARMED esteja aqui ou acolá. Não é assunto relevante e só o trago aqui por causa dessa curiosa indignação.

18 novembro 2017

melancólico mas bom

Meia-noite e meia, estação de comboios de Valadares, à espera da minha adolescente que regressava do Dragão. A rádio estava sintonizada na TSF e, a determinado momento, começo a ouvir um som envolvente, melodioso e melancólico. Desconhecia de todo o som, nem sabia quem estava a tocar. No final da música, Pedro Adão e Silva, anfitrião do programa, informou que eram os Cigarettes After Sex. Mal cheguei a casa, ávido, tratei de procurar e passei o resto da noite a ouvir esta banda, para mim perfeitos desconhecidos, e gostei. Sim, é um pop melancólico, mas soa bem. Soa a simples e melodioso. Gostei muito deste "Apocalypse".

16 novembro 2017

solidão e criatividade

Porque há uma diferença entre solidão e isolamento. A solidão é um estado criativo, e esse estado só me é cortado pela banalidade. Estou sempre em solidão, de noite e de dia, na multidão ou não, e quando deixo de estar é por causa de algum desvio. E aí recolho-me imediatamente. Preciso de manter permanentemente este estado criativo, interior, de solidão. (...) Não é fácil aguentar esta vida interior durante tantos anos sem ceder...
Luís Oliveira, editor da Antígona, in Revista LER, Outono 2017.

14 novembro 2017

verbo: proibir

A esquizofrenia social em que as nossas sociedades, actualmente, vivem, determinou que se chegasse à normalização do radicalismo, ou como se costuma ouvir e ler por aí, ao novo normal. É verdade: um dos verbos mais servidos e reivindicados é o proibir. Paradoxalmente, é em sociedades livres e com democracias adultas e estabelecidas, que verificamos esta apetência por coagir, limitar, coactar, controlar, as liberdades mais básicas dos indivíduos, condicionando a cidadania e, depois, as próprias democracias.
As redes sociais e os órgãos de comunicação social a reboque, e pelas primeiras influenciados, são o locus por excelência de todas as proibições, manifestadas grandemente através das múltiplas e variadas indignações que povoam e colonizam esses espaços virtuais, em processos distópicos, exclusivos e disruptivos, sem aparente censura, controlo ou vigilância.
Apetece decretar: é proibido proibir!

13 novembro 2017

para o Outono

Agora que o Outono está a chegar ao fim, mas quando ainda parece que estamos em finais de Verão, chegou às bancas a revista LER de Outono 2017. Para as próximas horas, que se querem frias e chuvosas.

07 novembro 2017

que mal pergunte

O que é a Websummit? É que estive a ver algumas imagens da abertura do evento que contou com o Primeiro-Ministro, o Presidente da Câmara de Lisboa, com António Guterres e com a participação surpresa do físico Stephen Hawking e não percebi. Para além do enorme show off e aparato tecnológico, o que aconteceu? Milhares de participantes com bilhetes a 1500 euros (?!), muitas caras larocas e sorridentes selfies, para quê e porquê? Depois ouvi o nosso Primeiro dos ministros falar inglês e não quis acreditar... depois ouvi Fernando Medina, com um enorme sorriso, afirmar: "Há 500 anos foram os navegadores, hoje são vocês: os empreendedores" e comecei a rir desbragado, enquanto mudava de canal.
Websummit o que significa? Quer dizer propriamente o quê? Alguém me explica como se eu fosse muito anacrónico, atávico e misantropo? Palavras (e adjectivos) estas tão bonitas por comparação com este newspeak geek, nerd e aparvalhado - veja-se a cara de felicidade aparvalhada nos rostos daqueles que por lá andam, tais quais crentes de uma qualquer seita religiosa, quiçá pelas ilusões virtuais que por lá são vendidas. Desculpem-me os crentes, mas quanto mais sei sobre estes eventos, cuja mais-valia se resume à dinâmica turística e hoteleira da cidade de Lisboa, mais realizado me sinto ao dedicar o meu tempo e saber a perscrutar e indagar sobre o passado e aqueles que, de uma forma ou outra, conseguiram deixar a sua marca, o seu trabalho, nessa linha invisível e sem fim, à qual chamamos tempo.

