28 março 2025

entrudo

Há mais de uma década que não ia ao entrudo de Vila Boa. Recordo-o com nostalgia dos tempos de meninice e juventude, no qual participava e colaborava activamente na sua preparação. O entrudo na minha aldeia era um momento único de reunião e folia em comunidade. Um tempo de excepção e de tolerância para com os excessos, com momentos e tempos próprios e diferenciados, protagonizados pelos locais e para o público local, ou seja, para a própria comunidade.
Regressei este ano e o contraste com esse entrudo recordado não poderia ser maior. Aquilo que hoje acontece, e pelos vistos já acontece há muitos anos, nada tem de parecido com esse entrudo da minha juventude. Agora, trata-se acima de tudo de uma performance que os locais e não só dão a quem visita a aldeia nesse dia. Centenas ou mais de milhar de pessoas invadem a aldeia e percorrem-na em ronda com os referidos actores, máscaras, marafonas e madamas, povo abaixo, povo acima. São inúmeras as diferenças que não poderei aqui referi-las a todas, mas o que mais me impressionou foi o batalhão de fotógrafos profissionais e amadores, jornalistas e outros especialistas que acompanharam durante todo o dia os diferentes momentos deste entrudo que se diz ainda genuíno. Eu e mais algumas pessoas sabemos que de genuíno já pouco ou nada tem, mas enfim.
Nunca fui máscara, nem nunca me fantasiei de marafona ou madama, foi com surpresa e muita alegria que vi o meu filho, com treze anos a querer mascarar-se e a chocalhar miúdas e graúdas, activa e efusivamente ao ponto de ser noite, ter que regressar ao Porto e ele não querer sair de lá... Assim ele queira, regressarei anualmente a Vila Boa para que ele possa "deitar o entrudo fora".
Partilho algumas fotografias que fui tirando com o telemóvel, pedindo desde já desculpa pela fraca qualidade das mesmas.









ecossistema dos mortos

A propósito da sociedade a que dá o nome de transparente, o filósofo José Gil escreve um artigo no número actual do Jornal de Letras, no qual alerta para os perigos dessa sociedade que se afastará da igualdade e da liberdade democráticas e criará mais desigualdades, terror e injustiças. Mas aquilo que escreve sobre os ecossistemas e, em particular, sobre a erosão do ecossistema dos mortos, foi aquilo que me fez reflectir.

"A erosão de um outro ecossistema, o ecossistema dos mortos, que há muito recebe golpes profundos, contribui para este quadro apocalíptico. Quando falamos do 'passado', raramente nos lembramos de que é feito de antepassados. Referimo-nos a ele como o 'tempo passado', 'a tradição', um bloco de tempo que 'deixamos para trás', desbotado, cada vez mais desvanecido e amortecido. Não vemos no passado um presente que já foi, com vida e pessoas que perduram agora como personagens espectrais. Muitas das casas, muros, pontes e ruas das cidades e aldeias da Europa e do Oriente têm séculos e milénios de existência. A pedra e o espaço moldados pelos antepassados dirigem os nossos passos, perspectivam o nosso olhar. Vivemos à tona do passado, no meio dos mortos e dos sinais que nos deixaram. Mas tudo isso está a acabar."
José Gil, in Jornal de Letras nº 1421, Março 2025.

obesidades

 Leio sempre com atenção e prazer este senhor...

26 março 2025

45 anos de jornal de letras

"Cada vez mais me apetece ler o que há e barafustar contra o estado do mundo, de suas opções assustadoras perante as quais temos de erguer mais livros e mais consciência, mais informação e mais verdade. Mais resistência. Mais convicção na denúncia do quanto nos querem arrebanhar para interesses das elites financeiras, contra a dignidade dos povos todos."
Valter Hugo Mãe, in Jornal de Letras nº 1421, Março 2025.

