21 setembro 2017

mediascape:desilusão rural

Pois é, afinal a coisa não era assim tão boa, tão fácil e tão promissora. Chegou ao fim o projecto "Novos Povoadores", cuja principal missão se traduzia na promoção do êxodo urbano e no repovoamento do interior rural do país. Eu, em devido tempo, referi-me a ela (à coisa) e houve quem não gostasse das minhas palavras. Lamento, apenas manifestei a minha opinião, baseada não só na minha sensibilidade, como também baseada naquilo que é o meu conhecimento da imensa ruralidade  em Portugal.
Frederico Lucas (na fotografia) era o líder e o rosto visível do projecto, incansável e empreendedor, acreditou que seria possível inverter a litoralização da população portuguesa. Tive o prazer de o conhecer, em Bragança, e com ele trocar umas impressões sobre o projecto e sobre a realidade do mundo rural na actualidade. Também trouxe aqui, a este espaço, um texto sobre o assunto, que na altura e porque eu o partilhei nas redes sociais, motivou algum desagrado no Frederico e seus pares.
O título da notícia do fim do projecto é muito forte e até humilhante para quem, como o Frederico, tanto lutou por conseguir fazer vingar a sua ideia e projecto. Não fico satisfeito com este desfecho, mas aceito-o como consequência natural da realidade demográfica e das políticas para o território nacional, nas últimas décadas.
Deixo-vos a referida notícia do Jornal de Notícias, do passado dia 18 de Setembro, assim como, ao arrepio do que me é habitual, re-publico o texto que escrevi no dia 10 de Agosto de 2012.


"êxodo urbano, novos povoadores e a reconquista do nordeste..."


Li hoje no jornal Mensageiro de Bragança a notícia de que o primeiro de cinco casais que já estava instalado no concelho de Alfândega da Fé, há cerca de um ano e ao abrigo do programa de repovoamento rural Novos Povoadores, abandonou o projecto e regressou ao litoral, de onde eram originários. Na mesma notícia, a actual presidente da respectiva Câmara Municipal admitiu que apesar de ter achado interessante e ter apoiado o projecto, sempre desconfiou da sua aplicabilidade e sucesso. Este era apenas o primeiro casal que o projecto, em fase piloto, conseguiu transferir e com esta desistência, os responsáveis pelo projecto serão obrigados a encontrar um casal em condições de substituir aquele que saiu.
Alguém terá ficado surpreendido com esta notícia? Não sei, mas eu não fiquei nada surpreendido. Admiro até como foi possível esse casal aguentar cerca de um ano longe de todas as suas referências e do seu "habitat natural". Não quero com isto dizer que este movimento é contra-natura, pois até considero o projecto teoricamente interessante, mas a verdade é que não é nada fácil, hoje em dia, trocar o conforto e as acessibilidades do espaço urbano pelo desconforto e distâncias dos territórios rurais e do interior do país. A promoção dos territórios rurais é importante e parte da fundamentação deste projecto assenta nas enormes assimetrias existentes no território nacional e na importância de tentar contrariar a forte tendência para a litoralização demográfica. Isso pode, de facto, acontecer através de um êxodo urbano, mas será sempre um esforço incomensurável e provavelmente, inglório.
Apesar da simpatia que o projecto me merece, penso que para quem conhece um pouco a realidade dos territórios rurais deprimidos e suas comunidades, não deixa de ser uma ideia romântica pensar que esses novos povoadores seriam um caminho para o repovoamento e a solução para todos os problemas dessas comunidades e territórios. Não são. Aliás, um dos problemas deste projecto é mesmo essa mensagem virginal, naturalista e idílica do mundo rural que desde logo me remete para as reminiscências de um ideário pastoral - movimento literário com forte expressão na segunda metade do século XIX - que exaltava o mundo rural por oposição à vida urbana.
Produzida por citadinos, a sensibilidade pastoral é gerada por um desejo de se retirar face ao poder e complexidade crescentes da civilização. O que é atraente no pastoralismo é a felicidade representada por uma imagem da paisagem natural, um terreno intocado ou, se cultivado, rural. O movimento em direcção a esta paisagem simbólica pode também ser entendido como um movimento para longe de um mundo artificial (...). Noutras palavras, este impulso dá azo a um movimento simbólico para longe dos centros da civilização em direcção ao seu oposto, natureza, para longe da sofisticação em direcção à simplicidade, ou, para introduzir a metáfora principal do modo literário, para longe da cidade em direcção ao campo. (Marx, 1967 in Silva, 2009)
De facto, os factores de atracção do campo estão relacionados com os seus atributos reais ou imaginários, tais como a liberdade, a tranquilidade, o bucolismo, a tradição, a natureza, a autenticidade, entre outras e no discurso destes "pioneiros" podemos, igualmente, encontrar expressões, tais como "tranquilidade, qualidade, tempo, ambiente, vida mais oxigenada, elite, província...", ou ainda, "...decidiu partir à aventura! Muitas vezes atrás de um sonho", que remetem igualmente para esse universo de simbologias ou mitologias do mundo rural.
Regressando à notícia em apreço, percebi que um dos elementos (ele) tinha um emprego em que poderia perfeitamente deslocalizar-se e o outro elemento (ela) iniciou um negócio de venda de mel na internet(?). Bem, muito poderia dizer acerca desta conceptualização do que é viver de uma actividade do sector primário, mas vou-me limitar a transcrever algo que um grande amigo, especialista nestas cousas da agricultura, um dia me disse: "Num território como o transmontano, cuja dimensão padrão das parcelas agrícolas é o microfundio, o meu conselho para todos os paraquedistas (leia-se, sem experiência) que pensam investir na agricultura, é que estejam quietinhos e deixem estar o dinheiro no banco. É uma perda de tempo e de dinheiro".
Gostaria um dia de poder viver num território rural deprimido, tão deprimido que só lá estivesse eu, mas com o pragmatismo mínimo necessário sei que isso só acontecerá se eu conseguir aforrar o suficiente para a minha sobrevivência e conforto. Pois é.
(in apurriar, 12 Agosto 2012)

