17 julho 2018

as identidades que matam


Não recordo o dia, nem a hora, mas sei que foi numa conversa com o cantor José Mário Branco, nas últimas semanas, que ouvi da boca do cantor que um dos livros que mais o marcaram foi este "Identidades Assassinas" de Amin Maalouf. Fiquei curioso, até porque já conhecia o autor, de um outro seu trabalho magnífico em que vai em busca das suas "Origens". Procurei-o nas lojas do costume e logo me apercebi que não seria fácil encontrá-lo. Trata-se de uma edição de 1999 da extinta Difel e, por isso, só em alfarrabistas ou na internet o poderia encontrar. Numa busca na internet e contactando vários alfarrabistas, apenas consegui que dois me respondessem afirmativamente. Finalmente o livro cá me veio parar às mãos e foi com alguma expectativa que depressa o li.
Trata-se de uma reflexão do autor - franco-libanês - acerca da importância das identidades individuais, da importância dos sentimentos de pertença a um determinado grupo e da relevância dessas dimensões identitárias na evolução das sociedades, no confronto de ideologias, na sobrevivência das comunidades, nas disputas religiosas e origens dos movimentos extremistas, radicais e fundamentalistas, e no enorme hiato que existe entre as civilizações ocidental e oriental/muçulmana.
Perfeitamente datado e contextualizado - final do século XX (antes do 11 de Setembro de 2001, entre outros) - poderemos até considerá-lo ultrapassado em várias das suas afirmações, mas em todo o caso, parece-me pertinente atentar nalgumas das questões suscitadas:

Porquê estes véus, estes tchadors, estas barbas severas, estes apelos ao assassínio? Porquê tantas manifestações de arcaísmo, de violência? Será tudo isto inerente a estas sociedades, à sua cultura, à sua religião? Será o Islão incompatível com a liberdade, com a democracia, com os direitos do homem e da mulher, com a modernidade?

As respostas não são simples e o autor afirma que não acredita no exagero da influência das religiões sobre os povos, enquanto se negligencia a influência dos povos sobre as religiões, exemplificando, com o caso europeu. Se o cristianismo modelou a Europa, a Europa também modelou o cristianismo. Este é hoje o que as sociedades fizeram dele. Elas transformaram-se, material e intelectualmente, e transformaram consigo o seu cristianismo (p.74). Reforça esta ideia, escrevendo que a sociedade ocidental inventou a Igreja e a religião que tinha necessidade, tal como no mundo muçulmano, a sociedade produziu constantemente uma religião à sua imagem e que quando os muçulmanos atacam violentamente o Ocidente, não é só por serem muçulmanos e por o Ocidente ser Cristão, é também por serem pobres, dominados, ridicularizados e por o Ocidente ser rico e poderoso.
Um pouco mais à frente, o autor dedica-se à explicação/justificação da tal enorme diferença que podemos verificar entre o mundo ocidental e o resto do mundo, afirmando:

Esta primavera formidável da humanidade criadora, esta revolução total, científica, tecnológica, industrial, intelectual e moral, este longo trabalho “de buril” efectuado por povos em plena mutação, que todos os dias inventavam e inovavam, que sem cessar faziam tremer as certezas e sacudiam as mentalidades, não foi um acontecimento entre outros, foi único na História, foi o acontecimento fundador do mundo tal como o conhecemos hoje, e produziu-se no Ocidente - no Ocidente e em nenhum outro lugar. (...) Será que esta mutação se produziu graças ao cristianismo, ou apesar do cristianismo? (...) A emergência, no Ocidente, durante os últimos séculos, de uma civilização que iria tornar-se, para o mundo inteiro, a civilização de referência, tanto no plano material como no plano intelectual, de tal modo que todas as outras se encontraram marginalizadas, reduzidas a um estado de culturas periféricas, ameaçadas de extinção. (...) A partir de que momento se tornou esta predominância da civilização ocidental virtualmente irreversível? A partir do século XV? Nunca antes do século XVIII. Do ponto de vista que hoje é o meu, pouco importa. O que é certo, e fundamental, é que um dia uma civilização resoluta tomou as rédeas da carruagem planetária nas suas mãos. A sua ciência tornou-se a ciência, a sua filosofia tornou-se a filosofia, e este movimento de concentração e de “estandardização” nunca mais parou, pelo contrário, não deixa de acelerar, alargando-se ao mesmo tempo a todos os domínios e a todos os continentes. (p.81 e 82)

Uma crise de identidade é associada à causalidade de vários sentimentos de repulsa, aversão e repúdio face ao mundo ocidental...

A felicidade do mundo e a sua infelicidade, tudo isto veio do Ocidente.
Onde quer que se viva neste planeta, toda a modernização é, daqui em diante, ocidentalização. Uma tendência que os progressos técnicos não fazem senão acentuar e acelerar. Um pouco por todo o lado encontramos, evidentemente, monumentos e obras que trazem consigo a marca de civilizações específicas. Mas tudo o que se criou de novo - quer se trate de construções, instituições, instrumentos de conhecimento, ou modos de vida - foi criado à imagem do Ocidente. (...) Esta realidade não é vivida da mesma maneira pelos que nasceram no seio da civilização dominante e por aqueles que nasceram fora dela. Os primeiros puderam transformar-se, avançar na vida, adaptar-se, sem deixar de serem eles mesmos; poderíamos mesmo dizer que, para os ocidentais, quanto mais se modernizam, mais se sentem em harmonia com a sua cultura, somente os que recusam a modernidade se encontram desfasados. Para o resto do mundo, para todos aqueles que nasceram no seio de culturas desfeitas, a receptividade à mudança e à modernidade coloca-se em termos muito diferentes. Para os chineses, para os africanos, os japoneses, os indianos ou os ameríndios, assim como para os gregos e os russos, para os iranianos, os árabes, os judeus ou os turcos, a modernização implicou constantemente o abandono de uma parte de si mesmos. Mesmo quando ela suscitava por vezes o entusiasmo, nunca se desenrolava sem uma certa amargura, sem um sentimento de humilhação e de renúncia. Sem uma interrogação dolorosa sobre os perigos da assimilação. Sem uma profunda crise de identidade. (p.83 e 84)

Pode-se bem imaginar o sentimento que poderão experimentar os diferentes povos não ocidentais, para quem, desde há numerosas gerações, cada passo na sua existência se acompanha de um sentimento de capitulação e de negação de si próprios. Foi-lhes necessário reconhecer que o seu saber estava ultrapassado, que tudo o que produziam nada valia comparado com o que se produzia no Ocidente, que a sua manutenção da medicina tradicional resultava da superstição, que o seu valor militar não passava de uma reminiscência, que os seus grandes homens que tinham aprendido a venerar, os grandes poetas, os sábios, os militares, os santos, os viajantes, não contavam para nada aos olhos do resto do mundo, que a sua religião era suspeita de barbárie, que a sua língua era estudada apenas por meia-dúzia de especialistas… (…) Sim, a cada passo da sua vida, encontram uma decepção, uma desilusão, uma humilhação. Como não ter uma personalidade mortífera? Como não sentir a sua identidade ameaçada? Como não ter o sentimento de viver num mundo que pertence aos outros, que obedece a regras ditadas pelos outros, um mundo onde se sentem órfãos, estrangeiros, intrusos ou párias? (p.86 e 87)

O autor termina a sua reflexão partilhando aquilo que considera serem as inquietações da mundialização actual:

a) uniformização pela mediocridade - a ideia segundo a qual a efervescência actual, mais do que conduzir a um enriquecimento extraordinário, à multiplicação dos meios de expressão, à diversificação de opiniões, conduz paradoxalmente ao inverso, ao empobrecimento: assim, esta multiplicidade desenfreada de expressões musicais apenas desembocará, no final de contas, numa espécie de música de ambiente, afectada e adocicada. Assim, o formidável cadinho de ideias terá como resultado uma opinião unanimista, simplista, um menor-denominador-comum intelectual, a tal ponto que toda a gente, à excepção de um punhado de excêntricos, acabará por (…) engolir o mesmo caldo informe de sons, de imagens e de crenças;
b) uniformização pela hegemonia - Será a mundialização algo mais do que uma americanização? Não terá ela como consequência principal o impor ao mundo inteiro uma mesma língua, um mesmo sistema económico, político e social, um mesmo modo de vida, uma mesma escala de valores, os dos Estados Unidos da América? A acreditar em algumas pessoas, o conjunto do fenómeno da mundialização não passaria de um disfarce, de uma camuflagem, de um cavalo de Tróia, sob o qual se dissimularia uma empresa de dominação. É legitimo interrogarmo-nos se a mundialização não irá reforçar a predominância de uma civilização ou a hegemonia de uma potência. Isto apresentaria dois perigos graves: o primeiro, o de vermos, pouco a pouco, desaparecer línguas, tradições, culturas; o segundo, o de vermos os membros dessas culturas ameaçadas adoptarem atitudes cada vez mais radicais, cada vez mais suicidas.
Os riscos de hegemonia são reais. (p.126 a 129)

um homem bom


A notícia chegou madrugadora. Morreu João Semedo, dirigente e ex-coordenador do BE. Notícia esperada, mas sempre triste. Foi uma enorme honra ter conhecido e ter privado com o João.





