22 maio 2019

fomos Porto?


Não gosto de escrever sobre futebol, sobre jogadores, treinadores, árbitros ou equipas, muito menos gosto de escrever sobre o meu clube. Não o faço. Não gosto de o fazer porque, enquanto adepto que sempre fui do FCP, não se usa da razão, apenas e só conseguimos verter as emoções que nos assaltam o ser. Escrever com razão sobre futebol, sendo adepto, não é um exercício honesto e imparcial - veja-se a panóplia desmesurada de opinadores televisivos, ou leiam-se os doutos entendidos nos três diários desportivos e afins. Perante tamanho chinfrim mediático, a perplexidade permanece: haverá público para tanto dislate, para tanta ignorância, para tanta pseudo-ciência (estou a lembrar-me de um tal de Luís Freitas Lobo) aplicada ao futebol? Pelos vistos, sim, há.
Esperei pelo desfecho do campeonato nacional e pelo acalmar das emoções, para aqui vir reflectir um pouco [entenda-se, um carpir das mágoas de adepto magoado] sobre o desempenho do FCP durante este campeonato. Como foi possível, depois de uma vantagem que chegou a ser de sete pontos, depois de provocar uma chicotada psicológica no Benfica, perder nove pontos e assim o campeonato? Com toda a certeza, haverá mais do que um responsável, mas aquilo que mais me custou foi não ter percebido em ninguém, da estrutura e/ou dos arredores, do FCP um mea culpa, um reconhecimento de erro, de má decisões, ou de negligência. Para além das óbvias responsabilidades de Sérgio Conceição, enquanto líder e senhor das decisões técnicas e tácticas, parte do problema foi ter mantido a jogar um conjunto de jogadores que já não queriam estar no Dragão, como por exemplo, Brahimi e Herrera, que em épocas anteriores tinham carregado a equipa e deslumbrado com a sua força e brilhantismo, e este ano, nada, andaram a arrastar-se pelos relvados, nitidamente desmotivados; outro exemplo, foi o central Éder Militão que, há muitos meses com a cabeça em Madrid, foi cometendo erro atrás de erro. Depois, tivemos o caso de Maraga, o todo poderoso, mas que não consegue dominar uma bola e que, segundo a estatística, precisa de três oportunidades para fazer um golo. Sempre apreciei e privilegiei jogadores inteligentes e que tratam a bola "intimamente" por tu...
O que se percebeu, e com grande estrondo, foi o mesmo de sempre, um permanente sacudir da água do capote e de responsabilização de tudo e de todos, menos dos próprios. Volto a remeter para os comentadeiros que, há distância de uma TV, Rádio ou Jornal, espumam irracionalidade e estupidez.
Lamento muito, muito mesmo, mas, por demérito do FCP, o Benfica acabou por ser um justo campeão. Este campeonato NÃO FOMOS PORTO!

mediascape: errado

João Duque, na sua coluna no caderno de economia do Jornal Expresso, aproveitou a recente história de Joe Berardo para puxar as brasas, novamente, às suas sardinhas, que é como quem diz, não perde uma oportunidade para afirmar a sua fundamentalista crença no mercado - livre e especulador - e o seu visceral ódio ao sector público, demonstrado em todas e cada uma das suas intervenções públicas. Acontece que o raciocínio para além de errado, não me parece intelectualmente honesto, na medida em que a conclusão a que chega não se baseia em factos, ou dados em concreto, mas sim no seu pavor com a possibilidade de uma qualquer nacionalização. Se na CGD houve má gestão (e é certo que sim), que se encontrem e penalizem os responsáveis; o mesmo direi para os bancos privados. Agora, ao contrário do que conclui o ilustre professor, se os portugueses foram e são chamados a injectar dinheiro nos bancos, porque não trazê-los para a esfera pública? Parece-me óbvio e lógico. Mas para o excelentíssimo Professor o que deveria acontecer era precisamente o contrário: privatizar a CGD seria o ideal.

voto precoce e abstenção

No passado dia 14 de Maio, o PAN apresentou na Assembleia da República um projecto de resolução que visava consagrar o direito de voto dos cidadãos maiores de 16 anos de idade, ou seja, uma antecipação dos 18 para os 16 anos, o que implicaria uma revisão constitucional extraordinária. A proposta foi chumbada pela maioria dos deputados, tendo votado favoravelmente apenas o deputado do PAN e a bancada do BE. Um dos fundamentos ou razões para a apresentação desta resolução era o combate à abstenção em Portugal e que os cerca de 140 mil jovens que passariam a poder votar, poderiam inverter a persistente indiferença e alheamento dos portugueses em relação àquilo que é a nossa vida política e das instituições de poder.
Nada me opõe a essa antecipação na idade para votar, mas desconfio da eficácia da medida face aos propósitos enunciados, pois a ter em conta aquilo que são os dados conhecidos dos últimos actos eleitorais, é precisamente nas faixas etárias mais jovens que se encontra maior percentagem de abstenção. Assim, com a aprovação de tal resolução, às tantas, em vez de conseguirmos reduzir as percentagens de abstenção, ainda iríamos conseguir aumentá-las mais. Digo eu.

21 maio 2019

destruição do saber


Foi notícia na semana passada, mais um episódio de violência numa escola pública portuguesa, nomeadamente, a agressão violenta de uma professora primária, pela mãe e pela avó de uma aluna ou aluno, dentro da escola e com todos os alunos a presenciarem. Acontece que desta vez aconteceu bem perto de mim e, nas minhas andanças quotidianas, passo nessa escola, o que me permitiu testemunhar o protesto da comunidade perante tal agressão.
Para além do acto de violência em si, sempre condenável, inadmissível e intolerável, duas ideias me ficaram retidas no pensamento. A primeira é de que, de facto, o Professor perdeu qualquer autoridade, qualquer relevância e até respeito, na generalidade da sociedade portuguesa e, hoje, é mal tratado e abusado, não só pelo sistema, mas também pela comunidade escolar. A segunda é mais gravosa e importante: que educação, que exemplo, que futuro, poderão ter os filhos e netos de pais/avós que, em sua presença, agridem violentamente os seus professores. Que importância darão estas crianças ao saber?! Tristes crianças.
Ambas contribuem superlativamente para a destruição da escola pública nacional e, assim, contribuirão para um futuro mais pobre, mais inculto e mais infeliz.

nas palavras dos outros...

