01 abril 2020

servidão digital

Este tempo de crise tem sido invasivo da privacidade dos alunos, das famílias e dos professores, com um enorme excesso de solicitações e exigências. Se há paradigma já evidente é o da servidão digital. Sem horário de actividades, tanta diligência e desrespeito pela privacidade alheia transformarão pais, professores e alunos em simples plataformas humanas à deriva, no meio das plataformas digitais.
Santana Castilho, hoje no jornal Público.

31 março 2020

enclausurado XXIV

futilidades

Pedindo desculpa pelo desabafo e pela futilidade, aquilo que mais falta me faz sempre que saio à rua é o poder tomar café. Hoje, logo pela manhã, tive que ir ao centro do Porto e não vi um único café aberto. Apenas as padarias e os "pães-quentes" servem cafés, em copos de plástico e para tomar na rua. Assim não, obrigado. Prefiro o Nespresso em casa.

30 março 2020

passatempo


Foram precisos cerca de 15 dias para terminarmos este puzzle. Difícil pela monotonia das cores e tons. Venha o próximo.

enclausurado XXIII

o cafajeste

As imagens e os sons que nos chegam do outro lado do Atlântico são assustadoras. Trump e Bolsonaro são dois ignóbeis abortos que, para infelicidade dos seus povos, ascenderam democraticamente ao poder. Por estes dias Bolsonaro vai insistindo na demonstração pública da sua inacreditável ignorância e teima em humilhar o povo brasileiro de uma forma como jamais se viu. Para além de negar a existência de qualquer pandemia no seu país e promover comportamentos contrários aos recomendados pela esmagadora maioria dos responsáveis políticos e de saúde pública, expondo à sua sorte milhões de vidas de concidadãos seus, atira o seu povo para o esgoto da existência humana, admitindo que o "brasileiro" está habituado a nadar na merda e, por isso, está imunizado a qualquer vírus. Um cafajeste que não só deveria ser destituído, como deveria ser incriminado por crimes contra a humanidade.

enclausurado XXII

repugnante

A reacção do nosso Primeiro Ministro ao resultado obtido na reunião do Conselho Europeu, não poderia ser mais clara e unívoca sobre o estado comatoso da dita União Europeia. A atitude da Holanda, ou agora, Países Baixos, perante a possibilidade de mutualização da dívida dos países europeus, com a criação de eurobonds, para fazer face à crise instalada, é paradigmática da visão utilitária que alguns países têm da União e do Euro. A mesquinhez e a avareza demonstradas num momento tão dramático para todos, cujas intensidade e longevidade são ainda uma incógnita, não deixam antever um final feliz, pois se nem num momento destes há união e solidariedade, então para que raio serve essa União Europeia?
[ escrito a 28 de Março ]

mediascape: difícil

É tão difícil combater ao mesmo tempo o vírus, a pobreza, o privilégio e o despotismo! É tão difícil tratar das duas coisas, do imediato e do futuro! Da saúde e da sociedade! Da vida e da democracia! É tão difícil tratar de tudo sem demagogia, sem oportunismo, sem aproveitamento político! É tão difícil deixar à ciência o que é da ciência, à política o que é da política, à cultura o que é da cultura e aos indivíduos o que é deles! É tão difícil impedir que a emergência se transforme em regra! Que a ecácia liquide a liberdade! Que a centralização de esforços se transfigure em sistema de vida! Que a vida e a saúde sejam cada vez mais o recurso colectivista e a mercadoria capitalista! Encarar estas dificuldades ou contradições é o princípio de uma sociedade decente.
(António Barreto, in jornal Público, 29/03/2020)

28 março 2020

the leaders of the free world



Elbow é uma das bandas que mais gosto e ouço. Conheço praticamente toda a sua discografia e considero-a de grande qualidade, mas destacaria os discos "The Seldom Seen Kid" e "Build a Rocket Boys!", assim como, acima destes, o disco "The Leaders of the Free World". Aproveito estes dias e noites para consumir muita música, ainda que através de auscultadores para não incomodar o resto da família. E não é preciso acrescentar mais ao muito barulho que eles já produzem.