Alguns dos momentos em que o acompanhei por terras de Trás-os-Montes.

30 junho 2018

organizar o silêncio

No passado dia 22 de Maio, quando da sua morte, a minha reacção perante aquilo que foi dito e escrito sobre ele, foi resgatar das prateleiras do armário, onde vou amontoando livros, os dois que sabia ter, para os colocar mais perto de mim e, assim que possível, os ler. Sabia da sua qualidade, sabia da sua importância para o consciente e para o inconsciente americano, sabia da sua importância para o retrato de uma determinada América - a da luta entre os géneros, entre as raças, entre as classes sociais, entre as confissões religiosas - sabia da sua importância para o (re)conhecimento de um ethos social e cultural nem sempre perceptível ou identificável. Por tudo isto e mais, sabia que teria que ler Philip Roth. Foi por isso que, um dia, comprei esses dois livros.
Agora, terminei a leitura de um deles, A Mancha Humana, onde o autor faz um retrato de vidas americanas do pós-guerra (2ª guerra mundial e Vietname), com todas as suas convulsões políticas e sociais, as suas manias e convenções, os seus tiques e hipocrisias. Segundo Roth, a mancha humana (americana) contamina e destrói tudo à sua volta, destrói a natureza e contamina os animais.
O narrador desta história, Nathan Zuckerman, que a determinada altura da sua vida desistiu da vida social e foi viver na solidão da montanha, a esse propósito, afirma:

O segredo de viver com um mínimo de sofrimento na voragem do mundo reside em atrair o maior número de pessoas para as nossas ilusões; o truque para viver sozinho aqui em cima, longe de todas as perturbadoras confusões, seduções e expectativas, afastado, sobretudo, da própria intensidade, consiste em organizar o silêncio, em pensar na sua plenitude de cume de montanha como capital, no silêncio como riqueza crescendo exponencialmente. No silêncio circundante como a fonte de proveito que escolhemos e a nossa única coisa íntima.

De facto, reflectindo sobre esta citação que tanto me diz, organizar o silêncio não é tarefa fácil ou simples. Não é, acima de tudo, acessível a qualquer um. Desconfio até que para a maioria dos indivíduos o silêncio é dispensável e dele fogem permanentemente, preferindo as referidas voragem, intensidade e confusão. No que a mim diz respeito, revejo-me integralmente nesta frase do narrador [ e por isso a trago aqui]; projecto-me para essa solidão, para esse isolamento, idealizo-me nessa necessidade, nessa ânsia pelo silêncio. Não sei, talvez um dia o alcance e, depois, o consiga organizar.

16 junho 2018

reset to USA democracy


Depois de ter visualizado, no youtube, o lançamento/debate deste livro, na feira do livro de Lisboa, em que participaram Daniel Oliveira e Pacheco Pereira, foi com bastante curiosidade que li, nas últimas horas, este pequeno livro, editado em Portugal pela Tinta da China.
Trata-se de um ensaio de um pensador político de esquerda, assumidamente de esquerda, que, através de uma escrita acessível ao comum dos leitores, faz uma crítica acérrima e assertiva (ainda que num ou noutro ponto discutível) à esquerda americana, ou seja, aos liberais e aos democratas. Segundo este autor, a esquerda americana, ao longo das últimas décadas, desde a presidência de Ronald Reagan, concentrou todas as suas energias na adesão ao liberalismo identitário e na defesa de políticas identitárias, entregando-se sem resistência à política dos movimentos sociais assentes na identidade, perdendo qualquer noção daquilo que os cidadãos partilham e daquilo que une a nação. Consequência disto, não são capazes de reflectir sobre o bem comum, não conseguem perspectivar uma ideia de futuro partilhado e, acima de tudo, promovem um narcisismo económico, uma guetização, ou um sectarismo, ou ainda, uma balcanização das minorias entre si, levando ao alheamento e indiferença do seu eleitorado habitual(?).
Ao mesmo tempo, Mark Lilla, entende que a eleição de Donald Trump e a sua presidência propiciaram o momento ideal para a esquerda começar de novo ("reset"): reconstruir a identidade em torno do que une o povo, encorajando o sentido de dever mútuo e inspirando todos na nação e no resto do mundo.

Os movimentos que remodelaram o nosso país ao longo dos últimos 50 anos tiveram um impacto muito positivo, especialmente na forma como mudaram, como se costuma dizer, corações e mentes. O que talvez seja a coisa mais importante que qualquer movimento concretiza, (...) mas durante um período de tempo considerável os movimentos não são capazes só por si de atingir fins políticos concretos. Precisam de políticos e funcionários públicos integrados no sistema, solidários com as metas do movimento, mas dispostos a empenhar-se no trabalho lento e paciente de fazer campanha eleitoral, conceber e negociar a aprovação de legislação, e controlar a burocracia que assegura a sua aplicação. (página 88)

08 junho 2018

mediascape:desintoxicação

“Ninguém poderá encontrar o seu caminho num mundo tecnológico se não souber ler, escrever, contar, respeitar os outros e trabalhar em equipa. Os telemóveis são um avanço tecnológico, mas não podem monopolizar as nossas vidas”.
Jean-Michel Blanquer, ministro da educação.

Soube-se hoje que a Assembleia Nacional francesa aprovou a proibição do uso de telemóveis nas escolas da República Francesa. Medida que entrará em vigor a partir do próximo ano lectivo.
Muito bem. Não poderia estar mais de acordo, pois tal como é dito pelos promotores deste projecto-lei, agora aprovado, esta é uma medida de desintoxicação, que tem por objectivo contribuir para a redução das distracções em sala de aulas e combater casos de bullying.
Bem podia a República Portuguesa imitar a Francesa e decretar também a proibição dos telemóveis em espaços escolares. Eu subscreveria tal medida.

o experimentalista


A notícia chegou-me à hora de almoço. Anthony Bourdain morreu; ter-se-á suicidado.
A sério?
O espanto perante a notícia do seu suicídio acontece naquilo que era, ainda é, a convicção de que alguém que é pago para viajar pelo mundo e suas cidades, a conhecer culturas e gastronomias tão diversificadas, é reconhecido, é apreciado e é famoso, não poderia ter razões para acabar com a sua vida. Quem não gostaria de poder ter uma vida semelhante?!...
Enfim, aquilo que me atraiu em Bourdain e que fazia com que o tolerasse - sim, não há pachorra para tanto especialista, tanto chef, tanto programa/concurso sobre cozinha e sobre empratamentos, já para não falar da inenarrável e moderníssima experiência em que se transformou o verbo comer - era o seu aparente (isto porque em televisão não vemos tudo) desalinhamento em relação ou status quo gastronómico vigente nos últimos anos. A sua capacidade de adaptação às diversas experiências gustativas, a sua vontade de experimentar, a sua tolerância para tudo quanto, nos dizem que, faz mal à saúde, a promoção que fazia a ingredientes, pratos e especialidades marginais, ausentes das grandes cozinhas e dos menus dos "grandes" chef's e especialistas. Acima de tudo, nos seus programas de televisão, agradava-me o seu apetite por todo o tipo de comida, a sua vontade de experimentar, a sua vontade de comer.

antologia autores transmontanos

O convite surgiu nos primeiros meses de 2017. A Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro de Lisboa organizou esta antologia de autores transmontanos e solicitou a sua organização/coordenação ao seu sócio e membro Dr. Armando Palavras.
Eu respondi ao desafio com um texto sobre as Nomeadas em Trás-os-Montes. O livro foi lançado no passado dia 26 de Maio, em Lisboa, no IV Congresso de Trás-os-Montes e Alto Douro, organizado pela mesma Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Ainda não tive a oportunidade de olhar para o resultado final, pois não tendo ido ao referido congresso, ainda não me enviaram o exemplar a que tenho direito enquanto autor. Aguardo com expectativa a sua chegada. Por enquanto, apenas conheço a capa do mesmo...

04 junho 2018

"O vinho é o novo alvo dos proto-higienistas"

Transcrevo todo o texto, porque a mensagem deve passar na íntegra e não fora do seu contexto. Cambada de palermas.

