18 abril 2011

as minhas vacas, ou uma conversa de merda

Depois de almoço e durante um par de horas, na taberna, agora café do Lexinho, estive a jogar à Blota – jogo de cartas consignado a duas ou três aldeias e que um dia eu ainda hei-de trabalhar, depois disso e enquanto acabava a última Superbock, estive à conversa com alguns conterrâneos mais velhos. É sempre um prazer ouvir esta gente, as suas histórias, as suas aventuras, as suas vidas, as suas mágoas, enfim, as suas memórias. Falava-se de vacas e outros gados e do seu progressivo desaparecimento da paisagem da aldeia. Outrora foram às centenas, depois às dezenas e por fim, antes do seu total desaparecimento, apenas algumas unidades. Hoje não existe uma única vaca em toda a aldeia. Esta gente fala-me com notória nostalgia e saudade desse tempo, em que a aldeia tinha mais animais e, também, mais gente. Eles bem sabem que a vida era dura e mais difícil do que a de hoje, mas percebo-lhes a preferência por esse outro tempo. A propósito dessa convivência diária com os vários gados, recorda-se a imundice permanente das bosteiras, especialmente no Inverno, nas ruas e canelhas da aldeia – parece que estou a sentir o cheiro intenso das bostas de vaca a fermentarem no calor do pino do Verão, ou a ver-me, no Inverno, a caminhar pela aldeia, saltitando nas pontas dos pés, para evitar a merdice lamacenta. Relembra-se também a importância que tinham essas bosteiras para algumas das actividades agrícolas, tais como estrumar as terras e malhar o pão -nas eiras onde se malhava o trigo e o centeio. Por essas alturas, os mais velhos mandavam os miúdos, munidos com pás e carretas, procurarem pela aldeia as bosteiras frescas (recém-defecadas), recolherem-nas e trazerem-nas para as eiras, onde eram espalhadas, de forma a forrar o chão. Deixava-se secar e então depois podiam os homens malhar as espigas de cereal. Os grãos ficavam presos na bosta, os cuanhos e as palhas esvoaçavam, depois bastava varrer… Por fim, demos por nós a recordar alguns dos nomes dados às vacas. Não havia uma vaca que não tivesse um nome próprio. Um e outro iam recordando os nomes que, ao longo da vida, foram dando aos seus animais e o que é certo é que esse nome permitiu-lhes guardar na memória algumas das características desses animais. A atribuição de um nome a uma vaca serviria não só para as distinguir, como também para o próprio diálogo entre o lavrador e as suas vacas. Dizem-me que elas reconheciam o seu nome e respondiam a esse estímulo. A verdade é que a lista de nomes possíveis é imensa e a atribuição era sempre feita enquanto vitelas, sendo da exclusiva responsabilidade dos seus donos. Pontualmente, eram as crianças dessa casa quem escolhia o nome dos seus animais. Quando havia a compra ou venda de vitelas ou de vacas, uma das preocupações era conhecer e manter o nome que o anterior dono atribuia a esse animal. A escolha do nome obedecia em muitos casos a características físicas (ruiva, clara, amarela, morena, menina, roliça), ou temperamentais (castiça, malandra) do animal em questão, noutros casos a escolha era feita por relação com a época do ano em que nasceram (cereja, laranja, castanha), noutros casos ainda acontecia dar-se o mesmo nome da progenitora, ou de uma outra vaca de boa memória que esse lavrador tenha tido. Convém recordar que o sustento de cada casa, de cada família, dependia fortemente da sorte e saúde dos animais de trabalho. Normalmente, na mesma casa não havia vacas com os mesmos nomes. Este exercício de memória realizado por estes lavradores, traz-me à memória alguns momentos da minha infância, em que também eu convivia com esses animais e conhecia pelo nome as vacas da família. Momentos inesquecíveis de “ir” com as vacas para o lameiro, ou conduzir um carro-de-bois, ficarão registados para sempre. Agora que penso nisso, recordo com especial carinho a Cereja, uma vaca corpulenta, escura e temperamental, mas muito trabalhadora. Aproveitando o bom tempo que teremos pela frente, aqui está uma imaterialidade engraçada que irei estudar com mais atenção e trabalhar com cuidado redobrado, no meu futuro próximo. Boa.
(Ao alto, um belo par de exemplares da raça mirandesa, a trabalhar algures no Parque Natural de Montesinho.)

16 abril 2011

solilóquio

Tu sorris e o teu sorriso irradia até mim. Tu ficas pensativa e eu, em pânico, sério me torno.

13 abril 2011

solilóquio

Com tanto para ler e reler para depois escrever e reescrever, gastar tempo com tricas e trucas intestinas e orgânicas apurria-me. Ser responsável e interveniente nesse cenário, deixa-me desgastado. No entanto, o situacionismo forçado, impõe-me a disposição necessária para esse activismo. Vamos lá.

11 abril 2011

bravo

Hoje cheguei a Bragança e reencontrei a minha criança, que tinha vindo uns dias antes para casa dos avós. Quando me sentei com ela, perguntando-lhe pelo que tinha feito, logo me quis mostrar as novidades, que segundo o seu juízo, são exclusivamente as novas "coisas" que lhe ofereceram. Mostrou-me várias bugigangas apropriadas para uma miúda de nove anos, mas mostrou-me também uma revista Bravo, versão portuguesa, que pedira à Avó. Nesse momento fiquei incomodado, uma vez que me lembro perfeitamente de também a ter comprado na minha, cada vez mais longinqua, adolescência. Nunca me passara pela cabeça que os jovens de hoje, em Portugal, ainda se sentissem atraídos por esta publicação, cuja origem, se não estou em erro, era e é alemã. Muito menos imaginei que mesmo em Português esta revista atraísse crianças e pré-adolescentes. No meu tempo, que aconteceu na segunda metade da década de oitenta, apenas existia em Alemão, portanto, bem se pode perceber que apenas nos interessavam as imagens, os posters e uns pequenos autocolantes que colávamos nas capas da escola. São vagas as memórias dos seus conteúdos, mas recordo bem uma secção, que presumo, seria de sexologia e onde algumas imagens a cinzentos nos permitiam ver alguns pares de mamitas desnudadas. Que excitação, meu deus...

adenda - Ao escrever este texto, senti-me tal e qual o Nuno Markl na sua rúbrica Caderneta de Cromos. Tenho quase a certeza que ele já falou do cromo "Bravo". O que disse já não recordo, mas tal como eu, também ele na sua adolescência foi um assíduo cliente.

10 abril 2011

verbo, polarizar

Aquilo que está a acontecer em Portugal é muito triste e perigoso. Nunca como nos dias de agora se assistiu a tamanha campanha de difusão ideológica, tamanho esforço por mentalizar as "massas" para a inevitabilidade do projecto neoliberal e tamanha concertação opinativa nos média. O esforço é comum: fazerem crer que a intervenção do FEEF e do FMI é solução única para resolver os problemas financeiros actuais da nação. É MENTIRA. Foram já várias as opiniões defendendo outras soluções menos penosas para o país e seus cidadãos - é preciso saber qual é a verdadeira dívida; é preciso saber quem pagará que parte dessa dívida. Por outro lado, é patente o receio que as entidades europeias e outras manifestam relativamente ao resultado das eleições em Portugal. Por isso querem acordo pré-eleitoral e por isso impõem pressão sobre os responsáveis políticos nacionais. Vejam até onde já chegou o pânico quando se subscrevem documentos como este, que se intitula de "Um Compromisso Nacional"...
Num tempo breve, como aquele que teremos até às eleições legislativas impõe-se uma polarização séria, clarificadora e bem visível entre aqueles que defendem o "bloco" FMI e aqueles que defendem o "bloco" anti-FMI. Será a intervenção do FMI o elemento que separará aqueles que aceitam a bancarrota do país e aqueles que acreditam e defendem uma alternativa credível de governação à esquerda e que permita aos portugueses a soberania de dizer que NÃO. Será esse o esforço, será essa a luta, para mim também.

07 abril 2011

FMI e o Estado de Excepção

“A ideia é destruir o que tem sobretudo valor de uso e favorecer a apropriação privada, a preço de saldo, do que tem valor de uso e muito valor de troca.” João Rodrigues