26 março 2020

enclausurado XXI

teorias da conspiração

Muito se tem especulado sobre a origem, ou melhor, sobre a verdadeira origem deste surto pandémico. Basta recorrer a um qualquer motor de busca na internet e é, como se costuma dizer, à vontade do freguês, pois são mil e uma histórias conspirativas sobre o que motivou o aparecimento do coronavirus.
Neste momento é o que menos importa, pois estamos no tempo de o combater, controlar e derrotar. Depois, um dia e se sobrevivermos, será então o tempo de procurar respostas sobre esse momento primeiro e as motivações e propósitos que terão permitido a disseminação planetária deste vírus.
Por hora, vamos lá dar-lhe nas trombas.

enclausurado XX

triunfo da ciência

Independentemente do que possa vir a acontecer, da evolução da pandemia e das suas consequências multi-dimensionais, penso que é já evidente para todos nós a confirmação ou a reafirmação do conhecimento científico na resposta a dar em situações como esta. O triunfo da razão sobre os cangalheiros da banha-da-cobra que por todo o lado vendem ilusões e mentiras aos mais fracos e desprovidos.
Esta pandemia vem demonstrar, espero, definitivamente que o investimento a realizar deverá ser direccionado para a formação, para a informação, para a especialização, enfim, para o conhecimento cada vez maior e melhor do mundo que nos rodeia. O contributo da ciência, nas suas dimensões teórica, tecnológica e experimental, é incomensurável. Sem qualquer espécie de dogma, a minha crença é aí que reside.
[ escrito a 25 de Março ]

24 março 2020

o prazer de ler

Só nos últimos dias consegui ler por prazer. Sem pressa, sem lápis, sublinhados ou notas de margem, e pelo simples gosto de ocupar as horas a ler. A primeira escolha, da numerosa lista em espera, recaiu sobre Amin Maalouf e este seu "Escalas do Levante", uma pequena viagem sobre as geografias da sua existência. Agora, seguirei para ambientes africanos e para a escrita de Mia Couto.

23 março 2020

enclausurado XIX

o horror que se adivinha

Ao espreitar o mundo interrogo-me, retórico, sobre o que se adivinha para quando esta nuvem mortal cobrir certas e determinadas populações: de imediato penso nas favelas do Rio de Janeiro e de outras cidades brasileiras e sul-americanas, nos musseques de Luanda ou nos bairros de lata de Joanesburgo, nos emigrantes sul-americanos em trânsito ou retidos na fronteira entre o México e os EUA, nos milhões de refugiados em África, no Médio Oriente ou mesmo na Grécia, nos deslocados de guerras, como na Síria ou na Turquia.
Não vai ser bonito.

enclausurado XVIII

perigos eminentes

Ao olhar para o sobressalto que arrepia o mundo, não posso deixar de manifestar o meu desagrado e profunda preocupação com aquilo que está a acontecer em alguns países ditos ocidentais e democráticos. É que a pretexto desta pandemia, muitos Estados têm (e bem) decretado um Estado de Emergência Nacional, mas alguns desses países têm aproveitado esse estado excepcional, que na sua essência é algo temporário, para o perpetuar no tempo e transformar em autênticas ditaduras, abolindo controlos e equilíbrios democráticos. Falo em concreto da Hungria, onde aquilo que já existia não era propriamente uma democracia plena, mas agora Viktor Orbán vai pedir ao parlamento poderes especiais como a suspensão de algumas leis e a possibilidade de governar por decreto; e falo de Israel, onde Netanyahu, que perdeu as recentes eleições, mandou fechar o parlamento, onde a oposição tem a maioria, mandou a população ficar em casa e começou a decretar ilegitimamente e a seu bel-prazer.
Estes são apenas dois exemplos muito assustadores de uma realidade que pode estar a germinar e a crescer um pouco por todas as latitudes. Importa preservar as democracias destes ditadores e dos seus apetites fascizantes.

22 março 2020

enclausurado XVII

ler e escrever

Quando soube que iria permanecer por tempo indeterminado nesta condição, o primeiro sentimento que me assaltou foi um entusiasmo por poder ficar casa, sossegado e a fazer o que mais gosto, ou seja, a ler e a escrever.
Aconteceu que não foram precisos muitos dias aqui, fechado com o resto da família, para perceber que, afinal, não vou poder dispor das horas como bem previra e me apetecia. Em todo o caso, os livros acumulados para serem lidos, alguns à espera há vários meses, terão agora uma oportunidade temporal única para cumprirem o seu devir.
É essa a esperança e o entusiasmo sobrevive nesse desejo.
[ escrito a 21 de Março ]

enclausurado XVI

ocupação dos tempos livres

Por falar em momentos simpáticos e aprazíveis, um dos passatempos em família tem sido a construção de puzzles. Logo nos primeiros dias de reclusão, fomos ao arrumo recuperar uma dúzia de velhas e poeirentas caixas desses exercícios impróprios para hiper-tensos e agitados (como eu), que num outro tempo comprávamos e era passatempo recorrente cá em casa.
Ao longo dos dias, num esforço de equipa e sempre que apetece, vamos tentando acrescentar algo ao trabalho já realizado e tem sido engraçado ver, ainda que lentamente, que todos nós lá vamos espreitar, escolher uma ou outra peça para a tentar encaixar no sítio certo. Por vezes, juntamo-nos todos à volta dele e, noutros momentos, o espreitar transforma-se em longos minutos de exercício.
Depois de cerca de uma semana ainda não terminamos o primeiro, mas não importa. O propósito é mesmo esse, entreter nas horas mais vazias, ou descansar de alguma tarefa ou trabalho mais intenso.