Há uma desvalorização do papel do professor, de ensinar, de transmitir um saber. Vem num pacote sinistro que inclui o falso igualitarismo nas redes sociais, o ataque à hierarquia do saber, o desprezo pelo conhecimento profissional resultado de muito trabalho a favor de frases avulsas, com erros e asneiras, sem sequer se conhecer aquilo de que se fala.
José Pacheco Pereira, in Jornal Público, 18 Maio 2019

16 maio 2019

bonito

hoje, na caixa do correio...

13 maio 2019

novo, estranho e disruptivo

Experimentei pela primeira vez, por pressão da minha filha, os serviços da UBER EATS. Final de tarde chuvosa, nenhuma vontade de fazer o jantar, a solução foi encomendar comida através dessa aplicação. Paguei com o cartão de crédito na própria aplicação e à hora marcada, a encomenda estava à porta. Só que não na minha porta, mas sim numa morada onde eu nunca residi. Depois de várias conversas com o "colaborador" da empresa, sem nunca conseguir fazer valer a minha argumentação, fui aconselhado a reclamar junto da empresa. Assim tentei fazer, só que não encontrei onde, nem com quem!... a encomenda foi cancelada.
Conclusão: fiquei sem a encomenda e sem o dinheiro que paguei. Fiquei chateado, nem tanto pelo dinheiro, mas pela atitude do “colaborador” e, acima de tudo, pela forma como estas empresas trabalham - não têm uma presença física, não permitem interacções e nem sequer podemos comunicar. Dizem-me que este é o paradigma do futuro nos negócios e nos serviços, mas eu não quero acreditar que assim venha a ser. Esse estranho e disruptivo mundo poderá até vingar nalguns sectores, mas as relações laborais manterão vivos, por muitos e bons anos, os valores dos velhos contratos sociais.
E não, não voltarei a utilizar tais serviços.

este país não é para gente séria


Esta é a imagem de um país de desonestos e iliteratos, mas espertos. Aquilo que este senhor fez na Comissão da Assembleia da República foi um atestado de menoridade e insignificância às instituições da nossa República e foi, acima de tudo, borrar a cara de todos os portugueses com merda, em directo e institucionalmente. Uma vergonha para todos nós, menos, como é claro, para o próprio que nem sequer se apercebe da figura que faz.

09 maio 2019

nas palavras de outros...

Só no grande perigo se diz com suficiente força amo-te.
Gonçalo M. Tavares, in Jornal de Letras nº 1268, Maio 2019

08 maio 2019

crónicas de Barcelona - VII

Regressar? [19-04-2019]

No final de mais uma longa mas tranquila viagem, agora de regresso a Portugal e, em concreto, a Bragança, onde iremos ficar uns dias, a sensação de satisfação é geral e partilhada pelo resto da família. Todos gostaram da viagem e do seu destino. Tal como já referi, esta era uma das cidades europeias que sempre pensara visitar. Já está. No entretanto, e reflectindo sobre Barcelona, diria que, ao contrário de outras cidades desta velha Europa, que já tive o privilégio de conhecer e revisitar, não me parece que algum dia sinta vontade de lá voltar. Já o escrevi aqui que, a regressar, gostaria de poder descobrir a cidade daqueles que tenho como referência e um dia andaram por lá, num roteiro alternativo e muito pessoal. De resto, penso que visitei e conheci o que de mais importante a cidade tem para oferecer enquanto destino turístico. Assim sendo, novos destinos e outras cidades europeias há para descobrir.
Agora, três dias de alguma ruralidade e sossego, regeneradores para o regresso ao quotidiano.



(fotografias: a)regresso a Portugal, b) panorâmica parcial de Barcelona e c) um histórico local para um dia descobrir)

crónicas de Barcelona - VI

O melhor, o pior e a campanha eleitoral... [18-04-2019]

Uma estadia de quatro ou cinco dias não permite conhecer toda a cidade e todos os seus pontos de interesse, nem tão pouco permite que alguém utilize o verbo conhecer. Para além daquilo que são os já referidos circuitos e polaridades turísticas, há uma cidade associada aos seus grandes nomes que gostaria de conhecer - casas, espaços públicos, cafés e restaurantes que, noutras épocas, foram frequentados por esses gigantes da cultura mundial. Seria um roteiro alternativo, personalizado e para realizar com calma e tempo, que me daria muito prazer.
Daquilo que me foi possível e dado a conhecer, destacaria como muito bom e surpreendente, o Palau De La Musica Catalã - auditório de música construído no início do século XX, projectado pelo arquitecto local Lluís Domènech i Montaner, um dos grandes representantes do modernismo catalão. Realizámos uma visita guiada e, assim, pudemos conhecer todos os pormenores associados à sua fundação, à sua arquitectura, à sua qualidade acústica e à sua importância na vida cultural, social e económica da cidade e região. É de facto impressionante e lindíssimo.
Pela negativa, ou seja, aquilo que visitei e conheci, mas que de alguma forma defraudou as minhas expectativas, eu referiria, (para além da já mencionada Sagrada Família) acima de tudo o resto, o Parque Güell - o grande parque urbano da cidade, situado no monte Carmelo, zona da Gràcia, concebido pelo arquitecto Antoni Gaudí (quem mais poderia ser?...), por encomenda do empresário catalão Eusebi Güell, na segunda década do século XX. Segundo consta na história, este parque seria um espaço privado de descanso e lazer para o empresário e sua família passarem as férias e/ou fins-de-semana. O projecto de Gaudí nunca foi terminado e em 1915/16 o arquitecto abandonou a obra para dar início à construção da catedral da Sagrada Família. Entretanto, com a morte do empresário, os seus herdeiros abandonaram a ideia e, já durante a década de 20, a cidade adquiriu esse espaço e transformou-o num espaço público para toda a população. Actualmente, o acesso a parte do parque é restrito e tem que se comprar bilhete, medida que apesar de contribuir para regular o enorme fluxo de turistas, mereceu a crítica de muitos habitantes da cidade, pois veio vedar o acesso livre a um espaço que é de todos.
Com todo o respeito que me merece o Sr. Gaudí e o reconhecimento da sua tremenda genialidade, não entendo o fascínio e a voracidade das massas por visitar uma escadaria decorada com bocados de azulejos, um enorme terraço suportado por inúmeros pilares de betão, que funciona como miradouro sobre uma pequena parte da cidade e sobre o mediterrâneo (onde a pressão dos visitantes não permite sequer tirar uma fotografia), e duas habitações com uma fisionomia estranhíssima. É isto que o bilhete comprado nos permite visitar. O resto, os enormes jardins são gratuitos e muito agradáveis, mas sinceramente estranho a ideia de alguém viajar de qualquer parte do mundo para vir visitar jardins…
Por estes dias que cá andei, decorre a campanha eleitoral para eleições gerais em Espanha. Não sei se por ser português e estar tão habituado ao ruído e à saturação destes períodos em Portugal, estranhei o silêncio e a ausência visual desses elementos de propaganda. Claro que andei essencialmente pelos circuitos turísticos, mas também pude cirandar pelas zonas habitacionais, de trabalho e comerciais, menos frequentados pelos visitantes, e mesmo aí quase não se percebe o momento político actual. Aí, para um estranho e pela primeira vez na cidade, aquilo que me chamou mais a atenção foram as bandeiras catalãs e as tarjas/faixas com a mensagem: Llibertat presos polítics! expostas em muitas janelas e varandas dos catalães.
Viva a República da Catalunha.