escritores russos


Camaradas leitores, faço autocrítica: na verdade vim em turismo burguês com a minha mulher Inês, pagando - como se costuma dizer - do nosso próprio bolso, mas aproveitando a época baixa, e sem qualquer compromisso a não ser passearmos, vermos museus, cúpulas acetoladas e sairmos descongelados do (súbito) mais frio Natal ortodoxo dos últimos cem anos.
Não gosto de viajantes modernos, de pessoas que fazem de conta que há sítios inéditos na superfície da Terra, considero-me um turista de cocktail. (...) A admiração pelos escritores russos, cem anos para trás da Revolução e cem anos para a frente, umas duzentas voltas ao Sol de poderosa beleza literária, comédia e tragédia. É por isso que estou sentado ao lado do salvar de Dostoiévski, aparelho em latão em que só ele podia mexer...
Rui Cardoso Martins, in Granta Portugal nº 10, 2017:69 e 70.

solilóquio

Dizem que há sempre um dia para os que sabem esperar. Pois bem, eu continuo à espera.

03 novembro 2017

mediascape: a burguesa

Só hoje tive oportunidade de ler a "pluma caprichosa" de Clara Ferreira Alves, na revista E do Expresso de 28 de Outubro. Do alto da sua burra, refastelada, a burguesa escreve:
Quando um problema se torna demasiado grande atira-se dinheiro para cima. Garantindo aos parceiros desprovidos de compaixão pelas vítimas que o dinheiro não virá do bolso deles. O PCP berrou logo que queria saber quem ia pagar. Eles só cuidam dos funcionários públicos, sindicatos, autarcas e clientelas que alimentam e de que se alimentam. O país nunca lhes interessou mais do que a manutenção da ideologia cujo sucesso assenta na pobreza. Se, por um milagre, Portugal passasse a ser bem administrado e menos desigual e injusto, os comunistas desapareciam. E do bloquismo restaria o perfume do caviar.

01 novembro 2017

de um simples

Há perguntas que eu gostava de fazer.
Eu não sei e gostava que alguém me conseguisse explicar!
Eu não sei onde fica o céu! Mas deve ser bem longe...
Eu não sei, mas deve ser difícil lá chegar... e vir de lá!
A Senhora veio cá várias vezes falar com pessoas... como é possível Ela vir de tão longe para falar com as crianças?!...
Ninguém me explica!

31 outubro 2017

cagança suprema

Este senhor não tem sequer a noção do ridículo que é. Ainda por cima têm-se numa conta... o melhor do mundo e arredores, só pode! Não há paciência. Vergonha alheia.


mediascape:poder divino

Com todo o respeito que a personagem me merece e respeitando a crença de cada um, parece-me ridículo, quando toda a gente já sabe que está prevista chuva para os próximos dias, o Cardeal de Lisboa indicar aos sacerdotes que façam uma oração depois da homilia para solicitar intervenção divina e chova. Pois bem, vai chover nos próximos dias e nós já sabemos disso graças à ciência humana e não à divina. Sem querer imiscuir-me nas coisas do sagrado, esteve tanto tempo calado e só agora que está prestes a acontecer, é que se lembra de publicar tal. Quererá os méritos para o que aí vem? (leia aqui o texto na íntegra)

28 outubro 2017

inacreditável

Então não é que logo à noite será o momento de atrasarmos uma hora o relógio e ainda anda toda a gente (menos eu) a veranear por aí com as carnes excedentárias à solta e a poluir a paisagem! Um ano destes, ainda vamos comer o bacalhau cozido da Consoada, depois de uma rica tarde na praia, em chinelos de enfiar o dedo e com as borras da salitre bem visíveis. O raio do calor!

venha o Diabo e escolha

Ainda a propósito do Acórdão da Relação do Porto, não sei o que é mais preocupante, se o atavismo, misoginia e beatice do juiz Joaquim Neto de Moura, se a incompetência declarada da sua colega, Maria Luísa Arantes, que subscreveu o documento e, agora, admite que nem sequer leu todo o texto desse Acórdão. Vergonha para a justiça portuguesa neste arcaísmo declarado e nesta incompetência assumida.

