O meu fascínio pelo frio e pelos ambientes invernais não é comum e até agride ou ofende a maioria daqueles que vivem e convivem comigo. Também não será uma afirmação entendível se partilhada em público, e muito menos é uma experiência confortável para mim próprio, pois cada vez sofro mais quando em contacto com temperaturas muito baixas ou ambientes muito húmidos. Ainda assim, continua a ser um conforto, talvez mais psicológico do que físico, passear no Inverno e deambular ao ar livre, sentindo o ar gelado, a neve a cair, o vento a soprar ou a chuva a bater no guarda-chuva. Enfim, toda esta conversa para recordar a última experiência em ambientes hostis para quase toda a gente.
No passado dia 23 de Janeiro, viajei para Trás-os-Montes e para o concelho de Bragança. Estive na cidade e depois em Parada, aldeia a Sul da cidade, onde cheguei por volta das 16 horas, sob uma chuva gelada que, a espaços e consoante a altitude, se transformava em neve. Enquanto esperei pela pessoa com quem havia combinado, dentro do carro, assisti à transformação da paisagem num belíssimo manto branco que cobriu casas, ruas e terrenos. Em poucos minutos, dada a força da neve, tudo reflectia a claridade da luz intensa e de uma alvura que incomodava a vista. Num impulso saí do carro e fui passear pelas redondezas, desertas e de um sossego tremendo, em que o silêncio só era interrompido pelo som quase imperceptível da neve a cair e, por cima dele, o do meu respirar, por vezes ofegante. Tremendo momento de solidão.
Bem, mas lá fiz o que tinha a fazer nessa aldeia e, apesar de atrasado, ainda quis regressar ao Porto. Saí de Parada em direcção à Auto-estrada quando seriam as 20:20 horas, noite escura e ainda sob uma nevada tremenda. Sabia que quanto mais tarde saísse pior seria e o meu receio era não conseguir chegar, pelas estradas nacionais e municipais, à entrada da A4 em Rossas. Acho que não terei palavras para traduzir a beleza da paisagem que atravessei nesse percurso... a estrada era um manto branco imaculado, por onde nenhum outro carro circulara, pois não havia rastos de rodados, as árvores que ladeavam essa estrada, iluminadas pelos faróis do meu automóvel, pareciam uma imagem de sonho, de algo não real e a minha vontade a cada momento era sair do carro, fotografar, filmar, o que não fiz pelo tal receio de não chegar à Auto-estrada e, depois, ao Porto.
Foi uma viagem longa, tremenda de emoções e, agora que a recordo, aquilo que é um perigo e receio para a maioria da pessoas, é para mim sempre um verdadeiro prazer. Desconfio, irei sempre ao encontro do frio e da neve.
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