(fotografias: a) Palau de la Musica Catalã, b) Parque Güell, c) bandeira catalã e d) tarja ou faixa)

crónicas de Barcelona - V

Deambulações pelo casco velho [18-04-2019]

Por estes dias não temos sossegado. O passe de metro de 72 horas que comprámos, tem-nos permitido deambular por todo o lado sem preocupações. Nos espaços de tempo vazios, a minha sugestão tem sido sempre irmos para a zona velha da cidade, cuja referência é La Rambla, mas como é estupidamente agitada e movimentada, prefiro caminhar pelas ruas e ruelas - muitas delas pedonais - que derivam dessa artéria principal para Oeste e, principalmente, para Este, naquilo que é conhecido como bairro Gótico. É neste emaranhado de artérias envelhecidas, pejadas de comércio e "comes e bebes”, que se encontra a Plaça Sant Jaume, epicentro político da República da Catalunha e uma das praças mais simbólicas da cidade. É aqui que se encontra o Palau de La Generalitat, onde, em Outubro de 2017, foi proclamada unilateralmente a independência da República da Catalunha em relação ao Estado Espanhol. A sensação que tenho é que esta praça tem uma força centrífuga nesta complexa teia de ruas estreitas, escuras e sujas, na medida em que todos os percursos turísticos possíveis para quem quer visitar os monumentos e atracções - catedral, ajuntamento, biblioteca, museu Picasso, Palau de la Musica Catalana, Centro de Exposições Gaudí, etc. - desta parte velha da cidade, acabam por se cruzar, qual placa giratória, nesta praça. Um outro local muito bonito e confortável é a praça Real, bem perto de La Rambla, decorada com inúmeras palmeiras e onde, nas suas arcadas e em toda a praça, encontramos esplanadas de diferentes restaurantes e cervejarias. Gosto de lá estar e, por isso, aí temos ido várias vezes comer.
Se algum dia regressar a Barcelona, será por aqui que andarei, tentando conhecer melhor os seus recantos e encantos.


(fotografias: a) plaça Sant Jaume e b) plaça Real)

crónicas de Barcelona - IV

Comer e beber [17-04-2019]

Sou, desde há muito, um apreciador da gastronomia espanhola, e digo espanhola porque da Galiza à Andaluzia, do País Basco à Catalunha, os espanhóis sabem comer. Claro que aquilo que é vendido nos circuitos turísticos não representa a dieta caseira dos espanhóis, mas em todo o caso, comer em Espanha é sempre um prazer. Assim, esta viagem a Barcelona representava também a possibilidade de comer e beber bem, indo ao encontro daquilo que mais gosto - "comer de seco”, o que deste lado da fronteira, poderá ser designado de “tapas". Nas vésperas da viagem, indagámos algumas referências gastronómicas, mas acabámos por não experimentar nenhuma delas. Para além daquilo que é o estereotipo dessas “tapas” de pulpo, jamón, camarón e calamares, de pimento padron, são deliciosos os huevos revueltos, as paellas (exceptuando a de peixe), e as simples sandes de jamón. Em relação à bebida e mesmo sabendo da excelência da produção de vinhos, acabei por beber apenas cerveja ao copo, na tradução “canha" ou “tanque”. Ainda que num destino turístico muito visitado, não considerei os preços excessivos, muito nivelados pelos praticados em Portugal em idênticas circunstâncias.
Visitei o mercado municipal La Boqueria, onde podemos encontrar uma variedade de produtos à venda, desde o peixe, às frutas, aos queijos e presuntos, como também às especiarias e doces. Pode-se também experimentar, em certas bancas, algumas das mais famosas iguarias da região. Gostaria de me ter sentado numa dessas concorridas bancas, mas a dieta da criança obriga a comer de garfo e faca. Os olhos ficaram retidos nos magníficos presuntos em exposição e nas finas fatias que eram cortadas a todo o momento e abasteciam os pratos dos comensais. Quem sabe um dia.



(fotografias: a) huevos, b) tapas e c) jamón, no mercado La Boqueria)

crónicas de Barcelona - III

A cidade do Sr. Gaudí [17-04-2019]

Sabia (é de conhecimento generalizado) da importância cultural da cidade de Barcelona. Foi um centro de produção e divulgação cultural ao longo de todo o século XX. Um movimento que teve início na segunda metade do século XIX e que contemplou os maiores nomes das artes espanhola, europeia e mundial, e que encontrou nesta cidade o espaço e as condições sociais, políticas e económicas para desenvolverem a sua genialidade. Da arquitectura à literatura, da pintura ao urbanismo, de nomes como Salvador Dalí, Pablo Picasso ou Joan Miró, de Ildefonso Cerdà, Luís Domenech I Montaner ou Josep Puig i Cadafalch, de Ana Ma Matutem, Juan Marsé ou Carmen Laforet e Eduardo Mendoza, são muitos os exemplos de genialidade que a cidade viu nascer ou acolheu, mas nenhum outro ocupa o lugar de destaque que Antoni Gaudí, o celebrado arquitecto que projectou as principais atracções turísticas de Barcelona. Aliás, a promoção da cidade socorre-se daquilo que foi a obra de Gaudí para se vender enquanto destino turístico. É impressionante a presença deste nome por toda a cidade, dando mesmo a impressão que a polarização na urbe obedece à localização das suas obras mais icónicas, que acabam por ser autênticos landmarks que nos guiam pelo terreno e influenciam a nossa percepção do lugar. Como expoente máximo dessa genialidade, a Sagrada Família, basílica projectada e iniciada por Gaudí (1915/1916), ainda não finalizada, segundo consta é o monumento mais visitado em Barcelona. A sua dimensão é impressionante e impactante na paisagem, mas a confusão em seu redor é aflitiva e assustadora. Não há espaço, não se respira e a possibilidade de visitar o seu interior está circunscrita à compra de bilhetes que estão constantemente esgotados, só com bastante antecedência se consegue adquirí-los. Se chegar perto foi uma experiência impactante perante a sua dimensão, sentir-me no meio de tamanha barafunda não foi nada agradável e até muito desconfortável (posso estar equivocado, mas nem num monumento como a torre Eiffel, em Paris, existe tal confusão). Assim sendo, dispenso lá regressar.

