01 setembro 2010

lançamento em Carção

(fotografias da Associação Almocreve) - ver mais fotografias

24 agosto 2010

aprender a contar

Una
Duna
Tena
Candena
Bugalha
Cigarra
Carraspís
Carraspés
Conta bem
Que são dez.

20 agosto 2010

working on a dream

Out here the nights are long, the days are lonely
I think of you and I'm working on a dream
I'm working on a dream

Now the cards I've drawn's a rough hand, darlin'
I straighten my back and I'm working on a dream
I'm working on a dream

I'm working on a dream
Though sometimes it feels so far away
I'm working on a dream
And how it will be mine someday

Rain pourin' down, I swing my hammer
My hands are rough from working on a dream
From working on a dream

I'm working on a dream
Though trouble can feel like it's here to stay
I'm working on a dream
Our love will chase the trouble away

[whistling interlude]

I'm working on a dream
Though it can feel so far away
I'm working on a dream
And our love will make it real someday

Sunrise come, I climb the ladder
The new day breaks and I'm working on a dream
I'm working on a dream
I'm working on a dream
I'm working on a dream

I'm working on a dream
Though it can feel so far away
I'm working on a dream
And our love will make it real someday
I'm working on a dream
Though it can feel so far away
I'm working on a dream
And our love will make it real someday
(Bruce Springsteen)

17 agosto 2010

S. Roque

Estando em Bragança a passar uns dias de férias, aproveito para ler alguns dos livros e artigos que estavam em lista de espera (tão longa que ela é...). Também aproveito estes dias para ir, de vez enquando, até à aldeia revisitar lugares e reagrupar com aqueles com quem só a espaços me encontro. Ontem, 2ª feira, foi um dia de leitura. Já depois do jantar, as mulheres cá de casa (a filha, a mulher e a sogra) mostraram-se muito interessadas em ir à aldeia, à festa de S. Roque que, teimosamente, vai sendo organizada, muito à custa da vontade dos emigrantes. Lá fomos e, de facto, a aldeia encheu-se de gente que, vinda daqui e dali, emprestaram um ambiente diferente e colorido à povoação. Eu (hoje) pouco dado a bailaricos, aproveitei para ficar pelo café do Lexinho a confratenizar com uns e com outros. E tantos que eles são. Sensação estranha me envadiu, pois estava em Vila Boa, portanto em casa, e eram imensos os rostos daqueles(as) que eu não reconhecia, mas que me diziam ser também dali. Um estranho e forasteiro na própria aldeia, foi como me senti nessa noite. Síntomas do tempo que passa e que com ele nos leva.

09 agosto 2010

eu não o diria de melhor forma...

"18h30m – Apresentação do livro “Senhora das Graças, a Santa e Padroeira de Carção”, da autoria de Luís Vale, publicação também de grande rigor científico, fruto dum estudo exaustivo e extraordinário trabalho de campo. Nesta obra encontramos muitos testemunhos que descrevem o culto, costumes e vivências que peculiarizam os caracteres mais importantes que de alguma forma identificam e unem os carçonenses à Senhora das Graças."

04 agosto 2010

informação em jeito de convite e vice-versa

Acontecerá em Carção (Vimioso) no próximo dia 27 deste Agosto, por volta das 17 horas. A quem possa interessar, importa manifestar o enorme prazer que terei em partilhar esse momento. Até lá.

30 julho 2010

António Feio

26 julho 2010

redes sociais

Já poderia (deveria) ter escrito este texto há algum tempo atrás, pois aquilo que tenho para dizer já está reflectido e pensado faz tempo, mas como a fama de teimosia e de casmurrice me tem acompanhado, resolvi dar-me mais algum tempo para poder ponderar essa minha opinião. Mas de nada valeu, na medida em que nada se alterou, nada veio contrariar aquilo que, quase imediatamente depois da minha adesão, foram as minhas impressões acerca desta moda das redes sociais.
O meu primeiro contacto, ou a minha primeira experiência, já bastante tardia, foi no HI5, onde me inscrevi, adicionei alguns "amigos" e fui adicionado por outros tantos. Por lá fui passando, mas a verdade é que nada acontecia, nem aquilo servia para alguma coisa minimamente interessante. Mandar gifts e beijos, colocar fotografias nossas e ver as dos nossos amigos, muitas vezes em situações, perfeita e inconscientemente, confrangedoras e inimagináveis, entre outras inutilidades e futilidades, só me motivaram a deixar de lá ir e esquecer esse sitio de teenagers inconscientes e, ao mesmo tempo, sítio de coirões carentes de afectividade e, principalmente, de sexo. Mas isso sou eu a dizer...
Depois foi a vez do Facebook, consensualmente agraciado pela crítica publicada. Lá me inscrevi e fui juntando "amigos", até ao presente em que tenho reunidos na minha rede mais de cem "amigos". Por lá estão pessoas, empresas, movimentos, causas e negócios que, numa frequência abismal, nos bombardeiam com informação e com desinformação, com textos, com imagens, com isto e com aquilo. Mas uma vez mais, nada ou quase nada daquilo que por lá se encontra vale o tempo que se perde (para alguns, se ganha...) a percorrer essas páginas. Desculpem-me os meus reais amigos que por lá sejam, também, virtuais contactos, mas não consigo entender o sentido dessa exposição. Não consigo entender como pode tanta gente jogar o FarmVille(!?..) E depois, ainda há aquela coisa estúpida dos questionários que, por incrivel que eu ache, muita gente responde, participa e, às tantas, acredita!?... Enfim, tenho conta no Facebook e vou mantê-la mais uns tempos, mas confesso que nenhum interesse encontro nele.
Tenho conhecimento que outros sítios semelhantes existem, mas não há paciência para experimentar mais. Prefiro investir o meu tempo no Twitter. Apesar de o considerarem rede social, não o enquadro na mesma tipologia das demais plataformas. Aqui o destaque é o texto e a capacidade de síntese. Isso agrada-me e por lá vou continuando a escrever pequenas (in)confidências, pensamentos e desabafos do dia-a-dia.
Vivemos um tempo em que temos (dizem-nos) que ser informados e estar conectados. Mas contacto com quem e para quê!?.. Tanto contacto para nada! Para que raio as pessoas precisam de tanto contacto no seu quotidiano!?.. Para nada, concerteza. Apenas porque alguém vendeu essa ideia à sociedade, vamos todos estar em contacto permanente, não importa com quem, mas o importante é dizer que se está em contacto. Parvoíce.
Posso dizer que sou um blogger. Gosto de o ser. Continuarei a sê-lo.

tour de france

Terminou mais uma edição da volta à França em Bicicleta. Para mim este é, sem qualquer hesitação, o grande evento desportivo anual. Eu gosto muito de futebol e este é o "meu desporto", mas enquanto evento desportivo, nem mundiais ou europeus de futebol, nem jogos olímpicos, nada se compara ao Tour. São três semanas de espectáculo televisivo, que me agarram à televisão como nada mais o consegue. Vibrar com a estratégia de cada equipa, com a força e resistência dos ciclistas, com o desespero das montanhas, Pirineus e Alpes, que parece tocarem o céu, com o abismo dos sprints finais. Enfim, com o espectáculo que leva para a berma das estradas milhares, milhões de espectadores, simpatizantes e adeptos da modalidade. Também é verdade que não consigo perder cinco minutos que sejam a ver qualquer outra volta, a não ser, um pouco da volta a Portugal, a Itália e a Espanha, mas nada que me prenda como o Tour. Mesmo consciente das trapalhadas e das deslealdades relacionadas com o dopping que, desde sempre, assombram as provas ciclopédicas, espero já pelo próximo mês de Julho para nova aventura e novos protagonistas.

