08 dezembro 2017

jawline

- what the fuck is that?!
Esta foi a minha primeira reacção quando ouvi a minha filha referir-se às pessoas que por nós passavam. Ela, contemplativa, estava a apreciar os rostos daqueles e daquelas que desfilavam à nossa frente, referindo-se, em concreto, à perfeição dessa jawline(?), ou se tinham ou não essa jawline(?). Mas que raio de conversa, disse-lhe eu. Ela ainda tentou explicar-me, mas a minha surpresa por tal observação e especificidade do critério para julgar a beleza humana, deixou-me abismado. Segundo ela, os rostos bonitos e perfeitos são aqueles que têm essa jawline(?) bem vincada e visível no rosto. De imediato, a minha reacção foi tentar rebater essa ideia, dizendo-lhe que é natural que só os rostos bem vincados, magros e esguios, poderiam manifestar essa característica, pois os rostos mais redondos e com mais carnes, ocultam os recortes da estrutura do crânio.
Pouco tempo depois já estava eu em busca dessa jawline(?), do seu significado, origem, etc. e afins. Pois bem, jawline significará "queixo", ou "linha do maxilar" e é um termo relativo à anatomia humana. Pelo que percebo, o ideal será ter essa linha bem vincada no rosto, adquirindo assim uma forma triangular.
Caramba, com toda a certeza, este conceito não é novo, mas foi preciso a minha filha adolescente se referir a ele, para eu aprender algo que jamais me chamara a atenção num rosto. Quanto a mim, ignoto, a beleza de um rosto continuará a ser avaliada por outros caracteres fenótipais, tais como os olhos, a boca, o cabelo, o sorriso, os lábios, o olhar. E uma cara laroca, ainda que rechonchuda, continuará a ser uma cara bonita, admirável e consumível.

Segundo o critério da jawline, a imagem superior apresenta um rosto mais bonito, mais perfeito, do que o rosto da imagem inferior. Eles lá sabem.

07 dezembro 2017

crescendo

Depois de vários meses sem pesquisar ou procurar qualquer livro no OLX, regressei por estes dias e fui encontrar este lote de dezasseis revistas "Sociologia", editadas pela Faculdade de Letras do Porto, aqui bem perto em Vila Nova de Gaia e pela módica quantia de, pasmem, 6.90€, ou seja, a sensivelmente 43 cêntimos cada uma. Já cá estão no acervo, registadas, bem guardadas e estimadas.
Podem sempre vir mais.

04 dezembro 2017

para odiar

O novo rosto do ódio para os europeus, pelos menos para aqueles que estão sob o jugo do Euro e sua zona e, de entre estes, para todos os do Sul e mediterrânicos, será de agora em diante o nosso Mário Centeno, até ao presente nosso ministro das finanças.
Não consigo afastar do pensamento aquele seu ar apalermado, de perfeito desconhecido e sem créditos para quase todos nós, quando foi nomeado por António Costa. E agora, este burocrata luso chega ao topo da hierarquia das instituições europeias, e logo, por curiosidade, à instituição que representa o pior e o menos democrático que a Europa, esta Europa, tem.
Depois, falta referir este provincianismo português de afirmar a importância para o país, para todos nós enquanto portugueses, da eleição de um português para um cargo internacional. Alguém me consegue explicar quem, para além do eleito, beneficia com essa eleição?! O que beneficiou Portugal por Durão Barroso ter sido, durante dois mandatos, presidente da Comissão Europeia? Eu não percebi nenhum benefício ou vantagem para Portugal. Enfim, a mim tanto me faz que Mário Centeno seja ou não presidente do Eurogrupo, mas detesto este parolismo luso.

30 novembro 2017

"vida malvada"