(fotografia: a Sagrada Família)

crónicas de Barcelona - II

A turistificação da cidade [16-04-2019]

Não trazia comigo qualquer expectativa em especial relativa à cidade. Tal como já referi, era um dos destinos urbanos e europeus que sempre quisera visitar e conhecer. Sem qualquer plano, a não ser a visita aos lugares de referência turística (os tais de visita obrigatória e, mundialmente, referenciados), a proposta era conhecer a cidade. Não precisei de muito tempo, nem de deambular muito, para me aperceber da Barcelona-objecto e da Barcelona-narrativa que encontramos promovida e divulgada por todo o mundo e em todas as línguas. Aquilo que desconhecia de todo era a dimensão da turistificação da cidade, naquilo que são os percursos possíveis e tipificados. Claro que existe uma cidade que trabalha e produz, uma cidade com habitantes e vida própria, mas aquilo que nos é dado a consumir enquanto turistas é esmagador. A sensação com que fiquei foi de uma cidade (zona histórica e arredores) espezinhada, frenética, suja e invadida por turistas, que ainda por cima, se precipitam para os poucos lugares referênciados pela lógica da indústria do turismo, como se o mundo acabasse amanhã. Impressionante. Não sou muito viajado e falta-me muito mundo, mas em nenhuma outra cidade que visitei encontrei tamanha confusão, frenesim e stress junto desses locais de eleição turística, onde tirar uma simples fotografia se adivinha uma autêntica aventura de atropelos e ângulos impossíveis. Aqui está um bom exemplo do paradigma do turismo de massas, no qual se vendem destinos cuja oferta real não corresponde ao produto promovido - vende-se a cidade, ainda que uma grande cidade, como histórica, monumental, cultural, gastronómica, etc., etc. e depois, a realidade defrauda-nos, ou pelo menos, deixa-nos uma certa frustração. Nem de propósito, no intervalo para descanso no hotel, ao final da tarde, encontrei um artigo na New York intitulado “The Airbnb invasion of Barcelona - in the tourist-clogged City, some locals see the service as a pestilence”, assinado por Rebecca Mead, cuja leitura me entreteu durante largos minutos. Transcrevo alguns dados interessantes e curiosos que recolhi e traduzi dessa leitura:

Barcelona foi vendida com sucesso aos mercados internacionais como um destino de lazer, com bom clima, boas praias, vida nocturna e uma oferta cultural ímpar, tornando-a num dos destinos mais populares da Europa. Actualmente, Barcelona recebe cerca de vinte milhões de turistas por ano, isto para uma população de um milhão e seiscentos mil habitantes. Fenómenos como o das companhias aéreas de baixo-custo como a Ryanair e do turismo local como a Airbnb intensificaram a promoção e divulgação da cidade, tornando-a acessível a um crescente número de indivíduos e famílias. Cerca de um milhão e meio dos visitantes actuais ficam hospedados em locais Airbnb. Existem quase vinte mil locais activos disponibilizados pela Airbnb. Tudo isto trouxe alterações demográficas extremas para a cidade. Por exemplo, no bairro Gótico, nos últimos 12 anos, a população residente diminuiu cerca de 45%.
Apesar do turismo contribuir para quase 12% da economia da cidade, é preciso relembrar que até bem perto do final do século XX, Barcelona era vista, acima de tudo, como um porto-de-mar industrial. O seu perfil internacional alterou-se abruptamente com o acolhimento dos Jogos Olímpicos de 1992. Em 2010, a cidade decidiu liberalizar as regras do aluguer de curta-duração e, com isso, durante os quatro anos seguintes, as licenças quadruplicaram. Diz uma activista local que Barcelona parece um parque temático, repleto de restaurantes que vendem paellas, tapas e sangrias, nenhuma das quais originária da cidade ou região, mas que correspondem a uma imagem genérica de Espanha. Em 2017, num inquérito anual promovido pela cidade, o turismo foi referenciado como a maior preocupação para 60% da população local. (clicar aqui para ler o artigo na íntegra)

Barcelona é uma grande cidade. É bonita. É apelativa. Ainda que ingrata ou injustamente, tento imaginá-la sem todo este ruído.

(fotografia: retirada do artigo da New York)

crónicas de Barcelona - I

A viagem [15-04-2019]

A decisão estava tomada, Barcelona era uma das cidades europeias a conhecer. Sendo um destino relativamente próximo, a opção pela viagem de automóvel não sofreu contestação de nenhum dos participantes. Assim, os mil, cento e qualquer coisas quilómetros entre o Porto e Barcelona foram percorridos em duas etapas. A primeira, entre o Porto e Bragança, onde permanecemos durante dois dias. Depois e sem pressa, partimos para a segunda e grande etapa do percurso: Bragança - Barcelona e os seus novecentos e muitos quilómetros. O trajecto escolhido, apesar de em grande parte nos ser desconhecido, foi o melhor possível, pois não só as estradas eram boas, como não se gastou dinheiro em portagens e em gasóleo. Entre Bragança e Zamora fizemos a A4 até à fronteira em Quintanilha e a partir daí, a nacional espanhola nº 122 até Zamora. Entre esta cidade e Valladolid percorremos os cerca de cem quilómetros da Autovía Del Duero, na qual não se pagam portagens. A partir daqui, o trajecto era desconhecido para nós e a escolha da Nacional 122 até Sória era uma incógnita, mas os seus mais de duzentos quilómetros, ainda que com algum trânsito de pesados, fazem-se muito tranquilamente, uma vez que a estrada é plana e com imensas rectas. Entre Sória e Zaragoça continuamos na nacional 122 até encontrarmos a Autovía Del Ebro em direcção a Lleida e Zaragoça. Neste troço de auto-estrada pagámos 5,50 euros. De Zaragoça até Barcelona, fizemos a viagem sempre por auto-estrada e os cerca de 310 quilómetros de distância custaram-nos 30,50 euros de portagem. Entre Bragança e Barcelona, os tais novecentos e tal quilómetros de viagem, demoraram cerca de nove horas, custaram 36 euros de portagem e cerca de um depósito de gasóleo, sendo que o pc do automóvel ditou uma média de consumo de 4,8 litros/100 kms.
Uma vez mais pude confirmar a minha preferência pelas viagens de automóvel. Para além de todos os receios no uso dos meios alternativos, nomeadamente do avião, aquilo que mais relevo, para além do prazer da própria condução, é a liberdade de horários, de percursos e de interrupções ou paragens. Para além disto, nenhum outro meio de transporte nos permite conhecer as paisagens e os lugares por onde passamos como o automóvel permite. É sempre um prazer viajar. Será sempre deliciosa a ideia de viajem - de percorrer distâncias e poder descobrir, apreciar e consumir tudo aquilo que se esconde para lá da próxima curva.

