Não foi, é ou será tarefa simples ou fácil verter em palavras a experiência sensorial que vou aqui partilhar. Este é um daqueles momentos em que gostaria ser um bom escritor, ter a arte de um surrealista, por exemplo, para me libertar a mente daquilo que testemunhei e, através das palavras, conseguir alterar essa realidade. Ou então, ter a arte de um neo-surrealista e ser capaz de criar um ambiente fantástico ou um cenário burlesco e teatral. Mas, infelizmente, nem uma, nem outra arte, apenas a discrição factual, ao jeito de diário de campo, de uma memória sensorial traumática.
Quero falar de um quarto, anónimo mas concreto, sem localização mas específico, que visitei uma única vez e o impacto de tal experiência foi devastador, como que uma epifania deplorável que eu gostaria de não ter vivido. É que nada me poderia ter preparado para tal, jamais imaginei que alguém das minhas relações e por quem nutro sentimentos de amizade habitasse em tais condições.
Desde o momento em que pus os pés na soleira daquele edifício, logo desconfiei do que me aguardava. Todo o edifício, interior e exterior, em cimento, como que inacabado, vão de escadas e escadarias escuras, sujidade por todo o lado, sem qualquer indício, ou sequer hipótese, de conforto. Subi até ao primeiro andar e, logo no cimo desse lanço de escadas, uma porta à esquerda, fechada à chave como se de uma habitação se tratasse, que mal se abre me ofereceu o horror... numa desarrumação difícil de descrever ou ilustrar, nada parecia fazer sentido, mas que ao mesmo tempo era, eu sabia isso, o espaço vital e "organizado" por alguém que nele vivia.
O espaço teria, mais ou menos, quatro metros de cumprimento e cerca de três metros de largura e todo ele estava saturado de "coisas", que os meus olhos e nariz só conseguiam adjectivar como entulho ou lixo. Aos meus olhos, tratava-se de um depósito de velharias, muito velhas e gastas, fechado há muito tempo e para o meu nariz, o odor era insuportável e estava impregnado em cada objecto, cada farrapo ou mobília. Não tive coragem de tocar em nada e fiz, discretamente, alguns registos fotográficos com o meu telemóvel, não para mais tarde recordar, mas como prova de que ali estivera e vira o que vi.
Quem ali e assim viveu teve um tecto, é verdade, no entanto, o caos no espaço existente entre aquelas quatro paredes esmagou-me a consciência, tal foi a sensação de indigência, abandono, indignidade e despojamento. Aquilo que foi, durante muitos anos, a casa de alguém, não era sequer digno desse nome. Muito triste.

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