26 outubro 2017

em vias de extinção


É ao olhar para grafismos como este, no qual acabei de tropeçar, que se percebe como se pode extinguir um povo, ou uma nação. Bem sei que a questão palestiniana não colhe grande entusiasmo junto da civilização ocidental, capitalista e em grande parte, simpatizante da causa sionista. Eu nada tenho contra o povo judeu e seu estado, mas isso não quer dizer que concorde com aquilo que esse estado tem vindo, ao longo de décadas, a realizar - uma limpeza étnica sistemática, persistente e duradoura do território da Palestina. Uma vergonha para o mundo e para o povo Judeu. Não deixa de ser irónico serem os Judeus, tão perseguidos ao longo da História, a procederem desta forma. Como é possível não simpatizar com a causa Palestiniana?
E ainda me querem convencer que a identidade das pessoas e dos povos não está directamente associada a um território?! É que andam por aí muitos pós-modernos e neo-cosmopolitas que teimam em afirmar e em escrever que a identidade das pessoas e das comunidades não tem relação com o espaço, ou melhor, com os lugares onde se estabelecem, onde nascem, vivem e morrem...

viagem relâmpago

Para satisfazer velho desejo de um familiar, incapacitado de grande parte da sua autonomia, levei-o a Lourdes - França. Há muito tempo me falava da sua vontade de lá ir, da sua fé na Senhora que lá dita as narrativas do milagre e da crença. Pois bem, um destes dias saímos do Porto às cinco da manhã, viajámos de carro ao longo de 950 quilómetros, estivemos lá cerca de duas horas, o tempo necessário para ele conhecer o santuário, cumprir todos os preceitos de fé, rituais de purificação e de oblações, e se impressionar com a dimensão de todo o complexo religioso, e regressámos a Portugal e a casa, ao longo dos mesmos 950 quilómetros. Chegámos às duas da manhã do dia seguinte. Terá sido uma aventura, uma loucura para muitos com quem comento, mas para mim uma experiência de condução como nunca tinha realizado e a confirmação de que ao volante a fadiga, em mim, tarda a chegar.

(fachada da igreja) 

(gruta da aparição - destino principal das peregrinações)

23 outubro 2017

posso vir a arrepender-me de escrever isto, mas...

O Acordo decretado pelo colectivo da Relação do Porto em relação a uma mulher vítima de violência doméstica é uma vergonha para todos nós. Alegar uma lei obsoleta de um século de antanho e fazer censura moral baseada em princípios de fé, é inadmissível num Estado de Direito, Republicano e Democrático. Gostava de saber quem são estes doutos bafientos, senhores juízes para, alegando a Bíblia, proferirem sentenças. Era quem lhe partisse as bentas com as respectivas Bíblias, mas domesticamente, para não poderem alegar o que fosse... Puta que os pariu. Gente bolorenta, atávica e com perfume a naftalina. Como se a infidelidade feminina (ou qualquer outra) desse o direito ao respectivo macho (cornudo e besta) de ser violento e agressor.
Por fim, por mais triste que seja, por mais infeliz que possa ser, por mais inacreditável que possa parecer, a realidade em Portugal, e em pleno século XXI, é que somos ainda uma comunidade sexista,  machista e misógina e o que o homem-macho pensa, verdadeiramente, é que elas só têm é que abrir as pernas, calar e mais nada. Pior ainda, muitas das vítimas desta violência concorda com este devir, com esta fatalidade, chegando mesmo a subscrever sentenças deste tipo. Vergonha.

