30 janeiro 2026

consciência de classe

Há algum tempo venho pensando sobre o estado do mundo, não só enquanto planeta, mas mais enquanto sociedade, comunidade, coisa pública e aquilo que vejo só me deixa desanimado e deprimido, mas não vencido. Parte da reflexão que tenho produzido diz respeito às razões que poderão ter contribuído para o estado actual em que vivemos. Claro que não existe uma única razão ou um único culpado, mas sim o encontro de várias condições e motivações que resultam naquilo que hoje encontramos à nossa volta. O desalento, o desespero e a frustração sociais que percepcionamos não surgiram por obra e graça da santa bílis, mas são as reacções possíveis de quem, durante décadas, tem vindo a ser explorado, ignorado e ostracizado. Na minha opinião, uma das razões seminais para esse estado existencial foi e é a total ausência daquilo que se chama consciência de classe. Tanto nas gerações mais velhas, como nas mais novas, a minha percepção é de que vivemos alheados e desconhecedores do lugar de onde viemos e do lugar que ocupamos na sociedade.
Ao longo das últimas décadas assistimos, ainda que inconscientes e ignorantes, a uma guerra cultural pela ocupação hegemónica do pensamento e da prática sociológica. Dito por outras palavras, enquanto a esquerda apostava e se entretinha com as questões identitárias, por natureza sectárias e com públicos minoritários, a direita apostava na separação dessas questões em relação ao mundo do trabalho e em relação às classes trabalhadoras, estas sim, com problemas, anseios e expectativas abrangentes e maioritárias. O resultado dessa disputa foi um alheamento quase total à esquerda da realidade do mundo do trabalho, dos sindicatos, das comunidades e o seu entrincheiramento nas lutas identitárias, por exemplo, naquilo que a direita mais conservadora, erradamente, passou a designar de "ideologia de género", o que, por sua vez, significou um esvaziamento completo da consciência de pertença a uma determinada classe social e/ou económica. Ao mesmo tempo, um aparente conforto social, traduzido numa pequena melhoria das condições de vida, com a massificação do acesso às tecnologias, ao lazer, ao turismo, ao consumo, promovida pelo capitalismo selvagem do neoliberalismo, criou uma expectativa, uma ilusão de pertença a uma classe média, embrulhada em ideais falsos como a meritocracia, o sucesso e o empreendedorismo, e que é anunciada como possível de alcançar e à qual todos nós podemos ambicionar pertencer.
Por exemplo, olhando para as gerações mais novas, como as dos meus filhos, frequentadores da escola pública - apesar de considerar que nos espaços escolares privados também se possa verificar - maior parte deles andam vestidos com roupas e calçado semelhantes, todos têm telemóvel, frequentam as mesmas redes sociais, jogam os mesmos jogos, transmitindo-lhes uma sensação de nivelamento horizontal naquilo que são as suas condições de vida e, também, de origem. Eu até entendo que isso é democrático e será benéfico para o seu equilíbrio emocional e social, mas ao mesmo tempo, impede-os de identificar as enormes assimetrias potencialmente existentes entre eles, seja no poder de compra, seja no conforto das suas casas, seja na alimentação, enfim, nos diferentes extratos económicos da sua origem.
Lamento, não somos todos iguais, não viemos todos do mesmo lugar e nunca alcançaremos os mesmos objectivos, desejos e ambições. Quem realmente manda nisto tudo conseguiu, de forma eficaz, espectacular e duradoura, manter-nos entretidos a lutar pelas côdeas do trigo, enquanto os seus interesses estão a salvo e a render. Houvesse mais consciência de classe e, provavelmente, o mundo seria mais justo e equilibrado.

