19 outubro 2017

é tempo

É tempo de perceber que o OE, a dívida, o défice e o funcionalismo público não são o país. Este é feito de pessoas que têm sentimentos. António Costa ou percebe isso, ou não.
(Fernando Sobral in Jornal de Negócios)

lixo vegetal e resiliência

Ainda no rescaldo dos trágicos incêndios de Domingo, uma amiga comentava que achava impressionante como o fogo chega tão perto das habitações e do centro das aldeias. Ao olhar para as imagens dos incêndios e da permanente invasão do fogo de espaços habitados, não percebia como era isso possível. A essa estranheza mostrei-lhe, através da paisagem que percorríamos de carro, em territórios eminentemente urbanos, de periferia de grandes centros urbanos, como todos nós vivemos rodeados de lixo vegetal, de autêntico combustível pronto e disponível para ser rastilho e alimentador de fogo. Reparem como mesmo em espaços urbanos ou peri-urbanos, espaços com enorme pressão urbanística e demográfica, as pequenas matas, silvados, fetos e outra vegetação selvagem, crescem fácil e livremente, sem qualquer reacção ou medida para evitar esse perigo eminente. Depois queixam-se e não percebem como foi, ou é, possível o fogo aí chegar...
Se olharmos para o interior do país, ou melhor, se sairmos dos grandes centros urbanos e mergulharmos na paisagem rural do nosso país, muito facilmente iremos verificar como as pessoas vivem, literalmente, mergulhadas nesse lixo vegetal, sem qualquer utilidade ou proveito, mas que em situações como as que agora experimentámos, são pasto e autênticas vias rápidas para a gula do fogo devorar tudo o que se lhe apresente pela frente e chegar até ao centro dos povoados. Impressionante. Vejam as imagens que ainda hoje passam nas televisões e poderão constatar isto mesmo. Só que ninguém fala nisto e a pergunta que se impõe é: porquê?

17 outubro 2017

responsabilidades

Apesar de saber que não é pela demissão e substituição de ministros, secretários de estado, chefias, comandantes e comandos que os problemas desaparecerão, impõe-se em todo o caso uma responsabilização de todo o aparelho de estado relacionado com a Protecção Civil e Ministério da Administração Interna. Concordo que a actual Ministra da Administração Interna e sua equipa não têm qualquer condição para se manterem nos cargos que ocupam e que deveriam ser substituídos quanto antes, mas também defendo que os demais elementos da hierarquia de poder, nas diversas instituições que compõem a Protecção Civil deveriam ser substituídos. Deveriam correr com todas chefias e corpos dirigentes, cujas carreiras são políticas e substituí-los por novos elementos, sujeitos a concursos, com relevância para o seu mérito técnico, académico e experiência profissional. Assim como também defendo que nos bombeiros haja modificações nos seus quadros dirigentes. Aliás, é aqui neste universo das corporações dos bombeiros que está o grosso do filão dos incêndios. É aí que se constroem verdadeiras fortunas. Não se percebe como figuras como Jaime Marta Soares consiga passar por entre as pingas desta chuva e não seja também ele responsabilizado e, de uma vez por todas, erradicado de seu trono de "dono dos bombeiros e seus interesses". Se em todo este cenário há uma figura indigesta, que me induz a vesícula biliar a libertar bílis, é esse senhor. É que não há pachorra.

ainda do raio que os partam!

Neste tempo de reflexão e de luto nacional pelas vítimas dos incêndios e a propósito daquilo que ainda ontem aqui escrevi sobre esta moda da defesa exacerbada dos direitos dos animais, que tem distraído a nossa classe política daquilo que é importante e essencial para a nossa sociedade, na verdade, nos últimos anos, talvez desde 2009 e, com maior incidência a partir de 2011, fomos completamente esmagados pelas questões financeiras e económicas, por uma trupe de especialistas - políticos, jornalistas, astrólogos e afins - que monopolizavam a opinião pública e esgotavam a comunicação social publicada, não dando qualquer espaço para se poder falar do resto. Lembro-me de já aqui ter manifestado o meu desagrado por tal esmagamento...
Aqui está um bom exemplo, as florestas, mas foi preciso uma desgraça como a destes dias para ela entrar na agenda política e mediática. Se pararmos para pensar sobre todos estes anos, não houve espaço nem para a floresta, nem para o território, nem para justiça, nem para a protecção civil, nem para a educação, nem para a agricultura, nem para a saúde, nem para a pesca, nem para a cultura, nem para mais nada a não ser o discurso financeiro/económico da dívida pública, do défice, do endividamento, dos ratings e da recessão. Talvez se a opção não tivesse sido essa, parte dos problemas nos outros sectores da nossa comunidade; talvez desgraças como as deste Verão/Outono não tivessem a dimensão catastrófica que tiveram; talvez, talvez.