Não é fácil explicar a um europeu que viva a norte dos 45º de latitude, que nós (no Sul) bebemos vinho às refeições, que temos o costume de não beber vinho como os finlandeses bebem vodka, que raramente bebemos sem comer, que dois copos de vinho por dia não são uma ameaça à paz mundial (como determinou o SNS britânico) – e que desprezamos o seu hábito de beber forte durante dois ou três dias (até cairem) e de aparecerem, depois, como puritanos, em culottes, com mau hálito e a implicar com tudo. Parece que há na UE uma “corrente de pensamento” proto-higienista, fomentada por burocratas que usam todos a mesma gravata, as mesmas cuecas e o mesmo tom de pele, que quer equiparar as garrafas de vinho a cargas de álcool eslavo, inutilizando os nossos rótulos com avisos mortais e ameaças de morte (à semelhança dos maços de tabaco). Se isso acontecer, Portugal e outros países civilizados do Sul da Europa devem pedir a rápida desanexação da UE. Esta é, por isso, uma crónica racista: contra a raça dos palermas e dos rostos pálidos que não sabem distinguir um vinho (com a sua carga de cultura, tradição, brilho, humanidade) de uma ampola de vodca bebida no aeroporto. Ninguém me convence de que isto não é uma conspiração de fascistas tolos, ainda por cima – lamento dizê-lo, ó pátria de grandes bebedores – irlandeses, o que é uma pena.

(Francisco José Viegas, no seu blogue - A Origem das Espécies. Aqui)

30 maio 2018

colecção revista Brigantia, finalmente

Após longos e difíceis cerca de 13 anos consegui, hoje, terminar a colecção das revista Brigantia. Estes foram os últimos três números que hoje trouxe para casa, conseguindo assim reunir toda a colecção. Quer dizer, talvez me falte um ou outro suplemento que, normalmente, era vendido com a revista, mas cuja associação é impossível agora fazer e encontrar. Ainda assim, a alegria é enorme, pois desde que iniciei esta empreitada, com particular insistência nos últimos anos, tinha por objectivo chegar ao dia em que ostentaria os mais de sessenta "livros" que compõem toda a colecção.
Foi o amigo Nuno Canavez, da Livraria Portuense, que me ofertou estes três últimos números. Fica o meu reconhecido agradecimento.
A partir deste momento, acompanharei, atento, a edição de novos números e esperarei, ansioso, pelo renascimento do seu cariz original - etnografia, arqueologia, história, etnologia e até antropologia, de âmbito local e regional.

(volume II - nº 2/3 - 1982)

(volume IV - nº 3 - 1984)

(volume XVI - nº 1/2 - 1996)

26 maio 2018

so free, I think I'm


I'm so free
I'm so free now
The way that I walk is up to me now
and if I breathe now 
I could scream now
you can hear me.
Nobody's gonna keep me down
I don't want to go down
I'm so free from you
I'm so free.
(Beck, I'm so free, in Colours, 2017) 

Num dia especial como o de hoje. 
A ideia de liberdade continua a ser superior. Ser livre é outra coisa, mais difícil, menos pragmática e ao alcance de poucos. Ainda assim, quando o percurso vai mais do que a meio, a percepção que tenho é de privilégio, de considerável liberdade, num mundo que nos esmaga, que nos vai comprimindo e orientando num sentido único e obrigatório.

Este senhor, passados tantos anos, continua a fazer excelente música. Um dos grandes.

22 maio 2018

de um simples

Já viste! Então vamos para o Céu e depois o que acontece?! Ficamos ali para sempre a fazer o quê?! Ficamos ali a adorar a Deus para sempre?! Já viste! Eu não sei...

21 maio 2018

por um Portugal mais digno


Faleceu hoje António Arnaut, fundador do PS e, acima de tudo, mentor e arquitecto do Serviço Nacional de Saúde (SNS), que o 25 de Abril de 1974 permitiu e foi, sem sombra de dúvida, o seu grande e maior contributo para aquilo que hoje podemos ser e ter. O maior tributo que o país lhe poderá prestar será a defesa e reforço do SNS, perante as persistentes e permanentes ameaças provenientes de sectores da sociedade que nunca o quiseram, perceberam ou defenderam. A hipocrisia desses poucos - pessoas e organizações - persiste e tem conseguido degenerar o projecto inicial de António Arnaut e seus pares. Com o seu desaparecimento ficamos todos mais pobres, a referência ética e moral persistirá, tenho a certeza. Profundo agradecimento por essa nobre visão de uma sociedade mais equalitária, mais justa e mais digna.

16 maio 2018

mediascape: foi chato?

Os acontecimentos de ontem em Alcochete são, a todos os níveis, inaceitáveis e intoleráveis, mas as declarações do presidente do Sporting, na noite de ontem, à Sporting TV, são inacreditáveis e demonstrativas da completa deriva psicológica e alienação emocional daquele que deveria ser o principal garante de tranquilidade e estabilidade.

Eis algumas dessas afirmações:
Foi mau, foi chato ver as famílias ligarem preocupadas.
- Garantidamente vamos estar atentos a quem fez estes atos.
- Está tudo a correr dentro da normalidade. O crime faz parte do dia a dia.

Tudo isto não foi chato. Tudo isto foi uma tragédia para o futebol nacional, para o Sporting e, acima de tudo, para nós enquanto sociedade. Uma vergonha imensa.

15 maio 2018

agora em língua portuguesa

Acabadinha de chegar às minhas mãos, a Granta, no seu primeiro número da nova série em língua portuguesa. Vamos ler.

ter de escrever...

Entre em si mesmo. Investigue o fundamento que o chama a escrever; ponha à prova se ele lança raízes até ao lugar mais profundo do seu coração, admita se teria de morrer caso lhe fosse vedado escrever. Sobretudo isto: na mais silenciosa hora da sua noite, pergunte a si mesmo: tenho de escrever?

(roubado do blogue vizinho - aqui na íntegra)

13 maio 2018

outras palavras...

(na última página do jornal Le Monde Diplomatique, edição portuguesa, de Maio)

papel de parede


Por estes dias de celebração do campeonato nacional de futebol, a minha criança apareceu em casa com este poster, que o avô lhe deu, e pediu-me para o colar numa parede do seu quarto. É uma nova fase do seu crescimento que se inicia, pois até aqui só me foi pedindo para colar Mikey's, Nemo's, Patrulhas Patas e afins. Agora, chegou a vez da loucura pelo futebol e seus ídolos, mas também sei que este interesse também será substituído por um outro, lá mais para a puberdade. Sim, estarei preparado para essa outra fase, e será com prazer que lhe colarei esses outros posters, podendo mesmo, se assim quiser, forrar as paredes do quarto com esse apelativo papel de parede.

10 maio 2018

06 maio 2018

literatura juvenil


Já aqui admiti as minhas graves falhas enquanto leitor e o tanto e importante que deveria ter lido desde miúdo, mas não o fiz. Enquanto jovem era suposto ter lido um conjunto de clássicos da literatura juvenil, só que não o tendo feito, foi já mais velho que me dediquei a essas leituras.
Calhou agora, não por acaso, a leitura das Aventuras de Robinson Crusoe, de Daniel Dafoe. Digo não por acaso, porque tive como motivação inicial a recente visita à Euro Disney e o facto de o meu filho ter adorado a árvore-habitação de Robinson Crusoe e à qual subimos várias vezes.
A história que Daniel Dafoe nos conta é a de um jovem inglês que, contrariando os conselhos dos pais, se aventura nos mares, atraído pela liberdade e aventura da descoberta de novos mundos. Estávamos no século XVII, período grande das rotas comerciais marítimas entre a Europa e suas colónias e este jovem, narrador da sua própria história, conta-nos as tremendas aventuras porque passou, desde naufrágios, guerras e escravidão, até ao seu longo e total isolamento numa pequena ilha e sobrevivência durante quase três décadas. Esse relato é acompanhado com muitas reflexões - de caracter filosófico, moral, religioso, prático e até animal - sobre essa condição de extremo isolamento.
A leitura deste relato de uma experiência limite da condição humana, aviva-me o gosto e o chamamento que sempre recordo ter sentido pela condição de isolamento, de procurar espaços e lugares vazios e de preferir estar sozinho. Consciente desta minha preferência, sei também que jamais sobreviveria a uma circunstância semelhante à de Robinson Crusoe e que aquilo que entendo como ideal para mim teria que ser, ainda que longe do convívio com a civilização, algo muito confortável e acessível. A leitura deste relato permitiu-me também reconhecer que, à medida que vou envelhecendo e as suas marcas se vão fazendo notar, vou preferindo o conforto ao desconforto, o previsível ao imprevisível e o certo ao incerto. Sinais do tempo, do meu tempo.

