29 maio 2026

desígnio existencial

"os tempos não vão bons para quem tem fé na racionalidade"

Na sua última crónica no suplemento Ípsilon do jornal Público (22 Maio), Ana Cristina Leonardo começa o seu texto com a citação acima transcrita e logo enfiei a carapuça, pois olhando-me ao espelho, neste caso retrovisor, isto é, relembrando-me jovem de vinte a trinta anos, acho que o meu comportamento, a minha atitude e as decisões que assumia sempre se basearam mais pela emoção do que pela razão, e ainda que possa hoje dizer que não me arrependo de algo que me tenha acontecido, com o passar dos anos e décadas, à medida que fui crescendo e amadurecendo, a razão foi ganhando espaço, relevância e influência, em mim e na minha vida. Hoje, depois de mais de cinco décadas de emoções, posso afirmar que tenho uma profunda fé na razão humana e que essa racionalidade foi, e é, indiscutivelmente, a marca de água que permitiu a cada ser humano ser o que é, mas também possibilitou vivermos com o conforto, a saúde e o bem estar que actualmente podemos (quase) todos usufruir. Percebi logo o alcance do raciocínio da autora e também estou ciente do novo mundo que me rodeia e dos perigos que ele representa para pessoas como eu. Resta-me persistir naquilo que considero ser um desígnio existencial: ambicionar, contribuindo, um mundo mais justo.

27 maio 2026

lugares de conhecimento

"Já reparaste que o centro da universidade eram o Livro e a Biblioteca? Ninguém parece querer aceitar até que ponto a revolução digital dinamitou a ideia de escola e de universidade. Não foi apenas "esta" escola e "esta" universidade que foram dinamitadas. Foi mesmo "a Escola" e "a Universidade" em geral como lugares de conhecimento. Para todo o sempre. O conhecimento passou a estar no ecrã. Foi um tiro no porta-aviões. Caros amigos, acabou. Virá outra coisa, certamente. Mas será outra coisa."
André Canhoto Costa, in revista LER nº 176: 2025/26: 96)

15 maio 2026

pensar significa sofrer

Numa conversa informal nos corredores da Universidade de Coimbra, uma colega jovem investigadora comentou, como quem pensa alto ou em jeito de desabafo, que se sente mentalmente muito cansada e que às vezes, ao frequentar determinados estabelecimentos comerciais, olha para as funcionárias e sente inveja da sua aparente despreocupação e da sua monótona ou repetitiva tarefa manual. Eu ouvi-a e logo rebati essa ideia ou percepção, primeiro porque não fazemos a mais pequena ideia do que vai na "alma" de cada um dos indivíduos, neste caso trabalhadores e, depois, não é pelo facto de as tarefas ou funções serem exclusiva ou parcialmente manuais, que impede o cérebro de estar congestionado com mil e uma preocupações ou inquietações.
Mas este desabafo da colega, numa expressiva e ilustrada manifestação do seu cansaço mental, remeteu-me igualmente para a afirmação de Ludwig Wittgenstein (1889-1951), filósofo austríaco que dizia, mais ou menos, isto: não é possível pensar sem infligirmos a nós próprios algum sofrimento...
Estaria então a minha colega em sofrimento por tanto pensar?!... Se assim for, eu também vivo em permanente sofrimento, muitas vezes imperceptível ou inconsciente, mas nalguns dias bem vivo e ciente, na medida em que a idiotice não cessa e acordo quase diariamente já cansado.

07 maio 2026

incompreensível especulação

Numa recente deslocação a Trás-os-Montes, viajei de Bragança para Miranda do Douro, via Alcanices (Zamora), aproveitando para espreitar o preço dos combustíveis. Ao regressar de Miranda do Douro para Bragança, com o depósito mais vazio e depois de na ida ter confirmado a enorme diferença de preços, não hesitei em parar e pedir para atestar o depósito. Nessa altura, cá em Portugal o combustível que consumo, a Gasolina 98, estava a ser vendida a dois euros e vinte e qualquer coisa cêntimos por litro. Em Espanha nesse dia, paguei pela mesma gasolina, um euro e setenta e um cêntimos por litro. Portanto, uma diferença de menos cerca de cinquenta cêntimos por litro.
Como é possível tamanha diferença?... Como se justifica entre países vizinhos e que se abastecem nos mesmos mercados petrolíferos, existir tal amplitude de preço para o consumidor final? Só pode ser entendido como um esbulho que o Estado Português pratica e permite que as gasolineiras assim se comportem. Num tempo em que estas apresentam lucros estratosféricos, eu diria, indignos, o Governo (Estado) limita-se a encolher os ombros e a demitir-se do seu papel de regulador, debitando titubeante medidas avulsas e sem verdadeira vontade de se imiscuir nestes assuntos. O exemplo claro desta atitude é o anúncio da ponderação de criação de um imposto extraordinário sobre os lucros extraordinários que alguns agentes económicos estão a alcançar neste contexto de acumulação de várias crises à escala global. Mas, se podemos aceitar a ideia dessa taxação extra, também é verdade que essa ponderação significa o reconhecimento de uma situação anormal, incorrecta, especulativa de aplicação de preços no mercado português, portanto, mais do que taxar lucros, o correcto seria actuar a montante, ou seja, controlar os preços dos produtos que estão, neste contexto, sujeitos a maior pressão. Bastaria vontade e determinação de quem tem o poder para tal.


[ fotografia que tirei no posto da Repsol de Alcanices, no dia 1 de Maio de 2026, ao abastecer de Gasolina 98 ]