enclausurado XV

informação

Eu sempre gostei de estar informado sobre a realidade que me rodeia e, agora, por todas e mais razões, ainda me sinto mais ávido das notícias deste mundo insano em que passámos a viver. No entanto, já não consigo ligar a TV, tal é a overdose de informação sobre a pandemia. Trata-se já de uma questão de salubridade mental e de me proteger do horror que, sei, gente demais experimenta, mas o dramatismo e sensacionalismo que ocuparam os espaços de informação ampliam até ao insuportável esses factos.
Desligado q.b. da actualidade, vou ocupando o tempo com outros conteúdos bem mais simpáticos e aprazíveis.

20 março 2020

centenário

Por falar em aniversário, em Janeiro deste ano o Padre Manuel Fernandes do Vale, meu tio-avô, completaria cem anos de idade. Para assinalar o seu centenário, escrevi um texto que tinha já estava pensado há algum tempo e que pretendia publicar durante 2020 numa qualquer publicação relativa à região de Trás-os-Montes. Depois de dois ou três contactos percebi que não iria conseguir e, assim sendo, resolvi mandá-lo imprimir em formato livreto, utilizando a minha chancela, vestindo-o com algum cuidado e dando-lhe maior dignidade.
Vou distribuí-lo apenas por familiares e por alguns amigos mais próximos.

enclausurado XIV

aniversário

O meu filho fez ontem nove anos e passou o dia tranquilo, nas mesmas rotinas dos dias anteriores, sem questionar ou reclamar pelo que fosse. Ao longo dos últimos dias, tínhamos vindo a mentalizá-lo para adiarmos a celebração do seu aniversário para mais tarde. Eu não sei se ele percebeu completamente, mas reagiu bem sem a habitual festa com amiguinhos e familiares e sem presentes. Na véspera perguntamos-lhe o que ele queria comer no dia dos anos e ele, que não liga patavina à comida, depois de adiar a resposta quase até ao final do dia, lá respondeu que queria massa à bolonhesa. Foi-lhe satisfeita essa vontade e depois do jantar, fizemos ligação telefónica para uns avós, e video-chamada para os outros avós e para os tios, para podermos cantar em uníssono os parabéns. Já está, a verdade é que o tempo não se detém e ele já vai a caminho dos dez.

18 março 2020

enclausurado XIII

aulas online

Com a suspensão das aulas presenciais, foi implementada na Escola onde lecciono uma alternativa de leccionação online para todas as unidades curriculares, com a excepção das aulas práticas.
Eu já participei, em contextos variados e diferentes ambientes, em video-conferências, mas nunca tive que preparar conteúdos, nem programar aulas para todo um semestre neste formato. Essas aulas começarão hoje mesmo, daqui a cerca de duas horas, e em teoria tenho mais de cinquenta alunos inscritos que poderão participar nesses encontros virtuais. Não tenho conteúdos preparados especificamente para este formato, apenas uma ideia do que pretendo transmitir e partilhar, e será com isso que vou enfrentar essa nova experiência. Se vai ou não funcionar, se vou ou não conseguir atrair a atenção dos alunos, se vou ou não conseguir passar a mensagem, são questões que me têm importunado o espírito, mas ainda assim estou ansioso por essa nova aventura.