Hoje tinha que aqui vir e escrever algo.
Estava a conduzir quando, na Antena 3, a locutora Isilda Sanches com a voz completamente embargada deu a notícia da morte de Zé Pedro, guitarrista dos Xutos e Pontapés. A comoção apoderou-se de tal forma da locutora que foi perceptível o seu chorar, o que, para além de demonstrar bem o seu sentimento, obrigou-me a um embargar da voz e a um estremecimento emocional.
Era sabido que o Zé Pedro estava doente, mas esta notícia apanha-nos sempre a todos de surpresa. Aqui há dias, o Tim deu uma entrevista ao Expresso (?) ou a outro jornal, que eu li e logo suspeitei, nas suas palavras, o estertor do amigo. Hoje chegou a confirmação.
Aproveito este momento de perda também para mim, para recordar a minha relação com a música dos Xutos. Se a memória não me atraiçoa, foi algures em 1987, aquando do lançamento do disco "Circo de Feras", que ouvi e registei o som da sua música. O single "os contentores" apareceu-me nos meus 13/14 anos e marcou. Motivou, se não estou em erro, o pedido persistente aos pais para comprarem esse disco em vinil - julgo, o primeiro que escolhi/escolhemos. A verdade é que ainda hoje, ao ouvir as músicas desse álbum, consigo acompanhar sem falhas, praticamente, todas as músicas do seu alinhamento. Ao contrário do que muitos dizem, a carreira dos Xutos não foi sempre pautada por boa música, considero que há períodos e alguns que nem sequer os dignificam, mas isso sou eu a dizer. O algum "Circo de Feras" foi o primeiro, foi por ele que conheci o universo dos Xutos & Pontapés, o resto veio depois e foi, na sua generalidade bom. É difícil escolher a minha música preferida, prefiro destacar algumas daquelas que mais me marcaram: "remar, remar"; "barcos gregos";  "homem do leme"; "sémen"; "Torres da Cinciberlândia"; "Esta cidade"; entre tantas, tantas outras.
Os Xutos foram, sem margem para dúvida, a banda cujos concertos eu mais assisti, por todo o país e mais do que uma vez em muitos sítios. A maior banda de música portuguesa perdeu um dos seus rostos e a música portuguesa ficou bem mais pobre. Mas isso só mais tarde o iremos perceber.
Do Zé Pedro recordo, principalmente em palco, o largo sorriso para todas as plateias e os largos movimentos de braços depois de mais um acorde na sua guitarra.
De tudo o que eles fizeram de tão bom, não tenho dúvidas em destacar "A vida malvada" como a música deles que mais me marcou e hoje foi, instantaneamente, a música que mais recordei, talvez porque, tal como eles cantam, a vida é sempre a perder.

27 novembro 2017

tempero

Conversa entre dois amigos, por estes dias, escutada num bar de hotel.
- Ela sempre foi assim... de sair... da noite... e de grande andamento.
- Pois é... É mesmo... Deus me livre de uma faneca dessas... mal por mal, velha por velha, prefiro a minha, que já está temperada a meu gosto.

23 novembro 2017

mediascape: curiosa indignação

A propósito da possível mudança da sede do INFARMED para a cidade do Porto, o que implicaria a transferência de grande parte dos seus trabalhadores, assistimos a um autêntico terramoto nos media e, principalmente, nas redes sociais. A indignação por, apenas, se ter avançado com essa possibilidade, foi generalizada e não deixa se ser curioso e até engraçado perceber o incómodo de quem orbita exclusivamente na capital por alguém ter ousado transferir um serviço da omnipotente Lisboa para a província.
Para além dos legítimos interesses dos trabalhadores directamente implicados nesta questão, não percebo o ruído, até porque nunca vi esta gente tão iluminada e tão cosmopolita indignarem-se quando os serviços públicos, tais como as finanças, a segurança social, os centros de saúde, etc., foram fechando por todo o país, que não Lisboa, obrigando igualmente os seus trabalhadores a deslocarem-se para outras cidades, ao longo dos últimos anos/décadas. Como é? Em que ficamos? Pois é, desde que não seja em Lisboa e arredores, está tudo bem. É sempre longe demais e é território desconhecido para essa "pseudo-elite bem falante" que se passeia pelas avenidas do twitter, facebook e afins, que nunca quis saber do resto do país, nem da sua desestruturação.
A mim, tanto me faz que a sede do INFARMED esteja aqui ou acolá. Não é assunto relevante e só o trago aqui por causa dessa curiosa indignação.

18 novembro 2017

melancólico mas bom

Meia-noite e meia, estação de comboios de Valadares, à espera da minha adolescente que regressava do Dragão. A rádio estava sintonizada na TSF e, a determinado momento, começo a ouvir um som envolvente, melodioso e melancólico. Desconhecia de todo o som, nem sabia quem estava a tocar. No final da música, Pedro Adão e Silva, anfitrião do programa, informou que eram os Cigarettes After Sex. Mal cheguei a casa, ávido, tratei de procurar e passei o resto da noite a ouvir esta banda, para mim perfeitos desconhecidos, e gostei. Sim, é um pop melancólico, mas soa bem. Soa a simples e melodioso. Gostei muito deste "Apocalypse".

16 novembro 2017

solidão e criatividade

Porque há uma diferença entre solidão e isolamento. A solidão é um estado criativo, e esse estado só me é cortado pela banalidade. Estou sempre em solidão, de noite e de dia, na multidão ou não, e quando deixo de estar é por causa de algum desvio. E aí recolho-me imediatamente. Preciso de manter permanentemente este estado criativo, interior, de solidão. (...) Não é fácil aguentar esta vida interior durante tantos anos sem ceder...
Luís Oliveira, editor da Antígona, in Revista LER, Outono 2017.