16 outubro 2017

raios os partam!

Escrevo estas linhas, no rescaldo, ou quase, de mais uma tragédia humana em Portugal, provocada pelos incêndios. Até este momento, e entre ontem e hoje, morreram trinta e seis pessoas em diferentes locais do país. Existem várias dezenas de feridos, entre os quais muitos com gravidade e correndo o risco de vida, sete pessoas estão desaparecidas e o cenário pode, a cada momento, ficar ainda mais catastrófico. Inacreditável. Mesmo depois do que aconteceu em Pedrogão Grande, e passados cerca de quatro meses, nada se fez para corrigir os erros aí verificados: nada se alterou na protecção civil, nas cadeias de comando, na protecção das populações rurais, na organização do território, nem na reorganização da floresta nacional. Não houve tempo!?
Mas tempo não faltou para, nas últimas semanas, andar elite política, urbana e cosmopolita, entretida a elaborar legislação, a discutí-la e a votá-la na Assembleia da República, sobre a permissão de animais de estimação em estabelecimentos de restauração. Bem sei que um e outro assunto não têm relação, mas aquilo que aflige é a futilidade, perante tantos assuntos importantes e urgentes para resolver, andarem entretidos e muito preocupados com os animaizinhos e os seus putativos direitos.
Raios os partam! Esta gente só pode viver numa realidade alternativa, desligada da realidade. Qualquer dia, provavelmente num futuro próximo, vai querer legislar sobre a possibilidade de os sentarem à mesa connosco e serem servidos de igual forma. Ou pior, para alguns radicais desta nova PANizização na nossa sociedade, o objectivo será pôr-nos a comer o mesmo que os tais animais de estimação... [prestem bem atenção aos seus programas, discursos e agendas...]
Eu gosto de animais, nomeadamente de cães, mas não confundo a sua condição com a humana, naquilo que são os seus pretensos direitos e, pasme-se, suas obrigações. Enfim, o ridículo é tal que estou ansioso pela discussão parlamentar na especialidade destas leis. Estou também curioso para saber qual a percentagem de proprietários, dos referidos estabelecimentos comerciais, que irão permitir a permanência de animais de estimação.

11 outubro 2017

é o que se chama pôr a carne toda no assador...




mercado de livros

Uma vez mais está a decorrer [de 3 a 25 de Outubro] o Mercado do Livro, no Pavilhão Rosa Mota. Hoje foi dia de o visitar. Aproveitando duas horas livres antes do almoço, lá fui eu, equipado a rigor, à busca de espécimes a bom preço. Claro que encontrei, encontro sempre, algo que me interessa, mas na verdade é-me cada vez mais difícil essa descoberta. Primeiro, porque ano após ano, os títulos são sempre os mesmos; Segundo, porque maior parte daquilo que lá está disponível não interessa, eu diria, a quase ninguém - muita literatura de qualidade duvidosa, muita edição sem qualidade, muitos títulos e, principalmente, autores desconhecidos e, acima de tudo e apesar do amplo espaço, enorme anarquia nos temas, na disposição dos livros e na dispersão de autores e editoras. Terceiro, porque de ciências sociais já nada encontro que me seja estranho, que tenha interessa, ou que não tenha já em casa. Claro que sempre que acontecer, eu vou lá estar, mas, de certeza, cada vez mais com menor expectativa. No entretanto, hoje trouxe mais uns livritos apetitosos.

COMER (com letra grande)

Sim, come-se bem em Trás-os-Montes. À antiga. Dando graças a Deus, e com esperança de que por estas bandas não deitem raiz as ideias dos fanáticos que, mandassem eles, nos obrigariam a esquecer os prazeres da mesa, e nos poriam a uma dieta de alface e repolho, com sobremesa de dióspiros. (J. Rentes de Carvalho, 2017:54)

10 outubro 2017

dor de alma

Hoje perdi um livro. Por incrível que possa parecer, perdi um livro que estava a ler no conforto do meu carro. A determinado momento pousei-o na prateleira da porta do carro e com o abrir e fechar dessa porta, ele deve ter caído ao chão sem eu me ter apercebido. Só quando cheguei a casa e o procurei, me apercebi da perda. Terrível sensação. Solução imediata: aproveitar o horário do jogo da selecção portuguesa para ir comprar um novo exemplar e, assim, repor a ordem na leitura e no acervo.