enclausurado XII

saídas precárias

É a sensação que tenho sempre que saio de casa. Parto do princípio que dentro de casa, por enquanto, estamos a salvo e imunes. Serão essas minhas saídas a porta de entrada para qualquer contaminação. Não tenho máscaras, nem luvas, nem sequer álcool (fartei-me de o procurar para assar uns chouriços, mas não o encontrei em lado nenhum), mas no exterior da nossa fortaleza procuro não tocar em nada, nem em ninguém com as mãos. Pareço um anormal a abrir as portas com os cotovelos e pés; uso lenços de papel, envolvendo os dedos indicadores para utilizar multibancos e, nos lugares onde entro, sempre que disponível, uso géis de álcool.
Sempre que regresso a casa, dispo-me e lavo as mãos, braços, cara e pescoço com água e sabão azul (de barra). Paranóia? É provável, mas pelos meus não quero saber. Assim vou continuar, a sair e a fazer.
[ escrito a 17 de Março ]

solidão

Todos os homens descobrem um dia a sua mineral solidão. Eles são essa solitude. Mas a quase totalidade a esquece em seguida, um número exíguo a carrega até ao fim, testemunha ou vítima de uma criação que é uma contínua agonia fulgurante.
[ Eduardo Lourenço, in Jornal de Letras nº 1290, Março 2020 ]

enclausurado XI

roleta russa

No momento em que sabemos da primeira morte em Portugal provocada pelo famigerado vírus que nos está a colonizar, a reflexão não pode deixar de nos alertar para a aleatoriedade desta epidemia. Será a sorte de não ser, ou o azar de ser contaminado. Uma autêntica roleta russa para cada um de nós.
[ escrito a 17 de Março ]

enclausurado X

estado de excepção

Na eminência de ser declarado o estado de emergência em Portugal, devido à pandemia que guerreamos, continuo a acreditar naqueles que nos governam e administram a coisa pública portuguesa e, para ser sincero, daquilo que e é possível perspectivar, não encontro ninguém que pudesse ser melhor timoneiro da nossa barcaça do que o primeiro-ministro António Costa.
Isto para perguntar: será necessário recorrer (já) a esse estado de excepção? Estaremos nós a ser irresponsáveis e negligentes em relação à nossa responsabilidade cidadã? Não me parece, considero até que, pelo que me tem sido possível testemunhar nas várias saídas precárias, os portugueses têm tido, salvo raras excepções, um comportamento exemplar no que tem sido a sua manifestação pública. Portanto, a questão irá perdurar: seria necessário impor já, pela força da lei excepcional, um estado de vigilância permanente e intolerante?
Em todo o caso, aceito-o e respeitá-lo-ei, sem reservas.
[ escrito a 17 de Março ]

17 março 2020

Pedro Barroso

Chegou-me agora a notícia da morte de Pedro Barroso. Figura incontornável da música popular portuguesa. Desaparece assim mais uma personagem maior do nosso imaginário colectivo.

o medo

Excertos de artigo do filósofo José Gil, publicado no jornal Público, de 16 de Março de 2020:

Será um desastre planetário e regional, colectivo e individual, já presente e ainda futuro, conhecido e familiar, mas sempre longínquo e estrangeiro, destinado aos outros mas cada vez mais perto. Não é o simples medo da morte, é a angústia da morte absurda, imprevista, brutal e sem razão, violenta e injusta. Rebenta com o sentido e quebra o nexo do mundo.
(…)
O coronavírus, pondo em perigo qualquer um, independentemente da sua riqueza ou estatuto, torna todos iguais — não perante a morte, mas perante o direito à vida, à saúde e à justiça.
(…)
Este medo é, sobretudo, o medo dos outros. O contágio vem inopinadamente, violentamente e ao acaso. Qualquer um, estrangeiro ou familiar, pode infectar-nos. O acaso e o contacto passam a ser perigo e ocasião de morte possível, e todo o encontro, um mau encontro. Neste sentido, o outro é o mal radical.
(…)
a pandemia transforma a percepção que se tinha da globalização. Sabíamos que ela existia, conhecíamos os seus efeitos (nanceiros, climáticos, turísticos), mas só raros tinham dela uma experiência vivida. Graças ao coronavírus, e pelas piores razões, o homem comum tem agora, ao longo do seu tempo quotidiano, a experiência da globalização. Deixou de ser abstracta, tornou-se uma globalização existencial. Vivemos todos, simultaneamente, o mesmo tempo do mundo.
(…)
Como resistir, como desfazer ou pelo menos atenuar o medo que nos tolhe? Com mais conhecimento, sim, e mais informação, e mais entreajuda e racionalidade. Resta-nos sobrepor ao medo que nos desapropria de nós o medo desse medo, o de sermos menos do que nós. Resta-nos, se é possível, escolher, contra o que nos faz tremer de apreensão e nos instala na instabilidade e no pânico, as forças de vida que nos ligam (poderosamente, mesmo sem o sabermos) aos outros e ao mundo.