A anunciação de um pedido nacional para uma intervenção externa (curioso como alguns teimam em chamar-lhe ajuda…) da FEEF e do FMI não terá sido propriamente uma surpresa para a maioria dos portugueses. A dúvida que poderia restar seria o timming dessa iniciativa, o que nos obrigou a viver os últimos meses numa espécie de limbo existencial, misto de ansiedade e de suspensão pelos dias que hão-de vir, num futuro próximo.
É disparatada, quanto a mim, a teimosia dos média em estabelecer comparações económicas e sociológicas com aquilo que aconteceu ao país em 1983, aquando da última intervenção externa do FMI, pois não me parece razoável comparar o Portugal de então com aquele que hoje somos. Também não me preocupa serem “outros” a fazer aquilo que “nós” não soubemos fazer. Aquilo que me preocupa é saber como poderão sobreviver os portugueses à pressão deste torniquete transnacional, que transforma os indivíduos em números e, por isso, insensível é aos seus problemas e às suas condições de vida. Nesta lógica, não importará até quando e até onde nos vão retorcer para conseguirem aquilo que já há muito procuram.
Convém não esquecer que se aqui chegamos é porque fizemos determinado caminho. Caminho esse que percorremos, alegres e sorridentes, mas ignorantes do verdadeiro sentido e objectivo daqueles que nos conduziam por aí. Não terá sido por falta de avisos e alertas de alguns eminentes especialistas, entretanto enxovalhados na praça pública e mediática, nem por falta de democracia que os portugueses teimaram em eleger os mesmos de sempre para nos governar. Tal como alguns afirmam, teremos aquilo que merecemos, mas não sejamos inocentes, pois não esteve propriamente nas mãos e nos votos dos portugueses a possibilidade de arrepiar caminho e escolher outro destino que não este. Senão vejamos:
A escalada globalizante acompanhou a apropriação da palavra “globalização”, que, supostamente, deveria explicar a dialéctica fragmentação/globalização. Esta palavra veio directamente das teorias japonesas da gestão pós-fordista e, inicialmente, começa por ser utilizada pelos especialistas de marketing para designar a segmentação dos públicos-alvo ou a divisão de grandes segmentos transfronteiriços de comunidades de consumidores com os mesmos sócio-estilos, os mesmos modelos de consumo. Foram os “evangelistas do mercado” e os think tanks neoliberais, tais como o Adam Smith Institute, em Inglaterra, cujo objectivo consistiu em desenvolver uma reflexão capaz de pesar sobre as políticas públicas, quem concorreram explicitamente para o sucesso da sociedade prometida pela “revolução neoliberal”, projecto de uma nova ordem em que o mercado se torna o principal árbitro de todas as transacções, quem trouxeram para primeiro plano um fascínio vanguardista pela figura do consumidor, relegando para planos inferiores a figura do cidadão. A doutrina do livre-câmbio da “soberania absoluta do consumidor” reconheceu-se no perfil de um telespectador que se tornou autónomo graças ao seu poder intangível de determinar o sentido dos programas.
A marginalização do cidadão pelo consumidor realizou-se à custa da interrogação sobre os agentes de produção, o mercado, o Estado e a decomposição/recomposição do Estado-Nação, mas também sobre o novo estatuto do consumo, cada vez mais integrado nas matrizes industriais do pós-fordismo. O consumo torna-se ele próprio em produção de informações para o produtor. A relevância que irá ser gradualmente atribuída ao termo “sociedade civil” exprime, igualmente, essa necessidade de uma “caixa-negra”, tapa-misérias de um vazio de problematizações. Mistificada como espaço liberto da diversidade, da pluralização das identidades fragmentadas, esta sociedade civil surge como antítese do Estado-Nação. Este culto da sociedade civil deslegitimou o próprio princípio de políticas públicas.
Finalmente o esforço neoliberal parece ter alcançado o seu fim (!?) com a desregulamentação total dos mercados, com o esvaziamento dos estados soberanos e com o despojamento da cidadania individual, naquilo que Giorgio Agamben (2010) designa de identidade sem pessoa. O mesmo autor tem razão quando afirma que as democracias ocidentais - a própria civilização ocidental contemporânea - criaram voluntariamente um estado de emergência permanente que, progressiva e metodicamente, tem vindo a despir de cidadania os seus indivíduos. Paradigma vigente desde então e até ao presente.
Mesmo perante a perspectiva bem realista de virmos a viver, durante um período ilimitado, num estado de excepção - com abolição ainda que provisória do poder legislativo e do poder executivo, num vazio de direito e numa zona de anomia onde a distinção entre o que é público e o que é privado é desactivada, onde a norma se tornará indiscernível da excepção e as liberdades individuais poderão ser suspensas – prefiro acreditar que a presença de forças estranhas e ilegítimas não determinará o nosso humilhante aprisionamento nesse estado de excepção.
Não posso terminar sem antes referir o ridículo que esta infeliz situação significa para todos aqueles que nos têm governado nas últimas décadas. É soberba a incompetência e é também magnífica a desresponsabilização desses ilustres intervenientes. E engraçado seria, se não demasiado triste e vergonhoso, todos eles não perderem a face e, qual imaculadas, apresentarem-se sempre impolutos e como fazendo parte da solução, outra e outra vez. Até quando vão os portugueses aturar isto?
(texto enviado para o Jornal Nordeste)

05 abril 2011

urbanidade

A propósito de alguns debates transmitidos pelas televisões nos últimos tempos, apercebi-me da utilização recorrente do termo "urbanidade", enquanto locução adverbial qualitativa, ou seja, "com urbanidade" dos seus intervenientes. Essa insistente verbalização incomodou-me, até porque não me era familiar e soava-me a anacronismo. Logo parti para os dicionários disponíveis e encontrei: "(do latim urbanitas), enquanto substantivo: qualidade do que é da cidade, da urbe, do que é urbano; diferente da ruralidade; delicadeza requintada, observação das boas maneiras no relacionamento com os outros, acompanhadas geralmente de finura e elegância na linguagem, distinção no porte, nas atitudes; Parecido com civilidade, cortesia, polidez; diferente grosseria, rusticidade. Enquanto adverbio, modo polido, delicado, atencioso."
Num tempo em que as ancestrais oposições entre o rural e o urbano se esbateram e em que assistimos a uma permeabilidade social e demográfica entre estes dois, cada vez menos, distintos "universos" parece-me que a utilização deste qualificativo se cingirá a uma qualidade essencialmente social, verificável numa espécie de esteticismo social com certo sabor a dandismo, bem característico de determinados ambientes urbanos e com laivos de elitismo ou pseudo-elitismo. Considero assim que a atribuição desse virtuosismo não poderá ser um exclusivo desse reduto da condição urbana e ofenderá todos os demais.

04 abril 2011

a LER

02 abril 2011

desejos e placebos

Agora que tentamos habituarmo-nos à nova realidade demográfica (e sonora) familiar e quando atento no interesse, na curiosidade e no cuidado com que a irmã olha para o recém-chegado irmão, relembro o longo caminho, ou pelo menos partes desse percurso que foi necessário fazer para aqui chegarmos.
Depois de um período de nojo a criança retomou o discurso reinvindicativo em relação ao seu direito, e nossa obrigação de pais, de ter um irmão ou uma irmã. A sua persistência tem sido vigorosa, principalmente junto da mãe, a quem diariamente tem perguntado se já está grávida e/ou porque não está ainda.
Em tempos, a mãe tentando dar a resposta adequada à clássica pergunta da inocência infantil, resolveu dizer-lhe que se engravida tomando um comprimido. Desde então, e agora particularmente, a pergunta é diária:
- Já tomaste o comprimido?
- Não, ainda não. Tenho que ir à farmácia comprá-lo.
- Então vamos lá. Quando vamos?

E assim a mãe foi conseguindo adiar a tomada de tal comprimido. Acontece que nos últimos dias a miúda regressou violenta e expressivamente ao assunto e, neste último fim-de-semana, "obrigou" mesmo a mãe a tomar o milagroso comprimido. Como sabia (a mãe tinha-lhe dito) que a toma era feita antes de dormir, não adormeceu enquanto tal não aconteceu. Num estado eufórico e ansioso, deitada ao lado da mãe, chamou-me para ir buscar o comprimido. Eu e a mãe, cúmplices neste engodo, trocámos olhares embaraçados, como quem não sabe como proceder...
Lá fui à busca de algo que a mãe pudesse simular ingerir. A escolha racaiu no anti-inflamatório Voltaren. Regressei ao quarto com o dito comprimido e um copo de água. Fora de sí, a criança controlava bem de perto todos os movimentos. Não havia qualquer hipótese de a enganar e a mãe teve mesmo que meter à boca o comprimido, ao qual juntou um pouco de água. Depois disto a criança agarrou-se à barriga da mãe e encheu-a de beijinhos enquanto dizia que já estava... virei costa e sorri, certo que a mãe tinha retido a dragueia algures na boca e não o tinha ingerido. Puro engano. Ela ingeriu-o mesmo e com isso ficou agoniada o resto da noite. A miúda depressa adormeceu a seu lado, concerteza certa de missão cumprida e, quiçá, a sonhar com a barriga da mãe a crescer e com as brincadeiras que um dia fará com seu irmão ou sua irmã.
Agora, nova missão pedagógica, explicar-lhe que nem sempre o comprimido dá resultado.

01 abril 2011

sectarismo verbal

Não gosto de ouvir e ler os políticos e os arautos da opinião publicada referirem-se aos portugueses utilizando o substantivo colectivo "o povo". Prismaticamente, soa-me sempre a desprezo social. A sua pronunciação traz sempre uma carga simbólica pejorativa enorme e é soberbo o plano inclinado de quem assim fala. Afinal, quem vota não é o povo, são os indivíduos portugueses enquanto cidadãos de Portugal.

31 março 2011

aniversário

I think I was once
I think we were

Your milk is my wine
My silk is your shine
(Jim Morrison)

escritos para ti... (primeiras linhas)

Meu querido,
Ainda nem sequer te conheço e já escrevo para ti. Falta muito pouco para nasceres e a ansiedade vai tomando conta de mim, de nós. Decidi fazer este registo para que, um dia e de alguma forma, possas conhecer o ambiente e os sentimentos daqueles que te irão receber e acompanhar durante parte da tua vida. (...) Tens uma irmã mais velha que esteve este tempo todo muito ansiosa e expectante. Tem para ti uma quantidade de presentes e surpresas que foi preparando nestes últimos tempos. Irá dividir contigo o quarto, o que aceitou com relativa boa vontade, mas desconfio que quando vieres a ocupar o teu lugar, rapidamente ela mudará de opinião e reclamará a independência do seu espaço. (...)
Estás prestes a nascer e aquilo que me preocupa é que o teu primeiro sopro na vida seja um momento bom. Estou feliz e não trocaria este meu presente por qualquer outro.
Do teu pai.

inside job

Acabei de ver este filme-documentário e estou indignado. Como puderam, podem, meia-dúzia de espertos brincar com a vida de milhões de cidadãos e, depois de desregularem financeiramente e especularem até ao tutano os mercados, saírem incólumes, ilibados e ainda mais ricos. É revoltante. Dá vontade de partir completamente para a ignorante violência. E agora apelam-nos à compreensão e ao esforço para ultrapassar a "crise". Badamerda.