caminho






Nunca fui caminheiro, peregrino ou turiperegrino, nem nunca senti qualquer chamamento para essa experiência física e/ou espiritual, sensorial e de superação. Fui desafiado uma ou outra vez para o fazer, mas sempre desconfiei das minhas capacidades físicas para tal empreendimento e, por isso, fui rejeitando tal hipótese.
Pois bem, agora e com esta idade, aconteceu aquilo que jamais imaginei ser possível, tentar fazer jornadas do caminho de Santiago. Isto aconteceu, não por qualquer epifania ou chamamento, mas quase por obrigação, ou comprometimento profissional. Faço parte de uma equipa de três antropólogos que se propuseram realizar a avaliação do potencial do caminho jacobeu Zamorano-Transmontano, uma alternativa ao caminho da Via da Plata. Este trajecto que inicia em Zamora, passa por Alcanices, Bragança, Vinhais e chega a Verín por Segirei, não está certificado, nem tem grande procura daqueles que se dirigem a Santiago. Contudo, sempre foi utilizado e existe um conjunto de caracteres ou manifestações patrimoniais, materiais e intangíveis, que dão conta ou comprovam essa utilização. Este projecto, premiado pelo CEI - Centro de Estudos Ibéricos, em 2024, implica percorrer a pé esse caminho, enquanto metodologia para conhecermos o seu trajecto, os patrimónios, as comunidades, a sinaléctica, etc. Assim, no início deste mês de Março, o Xerardo Pereiro, colega e amigo, agendou percorrermos o trajecto entre Alcanices e Segirei (Chaves), em quatro etapas: 1ª (1 de Março) Alcanices-Quintanilha; 2ª (2 de Março) Quintanilha-Bragança; 3ª (3 de Março) Bragança-Vinhais; 4ª (4 de Março) Vinhais-Segirei.
Com muitas dúvidas, mas cheio de mim, apresentei-me no Albergue de Alcanices na véspera da primeira etapa. Dormimos nesse albergue e saímos cedo em direcção a Quintanilha. Devida e exageradamente equipado (mochila a mais), caminhei lado a lado com o Xerardo e sem sentir qualquer incómodo ou dor durante cerca de 15 quilómetros. Quando nos aproximávamos de Trabazos o meu joelho direito começou a queixar-se, numa impressão que rapidamente passou a dor. Parámos para descansar um pouco, comer qualquer coisa, aproveitando eu para me drogar, numa vã tentativa de conseguir prosseguir caminho. Bem, a muito custo ainda consegui percorrer mais cerca de 8 quilómetros e meio e foi quando, depois de passar a fronteira "a salto" e já avistava Quintanilha, tive que desistir e colocar-me na berma da estrada com o polegar para cima. O segundo carro que passava parou e, para espanto de ambos, era um rapaz da minha aldeia que se dirigia para Bragança e me deu boleia até Quintanilha, onde esperei pelo Xerardo.
Mal chegámos ao albergue só quis descansar. Tomei um banho quente e deite-me até à noite e à hora de ir jantar. No dia seguinte, bem cedo, acordei à hora combinada para início da segunda jornada, mas não conseguia mexer-me... todo partido. O Xerardo prosseguiu caminho sozinho e cumpriu as quatro etapas inicialmente previstas.
Enfim, gostei muito da experiência e, pelo menos, tentei e fui solidário com o colega, mas ainda hoje estou a recuperar e tenho o joelho esquerdo a queixar-se sempre que caminho mais do que meia-dúzia de metros. Não voltarei a repetir tal ousadia, não vale a pena lutar contra o meu corpo e sua degeneração.

24 março 2025

incomodado e envergonhado

(imagem roubada do sr. google)

Eu não simpatizo e, como já aqui escrevi, não considero Luís Montenegro compatível com o desempenho das funções para as quais tem sido investido, mas o meu espanto e imediato incómodo quando dei de caras com este outdoor do Chega foi perturbador. Eu estou nos antípodas da visão do mundo deste senhor, nunca votei, nem votarei no seu partido (PSD), mas isto não se faz. Nem ao Luís Montenegro, nem à democracia portuguesa. Poderia dizer que o que sinto é vergonha alheia, mas não, aquilo que senti e sinto é vergonha pessoal e intransmissível, por haver a possibilidade de um partido político ter sucesso eleitoral com este tipo de agenda política e comunicação.