enclausurado IX

síndrome do frigorífico

Diz-nos a Emília que isto vai ser uma desgraça, que ela vai engordar como nunca. E que se sobreviver ao vírus e a esta pandemia, será, de certeza, uma outra mulher, uma mulher bem mais gorda.
É que o dia todo fechada em casa leva-a, a espaços muito curtos, à cozinha e ao frigorífico. O apetite cresce de hora para hora, de dia para dia. A desocupação faz sentir mais fome e sede, e como sabemos que temos acesso fácil e rápido à comida e bebida, a desgraça acontece num abrir e fechar de frigorífico.
É o que designo de síndrome do frigorífico (cheio, de preferência).
[ escrito a 16 de Março ]

enclausurado VIII

no meio do nada

Mesmo antes desta epidemia nos ter alcançado e quando já se prognosticavam diferentes cenários, eu pensei em pegar na família e refugiar-me na aldeia, em Trás-os-Montes, onde apesar de não ficarmos totalmente imunes, estaríamos mais afastados dos principais focos de contágio. Ainda cheguei a pensar nisso em voz alta cá em casa, mas fui logo trucidado e silenciado. Olha que ideia! Mesmo depois desse voto vencido, não deixo de considerar que seria uma melhor solução a prazo, para além de para mim ser o ideal: isolados de vizinhanças e longe dos ruídos, mais afastados de possíveis contágios involuntários. Tenho pena de poder estar a perder a oportunidade de verdadeiro retiro que tanto ambiciono. Vamos ver como decorrem os próximos dias e se não vai ser necessário repensar essa fuga...
[ escrito a 16 de Março ]

legitimidade e submissão

Fica também claríssima a importância do SNS, o único que verdadeiramente pode cumprir o direito de todos à saúde. A saúde pública, como a escola, são o que mais legitima o facto de nos submetermos ao poder de um Estado.
Serei sempre pelo fortalecimento do SNS, confio nos médicos e nos especialistas, entendo seus erros e testemunho o esforço e a boa-fé. Quero que os políticos estejam à altura e que saibam elucidar a população do quanto estes desafios competem a todos, por imperativos éticos estamos todos chamados a uma heroicidade que, por sorte, e na maioria dos casos, pede apenas que fiquemos em casa, algo que afinal passamos a vida a dizer que seria um sonho. Perante tão grave ameaça, que modo tão simples de lutar nos pedem.
[ Valter Hugo Mãe, in Jornal de Notícias, 15 de Março ]

enclausurado VII

animais sociais

Pelo que se percebe das reacções das pessoas um pouco por todo o lado, e mesmo pela minha ontogénica vontade de sair, somos mesmo animais sociais e não estamos minimamente equipados, nem física, nem psicologicamente, para sobrevivermos isolados do resto da humanidade. Só sabemos viver em comunidade e sentimo-nos, de facto, pertença a um qualquer grupo. Daqui decorrem, compreensivamente, atitudes e reacções tão diferenciadas perante uma experiência como esta que agora vivemos. Apesar de também fazer parte, excluo deste raciocínio a estupidez e a ignomínia humanas que, infelizmente, também se tem vindo a manifestar com alguma abundância.
[ escrito a 16 de Março ]

enclausurado VI

os meus pais

É sabido que este cabrão ataca com maior gravidade as pessoas mais velhas e que a maior incidência de vítimas mortais será nesses segmentos da população, pelo menos se mantiver as características que manifestou noutros países que nos antecederam.
Pois bem, as vésperas da chegada desta epidemia foram uma luta permanente com os meus pais para os convencer da gravidade e perigosidade deste vírus para as suas saúdes e vidas, uma vez que ambos têm tido problemas respiratórios e pulmonares nos últimos meses. Nem por nada quiseram resguardar-se e prescindir das suas rotinas de ir tomar café, comprar o jornal e o pão, ir ao hipermercado fazer compras semanais, ir à cabeleireira, multibanco, etc., etc.
Ando preocupado e assustado, principalmente, por causa deles. A preocupação é tanto maior porque, ainda agora, depois de já se terem mentalizado que têm que sossegar mais em casa, depois de eu lhes garantir que lhes levarei o que for necessário, teimam em relativizar o problema. O meu pai diz que estamos a exagerar, a minha mãe chora que não aguenta sentir-se fechada e isolada em casa. Não sabe o que fazer com a imensidão do tempo...
No meio desta pandemia eles são o meu desassossego.
[ escrito a 15 de Março ]

estado de excepção

Não me parece que dar sinais crescentes de alarme seja sempre o mais indicado. Se o povo consegue ser disciplinado, se não há motins, revoltas ou movimentos de desobediência às forças de autoridade, se não há greves e manifestações, se não há sequer a necessidade declarada de requisição dos hospitais privados, havendo total abertura de cooperação, se é possível limitar os movimentos das pessoas com a lei em vigor (que nem sequer esgotámos), porque precisamos que nos ponham na ordem? Merecia, quando isto passar, que nos deitássemos todos no divã. Outros povos resistem ao estado de exceção, nós desejamo-lo mesmo quando o poder não o pede.
Daniel Oliveira,  roubado  daqui...