19 outubro 2017

é tempo

É tempo de perceber que o OE, a dívida, o défice e o funcionalismo público não são o país. Este é feito de pessoas que têm sentimentos. António Costa ou percebe isso, ou não.
(Fernando Sobral in Jornal de Negócios)

lixo vegetal e resiliência

Ainda no rescaldo dos trágicos incêndios de Domingo, uma amiga comentava que achava impressionante como o fogo chega tão perto das habitações e do centro das aldeias. Ao olhar para as imagens dos incêndios e da permanente invasão do fogo de espaços habitados, não percebia como era isso possível. A essa estranheza mostrei-lhe, através da paisagem que percorríamos de carro, em territórios eminentemente urbanos, de periferia de grandes centros urbanos, como todos nós vivemos rodeados de lixo vegetal, de autêntico combustível pronto e disponível para ser rastilho e alimentador de fogo. Reparem como mesmo em espaços urbanos ou peri-urbanos, espaços com enorme pressão urbanística e demográfica, as pequenas matas, silvados, fetos e outra vegetação selvagem, crescem fácil e livremente, sem qualquer reacção ou medida para evitar esse perigo eminente. Depois queixam-se e não percebem como foi, ou é, possível o fogo aí chegar...
Se olharmos para o interior do país, ou melhor, se sairmos dos grandes centros urbanos e mergulharmos na paisagem rural do nosso país, muito facilmente iremos verificar como as pessoas vivem, literalmente, mergulhadas nesse lixo vegetal, sem qualquer utilidade ou proveito, mas que em situações como as que agora experimentámos, são pasto e autênticas vias rápidas para a gula do fogo devorar tudo o que se lhe apresente pela frente e chegar até ao centro dos povoados. Impressionante. Vejam as imagens que ainda hoje passam nas televisões e poderão constatar isto mesmo. Só que ninguém fala nisto e a pergunta que se impõe é: porquê?

17 outubro 2017

responsabilidades

Apesar de saber que não é pela demissão e substituição de ministros, secretários de estado, chefias, comandantes e comandos que os problemas desaparecerão, impõe-se em todo o caso uma responsabilização de todo o aparelho de estado relacionado com a Protecção Civil e Ministério da Administração Interna. Concordo que a actual Ministra da Administração Interna e sua equipa não têm qualquer condição para se manterem nos cargos que ocupam e que deveriam ser substituídos quanto antes, mas também defendo que os demais elementos da hierarquia de poder, nas diversas instituições que compõem a Protecção Civil deveriam ser substituídos. Deveriam correr com todas chefias e corpos dirigentes, cujas carreiras são políticas e substituí-los por novos elementos, sujeitos a concursos, com relevância para o seu mérito técnico, académico e experiência profissional. Assim como também defendo que nos bombeiros haja modificações nos seus quadros dirigentes. Aliás, é aqui neste universo das corporações dos bombeiros que está o grosso do filão dos incêndios. É aí que se constroem verdadeiras fortunas. Não se percebe como figuras como Jaime Marta Soares consiga passar por entre as pingas desta chuva e não seja também ele responsabilizado e, de uma vez por todas, erradicado de seu trono de "dono dos bombeiros e seus interesses". Se em todo este cenário há uma figura indigesta, que me induz a vesícula biliar a libertar bílis, é esse senhor. É que não há pachorra.

ainda do raio que os partam!