(fotografia: a aproximação à grande cidade)

07 maio 2019

ainda a LER

Ainda não foi desta que a revista morreu. Muito sinceramente é aquilo que sinto em cada estação (Primavera, Verão, Outono, Inverno) a que corresponde cada novo número, pois são dias e dias a ir ao quiosque à sua procura e nada. Hoje apareceu em escaparate. Ainda bem. Vamos ler.

06 maio 2019

desacordo

Excelente notícia no jornal Expresso deste último Sábado. O Parlamento vai rever o (des)Acordo Ortográfico (AO). Quando se assinalam dez anos desde a sua aprovação, um grupo de trabalho criado pelo Parlamento para estudar a aplicação das novas regras para a Língua Portuguesa, apresentará o seu relatório final nas próximas semanas e nele consta essa recomendação de revisão do AO. Ao mesmo tempo, deu entrada na Assembleia da República, em Abril, uma petição assinada por mais de vinte mil pessoas - entre as quais eu - promovida pela Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC), que conseguiu o registo de um projecto de lei, cuja votação em plenário acontecerá ainda esta legislatura e em data a definir. Os signatários desta petição exigem a revogação da Resolução da Assembleia da República que aprova o segundo protocolo modificado ao AO, no qual ficou estipulado que bastaria a sua ratificação em três países (dos então sete) para que o Acordo entrasse em vigor.
Sem nunca ter sido unânime em Portugal e nos restantes membros CPLP, este Acordo só foi concretizado pelo Estado português, que agora terá trabalho duplicado para recuar e restabelecer a norma anterior. Dez anos de crianças e jovens a aprenderem uma ortografia errada, cujas consequências ainda não se conseguem alcançar na totalidade. Ainda assim e tal como afirma Teresa Caeiro, do CDS, "mais vale reverter o erro do que perpetuá-lo". Haja vontade e coragem política em Portugal para acabar com este capricho de meia-dúzia de académicos que, um dia, conseguiram impor esta estupidez.

29 abril 2019

mediascape:coincidências

Duas notícias quase simultâneas sobressaltaram-me os sentidos: A primeira dizia que a Câmara Municipal do Porto, depois de uma proposta do vereador da CDU, se preparava para classificar a casa onde o escritor Almeida Garrett nasceu como património municipal e, também, iria estudar a possibilidade de a vir a adquirir e transformar num polo do museu do Liberalismo. A segunda, praticamente sucedânea, dizia que essa mesma casa tinha ardido e ficado completamente destruída, tendo sobrevivido apenas a fachada principal.
Andam a passar-se episódios muitos estranhos na Invicta. Esta nova situação relembrou-me de imediato a tragédia ocorrida aqui há meses na zona do Bolhão em que um edifício ainda ocupado, mas pretendido para o negócio do turismo local, ardeu por completo, tendo matado uma idosa que aí vivia. Não creio em coincidências, principalmente quando sei que o "mercado" se transformou numa autêntica selva anárquica, na qual vale tudo ou quase, sobre a qual as instituições que a deveriam regular e supervisionar, ávidas da sua quota-parte de lucros tributários, fecham os olhos e até incentivam toda e qualquer especulação.
Uma vergonha o que se está a passar na minha cidade.

um néscio com poder

Utilizando (uma vez mais) o Twitter, o Presidente brasileiro, afirmou recentemente que o seu ministro da Educação, Abraham Wientraub, estuda descentralizar investimento em faculdades de filosofia e sociologia, querendo com isto dizer que, sem prejuízo dos alunos já inscritos, o estado brasileiro vai deixar de custear estes cursos de ciências sociais e humanas. Para justificar esta afirmação, Jair Bolsonaro escreve: “A função do governo é respeitar o dinheiro do contribuinte, ensinando para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta e depois um ofício que gere renda para a pessoa e bem-estar para a família, que melhore a sociedade em sua volta”. Reforça esta ideia com o seguinte propósito: "O objetivo é focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como: veterinária, engenharia e medicina."
Não sei se não seria mais saudável passar a ignorar tudo o que nos chega das terras de Vera Cruz, pois a ignomínia é já incomensurável e, acima de tudo, inqualificável. Só mesmo um bando néscios, abrutalhados e ignorantes exímios poderia defender uma ideia como esta. Poderíamos estar perante uma atitude reflectida e ponderada, ideológica, para afastar o comum nos cidadãos do Conhecimento, naquilo que poderia ser designado de racismo de inteligência, mas não acredito que assim seja, pois apesar de em última análise, ser isso que se vai verificar, o que move esta gente, reconhecendo a sua inferioridade intelectual, é o ódio pelo Saber, pela Cultura e pelo Cosmopolitismo, preferindo contribuir para a imposição de uma sociedade limitada e castradora, de cidadãos inaptos, ignaros, embrutecidos e desinformados.
Para além do pormenor de uma certa equidade que se espera de um governo naquilo que é a oferta pública no ensino superior, importa recordar que as ciências sociais/humanas, em geral, e a Filosofia, em particular, são essenciais para o progresso de uma sociedade, naquilo que são os critérios para o Conhecimento, naquilo que são os critérios éticos e morais, naquilo que pode ser um pensamento crítico e reflexivo e, também, naquilo que deverão ser ganhos efectivos de consciência - individual e colectiva - ao ultrapassar a banalidade, o facilitismo e a preguiça do senso comum.

25 abril 2019

25 de Abril sempre!