21 julho 2010

Há um vocabulário, uma gramática e, possivelmente, uma semântica das cores, dos sons, dos cheiros, das texturas e dos gestos, cuja riqueza não é menor que a das línguas. George Steiner

20 julho 2010

novos registos

Sempre que vou visitar o meu amigo Joaquim Garrido, editor das Edições Cosmos, regresso a casa com alguns magníficos presentes. Desta vez e porque já há algum tempo que não nos encontrávamos, pude trazer alguns títulos há algum tempo desejados. Entretanto, outros títulos que foram chegando:
- Maalouf, Amin, 2004, Origens, Algés, Difel;
- Carvalho, Mário de, 2010, A arte de morrer longe, Alfregide, Caminho;
- Lopes, Aurélio, 2009, Videntes e Confidentes, Chamusca, Edições Cosmos;
- Pina, Miguel de Roque, 2010, O Rigor do Pensamento, Chamusca, Zaina Editores;
- Oliveira, Cipriano de, 2010, Maçonaria: passado, presente e futuro, Chamusca, Edições Cosmos;
- Freire, Isabel, 2007, Na Alma do Ribatejo, Edição do Casario Ribatejano e da Associação do Turismo no Espaço Rural;

escritor fantasma

Acabei de sair do cinema onde assisti ao novo filme de Roman Polanski "Ghost Writer". Desde que comecei a ouvir falar deste filme, se não estou em erro a propósito da sua atribulada estreia em Cannes ou Veneza(??? - isso fica para os entendidos...) e da prisão do realizador, e tal e coisa, que logo me pareceu interessante. Quando soube que estava a estrear cá em Portugal quis ir vê-lo, mas algo em mim me dizia para não o fazer. Tentei resistir, cheguei mesmo a comentar com algumas pessoas a minha inquietude em resistir. Por princípio não deveria ir assistir a este filme e assim contribuir para o lato sucesso deste pedófilo. Bem sei que é um génio do cinema, mas isso não o iliba dos crimes que outrora cometeu. Mas enfim, cobarde, não resisti e fui mesmo assistir ao referido filme. E gostei. Muito. Apesar de ter outras expectativas relativas a um filme com este nome... Esperava algo mais crú, mais realista, mais urbano. Mas não. A narrativa refugia-se na alta esfera da intriga e do poder à escala mundial e, por isso, obrigatoriamente, veste-se de sofisticados gadgets e reveste-se de personagens que não existem, quero eu dizer, que não têm vida própria. Nem sequer o próprio escritor fantasma que, apesar do esforço de o equiparem com todos os clichés do estereótipo, tais como o ar desarranjado, a forte apetência para a bebida (forte), a incapacidade de estabelecer relações duradouras, etc., não consegue nunca ser esse bom-selvagem do ideário hollywoodesco.

15 julho 2010

gazela


Hoje, depois de vários meses de insistentes convites, finalmente conheci a famosa "Gazela" e os seus retumbantes "cachorrinhos"... tal é a nomeada na casa. Casa de repasto bem à moda do Porto, situada perto da Praça da Batalha, na Travessa do Cimo de Vila ou na Travessa do Cativo (são contíguas...). Ainda mal entramos e já estamos a ser questionados acerca do que vamos comer e beber: - Ora então meus amigos o que vai ser?... Depois, a espera para sentar num dos catorze lugares sentados ao balcão. A gestão destes lugares é feita pelos profissionais da casa, o Sr. Fernando e o Sr. Costa (na fotografia), verdadeiros mestres de bem servir, de bem falar e de bem vender os seus serviços, que num tom optimista vão sossegando a clientela: - Quantos são, 3, 4?.. está quase... é só mais um bocadinho... e beber, o que vai ser? Finalmente lugares vagos. Sentámo-nos e começou o espectáculo. A cerveja é qualquer coisa de espectacular, mas acima de tudo, é verdadeira, com gosto e força. Os cachorrinhos são autênticas maravilhas para a química dos sentidos. O seu sabor é orgásmico para as papilas gustativas, que só depois do segundo e a caminho do terceiro começam a ficar indiferentes à excitação do paladar. Vamos comendo e vamos pedindo mais e eu fico com a sensação que poderia estar ali toda a tarde a petiscar... pura ilusão. Tal como a fotografia testemunha, os estragos feitos por cada um de nós vão ficando depositados à nossa frente até ao momento em que se pede a conta. Aí, a contabilidade é feita através desses destroços, que rapidamente são removidos de forma a receber novos "amigos". No final e por despedida, tal como à entrada, somos cumprimentados por ambos os profissionais, que nunca deixam de cumprimentar pessoalmente cada pessoa que ali entra. É, concerteza, para repetir, mas atenção, não é para meninos.

09 julho 2010

Saramago

"Que fazemos, em geral, nós, os que escrevemos?"

25 junho 2010

encantos das cidades pequenas

Viver numa cidade grande é confortável, talvez até mais fácil. Habituamo-nos muito rapidamente a ter tudo numa relação de proximidade e de fácil e rápido acesso, sem a obrigação de nos relacionarmos com alguém, ou sequer cumprimentar-mos alguém. Isso, confesso, agrada-me.
Definitivamente, fascinam-me as cidades pequenas. A vida dos lugares pequenos, da rua e do bairro. As rotinas quotidianas e o reconhecimento de quem passa na rua, de quem é freguês dos mesmos lugares ou cliente dos mesmos espaços. Nas cidades pequenas, ou pelo menos mais pequenas, o andamento é outro. A vida, parece-me, corre num ritmo mais lento, respira-se outro ar e o tempo transfigura-se, dando-nos como que, mais tempo.
Eu gosto de lugares como este, pequeno e calmo, onde há espaço e tempo para viver ao ar livre. Faz-me falta essa liberdade. Eu gostava de viver num lugar assim, talvez mais a Norte, preferencialmente com menos calor e, se possivel, com menos turistas.

15 junho 2010

ponte Vecchio

Numa recentíssima visita à Itália, visitei várias cidades da Toscana, das quais destaco Florença (Firenze) que foi, aliás, a motivação principal desta viagem. Terra onde a língua italiana se formalizou e onde nasceu o poeta Dante, Florença é o berço do Renascimento e, quem lá vai, percebe logo porquê. Mas aquilo que mais me chamou a atenção foi a ponte Vecchio sobre o rio Arno. Esta velha ponte dizem ter sido construída em madeira ainda no tempo da Roma Antiga, é famosa porque tem, de ambos os lados, lojas suspensas, principalmente, de ourives e lavrantes de prata. Foi destruida por uma cheia em 1345 e reconstruida em 1354. Diz-se que, durante a 2ª guerra mundial os Nazis, que destruiam todas as pontes para travar o avanço dos Aliados, preservaram esta, optando por obstruir os extremos com os destroços dos edifícios dessas extremidades.
Mas aquilo que me prendeu a atenção e aguçou a curiosidade foi este molho de cadeados que estão agarrados do lado de fora do muro poente da ponte. A determinado momento, e enquanto descansava à sombra das velhas lojas, espreitei para o rio no lado poente da ponte e vejo este monte de cadeados, num novelo enorme e confuso. Não percebi a razão da sua existência, mas logo desconfiei que algum significado tivesse. Pois bem, bastou uma pesquisa simples na internet para encontrar isto:

Desde sempre alberga lojas e mercadores, que mostravam as mercadorias sobre bancas, sempre com a autorização do Bargello, a autoridade municipal de então. Diz-se que a palavra bancarrota teve ali origem. Quando um mercador não conseguia pagar as dívidas, a mesa (banco) era quebrada (rotto) pelos soldados. Essa prática era chamada bancorotto. (...) Ao longo da ponte, há vários cadeados, especialmente no gradeamento em torno da estátua de Benvenuto Cellini. O facto é ligado à antiga ideia do amor e dos amantes: ao trancar o cadeado e lançar a chave ao rio, os amantes tornavam-se eternamente ligados. Graças a essa tradição e ao turismo desenfreado, milhares de cadeados tinham de ser removidos com frequência, estragando a estrutura da ponte. Devido a isso, o município estipulou uma multa de 50 euros para quem for apanhado, em flagrante, a colocar cadeados na ponte.

09 junho 2010

momentos

Gosto muito de estar aqui. Bem aqui. Neste lugar acompanhado, sempre bem acompanhado. Mas acima de tudo, sozinho comigo, nos encontros e desencontros diários, preenchidos de diferentes ruídos e de profundos e longos silêncios. Meus. Daqueles que só eu escolho e, assim, os vou alternando em cada momento, hora e dia.
Outros momentos há, normalmente, angustiantes, em que a vontade é estar em qualquer outro lugar, menos aqui. Esse lugar, que não aqui, poderá ser onde for, desde que aí possa continuar os tais momentos. Sim, meus e egoistas. Fazem-me falta.

