25 novembro 2023

ociosos voluntários

Há muito que nutro um fascínio pelos desocupados crónicos, perenes ou vitalícios. A primeira memória que preservo é a dos indigentes nómadas que deambulavam por Trás-os-Montes, neste caso pelas terras de Vinhais e Bragança, e que, a espaços não definidos, apareciam pela aldeia, apenas de passagem ou para ficarem alguns dias e noites. Desses relembro os rostos e os nomes do Bino, do Piralhas e do Laribau, todos já desaparecidos, mas que permaneceram no imaginário colectivo e também no meu.
Vivendo na cidade, apercebo-me que nas voltas do quotidiano cruzo-me com algumas personagens que aparentemente vivem numa ociosidade permanente e cuja única ocupação diária é percorrer os vários espaços de socialização, como cafés ou tascas, supermercados, paragens de autocarro ou estações de comboio, portas dos comércios ou até em determinadas esquinas, onde se detêm à conversa com amigos e conhecidos, bebem um copo ou fumam um cigarro.
Um dia gostaria de fazer algo acerca destes indivíduos. Não sei se histórias ou percursos de vida, se questionar as suas opções vs não-opções de vida, se apenas e só meras inspirações para exercícios de escrita, outra qualquer abordagem. Ou, às tantas, nada. Apenas continuarei a passar por eles e a projectar na mente todo um imaginário acerca das suas vidas.

22 novembro 2023

"ler ou não ser, eis a questão"

Afonso Cruz é um dos colaboradores assíduos do Jornal de Letras (JL), único jornal em papel que actualmente compro, e é um dos textos que espero sempre, pois regularmente me surpreende e me inspira para, vá-se lá imaginar, a produção de etnografias e antropologias. Por exemplo, um dos sub-capítulos de trabalho que, espero, em breve será publicado, surgiu da leitura de uma das suas crónicas neste jornal.
O título deste post é ipsis verbis o nome da última crónica de Afonso Cruz no JL e nela discorre sobre a importância da leitura e, ao mesmo tempo, da dificuldade que é cativar para essa leitura. Na impossibilidade de transcrever todo o texto, deixo algumas passagens:

"Como fazemos os adultos lerem mais? Como fazemos os jovens lerem mais? Como se formam leitores? Tudo isto revela algo sobre a própria natureza da leitura, cujo problema está na essência e não na política, ou no modo como ela, a leitura, é incentivada."
[...]
"A leitura normalmente não tem uma gratificação imediata, contraria as nossas características gregárias, isolando-nos dos outros e do mundo, impondo algum silêncio, exigindo atenção e concentração."
[...]
"A leitura não é naturalmente apelava, mas tem uma importância superlativa. A dificuldade, claro, é demonstrar a potenciais leitores que aquela pessoa sentada numa cadeira, em silêncio, alheada do que a rodeia, está a ter uma experiência gratificante, bela ou transformadora."
[...]
"É realmente difícil fazer passar a ideia inacreditável de que uma pessoa parada, debruçada sobre um livro, está a ter uma experiência emocionante, espectacular, capaz de lhe mudar a vida."
Afonso Cruz, in Jornal de Letras nº 1386, Novembro 2023.

21 novembro 2023

latu sensu

Quando constatamos que ficamos satisfeitos apenas com uma "sopinha" ao jantar, é certo que estamos já no trilho que nos levará até ao fim.

18 novembro 2023

a verdade

"O gosto da verdade a todo o custo é uma paixão que nada poupa e a que nada resiste. É um vício, por vezes um conforto ou um egoísmo."
Albert Camus, in A Queda (1956: 50)

15 novembro 2023

exercícios de escrita

A leitura de um pequeno texto de Humberto Martins, numa colectânea de textos intitulada "Exercícios de antropologia narrativa" (2022), remeteu-me para o universo rural ao qual eu me sinto pertencer. De facto, a sua "Lucinda" é uma personagem que eu reconheço em tantas e tantas mulheres que eu trago na memória e com as quais vivi, convivi ou apenas conheci. Por outro lado, este texto, aliás, todo o livro, reforça a minha percepção da importância da escrita etnográfica "livre" sobre os terrenos e indivíduos que vamos encontrando. Sempre gostei dessa escrita e considero-a muito rica e até seminal para as leituras antropológicas. O texto "Lucinda" é um bonito texto que me inspirou.

28 outubro 2023

na volta do correio, de ontem

vou LER

20 outubro 2023

medo ou hesitação

Sem ter ainda encontrado o caminho que quero seguir, estarei eu indeciso ou hesitante, ou será o medo que me tolhe o discernimento e me assusta de tal forma que não consigo atinar com o trilho que me atraia e cative e pelo qual não hesitarei em escolher e desbravar aquilo que houver para descobrir e conquistar?