16 março 2025

zeitgeist tuga

"A nossa sorte depende, não só da competência dos respectivos dirigentes (partidários), mas, também do seu sentido ético. Desgraçadamente, competência e ética são atributos em falta no tempo que estamos a viver."
(António Galopim de Carvalho, in jornal Público, 16 Março 2025)

Sirvo-me das palavras do Professor Galopim de Carvalho para registar algo que já há algumas semanas queria fazer, mas outros afazeres me foram afastando desta tábua de escrevinhar. Refiro-me à actualidade política nacional e ao suicídio político de Luís Montenegro, fenómeno vertiginoso que tem acontecido, diante dos nossos olhos, ao longo das últimas semanas e que culminou com a queda do Governo e da Assembleia da República.
Muito se tem escrito, falado e gritado sobre o que aconteceu e já cansa a tiróide tanta informação, opinião, imputação de culpas (algo inacreditável) e oportunismo mediático em redor deste caso. Eu não preciso de mais informação para formar a minha opinião sobre o sucedido e sobre o perfil do nosso primeiro dos ministros. Tudo isto aconteceu porque, de facto, Luís Montenegro terá tido um comportamento incorrecto e impossível de tolerar nos dias de hoje. Sem querer entrar nos meandros de tudo o quanto foi dito e desdito, considero que o primeiro-ministro remeteu-se ao silêncio porque sabe que não pode falar sobre o seu comportamento e actividades dos últimos meses e anos. Ele não dá esclarecimentos porque não os pode dar. Numa atitude claramente desesperada e egocêntrica, mentindo e omitindo, ele preferiu deixar cair o seu governo, o seu partido e coligação, do que admitir publicamente o seu carácter não compatível com o exercício de funções de Estado.
Não me restam dúvidas, Luís Montenegro não tem carácter, nem qualquer ética republicana, é um lobista e um oportunista dos meandros partidários, que sempre foi bom e esteve mais disponível para se servir do Estado do que para servir o Estado.
Se acrescentarmos a isto, a realidade dos dirigentes partidários que têm lugar na Assembleia da República, que já mais do que demonstraram a fraca qualidade política, constatamos que, na verdade, a realidade político-partidária é tragicamente degenerativa. Independentemente da nossa posição, simpatia ou militância, percorremos o espectro partidário representado na Assembleia da República e não temos um líder partidário sério e competente. Dá pena constatar. Ainda assim, e não decorrendo da sua condição de líder, devo dizer que considero Rui Tavares o deputado mais bem preparado para a sua função, a grande distância da restante mediania e até incompetência política e desqualificação cidadã.
Assim vamos (sobre)vivendo, enganados pela promoção da incompetência e incivilidade. Há quem diga que é apenas o espírito da época.

despojados de sentido crítico

Elísio Estanque, no Sábado, dia 8 de Março escreveu um artigo de opinião no jornal Público ao qual deu o título de "Da força do poder ao poder da Força". Como gostei do texto e logo sublinhei as passagens mais relevantes, guardei esse jornal para mais tarde voltar a ele. Aconteceu hoje. Uma das suas principais ideias é que "num mundo cada vez mais complexo, são, paradoxalmente - ou talvez não -, as ideias mais simplistas, as narrativas mais primárias, que tomam a dianteira." Isto é de tal forma evidente que custa a crer que os poderes instituídos e seus representantes não se apercebam e não consigam contrariar e derrotar este ideário, mas mais do que comentar o texto, importa-me apenas partilhá-lo, naquilo que são, na minha opinião, os pontos-chave.