28 março 2011

compras e ofertas recentes

- Jacob, João e Alves, Victor, 2010, Bragança - roteiros repúblicanos, Bragança, Quidnovi (oferta);
- Murcho, Desidério, 2011, Filosofia em Directo, Lísboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Mendes, Fernando Ribeiro, 2011, Segurança Social - o futuro hipotecado, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos;
- Actas Colóquios da Lusofonia, 2007, Bragança, Câmara Municipal de Bragança (oferta);
- Beattie, John, 1999, Other Cultures, Londres, Routledge;
- Dentinho, Tomaz e Rodrigues, Orlando, 2007, Periferias e Espaços Rurais - comunicações do II congresso de estudos rurais, Estoril, Princípia Editora;
- Hessel, Stéphane, 2011, Indignai-vos!, Carnaxide, Objectiva Editora;
- Bourdieu, Pierre (org.), 1997 (7ª edição), A Miséria do Mundo, Petrópolis, Editora Vozes;

colo

Tenho em casa um recém-nascido com nove dias de vida. Neste tipo de reclusão a que nos submetemos e em que temos vivido, ele tem sido o nosso sol. Para além dos momentos parafernálicos - mamar, fraldar e banhar, passa o seu tempo a dormir, o que faz com real prazer e tranquilidade, principalmente, no colo de alguém. Tenho passado horas com ele no meu colo, com satisfação por poder admirá-lo e, ao mesmo tempo, por não me impedir de fazer aquilo que tenho/quero/gosto, como agora enquanto escrevo estas linhas. São muitas as advertências e os avisos para não o habituarmos ao colo, porque faz-lhes mal e depois eles não querem outra coisa. Mal faz-lhes não terem carinho e a nós, não os poder acarinhar. E eu, a tudo isso, faço ouvidos moucos, pois gosto é de o ter no meu colo e sempre que puder assim vai estar.

25 março 2011

solilóquio

A nova vida trouxe-me vida nova. Estupidamente caótica. O desencontro com o tempo tem sido tal que não consigo atinar. Vivo assim estes dias num estado alterado de consciência e nem a cafeína e as outras drogas me conseguem valer. Até quando?

24 março 2011

epitáfio do tamanho de Portugal

Desconfiava que iria escrever estas palavras em breve. Não sabia o dia, é certo, mas desde o discurso de Cavaco Silva na tomada de posse deste seu segundo mandato na Presidência da República, que sentia que todos, incluindo o próprio e suas hostes, pretendiam por um ponto final nesta longa e martirizante agonia nacional. Curioso, Sócrates sai pelo seu próprio pé, tal como já fizera o socialista António Guterres. Parece ser este um "fado" socialista... Abrindo assim a porta da rua, Sócrates leva com consigo, e ainda bem, toda a comandita pária e acrítica, que se instalara há largos anos e que já se servia da coisa pública com direito e pertença, como se lhes estivesse destinado ad eternum tais direitos e regalias.
Neste virar de página, motiva-me escrever umas palavras acerca daquilo que considero ter sido a governação socialista, personificada neste personagem principal bipolar, que em boa verdade nunca conseguiu merecer a total confiança dos portugueses. Em seis anos de mandatos, com maioria e, depois, sem maioria, conseguiu desbaratar e desconstruir todo o património social, cultural e económico que, bem ou mal, tínhamos acumulado nas últimas três décadas. Não houve sector da sociedade portuguesa ou actividade económica com o qual o engenheiro Sócrates não conflituasse. No final de contas e fazendo um esforço de memória, de tudo aquilo que foi produzido e/ou introduzido na sociedade portuguesa sob a sua governação, sobrevive à minha sensibilidade toda a legislação relativa aos significativos avanços civilizacionais, e em particular, o acesso ao casamento de pessoas do mesmo sexo (género).
No fim de mais um ciclo, importará perguntar: Haverá algum português triste ou insatisfeito com este desfecho!? Haverá alguém neste país que voltará a acreditar no engenheiro Sócrates, ou mesmo no Partido Socialista!? Não sei, mas a sua (Sócrates) sobrevivência política dependerá, única e exclusivamente, da inteligência dos eleitores. Espero. Na sua lápide, o meu epitáfio político diria apenas que este foi o homem que decretou, e bem, a proibição de fumar em locais públicos fechados.

22 março 2011

wordscape

A palavra projectada no tempo e no espaço. Impressionante.

reorganização doméstica

Com a chegada do novo elemento é tempo de nos arrumarmos cá em casa. Este é o dia que marca o regresso às rotinas das fraldas e dos biberons. É tempo de prescindirmos do nosso tempo e espaço em favor do bem estar do rebento. Custará a habituar mas será um enorme prazer vê-lo crescer e desenvolver.

19 março 2011

a felicidade

Se existe e se é possível senti-la, então hoje é o dia em que isso me acontece. Todo eu sou felicidade. Idêntico sentimento aconteceu há muitos anos atrás, precisamente no dia 1 de Dezembro de 2001.

solilóquio

Na alvorada de um dia especial, a beleza da vida a nascer. No crespúsculo de um dia grande, o tamanho de uma vida toda. As nossas vidas.

18 março 2011

intersticial

Desde que descobri este pequeno recanto, tenho lá regressado amiúde para o contemplar e saborear. Repetidamente deste prisma, tenho passado horas em tranquila contemplação, silenciosa reflexão e, por vezes, profícua criação. Nesta paisagem conurbana do grande Porto podemos encontrar alguns caracteres estranhos à ainda predominante ruralidade e será, precisamente, essa tíbia invasão da urbanidade no espaço rural que me transmite o sentimento de perda e de esquecimento de todo um ambiente que transporto no meu imaginário. Muitos poderão considerá-la um hiato de espaço esquecido, ou um oásis paisagístico a prazo, mas para mim é apenas um lugar bonito e bucólico, onde não me importaria ficar. Assim neste intervalo.

Bucólica
A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caiadas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra duma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma Mãe que faz a trança à filha.
(Miguel Torga)

17 março 2011

a grande nobreza do estado

A recente notícia do pedido de demissão de Almerindo Marques da presidência do Conselho de Administração das Estradas de Portugal, cujas motivações e pormenores ainda não são conhecidas, mas que estará de alguma forma relacionada com indefinição do Governo quanto ao modelo de financiamento da empresa, conduz-me a memória para um texto de Pierre Bourdieu (1993) que a propósito da Demissão do Estado escreveu: são esses novos mandarins, gulosos por gratificações e sempre prontos a deixar o serviço público pelo sector privado, que - cansados de pregar o espírito de "serviço público" (para os outros), como nos anos 60, ou celebrar o culto da empresa privada, sobretudo após 80 - pretendem administrar os serviços públicos como se fossem empresas privadas, mantendo-se ao abrigo das obrigações e riscos, financeiros e pessoais, que estão associados às instituições cujos (maus) costumes procuram macaquear, principalmente em matéria de gestão do pessoal; são esses que, em nome de imperativos da modernização, atacam o pessoal da execução, como beneficiados da função pública, protegidos contra os riscos da livre empresa por meio de estatutos rígidos e agarrados à defesa corporativista das regalias sociais; são esses que vangloriam os méritos da flexibilidade do trabalho a não ser que, em nome da produtividade, preconizem a redução progressiva dos efectivos.
adenda: a este propósito poderiam também e ainda ser referidos outros digníssimos e ilustres administradores da coisa pública que, nos últimos tempos, foram notícia, tais como Horta e Costa (CTT), Júlio Santos (ex-presidente da Câmara Municipal de Celorico da Beira), Armando Vara (ex-administrador da CGD e Millennium BCP), José Penedos (ex-administrador da REN), entre tantos outros.

16 março 2011

doxósofos

Procurar estar actualizado obriga a um permanente acompanhamento da vertiginosa cadência informativa, o que acontece, fundamentalmente, através dos meios de comunicação social e, em especial, através dos canais de televisão. Ao percorrer os vários canais informativos não posso deixar de reparar que, nunca como nos dias de hoje, saturados estão de programação especializada, principalmente em política e em desporto. Não há um único dia da semana em que não haja uma panóplia de polifonias relativas a cada acontecimento da vida política e/ou desportiva nacional e/ou internacional. Não percebo como há espaço, como há audiências, como há financiamento e publicidade para tanta verborreia de spin doctors, opinion makers, politólogos e futeboleiros!?... ainda por cima quando grande parte desses pseudo-especialistas não vão além dos lugares-comuns e de aparentes manifestações de conhecimentos. Já Platão, há muitos séculos atrás, lhes tirou a pinta, designando-os doxósofos e definindo-os como técnicos de opinião que se julgam sábios e que para conseguirem notoriedade não hesitam em engalfinhar-se no espaço público. Assim é ainda hoje.

