14 fevereiro 2019

gosto


Alexandria Ocasio-Cortez, jovem, bonita e com carisma, esta nova-iorquina de trinta anos é a mais recente estrela do partido democrata no congresso norte-americano. Não sei qual o seu futuro político, mas a julgar pelas intervenções que tem realizado, é, sem dúvida, uma lufada de ar fresco na, habitualmente, cinzenta e amorfa vida política dos EUA. A sua inteligência, perspicácia e coragem tem surpreendido e, com certeza, incomodado muita gente, mesmo no establishment democrata. Gosto, gosto muito.

13 fevereiro 2019

serviço nacional de saúde sitiado

Face àquilo que tem acontecido nas últimas semanas, só podemos concluir que está em marcha um ataque concertado ao Serviço Nacional de Saúde (SNS). Primeiro foi a greve, para uns cirúrgica, para outros selvagem, dos enfermeiros, que só terminou com a, mais que discutível, requisição civil por parte do governo e que, por mais estranho que pareça, mereceu uma estrondosa indiferença dos partidos à esquerda do PS. Não sei, mas com esta atitude, assistimos ao princípio do fim da lei da greve, tal qual a conhecemos. Vão, a breve trecho, alterá-la. Eu quase aposto...
Segundo, o tremendo ruído em torno da ADSE e das ameaças dos prestadores privados de saúde em romperem os acordos com esse subsistema de saúde. Vamos lá ver, a ADSE, suportada por um parecer da Procuradoria Geral da República que lhe deu razão, exigiu aos prestadores privados de saúde o pagamento de cerca de 38 milhões de euros que estes cobraram a mais indevidamente. Aliás, é de conhecimento generalizado que esses privados usam e abusam, há décadas, do Estado através deste seu subsistema. Agora, como reacção a essa exigência e para não pagarem o que devem, alguns privados ameaçam acabar com os protocolos estabelecidos com a ADSE.
Perante tal cenário, não deixa de ser curiosa e impressionante a rapidez com que alguns querem responsabilizar o governo pela destruição da ADSE e, pior, acreditam que o SNS deveria ser privatizado e entregue à especulação dos "mercados". A maioria das pessoas não sabe, outros nem querem saber e, outros ainda, fingem não saber, que a ADSE é exclusivamente paga pelos seus utentes e não é suportada pelo orçamento de Estado, ou seja, por todos os portugueses. Portanto, e ao contrário daquilo que os seus detractores afirmam, a ADSE não é um privilégio de alguns. Se qualquer cidadão português pode adquirir sistema complementar de saúde, ou subscrever um seguro de saúde, porque é que os funcionários públicos não hão-de poder ter, pagando do seu bolso, o seu sistema complementar de saúde?
Aquilo que estes prestadores privados agora estão a fazer não tem outra qualificação que não seja chantagem negocial, ameaçando privar os utentes da ADSE e com isso empurrá-los para o SNS, sabendo que este não tem capacidade para absorver e dar resposta a tal solicitação. Com esta atitude esses privados demonstram, igualmente, que o lucro, o seu lucro, é o fim que justificará sempre qualquer procedimento ou acção e que "vender" saúde não é diferente de "vender" qualquer outro bem ou serviço.
É, pois, em momentos como este que rejubilo, apesar de todas as suas carências e defeitos, pela existência de um Serviço Nacional de Saúde em Portugal, de acesso universal e, preferencialmente, gratuito. O que aconteceria se não existisse um SNS, ou se este fosse privatizado e ficasse nas mãos destes especuladores privados?... Bem podemos imaginar.
Não quero saber de ideologias ou de partidos, aqui como noutras dimensões sociais, quero é uma sociedade mais justa e civilizada, na qual a saúde não pode ser um negócio e na qual os utentes, pacientes ou doentes não sejam convertidos em clientes.

solilóquio

As salas de espera dos dentistas (esses sacerdotes da sádica arte de tortura humana) são verdadeiros cadafalsos e onde as dores que nos mortificam, fazem-nos desejar que a morte chegue breve.

insegurança existência

Apareceu na minha timeline do Twitter, o seguinte texto de alguém que não conheço, nem sigo nessa rede:

Vocês também olham para outras pessoas da vossa idade e acham que parecem todos bué mais adultos e maturos que vocês?

Num impulso, respondi-lhe à dúvida existência...

Isso acontece-me desde puto. Os outros é que sabem, é que são bons e superiores. Insegurança talvez?! Não sei, mas desconfio que assim será até ao fim.