09 outubro 2017

a última

Chegou-me às mãos a nova Granta Portugal, que será a última edição desta sua versão só portuguesa. A partir do próximo número passará a chamar-se Granta Portugal / Brasil e será publicada em simultâneo nos dois países e com autores lusófonos. Aguardemos então por esse novo formato. Entretanto...

06 outubro 2017

a jovem chorava

Num café, faço horas para ir buscar a minha criança à escola. Concentrado na leitura que trago, só a espaços levanto o olhar para o horizonte à minha disposição. Na mesa contígua vem sentar-se uma jovem, sozinha, traz um semblante triste. Pede algo à empregada e, reparo, pelo seu rosto caem-lhe lágrimas pesadas, que a custo vai sustendo com um lenço. Desvio o olhar no momento em que me olha. Percebo-lhe o incómodo por alguém já ter percebido a sua tristeza. Mergulho de novo na minha leitura, mas já não consigo abstrair-me do seu rosto sofrido. Mesmo sem a olhar, percebo que chora e que sofre. Hesito se devo abordá-la e confortá-la... penso, precisará falar, desabafar com alguém?... precisará apenas de um ombro amigo para continuar a chorar?... num momento seguinte, a dúvida é como a abordar... levanto-me, vencendo toda a resistência inata, seja timidez, seja cobardia, e dirijo-me a ela: - a menina está bem? - precisa de alguma coisa? Algo atrapalhada, segurando o lenço, responde-me: - muito obrigada. Não, não estou bem. Morreu-me um amigo e não sei como vai ser... Agora o embaraço é meu e apenas consigo pronunciar um lamento. Ela agradece e o seu rosto desaparece por trás da chávena de chá. Regresso ao meu lugar.
Isto foi o que imaginei ter podido acontecer se lá tivesse ido, mas não consegui vencer a inércia e deixei-me ficar sentado, atento aos sinais que lhe percebia, apenas fiz aquilo que costumo: pûs-me a escrever.

literatura e a distinção sueca

Ontem foi conhecido o Prémio Nobel da Literatura 2017. Mais uma vez o prémio foi entregue a alguém que não fazia parte da bolsa dos principais candidatos sugeridos pelos "especialistas". O distinguido foi o escritor inglês, nascido no Japão, Kazuo Ishiguro, cuja obra foi descrita como:  "romances de grande força emocional, que revelam o abismo da nossa ilusória sensação de conforto em relação ao mundo". Desconheço por completo a sua obra, os seus livros, nem sequer o seu nome me era familiar. Sei agora que está traduzido em Português pela Gradiva. Pois bem, tal como tem acontecido nos últimos anos, também este ano, continuarei a ignorar o laureado. Não questiono a qualidade da sua escrita, mas não tenho tempo, nem paciência, nem vontade, sequer, de a descobrir e conhecer. Ignorante, mas com tanto que tenho para ler... venha o próximo.

04 outubro 2017

escrever, um ambiente para

Quando miúdo, e mesmo quando mais graúdo, não havia Verão em que não fosse, com a restante família, passar umas semanas à aldeia natal de meus pais, em Trás-os-Montes. Esses dias de descanso e, principalmente, de brincadeiras e aventuras, eram partilhados com outros familiares que também para lá convergiam, por esses dias estivais.
Uma das recordações que guardo desses dias e que, na altura, enquanto criança, não entendia, era o desespero de um tio que, atolado em papéis (processos e outras peças judiciais) tentava despachar mesmo em tempo de férias, nunca encontrava o lugar propício para se poder concentrar e trabalhar. Havia sempre algo a perturbá-lo - moscas, correntes de ar, calor, ruídos de animais ou pessoas, entre outras distracções - e a impedi-lo de se manter por algum tempo no mesmo lugar. Era vê-lo, exasperado, a carregar pastas e papéis, de casa para casa, de palheiro para varandas, de cabanais para garagens, num rodopio que não percebia e numa aflição intangível para mim.
Só agora, muito mais tarde e quando sinto os mesmos sintomas e semelhante dificuldade para o processo da escrita - iniciá-la ou mantê-la - é que alcanço a sua dificuldade em encontrar o local ideal para se poder refugiar do ambiente, adverso e hostil, que o rodeava.