Neste tempo de reflexão e de luto nacional pelas vítimas dos incêndios e a propósito daquilo que ainda ontem aqui escrevi sobre esta moda da defesa exacerbada dos direitos dos animais, que tem distraído a nossa classe política daquilo que é importante e essencial para a nossa sociedade, na verdade, nos últimos anos, talvez desde 2009 e, com maior incidência a partir de 2011, fomos completamente esmagados pelas questões financeiras e económicas, por uma trupe de especialistas - políticos, jornalistas, astrólogos e afins - que monopolizavam a opinião pública e esgotavam a comunicação social publicada, não dando qualquer espaço para se poder falar do resto. Lembro-me de já aqui ter manifestado o meu desagrado por tal esmagamento...
Aqui está um bom exemplo, as florestas, mas foi preciso uma desgraça como a destes dias para ela entrar na agenda política e mediática. Se pararmos para pensar sobre todos estes anos, não houve espaço nem para a floresta, nem para o território, nem para justiça, nem para a protecção civil, nem para a educação, nem para a agricultura, nem para a saúde, nem para a pesca, nem para a cultura, nem para mais nada a não ser o discurso financeiro/económico da dívida pública, do défice, do endividamento, dos ratings e da recessão. Talvez se a opção não tivesse sido essa, parte dos problemas nos outros sectores da nossa comunidade; talvez desgraças como as deste Verão/Outono não tivessem a dimensão catastrófica que tiveram; talvez, talvez.

16 outubro 2017

raios os partam!

Escrevo estas linhas, no rescaldo, ou quase, de mais uma tragédia humana em Portugal, provocada pelos incêndios. Até este momento, e entre ontem e hoje, morreram trinta e seis pessoas em diferentes locais do país. Existem várias dezenas de feridos, entre os quais muitos com gravidade e correndo o risco de vida, sete pessoas estão desaparecidas e o cenário pode, a cada momento, ficar ainda mais catastrófico. Inacreditável. Mesmo depois do que aconteceu em Pedrogão Grande, e passados cerca de quatro meses, nada se fez para corrigir os erros aí verificados: nada se alterou na protecção civil, nas cadeias de comando, na protecção das populações rurais, na organização do território, nem na reorganização da floresta nacional. Não houve tempo!?
Mas tempo não faltou para, nas últimas semanas, andar elite política, urbana e cosmopolita, entretida a elaborar legislação, a discutí-la e a votá-la na Assembleia da República, sobre a permissão de animais de estimação em estabelecimentos de restauração. Bem sei que um e outro assunto não têm relação, mas aquilo que aflige é a futilidade, perante tantos assuntos importantes e urgentes para resolver, andarem entretidos e muito preocupados com os animaizinhos e os seus putativos direitos.
Raios os partam! Esta gente só pode viver numa realidade alternativa, desligada da realidade. Qualquer dia, provavelmente num futuro próximo, vai querer legislar sobre a possibilidade de os sentarem à mesa connosco e serem servidos de igual forma. Ou pior, para alguns radicais desta nova PANizização na nossa sociedade, o objectivo será pôr-nos a comer o mesmo que os tais animais de estimação... [prestem bem atenção aos seus programas, discursos e agendas...]
Eu gosto de animais, nomeadamente de cães, mas não confundo a sua condição com a humana, naquilo que são os seus pretensos direitos e, pasme-se, suas obrigações. Enfim, o ridículo é tal que estou ansioso pela discussão parlamentar na especialidade destas leis. Estou também curioso para saber qual a percentagem de proprietários, dos referidos estabelecimentos comerciais, que irão permitir a permanência de animais de estimação.

11 outubro 2017

é o que se chama pôr a carne toda no assador...




mercado de livros

Uma vez mais está a decorrer [de 3 a 25 de Outubro] o Mercado do Livro, no Pavilhão Rosa Mota. Hoje foi dia de o visitar. Aproveitando duas horas livres antes do almoço, lá fui eu, equipado a rigor, à busca de espécimes a bom preço. Claro que encontrei, encontro sempre, algo que me interessa, mas na verdade é-me cada vez mais difícil essa descoberta. Primeiro, porque ano após ano, os títulos são sempre os mesmos; Segundo, porque maior parte daquilo que lá está disponível não interessa, eu diria, a quase ninguém - muita literatura de qualidade duvidosa, muita edição sem qualidade, muitos títulos e, principalmente, autores desconhecidos e, acima de tudo e apesar do amplo espaço, enorme anarquia nos temas, na disposição dos livros e na dispersão de autores e editoras. Terceiro, porque de ciências sociais já nada encontro que me seja estranho, que tenha interessa, ou que não tenha já em casa. Claro que sempre que acontecer, eu vou lá estar, mas, de certeza, cada vez mais com menor expectativa. No entretanto, hoje trouxe mais uns livritos apetitosos.