08 junho 2010

na cabeceira IV

Tinha oferecido este livro ao meu pai pelo Natal. Sei que ele logo o leu, assim como a minha mãe. Agora foi a minha vez de o ler. Falando-nos exclusivamente das suas memórias infanto-juvenis José Rentes de Carvalho descreve pormenorizadamente as paisagens rurais das terras transmontanas e as paisagens urbanas de Gaia e Porto da sua meninice. Demonstra-me (aquilo que eu já suspeitava) que é um grande escritor. Depois das pequenas narrativas do seu blogue e agora com este "Ernestina", fico obrigado a conhecer o resto da sua obra.

04 junho 2010

03 junho 2010

em Junho, futebol

Não gostei! Venha a próxima...

01 junho 2010

dos manos



Acabou de me chegar às mãos, ofertada pelos meus queridos irmãos, esta caixa de 6 cds dos The Doors, gravados ao vivo em Nova Iorque no Felt Forum em 17 e 18 de Janeiro de 1970. Presumo que tenha sido importado, pois não me lembro de ver esta capa por aí, em lado algum. Grande presente. Estou a ouvir, vou ficar a ouvir, até acabar...

28 maio 2010

na cabeceira III

Num encontro para comemorar o centenário da República portuguesa foi-me apresentado o arquitecto Luís Mateus, que estava presente na qualidade de orador. Nunca ouvira falar dele nem da sua Asssociação Repúblicana, no entanto, foi desde o primeiro momento cordial e afável, o que motivou desde logo, penso eu, uma empatia recíproca. Ficámos na conversa acerca das identidades, dos sentimentos de pertença e da construção de narrativas locais, regionais, nacionais, transnacionais. A certa altura, para ilustrar uma ideia, ele refere um autor Libanês, que um dia no preâmbulo deste livro terá escrito:
Outros que não eu teriam falado de "raízes"... Não emprego esse vocabulário. Não gosto da palavra "raízes" e da imagem ainda menos. As raízes enfiam-se na terra, contorcem-se na lama, crescem nas trevas; mantêm a árvore cativa desde o seu nascimento e alimentam-na graças a uma chantagem: "Se te libertas, morres!"
As árvores têm de se resignar, precisam das suas raízes; os homens não. Respiramos a luz, cobiçamos o céu e quando nos metemos na terra é para apodrecer. A seiva do solo natal não nos sobe pelos pés em direcção à cabeça, os pés só nos servem para andar. Para nós só as estradas contam. São elas que nos guiam - da pobreza à riqueza ou a outra pobreza, da servidão à liberdade ou à morte violenta. Elas fazem-nos promessas, levam-nos, empurram-nos e depois abandonam-nos. E então morremos, tal como nascemos, à beira de uma estrada que não escolhemos.
A citação que não terá sido, compreensivelmente, fielmente verbalizada, ficou-me na memória, mas como é normal em mim, não consegui sequer fixar o nome desse autor, apenas que era Libanês. Fiquei a pensar nesse momento e nessa citação. Regressado ao Porto, depressa procurei encontrar o rasto a tal obra. Fui a uma Fnac e logo descobri o nome e a certeza que existia um exemplar desse livro numa outra loja em Lisboa. Fiz o pedido e passadas 2 semanas pude ir buscá-lo à loja. Vinte euros por cerca de 420 páginas de texto. Ávido procurei o preâmbulo em busca de tal citação. Hoje, passados três dias, acabei a leitura desta história auto-biográfica, talentosa e virtuosamente bem escrita.

imaginário

O imaginário é como um museu de imagens, sejam elas passadas, possíveis, já realizadas ou a realizar e pode manifestar-se em todas as ocasiões, seja nos sonhos, nos delírios, nas visões ou mesmo nas alucinações. O homem não pode viver sem imaginário, sem o prazer do imaginário porque ele é, antes de tudo, um antídoto do medo, principalmente do medo da morte porque, felizmente ou infelizmente, o homem é o único animal a ter consciência dela.
Alfredo Saramago

24 maio 2010

memória

Na minha aldeia, nunca houve cemitério. As sepulturas estão espalhadas pelo meio das casas, por vezes nos promontórios, por vezes num olival - como no caso do meu pai -, no vinhedo dos eirados, ou sob uma árvore centenária. Há também campas muito antigas escavadas em rochas e pelas quais se interessaram os arqueólogos...
No que diz respeito ao meu avô, garantiram-me que ele tinha sido enterrado não longe de sua casa, num campo de amoreiras - sem mais precisão; fui então à sua procura com dois anciãos da aldeia, que o tinham conhecido na infância, que tinham assistido outrora às suas exéquias, e que me indicaram uma fila de velhas campas dizendo que seria "provavelmente" uma daquelas. A ideia que eu quisesse saber exactamente qual era parecia-lhes meritória, mas absurda - e para falar verdade, um capricho de emigrante.
Amin Maalouf

18 maio 2010

evidência

A proximidade traz-nos o pormenor. Permite-nos aceder à região quase íntima, onde conseguimos com todo o cuidado contemplar os sucessos da criação e os insucessos da manutenção. Essa quase intimidade, quase sempre, revela-nos a imperfeição dos detalhes que, consequentemente, nos repelem os sentidos e afastam as ideias. Detalhes, que é como quem diz defeitos, que existem e estão lá para serem descobertos. E tem havido sempre uma descoberta, um qualquer detalhe que logo repele os sentidos. Sempre ou quase sempre, menos em ti.

16 maio 2010

deste fim-de-semana

Coimbra

Figueira da Foz

Viana do Castelo

13 maio 2010

sinais de fumo

A conversa, assim saboreada e sentida, franca, desinibida e descontraída, consciente, reflectida e acutilante traz-nos sempre, ou quase, o melhor que há para ser falado, dito ou discutido. Partindo de posicionamentos diferenciados e perspectivas várias, os assuntos lançados para cima da mesa ganham outra dimensão, outra vida, outro interesse e/ou motivação. Assim se passam, e bem, momentos, horas das nossas vidas. A pretexto de uma qualquer refeição, sabemos que aquilo que nos lá leva é sempre a possivel conversa, muita conversa... e claro, quando não, alguma desconversa.
A propósito das perceptiveis actualidades, muito facilmente nos apercebemos e nos encontrámos no abismo civilizacional que temos experimentado, pelo menos naquilo que a nossa memória nos permite alcançar. Aquilo que fomos e somos, aquilo que tivemos e temos, aquilo que pudemos e podemos. As crianças que fomos, as crianças que agora são. Como nós fazíamos e como elas agora fazem.
Tudo isto para chegarmos à conclusão que, afinal, há sempre um passado; que, afinal, também nós vivemos uma antiguidade; que, afinal, também nós fizemos os nossos sinais de fumo.

09 maio 2010

tertúlia pós-laboral repúblicana e revolucionária


Este foi o grupo de amigos que sobejou até de madrugada da iniciativa da Assembleia Municipal e Câmara Municipal de Bragança - Debate sobre a República e o 25 de Abril, 1º de um ciclo de 4 debates a promover no âmbito do programa das comemorações do Centenário da República no municipio de Bragança. Aconteceu ontem, dia 7 de Maio, no Auditório Paulo Quintela e os oradores convidados para este 1º encontro foram o Coronel Vasco Lourenço (ao meu lado direito e 5º a contar da esquerda da fotografia) e o Arquitecto Luís Mateus (ao meu lado esquerdo e 3º a contar da direita da fotografia). Agradeço o envio da fotografia ao "taberneiro" amigo, José Lourenço (o da boina...), deste momento intimista de partilha de experiências e vivências únicas daqueles que nos propíciaram o país e a sociedade que hoje somos. Aquilo que ouvi(mos) e pude(mos) dizer, não irei esquecer. Foi um momento grande e bonito para mim. Senti-me constituinte vivo de uma dada história, pois pude partilhar ideias e, principalmente, reflexões com um dos heróis de Abril.

