No dia, e na hora, em que António José Seguro toma posse como Presidente da República, em sessão solene na Assembleia da República, importa-me reflectir sobre aquilo que foi a magistratura de Marcelo Rebelo de Sousa ao longo dos seus dois mandatos.
Eu, que nunca votei nele, aquando da primeira eleição, comecei por apreciar a atitude descontraída e franca com que se dava ao contacto, não só com a comunicação social, como também e principalmente, com os portugueses com quem interagia, demonstrando uma empatia e preocupação com as situações com que era confrontado. Isto era ainda mais evidente quando, por contraste com o seu antecessor, Anibal Cavaco Silva, que jamais conseguiu abandonar aquele ar taciturno, sorumbático, bem característico de um personagem esfíngico e asséptico, que fugia de qualquer contacto pessoal com os cidadãos e só a custo falava, o estritamente necessário, com a comunicação social.
Depressa essa nova atitude presidencial degenerou num habitus obsessivo e compulsivo de estar, fazer, acontecer e, acima de tudo, dizer qualquer coisa. Para Marcelo o importante era manter em si os holofotes comunicacionais e numa incontinência verbal, ao ter opinião sobre tudo e mais alguma coisa, em grande medida, banalizou a sua função, a sua magistratura, a sua presidência, a tal ponto que, a partir de certa altura, era já impossível sequer vê-lo e ouvi-lo.
Durante estes longos dez anos que agora terminam, muito aconteceu em Portugal e Marcelo Rebelo de Sousa conseguiu, sem qualquer dúvida, inscrever o seu nome na história da democracia portuguesa. Eu, mesmo não apreciando o estilo, aceito esse lugar e distinção sem qualquer problema e, sei, que o seu sucessor, hoje empossado, e em quem eu votei sem qualquer dúvida ou reserva, será também um bom Presidente da nossa República. A única dúvida que me resta é se num futuro, mais ou menos longínquo, ainda teremos saudades de Marcelo Rebelo de Sousa. Essa é a questão!
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