beleza, sossego e solidão

O meu fascínio pelo frio e pelos ambientes invernais não é comum e até agride ou ofende a maioria daqueles que vivem e convivem comigo. Também não será uma afirmação entendível se partilhada em público, e muito menos é uma experiência confortável para mim próprio, pois cada vez sofro mais quando em contacto com temperaturas muito baixas ou ambientes muito húmidos. Ainda assim, continua a ser um conforto, talvez mais psicológico do que físico, passear no Inverno e deambular ao ar livre, sentindo o ar gelado, a neve a cair, o vento a soprar ou a chuva a bater no guarda-chuva. Enfim, toda esta conversa para recordar a última experiência em ambientes hostis para quase toda a gente.
No passado dia 23 de Janeiro, viajei para Trás-os-Montes e para o concelho de Bragança. Estive na cidade e depois em Parada, aldeia a Sul da cidade, onde cheguei por volta das 16 horas, sob uma chuva gelada que, a espaços e consoante a altitude, se transformava em neve. Enquanto esperei pela pessoa com quem havia combinado, dentro do carro, assisti à transformação da paisagem num belíssimo manto branco que cobriu casas, ruas e terrenos. Em poucos minutos, dada a força da neve, tudo reflectia a claridade da luz intensa e de uma alvura que incomodava a vista. Num impulso saí do carro e fui passear pelas redondezas, desertas e de um sossego tremendo, em que o silêncio só era interrompido pelo som quase imperceptível da neve a cair e, por cima dele, o do meu respirar, por vezes ofegante. Tremendo momento de solidão.
Bem, mas lá fiz o que tinha a fazer nessa aldeia e, apesar de atrasado, ainda quis regressar ao Porto. Saí de Parada em direcção à Auto-estrada quando seriam as 20:20 horas, noite escura e ainda sob uma nevada tremenda. Sabia que quanto mais tarde saísse pior seria e o meu receio era não conseguir chegar, pelas estradas nacionais e municipais, à entrada da A4 em Rossas. Acho que não terei palavras para traduzir a beleza da paisagem que atravessei nesse percurso... a estrada era um manto branco imaculado, por onde nenhum outro carro circulara, pois não havia rastos de rodados, as árvores que ladeavam essa estrada, iluminadas pelos faróis do meu automóvel, pareciam uma imagem de sonho, de algo não real e a minha vontade a cada momento era sair do carro, fotografar, filmar, o que não fiz pelo tal receio de não chegar à Auto-estrada e, depois, ao Porto.
Foi uma viagem longa, tremenda de emoções e, agora que a recordo, aquilo que é um perigo e receio para a maioria da pessoas, é para mim sempre um verdadeiro prazer. Desconfio, irei sempre ao encontro do frio e da neve.

elogio do papel

Na edição deste mês de Janeiro de 2026, do jornal Le Monde Diplomatique, Benoît Bréville e Pierre Rimbert escrevem longo e profundo artigo sobre a importância e mais-valias do texto impresso em detrimento dos textos desmaterializados e disponíveis em todos e mais alguns suportes digitais. Para além de concordar e subscrever as suas ideias e teses, considero que olhando para o mundo actual, mas também o das últimas e, porque não, o das próximas décadas, o papel mantém o seu lugar central no conhecimento e na informação. Invente-se o que se inventar, avance o que avançar a tecnologia, o suporte papel permanecerá e continuará a ser o veículo mais fiável e duradouro de tudo quanto se quer preservar.
O texto aqui referido é muito importante para a reflexão que importa fazer, e que alguns Estados, pensadores e académicos já têm feito, sobre a manutenção ou substituição do papel como principal suporte para a divulgação, acessibilidade e generalização dos conteúdos, do conhecimento, das aprendizagens e da informação.
Transcrevo aqui algumas passagens desse texto:

"Os usos sociais de um meio de comunicação não se reduzem à mensagem. Abrir um jornal como o nosso na esplanada de um café, receber o sorriso cúmplice de um vizinho no comboio, deixar um exemplar num local público ou exibi-lo numa manifestação: esses gestos, esses compromissos não podem ser considerados de forma desmaterializada.
Talvez seja porque o papel abre um imaginário infinitamente mais profundo do que a simples função de suporte do escrito. O jornal impresso simboliza a reconquista da curiosidade, o domínio da nossa concentração, uma disposição para o "devagar que tenho pressa", uma resistência ao roubo de informações pessoais e às invasões da privacidade que o uso de dispositivos conectados implica num regime de mercado. Na era da informação algorítmica, o papel não controla o seu leitor, não captura o seu tempo, não pirateia as suas emoções. Não abre caminho estatisticamente contra a nossa vontade: pelo contrário, exige um esforço, e a manipulação do seu layout às vezes requer até algumas contorções. Quando a sua leitura inspira uma ideia, uma analogia, uma perspectiva, uma raiva, uma acção, colocámo-lo de lado, paramos, reflectimos. É o suporte de uma soberania recuperada sobre os objectos da nossa atenção e, consequentemente, das nossas mobilizações."

26 janeiro 2026

apurriemos

Este texto deveria ter sido aqui registado há dois dias, ou seja, no dia 24 de Janeiro de 2026, pois foi nesse dia que se assinalou o 19º aniversário deste meu recanto de escrita. Sinto que nos últimos meses, talvez anos, não tenha vindo aqui tanto quanto desejaria, mas têm sido tantas as distracções e solicitações, que acabo por me dispersar por tantas outras iniciativas e projectos. É verdade que também, e em consequência do que acabei de escrever, a disponibilidade de tempo e, já agora, de humor, também não contribuem para a "alegria" deste espaço. Contudo, mantenho-me fiel a ele e não me olvido dele. Reafirmo a intenção de o manter e, claro, de aqui regressar mais amiúde.

22 janeiro 2026

teste do algodão

A primeira volta das eleições presidenciais acabou de acontecer e os dois candidatos que passaram à segunda volta foram António José Seguro e André Ventura. Desde então muito já se disse, muito já se escreveu e ainda mesmo antes da campanha eleitoral para esta segunda volta, o país mediático e publicado está ao rubro com esta nova realidade. De facto, o resultado desta primeira volta proporcionou uma realidade jamais experimentada pela democracia portuguesa. Aquilo que irá acontecer na segunda volta, a 8 de Fevereiro, será o primeiro momento desde o 25 de Abril de 1974 em que os eleitores portugueses irão decidir sobre a sua democracia. Isto é, será o primeiro plebiscito popular para eleger alguém que é defensor do regime democrático ou um aspirante a autocrata que não quer mais do que subverter, minar e destruir a nossa democracia. Será um momento esclarecedor, no qual o dilema é simples, básico, mas crucial para o futuro da nossa vida em sociedade. A 8 de Fevereiro ficaremos a saber quem é democrata e quem nem por isso, quem é saudosista do velho regime ou quem é proto-fascista...
Poderemos, igual e finalmente, perceber a dimensão da vitalidade do nosso regime democrático, agora que passaram cinquenta anos desde o 25 de Abril. Não votar em António José Seguro será admitir a preferência por outros regimes políticos, será subscrever a destruição das instituições do nosso regime, do nosso Estado de direito e democrático.
A 8 de Fevereiro de 2026 não haverá espaço para enganos ou equívocos. Será um verdadeiro teste do algodão.