03 outubro 2017

capitulação

Finalmente Pedro Passos Coelho reconheceu o óbvio e indesmentível: não tem condições para continuar como líder do PSD. Para alguns, trata-se da consequência natural do resultado desastroso nas autárquicas, para outros, muitos, é algo que mais tarde ou mais cedo teria que acontecer, face ao sucesso do actual governo da "geringonça". Para outros ainda, o que aconteceu hoje já deveria ter sucedido há muito tempo.
Mais do que os ódios que Pedro Passos Coelho conseguiu coleccionar enquanto Primeiro Ministro, o que sempre me impressionou foi a sua resiliência, numa teimosia doentia e cega. Mais do que a queda de Pedro Passos Coelho, fico satisfeitíssimo com a saída de cena, e do círculo de poder e de influência, de personagens como Marco António Costa, Miguel Morgado, Bruno Maçães e afins, que por intermédio da liderança de Passos Coelho, tiveram espaço e tempo para difundir as suas teorias e conceitos racistas, xenófobos e que, deliberadamente, prejudicaram a maioria da população portuguesa. Espero também que luminárias como Maria Luís Albuquerque, Hugo Soares, Carlos Abreu Amorim e António Leitão Amaro acabem por desaparecer numa manhã de nevoeiro lá para os lados da São Caetano.
Independentemente dos novos intervenientes e das lideranças possíveis, os próximos tempos não se adivinham fáceis para o PSD.

duas de letra

Sou um solitário, amante do silêncio e devorador de vazios. Esses tempos da minha vida em que consigo retirar-me, ainda que no epicentro do maior caos ou confusão, são os mais terapêuticos, os mais adoráveis e os mais apetecíveis. Nas andanças quotidianas, nos interstícios daqui para ali e dali para acolá, felizmente, consigo sempre encontrar um desses tempos vazio, que me permite, por breves ou largos minutos, estar e fazer aquilo que mais aprecio. Por norma, associo sempre esses tempos a lugares, aos quais regresso sempre que possível. São lugares onde, por diferentes razões, me sinto bem, confortável e onde me deixo ficar. Um desses lugares é este café junto à Biblioteca Municipal do Porto e de frente para o Jardim de São Lázaro, onde, não me servindo de seu nome, solitário permaneço.

(imagem roubada da internet)

02 outubro 2017

as minhas autárquicas

Os meus interesses, não no sentido de qualquer benefício pessoal, mas sim no sentido das minhas preferências e, acima de tudo, no sentido das disputas eleitorais locais que me importavam, situavam-se no quadrilátero entre Valadares, Vila Nova de Gaia, Bragança e Vinhais.
Naquilo que foram as primeiras eleições autárquicas deste século nas quais não participei, tal como já aqui referi, foi com alguma ansiedade e enorme expectativa que aguardei até bem perto das quatro da madrugada, por todos os resultados finais que me importavam. Em relação ao cenário nacional não me vou pronunciar, apenas referir que fiquei satisfeito, grosso modo, com o resultado final, pois interessa-me muito mais partilhar os meus sentimentos relativos ao referido quadrilátero geográfico.
Em Valadares, onde sou cidadão-eleitor, venceu com maioria absoluta o actual presidente, que é um dinossauro com várias dezenas de anos de exercício autárquico em Gulpilhares e, agora também, em Valadares. O agora candidato do PS, depois de já ter sido candidato independente, do PSD e do PS, não mereceu o meu voto, pois mantive a minha lealdade partidária. Contudo fiquei satisfeito que tivesse ganho, principalmente, pela candidatura adversária do PSD, encabeçada por alguém que apenas direi merece todo o meu desprezo enquanto cidadão.
Em Vila Nova de Gaia o resultado ainda foi mais expressivo e Eduardo Vitor Rodrigues, candidato do PS e actual presidente de Câmara, atingiu uma enormíssima votação, derrotando clamorosamente o seu candidato adversário do PSD. No concelho de Vila Nova de Gaia, o PSD foi varrido da presidência das Juntas de Freguesia, nem uma só ficou nas mãos dos sociais democratas, o que não deixou de me alegrar a amígdala. Humilhação total e completa. Fiquei satisfeito. Resta referir que apesar do meu candidato, o Renato Soeiro, não ter conseguido ser eleito para a vareação, a candidata do BE à assembleia de freguesia de Gulpilhares-Valadares conseguiu ser eleita pela primeira vez. Muito bom.
Em Vinhais o meu desejo era que o PSD conseguisse derrotar o PS. Não aconteceu por apenas 78 votos. Lamento pois era imperioso remover da Câmara Municipal todo o caciquismo, toda a clientela que por lá existe há décadas. Sem ter qualquer simpatia pessoal com o candidato Laranja, a minha proximidade a alguns dos membros das suas listas, garantiam-me honestidade e seriedade mais do que suficiente para desejar a vitória do PSD/CDS-PP. Muito mau.
Em Bragança, mais do mesmo! Vitória claríssima e esmagadora do PSD. PS apenas consegue eleger dois vereadores e três presidentes de Juntas de Freguesia (em 39 possíveis). A surpresa da noite e para grande espanto, alegria e regozijo meu, foi a eleição de dois membros do BE, pela primeira vez, para a Assembleia Municipal. Passámos a ser a terceira força partidária aí representada. Excelente.
Estas foram as minhas eleições autárquicas, nos locais que fazem parte da minha cidadania, da minha existência sentimental.