COMER (com letra grande)

Sim, come-se bem em Trás-os-Montes. À antiga. Dando graças a Deus, e com esperança de que por estas bandas não deitem raiz as ideias dos fanáticos que, mandassem eles, nos obrigariam a esquecer os prazeres da mesa, e nos poriam a uma dieta de alface e repolho, com sobremesa de dióspiros. (J. Rentes de Carvalho, 2017:54)

10 outubro 2017

dor de alma

Hoje perdi um livro. Por incrível que possa parecer, perdi um livro que estava a ler no conforto do meu carro. A determinado momento pousei-o na prateleira da porta do carro e com o abrir e fechar dessa porta, ele deve ter caído ao chão sem eu me ter apercebido. Só quando cheguei a casa e o procurei, me apercebi da perda. Terrível sensação. Solução imediata: aproveitar o horário do jogo da selecção portuguesa para ir comprar um novo exemplar e, assim, repor a ordem na leitura e no acervo.

09 outubro 2017

a última

Chegou-me às mãos a nova Granta Portugal, que será a última edição desta sua versão só portuguesa. A partir do próximo número passará a chamar-se Granta Portugal / Brasil e será publicada em simultâneo nos dois países e com autores lusófonos. Aguardemos então por esse novo formato. Entretanto...

06 outubro 2017

a jovem chorava

Num café, faço horas para ir buscar a minha criança à escola. Concentrado na leitura que trago, só a espaços levanto o olhar para o horizonte à minha disposição. Na mesa contígua vem sentar-se uma jovem, sozinha, traz um semblante triste. Pede algo à empregada e, reparo, pelo seu rosto caem-lhe lágrimas pesadas, que a custo vai sustendo com um lenço. Desvio o olhar no momento em que me olha. Percebo-lhe o incómodo por alguém já ter percebido a sua tristeza. Mergulho de novo na minha leitura, mas já não consigo abstrair-me do seu rosto sofrido. Mesmo sem a olhar, percebo que chora e que sofre. Hesito se devo abordá-la e confortá-la... penso, precisará falar, desabafar com alguém?... precisará apenas de um ombro amigo para continuar a chorar?... num momento seguinte, a dúvida é como a abordar... levanto-me, vencendo toda a resistência inata, seja timidez, seja cobardia, e dirijo-me a ela: - a menina está bem? - precisa de alguma coisa? Algo atrapalhada, segurando o lenço, responde-me: - muito obrigada. Não, não estou bem. Morreu-me um amigo e não sei como vai ser... Agora o embaraço é meu e apenas consigo pronunciar um lamento. Ela agradece e o seu rosto desaparece por trás da chávena de chá. Regresso ao meu lugar.
Isto foi o que imaginei ter podido acontecer se lá tivesse ido, mas não consegui vencer a inércia e deixei-me ficar sentado, atento aos sinais que lhe percebia, apenas fiz aquilo que costumo: pûs-me a escrever.

literatura e a distinção sueca

Ontem foi conhecido o Prémio Nobel da Literatura 2017. Mais uma vez o prémio foi entregue a alguém que não fazia parte da bolsa dos principais candidatos sugeridos pelos "especialistas". O distinguido foi o escritor inglês, nascido no Japão, Kazuo Ishiguro, cuja obra foi descrita como:  "romances de grande força emocional, que revelam o abismo da nossa ilusória sensação de conforto em relação ao mundo". Desconheço por completo a sua obra, os seus livros, nem sequer o seu nome me era familiar. Sei agora que está traduzido em Português pela Gradiva. Pois bem, tal como tem acontecido nos últimos anos, também este ano, continuarei a ignorar o laureado. Não questiono a qualidade da sua escrita, mas não tenho tempo, nem paciência, nem vontade, sequer, de a descobrir e conhecer. Ignorante, mas com tanto que tenho para ler... venha o próximo.

