Há algum tempo venho pensando sobre o estado do mundo, não só enquanto planeta, mas mais enquanto sociedade, comunidade, coisa pública e aquilo que vejo só me deixa desanimado e deprimido, mas não vencido. Parte da reflexão que tenho produzido diz respeito às razões que poderão ter contribuído para o estado actual em que vivemos. Claro que não existe uma única razão ou um único culpado, mas sim o encontro de várias condições e motivações que resultam naquilo que hoje encontramos à nossa volta. O desalento, o desespero e a frustração sociais que percepcionamos não surgiram por obra e graça da santa bílis, mas são as reacções possíveis de quem, durante décadas, tem vindo a ser explorado, ignorado e ostracizado. Na minha opinião, uma das razões seminais para esse estado existencial foi e é a total ausência daquilo que se chama consciência de classe. Tanto nas gerações mais velhas, como nas mais novas, a minha percepção é de que vivemos alheados e desconhecedores do lugar de onde viemos e do lugar que ocupamos na sociedade.
Ao longo das últimas décadas assistimos, ainda que inconscientes e ignorantes, a uma guerra cultural pela ocupação hegemónica do pensamento e da prática sociológica. Dito por outras palavras, enquanto a esquerda apostava e se entretinha com as questões identitárias, por natureza sectárias e com públicos minoritários, a direita apostava na separação dessas questões em relação ao mundo do trabalho e em relação às classes trabalhadoras, estas sim, com problemas, anseios e expectativas abrangentes e maioritárias. O resultado dessa disputa foi um alheamento quase total à esquerda da realidade do mundo do trabalho, dos sindicatos, das comunidades e o seu entrincheiramento nas lutas identitárias, por exemplo, naquilo que a direita mais conservadora, erradamente, passou a designar de "ideologia de género", o que, por sua vez, significou um esvaziamento completo da consciência de pertença a uma determinada classe social e/ou económica. Ao mesmo tempo, um aparente conforto social, traduzido numa pequena melhoria das condições de vida, com a massificação do acesso às tecnologias, ao lazer, ao turismo, ao consumo, promovida pelo capitalismo selvagem do neoliberalismo, criou uma expectativa, uma ilusão de pertença a uma classe média, embrulhada em ideais falsos como a meritocracia, o sucesso e o empreendedorismo, e que é anunciada como possível de alcançar e à qual todos nós podemos ambicionar pertencer.
Por exemplo, olhando para as gerações mais novas, como as dos meus filhos, frequentadores da escola pública - apesar de considerar que nos espaços escolares privados também se possa verificar - maior parte deles andam vestidos com roupas e calçado semelhantes, todos têm telemóvel, frequentam as mesmas redes sociais, jogam os mesmos jogos, transmitindo-lhes uma sensação de nivelamento horizontal naquilo que são as suas condições de vida e, também, de origem. Eu até entendo que isso é democrático e será benéfico para o seu equilíbrio emocional e social, mas ao mesmo tempo, impede-os de identificar as enormes assimetrias potencialmente existentes entre eles, seja no poder de compra, seja no conforto das suas casas, seja na alimentação, enfim, nos diferentes extratos económicos da sua origem.
Lamento, não somos todos iguais, não viemos todos do mesmo lugar e nunca alcançaremos os mesmos objectivos, desejos e ambições. Quem realmente manda nisto tudo conseguiu, de forma eficaz, espectacular e duradoura, manter-nos entretidos a lutar pelas côdeas do trigo, enquanto os seus interesses estão a salvo e a render. Houvesse mais consciência de classe e, provavelmente, o mundo seria mais justo e equilibrado.
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