21 outubro 2026

orgulho e preconceito

O algoritmo de uma das redes sociais que vou frequentando presenteou-me com esta notícia do Expresso, cujo título dizia: <Passos defende regresso das taxas moderadoras para o aborto: "os números não nos dão razão para sentir orgulho">. Quando dei de caras com esta afirmação, e para a não perder de vista, a minha reacção imediata foi partilhá-la no meu feed (página), e acrescentar o seguinte comentário: "Vou, tenho, que escrever sobre esta ignomínia".
Pois bem, cá estou eu.
Desde a vitória do "sim" no segundo referendo sobre a despenalização do aborto, realizado em 2007, que todos os números conhecidos indicam que essa despenalização foi uma conquista civilizacional e que os números de mortes associadas a essas práticas de abortos clandestinos, realizados por talhantes em vãos de escada, se reduziu substancialmente para valores residuais e insignificantes. Sendo uma questão de saúde pública, e ao longo destes quase vinte anos, não haverá dúvidas do sucesso e eficácia dessa decisão política dos cidadãos portugueses, a não ser numa reduzida combinação de instituições partidárias, associativas e religiosas, que por mais evidências empíricas, técnicas, científicas e estatísticas, jamais aceitarão que as mulheres possam decidir sobre a sua vida, sobre o seu corpo e sobre a sua sexualidade.
A afirmação de Pedro Passos Coelho é a manifestação pública desse desconforto sectário, significativo do preconceito atávico que sobrevive entre nós, mas ainda assim não sei a que "orgulho" ele se refere, nem sei a que números se refere. Talvez preferisse e se orgulhasse mais da realidade existente antes desse referendo. Eu, cá, estou muito orgulhoso por viver e ser cidadão de um país, de uma comunidade, que percebeu a dimensão do drama que era essa questão e decidiu, com civilidade e propriedade, que toda e qualquer mulher possa decidir se quer ou não ter fazer vingar cada gravidez.
No fundo, ao olhar para esta criatura, aquilo que me vem à mente é como pode ser tão pessimista, tão derrotista, de humor cáustico e sempre com um azedume de quem carrega o mundo às costas e se quer livrar dele, mas não consegue. Há muito tempo, durante ou depois da sua passagem pelo Governo, escrevi e publiquei aqui que o seu exercício enquanto Primeiro Ministro, de má memória, marcou de tal forma os portugueses, que seriam necessárias décadas para haver uma reconciliação e uma recuperação da sua imagem. Pois bem, Pedro Passos Coelho, pelos vistos, não entendeu o que aconteceu e teima no mesmo registo, na mesma atitude e discurso. Personagem que conquistou o seu lugar na História nacional pelo seu ar carrancudo e perfil austero, não deixou saudades e, tendo saído pela porta das traseiras da vida política e pública, parece agora querer regressar com toda a sua toxidade. Espero, a bem de todos nós, que não o consiga e que tudo isto não seja mais do que o esvoaçar de uma ave ferida de morte.

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