16 janeiro 2026

presidenciais e o voto útil

Hoje que é o último dia da campanha eleitoral para as presidenciais, naquilo que se prevê ser apenas a primeira volta dessa eleição para a presidência da República, já decidi em quem vou votar. Desde muito antes desta campanha que, importa referir, não acompanhei, nem gastei tempo a ver/ouvir qualquer candidato, tinha decidido que o meu candidato seria o António Filipe. Não só pelo facto de ser uma candidatura de esquerda, mas porque reconheço nele a qualidade e a competência para exercer a função de Presidente da nossa República. Mas também porque o considero ser uma pessoa honesta e íntegra, sem mácula no seu carácter, e isto não significa ausência de defeitos ou indefectibilidade, mas a percepção de que é um indivíduo sério, conhecedor, competente e sem esqueletos nos armários de incompatibilidades éticas ou morais para com o exercício da mais alta magistratura nacional.
Contudo, e no entretanto, sensível ao facto de haver a forte possibilidade de não haver nenhum candidato de esquerda na mais que provável segunda volta, eu, que nunca votei num candidato vencedor e que jamais fui influenciado e sempre critiquei o paradigma do voto útil, vejo-me na iminência de assim proceder e votar "útil" em António José Seguro, pessoa pela qual não nutro qualquer simpatia, pessoal ou política, mas que também não me levanta qualquer dúvida sobre a sua honorabilidade e seriedade. Será a única forma de podermos vir a ter um Presidente da República que não seja de direita e isso, nestes tempos, é importantíssimo para a saúde democrática do nosso país. Vou votar em António José Seguro.

15 janeiro 2026

quem diria

"Quem diria que o castigo contemporâneo da era dos computadores e da velocidade fosse este: esperar. Esperar, sofrer, telefonar, adormecer, repetir: não há fado mais moderno, ou mais triste."
Miguel Esteves Cardoso, in jornal Público - 15/01/2026.

06 janeiro 2026

como um vício

O jornal Público entrevista hoje Greg Clark, para mim um ilustre desconhecido, mas que pelos vistos é um especialista em urbanismo, planeamento e cidades. Ao referir-se ao turismo urbano, diz-nos que, antes de mais, as cidades têm de saber o que querem fazer com o turismo... "Criar um plano para o turismo que a cidade quer ter. É preciso ter um plano: que turistas realmente queremos?" Porque "o turismo é como um vício", e "há uma grande descoordenação entre o que a cidade quer e o que a indústria das viagens e do turismo querem. Para a indústria do turismo, mais é só mais lucro. Para a cidade, as consequências são negativas. O excesso de turismo não é bom".
Mas desta entrevista aquilo que mais me chamou a atenção, foi quando Greg Clark se refere às vantagens da mistura de classes sociais nas ruas e nos bairros das cidades: "Sabemos que em bairros com mistura social aumenta a esperança de vida, aumenta o capital social, aumenta a rede de transportes públicos, reduz a dependência dos carros, aumenta a qualidade das escolas. Sabemos que isto é bom. Mas há muito poucas cidades que conseguiram isto".

03 janeiro 2026

a lei do mais forte

Hoje acordei com o eco das notícias da Venezuela. Não sendo propriamente uma surpresa, o incómodo foi imediato e senti-me num mundo mais do que estranho, estúpido. Não nutria, nem nutro, qualquer simpatia para com Maduro e o seu regime autocrático e mafioso, mas também não suporto atitudes imperialistas, de quem tem poder económico e militar, para se impor impune, desta forma ilegítima, perante Estados que, concordemos ou não com os seus regimes, são independentes e têm as suas instituições a funcionar. Aquilo que aconteceu agora na Venezuela é gravíssimo e só possível num mundo que eu prefiro ler como uma distopia da qual iremos, um dia, despertar. Aqui e agora, que é como quem diz, no mundo e em 2026, impera a lei do mais forte. Um sistema-mundo assim, não interessa a ninguém e, a mim, deixa-me prostrado e sem qualquer vontade de reagir. Desligar do mundo é cada vez mais o meu caminho, a minha vontade.

01 janeiro 2026

curiosidade

É um lugar comum, dia 1 de Janeiro de cada ano ser considerado um dia aborrecido, preguiceiro e pachorrento, em que nada acontece, nada se faz, nada apetece. Sendo um lugar comum, todos ou muitos de nós assim o entendem e vivem. A minha vivência deste dia não difere, mas o que me espanta é, chegados a esta idade, termos esse conhecimento e nada fazermos para alterar essa modorra. Deixarmo-nos ficar no tédio deste dia será, afinal, um curioso prazer.