06 maio 2010

apanhado pelo grande irmão

de feiras e dias soltos

- Giddens, Anthony, 2009, Sociologia (7ª edição), Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian;
- Domingues, Álvaro, 2009, A Rua da Estrada, Porto, Dafne Editora;
- Lechner, Elsa (org.), 2009, Histórias de Vida: Olhares Interdisciplinares, Porto, Edições Afrontamento;
- Alegre, Manuel, 2010, O Miúdo que pregava pregos numa tábua, Alfragide, D. Quixote;
- Gonçalves, Joaquim, 2003, Santuário da Senhora da Graça no Monte Farinha, Mondim de Bastos, Casa das Estampas do Santuário;
- Pelayo, Primo Casal, 1988, A Ermida do Monte Farinha, Mondim de Bastos, Edição de autor;
- Steiner, George, 1992, No Castelo do Barba Azul, Lisboa, Relógio D'Água;
- Elias, Norbert, 2006, O Processo Civilizacional, Lisboa, D. Quixote;
- Ramos, Francisco e Silva, Carlos, 2003, Tratado das Alcunhas Alentejanas, Lisboa, Edições Colibri;

05 maio 2010

happy hour

Pela primeira vez visitei a Feira do Livro de Lisboa no Parque Eduardo VII. Para além dos livros que comprei a bom preço e das inúmeras editoras presentes, gostei principalmente da presença de alguns alfarrabistas, se não me enganei, contei três expositores destes especialistas do livro "velho" e "gasto". Outro aspecto que muito apreciei foi a existência de uma "happy hour", todos os dias de 2ª a 5ª feira, entre as 22:30 e as 23:30, período em que muitas editoras vendem os seus livros a 50% do valor de capa. Muito interessante este conceito que, para além de permitir adquirir livros a preços espectaculares, leva a que haja uma afluência maior de visitantes a essa hora tardia. Poderiam bem exportar este conceito para a Feira do Livro do Porto. Aguardemos com expectativa.

01 maio 2010

espelhos

29 abril 2010

instantes urbanos XI

Tendo que ir à Biblioteca Municipal do Porto, ali junto ao Jardim de Marques de Oliveira, mais (re)conhecido por S. Lázaro, consegui estacionar o carro mesmo junto ao edifício da biblioteca na Avenida de Rodrigues de Freitas, peguei na carteira e fui à máquina retirar ticket de estacionamento. Reparei que mesmo antes de sair do carro, uma fulana passa no passeio e fica declaradamente a olhar para mim. Segue mais um pouco no passeio e senta-se numa escadaria do edifício da biblioteca, continuando a olhar para mim. Como não a conhecia, ignorei-a, passei por ela e fui buscar o ticket. Quando regresso ao carro, está ela no meio do passeio com um provocatório sorriso, a olhar para mim. Pensei mesmo que iria meter conversa comigo, mas enganei-me, passei ao seu lado, pûs o papelzito no carro e lá fui à minha vida. Passadas duas boas horas de leituras e consultas bibliográficas, saí do edifício e regresso ao carro. Ao contornar a esquina da Rua de D. João IV com a Avenida de Rodrigues de Freitas, uma outra senhora que eu diria na casa dos 50 anos, ao ver-me passar, acompanha-me com o olhar e, a uma certa distância, diz:
- O senhor quer ir dar uma volta comigo até ali à pensão?
Sem suspender o meu andamento, olhei para ela e respondi-lhe: - Não, muito obrigado. Desviei o olhar e segui o meu trajecto. Para trás a deixei, mas ainda pude ouvir o comentário: - É pena... paciência.
Já no carro e a caminho do meu próximo destino (magnífica Ribeira do Porto), não pude deixar de pensar naqueles instantes... Sei há muito tempo que aqueles quarteirões entre o Jardim de S. Lázaro, o Largo do Padrão e a Rua Coelho Neto são pontos de venda de sexo, já muito por ali passei de um lado para o outro, mas nunca fui de tal forma abordado, o que me levou a conclusão de que tal atitude, invertida e agressiva, não será mais do que o reflexo da crise que se faz sentir, inclusivé no ramo do sexo.

23 abril 2010

via sms

eu quero te tanto, tanto mais do que eu sei dizer. mil vezes mais do que eu sei dizer.

dia 23 de Abril e o pretexto para ir buscar e ler este livro com uma capa horrível

Eu já sabia que mais tarde ou mais cedo ia comprar este livro. Seria apenas uma questão de tempo. Ainda antes de o ter pago já lera mais de metade e mal cheguei aqui, acabei de o ler. Estou aqui a escrever e a pensar como gosto da escrita de Manuel Alegre, clara e simples, quase sempre autobiográfica. Cento e qualquer coisa páginas de bom português que, em vários momentos, me fizeram arrepiar os sentidos, pois fala-nos da "vida de tantas vidas na tão curta vida". E andam para aí alguns armados em "escritores", cujas medidas são os quilos de papel vendido, ou cujos critérios de qualidade são as centenas, quando não milhares, de páginas impressas.
Desculpem a confusão, até porque, normalmente, não gosto de misturar águas, mas é também por isto que gostava de ver em Belem alguém que não seja tecnocrata, economista ou gestor, mas sim um humanista, desformatado e com memória, cujo discurso e prática se reveja na vida pequena das pessoas. Assim é este Miúdo que pregava pregos numa tábua.

"Ou como a própria Sophia num café em Porto Covo, os dedos da mão direita dedilhando enquanto a esquerda segurava o cigarro, nessa tarde em que ela queria seguir para Lisboa por uma estrada junto ao mar, ainda hoje sinto remorso de lhe dizer que não havia estrada nenhuma, ela insistia que sim, havia uma estrada no poema que ela estava a dedilhar e não devíamos ter hesitado, devíamos ter ido com ela por essa estrada fora." (2010:69)

22 abril 2010

segurança

Reparo, como nunca antes o fizera, e observo atenta e demoradamente o segurança deste espaço comercial. É verdade que, de tão habituados que estamos a vê-los por todo o lado, já nem reparamos na sua presença. É algo que faz já parte do moderno "mobiliário" citadino. Este que aqui está à minha frente, presumo, terá por missão ou responsabilidade controlar a entrada e saída de clientes e seus objectos. Por isso, está posicionado entre a porta exterior e os sensores do alarme, por onde tudo e todos são obrigados a passar. A cada acender da luz e soar do alarme, lá está ele em acção, solicitando a revista aos sacos, carteiras ou objectos passíveis de terem sido os provocadores de tal alarido.
Vestido a rigor, quer isto dizer, com a farda da empresa de segurança privada que lhe paga o vencimento, devidamente identificado com um crachá ao peito e equipado com um rádio comunicador, que tráz preso por um clip, no fundo das costas, ao cinto e um auricular, por onde de vez enquando comunica com alguém. Durante longos períodos de tempo mantém-se imóvel, libertando apenas o olhar para acompanhar todos quantos passam pela sua área de "influência".
Se atento, nesta sua posição estática, percebo-lhe alguns tiques nervosos, depois vai alternando a postura das mãos que, ora estão cruzadas atrás do corpo, ora viajam para a frente e vão-se encontrar num entrelaçar de dedos. Muito de vez enquando dá uns passos, como que para acordar o corpo e seus músculos. Percebo, igualmente, a sua calma mas atenta atitude perante qualquer movimento. Enquanto o observo ele vai olhando para mim, jamais imaginando que sobre ele escrevo.
Ser segurança é isto. Estar assim ali, praticamente quieto o tempo todo, todo o tempo do seu turno diário, garantindo assim a segurança e bem estar de todos que aqui se encontram. Tarefa ingrata e sem reconhecimento, digo eu... Sem querer ser injusto ou depreciativo, pergunto-me como conseguem estar assim durante tantos minutos, tantas horas, tantos turnos, tantos dias? Tantos dias, tantas semanas e meses, depois anos até à sua reforma ou pré? Só pode ser terrivelmente entediante e cansativo. Por outro lado, propício para a introspecção e divagação... às tantas, só aqui estão em corpo presente... a sua mente estará algures... Para seu próprio bem e saúde, espero que, com todo este tempo disponível, consigam exercitar-se mentalmente, viajando e divagando. O que lhe passará pela cabeça? O que pensará ele daqueles que por ele passam e ele olha? O que pensará ele quando olha para mim?
Ser segurança é isto. Retórico termino, perguntando: Quem quer ser segurança? Quem tem que.

17 abril 2010

paragens outras

16 abril 2010

12 abril 2010

na cabeceira II

Já tinha lido uma referência (posítiva) a este trabalho do geográfo Álvaro Domingues no último número da revista LER. No passado Sábado, tive o prazer e o privilégio de o ouvir apresentar esse mesmo trabalho e, no final dessa apresentação, pude conversar um pouco com ele. Ontem, enquanto aguardava a hora do comboio chegar, aproveitei para procurar "A Rua da Estrada" nas livrarias da capital. Muito interessante a viagem que este professor nos convida a fazer pelas "ruas" das "estradas" do nosso país urbano, mostrando-nos a dimensão da desorganização, desordenação e da desestruturação do país, que todos os dias percorremos e no qual vivemos... "é como um híbrido com a sua identidade cruzada e manipulada, ou ainda pior, como um transgénico que incomoda pelo simples facto de transgredir aquilo que o originou, no limite, a obra do próprio Criador." (o autor)
Muito bem escrito, perspicaz e humorístico, com uma excelente e oportuna fotografia. Bem construído. Aconselho vivamente a leitura, pois irão reconhecer-se. Resta para esta última linha um desabafo: como nunca ninguém fez isto antes? Exercício que eu, tu ou ele poderíamos ter conseguido...