Uma ideia simples e clara que importa repetir até à exaustão.
Foi há 45 anos e esse tempo todo trouxe consigo um inevitável e crescente desconhecimento e/ou ignorância sobre o seu significado e importância, que por sua vez, permitiram a relativização desse momento re-fundador da nossa sociedade. É, pois, perante esses perigos que vão sitiando a nossa democracia, que será sempre imperativo reafirmar os seus valores.
Viva o 25 de Abril.

23 abril 2019

dia do livro

Hoje é o dia mundial do Livro e nada melhor de que assinalar a efeméride comprando, ou pelo menos, lendo literatura que importa. Eu, que entre outros, trago na cabeceira os Contos Escolhidos de Guy de Mompassant (1850-1893), comecei o dia com ele e, agora que saí de casa, aproveitei o pretexto de um café na Fnac para espreitar as promoções deste dia e o resultado foi o que a fotografia apresenta. Boas leituras.

12 abril 2019

talvez esta seja uma revolução religiosa em curso


É com esta afirmação que Alfredo Teixeira termina o seu ensaio "Religião na sociedade portuguesa", acabado de sair na colecção dos ensaios da fundação(nº 93), da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Aproveitei um par de horas vazias de uma manhã desta semana para o ler. Mais um excelente ensaio desta colecção para quem se interessa pelas questões do sagrada e do religioso, que procura retratar e explicar as actuais formas de crer e pertencer em Portugal.
Partindo de duas questões: a) Como se caracterizam as identidades religiosas em Portugal?, e b) O que persistiu e o que mudou com as alterações das formas tradicionais de vivência crente e a emergência de novas paisagens religiosas?, o autor serve-se de três eixos de observação - destradicionalização, individualização, diversificação - para retratar a mudança de um mundo do "Deus da nossa terra" para as formas religiosas de um mundo globalizado. Mudança esta que Alfredo Teixeira especula de revolução religiosa em curso. Será?

05 abril 2019

filogénese humana

02 abril 2019

conte-me a sua história

A editora Esfera dos Livros, segundo consta, por ocasião do dia do Pai, lançou no mercado um caderno-livro, ou livro-caderno, no qual os “Pais” são convidados a escrever a sua história. Só por estes dias, nas minhas deambulações quotidianas entre livros, o descobri e logo me chamou a atenção. Ideia engraçada e barata (preço de 8,50 €). É verdade que a sua estrutura é muito simples, as propostas de títulos para os textos e capítulos, nalguns casos é pobre, noutros chega a ser infantil, mas se o entendermos como um instrumento de construção de memórias individuais, num primeiro momento, e, depois, num âmbito mais alargado, como a construção de uma real memória colectiva, não deixa de ser uma ideia gira e interessante. Considero que todos os pais (e também, todas as mães), deveriam ser obrigados a escrever (preencher) um livro destes. Tal como já aqui afirmei, a propósito dos alguns fotográficos familiares, deveria ser obrigatório legendar todas as fotografias, também todas as pessoas, por exemplo e se não quisessem antes, ao chegar aos 60, ou 70 anos, seriam obrigadas (por decreto) a este exercício de memória.

justiça social


Agora que se concretizou a redução dos preços dos passes sociais, importa reforçar a importância desta medida, naquilo que verdadeiramente significa para milhares e milhares de cidadãos e famílias portuguesas. António Costa, e o seu governo, não conseguiria encontrar melhor medida de cariz social do que esta. Assim se governa a pensar e para os portugueses. Ainda que em ano de eleições, esta medida é de tal forma impactante na economia das famílias portuguesas, que o facto de haver eleições é um perfeito pormenor. À esquerda do PS, os partidos, de certa forma surpreendidos, tentam reclamar para si o ónus da pressão política que tornou possível tal novidade; À direita do PS, é o desnorte, o caos, o horror, incrédulos e sem capacidade de reacção, a não ser a manifestação de opiniões ridículas de alguns opinadores e politiqueiros (os de costume), que tentam questionar a justeza social e económica desta medida, não se apercebendo que ela é superior a qualquer devolução de rendimentos, redução de impostos ou aumentos salariais, pois vem beneficiar precisamente os contribuintes e as famílias com menores rendimentos, que são quem utiliza, por necessidade, os transportes públicos. Muito bem António Costa e o seu governo ao sacar da cartola este Coelho. Agora só falta investir seriamente nas infra-estruturas e nos equipamentos circulantes, para que possamos afirmar a mudança de paradigma nos transportes públicos em Portugal.

28 março 2019

ler e escrever

Não nascemos para ler, nem para escrever. Ler é o milagre da comunicação na solidão. Ler não é só ler. (...) Ler é não regressar.. (...) É o silêncio a barafustar connosco e a dizer baixinho na solidão: eu também, eu também. (...) Viver é aprender a escrever e recusar querer só passar por esta vida. (...) Escrever é a bengala da memória humana, o computador é precisamente o contrário, é a autorização do esquecimento. A escrita é o pacemaker dos passados, o que nos permite não repetir o que nunca quisemos fazer e deu errado. (...) Não fomos feitos para ler nem escrever, é certo, e por isso não há nada de destino nesta coisa de querer ler ou escrever. Mas foi por nos habituarmos a ler e a escrever, que nos tornamos no que somos.
(Patrícia Portela, in Jornal de Letras nº 1264, Março 2019)

27 março 2019

after life

Aos poucos vou-me habituando a consumir aquilo que a Netflix tem no seu catálogo. Por insistente pressão da Emília, subscrevi uma assinatura da referida produtora de filmes, séries, documentários e afins. Sei que ela tem consumido frequentemente e, de alguma forma, justificado o valor mensal que pago. Eu, que tanto resisti inicialmente, começo agora a descobrir o encanto do formato, na medida em que poderemos visualizar, de seguida, os episódios que quisermos. Aconteceu-me com a série Homeland, cuja sétima temporada, vi em duas noites, ou seja, seis episódios de cada vez; aconteceu agora novamente com esta mini-série After Life de Ricky Gervais, que vi de uma só vez (seis episódios). Tinha-a referenciado através dos comentários, diga-se, difusos, que fui recolhendo no Twitter. Depois de a ter visto, percebo a amplitude das opiniões sobre a série, pois também para mim ela é merecedora de vários sentimentos. De uma forma geral, sendo considerada uma comédia, tive alguma dificuldade, salvo num ou noutro momento, em encontrar esse fulgor humorístico, talvez porque o tema central da série seja demasiado sério e pesado para tal ligeireza de comportamentos e discursos. Por outro lado, reconheço, em alguns momentos, o génio narrativo, nomeadamente, nos diálogos entre o personagem central e a senhora do cemitério, ou entre o mesmo e a cuidadora que trata do seu pai no lar de idosos. Na antítese desse génio, está o último episódio, que não passa de um sucessivo e precipitado acumular de resoluções óbvias e clichés dos tramas melodramáticos e de finais felizes. Ainda assim, aconselho a sua visualização.