LER já no final do Verão


Foi sem querer que dei com a revista à venda. Passado praticamente todo o Verão, nem me lembrei de que haveria de sair uma edição para esta época de veraneio. Cá está ela, já lida e consumida. 

14 setembro 2017

password

Vivemos um tempo em que nos é exigida palavra-passe para tudo e mais alguma coisa. Dou comigo, maior parte das vezes em que me é solicitada a criação de uma, incapaz de escolher a palavra certa, isto é, aquela que jamais esquecerei. Perante esta crónica dificuldade, foi com um sorriso no rosto que ouvi hoje a palavra-passe de uma rede wifi... oquetuqueresseieu

descomplicar....

no primeiro dia de aulas

Hoje foi o primeiro dia de aulas para a minha criança mais pequena. Sem ter qualquer ideia prévia do que o esperava, experimentou hoje pela primeira vez uma sala de aulas da escola primária. No fim comentou, ao telefone, com a mãe, sobre esta nova experiência:
- Ó mamã, a professora falou tanto, tanto, tanto, que eu fiquei cansado e até tapei os ouvidos.

07 setembro 2017

horas entre livros

Aproveitando a tarde soalheira e a pouca vontade de ficar encerrado entre, no mínimo, quatro paredes, fui visitar a Feira do Livro que decorre, uma vez mais, nos jardins do Palácio de Cristal. Com o espírito liberto e com os ponteiros do relógio desligados, deambulei vagaroso e anárquico de livreiro em livreiro, procurando novidades ou pechinchas, folheando os espécimes que me despertavam os sentidos e, principalemente, aqueles que vou cobiçando, ouvindo atento as conversas entre clientes e livreiros que iam acontecendo à minha volta e, claro está, desfrutando do espaço e do ambiente tranquilos que por lá se fazem sempre sentir. Não sei se impressão minha, mas daquilo que pude perceber da programação, está edição da Feira do Livro está mais rica e mais variada. Sempre um prazer regressar e, depois, regressar para casa com algum mimo debaixo do braço. Ainda lá irei outra e outra vez.