15 março 2011

preocupações

Primeira, para além da desgraça causada pelo sismo e consequente tsunami, a população japonesa e, depois, o mundo vêem-se agora confrontados com o eminente acidente nuclear em algumas das centrais nucleares espalhadas pelo território nipónico. Acredito que os responsáveis técnicos e políticos estarão em pânico perante os cenários horrendos e as consequências catastróficas possíveis decorrentes deste acidente. Para além de todos os riscos e problemas associados à implantação e existência destes complexos, parece-me razoável reflectir sobre a opção por este tipo de fonte de energia. Sempre que se debate acerca da existência ou não de energia nuclear em Portugal, deveriamos ponderar também estes cenários. Com outras fontes de tanto potencial energético, mais limpas e mais seguras, ainda bem que não existe energia nuclear em Portugal.
Segunda, é uma vergonha aquilo que temos assistido nas estradas nacionais, com os bloqueios dos camionistas. Podemos até estar de acordo com os seus problemas e com as suas reivindicações, mas não podemos tolerar que haja terrorismo nas nossas estradas. As notícias que nos chegam de piquetes de camionistas que intimidam e ofendem colegas de profissão que não têm a mesma opinião, não são possíveis num estado de direito. Esta intolerância e este radicalismo, para além de não serem dignos de uma democracia, revelam bem as bestas que são e confirmam a atitude estereotipada e ignorante que reina nos volantes dos pesados portugueses.

13 março 2011

estado: ansioso

Num dia por defeito calmo e propício aos vagares da vida, estou ansioso. A verdade é que esta contagem decrescente, principalmente nestes últimos dias, tem sido um martírio. O tédio ocupacional potência a ansiedade. Querer que o tempo avance célere, mas ele, teimoso, resiste e prossegue o seu ritmo a vinte e quatro horas por dia. Mesmo sendo um Domingo, por mais que me tente abstrair de certos e determinados pensamentos, não consigo. São fortes e mantêm-se latentes o tempo todo.

12 março 2011

manifestação no porto

...afinal, são muitas as gerações à rasca...

verbo, indignar

"A minha longa vida deu-me uma série de motivos para me indignar."
Li pela primeira vez aqui acerca deste pequeno livro de Stéphane Hessel. Fiquei curioso e esta manhã (só podia ser esta manhã...), aproveitando um café no Fórum da Fnac, procurei-o e rapidamente, mesmo antes de o pagar, o li, sublinhei, rabisquei e reli. Dividido em três partes distintas - prefácio de Mário Soares, o manifesto do autor e, por fim, um posfácio do editor com nota biográfica do autor. Este homem, para mim completamente desconhecido, é um verdadeiro compêndio da história do século XX. Por favor não deixem de ler o apelo "a uma verdadeira insurreição pacífica contra os meios de comunicação de massas que só apresentam como horizonte à nossa juventude uma sociedade de consumo, o desprezo pelos mais fracos e pela cultura, a amnésia generalizada e a competição renhida de todos contra todos".

11 março 2011

a propósito da geração à rasca...

Interessante texto de opinião, hoje no Jornal Público. Desculpem-me os rabiscos egoístas... (vícios).

solilóquio

Não sei explicar muito bem porquê, mas hoje sinto-me estranho. Não sei explicar muito bem o quê, mas hoje sinto-me metrossexual...

precariedade

Sente-se um enorme burburinho na sociedade portuguesa em relação às manifestações que se irão realizar amanhã em várias cidades portuguesas. Esta é a primeira manifestação organizada, estruturada e convocada a partir das redes sociais em Portugal e, talvez também por isso, está o país expectante em relação à capacidade e ao sucesso dessa mesma convocatória. Para além da particularidade das redes sociais, esta manifestação tem por fundamento a degradante condição social e económica em que as gerações mais jovens vivem e a sua participação será um acto de participação cidadã, de indignação contra essa condição e de censura às políticas que os governos impuseram e que, consequentemente, nos trouxeram para esta realidade. É, concerteza, por isso que os costumeiros arautos do situacionismo, do alto do seu conforto social e da sua estabilidade económica, não se conformam com este "atrevimento" dos mais novos. Por outro lado, agrada-me a ideia de se tratar de uma manifestação política, mas apartidária, apesar de alguns partidos terem já manifestado a sua intensão de se fazerem representar. Esperemos que assim se mantenha e se concretize. É bom saber que os jovens de hoje não correspondem aos estereótipos e reagem aos pré-conceitos nomeados pelas gerações mais velhas e, essas sim, acomodadas.
Também eu estou com elevadas expectativas em relação ao dia de amanhã. Lí o manifesto e concordo com as posições assumidas pela organização. Não estou à rasca, mas muito provavelmente por considerar que a minha condição nunca foi além dessa mesma precariedade, vou participar na manifestação de amanhã na cidade do Porto.

10 março 2011

moção de censura

Eu gostava mesmo que a moção de censura que o Bloco de Esquerda apresentou e que hoje será discutida e votada na Assembleia da República fosse aprovada. Apesar das conhecidas e pré-anunciadas posições do PSD e do CDS, a conjuntura degradante e humilhante da economia e das finanças nacionais e o próprio discurso do Presidente da República, de ontem, na sua tomada de posse, permitiriam aos partidos da direita votarem favoravelmente esta iniciativa do BE e assim, não só clarificar definitivamente a situação política, como arredar do poder, por muitos e longos anos, este PS. É sabido, está visto e percebe-se a cada sopro de vida que este governo agonia e definha. Acabemos com o seu sofrimento.

08 março 2011

do pior que me podem pedir

"Estimado Luís Vale,
Espero que esteja tudo bem contigo. Era para te pedir que reduzas o texto da FAAEE para 32.000 caracteres com espaços, de acordo com as normas do congresso. Actualmente tens 50.000.
Um abraço, "

carnavais

Como se diz: "É Carnaval, ninguém leva a mal", eu aproveito para dizer que não percebo como se gasta tanto tempo e dinheiro com esta festa. Será, apesar da sua diversidade, praticamente um dado universal. Considero legitimo e até importante que os indivíduos e as comunidades queiram manter aquilo que julgam ser as suas tradições e os seus rituais, agregadores e potenciadores de sentimentos de pertença à respectiva comunidade. Aquilo que me custa ver e ouvir são as ridículas manifestações que por todo o país acontecem e que não são mais do que tentativas falhadas de imitar o carnaval brasileiro. É isso mesmo, e bem, o carnaval brasileiro acontece no Brasil. Em Portugal temos tradições antigas relativas ao dia que assinala o final do ciclo de Inverno e a passagem para um outro tempo, o da eterna renovação da natureza. Essa diversidade ritual é constituida por inúmeros, bonitos e ricos, momentos. Imagens de Carnaval como aquelas que enchem as TVs (Ovar, Torres Vedras, entre outras localidades) são ridículas, não fazem qualquer sentido.

07 março 2011

Talvez há 4 ou 5 anos joguei pela 1ª vez o Mafia I. Foi o irmão mais novo que me apresentou o ambiente ganster de Nova Iorque e desde logo fiquei fã do jogo. Naquele tempo joguei-o no velhinho pc que havia cá em casa. Agora, já com uma PlayStation 3 em casa, terminei a aventura de Vito Scaletta, enquanto membro de uma família mafiosa de Nova Iorque em meados do século XX, no Mafia II. Ao longo de quinze episódios e na pele do protagonista somos confrontados com os meandros e intrigas próprias das rivalidades entre famílias mafiosas que lutavam pelo controle do submundo daquela cidade. Acabei a aventura com a sensação que ainda poderia ter mais alguns episódios e aventuras. Concerteza, haverá mais Mafia, aguardemos as cenas de outros capítulos. Entretanto, procurarei outro jogo que me distraia, de preferência algo que me permita dar muitos tiros e matar muitos "inimigos" e "adversários". Tudo isto, claro, no conforto do meu sofá.

06 março 2011

é o povo contra a reacção



Não gosto do Festival da Canção. Acho que já há muito tempo perdeu qualidade e valor. Mas porque um amigo tem participado enquanto produtor, todos os anos vou espreitando para ouvir a sua música. Este ano calhou ouvir, para surpresa minha, a participação dos Homens da Luta. Brincadeira, pensei eu... O certo é que no final da noite foram eles os grandes vencedores e graças aos votos, via SMS, do público. Eu não votei em nenhuma música, mas se tivesse votado teria sido na música deles - pela irreverência, pela coragem e pela frontalidade. Este resultado foi mais um espinho para Pacheco Pereira, Isabel Stilwell, José Manuel Fernandes e outros que muito se têm importunado a favor da manutênção da precariedade em Portugal. Os Homens da Luta ganharam e desestabilizaram todo o mainstream vigente na produção deste evento. Não sei quem votou neles, mas desconfio que a insatisfação social do país valeu bem os 60 cêntimos + iva que custou cada voto. Muito provavelmente, este foi o último Festival da Canção em que o público votou. Até ao dia 12 de Março.