01 outubro 2017

mediascape:o princípio do fim

As imagens que nos chegam de Barcelona e de toda a Catalunha são as esperadas, tendo em conta a tensão e a incapacidade política de Madrid face à iminência da realização do referendo catalão. Uma vergonha para o Estado que não conseguiu, nem consegue, resolver as questões políticas relacionadas com as autonomias e, depois, as pretensões de cada nação à auto-determinação ou independência. Aquilo que podemos assistir hoje permanecerá durante muito tempo na memória dos Catalães e só servirá para engrossar as fileiras dos movimentos independentistas, em Espanha e em qualquer outro lugar. Ao Estado, ao PP e a Madrid resta-lhes o argumento da força policial, da repressão e da violência, só que estes serão sempre insuficientes para impedir o destino das suas nações. Sim, Espanha não é uma nação e o seu futuro estará, agora mais do que nunca, em jogo. Veremos.

29 setembro 2017

regras básicas de racionalidade, de método e os embustes (1)

- Parte 1 -
Isabel do Carmo, médica e professora, escreveu na edição de Setembro do Le Monde Diplomatique (edição portuguesa), um magnífico artigo sobre os embustes que se verificam às custas de uma tentativa de legitimação científica, em particular na área da saúde e da alimentação. Logo o título O pensamento mágico de fachada científica, sintetiza muito bem a estrutura de todo o texto, servindo-se do extenso sub-título para dizer ao que vem, afirmando: ...Mas é importante reflectir sobre as disputas que, ocorrendo fora do campo científico e não se sujeitando às regras básicas da sua racionalidade e método, tentam legitimar-se com embustes sobre o que é "natural" ou "científico".
Começa por afirmar que, ao contrário do que se possa pensar, o pensamento mágico aplicado ao quotidiano, em particular à saúde e alimentação, está associado e tem evoluído de acordo com as mudanças dos grupos mais jovens das populações urbanizadas, e não nas zonas rurais... trata-se de modas urbanas, que têm acompanhado o vestuário e os costumes.
Depois, fazendo um resumo histórico dos confrontos das massas juvenis e dos movimentos na segunda metade do século XX, procura "descobrir" as origens de uma cultura New Age e, ao mesmo tempo, de um neo-orientalismo que, apesar de diferente do olhar extasiado dos europeus aventureiros que descobriram as culturas orientais no século XIX, mas igualmente maravilhado e acrítico como se fosse finalmente descoberto o paraíso perdido em que muitos ainda acreditam. Daqui ao momento em que o Ocidente passou a olhar paternalista para essas culturas, foi um instante e, a par desta descoberta de soluções para a saúde e para a doença, instalou-se sem resistência o comércio e a marcantilização, que gera muito mais dinheiro do que poderiam sugerir umas simples ervinhas.
No segmento seguinte do texto, Isabel do Carmo começa por questionar: O que é o "natural"*? À pergunta, apresenta a palavra que os cientistas deveriam ter, se não recearem as tendências e a fúria das modas... toda a paisagem dos campos com que nos maravilhamos não é natural. Foi obra do ser humano, não estava lá. Logo, o raciocínio é fácil e lógico: O que querem dizer os comerciantes sempre que usam o adjectivo "natural"? O que querem os nossos amigos e os doentes quando falam dos produtos "naturais"? Quererão dizer que sendo "natural" é "bom"?!
Perguntar-se-á então se se trata de plantas espontâneas, colhidas com o saber antigo dos druidas ou se são cultivadas e bem cultivadas, adubadas e pulverizadas de insecticidas para crescerem bem e depressa, responderem à procura do mercado e encherem prateleiras de lojas especializadas. A autora inclina-se mais para esta segunda hipótese.