02 setembro 2017

21 agosto 2017

para ler

Para estes poucos dias em que vou estar como que retirado, ou seja, sem ocupação, compromissos ou afazeres, trouxe alguns livros para me entreter e passar o tempo...

o grilo difícil de encontrar

Soube da sua existência numa recensão no jornal Le Monde Diplomatique deste mês e logo tratei de o procurar nas livrarias para o adquirir. Tarefa difícil. Fui a todas as grandes livrarias e durante vários dias - Fnac, Bertrand, Book House, Almedina, Books & Living (antiga Leitura), Latina - e nada. Aliás, as indicações que me davam eram tão díspares que o resultado foi ter ficado ainda mais curioso e com vontade de o encontrar. Disseram-me, entre outros dislates, que estaria esgotado, que não existiria, ou que ainda nenhuma das suas lojas o recebera. Estranho facto: um livro da Tinta da China não chegar aos donos do monopólio das vendas de livros em Portugal...
Entretanto, lembrei-me de ligar para a UNICEPE - cooperativa livreira de estudantes do Porto, na Praça Carlos Alberto, para saber se tinham este livro e, surpresa ou nem por isso, tinham. Pedi para me reservarem um e lá fui eu, sem demora, buscá-lo. Curiosidade, não tinham um nem dois exemplares, tinham empilhados e em exposição doze destes livros. Mesmo em véspera de partir par férias consegui-o para o juntar aos demais que tenciono ler nestes dias de retiro em terras de Trás-os-Montes.

18 agosto 2017

esterco

porque só agora me apercebi disto...

O que é que vai acontecer ao país seguro que temos sido se esta nova forma de ver a possibilidade de qualquer um residir em Portugal se mantiver?
Pedro Passos Coelho, há uns dias, algures no Algarve.

grande

encontrei!

Porra! 
Não foi fácil, mas já encontrei a música que tanto procurei sem sucesso. Esqueçam o youtube, o Shazam. Não lá está. Apenas a encontrei no sítio da editora Cafetra Records. A banda ou cantor chama-se Éme e o álbum chama-se Domingo à Tarde. Fica a letra da música Roma - Sé (sétima no disco) para acompanhar o som da mesma.

Amigo, se estás triste
e o que queres não existe
traz um copo, bota em riste
e 'bora lá brindar:
Um brinde à manada
com bica na esplana,
Tuga não tem nada
mas há tanto mar.

Remar o dia inteiro,
ir dar ao Barreiro,
frota sem dinheiro
ali no Tejo a anhar,
alberga a neurinha,
traz a tua eu trago a minha,
neura assim sozinha
tem que ter um par
vem cá ter meu par
que é para seres meu par...


Lembras-te de ir de Roma à Sé?
O caminho a conversar a vida como é que é.
Pois, fui parar ao Cais Sodré
a vida num vacilo e nem te pões de pé.


E queres amor antigo
para cantares à nova
trago o meu comigo
e vai daqui à cova
puto eu tou contigo
se a vida dá-te sova.
tens amor de amigo e podes pôr à prova...


Lembras-te de ir de Roma à Sé?
O caminho a conversar a vida como é que é.
Pois, fui parar ao Cais Sodré
a vida num vacilo e nem te pões de pé.


