23 junho 2023

pulhice humana

Nos últimos dias duas tragédias marítimas foram notícia nos media: o naufrágio, mais um, de uma embarcação repleta de imigrantes, ou refugiados, no mar Mediterrâneo, que provocou a morte a dezenas, se não a centenas de desgraçados provenientes do Norte de África; e o desaparecimento de um pequeno submergível, chamado Titan, com cinco tripulantes, quando fazia uma viagem turística aos restos do Titanic, no Oceano Atlântico.
Aquilo que. nos deveria indignar a todos, mas já ninguém quer saber, foi o diferente tratamento jornalístico dado a cada uma destas notícias. A primeira teima em não passar de uma nota de rodapé, enquanto que a segunda merece horas e horas de notícias, reportagens, comentários e seus especialistas.
A mim, aquilo que mais me dói e indigna é a normalização e desumanização das vidas que se perdem no cemitério Mediterrâneo, que não são mais do que números de uma estatística brutal e trágica. Por oposição, no desaparecimento do Titan, todo o mundo soube a identidade, a idade e a ocupação de cada um dos cinco turistas prisioneiros de um capricho de gente que não sabe o que fazer ao tanto dinheiro que tem. Uma mais-que-certa morte desnecessária de gente super-hiper-mega e estupidamente ricos.

[ escrito a 20 de Junho de 2023 ]

19 junho 2023

em busca do silêncio perdido


O título já me atraíra os sentidos, mas só em Fevereiro o comprei e só agora o consegui ler. O autor, norueguês, desenvolve em trinta e três entradas respostas para algumas questões que considera essenciais: a) o que é o silêncio?, b) onde é que se encontra? e c) por que razão é agora mais importante do que era dantes?
Numa linguagem acessível e recorrendo à sua enorme experiência como explorador, em isolamento e solidão, este livro é muito bonito e aborda questões ou sentimentos que me são muito caros e sobre os quais também gosto de reflectir. Vou começar a recomendar a sua leitura e, mais, vou começar a oferecê-lo como presente ou lembrança.

"Sempre que não posso caminhar, subir a uma montanha ou navegar para longe do mundo, aprendi a desligar-me dele.
Levei algum tempo a aprender. Somente quando percebi que tinha uma necessidade primordial de silêncio fui capaz de partir à sua procura - e, então, soterrado sob uma cacofonia de ruídos de trânsito e pensamentos, música e máquinas, iPhones e carros limpa-neves, lá estava ele à minha espera. O silêncio." (página 9)

"O que estamos a sentir chama-se pobreza experiencial. Essa pobreza pode não ter nada a ver apenas com a falta de experiências, nas quais nada acontece. A abundância de actividades também pode levar ao sentimento de pobreza experiência. [...] O problema é que continuamos a procurar 'experiências cada vez mais poderosas', em vez de fazermos uma pausa para inspirar profundamente, desligarmo-nos do mundo e utilizarmos o tempo para nos sentirmos nós mesmos. A ideia de que o aborrecimento pode ser evitado procurando continuamente algo de novo, estando disponível o dia inteiro, enviando mensagens e dando mais cliques, vendo algo que ainda não vimos, é ingénua.
Quanto mais tentamos evitar o aborrecimento, mais aborrecidos ficamos." (página 74)

07 junho 2023

camas para losers

"Como todas as grandes cidades, Lisboa também tem os seus descartáveis: os que desistiram ou os que foram postos de parte pela sociedade." Lemmens escreve sobre dois sem-abrigo que acomodam e ajeitam pedaços de cartão no chão como quem prende lençóis num banal colchão de hotel de luxo; "camas para losers", diz um dos sem-abrigo, captado com o olhar lúcido de Lemmens.
A multiplicação das "camas para losers", nos últimos anos, uma contabilidade que ainda não se fez.
Gonçalo M. Tavares, in Jornal de Letras nº 1374, Junho 2023.

06 junho 2023

menino das alianças

(fotografia retirada do meu álbum e de autoria desconhecida)

Esta será uma das memórias da minha meninice mais antigas. Não me recordo do momento acima retratado, mas guardo algumas imagens deste dia. Foi a primeira e única vez que me colocaram na pele de menino que transporta o símbolo de casamento. Não consigo datar este momento, mas segundo os meus pais terá sido no final do Verão de 1977, tinha eu então quatro anos e vivíamos ainda em Delães, Famalicão.
A noiva chamava-se Manuela e era irmã mais velha de uma rapariga chamada Ilda que, à época, tomava conta de mim e do meu irmão Daniel. Terá sido essa relação que motivou a minha convocatória para desempenhar tal papel. Do noivo nada sei, nem recordo sequer o seu aspecto.
Vem esta memória a propósito de, quase cinquenta anos passados, ter reencontrado a Manuela, agora uma senhora com cerca de setenta anos, já avó e com uma obesidade mórbida. Gostei de falar com ela, de saber como a vida lhe correu e de saber que a irmã Ilda está bem, emigrada na Suíça.
Este reencontro aconteceu em Delães, num café do prédio onde ela reside, em frente à Igreja e à casa que foi do meu avô Marcelino. Apesar do seu ar triste e sofrido, percebi nas suas palavras alegria por me voltar a ver, depois de todo este tempo.
Entretanto, nas várias idas a Delães, já a voltei a ver, sempre nesse mesmo café, muitas vezes, mas não mais falei com ela.

05 junho 2023

um liberal, portanto

"Nietzsche, nada tendo a ver com Marx, nem com as massas que tanto obcecaram o autor d' O Capital, tem uma visão para o homem que queira e se sinta capaz de se endeusar, isto é, de criar os seus próprios valores, a sua ética. Claro que Nietzsche não especifica qual seja a ética que decorre da sua "vontade de poder" porque, obviamente, ele não vai ditá-la a ninguém. Cada qual elaborará a sua; não haverá nenhuma ética de rebanho. A sua vontade de poder é mais uma atitude psicológica perante o mundo, perante a vida, que deixa completamente em aberto: a cada qual as decisões mais adequadas a serem tomadas individualmente."
Onésimo Teotónio Almeida, in Revista LER, Primavera 2023.