08 março 2019

solilóquio

Não me preocupa aquilo que sei, ou o conhecimento que "já cá canta". Aflige-me tudo aquilo, o tanto, que ainda não sei, nem conheço.

mediascape: culpa


Em dias de luto nacional e de greves internacionais pela dignidade, segurança e vida das mulheres, solidário e feminista me reconheço. Coincidência ou não, ontem, dia de luto nacional pelas vítimas da violência doméstica, com direito a oficiais celebrações, foi conhecido o afastamento, pelo Supremo Tribunal de Justiça, do juiz desembargador Neto de Moura em casos de violência doméstica. Finalmente, dizemos todos nós portugueses. Mas, infelizmente, o problema da misogenia na justiça portuguesa não fica resolvido com o impedimento deste juiz, longe disso. O que é relevante e significativo nesta decisão de afastamento é a admissão de culpa, o reconhecimento de um anacronismo na justiça, por parte da própria justiça, e isso é bom e, esperemos, seminal. Tal como já escrevi, o que seria importante num momento como o actual, era a alteração do quadro jurídico que regulamenta o crime de violência doméstica e os crimes sexuais/de género, pois também pelos casos conhecidos e que vão sendo notícia, está mais do que provado que a lei não protege convenientemente as vítimas e é permissiva e, diria mesmo, incentivadora, da perpetuação desses comportamentos desviantes e violentíssimos.
Justiça é o que se quer. Só e apenas.

06 março 2019

prevenção e inveja

Acabei de receber um email da Autoridade Tributária avisando-me que tenho que limpar os meus terrenos até ao próximo dia 15 de Março. Muito bem. Como eu gostava de limpar a minha floresta... Eu, se fosse proprietário desses magníficos espaços livres, não deixaria de tratar deles, mas infelizmente apenas sou proprietário de um espaço inerte, construído em tijolo e cimento, dividido em meia-dúzia de divisões, cuja limpeza implica outros processos e outros ingredientes.
Limpem o que é vosso!
Inveja.

01 março 2019

mediascape: placebo

A nova ministra da Presidência e da Modernização Administrativa, Mariana Vieira da Silva, vai propor ao Conselho de Ministro que decrete o dia 7 de Março como o dia de luto nacional pelas vítimas de violência doméstica. A sério?! As vítimas não querem homenagens, querem é uma política, uma estratégia de acção que as possa efectivamente proteger das terríveis agressões que têm sido alvo. Num ano em que já foram assassinadas tantas mulheres, o Governo apresentar como grande medida um dia de luto nacional, parece anedótico e é ofensivo, não só para as vítimas dessa violência, como para todas as mulheres portuguesas. Haja senso, haja respeito e dignidade.

vinte anos de bloco, à esquerda

O Bloco de Esquerda (BE) celebrou ontem, 28 de Fevereiro, vinte anos de existência. Parabéns ao BE.
A minha aproximação ao movimento aconteceu em 2003 e desde então já experimentei um pouco de tudo. Pouco tempo após a inscrição, fui eleito membro da Assembleia Municipal de Bragança, onde exerci dois mandatos consecutivos (2005/2009 e 2009/2013). Neste último ano, apesar de ter sido novamente candidato, não fui eleito e a partir dessa altura, a minha participação diminuiu substancialmente. Durante esses oito anos de eleito em Bragança, entre outras acções e participações, a minha militância activista levou-me a ser eleito membro da Mesa Nacional (principal órgão do BE entre convenções), a fazer parte da sua Comissão Nacional Autárquica, a ser mandatário do concelho de Bragança da candidatura presidencial de Manuel Alegre (2011).
O BE celebra vinte anos de existência e eu dezassete de militância. Continua a ser o meu espaço de conforto ideológico para a intervenção cidadã.

28 fevereiro 2019

mediascape: canalha

O ex-administrador da Jerónimo Martins (Pingo Doce e afins), Alexandre Soares dos Santos, numa entrevista ao Jornal Observador, disse acreditar que "os pobres fizeram-se para a gente os transformar em classe média". Reflexo dos tempos que experimentamos, a descontração com que "a gente" afirma publicamente aquilo que sempre sentiu e acreditou. Este racismo de classe por parte do capital esteve sempre latente nas posições, nas opiniões e nas acções dessa pequena casta de privilegiados. Depois não querem ser (e admiram-se) pelo odioso que os outros, que não pertencem à estirpe "a gente", nutrem por eles. Este canalha, a quem Portugal e os portugueses nada devem, muito pelo contrário, só me merece desprezo e nenhuma consideração ou respeito.

26 fevereiro 2019

evolução humana


É uma das leituras que faço neste momento. Ian Morris propõe-nos uma viagem diacrónica pela filogénese da espécie humana, encontrando uma relação directa entre as fontes de energia disponíveis em cada período e os valores que essas comunidades privilegiavam. Assim, o autor encontra na evolução da nossa espécie três grandes momentos: 1º) os recolectores, 2º) os camponeses, 3º) combustíveis fósseis e estabelece para cada um destes momentos e sua revolução, a apropriação de valores humanos que também sofreram uma evolução. Tentando responder a questões fundamentais, tais como: porque mudam os sistemas de captação de energia?, ou, se essas mudanças foram/são inevitáveis?, ou ainda, o que implicam essas respostas para o futuro dos valores humanos?, Ian Morris apresenta o seguinte esquema desses sistemas de valores:

(fotografia tirada por mim do próprio livro)

Interessante perspectiva e com a qual poderemos concordar, na medida em que reconhecemos, por tudo o que aprendemos nas escolas, a História das nossas civilizações, Estados e comunidades. Contudo, a leitura deste livro tem sido acompanhada de um certo desconforto com a ligeireza com que cristaliza determinadas afirmações, como por exemplo:

Os próximos cem anos assistirão a mais mudanças na natureza humana, e nos valores humanos, do que os anteriores cem mil. Se isto lhe parece um exagero, lembre-se de que os últimos cem anos assistiram possivelmente a mais alterações nos nossos corpos do que os anteriores cem mil.(página 228)

Face àquilo que é o raciocínio da teoria explicita neste livro, estranho também - e registo isto como uma hipótese provável - como é que o autor não definiu um quarto momento nesta longa viagem da espécie humana? Estaremos ainda no momento "combustíveis fósseis", ou poderemos estar já num outro estágio do nosso desenvolvimento, proporcionado pela revolução informática e digital que temos experimentado nestas duas últimas décadas?
Para reflexão...

mediascape: anacrónico

A notícia de que o governo brasileiro "pediu" para que as crianças cantem o hino nacional nas salas de aulas e que esse momento deverá ser filmado, é tão, mas tão, ridícula e, ao mesmo tempo, tão significativa do retrocesso civilizacional que a sociedade brasileira está a viver, que a minha única reacção foi esboçar uma sorriso ao olhar para a cara do Bolsonaro, na fotografia que acompanha a notícia. Figura triste, infeliz e anacrónica, que já ganhou o seu lugar na história. Já não lamento.