17 agosto 2017

participar na res publica

Num tempo em que nos aproximamos das eleições autárquicas, Nelson Dias (sociólogo) escreve, no jornal Le Monde Diplomatique deste mês, um interessante artigo sobre os orçamentos participativos em Portugal. Nesta sua reflexão procura saber onde estão concentrados, qual a sua relação com a participação democrática (relação com os crescentes níveis de abstenção) e que capacidade têm os portugueses de se mobilizarem e associarem em torno de projectos concretos, assim como a sua capacidade de influenciarem o poder instituído, ou seja, o poder autárquico.
Diz-nos que foi num contexto de desaceleração do entusiasmo democrático, com uma confirmada tendência de descida dos índices de participação eleitoral, que surgiu, em Palmela, a primeira iniciativa de Orçamento Participativo(OP) em Portugal. Estávamos em 2002. A emergência e o desenvolvimento dos OP está intimamente relacionada com a quebra de confiança no regime e nos seus principais agentes políticos, assumindo-se como uma tentativa de resposta do Estado local, ainda que parcial, à necessidade de reconstruir pontes de diálogo e reaproximação com a população (...) o que, curiosamente, implicou uma actividade cívica e política mais intensa, pelo carácter anual destas práticas, e mais extensa, pelo cada vez maior número de pessoas envolvidas.
Numa análise mais profunda aos OP em Portugal, o sociólogo percebe que estes se transformaram , nalguns concelhos, nos principais barómetros para as autarquias, leia-se, presidentes e vereações, para a auscultação das sensibilidades e percepções dos seus munícipes e, assim, para o desenho das políticas públicas. Apresentando vários exemplos de OP em diferentes municípios, Nelson Dias afirma que estes instrumentos deixaram de ser mera curiosidade ou moda política. Entraram timidamente no nosso país e gradualmente instituíram-se como catalisadores de processos de mudança.
Nelson Dias termina o seu artigo num tom optimista ao afirmar que este modelo foi de tal forma apropriado pelas populações que hoje se converte num canal de interlocução directa para a discussão e definição de políticas públicas, cujos impactos sobre o território são muito superiores aos dos projectos dos próprios OP. Ao olharmos para estes nesta nova perspectiva entendemos que o seu potencial suplanta as expectativas iniciais, reforçando o seu potencial de credibilidade e, com isto, a sua sustentabilidade.
Sem querer discordar muito desta sua perspectiva optimista, eu seria um pouco mais cauteloso em relação às verdadeiras motivações e objectivos de muitos autarcas e executivos autárquicos em relação a este instrumento de participação cidadã. Digo isto, tendo em conta aquilo que é a minha experiência enquanto autarca. Se é verdade que inicialmente as autarquias desconfiavam dessas propostas, maioritariamente, apresentadas em sede de Assembleias Municipais e, nalguns (poucos) casos, de Freguesia, pelas oposições, rejeitando liminar e até jocosamente essas propostas, com o tempo e com algum esforço de conhecimento técnico, apropriaram-se desses instrumentos, passando-os a apresentar como propostas nos seus próprios manifestos programáticos e eleitorais, assim como nos seus orçamentos pluri-anuais. 
Recordo-me que em Bragança, enquanto membro da Assembleia Municipal (2005-2013) apresentei essa proposta  - a de criação de uma rubrica de Orçamento Participativo - durante vários anos e nunca foi aprovado pela maioria que governava o município que, primeiro, por ignorância, depois por receio e, por último, por despeito, ridicularizava essa ideia "comunal" e "cooperativa". Na verdade, mesmo em Bragança passou a existir um Orçamento Participativo no qual a população pode "participar" votando, no portal da autarquia, de entre um conjunto de projectos propostos pelos próprio executivo, aquele ou aqueles que gostariam que fossem concretizados. 
Concluindo, considero os OP uma excelente ferramenta naquilo que poderá ser um incremento da implicação dos munícipes no planeamento, reflexão e execução de projectos colectivos e de utilidade pública, mas também desconfio dos reais e verdadeiros propósitos dos autarcas que, por hábito e defeito da prática autárquica no nosso país, não quererão nunca abdicar do seu predicado poder de decisão e execução. Aquilo que assistimos na grande maioria dos OP existentes, salvo raras excepções, são adaptações e pequenas iniciativas que sob essa designação pomposa e pertencente às narrativas daquilo que é actualmente considerado correcto, não são mais do que instrumentos ao serviço do interesse e vontade dos executivos autárquicos e das suas clientelas, ou pura e simplesmente são verbo de encher em momentos como este, os de vésperas de eleições autárquicas.

irritante

Se há algo que me irrita seriamente são estas novas ferramentas dos aparelhos que todos nós, ou quase todos, utilizamos, que à medida que estamos a escrever o que queremos, nos vão corrigindo o texto, adulterando por completo o sentido e propósito daquilo que temos em mente. Nas mensagens de telemóvel isso é constante e eu não sei como alterar isso. Por exemplo, no Word eu tenho essa opção desactivada, mas no telefone não sei como o fazer e irrita-me a amígdala enviar mensagens sem sentido algum. Pronto, apenas isto.