A natureza e a experiência das coisas ensinaram-me, depois de reflectir, que todas as coisas boas do mundo só o são para nós quando podemos tirar proveito delas; e que, por mais que acumulemos para dar aos outros, só gozamos aquilo que podemos utilizar e nada mais. (Robinson Crusoe)

Sérgio Conceição


Depois de um interregno de quatro anos sem poder festejar o campeonato nacional, é com natural euforia que todos celebramos esta vitória. Quero sempre que o meu, o nosso, Porto ganhe e seja campeão, mas já há muitos anos que não se sentia esta necessidade, esta vontade, esta força e este querer na equipa e, não menos significativo, no apoio e entusiasmo dos adeptos do Porto. É que foi mesmo importante ser campeão este ano e essa importância jamais será compreendida por quem não seja portista... e nem adianta tentar explicar.
Não tenho qualquer dúvida, também, para identificar o principal responsável deste sucesso desportivo. O seu nome é Sérgio Conceição e a sua atitude, a sua dedicação, a sua garra, cativou-me desde os seus primeiros momentos enquanto treinador do Porto. Aliás, sempre gostei dele enquanto jogador, tal como noutros jogadores seus contemporâneos, dos quais recordo em particular o Paulinho Santos, admirava a sua entrega ao jogo, o seu sofrimento em campo e a sua dedicação ao clube.
No Porto, no meu Porto, gosto de ter e de ver jogadores assim, com raça e com sentido de pertença ao clube, que se entregam e lutam em campo contra tudo e contra todos. No meu Porto gosto de ter e de ver treinadores assim, com raça e que lutam contra tudo e contra todos. O Sérgio Conceição é assim e, por isso, é ele o grande, eu diria mesmo, o único Campeão. Obrigado.

03 maio 2018

solilóquio

Não sei se já alguém o disse, ou, principalmente, o escreveu, mas a palavra que irei escrever a seguir, estará, para sempre, condicionada por aquela que acabei de escrever.

Afonso Dhlakama


Acabo de saber, através da RTP3, da morte de Afonso Dhlakama, líder histórico da Renamo - Resistência Nacional Moçambicana - aos 65 anos, alegadamente, vítima de complicações associadas aos diabetes. Pouco ou nada me atrai nesta personagem, mas isso não me impede de perceber a sua importância no período pós-independência, em concreto, no período da guerra civil, enquanto figura máxima do contra-poder, e depois, no processo de pacificação do país, enquanto representante maior do principal partido da oposição.
O problema que se apresenta com o seu desaparecimento, é o vazio imediato de poder, pelo menos simbólico, na Renamo e essa situação pode propiciar um conjunto de consequências, por hora, não alcançáveis ou impossíveis de adivinhar. Esperemos que o bom senso e a razoabilidade impere neste momento dramático para a frágil democracia moçambicana. Esperemos que o desaparecimento de Afonso Dhlakama não signifique, tal como em Angola, a hegemonia totalitária de um único partido.

Adenda: Em 1994, participei nas primeiras eleições livres e democráticas em Moçambique, enquanto membro da equipa (empresa) que deu apoio político - sondagens políticas, marketing, imagem e comunição, sob patrocínio da ONU.

01 maio 2018

nem de propósito

Dia feriado, almoço demorado, com conversa amena até para lá da hora da (desejada) sesta. Sem que nada o fizesse prever, o desafio para uma suecada que foi prontamente aceite. Problema inesperado: baralho de cartas que não se encontra. Solução: ir à loja dos Chineses comprar um. A caminho encontro uma papelaria (portuguesa) aberta e resolvo entrar. Surpresa total ao dar de caras com a funcionária a jogar calmamente às cartas com um idoso, cada um do seu lado do balcão, e que me recebeu de sorriso nos lábios. Eu, surpreendido, apenas atirei: - Nem de propósito! Também quero… dois baralhos de cartas.
Saí e depressa regressei a casa, onde me aguardava uma rica e soalheira tarde de sueca. Há tanto tempo que isto não me acontecia.

18 abril 2018

a escrever


Nem imaginam o trabalho que me tem dado, e o prazer também. Depois de mais de trinta anos sem praticar, ter que entrar no ritmo, decorar acordes e não me enganar nas melodias, tem sido um desafio. As horas que passam e eu, absorvido, a (re)ganhar o gosto e o entusiasmo.

25 março 2018

cidade luz

Há cerca de dez anos que não visitava Paris. Estive agora lá, entre a Disney, o centro de Paris e subúrbios - Poissy, St. Germain e Versailles - durante a última semana. Entre 2008 e 2018 muito aconteceu na e à capital francesa. Aquilo que mais se nota é a preocupação com a segurança, que está bem visível nas ruas, instituições e recintos. De forma declarada e assumida, os militares e polícias passeiam-se pelas ruas e avenidas da cidade e há um controle apertado (eu diria, quase paranóico) em tudo o que é local turístico, monumento ou concentração de pessoas. O medo do terrorismo, real e perceptível, instalou-se definitivamente na vida quotidiana de Paris, dos parisienses e dos seus visitantes, sendo o acesso à Torre Eiffel o exemplo paradigmático desse receio. Aquilo que era um espaço amplo, enquadrado pelos grandes e bonitos jardins a Sul e o Trocadero a Norte, passou a ser um estaleiro de obras, cercado por alta cerca de chapa e com acessos diferenciados de entrada e saída, protegidos por sofisticados sistemas de vigilância e onde nada é negligenciado. Percebo e compreendo a necessidade de tal aparato, mas a verdade é que a experiência turística, ou a do visitante, ou ainda a do próprio habitante é fortemente transtornada por esta paranóica necessidade. É pena.

(na foto é visível a cerca metálica que circunda toda a torre)

19 março 2018

eu também...

Pela primeira vez escrito pela sua mão. Acredito que tenha sido sincero. Obrigado.




15 março 2018

terceiro mundismo

A notícia da execução da vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, na noite passada, no centro da cidade, com quatro tiros na cabeça, é um assassinato político numa cidade policiada por militares e será mais um, apenas mais um, sintoma da grave doença que o Brasil sempre sofreu e que, nem com toda a cosmética de modernidade urbanizada, cosmopolita e global, se consegue disfarçar. O Brasil pertence ao terceiro mundo, pelo menos naquilo que é o seu ethos social, naquilo que são as suas instituições, organizações e estruturas. Como temos vendo a assistir o próprio poder de Estado e dos diferentes níveis de Administração Pública está refém dessas lógicas de poder - da normalização, e até banalização, da corrupção, do culto de personalidade, da lei do mais forte, da subjugação ao poder económico, da subtração dos direitos sociais e da transformação da democracia em algo que poderá ser tudo menos democracia. Lamento muito, mas assim é o Brasil que sempre me deram a conhecer.

desaparecimento de um génio maior

Por falta de tempo, ontem não pude assinalar, com a devida vénia, o desaparecimento de Stephen Hawking, matemático, físico e cosmologista, que faleceu com 76 anos. Nome grande da ciência, a sua vida foi uma inspiração para milhares e milhares de pessoas, não só pelo seu trabalho, pelo seu génio, mas também, e acima de tudo, pela sobrevivência durante mais de cinquenta anos a uma grave doença degenerativa, diagnosticada aos vinte e poucos anos e que lhe foi tolhendo o físico. Mente brilhante, a ele devemos grandes descobertas e teorias no campo da física e da cosmologia. Sem dúvida, uma referência maior que o universo.

13 março 2018

finalmente

Ontem fui ao quiosque para comprar o Le Monde e, para surpresa minha, encontrei a LER. O seu número de Inverno acaba por chegar até nós no seu fim. Portanto, poderemos aguardar pela de Primavera lá para meados de Junho. Paciência. 

10 março 2018

leitura interminável

Acabei por estes dias a leitura dos Diários - diários de viagem, de Franz Kafka, numa edição da Relógio d'Água. Face àquilo que já conhecia deste autor e face à qualidade da sua escrita, confesso que a leitura destes Diários foi uma tarefa penosa e demorada. Apesar de se perceber o génio da sua escrita, a descrição dos seus dias e diferentes momentos pareceram-me entediantes, depressivos e sem grandes motivos de interesse. Kafka, às páginas tantas, afirma: uma vantagem de escrever um diário consiste em ganharmos consciência, com uma clareza apaziguadora, das mudanças a que estamos constantemente submetidos...
Acredito nas suas palavras, mas a leitura do seu diário nem sequer me deixou perceber essas mudanças da sua vida e apenas e só por teimosia mantive a sua leitura.

terapias, energias e fantasias

A Fundação Francisco Manuel dos Santos lançou mais três reportagens da série retratos da fundação. Com eles a colecção chega às trinta unidades. Destes três últimos volumes, quero destacar o trabalho de João Villalobos acerca do poder da energia, quando aplicada sob a designação de terapia alternativa e através das mais variadas promessas de sucesso, de fortuna, de amor e, principalmente, de saúde. Mal o comprei li-o de uma só vez e num ápice, pois veio mesmo a calhar com o início de mais um semestre de Epistemologia. Vou levá-lo para a sala de aulas.
Curioso como nos últimos tempos - e falo de meses ou até anos - assistimos a uma necessidade de salvaguardar a ciência, naquilo que são a sua prática e o seu discurso, do assédio, do engano e da pseudo-ciência que, hegemónica, invadiu o espaço social e mediático. Há muitas décadas que vivemos rodeados, no quotidiano das nossas vidas, de ciência, vertida em tecnologia, gadgets, medicamentos e utilitários, mas nesses últimos tempos, passámos a viver atolados em discursos - marketing e publicidade, e em práticas - diversidade de terapias/métodos/ferramentas, tais como o Reiki e outras que tais...
Mas voltemos a João Villalobos que nos apresenta este seu pequeno texto assim:
As terapias alternativas têm milhões de seguidores, mas de onde veio esta onda avassaladora da energia que promete curar sem tocar? Saber quem são os defensores, os críticos e que argumentos têm é talvez a melhor forma de começar a responder à pergunta. Da Bíblia ao anúncio do cabeleireiro holístico, passando pelo Reiki, e sem deixar de fora o cardápio de anjos e guias espirituais, este é o retrato do fenómeno de que muitos falam mas sobre o qual ainda há muito para contar.