Mas fiquei a reflectir sobre o assunto e a verdade é que recordo ser miúdo e admirar a capacidade de afirmação, de personalidade, que alguns e algumas, entre pares, evidenciavam. De igual forma, em relação aos adultos, condição que entendia como longínqua e quase incansável para mim. Depois, já mais crescido, enquanto estudante e até enquanto jovem adulto, trabalhador e emancipado (ou quase), senti sempre alguma insegurança naquilo que eram as minhas convicções, as minhas opiniões e até as minhas capacidades. O sentimento permanente de alguma inferioridade acompanhou-me até hoje. Claro que, no entretanto, fui aprendendo a lidar e a gerir esses sentimentos. A própria vida se encarrega de nos contrariar e de nos presentear com momentos que vão reforçando a auto-estima e a confiança.
Contudo, ainda hoje, em plena segunda idade, reconheço em mim, e em determinados momentos, essa pueril insegurança. Por outro lado, e chegados aqui, também considero que esse facto é indissociável de uma dada humildade que, em mim e para mim, será sempre uma qualidade existêncial.

a sério?

A aproximação da falência traz aos grupos financeiros uma consciência intensa da nação a que pertencem.
(André Malraux, 1933)

01 fevereiro 2019

cultura

É muito difícil, senão impossível, explicar a um néscio a importância da cultura, pois ele não tem cultura para perceber a falta dela.
(Afonso Cruz, in Jornal de Letras nº 1261)

31 janeiro 2019

baron noir

Inspirada na vida política francesa dos últimos anos, esta série que, actualmente, a RTP2 transmite, tem-me obrigado a ligar a TV por volta das 22 horas (um pouco mais cedo do que o habitual). Dizem que as suas personagens representam cada um dos políticos reais da República Francesa. Como não conheço com esse detalhe a actualidade política gaulesa, apenas consigo identificar os principais intervenientes. Excelente enredo, actores magníficos. Enfim, é uma produção francesa. Muito bom.

30 janeiro 2019

mediascape:incompreensão

Circula por aí, nesse fascinante universo das redes sociais, uma indignação por João Miguel Tavares ter sido convidado para presidir às próximas comemorações do dia 10 de Junho. Não entendo porquê tanto alarido e indignação por causa disto. Independentemente de concordar ou não com as posições, com as opiniões ou com a mundivisão do referido jornalista, parece-me descabida a reacção de alguns sectores da sociedade. Seria interessante perceber as verdadeiras razões deste incómodo. Eu até desconfio saber a verdade, mas prefiro guardá-la para mim.

mediascape:extasiado

Só hoje tive oportunidade de ler e reflectir sobre as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa a propósito da sua possível recandidatura à Presidência da República. Recordo bem quando, ainda em campanha para o seu primeiro mandato, afirmava para quem o ouvia que era apologista de mandatos únicos e que não tencionava recandidatar-se a um segundo mandato. Pois bem, o Presidente da República Portuguesa mudou de opinião e afirmou recentemente, extasiado pelo anúncio da realização das jornadas mundiais da juventude em Lisboa, que existiam dois pressupostos para se recandidatar: 1º ter saúde (a sério?!...) e, 2º, (pasmem-se) saber que não há ninguém em melhores condições para receber o Papa; Bem, nem sei como adjectivar este segundo termo da equação, mas trazer para o plano político, numa república laica, um evento da cariz religioso, ainda por cima promovendo-o a critério de ponderação e decisão política é, no mínimo, ofensivo aos valores da República e demonstra, de uma vez por todas, o quão populista é o nosso Presidente da República.

23 janeiro 2019

imparidades, dizem!

Foi divulgada recentemente, e pelo que tudo indica ao luso jeito de "fuga de informação", a lista com as empresas e indivíduos com maiores dívidas à Caixa Geral de Depósitos, resultantes de empréstimos bancários concedidos e que significaram avultadas perdas por incumprimento no pagamento desses empréstimos. Um vergonha nacional! Um crime que lesa a pátria e cada um de nós, portugueses. Tendo em conta alguns dos nomes que aqui encontramos, agora se percebe porque é que o Banco de Portugal não queria divulgar a lista, nem sequer entregá-la à Assembleia da República. Tem que haver imediatas consequências políticas e criminais do conhecimento destes factos. Já foi alguém detido? Linchado em praça pública? Claro que não. Não podemos continuar a aceitar que, alguns espertos, nos inflijam esta sodomização colectiva. Eu, pelo menos, não aprecio.
Lembram-se agora do mote: "andamos a viver acima das nossas possibilidades, agora temos que pagar"? Pois bem, onde estão esses senhores? É aqui, nesta lista, que está a dívida privada e pública, é aqui que estiveram a viver acima das suas (e nossas) possibilidades, é aqui que está parte da culpa por ter existido um resgate internacional ao nosso país.

22 janeiro 2019

a escola

Sem ser propriamente inédito, aqui está um texto que deveria ser de leitura obrigatória para todos os alunos do ensino básico e secundário em Portugal. Mas mais do que consciencializar as gerações mais novas, as que estão agora na escola, para a importância da Escola e sua ontogenia, importava que os mais velhos, aqueles que decidem as políticas do ensino em Portugal para o presente e para o futuro, fossem também obrigados a lê-lo.
Porque não está ainda disponível na página do Jornal de Letras, digitalizei-o para aqui o partilhar.