11 agosto 2017

inveja

Este ano, as minhas férias foram entre casa e a esplanada do café do bairro. A ler e a dormir, feliz como um selvagem. (Francisco José Viegas, aqui)

10 agosto 2017

o som que não consigo encontrar

Ando obcecado atrás de uma música portuguesa que tenho ouvido na Antena 3, mas não a tenho conseguido identificar. Como desconheço quem a canta e como se chama, tenho andado pelo youtube desesperado, mas sem qualquer sucesso, por hora (hei-de conseguir!). No entretanto, aqui ficam alguns sons em que tenho tropeçado e que, por tonalidades de ouvido diferenciadas, me agradam.





08 agosto 2017

mediascape:reutilizar, reutilizar e reutilizar os manuais escolares

A entrevista já foi publicada no dia 20 de Julho na Revista Visão, mas só hoje dei com ela, na sua versão online (ler aqui na íntegra). Falo de uma entrevista à Secretária de Estado Adjunta e da Educação, Alexandra Leitão, a propósito do programa de gratuitidade e reutilização dos manuais escolares que agora se põe na prática apenas para o primeiro ano do primeiro ciclo. Eu já simpatizava com esta senhora e com a sua atitude e discurso em relação às coisas da escola pública. Aqui, neste novo programa, está mais uma razão para admirar a sua posição política e cidadã.
Transcrevo partes do seu discurso:

A despesa dos manuais, assumida pelo Estado, é uma forma de a escola pública ser aquilo que a Constituição determina que é: gratuita.
(...)
Para mim, esta é a diferença entre Estado social e assistencialista. O Estado social garante para todos, não é para os ricos ou para os pobres. O Estado assistencialista é o que providencia àqueles que precisam.
(...)
De acordo com a lei, todos os manuais, sem exceção, devem ser concebidos para poderem ser reutilizados. Por exemplo, a prazo, temos de acabar com recortes, autocolantes. Sempre que for preciso escrever no manual, deve ser a lápis.
(...)
E não há qualquer relação direta entre o reaproveitamento e o aproveitamento. Pelo contrário, se ensinarmos às crianças o respeito pelo manual, a partilha, o respeito pelo outro que a seguir vai receber aquele livro, estamos a educar para a cidadania. É um avanço civilizacional e pode ser um elemento muito importante.
(...)
Portanto, o procedimento de aquisição está nas escolas desde julho do ano passado, o de reutilização desde maio. Mas admito que tudo isto seja muito novo e é preciso um período de adaptação. O sistema educativo é muito grande. Temos 811 agrupamentos, mais de três mil escolas, um milhão e trezentos mil alunos, 120 mil professores. Nós podemos informar, enviar as circulares, mas demora até se tornar rotina.
(...)
...tudo isto comporta já alguma incerteza do mercado. Incerteza com a qual os agentes económicos têm de viver. Num restaurante ninguém garante quantos almoços serão servidos por mês. O Estado não tem obrigação de assegurar um determinado nível de vendas a um agente económico. Há um grau de incerteza, próprio do mercado livre.
(...)
Relativamente ao peso das mochilas, há duas soluções possíveis: deixar na sala de aula, até ao quarto ano, ou utilizar os cacifos, a partir do quinto. É uma questão de os alunos se habituarem a fazer a gestão dos livros que têm de ir para casa e os que podem ficar na escola. Outra solução será a desmaterialização dos manuais, garantindo que não vai cavar as assimetrias sociais.

Neste próximo ano lectivo, o meu filho mais novo irá frequentar o primeiro ano do ensino básico e eu, enquanto seu encarregado de educação, no momento de levantar o voucher para a aquisição gratuita dos seus livros, tive que assinar uma declaração em que me comprometia e responsabilizava pela manutenção dos manuais e pela sua devolução no final do ano lectivo. Muito bem, finalmente os livros passarão a ser propriedade das escolas e não dos alunos. Há medidas governamentais e políticas passíveis de discussão e debate, mas neste caso, se exceptuarmos o lobby da indústria dos manuais escolares, ninguém que use de senso se oporá à medida. Quanto a mim não só concordo, como a defendo. Digo mais, pecou por tardia.