14 novembro 2017

verbo: proibir

A esquizofrenia social em que as nossas sociedades, actualmente, vivem, determinou que se chegasse à normalização do radicalismo, ou como se costuma ouvir e ler por aí, ao novo normal. É verdade: um dos verbos mais servidos e reivindicados é o proibir. Paradoxalmente, é em sociedades livres e com democracias adultas e estabelecidas, que verificamos esta apetência por coagir, limitar, coactar, controlar, as liberdades mais básicas dos indivíduos, condicionando a cidadania e, depois, as próprias democracias.
As redes sociais e os órgãos de comunicação social a reboque, e pelas primeiras influenciados, são o locus por excelência de todas as proibições, manifestadas grandemente através das múltiplas e variadas indignações que povoam e colonizam esses espaços virtuais, em processos distópicos, exclusivos e disruptivos, sem aparente censura, controlo ou vigilância.
Apetece decretar: é proibido proibir!

13 novembro 2017

para o Outono

Agora que o Outono está a chegar ao fim, mas quando ainda parece que estamos em finais de Verão, chegou às bancas a revista LER de Outono 2017. Para as próximas horas, que se querem frias e chuvosas.

07 novembro 2017

que mal pergunte

O que é a Websummit? É que estive a ver algumas imagens da abertura do evento que contou com o Primeiro-Ministro, o Presidente da Câmara de Lisboa, com António Guterres e com a participação surpresa do físico Stephan Hawking e não percebi. Para além do enorme show off e aparato tecnológico, o que aconteceu? Milhares de participantes com bilhetes a 1500 euros (?!), muitas caras larocas e sorridentes selfies, para quê e porquê? Depois ouvi o nosso Primeiro dos ministros falar inglês e não quis acreditar... depois ouvi Fernando Medina, com um enorme sorriso, afirmar: "Há 500 anos foram os navegadores, hoje são vocês: os empreendedores" e comecei a rir desbragado, enquanto mudava de canal.
Websummit o que significa? Quer dizer propriamente o quê? Alguém me explica como se eu fosse muito anacrónico, atávico e misantropo? Palavras (e adjectivos) estas tão bonitas por comparação com este newspeak geek, nerd e aparvalhado - veja-se a cara de felicidade aparvalhada nos rostos daqueles que por lá andam, tais quais crentes de uma qualquer seita religiosa, quiçá pelas ilusões virtuais que por lá são vendidas. Desculpem-me os crentes, mas quanto mais sei sobre estes eventos, cuja mais-valia se resume à dinâmica turística e hoteleira da cidade de Lisboa, mais realizado me sinto ao dedicar o meu tempo e saber a perscrutar e indagar sobre o passado e aqueles que, de uma forma ou outra, conseguiram deixar a sua marca, o seu trabalho, nessa linha invisível e sem fim, à qual chamamos tempo.

escritores russos


Camaradas leitores, faço autocrítica: na verdade vim em turismo burguês com a minha mulher Inês, pagando - como se costuma dizer - do nosso próprio bolso, mas aproveitando a época baixa, e sem qualquer compromisso a não ser passearmos, vermos museus, cúpulas acetoladas e sairmos descongelados do (súbito) mais frio Natal ortodoxo dos últimos cem anos.
Não gosto de viajantes modernos, de pessoas que fazem de conta que há sítios inéditos na superfície da Terra, considero-me um turista de cocktail. (...) A admiração pelos escritores russos, cem anos para trás da Revolução e cem anos para a frente, umas duzentas voltas ao Sol de poderosa beleza literária, comédia e tragédia. É por isso que estou sentado ao lado do salvar de Dostoiévski, aparelho em latão em que só ele podia mexer...
Rui Cardoso Martins, in Granta Portugal nº 10, 2017:69 e 70.

solilóquio

Dizem que há sempre um dia para os que sabem esperar. Pois bem, eu continuo à espera.

03 novembro 2017

mediascape: a burguesa

Só hoje tive oportunidade de ler a "pluma caprichosa" de Clara Ferreira Alves, na revista E do Expresso de 28 de Outubro. Do alto da sua burra, refastelada, a burguesa escreve:
Quando um problema se torna demasiado grande atira-se dinheiro para cima. Garantindo aos parceiros desprovidos de compaixão pelas vítimas que o dinheiro não virá do bolso deles. O PCP berrou logo que queria saber quem ia pagar. Eles só cuidam dos funcionários públicos, sindicatos, autarcas e clientelas que alimentam e de que se alimentam. O país nunca lhes interessou mais do que a manutenção da ideologia cujo sucesso assenta na pobreza. Se, por um milagre, Portugal passasse a ser bem administrado e menos desigual e injusto, os comunistas desapareciam. E do bloquismo restaria o perfume do caviar.