10 abril 2010

pesquisas, leituras, descobertas, surpresas, raridades e constatações

É neste mágnifico edifício, com traça e perfil à Estado Novo, que está instalada a Biblioteca Nacional. Foi aqui que passei todo o dia de ontem, 6ª feira, dia 9 de Abril. Nunca antes sentira a necessidade de descer à Capital para fazer pesquisa bibliográfica e/ou documental, mas desta vez, dada a escassez de informação disponível, lá teve que ser. E bem, pois foi um dia muito bem passado e proveitoso. Inicialmente, custou-me a perceber os procedimentos de funcionamento (entrada, pesquisa, inscrição, requisição, etc.) mas logo depois, percebendo a lógica, tornou-se simples. Assim, dei entrada cerca das 9:30 e por lá fiquei até às 19 horas, com intervalos apenas para ir à casa-de-banho e para ir ao bar da instituição enganar o estômago com uma sande.
O primeiro momento de pesquisa é muito interessante pois basta colocar as palavras-chave ou assunto e logo nos surge um resultado de pesquisa com todos os documentos relacionados, o que nalguns casos é uma lista impressionante, em quantidade mas também em qualidade. Desde logo, depois de pesquisar os assuntos que ali me levaram, soube que o dia de ontem seria pouco para tamanha leitura e consulta. Depois da pesquisa e da requisição, mesmo antes de me dirigir para a sala de leitura (que impressiona pelas dimensões), lembrei-me de pesquisar pelo meu nome, o que logo resultou em dois registos e uma referência ao meu nome como: "Vale, Luís (1973- )"... Bem, pelo menos não sabem em que ano irei falecer. Já não é mau.
Foram muitas horas de leitura, de obras e textos que iam sendo trazidas até mim, à medida que ia requisitando, em carrinhos conduzidos por simpáticas colaboradoras. Mesmo ao lado da sala de leitura, uma sala de fotocópias, disponível para qualquer tipo de reprodução que, apesar de um preço pouco convidativo, é preciosa para ganhar tempo para a leitura. Como aspectos menos positivos apenas referir que não paravam de passar aviões a uma altura impressionantemente baixa e cujo ruído, a cada 3 minutos, me desconcentravam da leitura, como que a cada momento estivesse à espera do embate final... Também, muito mau, foi o facto de não conseguir aceder à internet durante todo o dia, pois não havia rede suficiente.
Certo é que só da pesquisa que ontem fiz e não tive tempo de consultar, terei que lá voltar mais vezes, provavelmente, muitas vezes. Não faz mal.

03 abril 2010

páscoa

Olhando à minha volta, por este dias, tenho-me apercebido de algo diferente no comportamento das pessoas. Tenho a sensação estranha de que algo maior, poderoso ou forte está a trabalhar arduamente num novo conceito de Páscoa. Não me lembro de haver - ver, ouvir e sentir, determinados referentes a esta época, para alguns, festiva em anos passados. Não será um fenómeno iniciado este ano, nem tão pouco original, mas nota-se que tem havido investimento sério no sentido pedagógico, ou mesmo ideológico visando mercantilizar a celebração desta festa primordial e exclusivamente religiosa. Temo que estaremos a viver a génese de um qualquer fenómeno que nos levará a uma "natalização" ou a uma "painatalização" da Páscoa, onde o consumo, a dádiva e o aparato da parafernália das marcas, dos sacos e dos laçarotes, nos serão impostos, sem que haja um minimo de reflexividade individual ou colectiva. É que onde quer que tenha ido nestes últimos dias, tenho sido presenteado com os votos de uma "boa" e/ou "santa" Páscoa... as páginas das redes sociais têm sido invadidas com votos e desejos do mesmo quilate... os telemóveis já vibram e tocam com motivos/temas alusivos e carinhosas mensagem que nos obrigam à respectiva retribuição... as crianças recebem aparatosos embrulhos com sortidas guloseimas e, para cúmulo, já se vêem por aí alguns petizes questionando, quando não obrigando, seus progenitores pelos presentes da Páscoa...
Poderíamos até estar perante um qualquer processo evolutivo de patrimonialização ou até mesmo de destradicionalização da ritualização da Páscoa. Mas não. O último e único propósito destas novas narrativas construidas por essas forças obscuras é, será o seu próprio e monstruoso lucro. Estou consciente disso e, por isso, em nada pretendo contribuir para essa "paróquia" esquizofrénica. Guardo recordações bonitas destes dias passados, em reunião familiar e afins que, mesmo sabendo não os poder voltar a experimentar, relembro quando me deparo com o actual aparato adocicado. Atenção aos próximos desenvolvimentos.

02 abril 2010

número noventa


Um bom número da revista Ler, que me ocupou um bom par de horas de leitura em final de noite. Logo a abrir, no editorial de Francisco José Viegas, fiquei a saber que a revista "Os Meus Livros" acabou, o que não deixa de ser uma triste notícia. Depois, destaco o excelente artigo de Pedro Mexia acerca de Pedro Passos Coelho e o seu livro "Mudar", no qual Pedro Mexia desconstrói a figura e o discurso do agora presidente do PSD... "De facto, o jovem político de 46 anos faz um longo relatório sobre a pátria, do feudalismo à EFTA, mas com que propósito? «Não é a erudição que me interessa neste texto», avisa, como dizendo que a tem mas não nos quer maçar. Em vez de uma mescla de Mattoso com José Gil, temos por isso um artigo de Wikipedia sobre Portugal. Não aquenta nem arrefenta. Talvez seja isso o 'passismo'. Passa-se bem sem ele."
Outro bom texto é o da responsabilidade de Paulo Ferreira (Booktailoring) acerca da polémica destruição de livros não comerciáveis que a LeYa promoveu, relembrando que essa destruição de livros é uma prática recorrente nas editoras que não podem armazenar eternamente todos os títulos que editam, tanto mais que hoje os livros têm aquilo que se chama "prazo de validade de iogurte".
Depois, o desabafo de José Mario Silva acerca da dificuldade que sente, enquanto moderador de mesas-redondas ou apresentações de livros, sempre que chega o momento do público intervir, pois a heterogeneidade de "perguntadores" assusta-o, principalmente, "aqueles que se apropriam do microfone sem intenções de o largar, pelo menos até começar o "Fórum TSF" onde devem ter lugar cativo, seja qual for o assunto em discussão."
Ainda o excelente texto de Filipe Nunes Vicente que partindo das visões de Pascal e de Freud acerca da relação do Homem com o divertimento, nos leva de diversão em diversão até à miséria... "as grandes diversões, paulatinamente, assumem o papel anteriormente exercido pelos narcóticos: tornam-nos indiferentes às limitações da vida".
Rogério Casanova traz-nos um Manual de Escrita Criativa que começa com a questão: "Poderá qualquer pessoa escrever criativamente?". Divertidamente diz: "Felizmente para vocês, com o aconselhamento adequado e com alguma disciplina, é possivel transformar a mediocridade em competência".
Por fim, a entrevista de Carlos Vaz Marques a Manuel Alegre, de quem gosto, também, por ser um lírico.