"Assistiu-se nas últimas décadas a um preocupante recuo da racionalidade e dos valores ilusionistas que projectaram a Europa como o principal baluarte da modernidade. Após o descrédito das ideologias que animaram a acção política ao longo do século XX: perante a falência do socialismo e do comunismo como sistemas alternativos ao capitalismo; com a erosão do sentido republicano e da social-democracia; o desgaste da cultura democrática em benefício dos identitarismos; são, todas elas, tendências que parecem empurrar-nos para um vazio de valores, de referências, de visão estratégia e, num certo sentido, para a rejeição da própria política na sua acepção mais nobre."
[...]
"Cada vez mais gente adere a posturas arrogantes dos poderosos e foge das personagens mais cultas e inteligentes. Porquê? Estão em marcha poderosos mecanismos psicossociais que se difundem na sociedade, reformatando as mentalidades dos cidadãos - ou pelo menos contigentes cada vez maiores -, tornando-os seguidores incondicionais de líderes autoritários e potenciais súbditos de futuros tiranos. A revolução informática e digital, dominada pela lógica neoliberal, está a tornar-se um poderoso instrumento no desmantelamento da cultura política democrática. Em vez de uma democracia electrónica, em vez de se usar esses meios como ferramentas ao serviço da transparência e da participação cidadã, eles são cada vez mais apropriados pelos interesses dos grandes negócios que manobram influenciares, sistemas algorítmicos e redes digitais com vista a maximizar lucros e docilizar públicos massificámos e alienados."
[...]
"Cresce uma vontade indómita de obediência dos fracos e ignorantes em relação aos ricos e poderosos. Nesse contexto, o líder salvífico surge travestido de uma linguagem exultante, estimulando nos seus incautos apoiantes uma projecção identitária que é tanto mais incondicional quanto mais emocional e radical contra o "inimigo" (o sistema, a elite política, o que for). São principalmente essas camadas mais vulneráveis que aderem ao discurso de ódio, e que recusam a retórica intelectualizada e incompreensível do campo político da esquerda."
[...]
"O actual paradoxo da humanidade é que tende a acomodar-se na ideia fictícia de que a IA e o mundo digital virão repor a ordem e distribuir oportunidades a todos. Esses equipamentos incidem no cidadão comum criando uma vertigem descontrolada de deslumbramento, a qual esconde o lado sombrio desta brilhante inteligência. Ela obedece a programas que, sob a capa de um acesso fácil ao conhecimento, promovem indivíduos intelectualmente limitados e despojados de sentido crítico, subtilmente conduzidos a aderir a modelos de consumo pré-formatados, seja no plano material, seja na oferta discursiva que dá expressão às grandes frustrações de pessoas ressentidas.
A revolução digital é suportada pelo poder do algoritmo, que é estrategicamente orientado; destina-se, por um lado, a suprimir o trabalho humano numa imensa variedade de sectores, mas, por outro lado, contribui objectivamente para moldar o nosso gosto, as nossas escolhas e servir os grandes centros de poder que controlam esses meios e as redes digitais em geral."

um enigmático estrangeiro


Há anos que ambicionava e ia procurando este livro. Trata-se de um relato de um estrangeiro, súbdito de Sua Majestade Britânica, sobre a sua curta estadia e vivência numa pequena aldeia (Coleja) do Alto Douro transmontano, nos finais da década de 1930. Um dia destes o meu amigo Rui Leonardo, de Torre de Moncorvo, enviou-me mensagem dizendo: "Luís. Escrevo só para te dizer que arranjei-te hoje a revista (nº 7 da revista Memória Rural) e o livro do Gibbons. Depois faço-tos chegar. Abraço." Depressa arranjei maneira de nos encontrarmos e, para além de receber esses presentes, ainda pudemos almoçar e pôr a conversa em dia. Bem hajas Rui.

15 março 2025

ao espelho

Ontem, dia 14 de Março, entre as 18 e as 20 horas, no edifício da Câmara Municipal de Bragança, numa iniciativa da UNED (Universidade Nacional de Ensino à Distância - Zamora), convidado para falar sobre Memória, Imaginários e Patrimonialização Jacobeia. Partilho alguns momentos "roubados" das redes sociais" da autarquia brigantina.




13 março 2025

dizem que vou lá estar


Convite

Exmo.(a) Senhor(a)
No âmbito do Curso “Caminhos de Santiago: o Caminho Português da Via da Prata por Zamora, Trás-os-Montes e Orense”, o Presidente da Câmara Municipal de Bragança, Paulo Xavier, incumbe-me de convidar V. Ex.ª para assistir ao evento, que decorrerá amanhã, sexta-feira, 14 de março de 2025, na Sala de Formação do Município de Bragança (Portugal), das 18h00 às 20h00 (Hora portuguesa) / 19h00 às 21h00 (Hora española).
Se não puder estar presente, pode acompanhar este curso ao vivo, através do seguinte link de streaming:
O curso é de acesso livre por ser gratuito, bastando no momento do início da conferência (18h00 em Portugal, 19h00 em Espanha) clicar no botão “play” e terá acesso ao vídeo. Caso queira aceder ao chat para interagir ou enviar alguma dúvida é necessário fazer login, o que significa que deve estar inscrito no curso (diretamente neste link:https://extension.uned.es/actividad/idactividad/43347 ou entrando em www.unedzamora.es) e estar cadastrado no portal UNED INTECCA (anexamos um pequeno guia de ajuda para conexão). 
Mais me incumbe de solicitar a vossa melhor divulgação junto de potenciais interessados.