13 outubro 2023

12 outubro 2023

inteligência artificial e consciência

"Enquanto a IA não for vulnerável à dor, ao frio, ao terror e à fantasia, não será IA suficientemente inteligente. Apenas simula. Não pensa. E sem alegria, não há poesia. Sem poesia, não há consciência. A consciência é a última fronteira entre a Máquina e a Humanidade?"
Teresa Nicolau, in Jornal de Letras nº 1382, Setembro/Outubro 2023.

11 outubro 2023

alterações do clima, protestos pueris

Muito me tem espantado as reacções de todos aqueles que, confortavelmente instalados e a contribuir para o agravamento da situação, se têm insurgido e indignado pelos protestos dos jovens activistas ambientais, adjectivando-os de ingénuos e ignorantes. 
Meus senhores, não haja ilusões que alguma alteração relevante vá acontecer nos próximos tempos se dependermos dos vossos esforços e atitudes. Não estais disponíveis para qualquer mudança que prejudique o vosso conforto e modo de vida e, por isso, não compreendeis as atitudes e a visão do mundo dos mais jovens. Está visto que se dependermos daqueles que usufruem e mais dispendem dos nossos recursos naturais, o paradigma jamais se alterará. Precisamos de mais juventude, de mais protesto e de maior confrontação com o sistema que dita as leis com as quais destruímos a nossa casa comum. 
Meus senhores, o vosso horror com a tinta atirada ao ministro ou contra as montras de empresas, com as estradas cortadas ou com as correntes humanas, não será nada se comparado com aquilo que é necessário fazer. Revolução! e sem hesitação.

alterações do clima, raio de ideia

Estamos em meados de Outubro e mais parece que estamos em Junho ou Julho. Estou em casa e o termómetro marca 28 graus, saio para a rua e não se consegue estar ao Sol, vejo toda a gente desnudada e, ainda assim, abafada e transpirada com o calor que se faz sentir. E estamos em meados de Outubro. Outubro, o tal mês de Outono, dos tons quentes, das ventanias e dos primeiros calafrios invernais.
Espreitamos as notícias que nos chegam de todas as latitudes e longitudes, mais do mesmo, quer dizer, desequilíbrios climáticos extremos, manifestados por fenómenos anormais, tais como dilúvios de água ou infernos de fogo.
Mas não importa. Ninguém ou quase ninguém quer saber, tudo está bem e o que importa é manter a máquina do trabalho, do investimento, do lucro, do desenvolvimento e do progresso em marcha. Continua a não se olhar a meios para se atingir os fins. Fins esses que teimosa e estupidamente os poderes acreditam ser infinitos e até eternos. Engano ou mentira. Na verdade, esses poderosos sabem o precipício para o qual nos empurraram, mas o seu egoísmo é tal que não querem saber que mundo lhes vai sobreviver, ou se vai sequer haver mundo depois deles. Haja o que houver, o saque e a exploração dos recursos naturais e humanos têm que permanecer até ao esgotamento total.
Impressiona-me este caminhar consciente da humanidade para o cadafalso. São poucos e "loucos" os que lutam contra esses moinhos de vento. Triste fim nos espera.

02 outubro 2023

actas edição 25 das jornadas culturais de Balsamão


Apresentadas no passado dia 29 de Setembro, no decorrer da vigésima sexta edição das jornadas culturais, e com uma impressão mais cuidada e a cores por se tratar dos vinte e cinco anos ininterruptos destas jornadas. Aqui faço uma pequena reflexão sobre os possíveis futuros deste evento.

26 setembro 2023

aguarela


Tenho esta aguarela emoldurada e exposta numa parede de casa. Já tem uns anitos, mas continuo a gostar dela e da paisagem que retrata e eu reconheço. Foi pintada pela Ia e vai permanecer por perto. Estou a tratar de a fazer perdurar para lá da minha existência.

21 setembro 2023

insofismável

"O desfecho histórico de qualquer choque entre deuses foi determinado por aqueles que empunhavam as melhores armas e não por aqueles que possuíam os melhores argumentos."
(Berger e Luckmann, in A construção Social da realidade, 2004:117)

15 setembro 2023

O melindre dos ilustres trinta e sete

Esta notícia saiu ontem, dia 14, no jornal Público e, quase de imediato, me motivou a escrever o texto que se segue. Depois, fui contactado para ceder o texto para uma petição a apresentar ao executivo da Câmara Municipal do Porto, o que aceitei com a condição de ser subscrita apenas por trinta e oito "não-ilustres". A ver vamos.