31 março 2010

ovo da república

27 março 2010

25 março 2010

desassossego

Diziam dela que era a mais bonita, a mais esplendorosa de toda a região. Detentora de uma considerável legião de fiéis e devotos, tinha as suas graças e, por isso, fazia inveja, inclusivé, às demais entidades divinas. O seu povo era zeloso e preocupado com o seu bem-estar. A devoção obrigava-os a redrobada dedicação e a cuidada festividade em sua honra. Um dia terá sido convidada para ir festejar com uma irmã que habitava bem perto da raia espanhola. Devidamente engalanada e ricamente decorada levou consigo parte da sua gente. Mal chegou, no alto do seu andor, sua beleza atraiu todas as atenções e não demorou muito até terem começado a namorá-la, de tal forma que foi a custo que os seus fiéis conseguiram evitar que a levassem para Espanha. Dizem uns que a queriam roubar, dizem outros que a queriam raptar. A verdade é que foi tamanho o alvoroço e a confusão que só sossegaram quando regressaram à sua aldeia. Foi então tempo de lhe prometer que nunca mais a levariam dali.

lenço

Habituara-me a vê-la assim, quieta nos modos e simpática no atendimento, atrás do balcão. Sempre com um lenço na cabeça que apenas lhe deixava a descoberto um rosto redondo, que trazia consigo o estigma sofredor de uma qualquer doença. Sempre que lá fui, as muitas vezes, enquanto aguardava a minha vez, olhava-a tentando perceber qualquer sinal de sofrimento, tentanto alcançar tamanhas dores de horas, dias, meses ou anos. Num destes dias regressei lá e foi com surpresa primeiro e depois com satisfação que a reconheci no mesmo lugar de sempre, sem lenço e apresentando ao mundo um curto mas vigoroso cabelo preto. Assim se desvaneceu a condenação e, às tantas, quando lhe descobri um ligeiro sorriso, percebi a vida nova que ali estava. Que bom.

23 março 2010

destes e de outros tantinhos dias

  • Lipovetsky, Gilles e Serroy, Jean, 2010, A Cultura-Mundo: resposta a uma sociedade desorientada, Lisboa, Edições 70;
  • Fernandes, Armando (texto) e Ferreira, Maria José (desenhos), 2010, O meu nome é Bragança, Bragança, Edição da Câmara Municipal de Bragança - oferta;
  • Vasconcelos, José Leite de, 2007, Etnografia Portuguesa - volume X, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda;
  • Fortuna, Carlos e Santos Silva, Augusto (orgs.), 2002, Projecto e Circunstância - culturas urbanas em Portugal, Porto, Edições Afrontamento;

21 março 2010

17 março 2010

velocidades

Quando das primeiras experiências ao volante e quando aprendi a conduzir, os automóveis ainda só tinham 4 velocidades (mais a marcha-atrás) e foi com essa mecânica que fiz a minha aprendizagem enquanto cidadão encartado e devidamente autorizado para conduzir e, muitas vezes, inconsciente dos reais perigos, meter-me em confusões e aventuras. A velha R12 lá de casa foi um excelente carro de ensaios. Depois, lá veio a estonteante novidade da mecânica automóvel que acabou com décadas e décadas de hábito a 4 e passámos a ter disponíveis automóveis equipados com caixa de 5 velocidades. Concerteza, alguns desgraçaram as suas vidas com essa inovação mecânica e tantos outros, que não a conseguiram compreender, ainda hoje conduzem os seus automóveis só tendo em conta essas 4 velocidades. Eu conheço alguns.... Mais recentemente apareceram os carros com caixa de 6 velocidades. Eu tenho um. Estou completamente ambientado e habituado a engrenar qualquer uma dessas velocidades. De tal forma que, não raras vezes, dou comigo a querer passar de 6ª para 7ª velocidade. Asneira. Ainda não tenho. Intuitivamente faz-me falta. Vejam lá se tratam disso.

16 março 2010

a minha regionalização

(imagem roubada do blogue Regionalização)

novas paisagens rurais

A desestruturação do território nacional evidenciada pelos estudos realizados, permite perceber o “vazio” a que o território não urbano está sujeito. Este artigo é um olhar sobre esse vasto território desestruturado e carente de investimento, no sentido de analisar e perceber as novas dinâmicas, os novos agenciamentos das novas paisagens rurais. Os diferentes mundos rurais. Tipologias emergentes, intervenientes e processos locais de translocalização e transnacionalização verificáveis na costa oeste da Europa.

Este é o resumo do meu contributo para o projecto editorial da Burkeley University "Globalization and Metropolization: new developments in Europe's West Coast". Tendo prazos para cumprir - e hoje era um desses prazos intermédios, tenho conseguido dar resposta, ainda que a custo e à custa de maratonas noturnas que me vão afastando do sono. Agora, descansar, depois regressar para finalizar texto até ao final do mês de Março.

11 março 2010

queda de viadutos e afins

A palavra queda tem associada uma carga negativa muito expressiva e, se calhar, por isso somos educados a evitar perigos e vivemos num ambiente que tende a afastar essa perigosidade. Contudo, não conseguimos arredar da nossa experiência de vida esse perigo latente. A palavra queda significará esse perigo eminente, que espreita a cada esquina e a cada passo que damos - do puto que esfola o joelho, ao jovem que cai da bicicleta e parte a cabeça, ao adulto que é vitima da incúria e da irresponsabilidade de terceiros nas estradas, ao idoso que simplesmente cai e se desmancha. É inevitável. Queda significa dor, perigo, doença, ferimento, morte. Algo do qual todos e cada um de nós foge o mais que pode...
Num incidente como aquele que aconteceu ontem, em Amarante, não sei como se pode evitar o perigo.
O infeliz azarado que ficou esmagado debaixo daquele monte de ferros retorcidos, muito provavelmente nem teve tempo de perceber o que lhe estava a acontecer. Foi, de facto, uma morte aleatória e é precisamente esse factor (sorte/azar) que me perturba neste momento. Por acaso foi ele, mas poderia ter sido qualquer outra pessoa, poderia até ter sido eu, que por lá passei uns cinco minutos antes do trágico incidente. Poderia ter sido eu. Não fui.

10 março 2010

espelhos


mais à frente...

08 março 2010

oxalá te veja

espelhos

02 março 2010

recontagens

Aqui há tempos soube da morte do Tio Laurindo, mais recentemente foi a vez do velhinho Tio Firmino morrer. Chega-me agora a notícia que o Tio Norberto está mal de saúde. Está muito doente. Internado no hospital (que um dia foi distrital) vai recebendo a visita daqueles que ainda podem lá ir. Estes dizem que faz dias que ele nada come e que perdeu já para cima de trinta quilos. Consciente e sem dores perceberá que o mal que padece lhe leva, rapidamente, a vida.
Sou assim levado para esta contabilidade triste de ter que dizer que ainda somos tantos. E digo "somos" com a propriedade de quem se inclui, de quem também se considera, de quem também quer fazer parte. A própria utilização do termo "Tio" trá-los para perto, bem perto de mim. É reveladora de uma proximidade tão típica das cortinhas e das águeiras dos lugares pequenos, por onde todos andámos. Circunscritas permitem reconhecermo-nos. Muitas vezes recordo um outro Tio, velho amigo entretanto falecido, que muitas vezes comentava, para quem o queria ouvir, que se lembrava de mais pessoas já falecidas do que aquelas que conhecia ainda vivas.
Também eu começo a olhar em meu redor e apercebo-me que à medida que o tempo passa, que o meu tempo se vai gastando, com ele o meu passado vai ganhando espaço e a memória importância. Não sei como estará o meu saldo nesse deve e haver das pessoas conhecidas. Nem me importa. Vou-me lembrando delas. Sei é que gosto muito de estar com elas.

19 fevereiro 2010

espelhos

16 fevereiro 2010

na cabeceira I

Nos últimos dias, ou melhor, na última semana este foi um dos livros que me ocupou os últimos minutos antes de adormecer, em cada noite. Trago-o aqui porque me surpreendeu, não sei se pelas melhores ou se pelas piores razões, pois este senhor, Martin Page, consegue retratar a história do território luso desde 700 a.c. até ao século XX, em apenas cerca de 300 páginas de texto. E que texto! Se nada soubessemos acerca dessa mesma história com a leitura desta optimista elegia, que nos transfigura nos grandes obreiros do mundo, ficaríamos com a melhor das opiniões acerca dos nossos feitos. Este é um texto escrito ao estilo do Professor José Hermano Saraiva, ou seja, ligeiro mas pormenorizado, científico mas pantomineiro.
Como dos fracos não reza a história, cantemos alto nossas vitórias, ainda que passadas. Até porque, algures nesse mesmo passado, algo correu mal e a partir daí, foi sempre a degenerar até hoje, até à pequenez e à insignificância que tão bem nos caracterizam. Aconselhável a todos aqueles que nos (des)governam.