27 fevereiro 2018

mediascape: sistema eléctrico

Jorge Costa, deputado do BE na Assembleia da República, escreve no Jornal Le Monde Diplomatique - edição portuguesa deste mês de Fevereiro, um grande e excelente, porque claro, factual e fundamentado, artigo sobre a privatização do sistema eléctrico, sobre o rentismo garantido associado a essa privatização e sobre os consequentes prejuízos para o estado português e, principalmente, sobre o abuso permanente sobre os consumidores nacionais. A minha vontade seria transcrever todo o artigo, mas é mesmo extenso e tornaria a sua leitura mais difícil, por isso, opto por transcrever apenas as passagens que me parecem mais importantes e pertinentes.

Metade dos agregados com carência económica não consegue ter a casa adequadamente aquecida no Inverno. A principal explicação são os elevados preços da electricidade e do gás, os mais altos da Europa em paridade de poder de compra. Em 2013, no pico da crise, Portugal foi o país europeu com maior número de cortes de electricidade por falta de pagamento, acima da Grécia.
(...)
O que distingue a factura portuguesa é o peso dos encargos administrativos - que o Eurostat também contabiliza nas taxas e impostos. Esses encargos somam um terço da factura doméstica - são os chamados Custos de Interesse Económico Geral (CIEG) - e incluem os subsídios excessivos pagos pelos consumidores às grandes eléctricas.
(...)
Ao longo dos últimos dez anos, os Custos de Manutenção do Equilíbrio Contratual (CMEC) representaram 2500 milhões de euros a cargo dos consumidores de electricidade (300 milhões em 2017). Segundo a Autoridade da Concorrência, os CMEC garantiram um terço dos lucros da EDP antes dos impostos, entre 2009 e 2012. E nada de substancial mudou depois disso.
(...)
O corte dos CMEC esteve previsto pela Troika no Memorando de Entendimento assinado em 2011. O então secretário de Estado da Energia, Henrique Gomes, chegou a encomendar um estudo sobre as rendas excessivas no sector eléctrico. Elaborado pela Cambridge Economic Policy Associates, esse estudo situou o valor total da renda excessiva em 2133 milhões de euros, cobrados aos consumidores só entre 2007 e 2020.
Ante a oposição do ministro das Finanças, Vítor Gaspar - que preparava a privatização da EDP a favor da China Three Gorges e não queria desvalorizar a empresa eliminando estas receitas garantidas - Henrique Gomes não resistiu muito tempo no governo. O seu ministro da Economia e do Emprego, Álvaro Santos Pereira, fez saber mais tarde que a demissão foi festejada com champanhe nas sedes das produtoras eléctricas.
(...)
O peso das rendas pagas à produção renovável aumentou muito com decisões do governo PSD/CDS. Nos anos da austeridade, a tutela continuava a outorgar licenças altamente subsidiadas em processos obscuros, alguns dos quais estão hoje nas mãos do Ministério Público. Mas o escândalo maior ocorreu em 2013, quando o ministro do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia, Jorge Moreira da Silva, adiou o fim da subsidiação das eólicas de 2020 para 2027, fixando novas tarifas garantidas para este período adicional. O negócio consistiu numa ruinosa antecipação de receitas.
(...)
O próprio ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, admitiu que este regime transformou a renda das renováveis em "renda e meia".
(...)
Só o controlo público e corte das rendas excessivas pagas às grandes eléctricas será possível obter os meios para impulsionar novos avanços tecnológicos ou o desenvolvimento da produção solar descentralizada e da eficiência energética.
A estratégia privatizadora resultou sempre em custos crescentes para os consumidores. Desde 2006, os aumentos acumulados da factura eléctrica perfazem quase 50%.
(...)
Quanto aos novos donos, em apenas cinco anos de dividendos já recuperaram um terço do que aplicaram na EDP. Nas palavras de Cao Guanjing, presidente da estatal China Three Gorges, "a EDP foi barata".
Do início da privatização até ao domínio chinês, a porta giratória com a política não parou de rodar. Um ex-ministro das Finanças, Joaquim Pina Moura, presidiu à Iberdrola Portugal, a Endesa tem sido representada por um secretário de Estado da Energia dos tempos de Anibal Cavaco Silva e mesmo António Mexia, presidente executivo da EDP, não dispensou uma passagem pelo governo de Santana Lopes, apesar das suas já vastas ligações políticas. Tem hoje ao seu lado, como presidente não executivo, o ex-ministro das Finanças, Eduardo Catroga, ligado ao grupo Mello e representante do PSD nas negociações do Memorando com a Troika, onde ficou decidida a privatização final da EDP. (...) Além destes casos, outros 24 membros de governos passaram por órgãos sociais da EDP. Conhecer esta promiscuidade ajuda a compreender a força que permite manter no sector eléctrico uma pilhagem tão sistemática e permanente contra a maioria da população.
(...)
A dependência do acesso à energia torna-nos vulneráveis à concentração de riqueza através do sector eléctrico. Nenhuma regulação tem sido capaz de travar esse processo. O poder oligopólio da energia torna-o central no regime liberal, nas orientações da União Europeia, na composição da elite política, nas crónicas mediáticas da "livre concorrência". Ora, a energia não é uma mercadoria como as outras. Para não geral novas formas de injustiça e pobreza, como hoje sucede em Portugal, o sistema eléctrico deve ser tratado como bem comum, recurso estratégico e serviço público.


Fonte: SELECTRA

22 fevereiro 2018

opúsculo

Tendo estado até madrugada às voltas com as Nomeadas Transmontanas, apercebi-me da necessidade de consultar os dois volumes da obra de A.M. Pires Cabral "A Língua Charra - regionalismos de Trás-os-Montes e Alto Douro", publicado pela Âncora Editora em 2013. Depois de uma consulta rápida na internet e de ter verificado o seu preço algo exagerado (porque dois volumes), logo pensei e fiz planos para esta manhã ir à Biblioteca Pública Municipal do Porto para a consultar. Assim fiz, só que nenhum dos volumes, apesar de referênciados, existe no depósito local. Desapontado, saí directo para a FNAC da Santa Catarina, mas também não tive sorte, pois não está disponível em nenhuma loja do país. Frustrado, resolvi tentar a Bertrand no Via Catarina, mas esbarrei na mesma ausência. Porra, nem a querer gastar dinheiro se consegue arranjar os livros. Não desisti. Uma vez na Invicta, resolvi ligar directamente para a editora, em Lisboa, que também não me conseguiu, de imediato, dizer em que livrarias do Porto poderia encontrar esses livros. Disseram-me que iriam averiguar e depois me ligariam. Aguardei, mas entretanto pus-me a caminho da Livraria Académica, do meu quase conterrâneo Nuno Canavez. Foi já quando estava à conversa com ele que me ligaram da Âncora, informando-me que aqui perto só a Livraria Traga-Mundos, em Vila Real, é que tinha esses livros à venda. Muito bem, agradeci a disponibilidade e desliguei. Foi a sorrir que comentei o sucedido com o meu interlocutor e ele, também a sorrir, disse-me para não estranhar, pois esta coisa dos livros é muito esquisita... Ele também não tem os livros que procuro, mas ao ouvir o nome do poeta e autor A. M. Pires Cabral, lembrou-se logo de algo que teria para ali guardado e que lhe tinha sido enviado. Um pequeno opúsculo de quatro faces, formato A5, em papel de qualidade amarelado e cuidado, com um pequeno texto e do qual ele me deu esta cópia, dizendo:
- Este é o texto sobre Trás-os-Montes com o qual me identifico mais. Nem o Reino Maravilhoso me satisfaz tanto. Muito bonito, muito bem escrito. Esta é a minha terra.

Vou ler.

por falar em estupidez humana...

Só podia estar a referir-me a Donald Trump!
Quando tudo aconselhava a uma reflexão, a uma ponderação e a uma decisão cautelosa, mas acertiva, o Presidente dos EUA, a propósito dos tiroteios nas escolas americanas que, normalmente, redundam em autênticos massacres e na chacina de inúmeros inocentes, pronunciou-se favorável a que os professores andem armados nas escolas e suas salas de aula, para proteger os alunos em caso de ataques similares ao sucedido nos últimos dias.
Lindo! Professores a dar aulas, ostentando à cintura o seu revolver, ou com a sua carabina de canos cerrados pousada em cima da secretária.
Espectacular! Como é que nunca ninguém se lembrou desta solução?! Agora é que vai ser!