04 outubro 2017

escrever, um ambiente para

Quando miúdo, e mesmo quando mais graúdo, não havia Verão em que não fosse, com a restante família, passar umas semanas à aldeia natal de meus pais, em Trás-os-Montes. Esses dias de descanso e, principalmente, de brincadeiras e aventuras, eram partilhados com outros familiares que também para lá convergiam, por esses dias estivais.
Uma das recordações que guardo desses dias e que, na altura, enquanto criança, não entendia, era o desespero de um tio que, atolado em papéis (processos e outras peças judiciais) tentava despachar mesmo em tempo de férias, nunca encontrava o lugar propício para se poder concentrar e trabalhar. Havia sempre algo a perturbá-lo - moscas, correntes de ar, calor, ruídos de animais ou pessoas, entre outras distracções - e a impedi-lo de se manter por algum tempo no mesmo lugar. Era vê-lo, exasperado, a carregar pastas e papéis, de casa para casa, de palheiro para varandas, de cabanais para garagens, num rodopio que não percebia e numa aflição intangível para mim.
Só agora, muito mais tarde e quando sinto os mesmos sintomas e semelhante dificuldade para o processo da escrita - iniciá-la ou mantê-la - é que alcanço a sua dificuldade em encontrar o local ideal para se poder refugiar do ambiente, adverso e hostil, que o rodeava.

03 outubro 2017

capitulação

Finalmente Pedro Passos Coelho reconheceu o óbvio e indesmentível: não tem condições para continuar como líder do PSD. Para alguns, trata-se da consequência natural do resultado desastroso nas autárquicas, para outros, muitos, é algo que mais tarde ou mais cedo teria que acontecer, face ao sucesso do actual governo da "geringonça". Para outros ainda, o que aconteceu hoje já deveria ter sucedido há muito tempo.
Mais do que os ódios que Pedro Passos Coelho conseguiu coleccionar enquanto Primeiro Ministro, o que sempre me impressionou foi a sua resiliência, numa teimosia doentia e cega. Mais do que a queda de Pedro Passos Coelho, fico satisfeitíssimo com a saída de cena, e do círculo de poder e de influência, de personagens como Marco António Costa, Miguel Morgado, Bruno Maçães e afins, que por intermédio da liderança de Passos Coelho, tiveram espaço e tempo para difundir as suas teorias e conceitos racistas, xenófobos e que, deliberadamente, prejudicaram a maioria da população portuguesa. Espero também que luminárias como Maria Luís Albuquerque, Hugo Soares, Carlos Abreu Amorim e António Leitão Amaro acabem por desaparecer numa manhã de nevoeiro lá para os lados da São Caetano.
Independentemente dos novos intervenientes e das lideranças possíveis, os próximos tempos não se adivinham fáceis para o PSD.

duas de letra

Sou um solitário, amante do silêncio e devorador de vazios. Esses tempos da minha vida em que consigo retirar-me, ainda que no epicentro do maior caos ou confusão, são os mais terapêuticos, os mais adoráveis e os mais apetecíveis. Nas andanças quotidianas, nos interstícios daqui para ali e dali para acolá, felizmente, consigo sempre encontrar um desses tempos vazio, que me permite, por breves ou largos minutos, estar e fazer aquilo que mais aprecio. Por norma, associo sempre esses tempos a lugares, aos quais regresso sempre que possível. São lugares onde, por diferentes razões, me sinto bem, confortável e onde me deixo ficar. Um desses lugares é este café junto à Biblioteca Municipal do Porto e de frente para o Jardim de São Lázaro, onde, não me servindo de seu nome, solitário permaneço.

