22 janeiro 2019

a escola

Sem ser propriamente inédito, aqui está um texto que deveria ser de leitura obrigatória para todos os alunos do ensino básico e secundário em Portugal. Mas mais do que consciencializar as gerações mais novas, as que estão agora na escola, para a importância da Escola e sua ontogenia, importava que os mais velhos, aqueles que decidem as políticas do ensino em Portugal para o presente e para o futuro, fossem também obrigados a lê-lo.
Porque não está ainda disponível na página do Jornal de Letras, digitalizei-o para aqui o partilhar.

(Valter Hugo Mãe, in Jornal de Letras nº 1260, Janeiro 2019)

16 janeiro 2019

solilóquio

A espaços regresso a esta mesa de trabalho que, apesar de vermelha, está, ainda, encostada a uma enorme janela. A imensa luz do dia que a alcança ilumina-me e permite-me respirar para além das herméticas paredes dos lugares que habito.

conversar

A leitura é exactamente uma conversa com homens muito mais sensatos e mais interessantes do que os que podemos ter ocasião de conhecer à nossa volta.
Marcel Proust in "O Prazer da Leitura", (1997).

10 janeiro 2019

curiosidade


Curioso, a Antropologia não é tida nem achada por nenhuma das suas "parentes", nem ela se cita a si mesma...

09 janeiro 2019

solilóquio

incomoda sentir-me inconveniente;
desconcerta a arrogância da ignorância alheia;
desarma, por completo, a má educação;
eu, hoje, em particular.

nem de propósito

Rui Nunes, em entrevista ao Jornal de Letras, diz-se farto da literatura... (negritos meus)

Não gosto do que se escreve hoje, particularmente no domínio da ficção. Acho que se separou completamente da realidade. (...) a realidade não está lá. (...) falta-lhes abertura ao mundo. (...) O eco de outras leituras está demasiado presente e o eco do mundo cada vez mais distante. É uma literatura que trabalha sobre a literatura, livros que se escrevem sobre livros.
(...)
Vemos que essas ideias (nazismo) têm uma presença cada vez mais forte. E parece que estamos esquecidos. (...) E parece que não se vê que essa luz maligna está a inundar e estranhamente a iluminar o mundo actual. E a seduzir muita gente, tal como nos anos 20 e 30.
(...)
É que quando se fala desse horror (nazismo) tão próximo, assim como da escalada a que se assiste hoje, fala-se de uma maneira normalizada E a normalização do discurso impede o seu funcionamento. As pessoas lêem e esquecem. É mais uma história. É preciso uma escrita que não seja normalizada para que as pessoas se interroguem acerca do que diz. Uma escrita normalizada é rápida e leva a um esquecimento muito rápido. Se perguntarmos a muita gente o que leu ontem no jornal, veremos que já não se lembra. O presente tem um poder muito forte e faz esquecer o passado de que é produto. Penso que é preciso reinventar, embora não goste muito deste termo, a escrita.
(...)
É preciso criar na própria escrita um atrito, uma violência que seja de certo modo homóloga à que temos presente na realidade. Uma linguagem normalizada não permite que se pare, enquanto o atrito obriga a parar.

08 janeiro 2019

a democracia, o politicamente correcto e a coragem

Vi, em directo, o Eixo do Mal do último Sábado e assisti à intervenção corajosa de Daniel Oliveira. Quis logo partilhá-la aqui, mas só agora consegui encontrar esse segmento. Um exemplo daquilo que todos nós, cidadãos de um Estado de Direito democrático deveríamos fazer, valorizar e defender. Aquilo que estamos a assistir em Portugal, embalado pelo que tem vindo a acontecer em vários países da Europa e mundo, e pelos órgãos de comunicação social e seus actores - jornalistas, comentadores e colunistas, é a uma preocupante normalização dos discursos e práticas de extrema-direita que, a vingarem, representarão o fim da própria democracia.