enclausurado V

os miúdos

A Emília foi a primeira a saber que viria para casa, pois a sua faculdade fechou as portas dia 10 de Março por 15 dias, diziam eles. Regressou de Lisboa no dia 11 e desde então não mais saiu de casa. Teve alguma dificuldade em perceber a dimensão desta epidemia e, por isso, resistia à ideia de ficar fechada e dizia não entender o stress e o histerismo de toda a gente. Do alto dos seus dezoito anos, optimista e cheia de vontade de viver, parecia sentir-se imune a qualquer contágio. Entretanto, foi-se apercebendo e consciencializando da gravidade da situação em que estamos todos e agora é a primeira a não querer que se saia de casa. Está preocupada com a situação dos avós, ao mesmo tempo que é a primeira a dar os primeiros sinais de alguma saturação por estar confinada em casa.
O Rodrigo, como seria expectável, não percebe totalmente aquilo que está a acontecer. Para ele foi uma alegria imensa saber que não teria que ir à escola durante muitos dias, tantos que ele nem consegue alcançar. Ele é quem tem vivido melhor, pelo menos nestes primeiros dias, nestas condições... está nas suas sete quintas e não lhe falta ocupação e divertimento.
[ escrito a 15 de Março ]

nostalgia

Temos assistido, através da comunicação social e, principalmente, das redes sociais, ao comportamento dos indivíduos, não só em Portugal, como um pouco por todo o mundo, naquilo que é a habituação às novas rotinas que, ainda que em formas e intensidades variadas, a população mundial vai experimentando. Uma dessas formas de reagir ao isolamento social tem sido cantar, à janela ou varanda, a solo ou em coro, e uma das muitas imagens que nos chegou de Itália, talvez a primeira delas, foi esta. Comovido, fiquei logo agarrado a ela e tenho-a visto repetidamente, pois para além de todos os significados actuais e da força que manifesta, remete-me para a nostalgia de um tempo e lugar da minha infância e que, sei, não voltarei a experimentar... também na "minha" aldeia, em dias de grandes jeiras e depois do jantar reforçado, bem comidos e bebidos, os homens saíam para a rua escura e percorriam as canelhas e ruas cantando modas antigas, motivando quem estava em casa a vir à porta e, muitos, a juntarem-se ao grupo e à ronda.

enclausurado IV

organização

Os quatro fechados em casa quase há 48 horas e já se percebem algumas tensões e um ou outro problema que será preciso resolver. Tudo isto reforça aquilo que já antevia e que será urgente definir: uma organização ou um planeamento para os muitos dias que aí virão e em que estaremos nesta condição. Para além disso, é preciso construir um organigrama, para que cada um saiba aquilo que tem que fazer, como contributo para o bem-estar de todos e para manter uma relativa normalidade, disciplina e organização familiar.
Os miúdos já não saem de casa desde 11 de Março, a mãe deles desde dia 13 e eu, assim ficou estabelecido, sou o único com alforria deste aprisionamento, para os reabastecimentos necessários e para dar apoio aos meus pais que estão perto. Estamos a aprender a viver assim, 24 sobre 24 horas, juntos e confinados a estas paredes. Nunca nos acontecera, por isso, muito haverá para apreender e será, com certeza, um desafio para cada um de nós.
Mesmo a partir de casa, eu e a Andreia teremos tarefas e trabalho a realizar e, assim, poderemos ocupar parte das horas de cada dia nessas tarefas profissionais, mas ocupar as horas todas dos miúdos, já deu para perceber, será uma preocupação crescente e necessitaremos de alguma criatividade e imaginação para os mantermos saudáveis, equilibrados e tranquilos.
[ escrito a 15 de Março ]

16 março 2020

o naufrágio, uma metáfora

Na actual edição do Jornal de Letras, Amin Maalouf é entrevistado a propósito do seu ensaio mais recente: O Naufrágio das Civilizações. Entre muitas outras afirmações e ideias, transcrevo para aqui aquilo que mais me atraiu nesta conversa e que tem por motivação uma rica metáfora para os dias que hoje experimentamos.