21 fevereiro 2018

mediascape: o bandido


Este é o Ruben Semedo, jogador de futebol português, actualmente a jogar no campeonato espanhol, ao serviço do Vilarreal. Foi detido, se não estou em erro, sob a acusação de agressão, sequestro e roubo. E pelos vistos, já não é a primeira vez que tem problemas com a justiça, sendo já bem conhecido pelas autoridades espanholas, que só nos últimos quatro meses já o detiveram por três vezes. Sendo alguém que teve e tem acesso ao fantástico mundo do futebol, em que nada lhes falta, estranha-se este comportamento desviante, reincidente e assíduo, com ligações a personagens do mundo do crime e do banditismo. Estranho, estúpido, incompreensível. Enfim, um bandido.

20 fevereiro 2018

mediascape: antes de ser, já não era

Não foi preciso chegar ao 37º Congresso do PPD/PSD para termos percebido a forte resistência e o enorme mal-estar no seio das suas elites da metrópole, por Rui Rio ter vencido as eleições directas e vir a ser o novo presidente do partido. Agora que o Congresso da sua tomada de posse aconteceu, o país inteiro percebeu aquilo que está a acontecer no PSD, percebeu a má vontade, o boicote e as ameaças que o novo líder já enfrenta. Ainda não teve tempo para apresentar uma só ideia e já é questionado, coagido e intimidado pelos seus pares com o cadafalso de 2019, e tudo isto com o beneplácito das televisões, rádios e jornais, quais megafones dessa contestação.
Não que me diga respeito, nem que admire particularmente Rui Rio. Conheci-o bem enquanto presidente da Invicta e detestei o seu desempenho. O Porto, ao contrário do que consta pelo país, não beneficiou com os seus mandatos na presidência da autarquia. Aquilo que me admira é a má vontade declarada de grande parte dos ilustres deste partido - deputados, senadores, opinadores e afins - para com o seu novo presidente. Espero estar enganado, mas ser do Porto vai aniquilar-lhe qualquer possibilidade de sucesso.  Cá estaremos para o verificar, ou não.

mediascape: o despudor

É mesmo à descarada e sem perder a face que Pedro Ferraz da Costa, Presidente do Fórum para a Competitividade, numa entrevista ao jornal i, afirma que face ao crescimento do PIB de 2,7% em 2017, a economia teve uma "performance fraquinha" e que se quiséssemos poderíamos crescer acima de 4%. Mais, a propósito da competitividade das empresas nacionais, teve o descaramento de dizer que as empresas não conseguem contratar porque as pessoas não querem trabalhar. Isto, assim e sem mais. Faltou-lhe dizer que as pessoas não querem trabalhar sem receber a respectiva e merecida remuneração e que os seus pares, seres privilegiados e imunes a qualquer crise, procuram trabalho escravo e sem qualquer direito ou garantia. Assim, ainda bem que não conseguem trabalhadores. Ele deveria era sugerir ao seu clã oferecerem um salário digno às pessoas, com garantias e sem precariedades. Talvez aí houvesse quem quisesse trabalhar. Talvez aí as "pessoas" seriam mais produtivas e todos beneficiariam.

Nota pessoal: não fui mal educado com o senhor, apesar da grande vontade. Ainda assim, quando soube deste dislate, muitos nomes feios lhe chamei. Porque o despudor desta gente, que se julga merecedora de todas as benesses e privilégios, tem que ser combatido com tenacidade e vigor.

que mal pergunte

O que se passa com a revista LER? Está a terminar o Inverno e o seu respectivo número ainda não saiu... Vai sair? Ou o projecto findou? Só para saber, desenganar-me e deixar de andar atrás dela...

08 fevereiro 2018

mediascape: sexo, o dogma

D. Manuel Clemente publicou um documento com algumas normas para regular o acesso aos sacramentos católicos de pessoas em situação irregular, isto é, divorciados e recasados, das quais se destaca, a proposta para uma vida de continência, ou seja, uma vida sem sexo, sem relações sexuais. Espanto?! Nem por isso. Uma Igreja conservadora como a Católica não é capaz, às tantas nem era suposto ser, de acompanhar a evolução das sociedades - o seu modo de vida, as dinâmicas sociais, os desafios dos indivíduos e famílias, etc., etc. - da contemporaneidade, mesmo quando está pejada de indivíduos doentes, tarados sexuais, abusadores, criminosos, que viveram e vivem impunes e sem serem incomodados, beneficiando do silêncio cúmplice da hierarquia religiosa. Hipocrisia é o termo apropriado - "façam o que eu digo e não o que eu faço". Por outro lado, só mentes perversas, bolorentas e completamente ausentes da realidade da vida das pessoas, podem acreditar num dogma chamado sexo e que uma existência celibatária é, em si, uma felicidade, uma condição humana superior, ou o atingir de um nirvana qualquer.
Alguns estarão já a dizer: lá está este a implicar com a Igreja. Não, não estou. Mas o facto noticiado é de tal forma ridículo que me era impossível ficar quedo e mudo sobre o assunto. Tal como o teólogo Anselmo Borges, citado pela mesma notícia, afirma: Não faz sentido admitir que estão casados, por um lado, e pedir-lhes que não tenham vida sexual, por outro. É contra a natureza humana. Ao impossível ninguém é obrigado.
Resta-me uma dúvida: qual será a percentagem de fiéis católicos praticantes que aceitam para as suas vidas os preceitos sexuais da sua religião? Gostava de saber, apesar de ter uma ideia muito clara sobre os valores residuais dessa percentagem.
Depois admiram-se do esvaziamento das igrejas, do afastamento dos jovens e menos jovens, da diminuição do número de baptizados, casamentos e até celebrações fúnebres religiosas. Como não?!

28 janeiro 2018

fascínio biográfico

Se não estou em erro, terá sido na noite do dia 18 de Janeiro, já bem tarde, que dei de caras com um documentário sobre o poeta Eugénio de Andrade na, tão mal tratada, RTP Memória. Foi num zapping,enquanto procurava vontade de me ir deitar, que encontrei esse testemunho datado de 1992 e gravado na cidade do Porto. Pelas imagens consegui identificar quase todos os lugares por onde o poeta existiu na Invicta. Tendo percorrido toda a sua vida e todas as cidades por onde passou, a narrativa da sua vida acaba por ter na cidade do Porto o seu maior capítulo, pois foi nela que viveu entre 1950 e o dia de sua morte, 13 de Junho de 2005. Na altura, em 1992, Eugénio de Andrade estava já reformado e grande parte do seu tempo era passado em sua casa, então na Rua Duque de Palmela.
Mais do que a sua obra poética, que conheço mal, a mim fascina-me a dimensão biográfica que, normalmente, fica na sombra destes vultos das artes. Dei comigo, qual voyeur, a tentar ler as lombadas dos livros que aparecem por trás do poeta e que com certeza ele um dia leu, a espreitar para os sofás e as poltronas que se vislumbravam, a tentar conhecer a sua secretária e a sua máquina de escrever. O fascínio de procurar e encontrar pequenos e ordinários caracteres do quotidiano e comuns a milhares de pessoas, nas vidas destes génios literários.
No dia seguinte, portanto, dia 19 de Janeiro, tive que ir ao Porto e ao passar junto à Biblioteca Municipal do Porto, junto ao jardim de S. Lázaro, lembrei-me que a Duque de Palmela era ali bem perto e, sem hesitar, lá fui eu à procura do número 111 dessa artéria. Logo a encontrei. Encostei o carro como pude e fui-me por em frente do prédio, do outro lado da rua. Nenhum sinal de vida no 2º andar onde ele vivera, as persianas estavam a meio e mesmo no resto do prédio não percebi qualquer movimento. Ali fiquei uns minutos num estado contemplativo e reflexivo. No fim e com muito pudor tirei esta fotografia ao prédio. Entretanto, aproveitando as maravilhas da tecnologia televisiva, já voltei a ver o documentário.

19 janeiro 2018

novo projecto

Pois é, ano novo, vida nova, como se costuma dizer. Na verdade, a ideia tem já vários meses e foi sendo desenvolvida ao longo do ano de 2017. Trata-se de uma pequena organização que denominei "A EIRA" e que tem por objectivo trabalhar, estudar e reflectir sobre os caracteres sociais e, acima de tudo, culturais. Perspectivar os territórios e seus agentes naquilo que foram, são e serão, as suas dinâmicas e manifestações culturais.
A percepção de que que existem lacunas no pensamento e, principalmente, na reflexão cultural, foi uma das motivações principais para este empreendimento.
Criei um espaço na internet, como que um cartão de apresentação, que poderão visitar em www.aeira.org - para conhecer.