Depois, em tom interrogativo, regressa à associação entre "natural" e "bom", afirmando que esta ideia releva de um antropocentrismo muito entranhado nas religiões e nas culturas... e que mesmo a natureza nos oferece uma panóplia de substâncias perigosas para a saúde e vida dos seres humanos, apresentando vários exemplos dessas substâncias e fazendo uma síntese da evolução do conhecimento popular relativo à flora e à sua utilização para fins farmacológicos, terapêuticos e medicinais. A este propósito é dito: o respeito pela história dos saberes populares ou de vultos do passado não nos pode levar a concluir que é melhor chupar o salgueiro quando se tem dores, em vez de tomar uma aspirina de síntese, ou procurar fungos para combater uma infecção com bactérias, em vez de tomar um antibiótico. (...)
Portanto, todos os produtos "naturais", "plantas", "suplementos alimentares", mesmo sendo vendidos nas farmácias, o que lhes confere uma dignidade técnica e científica indesmentível, estão no mercado tendo apenas declarado que existem no Ministério da Agricultura e, embora sejam usados para fins medicamentosos, não têm qualquer dossiê nem de eficácia, nem de toxidade. Longe de estarem diabolizados como acontece aos medicamentos, a sua propagação assenta numa base culturalmente bem sólida.
Assim, para Isabel do Carmo, este é o mundo das nossas populações urbanas, escolarizadas, de um grupo etário dos jovens aos jovens-adultos e pelos vistos com poder de compra para frequentar os múltiplos pontos de comércio destes produtos. (...) Tudo o que vem atrás tem sido revestido de explicações "científicas", indo buscar palavras da esfera da ciência, como seja "energia" (...), com um significado quase cabalístico... O aspecto placebo é aqui de grande importância...
Agora temos a fachada científica a funcionar em pleno. É o caso das intolerâncias ao glúten e à lactose, da dieta paleolítica e a pesquisa (utilizando aparelhos e tecnologias) de défices causadores de doenças presentes e futuras.
O artigo termina com uma reflexão sobre a literária em saúde, e aqui a questão coloca-se ao nível da informação do conhecimento que é fornecida para o público em geral. Reconhecendo que tem sido realizado um esforço considerável, a verdade é que os alunos actuais têm muita mais informação do que os seus pais e avós.

* esta questão do "natural" relembra-me outra moda vigente e rentável - a da agricultura "biológica". Mas então não é toda a agricultura biológica?

regras básicas de racionalidade, de método e os embustes (2)

- Parte 2 -
Comprei recentemente este livro, pois trata de algo muito importante nos dias de hoje: na era da pós-verdade e dos factos alternativos, todos os dias parecem 1 de Abril. Este livro procura ajudar as pessoas a não serem enganadas por afirmações falsas e sem valor, apresentando um conjunto de exemplos de cariz duvidoso. Ensina e promove o uso do pensamento crítico e racional, com apoio do método científico, e promove o desenvolvimento de uma postura céptica face a tudo quanto nos é impingido, ensina a distinguir a ciência da pseudo-ciência, hoje em dia tão difundida por todo o lado.
Comprei este livro para aprender, mais e melhor. Comprei este livro pela sua dimensão pedagógica e como ferramenta para, depois, partilhar com os meus alunos. Será uma das minhas referências bibliográficas, já neste ano lectivo, para a cadeira de Epistemologia.
Paulo Pinto, no blogue Jugular, faz uma apresentação detalhada e crítica deste livro. Aconselho a sua leitura através do link - abaixo entre parêntesis.

É um verdadeiro manual de iniciação científica sobre dúvidas correntes que nos invadem o quotidiano, os murais, as notícias e os fóruns. Um verdadeiro guia sobre crendices, mitos, desinformação, temores e terrores da era global, que busca – e alcança plenamente – um único objetivo: informar o que diz a ciência acerca de cada um deles. O principal mérito desta primeira obra do Comcept é o de conseguir esclarecer evitando juízos de valor ou considerações morais ou religiosas. (Paulo Pinto, in jugular)