O sobressalto cívico ao ler a notícia da edição de hoje do jornal Público - “Estátua de Camilo deve ser removida após petição que invoca questões de gosto e moral” de Lucinda Canelas, não poderia ser maior. Então porque há trinta e sete indivíduos que não gostam de uma obra colocada num espaço público da cidade, o Presidente da Câmara Municipal decide, unilateralmente, retirá-la e remetê-la ao pó e ao esquecimento dos depósitos municipais?
Estamos, de facto, perante mais uma manifestação de um poder discricionário e arbitrário que não revela mais do que o tique da soberba elitista que gere e governa os destinos do município. Não importa quem são os trinta e sete signatários de tal petição, na medida em que se tratando de uma petição entregue na Câmara Municipal, ela carece de representatividade na manifestação de uma proposta, reclamação ou indignação da população do município. Quantas petições não terão sido já entregues na autarquia com bem mais signatários que não mereceram qualquer atenção do executivo e do Sr. Presidente? Mais, pelo que se percebe da notícia, a petição não foi merecedora de debate em sede de Assembleia Municipal ou, sequer, de executivo, apenas uma decisão de “mande-se retirar” porque há trinta e sete “tão ilustres cidadãos” que a consideram um “desgosto estético” e uma “desaprovação moral”. Tanto haveria a dizer sobre a tormenta e o constrangimento destas trinta e sete almas por causa da referida estátua, mas aquilo que importa é, uma vez mais, a atitude sobranceira de Rui Moreira. A autarquia, num determinado momento, promoveu ou apenas aceitou a instalação deste monumento escultório da autoria de Francisco Simões, o que significou liberdade de expressão e de criação para um artista. Trata-se de uma representação, de uma abstracção e não, como garante o autor, de um retrato de Ana Plácido ou de Camilo Castelo Branco. Citado nesta peça, o mesmo afirma que “cada um tem direito à sua interpretação, à sua subjectividade. Não tenho a pretensão de agradar a todos. A unanimidade em arte não existe.” Reforçando esta ideia de Francisco Simões, mau, muito mau sintoma é quando assistimos a unanimidades culturais. Por outro lado, o gosto individual - o meu, o teu, o dele e o do presidente da autarquia - não deve ser critério para escolhas ou decisões políticas e de gestão autárquica. Parafraseando os signatários desta peculiar petição eu diria que “favor higiénico” para a cidade e seus cidadãos seria respeitar a diversidade e a criatividade das manifestações artísticas e culturais. O “gosto estético” e a “aprovação moral” devem-na reservar para os espaços próprios, privados e íntimos, onde, aí sim, nem sequer são necessárias petições ou signatários.

12 setembro 2023

falar e escrever o outro

"Antropologia é vida, diz-nos Ingold, convidando-nos a pensar desde uma epistemologia inclusiva que nos 'deveria' obrigar a pensar a realidade conjugada num gerúndio incompleto, processual e circunstancial. Afinal, durante o trabalho de campo (em rigor, em qualquer investigação que implica relação entre pessoas) há pessoas que se encontram e que tentam fazer sentido uma da outra sem que necessariamente tudo caiba dentro das categorias de entendimento comuns. [...] Os textos académicos 'matam' os sujeitos como pessoas de carne e osso, objectivando-os e adjectivando-os segundo grelhas que reduzem tanto de tanta vida e de tanta coisa que fica para contar e que é merecedora de ser contada. [...] Falar menos de alguém porque é de um lugar, de uma cultura, de uma sociedade e falar mais com alguém que também faz um lugar, uma cultura e uma sociedade. E falar a partir de uma possibilidade de tornar essoutros, que muitas vezes nos chegam diluídos em categorias analíticas, em interlocutores de carne e osso que tornam os antropólogos tão humanos quanto eles, tão humanos quanto nós."
Humberto Martins, in prefácio de exercícios de antropologia narrativa, 2022 - pp. 11 e 12.

05 setembro 2023

01 setembro 2023

consciência rural vs urbana

O antropólogo franco-brasileiro Júlio Sá Rêgo dedicou-se a percorrer as serras do Norte de Portugal e os trilhos e caminhos do pastoreio de cabras e ovelhas. O resultado desse esforço é este pequeno livro que, aproveitando este final de Verão à beira-mar, li de um fôlego só. Por ambientes que reconheço e me são familiares, este trabalho deverá ser entendido, acima de tudo, como um grito de alerta para a situação precária e, nalguns contextos, em vias de extinção destas raças ovinas e caprinas, assim como do modo de vida de muitos indivíduos e suas famílias. O despovoamento do interior do país resulta também desta triste realidade, desconhecida da maioria da população. A quem se interesse por estes universos, reais e anti-distópicos, aconselho a sua leitura.


"Populações rurais têm a consciência dessa sua relação com o ambiente, elas o habitam, enquanto populações urbanas apenas o ocupam. A cidade vive em dicotomia com o ambiente que se torna um mero receptáculo de vidas ocupadas e de infra-estruturas acimentadas; no rural a consciência é de que as trajectórias de vida estão interligadas ao ambiente. [...] O vínculo com o lugar é uma das especificidades da identidade camponesa." (páginas 120 e 121)