11 janeiro 2018

legalização da canábis



Foi hoje discutida na Assembleia da República um projecto do BE e do PAN para a legalização da canábis com fins medicinais. Acontece que já se sabia que o PSD, o CDS e o PCP iriam votar contra. Talvez por isso, o BE e o PAN, antecipando-se, propuseram que a proposta baixasse à especialidade, em sede de comissão de saúde, sem votação. Aquilo que me parece importante, para além da qualidade e defeitos das propostas hoje apresentadas, é a evidência científica mais do que consensual do uso da canábis como terapia para algumas doenças crónicas ou terminais. Não sou consumidor da substância, apesar de lhe achar alguma piada, mas nada abstenho ao seu uso e consumo, seja para fins terapêuticos, seja para puro e simples prazer e recreio. A sua legalização, se mais não fizesse, impediria o tráfico e a enorme especulação do produto. Tal como noutras matérias ditas fracturantes (aborto, casamento homossexual, etc) a hipocrisia de muitos daqueles que nos representam é gritante. Fartam-se de consumir todo o tipo de drogas, mas tornar isso lei e acessível a quem mais precisa delas não. Isso não. É pecado.

frenesim

Diz-me quem sabe, porque o tem sentido no seu serviço, que a função pública - administração central e administração local - anda num frenesim louco por causa do descongelamento das carreiras da função pública, inscrito no orçamento de estado de 2018, e com entrada em vigor no passado dia 1 de Janeiro. São manifestas as incapacidades dos muitos e diversos serviços em conseguirem actualizar todas as situações, num tão curto espaço de tempo, mas a está a ser feito e tem efeitos retroactivos desde o dia 1 de Janeiro.
Não deixa de ser um facto interessante e digno de atenção, pois não só reflectirá o sentimento desses muitos cidadãos, como releva a importância social desse instrumento que são as progressões nas carreiras. Congeladas há muitos anos - há pessoas com a carreira congelada desde 2007/2008 - as carreiras eram um dos atractivos para quem ingressava na função pública e, como será fácil entender, toda a gente gostava e queria progredir na sua carreira profissional, pois não só lhe permitia ter um incremento no salário, como acumular melhores condições para uma reforma futura. Depois destes anos todos em que tudo esteve estagnado, de muita resignação e desânimo, compreensível é a ansiedade e a excitação dos funcionários públicos para saberem da sua situação: se têm ou não direito a uma actualização, leia-se progressão, na carreira.
A política de reposição, prometida por este governo, está a concretizar-se e este descongelamento é um momento importante. Portanto, senhores e senhoras, não se esqueçam de nas próximas eleições votarem no CDS!

mediascape:importunar

« Nous défendons une liberté d’importuner, indispensable à la liberté sexuelle »

Contra um determinado feminismo que hoje impera por todo o lado, um colectivo de cem mulheres francesas assinaram um manifesto publicado no jornal Le Monde. Dessas signatárias destacam-se várias escritoras, jornalistas, pensadoras, cineastas e actrizes, sendo o rosto mais mediático o da actriz Catherine Deneuve. O documento que se afirma contra esse feminismo que "odeia os homens" e que confunde uma violação com o galanteio ainda que desajeitado ou insistente, teve impacto, não só em França, naquilo que é a opinião publica e publicada, e as reacções fundamentalistas desse tal feminismo não se fizeram esperar.
Finalmente, alguém teve a coragem para desconstruir esta irritante e estúpida tendência feminista, que se afirma tão moderna, actual e politicamente correcta (esse dogma da superficialidade), manifestando-se de forma tão radical e extremista, que acaba por incorrer nos mesmos erros daqueles que recrimina. Sim, sou defensor da igualdade de géneros (deveres e direitos), nunca me considerei machista, mas também não consigo aceitar este novo discurso de gajas ressabiadas, complexadas e descompensadas. É que ser homem e ser mulher não é a mesma coisa, e a diferença não é só biológica - genética, fisiológica, psicológica, é também cultural e social - hábitos, costumes, práticas, rituais, rotinas. Por muito folclore e ruído que esse tal feminismo faça ou venha a fazer, a diferença permanecerá, sem que isso tenha obrigatoriamente que ser um facto negativo.
Somos diferentes e ainda bem.

09 janeiro 2018

intangível

Nos seus Diários de Viagem, Franz Kafka, às páginas tantas escreveu:
...ofuscada de imediato com a meia-luz do quarto, quis esconder depressa a cara atrás das mãos, mas pela janela, diante de cujo caixilho a neblina que ascendia da iluminação da rua finalmente se detinha sob a escuridão. (página 69)
Agora que os estou a reler, fixo-me novamente nesta frase, e desta vez por causa de uma nota de margem que um dia lá registei. Por mais que a leia não consigo vislumbrar o cenário que ele pretende descrever. É para os meus sentidos e sensibilidade impossível atingir tal paisagem.
A nota, a lápis, que lá escrevi, diz: que puta de frase!

decepção

Desde que descobri que se vendiam livros no OLX, passei a frequentar assiduamente e a pesquisar frequentemente por livros que quero ter e à descoberta de bons "negócios". Durante o ano de 2017 terei comprado, através desta plataforma, várias dezenas de livros que, na sua esmagadora maioria, estavam em excelente estado de conservação. Por assim ter sido, foi uma desilusão quando abri o último livro que lá comprei e que me chegou às mãos por estes dias. Trata-se de um pequeno livro chamado "A Sociedade Transparente" de Gianni Vattino, que sem saber se teria interesse ou não, o comprei porque era quase de graça e publicitava-se em bom estado. Não está. Todo sublinhado, com anotações a caneta por todas as margens e com parágrafos inteiros pintados a verde florescente, transformando-os em passagens importantes do texto, quando na realidade não o são. O estado lastimável do seu miolo fez-me lembrar os estudantes que, ávidos de conhecimento, quando a ler apontamentos, fotocópias de artigos ou mesmo livros, sublinham e sublinham quase tudo... ridículo e contra-producente.
Queria incluí-lo no meu acervo, mas estou a ponderar se o devo ou não fazer. Foi a primeira vez que tal me aconteceu, o que me levou a suspender as visitas quase diárias à plataforma e a suspender alguns negócios que estavam em andamento.

solilóquio

Sempre gostei de gostar de café; agora, detesto não gostar de café.

03 janeiro 2018

ctt, uma vez mais!

Aquilo que está a acontecer nos CTT é uma vergonha nacional. A sua privatização deu nisto - um conjunto de accionistas única e exclusivamente preocupados com os seus lucros e a desprezar o serviço público de distribuição postal a que está obrigado. Já aqui escrevi sobre esta privatização, mas agora, com a notícia do fecho de vinte e dois balcões por todo o país, maioria dos quais em concelhos do interior, temos a prova das verdadeiras e únicas intenções da empresa. Uma vergonha que deveria merecer a intervenção do Estado e a reversão da sua privatização, regressando o serviço público para o Estado, de onde nunca deveria ter saído. Por outro lado, fica também aqui manifestada a verdadeira essência do sector privado quando consegue a adjudicação de qualquer serviço público. É por este exemplo, como o da ANA, ou o da REN, que acredito que deve ser o Estado o dono destes sectores estratégicos nacionais. Sem hesitações, contemplações, ou qualquer receio, o Estado deve ser muito mais do que um simples regulador ou supervisor.

31 dezembro 2017

designated survivor


Aconselhadas e partilhadas por um amigo, trouxe para estes dias de retiro transmontano duas séries televisivas. A primeira foi a sétima temporada de Californication, cujos doze episódios vi de uma vez só e que é a mais brilhante série alguma vez vista por mim; vi e guardei todas as suas temporadas. Mas a surpresa foi a serie Designated Survivor, cuja primeira temporada tem vinte episódios e nos conta a vida de um presidente dos EUA independente, não eleito, mas nomeado depois de todo o governo e altos cargos do sistema de estado terem sido mortos num atentado. Estou completamente agarrado e tenho consumido 3 a 4 episódios por madrugada. A série conta com Kiefer Sutherland no papel principal, de presidente dos EUA nomeado, e com a talentosa e belíssima Natascha McElhone no papel de primeira-dama. Já vi onze dos vinte episódios e sei que irei terminar nas próximas horas. Satisfação suplementar, saber que haverá segunda temporada.

ciclos que se renovam

Chegados a mais um final de ano e a sensação que se repete. Um ano que termina para dar lugar a um novo, numa passagem de testemunho que em nada se distingue de uma qualquer outra noite passada, a não ser o ruído humano, sempre demonstrativo da carência individual e, depois, colectiva de festa, de ânimo, de alegria. Talvez ainda significativo da consciência e nostalgia da perda que é a passagem de cada ano para a vida de cada um dos seres humanos. Dois mil e dezassete acaba hoje e vai-se juntar de imediato à soma de anos que já vivemos, transformando-se em mais uma memória temporal que poderemos num presente futuro evocar ou relembrar.
Ainda que abstraídos dessa dimensão temporal, iremos entrar num novo ano, num novo ciclo que, por estes dias, fazemos questão de ponderar, de perspectivar ou antecipar. Sobrará a eterna questão de sabermos quantos mais ciclos poderemos experimentar. Venha 2018.