25 julho 2017

sou snob?

A propósito do que poderá ser ou não a minha iliteracia, já aqui escrevi sobre aquilo que considerava ser a minha inépcia literária, naquela altura motivado pela incompetência sentida em ler Lobo Antunes. Nesse mesmo texto referi-me a Virginia Woolf, cuja leitura se me apresentava, desde a juventude, interdita. Pois bem, acabei de ler Momentos de Vida de Virginia Woolf, livro composto por cinco ensaios autobiográficos, encontrados entre os seus papeis após a sua morte, em 1941, mas apenas divulgados em 1976 e inéditos entre nós até esta edição (2017) da Ponto de Fuga. Já conseguira ler da mesma autora, num passado recente, "As Ondas" e "Flush: uma biografia" e agora estes Momentos de Vida, que nos propõem uma viagem pelas memórias e pensamentos da autora.
Com esta leitura confirmo, uma vez mais, a minha preferência pela dimensão biográfica dos escritores em detrimento das suas obras literárias. Por outras palavras, cada vez mais procuro conhecer a história de vida dos autores, sinto curiosidade pelas suas experiências de vida, independentemente de gostar ou não da sua literatura. Enquanto leitor, privilegio as polifonias sociais, familiares, psicológicas e físicas daqueles que, por diferentes razões, leio e admiro.


A determinado momento, no seu último ensaio deste livro, a autora questiona-se:
Sou snobe?
Logo depois escreve:
- O Snobe é uma criatura desmiolada e cabeça de vento tão pouco satisfeita com o seu estatuto que, com o propósito de consolidá-lo, esfrega a todo o momento um título ou uma honra na cara das outras pessoas para que estas possam acreditar, e o ajudem a acreditar, naquilo que ele mesmo, na realidade, não acredita: que ele ou ela é, de alguma forma, uma pessoa importante. Este é um sintoma que reconheço em mim mesma. (Virginia Woolf, 2017:238)

variações geográficas

Numa ampla sala-de-estar de um centro hospitalar público, na cidade do Porto e quase em surdina:
- Já viste estes desgraçados (profissionais de saúde)?!... Não param de um lado para o outro... trabalham horas e horas e recebem quase nada... a Fernanda disse-me que para tirar mil euros tem que trabalhar doze a catorze horas por dia... que vida! Eu lá tiro isso em duas semanas e sem me cansar muito... ainda me dizem para regressar!...