05 março 2011

dísticos e afins

Nenhuma objecção relativa à manifestação pública dos ideais civilizacionais, das crenças religiosas, das filiações partidárias ou desportivas ou outras por parte dos indivíduos. Mesmo não compreendendo o que leva alguém a fazê-lo, aceito pacificamente que outros sintam essa necessidade e o façam. Eu nunca senti qualquer necessidade de o fazer, nem nunca achei grande piada à decoração de automóveis com elementos estranhos ao seu fabrico e comercialização. Claro é que a culpa não é dos automóveis, mas sim dos seus proprietários que, por qualquer razão que a psicologia explicaria muito facilmente, projectam nos seus automóveis a sua imagem.
Houve um tempo em que era obrigatória a inclusão de determinada informação suplementar nos veículos, estou a lembrar-me dos limitadores de velocidade, das placas de localidade e raio de distância para os pesados e das placas de identificação de propriedade dos ligeiros - curiosas placas que para além do nome e morada do proprietário, incluiam uma imagem de S. Cristovão, o santo propector de qualquer viajante e, nalguns casos, havia ainda espaço para as fotografias dos respectivos proprietários -normalmente colocadas num suporte com íman nos tabliers para estarem visíveis do exterior.
No meio de toda a panóplia de acessórios, aplicações, autocolantes e placas que por aí circulam agarradas aos carros, há um tipo de autocolantes que me intriga especialmente. Falo daqueles que são, normalmente, oferecidos pelas marcas de produtos para bebés e crianças e que se destinam a colar no vidro traseiro. Através deles ficamos todos, os demais e estranhos, a saber que a bordo daquela viatura circula um bebé, nalguns exemplares ficamos a saber, inclusivé, o nome de tais bebés e, noutros ainda e complementando, é-nos comunicado para termos cuidado!.. porque ali vai um bebé. Para além de não perceber o que leva alguns progenitores a publicitarem assim o nome dos seus rebentos, importa questionar: Mas que raio de advertência é esta!? Até parece que o cuidado que devemos ter na estrada varia consoante o tipo de ocupante dos outros veículos. É pois uma informação palerma e estupidificante que, in loco, me incita a adjectivações várias aos seus promotores.
Desconfio que tudo isto não seja mais do que um possível caminho para aqueles que se querem dedicar ao transformismo automóvel. Para além de todas as questões de estética, relativas e subjectivas, sobre as quais não farei juízos de valor, talvez um dia também eu me converta definitivamente ao famoso tuning.

04 março 2011

100

PARABÉNS!

Também eu me sinto feliz, enquanto leitor, pelo facto a LER ter chegado ao número 100, de existir desde 1987 e de me permitir aceder a um universo muito interessante. Sou leitor assíduo desde o seu nº 43 de 1998. É com grande expectativa e alguma ansiedade que ainda hoje, mensalmente, vou ao quiosque à procura da LER. Espero que este seja apenas um momento especial e bonito de um percurso que se quer longo e cada vez melhor. Um outro objectivo pessoal será conseguir os números anteriores ao nº 43. Calculo que não seja tarefa fácil, até porque alguns números devem estar esgotados. Entranto, fica a certeza de algumas horas bem passadas apreciando esta edição especial, que nos oferece as imagens, as entrevistas, as citações, os textos, os momentos e os livros que marcaram as cem revistas.

03 março 2011

salas de espera

Serão sempre lugares interessantes para algum trabalho de campo, mais ou menos discreto, mais ou menos participante, que permitem exercitar as capacidades de observação e de registo. Numa madrugada destas noites frias, na sala de espera de acompanhantes do serviço de urgência do Hospital Santos Silva, em Vila Nova de Gaia:
A sala, tipo aquário, é uma transparência, sem privacidade e com excelente iluminação, por contraste com toda a envolvência exterior. Três filas de cadeiras disponíveis em cada lado da sala, viradas para o seu centro, obrigam os presentes a um permanente contacto visual, duas máquinas de vending vão servindo bebidas e comidas, e roubando nos trocos aqueles que não lhe dão a quantia certa. É a murros e alguns pontapés que os lesados compensam a sua perda. Por cima de todo o burburinho permanente de vozes, o som estridente de uma TV que, pendurada numa parede, transmite (presumo uma gravação) uma telenovela da TVI. Enquanto aguardo pela minha criança e sentado numa extremidade da sala, entretenho-me observando os deliciosos pormenores destes estranhos que me envolvem. Neste corrupio de gente que entra e sai e sai e entra, por enquanto, ainda ninguém se chegou sequer perto de mim. Estranharão o meu aspecto? Desconfiarão da minha aparente alienação? Ou não querem saber e apenas assim calhou? Não me interessa. Importa-me ver como, enquanto alguns dormitam e depois são abruptamente despertos pelo som ranhoso do altifalante que lhes pedem a presença na porta da urgência, e outros aproveitam a espera para fazerem a higiene pessoal, como um indivíduo ali no canto que descontraído vai limpando o nariz aos dedos, a generalidade destes estranhos - também entre si - muito facilmente se dão ao conhecimento, parecendo-me que passados alguns instantes estão já a trocar contactos e confidências. Há aqueles(as), mais impacientes, que mal se sentam logo se levantam, numa impaciência aflitiva que quero atribuir à preocupação para com os seus doentes. Depois há ainda aqueles que como eu gostam de observar, mas indiscretos e incisivos, violentam-nos as mais recônditas entranhas com os seus (feios) olhares. O que pensará toda esta gente? O que irá na alma de cada um deles? Que dores sentirão?.. E é no meio destas divagações que ouço, num som estranho, o meu nome. É a minha vez de sair.

02 março 2011

fidelidade

Não sei se é comum ou não, se o mesmo acontece com os outros, mas no que toca a escrever gosto de utilizar sempre a mesma caneta. É com especial irritação que me apercebo que perdi uma caneta. Sempre gostei de utilizar a cor preta e é com relutância que escrevo a outra cor. Nalguns suportes o preto é mesmo exclusivo. Sempre gostei e sempre usei a BIC Cristal, a tal da escrita normal, de cor preta cujo traço mais forte consegue ser muito suave. Entretanto, descobri a Uniball de tinta preta permanente, gostei e passei a usá-la. Pena ser tão cara. Trago sempre comigo duas ou três iguais e é delas que faço uso. Serei assim um fiel à caneta.

01 março 2011

a reforma administrativa

Não sei quais foram as reais razões ou necessidades que trouxeram para a actualidade do debate político a questão da reforma administrativa portuguesa, mas a verdade é que este debate é necessário e viverá sempre sob o espectro de tardio e de urgente. Como podemos, em pleno Século XXI, viver ainda num esquema pensado e aplicado em meados do século XIX!? Mais, porque se demorou tanto tempo para apenas se pensar no assunto!? Já em meados do século XX, principalmente na sua segunda metade, a realidade do território e da população portuguesa deveriam ter motivado tal reflexão.
A dimensão das autarquias locais é fundamental na perspectiva da sua autonomia. Sem uma dimensão crítica da autarquia local não se pode verdadeiramente falar em autonomia do poder local, na medida em que as autarquias locais ficam desprovidas de meios suficientes para assegurarem a prossecução das suas atribuições e o exercício das suas competências.
Actualmente existem em Portugal 39 municípios com menos de 5000 eleitores, o que corresponde a 12,66 % do número total de municípios. Quando se fala em freguesias, a realidade é ainda mais avassaladora, tendo a esmagadora maioria das mais de 4000 freguesias, um número de eleitores inferior a 1000.
Este argumento serviu de base ao veto do Presidente Jorge Sampaio ao Decreto da Assembleia da República n.º 76/IX, que visava alterar a Lei Quadro de Criação de Municípios, aprovada pela Lei n.º 142/85, de 19 de Novembro, permitindo a criação de novos municípios, mesmo que não se verificassem os requisitos previstos na lei, caso existissem reconhecidas razões de interesse nacional, fundamentadas numa particular relevância de ordem histórico-cultural, ou desde que fosse recolhido o parecer favorável de todos os órgãos autárquicos envolvidos.
Conforme então afirmava o Presidente Jorge Sampaio, “Neste âmbito assumem especial relevância as questões relacionadas com a fixação ou alteração dos limites da circunscrição territorial dos municípios, não apenas porque dela depende, em larga medida, a adequação e eficiência da administração autárquica na prestação de serviços às populações,...”.
A Câmara Municipal de Lisboa tem em curso uma discussão pública sobre a reorganização do mapa administrativo da cidade, visando a redução de 54 para 24 freguesias, homogeneizando a sua dimensão territorial e demográfica, em nome de uma maior eficiência da acção das autarquias locais. Este facto e a actual crise financeira tem inspirado várias vozes, designadamente a do Secretário de Estado da Administração Local para a realização de uma Reforma Administrativa assente na redução do número de municípios e freguesias.
Aproveitando o facto de este ser o ano de novo Recenseamento Geral da População (Census 2011), poderemos aproveitar esse novo retrato da distribuição da população portuguesa para elaborar um novo esquema administrativo. O que não devemos é a) aceitar que sejam critérios meramente contabilísticos e financeiros a motivar e nortear esta nova “vontade” de mudar, e b) que esta súbita e drástica vontade de reduzir seja o caminho para um efectivo reforço da centralização do poder em Portugal.
Não sei se devemos ou não reduzir o número de freguesias. Contudo, parece-me que não se devem extinguir freguesias com relativa dimensão (3.000 ou mais eleitores), nem fazer fusões das grandes freguesias (mais de 40.000 eleitores). Se é verdade que não devemos aceitar a imposição da concentração de poderes em meia-dúzia de autarcas, também me parece que não devemos aceitar que existam em Portugal tantas freguesias que, tendo em conta o reduzido número de eleitores, são administradas por plenários. Não deveremos, por princípio, ter reservas e deveremos aceitar que se reduza ou aumente o número de freguesias e de concelhos, no sentido de alcançar o desejado equilíbrio entre a população e seu território.
Bem sei, sabemos, que o politicamente correcto é afirmar que as Juntas de Freguesia e, em concreto, os seus presidentes, são os pilares fundamentais da democracia portuguesa. Mas será verdade!? Será mesmo assim!?... Aceitar, concordar e defender esses pilares não é manter a actual situação, pois todos bem conhecemos a realidade de muitas autarquias e o desempenho de muitos presidentes de Junta de Freguesia: por um lado, estão presos pelo cimento e pelo tijolo ao respectivo presidente da Câmara Municipal, por outro lado, entendem o seu território como um feudo, onde gostam de se considerar donos e senhores. Temos que acabar com estas lógicas, com estes laivos medievais…
Não deveremos, sob o pretexto de defesa da democratização do poder local, defender o atavismo das lógicas enraizadas no poder local em Portugal, que aliás já existiam antes do 25 de Abril. Não será por acaso que, embora todos admitam a necessidade de reformar administrativamente o país, todos os discursos são extremamente cautelosos. É que uma coisa é teorizar e debater, outra coisa é implementar e explicar. Não tenho dúvidas que aí as resistências serão enormes. Não deveremos pois, também, menosprezar as questões imateriais: de identidades difusas e de sentimentos de pertença heterogéneos, que nalgumas localidades e regiões adquirem dimensões consideráveis e bem perceptíveis.
Um novo modelo administrativo, bem pensado, bem estruturado e bem reflectido poderá, para além do mais, acabar com os monopólios e os senhorios, e permitir novos espaços de influência e de novas e boas práticas de gestão autárquica.
(artigo enviado para o Jornal Nordeste)