A Humanidade metamorfoseia-se diante dos nossos olhos. Nunca a sua aventura foi tão promissora nem tão aleatória. Para o historiador, o espetáculo do mundo é fascinante. Ainda assim, temos de conseguir suportar o desespero dos nossos contemporâneos e as nossas próprias inquietudes.

O que caracteriza os tempos actuais não é uma tendência para grandes agrupamentos, mas a tendência para o desmoronamento e a desintegração.

O que mais me preocupa é a exortação a que sejam proibidas as notícias falsas. Porque, neste caso, temos de nos perguntar; quem tem a capacidade de determinar se uma notícia é verdadeira ou falsa? Os operadores das redes sociais? Os governos? Quem tem a requerida competência e a necessária integridade para distinguir, imediatamente, o verdadeiro do falso? Na minha opinião, a liberdade de expressão, mesmo que envolva riscos reais, continua a ser um mal menor do que a polícia do pensamento...

É verdade que o mundo não progrediu no sentido que o desejava. Por vezes, sinto que ele recuou, mas é uma sensação enganadora. Na História, nunca se volta bem ao passado. E mesmo quando temos a impressão de um retorno, temos de acreditar que enfrentamos uma situação nova, muito específica da nossa época, tendo a obrigação de a estudar cuidadosamente, para saber como "navegar" nas águas tumultuosas que atravessamos.

O mundo actual está à beira de um naufrágio, e podemos constatar isso em diversos domínios: uma nova corrida aos armamentos, o enfraquecimento das instituições democráticas, a crise de credibilidade de quase toda a gente, a nossa incapacidade de enfrentar os riscos climáticos - sem falar dos novos sustos que se apoderaram de nós nas últimas semanas... Face a estas ameaças, a nossa responsabilidade é permanecer lúcidos, não mentir e procurar soluções para sair do marasmo generalizado.

enclausurado III

o virus da globalização

Assistimos durante os últimos meses ao drama que este vírus provocou na China e nos outros países seus vizinhos, só que eram lá longe e chegava-nos através dos filtros das TVs e Jornais, por isso sentiamo-lo distante e nós, de alguma forma, salvaguardados. No íntimo existia a esperança de que a doença não chegaria cá. Mas não, a mancha silenciosa foi-se alastrando e aproximando, numa viagem rápida e impagável. Só quando percebemos que essa mancha invisível chegou e estava entre nós, resolvemos reagir. Ainda bem e a reacção deverá ser o mais radical e dramática, pois pelo que se sabe essa será a melhor forma de a combater e derrotar.
Agora que já cá está e já começou a escolher as suas vítimas entre os mais fracos, desprotegidos, aventureiros ou irresponsáveis, sabemos que mais dia menos dia vai começar a reclamar por vidas. Todos, ou quase todos, seremos suas potenciais vítimas. Saibamos protegermo-nos.
[ escrito a 14 de Março ]

lavar as mãos

Lavar bem as mãos (e a cara, já agora) é muito mais eficaz do que esfregar as mãos com um gel de álcool, mas as pessoas preferem os géis porque a verdade é que não gostam de lavar as mãos. (...) Porquê é que as pessoas não gostam de lavar as mãos?
Miguel Esteves Cardoso, in jornal Público de 15 de Março de 2020

enclausurado II

de voluntário a compulsivo

Aquilo que começou por ser voluntário, resultado da percepção e reflexão sobre as notícias que nos chegavam e que davam conta da situação da epidemia, agora pandemia, e me levaram a impedir que o meu filho fosse à escola nos últimos dias antes do encerramento total das escolas em Portugal, depressa se transformou, para todos nós, num enclausuramento compulsivo e obrigatório. Estou, estaremos todos, alertados para a sua necessidade e urgência, para os seus propósitos e para as suas consequências, não sabemos é quanto tempo ele poderá durar, nem muito menos sabemos se alcançaremos o seu fim. Ao mesmo tempo, as dúvidas e as questões sobre que futuro podemos esperar, durante e depois desta crise global, também nos assaltam o espírito. Consciente de que as desgraças não acontecem só aos outros, aquilo que desejo é poder chegar ao fim da tormenta e conseguir preservar a saúde daqueles que dependem de mim e dos que me rodeiam. Espero poder reunir e celebrar o facto de estarmos vivos, saudáveis e disponíveis para recomeçar ou reiniciar a vida.
[ escrito a 14 de Março ]