Nota: O ridículo daquilo que Luís Goucha fez ao levar Mário Machado ao seu programa televisivo, sob o pretexto da liberdade de expressão, é não se ter apercebido que esse senhor, caso as suas ideias saiam vencedoras, não só não hesitará em lhe retirar toda a sua liberdade de expressão, como não descansará enquanto não o exterminar.


07 janeiro 2019

terra da maçã

O programa Share retirou-me do aconchego da lareira no dia de ontem, Domingo, ainda por cima dia de festa familiar, para me levar até terras de Armamar, na margem esquerda do Douro. Apesar do dia solarengo, estava um frio de rachar e foi num estado de quase hipotermia que cheguei a casa por volta das vinte e uma horas. A razão que me levou até à terra das maçãs foi a conversa com senhora que já participa neste estudo há vários anos e que agora vive nessa pequena aldeia de Armamar. Quase no final da nossa conversa, a senhora levantou-se e saiu da cozinha, espaço onde conversávamos, e quando regressou trazia um enorme saco cheio de maças, couves e dióspiros para me oferecer. Ainda tentei resistir, pois não era suposto eu receber nada em troca, a não ser a informação que procurava, mas a simpatia e insistência da minha interlocutora foi mais forte. Só quando cheguei ao Porto e restabeleci a temperatura corporal, fui abrir o saco. Que espectáculo de maçãs - bonitas, grandes e saborosas. Bem se podem auto-denominar e projectar como a terra da maçã...

05 janeiro 2019

pensamento

Curioso como o pensamento e os grandes pensadores estão desvalorizados no século XXI. Para quê pensar se todos estão precisamente, agora mesmo, ocupados a ter uma opinião?
Gonçalo M. Tavares, in Jornal de Letras.

02 janeiro 2019

ler

Apenas hoje a encontrei nas bancas. É o número de Outono, mas só agora saiu. Enfim.


abstinência natalícia

Na última visita ao médico, quando faltavam duas ou três semanas para o Natal, fui alertado, por ele, para ter algum cuidado com a alimentação nessa quadra tão propícia a consumos exagerados. Logo na altura sosseguei-o, dizendo-lhe que, normalmente, nesta altura do ano, são dias de fome para mim, pois não sou, de todo, apreciador das iguarias natalícias e afins.
Agora que esse tempo de voluptuosidade e faustosidade gastronómica terminou, posso reafirmar essa minha (pré)disposição para a abstinência alimentar. Para além do vinho que ingeri, de um ou outro whisky, não cometi qualquer pecado de gula. E doçarias, apesar da variada oferta, nem lhes toquei.
A balança confirma e é testemunha do que digo.

com parcimónia

Ao contrário do que esperava, foi com muita facilidade que, hoje, bem cedo, cheguei ao centro da cidade. Talvez por inexperiência ou pela longa ausência, sempre pensei que o segundo dia do ano fosse já pleno de actividade e confusão na Invicta e seus arredores. Não. Sente-se a cidade a espreguiçar da ressaca dos dias de nomeada e folia passados. Pelos vistos, reiniciar a labuta custa e é com parcimónia que regressamos ao ritmo habitual, às andanças dos dias ordinários. Com certeza, amanhã, com o regresso em força dos estudantes e professores às escolas, a realidade será outra e o reboliço matinal estará de volta.

01 janeiro 2019

primeiro de Janeiro

Novo ano, vida nova, costumam dizer. Não sei, tenho dúvidas quanto a essa "novidade", mas aquilo que acontece logo neste primeiro dia do novo ano, não pode deixar de me preocupar e de me alertar os sentidos. A vida nova do Brasil começa hoje com a tomada de posse de Bolsonaro. Um mau presságio para o resto do ano e dos tempos que hão-de vir.
Também por isto, a palavra escolhida como lema para 2019 é a mais adequada: resistência. Há que resistir, temos e vamos resistir. Bom ano.