27 fevereiro 2011

caros brinquedos

O Jornal Expesso revelou na sua edição de ontem um conjunto de documentos provenientes da WikiLeaks e relativos a Portugal. De todos eles, destacam-se os documentos relativos às nossas forças armadas e ao ministério da defesa. A correspondência entre o antigo embaixador dos EUA em Lisboa e o seu governo revela considerações pouco abonatórias e até mesmo insultuosas acerca dos nossos políticos e das nossas instituições militares. Contudo, importa salientar também o embaraçoso silêncio que tomou conta dos representantes dessas mesmas instituições. Não sei se significa a assunção da situação e o reconhecimento em tais palavras e adjectivações, ou se significa puro desprezo e perfeito alheamento dessas instituições pelo país civil. Em todo o caso, parece-me apropriado dizer que, para lá da actual celeuma, os nossos militares gostam de brincar com brinquedos caros, ainda por cima inúteis. Como bem afirma hoje em editorial o Jornal Público "...o silêncio significa que, mesmo sem ser integralmente rigoroso, o telegrama do embaixador Stephenson passará a ser integralmente verdadeiro".

23 fevereiro 2011

suburbana

Um destes dias, um amigo que pela primeira vez me visitava em casa, pediu-me para conhecer o local onde eu normalmente produzia o meu trabalho, o espaço que me permitia criar e a paisagem que me inspirava. Sem qualquer pudor e sem qualquer reflexão não hesitei em satisfazer-lhe a curiosidade. Depois, algum tempos depois, reflecti sobre esse estranho pedido. Num recurso a clichés quotidianos, seria bonito poder apresentar-lhe um espaço amplo, arejado e estupidamente limpo e arrumado, com abertura para um qualquer pedaço de céu relvado e com o mar ou a serra no horizonte. Mas não. Isso não está ao meu alcance. Apenas e só uma paisagem suburbana, recheada de elementos comuns e anónimos de grande urbe.
Em cima, a paisagem possível... que nunca me inspira, antes me desanima. Mas não me queixo.

22 fevereiro 2011

um dia hei-de lá ir...

Começa amanhã o 12º Encontro de Escritores de Expressão Ibérica na Póvoa de Varzim. Apesar da "crise", o município mantém a feliz iniciativa. Nunca estive presente, mas sei que um dia vou lá...

14 fevereiro 2011

ao espelho

03 fevereiro 2011

querer mas não poder ficar...

No inicio desta semana foi notícia o encerramento simultâneo de oito Serviços de Atendimento Permanente (SAP's) nocturnos na região de Trás-os-Montes. É lamentável. Portugal desistiu de substancial parte do seu território e, principalmente, desistiu dos portugueses que aí vivem - "a porta da rua é a serventia da casa" e as populações desta região, se não sabiam já, sabem que podem e devem procurar novos lugares para fazerem suas vidas. É triste que os critérios que justificam esta atitude do Ministério da Saúde sejam a lógica da racionalização dos recursos e meios e a lógica dos raciocínios económicos e financeiros, quando o que deveria acontecer era uma permanente e evidente preocupação com a qualidade e proximidade dos equipamentos e serviços de saúde junto de cada um e de todos os cidadãos de Portugal. Se o governo e o Estado querem rentabilidade que a procurem nos impostos que todos, repito, todos os cidadãos e também os transmontanos equitativamente pagam.
O cenário é desolador e cada vez mais deprimente. Mais deprimente fica quando se percebe a apatia, a indiferença e o silêncio da generalidade dos autarcas da região que de forma alguma se insurgiram perante esta atitude que ostensivamente prejudica as populações desta região. Muito mais deprimente fica quando se percebe que alguns desses mesmos autarcas, eleitos pelas populações, proferem declarações justificativas e desculpabilizadoras, tentanto argumentar acerca da sua (não)posição ou regateando com a tutela medidas compensatórias tais como ambulâncias, macas, lencóis, pensos e adesivos. Ridículo.

"que mundo tão parvo onde para ser escravo é preciso estudar"

01 fevereiro 2011

já estou a Ler

solilóquio

[sms]
Pequenos nadas que me invadem o espírito e te trazem para bem perto e obrigam tua permanente presença. Sinto-te em cada nada e em todos os nadas. Isso faz-me bem.

29 janeiro 2011

é por isto que estamos como estamos...

A teoria do pós-imperialismo fala de uma emergente burguesia de executivos, uma nova classe social saída das relações entre o sector administrativo do Estado e as grandes empresas privadas ou privatizadas. Esta nova classe é composta por um ramo local e por um ramo internacional. O ramo local, a burguesia nacional, é uma categoria socialmente ampla que envolve a elite empresarial, os directores de empresas, os altos funcionários do Estado, lideres políticos e profissionais influentes. Apesar de toda a heterogeneidade, estes diferentes grupos constituem uma classe, "porque os seus membros, apesar da diversidade dos seus interesses sectoriais, partilham uma situação comum de privilégio socioeconómico e um interesse comum de classse nas relações do poder político e do controlo social que são intrínsecas ao modo de produção capitalista". O ramo internacional, a burguesia internacional, é composta pelos gestores das empresas multinacionais e pelos dirigentes das instituições financeiras internacionais. As novas desigualdades sociais produzidas por esta estrutura de classe têm vindo a ser amplamente reconhecidas mesmo pelas agências multilaterais que têm liderado este modelo de globalização, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. (Becket e Sklar, 1987, in Boaventura de Sousa Santos, 2005)
(negritos meus...)

28 janeiro 2011

de feiras e afins

- Edfeldt, Chatarina e Couto, Anabela Galhardo (org.), 2008, Mulheres que escrevem, mulheres que lêem, Lisboa, 101 noites;
- Silva, Rui Pedro, 2003, Contigo torno-me real, Porto, Edições Afrontamento;
- Menget, Patrick, 2001, Em Nome dos Outros, Lisboa, Museu Nacional de Etnologia e Assírio & Alvim;
- Revista da FCSH, 2006, Ciências Sociais (nº 18), Lisboa, Universidade Nova de Lisboa e Edições Colibri;
- Martins, Maria de Fátima da Silva Vieira, 2007, Mitos e Crenças na Gravidez, Lisboa, Edições Colibri;

25 janeiro 2011

especialidade da casa

Conhecido por estar aberto 24 horas por dia e durante praticamente todo o ano, tem fama de ser um templo para os invertebrados do jogo e para os rastejantes do álcool. O Dom Mário, localizado bem no centro de Macedo de Cavaleiros, é também famoso pelo seu ambiente acolhedor e pela qualidade e eficiência no atendimento a clientes e fregueses. Desconhecendo esta realidade, numa recente deslocação a Macedo, precisamente num dia em que toda a cidade descansava, entrei neste café para reconfortar o estômago. Mal encostado ao balcão fui de imediato atendido pelo, presumivelmente, "Dom" Mário. Tive apenas tempo de olhar para a pequena vitrine onde estavam expostos meia-dúzia de rissóis com aspecto razoavelmente apetitoso. Pedi então um rissol e uma cerveja. Solícito e comigo a apreciar saca de uma Superbock da arca, pegou num prato onde colocou um guardanapo e aproximou-o da vitrine. Acto contínuo, puxou do palito que trazia entre os dentes e com a extremidade humedecida por suas cáries dentárias, espetou com afinco um dos rissóis e colocou-o no prato, fazendo regressar ao aconchego da boca o dito palito, enquanto comenta:
- Ora aqui está! Estão muito bons...
- Ora pois. Quanto é?
- perguntei eu, sabendo que jamais iria comer tal petisco.

24 janeiro 2011

quatro anos de viagem

No dia do quarto aniversário deste blogue, resolvi inventar e tentar alterar a sua imagem. Não pretendia nada radicalmente diferentes. Maldita hora em que tive estapafurdia ideia, pois ao actualizar o layout perdi todas as formatações anteriores. Fiquei apurriado!.. De qualquer forma, consegui manter o essencial e todos os amigos e todas amigas que por aqui continuarem a passar não vão, com certeza, estranhar. Aproveitei para fazer uma limpeza geral, pois é sempre muito o pó inutil que se vai juntando com o passar do tempo. Assim, espero que possam continuar a partilhar comigo o meu e o vosso tempo. Obrigado. 