13 fevereiro 2010

instantes urbanos X

Num balcão, enroscados em cervejas

Entrei apressado num café café em Bragança. Estava cheio e com dificuldade consegui encostar-me a uma ponta do balcão. Enquanto ingeria a pequena mas necessária dose de cafeína, não pude deixar de ouvir o diálogo que dois individuos, a meu lado, mantinham:
"- Então diz-me lá, qual é a estação a seguir a Campanhã, depois da ponte?
- É General Torres!.. Então não sei. Eu andei por lá tanto tempo, conheço aquilo tudo...
- E a seguir, qual é?
- É Gaia.
- Então não é as Devesas?
- Sim é isso, é a mesma coisa... oh pá, então não!?...
- Áh, então é isso.
- Eu conheço aquilo, andei por lá durante muito tempo. Todos os dias ia de Campanhã para Parâmio, depois de Espinho. E depois das Devesas é Francelos. Então não é? Eu sei.
- Pois sabes, pois sabes."

12 fevereiro 2010

esferográficas

Hoje, numa conversa com um informante de um estudo em curso, fui presenteado com duas canetas vindas do lado de lá do Atlântico. Quando mas passavam para a mão, disseram: "- A vermelha é para ter sorte no amor. A prateada é para ganhar muito dinheiro." Não sei de onde raio virá tal crença e quais os seus significados. Agradeci a simpatia.

11 fevereiro 2010

o guia da noite na baixa do porto

"Ele há coisas a que um homem não pode dizer que não!" - assim dizia uma canção que Aguardela cantava. E foi precisamente desta frase que me lembrei quando, quase por acaso, encontrei este lugar virtual. Um guia da noite na baixa do Porto. Em primeiro lugar importa referir que há muito tempo deixei de ser consumidor da noite portuense (e de qualquer outra), o que não quer dizer que, ainda que a espaços, não faça uma ou outra incursão pelos novos e velhos espaços e lugares de consumo nocturno da cidade. Depois, este guia trouxe-me imediatamente à memória o tempo, já ido, em que frequente e teimosamente não conhecia outro habitat nocturno que não o Porto. Claro que noutros locais e noutros ambientes, mas até isso foi um exercício interessante, pois o mapa detalhado da baixa da cidade apresentado, permite-nos localizar cada um dos diferentes espaços, sua agenda e contactos. Dei comigo à procura daqueles espaços que eu frequentava...
Um projecto que se identifica com as espacialidades e as temporalidades da baixa portuense e pretende participar na construção de uma identidade em que o lugar marca o tempo e o tempo se explica referenciado pelo lugar.
Com uma boa apresentação, intuitiva e funcional (apesar de num primeiro momento aparecer muita informação e parecer, por isso, muito confuso, rapidamente o visitante percebe a lógica de funcionamento). Um outro aspecto importante, será a reunião e disponibilidade de todos os eventos num só portal, algo que não conhecia. O que significará, porventura, um desafio para a equipa deste projecto, pois implicará um grande esforço de concentração e organização de informação. Se isso for conseguido, não tenho dúvida da grande mais valia que será para cada um dos seus visitantes e assinantes, assim como para a própria indústria e, evidentemente, para a cidade do Porto. Eu já assinei a newsletter, pois apesar de não ser um assiduo consumidor, não invalida que possa estar a par daquilo que vai acontecendo na cidade e na noite dessa cidade. Também por isso vai directamente para os atalhos partilhados, mesmo aqui ao lado...
Conselho de amigo, frequentem.

07 fevereiro 2010

Ελληνικοu

Quando viajei para Atenas, em Maio de 2006, uma das surpresas foi a gastronomia local (leia-se grega) e desde então recordo com nostalgia alguns dos ingredientes por lá experimentados. Num esforço de reencontrar tais sabores, enquanto não regresso à Grécia, em viagens pelas cidades europeias procuro sempre saber se existem lugares cuja especialidade seja a cozinha grega. Com alguma sorte, ou azar, tal reencontro já sucedeu pelo menos em Madrid, em Paris e em Bruxelas. Ainda ontem, depois de ter sido informado por amigos da existência de uma casa de pasto grega na cidade do Porto, não hesitei em reservar mesa para essa mesma noite. Inadvertidamente, resolvi convidar um casal amigo para tal experiência. Inicialmente, o grupo seria muito maior, mas a incapacidade da sala não o permitiu...
Admito o entusiasmo perante a perspectiva de poder vir a experimentar, uma vez mais, tais sabores e odores, ainda por cima, bem perto de casa. Reserva feita, lá fomos. Num espaço pequeno, mas acolhedor, algumas referências iconográficas à "terra mãe" e um ambiente quente, embalado por sons nativos. Depois, as ementas eram confusas e pouco legíveis, o serviço era péssimo e aquilo que comemos não soube a grego. Enfim, o que grego nos deixou foi a conta que nos foi apresentada para pagar. A verdade é que ainda não foi desta que voltei a experimentar os ambientes que trago na memória. Aproximo-me da ideia de que apenas lá, e só lá.

04 fevereiro 2010

"rasto de hortelã"

A cerca de dois anos do fim dos seus dias, Rosa Lobato Faria escreveu a sua autobiografia para o Jornal de Letras. Encontrei esse texto e li-o. A minha vontade era colocá-lo aqui na íntegra, mas porque é relativamente extenso, fica o link para quem o quiser ler. Uma vida inteira tão bem (d)escrita.

03 fevereiro 2010

acabei de LER

Num número quase exclusivamente dedicado à ciência, gostei particularmente da entrevista de Carlos Vaz Marques ao Físico António Manuel Baptista e do ensaio de Jorge Buescu, intitulado "As Batalhas pela Ciência", no qual faz uma leitura sobre o clássico "as duas culturas" onde se percebe o "abismo de imcompreensão mútua" entre os cientistas e os intelectuais; descreve algumas das principais correntes de pensamento do século XX e dá especial relevo ao construtivismo social e à crítica pós-moderna da Ciência. Depois, o mesmo de sempre, vários títulos que quero e irei (não sei quando) comprar.

bonito

28 janeiro 2010

twix de palermas actualidades

Na agenda pública, partidária e mediática, nestes últimos dias sobressaem duas palermices:
- a Lei das Finanças Regionais, que tanto dislate proporciona às bocas dos líderes regionais, nomeadamente ao da Madeira, e às dos líderes dos principais partidos do continente. Assim, e que uma vez mais o parlamento português prepara-se para aprovar esta Lei que vem ofender, pela injustiça económica, todo o restante país. Tal como refere Eduardo Pitta no seu blogue, isto de "ser autónomo à custa dos outros é cómodo e barato". Numa altura em que é apresentado um orçamento de estado para 2010 que tem por tema central a contenção das despesas e a moderação nos investimentos, o Governo e o Sr. Ministro das Finanças curvam-se perante a birra trauliteira e insolência de Alberto João Jardim, que não percebeu ainda que se não fosse Lisboa e o País, a Madeira não passava de uma república das bananas. Literalmente. Mas se é isso que ele (João Jardim) e eles (madeirenses) realmente querem, força com a independência. Vamos lá tratar disso e, assim, acabar de vez com este eterno compromisso de avalizar todos os desmandos insulares. Força Madeira;
- o PIDDAC para 2010, conhecido ontem (?), que de uma vez por todas coloca Trás-os-Montes fora do mapa de Portugal. Inscrevendo uma verba pouco superior a um milhão de euros para o distrito de Bragança, o governo só pode estar a gozar com os contribuintes da região. Governo este que ainda há pouco foi eleito para novo mandato, também por gente de Bragança. Melhor seria não terem inscrito qualquer verba neste documento. A sério! Mais honesto teria sido escreverem no documento que o território de Bragança deixou de ser contabilizado no que a investimentos diz respeito. Que aguardam paliativamente o desaparecimento (morte e migrações) das suas populações. Sugestão: vendam a região a Espanha ou à Galiza que, concerteza, não seriam tão mal tratados. Ou então optem por uma solução tipo Madeira: região autónoma de Trás-os-Montes e dotem-na de verbas idênticas às da Madeira. Aí sim.
Assim, assimétrico, sobrevive o nosso país...

27 janeiro 2010

quem?

Sublinhado de uma das leituras recentemente efectuadas: Bauman afirma que se trata também, talvez mais do que qualquer outra coisa, de um estado de espírito. Mais precisamente, continua, o estado daqueles espíritos que têm por hábito (ou será compulsão?) reflectir sobre si mesmos, de procurar os próprios conteúdos e de os relatar: o espírito dos filósofos, dos pensadores sociais e dos artistas. O estado de espírito dos novos intermediários culturais, que parecem ser os grandes protagonistas da pós-modernidade, tal como a burguesia e a classe operária foram os protagonistas da modernidade.