enclausurado I

abertura

Agora que estou fechado em casa com toda a família para um retiro forçado de duração indeterminada, eis que me encontro numa encruzilhada de sentimentos. Desde há longa data desejo retirar-me, isolar-me dos rostos familiares e dos lugares quotidianos. Fui a espaços e a custo, conseguindo experimentar essa sensação, momentânea e em diferentes locais, mas sempre de forma voluntária. Agora, e ainda quando passam poucas horas desde que aqui e assim estamos, novas sensações e percepções, daquilo que é a ausência do convívio com outras pessoas, ganham espaço em mim. Assim, e porque tenho a consciência de que estamos a viver algo novo, desconhecido e com desfecho imprevisível, o porto seguro também será este: a escrita de alguns dos momentos destes enclausurados dias.
[ escrito a 14 de Março ]

inesperado e inusitado

Numa das últimas aulas presenciais, antes do recolher obrigatório, um aluno de Epistemologia, depois de um período de reflexão e debate sobre ciência, tecnologia e suas evoluções e sobre as influências de ambas nas vidas quotidianas dos indivíduos, perguntou-me se os antropólogos atendem pessoas (?)... pergunta que eu nem sequer percebi, o que o obrigou a reformular a questão. O que ele queria saber era se os antropólogos dão consultas. Ok, entendi, mas que eu tenha conhecimento isso nunca aconteceu. Não é que eu não tenha já pensado no assunto, na medida em que a percepção da realidade que alguns indivíduos manifestam é deficitária e prejudica gravemente a saúde pública, umas consultas de civilidade, de cultura, de comunidade, de pertença e afins, não lhes faria mal nenhum e todos beneficiaríamos.

jornal de letras


Com esta edição, a número 1290, o jornal de Letras celebra os seus quarenta anos de existência. É de facto um projecto impressionante se tivermos em conta que estamos a falar de uma publicação periódica e de cariz cultural. Eu conheço o jornal há muitos anos e compro-o assiduamente há alguns anos. É uma das leituras obrigatórias em formato jornal e é sempre com alguma ansiedade que o vou buscar ao quiosque.
Está de parabéns o jornal, todos os seus colaboradores e, principalmente, o seu director e fundador, José Carlos de Vasconcelos. Nesta edição são vários os testemunhos que assinalam esta efeméride...

O JL é todo o contrário (do "fast food" e do sensacionalismo), afirmando-se como uma publicação de "slow food for thought" que proporciona aos seus leitores um espectro largo de artigos numa clara ilustração do papel da cultura na construção de sociedades participadas e na formação de cidadãos livres e esclarecidos.
Jorge Sampaio

Somos um país bem frágil na divulgação artística - no velho e antigo papel sobretudo - e a função do JL é, neste particular, cada vez mais de resistência. Um jornal cultural que se agarra com as mãos, preciosidade boa. E o tempo passa.
Gonçalo M. Tavares

O JL entre com esta edição, nos 40 anos de publicação ininterrupta. Repito o adjectivo: ininterrupta. Não é, por certo, o mais importante destes 40 anos de vida inquieta do JL. O que nos alimenta, aos seus leitores, é a qualidade dos artigos, o cada vez mais raro espaço e tempo de reflexão que são o preço a pagar pelo pensamento livre, a tremenda diversidade dos autores que preencheram estas páginas durante quatro décadas. Ainda assim, a obstinação de um jornal que nos vem parar às mãos, no dia certo, durante 40 anos, é razão para celebrarmos. Essa constância é das qualidades que mais falta nos fazem nas artes e na área da Cultura em Portugal.
Tiago Rodrigues

No meio disto tudo, o JL a tudo resistiu, tudo fazendo para não envelhecer, para acompanhar Portugal e a Democracia Portuguesa. E conseguiu. Pela excelência de todos o que lhe deram 40 anos de auto-biografia de Portugal. Pela singularidade do percurso do seu director e "alma-mater". Ele próprio vivendo e contando muito do que importa a essa auto-biografia. Há muitas outras? Há. Há muitas outras como a do JL? Não há. Porque mais ninguém reuniu tantos tão bons, durante tanto tempo, a falarem-nos do seu mundo interior e exterior, assim falando de Portugal. E falando como só eles sabem falar.
Marcelo Rebelo de Sousa

Recordo apenas que a literatura, a arte e a cultura portuguesas, e em língua portuguesa, são o nosso grande tema e foco de atenção. Visando não só, ou não tanto, divulgar como fazer conhecer, compreender - e, mais ainda, quanto possível, gostar, ou mesmo amar. E por isto mesmo colocamos em primeiro plano a criação, a obra criada e os criadores, pretendendo que tenha tal primordial finalidade em vista o que sob várias formas se escreve e publica.
José Carlos de Vasconcelos