31 dezembro 2018

últimas horas, dias, de 2018

Aproveitando o frio da capital transmontana, mantenho-me refugiado e embrulhado em mantas e cobertores, ou melhor, agora são ederdons quem nos mantém a temperatura e aquece a estrutura. Para além do estado semi-dormente que esse aconchego propicia, vou aproveitando os intervalos lúcidos para ler. São vários os livros que se acumularam nos últimos meses e estão em fila de espera para meu prazer e sabedoria.
Hoje, último dia de 2018, por volta das seis da manhã iniciei a leitura desta obra, obrigatória para qualquer cidadão deste mundo, e que por estúpida omissão e gritante ignorância, ainda não li. Aliás, não conheço de todo a obra de André Malraux. Aí está uma das provas da minha enorme ignorância. Ainda assim, vou tentando recuperar e melhorar essa minha condição.
Bom ano de 2019 para toda a gente.

28 dezembro 2018

um escritor feliz

Porque escreve afinal?
Porque amo estar o dia inteiro fechado em casa a escrever; porque o cheiro do papel e da tinta é um vício; e porque acredito na imortalidade das bibliotecas.
É, então, um escritor realizado?
Sim, sou um escritor feliz.
E o que é a felicidade?
Uma vida com sentido. Tudo o que aconteceu comigo foi porque escrevi. A minha única religião é a Literatura.
(Orhan Pamuk, na FIL de Guadalajara, 2018)

a igualdade

Boaventura Sousa Santos (esse mal amado pela lusa pátria das ciências e afins...), no Jornal de Letras (nº 1258), escreve sobre o desafio que lhe propuseram para a sua participação no 1º Fórum Mundial do Pensamento Crítico, que se realizou em Buenos Aires, no passado mês de Novembro. O repto era: explicar a igualdade aos 1% mais ricos do mundo.
Daquilo que escreveu, saliento e transcrevo as seguintes ideias:

No século XXI, e depois de todas as vitórias dos movimentos feministas e antirracistas, seria mais correcto explicar não a igualdade mas a diferença. A igualdade não existe sem ausência de discriminação, ou seja, sem o reconhecimento de diferenças, sem hierarquias entre elas.
(...)
Temos o direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza e o direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza.
(...)
A filosofia eurocêntrica - e as epistemologias do Norte que dela nasceram e deram origem à ciência moderna - assenta na contradição de defender em abstrato a igualdade universal e ao mesmo tempo justificar que parte da humanidade não é plenamente humana e não é, por isso, abrangida pelo conceito de igualdade universal, seja ela constituída por escravos, mulheres, povos indígenas, povos afrodescendentes, trabalhadores sem direitos, castas inferiores.
(...)
Uma metáfora menos chocante será a de pensar que a ajuda ao desenvolvimento ajuda de facto os países a desenvolver-se. Ao contrário do que promete, ela contribui não para desenvolver os países mas para os manter subdesenvolvidos e dependentes dos mais desenvolvidos.
(...)
As epistemologias do Sul que tenho vindo a defender partem dos conhecimentos nascidos nas lutas daqueles e daquelas que viveram e vivem a desigualdade e a discriminação, e resistem contra elas. Estes conhecimentos permitem tratar a igualdade como denúncia das desigualdades que oculta ou considera irrelevantes para a contradizerem. Permitem também tratá-la como instrumento de luta contra a desigualdade e a discriminação. Apenas para dar um exemplo: as epistemologias do Sul permitem reconceptualizar o capital financeiro global, o verdadeiro motor da extrema desigualdade entre pobres e ricos e entre países ricos e países pobres, como uma nova forma de crime organizado.
(...)
À luz das epistemologias do Sul, os crimes cometidos pelo capital financeiro global serão uns dos principais crimes de lesa-humanidade do futuro. Junto com eles e articulados com eles estarão os crimes ambientais.