24 janeiro 2010

parabéns

Aproveito para assinalar mais um aniversário deste espaço. O Apurriar surgiu em Janeiro de 2007, precisamente no dia 24, e ao longo deste três anos tem sido o fiel depositário dos meus estados de alma. Até quando não sei, mas vamos continuando e vamos bem. Aquilo que sinto, quando "folheio" estes três anos de textos e imagens, é que muito do que eu sou está também aqui e como sei que os amigos e amigas também por aqui vão passando, aproveito para lhes agradecer esse esforço, essa partilha. Será sempre com o pensamento (ilusão, talvez) que serei "desfolhado" por eles e elas, que me proponho prosseguir. Obrigado.

19 janeiro 2010

assim

Um encontro, ao contrário de todos os outros, demorado, dolorosamente silencioso e contemplativo. No regresso e já bem perto do último instante, as mãos que viajaram juntas comprimiram-se e, enquanto ele a guiava, o rosto dela inundava-se de lágrimas. Por fim, um beijo e um forte abraço, em silêncio. Depois disto, apenas um sms dela que dizia: "Desculpa-me tudo isto. Amo-te".

17 janeiro 2010

disponibilidade e bom senso

Como republicano, quero uma República moderna, escola pública, serviço nacional de saúde, protecção social, direitos políticos individuais articulados com os direitos sociais, culturais e ambientais.
Como socialista, acredito na possibilidade de construir uma sociedade mais justa e solidária, através de serviços públicos geridos, não pela lógica do lucro, mas pela realização do interesse geral, e através de um novo modelo económico onde se conjuguem planeamento e concorrência, iniciativa pública e iniciativa privada.
Como democrata, penso que o espaço e a intervenção da cidadania são o sal da vida pública e que a democracia participativa é indispensável à renovação da democracia representativa.
Como português, digo que Portugal é muito maior do que a sua dimensão geográfica e que pela história, pela língua e pela cultura é um dos países que pode ser no mundo um actor global.
(Manuel Alegre em Portimão no dia 15/01/2010)

16 janeiro 2010

Haiti

Será unânime o sentimento perante tragédias da dimensão desta que aconteceu no Haiti. Também eu me sinto terrivelmente angustiado com tamanha desgraça. Mais angustiado fico perante a dura constatação da real condição do Homem perante a força da natureza, que não escolhe data e local para se manifestar e reclamar, sem avisos prévios, aquilo que a sí pertence. É poderoso, é triste.
Ao mesmo tempo e perante toda a informação que nos invade, principalmente através da televisão, a quietude e o conforto da nossa civilização, vários são os pensamentos e os sentimentos que ganham forma e força, adulterando aquilo que deveria ser essencial e urgente para minorar o sofrimento daquela gente. Gente, miserável e desinformada, que habita um não-país, desestruturado, sem forças militares, sem recursos, sem governo e onde, imagine-se, o Presidente não tem onde dormir, nem onde trabalhar. Se já, antes desta catástrofe, estávamos perante um estado falhado, agora estaremos, sem qualquer dúvida, perante um estado terminado. Ainda hoje, Daniel Oliveira nas páginas do Expresso escreveu: "A terra, quando treme, treme para ricos e pobres. Mas quando o chão se mexe sob os pés de um miserável é bem mais dramática a sua queda. Porque nada o segura".
Aquilo que temos assistido, nestes dias que se seguiram ao desastre, é uma verdadeira disputa:
a) entre os órgãos de comunicação social que, quais Abutres à procura do melhor e maior naco de carne putrefacta, há muito ultrapassaram o dever da informação para, agora, alimentarem o voyeurismo macabro da desgraça alheia;
b) entre as nações, os estados e os países - da China ao Chile, da Rússia à Austrália, para ver quem vai primeiro, quem leva mais e quem será o grande salvador dessa pátria. Todos querem, genuinamente, ajudar e ainda bem, digo eu e todos aplaudem essa disponibilidade e prontidão. Mas, vão-me perdoar, os mais ingénuos e crédulos, a blasfémia: tudo soa mal e cheira a hipocrisia, pois todas essas nações tiveram mais que tempo para participar e contribuir para a construção deste país e, assim, quiçá, teriam evitado tamanha hecatombe humana.
Falharam as organizações transnacionais, nomeadamente as Nações Unidas, que nunca conseguiram criar um ambiente de paz e normalidade social naquele terço do território da ilha Hispaniola das Antilhas. Isso, agora, resultará num enorme drama social e humano, pois para além dos milhares de mortos que é preciso enterrar, para além dos incontáveis feridos que é preciso tratar, será preciso assistir e cuidar dos milhares de refugiados que, assustados e sem nada a perder, partiram em direcção à fronteira com a República Dominicana. O que fazer com toda esta massa humana de refugiados ambientais?
Assim, como escrevia ainda ontem (6ª feira) Miguel Esteves Cardoso no Público, "a grande tragédia é a nossa ignorância" e "o socorro é um filho triste dessa tragédia".
Assim, também, se processa a localização do mundo e o 4º e o 5º mundo continuarão a existir e haverá mais, muito mais sofrimento, aqui e acolá, não importa.

12 janeiro 2010

a força da palavra


Um livro incómodo ao ponto de ter sido sensurado (em 1996), escrito por alguém que acabou por ser "desterrado" para lugar incerto. Via Arrastão, consegui aceder ao link do ficheiro em pdf do texto na íntegra. Para quem quiser e puder, ler aqui. Eu já descarreguei o ficheiro para a pasta dropbox, para assim o poder ler em qualquer lugar.

10 janeiro 2010

ecos de imprensa


festa do livro 2010

De 7 a 27 de Janeiro acontece mais uma edição da festa do livro no Porto. A grande novidade desta edição acabou por ser a sua transferência do Mercado Ferreira Borges para a fundação Cupertino de Miranda, sem que por isso tenha havido notórias transformações ou alterações. Prevendo que a corrida aos saldos fosse grande, principalmente durante os primeiros dias e aos fins-de-semana, tratei de agendar a minha visita ao certame logo para a fase inicial, principalmente por motivações egoístas, ou seja, porque sei que será sempre nos primeiros dias que se encontram os melhores exemplares - mais variedade e melhor estado de conservação. Assim, ontem (dia 8) lá estive, durante mais de duas horas, à pesca de algo que me pudesse interessar. Levei comigo um amigo e uma lista de títulos em falta, mas nem um desses conseguí encontrar. Ao contrário do que costuma acontecer e para minha surpresa, não regressei a casa com muitos livros, nem fiquei com vontade de lá regressar. Para que conste:
- BARROS, Vitor Coelho, 2003, Desenvolvimento Rural, Lisboa, Terramar;
- MEDEIROS, António, 2003, A Moda do Minho, Lisboa, Edições Colibri;
- PAIXÃO, Pedro, 2000, Amor Portátil, Lisboa, Livros Cotovia;
- VIEIRA, António Bracinha, 1995, Ensaios sobre a evolução do Homem e da Linguagem, Lisboa, Fim de Século;
- NAVARRO, António Modesto, 2005, Morte em Vila Flor, Lisboa, Sete Caminhos;
- JÚDICE, Nuno, 2005, O Fenómeno Narrativo, Lisboa, Edições Colibri;
- FRAZÃO-MOREIRA, Amélia e FERNANDES, Manuel Miranda (org.), 2005, Plantas e Saberes, Lisboa, Edições Colibri;

Ler 87

Apesar de já ter chegado há uns dias, só agora a referência. Número dedicado à história e que dá destaque ao historiador Rui Ramos e ao seu trabalho, que sem me escandalizar também não me seduz ou sequer me transmite qualidade. De toda a leitura quero destacar o texto de Rogério Casanova acerca de Nabokov & Kafka, num exercício interessante de História Alternativa; O relato da estadia na Casa de Escritores e Tradutores, na Letónia - lugar bonito, que deveria ser repetido em tantos outros lugares - escrito por José Riço Direitinho; e as crónicas de Onésimo Teotónio de Almeida e de Jorge Reis-Sá. Uma nota última para o artigo "Teses para todos" da Booktailoring (Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes) que alerta para um problema - a não existência de edições de trabalhos científicos, académicos e investigativos - também por mim diagnosticado e que, sem explicação, está por acontecer. Boa leitura.