20 janeiro 2011

"Às vezes interrogo-me se não estarei a escrever romances só para me dar ao luxo destas referências apenas compreensíveis para mim mesmo, mas sinto-me como um pintor que retrate um pano adamascado e no meio das volutas, flores e corimbos, ponha - quase invisíveis - as iniciais da sua amada. Não importa se nem ela própria as note, os actos de amor são gratuitos." (Umberto Eco, 2003)

17 janeiro 2011

protagonismos

“A mudança pode começar aqui”
É lugar-comum dizer-se que vivemos um tempo de enormes dificuldades sociais e económicas, verdade indesmentível e dramaticamente sentida por milhares e milhares de portugueses, mas permitam-me que reajuste esse lugar-comum, dizendo que em Bragança vivemos um espaço de enormes dificuldades sociais e económicas, verdade indesmentível pelo abandono e desprezo geracional e crónico de Lisboa para com esta região, pelas estatísticas do desemprego regional e local, pela falta de investimento no sector agrícola, pecuário e florestal, pela falta de equipamentos e infra-estruturas e, principalmente, pela indiferença face ao drama humano e nacional que são os novos movimentos de emigração, que nos levam as novas gerações, criadas e formadas com o esforço colectivo, mas que agora não perspectivam qualquer hipótese de futuro em Portugal, tão-pouco em Bragança.
Deste lugar, distanciado do Terreiro do Paço, é por demais evidente e sentido este drama. É a tristeza de um presente precário. Sabermos que um dia teremos que partir porque pouco mais que nada deixaremos para trás. É triste. Mas estarmos aqui reunidos é sinónimo da nossa perseverança; nós não desistimos, continuamos a acreditar na nossa gente, na nossa cidade, no nosso concelho, na nossa região e no nosso país. Acreditamos num futuro…
Dr. Manuel Alegre,
Estamos aqui reunidos consigo porque se comprometeu com o Estado Social e nós defendemos o Estado Social e não aceitamos, nem sequer toleramos o ataque que alguns lhe pretendem infligir. Lutaremos sem fim pela sua manutenção ou existência;
Estamos aqui reunidos consigo porque partilhamos da visão de um país regionalizado e da necessidade de uma reforma administrativa;
Estamos aqui reunidos consigo porque queremos um Serviço Nacional de Saúde que garanta a universalidade e a qualidade dos serviços a prestar aos portugueses e às portuguesas;
Estamos aqui reunidos consigo porque acreditamos na Escola Pública com diversidade e propriedade, na qual o ensino é entendido e praticado com exigência e como garantia de justiça social e de igualdade de oportunidades para as novas gerações de todo Portugal;
Estamos aqui reunidos consigo porque é o único candidato que tem declarado com clareza e sem qualquer subterfúgio e sem ambiguidades o seu entendimento do que é ser Presidente da República no Portugal actual; Estamos aqui reunidos consigo porque sabemos que é necessário unir as esquerdas para conseguirmos uma segunda volta nestas eleições e assim derrotarmos a direita e o seu programa para o País – é que temos a memória e a consciência de que o nosso adversário da direita é o político português que mais contribuiu para termos chegado ao estado actual. Cavaco Silva é responsável, é político e tem escrito nas suas mãos o declínio social e económico do país nas últimas três décadas;
Estamos aqui reunidos consigo, acima de tudo, porque é necessário inverter o actual estado de total falta de credibilidade institucional com que as instituições nacionais, em geral, e os órgãos de soberania, em particular, são vistos e sentidos pelas ruas e seus cidadãos.
Precisamos de uma urgente e profunda alteração de paradigma nas ideias, nas políticas e na gestão da coisa pública. É tempo de relativizar e afastar dos centros de poder e de decisão a tecnocracia, a especulação e seus mercados - uma soberania nacional não pode, não deve estar manietada por tais lógicas e interesses; É tempo de recolocar no seu lugar, por direito e pela democracia republicana, a política, a ética, a cidadania, enfim as pessoas.
Para nós, Manuel Alegre é o cidadão, mais do que indicado, talhado para personificar esse desafio, essa vontade. Tal como diz o nosso candidato: “A grande arma de um Presidente é a palavra. As palavras ajudam a mudar a vida, ajudam a criar confiança e esperança.” É nosso dever, já no próximo dia 23, dar a essa arma um verdadeiro Presidente, dar a essa palavra a devida importância, a sua verdadeira dimensão. Vamos então, todos, elegê-la para a Presidência da República Portuguesa.
(intervenção no almoço de campanha de Manuel Alegre - Bragança, 17 de Janeiro de 2011)

(alguns desses momentos - em actualização)

R.I.P. Gaspar

As palavras ficam para depois.

solilóquio

O cachimbo é o símbolo da solidariedade social. Bem dizem que devemos ser solidários, portanto há que fazer uso do cachimbo. Eu uso-o, sou solidário.

16 janeiro 2011

instante urbano XIII

Pára-Arranca-Pára
Num qualquer parque de estacionamento presenciei o seguinte: dois automóveis estacionados frente um do outro prestam-se para sair dos seus lugares. Arrancam com toda a vontade, mas de imediato, apercebem-se do outro veículo e param repentinamente. Educadamente ambos dão prioridade, passe a redondância, um ao outro e voltam a arrancar os dois ao mesmo tempo, ficando, desta feita, praticamente encostados. Com um outro semblante voltam a dar-se prioridade um ao outro através de veementes sinaléticas. Ambos recuam uns centímetros e, a julgar pelo peso em cima dos aceleradores, já irritados e pela última vez, arrancam violentamente um contra o outro. Os danos não terão sido significativos, mas digno de registo foram as palavras que ouvi da boca das magníficas condutoras:
- Ó meu Deus!
- Meu Deus!? Não! Ó minha Senhora!...

14 janeiro 2011

"O desfecho histórico de qualquer choque entre deuses foi determinado por aqueles que empunhavam as melhores armas e não por aqueles que possuíam os melhores argumentos." (Peter L. Berger e Thomas Luckmann)

13 janeiro 2011

solilóquio

(algures na cidade de Barcelona e neste preciso momento)

- já chega. Tenho que ir embora...
- espera. Só mais um pouquinho...
- vou-me embora...
- ok, mas antes passemos numa loja qualquer que tenha um espelho...
- porquê e para quê?..
- para poderes ver como ficamos bem um ao lado do outro...
E foram.

11 janeiro 2011

solilóquio

chega-te para cá, dizes tu.
por que lado falta eu chegar-me a ti?
diz-me que eu vou, eu chego já...
a um  milimetro de ti, estarei perto?
qual a distância para podermos dizer aos outros?

09 janeiro 2011

solilóquio

- até já a minha mãe pergunta por ti...
- manda-lhe um beijinho meu e diz-lhe que eu adoro o filho dela...

07 janeiro 2011

solilóquio

o telefone que não toca... és tu (sou eu)
a mensagem que não chega... és tu (sou eu)
tu és

06 janeiro 2011

depressões

De tempos a tempos e por vezes regularmente sou informado ou dão-me ao conhecimento que fulano está com depressão ou que cicrana está num estado de profunda depressão, e eu não compreendo. O que é isso de estar com ou em depressão!? Será frustração, será trauma, será pessísmismo exacerbado, será falta de amor próprio, ou o seu excesso!? Será desiquilíbrio hormonal, mental ou libidinal!? Será esquizofrenia relacional, serão egos retorcidos, ou serão desestruturações!? Ou será um pouco de tudo isto!? Ou não será nada disto!?
É que segundo percebo daquilo que acontece com esses e essas que por perto vão caindo nesses estados existênciais, eu e a minha condição seríamos perfís ideais para essas experiências, que o pessoal tanto vai experimentando alternadamente com a sua mais-que-pouca lucidez. Feliz ou infelizmente nunca tal experimentei. O que me terá faltado, ou o que me faltará para o vir a experimentar, desconheço.
Aquilo que sou não é facilmente acessível, até para mim próprio. Para tal é preciso que eu pare, detenha a contínua espontaneidade da minha experiência e, de modo deliberado, faça incidir a minha atenção sobre mim próprio - nem sempre fácil. Sei, porque sinto, que há dias bons e outros menos bons e que assim será para o meu sempre, mas daí até poder dizer que estou em depressão...
Cá para mim (desculpem-me os demais...), grande parte desses casos não passam de estratégias para reclamar determinadas atenções. São meros subterfúgios, uns mais outros menos públicos, de egoísmos que à solta, por aí andam. Disse.

05 janeiro 2011

instantes urbanos XII

Verborreia Masculina
Neste final de tarde, agora princípio de noite, aguardo pacientemente o resto da família num cafézito bem perto do antigo campo do Vilanovense, em Gaia. Quando entrei no café este estava vazio, mas logo depois de mim entrou um outro indivíduo que, ainda na rua, em alta voz e num tom jucoso, começa a falar para cá para dentro. A conversa com o dono do café prossegue sem sequer se preocuparem com a minha presença. Eu, na minha insignificância, vou lendo, ou pelo menos tentando... Distraído daquilo a que me propus inicialmente, logo percebo que o indivíduo que entrou é médico, pois queixa-se da crise que também já afecta as consultas de pediatria. Os dois interlocutores demonstram significativa intimidade e cumplicidade. A conversa, à boca cheia, quase à desgarrada, era acerca das aventuras sexuais de cada um deles (não estranharia nada que nalgumas situações em simultâneo...) com mulheres brasileiras. O médico, pelo discurso, era daqueles cuja líbido não cabe nos poucos centímetros de pénis que possui, pois para além da cagança no timbre de voz, dizia-se até preocupado com o seu enorme charme e sucesso junto do sexo oposto e com o permanente assédio que sente da parte, principalmente, das mães dos seus pequenos pacientes. É que lhe têm causado enormes trantornos e situações desagradáveis. Inclusivé, diz-se farto de avisar a sua própria mulher que se sente uma vítima da enorme exposição pública e que não pode impedir as mães de se apaixonarem por ele. Será portanto natural ter tantas mensagens amorosas no seu telemóvel... O outro vai-se rindo, e ainda por cima de boca aberta, néscio, concordando com tudo aquilo que ouve. Ficámos todos a saber os seus (do médico) gostos e desejos: tipo de mulher, estatura, étnia e geografia de proveniência, pois tudo isto será fundamental para este doutor que garante que o desempenho das fêmeas é diferenciado. E nada como ir ao Brasil e experimentar in loco uma verdadeira picanha, uma maminha e respectiva caipirinha... Confesso que toda esta verborreia, encharcada de líbido, me incomodou e por momentos hesitei se deveria ou não levantar-me e sair, mas acabei por ficar a escrevinhar estas linhas e, em definitivo, esquecer o texto que trouxera para ler. A conversa só se dignificou no momento em que uma senhora assomou à porta, ameaçando entrar. Aí, um deles adevertiu: "Cuidado!"