(imagem roubada da internet)

02 outubro 2017

as minhas autárquicas

Os meus interesses, não no sentido de qualquer benefício pessoal, mas sim no sentido das minhas preferências e, acima de tudo, no sentido das disputas eleitorais locais que me importavam, situavam-se no quadrilátero entre Valadares, Vila Nova de Gaia, Bragança e Vinhais.
Naquilo que foram as primeiras eleições autárquicas deste século nas quais não participei, tal como já aqui referi, foi com alguma ansiedade e enorme expectativa que aguardei até bem perto das quatro da madrugada, por todos os resultados finais que me importavam. Em relação ao cenário nacional não me vou pronunciar, apenas referir que fiquei satisfeito, grosso modo, com o resultado final, pois interessa-me muito mais partilhar os meus sentimentos relativos ao referido quadrilátero geográfico.
Em Valadares, onde sou cidadão-eleitor, venceu com maioria absoluta o actual presidente, que é um dinossauro com várias dezenas de anos de exercício autárquico em Gulpilhares e, agora também, em Valadares. O agora candidato do PS, depois de já ter sido candidato independente, do PSD e do PS, não mereceu o meu voto, pois mantive a minha lealdade partidária. Contudo fiquei satisfeito que tivesse ganho, principalmente, pela candidatura adversária do PSD, encabeçada por alguém que apenas direi merece todo o meu desprezo enquanto cidadão.
Em Vila Nova de Gaia o resultado ainda foi mais expressivo e Eduardo Vitor Rodrigues, candidato do PS e actual presidente de Câmara, atingiu uma enormíssima votação, derrotando clamorosamente o seu candidato adversário do PSD. No concelho de Vila Nova de Gaia, o PSD foi varrido da presidência das Juntas de Freguesia, nem uma só ficou nas mãos dos sociais democratas, o que não deixou de me alegrar a amígdala. Humilhação total e completa. Fiquei satisfeito. Resta referir que apesar do meu candidato, o Renato Soeiro, não ter conseguido ser eleito para a vareação, a candidata do BE à assembleia de freguesia de Gulpilhares-Valadares conseguiu ser eleita pela primeira vez. Muito bom.
Em Vinhais o meu desejo era que o PSD conseguisse derrotar o PS. Não aconteceu por apenas 78 votos. Lamento pois era imperioso remover da Câmara Municipal todo o caciquismo, toda a clientela que por lá existe há décadas. Sem ter qualquer simpatia pessoal com o candidato Laranja, a minha proximidade a alguns dos membros das suas listas, garantiam-me honestidade e seriedade mais do que suficiente para desejar a vitória do PSD/CDS-PP. Muito mau.
Em Bragança, mais do mesmo! Vitória claríssima e esmagadora do PSD. PS apenas consegue eleger dois vereadores e três presidentes de Juntas de Freguesia (em 39 possíveis). A surpresa da noite e para grande espanto, alegria e regozijo meu, foi a eleição de dois membros do BE, pela primeira vez, para a Assembleia Municipal. Passámos a ser a terceira força partidária aí representada. Excelente.
Estas foram as minhas eleições autárquicas, nos locais que fazem parte da minha cidadania, da minha existência sentimental.

01 outubro 2017

mediascape:o princípio do fim

As imagens que nos chegam de Barcelona e de toda a Catalunha são as esperadas, tendo em conta a tensão e a incapacidade política de Madrid face à iminência da realização do referendo catalão. Uma vergonha para o Estado que não conseguiu, nem consegue, resolver as questões políticas relacionadas com as autonomias e, depois, as pretensões de cada nação à auto-determinação ou independência. Aquilo que podemos assistir hoje permanecerá durante muito tempo na memória dos Catalães e só servirá para engrossar as fileiras dos movimentos independentistas, em Espanha e em qualquer outro lugar. Ao Estado, ao PP e a Madrid resta-lhes o argumento da força policial, da repressão e da violência, só que estes serão sempre insuficientes para impedir o destino das suas nações. Sim, Espanha não é uma nação e o seu futuro estará, agora mais do que nunca, em jogo. Veremos.