29 março 2017

sobressalto pessoal

Foi por estes dias, durante uma aula, quando eu falava da relação entre cuidador, tratador ou médico e doente, paciente ou utente, que fui interrompido por uma aluna de enfermagem que me disse que agora o termo utilizado não seria doente, paciente ou utente, mas sim cliente. Não me apercebi logo do que estava a ser dito e questionei a referida aluna sobre o contexto onde essa alteração se tinha verificado, ao que ela respondeu que tinha sido na própria universidade que um, ou mais professores (?), lhes ensinara que o termo apropriado é cliente.
Não quis acreditar, mas acho que me consegui controlar e ninguém terá percebido a minha súbita indisposição. Então agora são as próprias instituições de ensino especializado e superior, que preparam e formam os profissionais da saúde de amanhã, quem incute e "evangeliza" o credo liberal. Irei tentar perceber o que está acontecer...
A transformação de doentes, pacientes e utentes em clientes é mais uma prova de como o capital subtraiu aos sistemas de saúde, qualquer réstia de humanismo, de cuidado, de relação pessoal entre cuidadores e seus doentes. É também uma transformação radical nas percepções e nas representações sociais relativamente aos sistemas de saúde. Agora, mais do que nunca, apenas os clientes - leia-se, apenas quem tem dinheiro - poderão aceder a cuidados de saúde com qualidade. Depois, mesmo etimologicamente, ser cliente implica a presença do factor valor (dinheiro), enquanto que os termos doente, paciente e utente ilibam ou permitem a ausência desse factor. Daí esta persistência liberal em conquistar e dominar os sistemas de saúde. Estes e a Segurança Social são e serão, nos próximos anos, os grandes negócios para o capital, que só descansará quando conseguir eliminar o Estado desses sectores, ou melhor, quando conseguir eliminar o Estado da nossa sociedade.
Resistirei, resistiremos até não podermos mais. Quando vou ao médico, ao centro de saúde, ou ao hospital e necessito de qualquer cuidado médico, sou e serei sempre um doente, um paciente, ou quando muito, um mero utente do Serviço Nacional de Saúde.

2 comentários:

ET disse...

Viva!

Em relação ao que refere será muito injusto atribuir esse "proselitismo" à instituição de ensino. Acredite que, no caso de enfermagem sempre se referem à pessoa como doente/utente e o que a instituição faz (e bem a meu ver) é ensinar que a designação "cliente" existe e tem sido alvo de profundos estudos e reflexões por pessoas muito credíveis na área das ciências da saúde e sociais.
Querer ser "doente" porque vamos ao médico... é um paradigma de saúde já ultrapassado (ou que devia estar ultrapassado). O modelo biomédico já era. Quanto a mim, não quero ser "doente". Quero ser uma pessoa que, quando muito "está doente".
se estou em contexto de SNS, sim, posso ser utente. Se pago diretamente para ir a qualquer profissional de saúde, quero ser cliente com direito a escolher o que acho melhor para mim ou para os meus, como se estivesse a escolher um artigo para comprar.
A saúde ser um negócio? Caro amigo... seja utente/doente ou cliente. Chama-lhe o quiser... Sempre foi, é e será... Olhe para o património dos médicos com 55/65 anos... Que exerceram no SNS debaixo do paradigma que diz tanto gostar e não querer que mude... Não tinham clientes, é verdade... Imagine se tivessem...
Um grande abraço, sempre coma mais alta estima e consideração.
ET

valedovale disse...

Caro ET, muito obrigado pelo seu comentário. Antes de mais, esclarecer que não faço a apologia do modelo biomédico e não tenho uma perspectiva atávica da saúde e das suas práticas. Mas isso não quer dizer que concorde com a imposição desta novi língua tecnocrata, proveniente do economicês e tão ao agrado da praxis económico-financeira. Lamento, mas não concordo com essa transformação declarada. Talvez seja um capricho meu, talvez seja apenas uma questão semântica, mas a verdade é que fiquei incomodado com a novidade.