(Valter Hugo Mãe, in Jornal de Letras nº 1260, Janeiro 2019)

16 janeiro 2019

solilóquio

A espaços regresso a esta mesa de trabalho que, apesar de vermelha, está, ainda, encostada a uma enorme janela. A imensa luz do dia que a alcança ilumina-me e permite-me respirar para além das herméticas paredes dos lugares que habito.

conversar

A leitura é exactamente uma conversa com homens muito mais sensatos e mais interessantes do que os que podemos ter ocasião de conhecer à nossa volta.
Marcel Proust in "O Prazer da Leitura", (1997).

10 janeiro 2019

curiosidade


Curioso, a Antropologia não é tida nem achada por nenhuma das suas "parentes", nem ela se cita a si mesma...

09 janeiro 2019

solilóquio

incomoda sentir-me inconveniente;
desconcerta a arrogância da ignorância alheia;
desarma, por completo, a má educação;
eu, hoje, em particular.

nem de propósito

Rui Nunes, em entrevista ao Jornal de Letras, diz-se farto da literatura... (negritos meus)

Não gosto do que se escreve hoje, particularmente no domínio da ficção. Acho que se separou completamente da realidade. (...) a realidade não está lá. (...) falta-lhes abertura ao mundo. (...) O eco de outras leituras está demasiado presente e o eco do mundo cada vez mais distante. É uma literatura que trabalha sobre a literatura, livros que se escrevem sobre livros.
(...)
Vemos que essas ideias (nazismo) têm uma presença cada vez mais forte. E parece que estamos esquecidos. (...) E parece que não se vê que essa luz maligna está a inundar e estranhamente a iluminar o mundo actual. E a seduzir muita gente, tal como nos anos 20 e 30.
(...)
É que quando se fala desse horror (nazismo) tão próximo, assim como da escalada a que se assiste hoje, fala-se de uma maneira normalizada E a normalização do discurso impede o seu funcionamento. As pessoas lêem e esquecem. É mais uma história. É preciso uma escrita que não seja normalizada para que as pessoas se interroguem acerca do que diz. Uma escrita normalizada é rápida e leva a um esquecimento muito rápido. Se perguntarmos a muita gente o que leu ontem no jornal, veremos que já não se lembra. O presente tem um poder muito forte e faz esquecer o passado de que é produto. Penso que é preciso reinventar, embora não goste muito deste termo, a escrita.
(...)
É preciso criar na própria escrita um atrito, uma violência que seja de certo modo homóloga à que temos presente na realidade. Uma linguagem normalizada não permite que se pare, enquanto o atrito obriga a parar.

08 janeiro 2019

a democracia, o politicamente correcto e a coragem

Vi, em directo, o Eixo do Mal do último Sábado e assisti à intervenção corajosa de Daniel Oliveira. Quis logo partilhá-la aqui, mas só agora consegui encontrar esse segmento. Um exemplo daquilo que todos nós, cidadãos de um Estado de Direito democrático deveríamos fazer, valorizar e defender. Aquilo que estamos a assistir em Portugal, embalado pelo que tem vindo a acontecer em vários países da Europa e mundo, e pelos órgãos de comunicação social e seus actores - jornalistas, comentadores e colunistas, é a uma preocupante normalização dos discursos e práticas de extrema-direita que, a vingarem, representarão o fim da própria democracia.

Nota: O ridículo daquilo que Luís Goucha fez ao levar Mário Machado ao seu programa televisivo, sob o pretexto da liberdade de expressão, é não se ter apercebido que esse senhor, caso as suas ideias saiam vencedoras, não só não hesitará em lhe retirar toda a sua liberdade de expressão, como não descansará enquanto não o exterminar.


07 janeiro 2019

terra da maçã

O programa Share retirou-me do aconchego da lareira no dia de ontem, Domingo, ainda por cima dia de festa familiar, para me levar até terras de Armamar, na margem esquerda do Douro. Apesar do dia soalheiro, estava um frio de rachar e foi num estado de quase hipotermia que cheguei a casa por volta das vinte e uma horas. A razão que me levou até à terra das maçãs foi a conversa com senhora que já participa neste estudo há vários anos e que agora vive nessa pequena aldeia de Armamar. Quase no final da nossa conversa, a senhora levantou-se e saiu da cozinha, espaço onde conversávamos, e quando regressou trazia um enorme saco cheio de maças, couves e dióspiros para me oferecer. Ainda tentei resistir, pois não era suposto eu receber nada em troca, a não ser a informação que procurava, mas a simpatia e insistência da minha interlocutora foi mais forte. Só quando cheguei ao Porto e restabeleci a temperatura corporal, fui abrir o saco. Que espectáculo de maçãs - bonitas, grandes e saborosas. Bem se podem auto-denominar e projectar como a terra da maçã...