Um destes dias, o meu irmão contava, à mesa do jantar, a experiência que tivera com o seu filho num evento de troca de cromos, se não estou em erro, na praça D. João I, no Porto. Há muito tempo que as colecções de cromos dos campeonatos do mundo de futebol motivam uma febre junto dos mais novos, mas também nalguns menos novos e, um pouco por todo o lado, a corrida às saquetas e aos cromos é uma autêntica loucura. Eu também já fui "obrigado" a andar em andanças parecidas, mas aquilo que está a acontecer neste momento, com o Mundial de Futebol 2026 e a colecção da Panini, é algo que nunca terá acontecido. Dizia o meu irmão que bastava ter cromos na mão para as pessoas iniciarem diálogo, trocando cromos, e eram dezenas, talvez centenas, de miúdos com os pais, a interagirem sucessivamente entre eles. Mas aquilo que mais me chamou a atenção, foi o facto dessa interacção e a respectiva troca de cromos ser realizada de forma limpa e mais do que justa, isto é, mesmo quando não havia cromos que interessassem (faltassem) a alguém, a troca directa acontecia pela escolha do mesmo número de cromos, ainda que repetidos, que poderiam ser úteis para próximas transacções. Ou seja, uma troca directa, limpa, desinteressada, não comercial e não especulativa. Claro que a Panini já vendeu e continua a vender de forma estrondosa e estes eventos paralelos não lhe criam mossa no negócio, mas não deixam de ser indícios da possibilidade de existirmos num outro contexto que não o capitalista e neo-liberal. Ao ouvir o meu irmão contar esta experiência, o meu cérebro remeteu-me para a reflexão: apesar da hegemonia e do poder do capital, sobrevivem entre nós muitas reminiscências da cultura pré-capitalista e até anti-capitalista. Pequenos nadas que preservam uma cosmovisão alternativa de organização social, em que a partilha, a troca, a igualdade e a justiça eram, e são, relevantes e estruturais nas comunidades. Que a sua simples aplicabilidade faz tremer e questiona o determinismo capitalista que nos foi imposto. Por isso, não tenho dúvida que um dia, mais cedo do que tarde, será possível vivermos sob esses princípios da autonomia e da harmonização dos recursos.
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