é, pois

...Bem diferente é o caso daqueles (intelectuais) que não intervêm ou nunca intervieram, mais por subestimarem as suas aptidões, por timidez ou por falta de oportunidade do que por atitude sistemática. Estes fazem falta, sabem-no, mas quase sempre revelam dificuldade em descobrir o meio adequado para intervir.
(...)
Sabemos do pavor que a tantos "intelectuais" inspira a palavra "organização". Como se a circunstância de integrarem uma organização, por pouco formal que seja, lhes coarctasse a expressão ou lhes condicionasse o pensamento.
(...)
Segundo se diz, o que menos se espera de um "intelectual" é o conformismo.
(Arlindo Fagundes in Le Monde Diplomatique)

28 dezembro 2017

a minha consoada

Já passaram alguns dias e a dieta foi já reposta. Esta foi a consoada em que, pela primeira vez, recusei qualquer iguaria ou confecção diferente daquela que toda a família reunida iria comer - bacalhau e polvo cozidos com couve, batata e rabas - e como não gosto de bacalhau cozido, nem valorizo o polvo, foi noite de quase não comer. Em relação aos doces, nem vale a pena referir, pois nem nesta, nem em qualquer outra consoada, eles existem para mim. Portanto, o Natal e, em particular, a consoada, não é tempo de perdição, nem de consumos excessivos, muito pelo contrário, é tempo de alguma privação, devidamente compensada, claro está, pelos volumosos consumos de vinhos e afins. Bem haja.

27 dezembro 2017

mediascape:rentismo

Aproveito estes dias de vazio, de horas repletas de nada, para ler, ler e ler. Guardei até estes dias o Le Monde Diplomatique e agora, tal como é frequente, encontro excelentes textos e artigos que me fazem reflectir. Como logo no editorial, Sandra Monteiro escreve a propósito do adiamento da proposta de criação de uma contribuição de solidariedade sobre os produtores de energias renováveis:
Configurando um caso de rendas excessivas, nada justifica a manutenção dessas condições de excepção. A criação de uma sobretaxa viria apenas mitigá-las. Nenhuma preocupação ecológica pode justificar este privilégio. (...) Ela apenas garante lucros estratosféricos, e quase sem riscos. Entendeu o governo que havia que estudar melhor o desenho da medida e as consequências que ela poderia ter sobre potenciais investimentos na economia, em particular na compra de dívida portuguesa, e sobre a eventual litigância na justiça. Será de acompanhar com o maior interesse a evolução dessa reflexão e desse estudo. Será mesmo um acto fundamental de cidadania. Porque o que dele resultar será decisivo para se compreender se os Estados e os poderes políticos nacionais têm (ou não) capacidade para defender os seus povos para lá do simples apagar de fogos a seguir à fase aguda de cada crise. Isto é, será um laboratório muito útil para se concluir se é possível afrontar o parasitismo rentista de empresas transaccionais sobre os Estados nacionais, mesmo em sectores tão estratégicos para a economia como a energia. (...) Muito útil, por fim, para se compreender que respostas dará a União Europeia a Estados, como o português, que para saírem desta armadilha da dívida e do rentismo, tenham de colocar em cima da mesa propostas robustas de reestruturação da dívida pública.
(negritos meus)

20 dezembro 2017

há mais de trinta anos...

Amigos desde sempre e, sei, para sempre. Pena é não reunirmos mais vezes. Hoje e depois de uma rica francesinha e de uns divinais rissóis de carne, no Capa Negra.

eu quero

- Pai, eu quero ir para a escola do Porto!
- Escola do Porto?! Que escola?
- Do futebol.
- Porquê?
- Para depois ir dar as bolas aos jogadores (ser apanha bolas).

16 dezembro 2017

clave de sol


Chave para a decifração dos caracteres musicais inscritos nas linhas de um pentagrama, permite aos leitores identificar a ordem e a sequência das notas a executar. Ao recordar aquilo que um dia aprendi e ainda hoje consigo ler, dou comigo, sem qualquer razão ou propósito, a esquissar os seus contornos em qualquer pedaço de papel.
Independentemente da sua qualidade musical ou técnica, que sei relativa ou discutível, na verdade, a sua presença gráfica sempre me foi aprazível ao olhar e, não estarei a exagerar ou generalizar se afirmar que será o símbolo musical mais universalizado, mais denotativo e significativo, para doutos ou leigos, nessa arte de escrever e ler uma pauta musical.
Ao percorrer os inúmeros cadernos de apontamentos, agendas, folhas soltas e cadernos escolares, que ao longo da vida preenchi, é o símbolo gráfico que mais encontro rabiscado. Desde muito cedo, talvez desde que o descobri, aprendi e percebi, passou a ser o símbolo que mais rabisquei e que gosto rabiscar. Se me pedissem para eleger o meu símbolo, não hesitaria em o destacar de todos os demais.

quando eu for grande...

- Mamã, eu quero ser professor.
- Ai sim?!
- Sim, quero ser professor.
- Queres ensinar os meninos a escrever e a ler?
- Não Mamã. Quando eu for professor vou mandar os meninos brincar todo o dia, de manhã até à tarde e eu também vou brincar com eles.
- Brincar?!... Então e estudar?
- Não. Os meninos não querem isso, querem é brincar. Brincar é que é fixe.

08 dezembro 2017

jawline

- what the fuck is that?!
Esta foi a minha primeira reacção quando ouvi a minha filha referir-se às pessoas que por nós passavam. Ela, contemplativa, estava a apreciar os rostos daqueles e daquelas que desfilavam à nossa frente, referindo-se, em concreto, à perfeição dessa jawline(?), ou se tinham ou não essa jawline(?). Mas que raio de conversa, disse-lhe eu. Ela ainda tentou explicar-me, mas a minha surpresa por tal observação e especificidade do critério para julgar a beleza humana, deixou-me abismado. Segundo ela, os rostos bonitos e perfeitos são aqueles que têm essa jawline(?) bem vincada e visível no rosto. De imediato, a minha reacção foi tentar rebater essa ideia, dizendo-lhe que é natural que só os rostos bem vincados, magros e esguios, poderiam manifestar essa característica, pois os rostos mais redondos e com mais carnes, ocultam os recortes da estrutura do crânio.
Pouco tempo depois já estava eu em busca dessa jawline(?), do seu significado, origem, etc. e afins. Pois bem, jawline significará "queixo", ou "linha do maxilar" e é um termo relativo à anatomia humana. Pelo que percebo, o ideal será ter essa linha bem vincada no rosto, adquirindo assim uma forma triangular.
Caramba, com toda a certeza, este conceito não é novo, mas foi preciso a minha filha adolescente se referir a ele, para eu aprender algo que jamais me chamara a atenção num rosto. Quanto a mim, ignoto, a beleza de um rosto continuará a ser avaliada por outros caracteres fenótipais, tais como os olhos, a boca, o cabelo, o sorriso, os lábios, o olhar. E uma cara laroca, ainda que rechonchuda, continuará a ser uma cara bonita, admirável e consumível.

Segundo o critério da jawline, a imagem superior apresenta um rosto mais bonito, mais perfeito, do que o rosto da imagem inferior. Eles lá sabem.

07 dezembro 2017

crescendo

Depois de vários meses sem pesquisar ou procurar qualquer livro no OLX, regressei por estes dias e fui encontrar este lote de dezasseis revistas "Sociologia", editadas pela Faculdade de Letras do Porto, aqui bem perto em Vila Nova de Gaia e pela módica quantia de, pasmem, 6.90€, ou seja, a sensivelmente 43 cêntimos cada uma. Já cá estão no acervo, registadas, bem guardadas e estimadas.
Podem sempre vir mais.

04 dezembro 2017

para odiar

O novo rosto do ódio para os europeus, pelos menos para aqueles que estão sob o jugo do Euro e sua zona e, de entre estes, para todos os do Sul e mediterrânicos, será de agora em diante o nosso Mário Centeno, até ao presente nosso ministro das finanças.
Não consigo afastar do pensamento aquele seu ar apalermado, de perfeito desconhecido e sem créditos para quase todos nós, quando foi nomeado por António Costa. E agora, este burocrata luso chega ao topo da hierarquia das instituições europeias, e logo, por curiosidade, à instituição que representa o pior e o menos democrático que a Europa, esta Europa, tem.
Depois, falta referir este provincianismo português de afirmar a importância para o país, para todos nós enquanto portugueses, da eleição de um português para um cargo internacional. Alguém me consegue explicar quem, para além do eleito, beneficia com essa eleição?! O que beneficiou Portugal por Durão Barroso ter sido, durante dois mandatos, presidente da Comissão Europeia? Eu não percebi nenhum benefício ou vantagem para Portugal. Enfim, a mim tanto me faz que Mário Centeno seja ou não presidente do Eurogrupo, mas detesto este parolismo luso.