religião industrial

Na edição do mês de Julho do jornal Le Monde Diplomatique (Portugal), um texto muito interessante de Pierre Musso sobre o olhar antropológico que o Ocidente tem sobre si próprio e que remete para o processo de industrialização ocorrido a partir de 1800. Diz-nos este Professor jubilado que para que uma tal revolução industrial fosse concretizada foi preciso construir previamente uma visão do mundo partilhada e excludente de qualquer referente transcendente para celebrar a humanidade criadora e produtora. (...) Esse processo ocorre no interior da matriz cristã e estabelece as bases de uma religião secular.
Esta religião industrial ter-se-á desenvolvido no Ocidente em resultado de três momentos fracturantes, a saber:
1º - A Reforma Gregoriana, que conduz a uma primeira revolução industrial nos séculos XII e XIII, ligada à mudança do processo de trituração, com moinhos colocados ao longo dos rios a prefigurar as fábricas;
2º - O renascimento da ciência moderna e o programa de René Descartes destinado a "tornar-nos mestres e possuidores da natureza" em nome do progresso;
3º - A escolha industrialista de 1800 e a formulação simultânea de um "novo cristianismo" terrestre e científico;
Em cada um destes momentos, a industriação metamorfoseia-se e a instituição de produção que a encarna reorganiza-se: mosteiro, manufactura, fábrica e empresa. Cada uma destas instituições articula uma fé que dá sentido e uma lei que organiza uma comunidade de trabalho.
É estabelecida uma relação entre as ordens monásticas (S. Bento e S. Francisco) e seus mosteiros com a origem dessas comunidades de trabalho, argumentando-se que:
O monaquismo reconhece o "valor do trabalho" como complemento da oração e da contemplação. O trabalho representa ao mesmo tempo um instrumento de ascese, um meio de combater a ociosidade, uma actividade produtora e uma resposta à obrigação da caridade. Ainda hoje a regra de S. Bento é vista como um modelo de gestão. (...) O monge beneditino Hugues Minguet declara: "O monaquismo beneditino é sem dúvida a mais velha multinacional do mundo"...
No fim do século XI, a aceleração da circulação monetária e a multiplicação das trocas comerciais transformam a organização monástica e aí defrontam-se dois modelos: Cluny e Cister. Em Cluny vive-se na opulência, em Cister recusa-se o luxo. Nos seus mosteiros são implantadas todas as infra-estruturas da produção - rede de escoamento, moinhos, caminhos de serventia, oficinas, forja, lagar, celeiro, casa dos conversos - que fazem da abadia uma fábrica.
No século XVI ocorre uma segunda grande transformação, com a Reforma e em seguida com a revolução científica. A natureza torna-se o novo "grande Ser" que acolhe o mistério da Encarnação. Até então associada a Deus, a própria ideia de natureza modifica-se: o homem já não está "na", mas "perante" a natureza, e dedica-se a conhecê-la matematizando-a.
A terceira bifurcação da industrialização completa-se nos séculos XIX e XX, em dois momentos: por volta de 1830, com a revolução industrial, e entre 1880 e 1940 , com a revolução da gestão. A primeira formula a lei tecno-científica e a segunda fixa a lei da organização do trabalho. A fábrica-empresa liga-as solidamente. A crença num novo "grande Ser", a saber, a humanidade, reinveste o mistério da Encarnação tal como ele é instituído pelo filósofo Auguste Comte. Em 1848 o jovem Ernest Renan deseja "organizar cientificamente a humanidade..."
O criador todo-poderoso já não é um Deus supra-celeste, mas o próprio homem que se auto-realiza. Esta visão Faustiana de uma religião terrestre e racional tem por guia o progresso e a promessa de um bem-estar futuro.
(...) Depois de uma longa gestação nos claustros, a religião industrial manifesta-se de maneira fulminante por ocasião das revoluções industriais, atingindo o seu apogeu com a actual revolução digital.
Para lá da importação da novilíngua da gestão em política, o que triunfa é a religião industrial.

mediascape:ridiculum ultimatum

Ao ler as "gordas" da imprensa dou de caras com este título e com as declarações de Hugo Soares, líder da bancada do PSD na Assembleia da República, que em jeito de ameaça, fez ontem um ultimato ao governo para que apresente a lista dos mortos no incêndio de Pedrogão Grande em 24 horas. Mas que raio de ameaça! Então e se o governo não satisfizer o pedido?! Qual é a grave consequência? Qual será o trunfo que a iluminária, líder parlamentar, tem para apresentar?!
Pois, como também se percebe nas suas palavras, nada ou quase. Apenas aproveitamento político de uma desgraça humana. Se houve ou não houve mais mortes do que aquelas que estão oficialmente contabilizadas não é relevante. Mais uma, duas?! Talvez. E depois? Qual é a responsabilidade do governo nessa contabilidade?
Ridículo, uma vez mais.

11 julho 2017

tio Malguinhas

Ao arrumar a casa, que é como quem diz, umas pastas no computador, encontrei alguns documentos e algumas fotografias que trouxe para a secretária, que é como quem diz, para o presente e para perto de mim. Desses documentos gráficos ou visuais, destaco esta bonita imagem, que um dia registei, do tio Malguinha a tomar conta do seu alambique a destilar aguardente, como quem guarda o seu rebanho, não viesse a guarda e respectiva multa e lhe levasse confiscado o precioso licor.
Num esforço de memória inglório, não consigo data-la, mas é já, com certeza, do século XXI.