''Habitación en Roma''

Vi este filme ontem à noite e fiquei arrebatado. Duas mulheres e um quarto de hotel. Bonito. Pela história, pelas mulheres, pela realização e principalmente pela banda sonora, do qual se destaca este "Loving Strangers". Procurem-no e vejam. Atenção mentes mais sensíveis...

04 janeiro 2011

refúgio de mim

Cada vez mais e com maior intensidade. Só ela me permite alhear de toda a circunstância existêncial. Envolvente, implica-me e leva-me para um outro estado mental e essa ausência de mim faz-me sentir muito bem num qualquer nirvana. Simultaneamente, esse abraço que me dá, obriga-me a um esforço e um desgaste suplementar que, nalguns momentos é pura dor e, quase sempre, sofrimento. Como custa chegar até ela!.. Apesar de tudo é terapêutica e serve-me ao segundo para não desencantar definitivamente o meu tempo. Por isso digo, preciso e quero sempre mais. Ela é o meu refúgio, ela é a escrita.

contra-natura

Consegui ver a imagem no noticiário das 20 horas e aí percebe-se nitidamente e melhor que aqui a estranheza deste momento, em que Cavaco Silva sobe ao tejadilho de um automóvel. Foi estranho, muito estranho...

deriva europeia

No início de mais um ano que se prevê longo e difícil, perscrutando à minha volta, que é como quem diz, olhando para esta imensa europa, não posso deixar de referir aquilo que se percebe estar a acontecer: a deriva à direita que todos, ou quase todos, os estados europeus estão a realizar e que, nalguns casos, poderá levá-los até às reminiscências de fascismos e de totalitarismos. Para além dos já conhecidos e patéticos casos da Itália e da França, outros se preparam para trilhar o mesmo caminho - Holanda, Dinamarca, Inglaterra, Suécia e Hungria, apenas para referir alguns exemplos. Mesmo em Portugal já todos adivinham o que poderá ainda este ano ser um novo governo do PSD, mas também e se olharmos para a Comunicação Social, a tal "Português Suave", não poderemos deixar de reparar que toda ela é tendêncialmente de direita. Mais, tal como nos diz Eduardo Pitta no seu blogue, "A opinião publicada tornou-se um feudo da direita".
Ainda que a custo, assuma-se que a esquerda europeia, enquanto governo e poder, não assumiu as suas responsabilidades e nunca foi além do discurso fácil da integração e do multiculturalismo. Fazer crescer a Europa para limites inatangíveis e inimagináveis até há bem pouco tempo, terá sido uma ambição desmedida e ter acreditado que nesse espaço caberiam todos e mais alguns, terá sido uma quimera, que agora e só agora começamos a perspectivar e em sobressalto a desconstruir.
Ao contrário do que disseram e, pior, dizem muitas dessas esquerdas, as pessoas precisam, desejam e querem segurança para as suas vidas e relativizam, desdramatizando, a origem ou a fonte dessa segurança. Em verdade, preferem perder liberdades, a sua liberdade, assim como grande parte da sua cidadania, mas sentirem-se confortáveis e tranquilas, afastadas das sensações de eminente crime vádio e de latente violência social.
Atenção às tendências europeias, não são casualísticas nem são conjunturais e as esquerdas do que resta desta Europa serão sempre e grandemente responsabilizadas pela história. Veremos.

02 janeiro 2011

LER de Janeiro

Aproveitando o não-dia que foi ontem, li com todo o vagar a revista LER de Janeiro que se dedica quase exclusivamente à tão badalada "crise". Está bem preenchida, apesar do tema central e numa primeira abordagem me afastar os sentidos. Gostei deste número, especialmente da Diacrónica, do Diário de Ocasião, do Folhetim de Polémicas Literárias assinado por Fernando Venâncio, do texto de José Mário Silva e da excelente entrevista de Carlos Vaz Marques a Manuel Villaverde Cabral.
Notáveis passagens e alguns excertos:
“Crise é o momento da decisão, momento de a tomar ou de ser ela tomada: em que se promete a solução, e enfim o sofrimento duma maneira ou de outra acaba. Eis por que motivo a crise é afinal um estado de ânimo propenso à acção e consequentemente à… felicidade. As pessoas, como se sabe, ficam mais felizes quando se mexem.” (Abel Barros Baptista)
“Tenho dúvidas. Gosto de ter livros ao pé de mim; não sei se isto se passa consigo, mas eu conservo esse pecado, o egoísmo dos livros. Frequento bibliotecas, mas, mesmo nessas circunstâncias, torno-me «proprietário» ficcional dessas bibliotecas e desses livros. Não estou a ver-me proprietário de uma «nuvem» (a propósito do serviço GoogleBooks, lançado em Dezembro nos EUA) que, ainda por cima, não existe fisicamente. Onde é que vou deixar bilhetes e rasuras? Um mistério, outro mistério. A nossa vida está a mudar muito rapidamente e sinto-me um reaccionário tremendo.” (Francisco José Viegas)
Excertos da excelente entrevista de Carlos Vaz Marques a Manuel Villaverde Cabral:
“A crise que estamos a atravessar tem uma dimensão para além da económica e política – quer dizer, vê-a também já numa dimensão cultural, em sentido lato?
Mesmo fora de Portugal vejo pouco discurso alternativo credível. Os discursos alternativos que eu vejo não são credíveis. O meu colega Boaventura Sousa Santos é, aliás, a nível internacional, uma voz que propõe uma globalização alternativa.
A chamada «altermundialização».
Uma globalização contra-hegemónica e outro tipo de terminologia do género. É algo que admito que tenha ressonâncias na América Latina – onde ele realmente pratica essa influência – mas muito sinceramente não creio que aquele discurso se aplique à Europa.
Não há portanto, do seu ponto de vista, um modelo cultural que possa suceder àquele em que vivemos.
Eu não o vejo. O que emergiu imediatamente foi – até ao nível daquilo a que se chama agora a «nova economia política», portanto dos economistas que se pretendem alternativos – um discurso que tem tanto menos êxito quanto menos prospectivo é. Manifesta-se sobretudo pela defensiva, pela preservação dos adquiridos. Houve uma ideia – aliás, o nosso primeiro-ministro, que é esperto, chegou a falar nisso – que era a de um regresso ao keynesianismo.
Com a intervenção do Estado para segurar a economia.
Exactamente. Uma intervenção legitimada a nível ideológico – e o aspecto ideológico tem sempre uma âncora, uma referência ou quanto mais não seja um auditório sociocultural. Em Portugal, a audiência mais interessante, mais dinâmica, mais prospectiva desse discurso, que durante um certo momento pareceu poder funcionar como alternativo, será o povo do Bloco de Esquerda. É sem dúvida, sociologicamente, o partido com o mais alto grau de instrução; e se calhar também de rendimento. Ou seja, se há elites alternativas, no melhor sentido da palavra, não só em termos políticos mas também culturais, estão aí.
(…)
…podemos regressar a um discurso artístico mais interveniente em termos sociais?
Nunca mais vamos regressar nem ao surrealismo quanto mais ao neo-realismo. Não voltaremos a ter grandes movimentos. A nossa época não consente isso. A nossa sociedade é demasiado complexa. Danilo Zolo diz: «a nossa sociedade é demasiado complexa para ser gerida por um sistema tão tosco como o voto.» Não quer dizer que seja mau, é grosseiro. Nem os governantes, quanto mais os eleitores, têm consciência de toda a complexidade dos problemas.
(…)
a cultura baseada no livro parece-lhe ameaçada.
A leitura de livros acrescenta. (…) As pessoas que lêem vão sempre distinguir-se das outras e terão sempre o seu nicho de mercado. Uma coisa lhe digo: nada activa mais o neurónio do que a leitura.
(…)
O que parece de facto é que é consagrado muito pouco tempo ao esforço da leitura. Temos um grande problema: repare, o nosso atraso em relação aos países escandinavos é de mais de cem anos.
Um atraso em termos culturais?
Em termos educativos. Nós ainda estamos a ensinar a ler a crianças cujos pais não sabem ler. A pretensão da escola de fazer tudo – o que as famílias faziam, o que a sociedade deveria fazer – é que está a matar a escola."
“Na verdade, espero que o romance do século XXI não seja escrito só no século XXII. Porque gostava mesmo de o ler – seja em papel, a partir da «nuvem» ou noutro sistema qualquer que ainda esteja por inventar.” (José Mário Silva)

“Recuso-me a balanços. Dão-me enjoos. São ridículos. Papel que podia ser gasto para se pensar em alguma coisa.” (Inês Pedrosa)
Sugestão para adquirir e ler: o mais recente título de Onésimo Teotónio Almeida “O Peso do Hífen – ensaios sobre a experiência Luso-Americana”, editado pela Imprensa de Ciências Sociais.

Báu da Memória IV

encontrada no fundo de uma gaveta amiga

espelho

01 janeiro 2011