06 maio 2016

instante urbano xxxvi

Hoje foi manhã de tratar de algumas burocracias e papeladas administrativas pendentes. Uma delas foi a renovação da matrícula da minha criança no ensino pré-escolar público. Aguardando a minha vez de ser atendido, fui ouvindo a conversa daqueles que, à minha frente, iam sendo atendidos. A todos eles - mães, pais e encarregados de educação, durante o preenchimento do formulário de matrícula online, lhes foi perguntado se eram ou não católicos. Como pode o Ministério da Educação da República Portuguesa incluir num seu processo administrativo essa informação? Qual o interesse, ou melhor, qual a necessidade para o Estado ter essa informação? Qual a relação entre o ensino básico - laico, republicano, democrático e universal, com a religiosidade de cada indivíduo e família? Significará um tratamento diferenciado das crianças? Significará uma tentativa da Igreja de controlar o ensino público?
Em 2016 nada disto faz sentido e eu senti-me muito incomodado. Como o meu filho ainda não vai frequentar a Primária a questão não me foi colocada, mas ainda assim não pude deixar de questionar a simpática funcionária, que me respondeu que essa informação estava relacionada com a frequência da disciplina de Religião e Moral e que elas, funcionárias e a própria escola, apenas tinham que preencher todos os campos do formulário que lhes aparecia no computador. Gostaria de ver esta questão esclarecida.

3 comentários:

Anónimo disse...

E a constituição portuguesa ser facciosamente de esquerda não te causa incomodo?

valedovale disse...

Para além do incómodo de estar a dialogar com alguem que não tem nome e mesmo assim tem opinião, o que poderá desde logo ter vários significados e estar susceptível a várias interpretações, ainda assim, consigo interagir com essa não existência que é o anónimato. Tudo isto para dizer que se a "constituição é facciosamente de esquerda" significar ser mais equitativa, mais justa e nos tratar a todos como cidadãos com iguais direitos e deveres, então eu sou o maior dos facciosos e ambicionarei sempre a mais e mais incómodos democráticos. É que a democracia para poder existir é sempre cara, muito mais cara do que outros regimes que, pelos vistos, ainda atraem alguns não-facciosos.

ET disse...

Não percebo o que tem a ver com a "constituição portuguesa ser facciosamente de esquerda" a questão levantada... Aliás, sem sequer abordar se esta "observação" tem fundamento ou não, a verdade é que é essa "constituição facciosamente de esquerda" que garante a não discriminação positiva ou negativa de alguém em função da sua crença religiosa. Portanto, num questionário querer saber se os pais são católicos... bem... De qualquer forma parece que e esta constituição que permite que alguém misture alhos com bugalhos questionando - segundo me parece - as convicções de outro que as partilha e defende escondido no conforto de um anonimato que não se sujeita sequer a escrutínio daquilo que a pessoa acredita e defende. Pela observação, não deve ser de "esquerda". Um abraço