20 fevereiro 2019

por companhia nestas horas...

uma boa notícia


Bernie Sanders, senador independente de Vermont, anunciou, ontem, que será candidato nas presidenciais de 2020, contra o actual presidente. Sobre este afirmou que é "um embaraço para o país" e que Trump é "um mentiroso patológico. Também é racista, existe, homofónico, xenófobo, alguém que está a ganhar pontos políticos ao atacar as minorias, muitas vezes imigrantes ilegais".
Está dito e bem dito. O anúncio da sua candidatura, apesar da sua idade (77 anos) é, e será sempre, uma boa notícia para a democracia americana e para as democracias de todo o mundo. Já nas eleições anteriores, nas quais perdeu a corrida no partido democrata para Hillary Clinton, eu escrevi aqui que teria sido melhor escolha para enfrentar e derrotar Donald Trump. Claro que agora outros candidatos a candidatos aparecerão e não faltarão escolhas absurdas, mas este senhor merece-me todo o respeito e credibilidade.

voyeurismo involuntário

Sala de espera de um consultório médico, nomeadamente, de uma dentista. Foram as dores insuportáveis que aí me levaram. Apesar da hora marcada para a minha vez, espero sozinho nessa sala durante largos minutos. No entretanto, chegam duas senhoras (aparentando cerca de 50 anos) que, ignorando a minha presença, mantêm a conversa que já traziam da rua. Mesmo sem querer, pelo tom, pelo volume e pela descontração do diálogo, sou obrigado a ouvir a conversa e nem mesmo as dores que trago e que me fazem deambular pelo espaço e me impedem de concentrar no que for, me conseguem abstrair da amena e peculiar conversa.
Falam entusiasmadas e com expressividade dos seus períodos menstruais. É tal o detalhe técnico e fisiológico: desde tipologias de fluídos e suas características, aos absorventes e suas qualidades, às alergias internas e externas, aos efeitos secundários desses dias complicados - os humores, as dores e os amores - à fisionomia dos peitos e até aos apetites sexuais de cada uma dessas senhoras. Lindo. E nem o meu olhar furtivo sobre elas as demove.
Estou cada mais certo de que estarei sempre a aprender. Ainda bem.

mediascape: retrógados?

"Escolas francesas querem acabar com termos 'Mãe' e 'Pai'
A ideia é tratar as famílias tradicionais e os casais do mesmo sexo de forma igual."


Não sei se é verdade, ou uma fake new. Para bem de todos nós, espero que seja mais uma mentira deste novo e estranho mundo. A ser verdade, é a loucura total de um mundo perdido na hiper-sensibilidade comportamental e, acima de tudo, linguística. A República francesa, com o propósito de melhorar o sistema educacional nacional e prevenir a discriminação, pretende adoptar novas designações para substituir as palavras "Pai" e "Mãe", sendo as palavras escolhidas "progenitor 1" e "progenitor 2"... esta nova nomenclatura servirá, segundo a ilustre deputada Valérie Petit (LaREM), para que "ninguém se sentir excluído pelos pensamentos retrógrados da sociedade". Por amor da santa, então ser Pai ou Mãe, ou melhor, ser denominado por "Pai" ou Mãe" é sintoma de anacronismo social?!
Òh senhoras e senhores, atinem!
Vamos alegremente coleccionando degenerescências que, sei, um dia serão estudadas e, sem hesitação, consideradas absurdas e ridículas.

matemática, sempre a matemática

14 fevereiro 2019

gosto


Alexandria Ocasio-Cortez, jovem, bonita e com carisma, esta nova-iorquina de trinta anos é a mais recente estrela do partido democrata no congresso norte-americano. Não sei qual o seu futuro político, mas a julgar pelas intervenções que tem realizado, é, sem dúvida, uma lufada de ar fresco na, habitualmente, cinzenta e amorfa vida política dos EUA. A sua inteligência, perspicácia e coragem tem surpreendido e, com certeza, incomodado muita gente, mesmo no establishment democrata. Gosto, gosto muito.

13 fevereiro 2019

serviço nacional de saúde sitiado

Face àquilo que tem acontecido nas últimas semanas, só podemos concluir que está em marcha um ataque concertado ao Serviço Nacional de Saúde (SNS). Primeiro foi a greve, para uns cirúrgica, para outros selvagem, dos enfermeiros, que só terminou com a, mais que discutível, requisição civil por parte do governo e que, por mais estranho que pareça, mereceu uma estrondosa indiferença dos partidos à esquerda do PS. Não sei, mas com esta atitude, assistimos ao princípio do fim da lei da greve, tal qual a conhecemos. Vão, a breve trecho, alterá-la. Eu quase aposto...
Segundo, o tremendo ruído em torno da ADSE e das ameaças dos prestadores privados de saúde em romperem os acordos com esse subsistema de saúde. Vamos lá ver, a ADSE, suportada por um parecer da Procuradoria Geral da República que lhe deu razão, exigiu aos prestadores privados de saúde o pagamento de cerca de 38 milhões de euros que estes cobraram a mais indevidamente. Aliás, é de conhecimento generalizado que esses privados usam e abusam, há décadas, do Estado através deste seu subsistema. Agora, como reacção a essa exigência e para não pagarem o que devem, alguns privados ameaçam acabar com os protocolos estabelecidos com a ADSE.
Perante tal cenário, não deixa de ser curiosa e impressionante a rapidez com que alguns querem responsabilizar o governo pela destruição da ADSE e, pior, acreditam que o SNS deveria ser privatizado e entregue à especulação dos "mercados". A maioria das pessoas não sabe, outros nem querem saber e, outros ainda, fingem não saber, que a ADSE é exclusivamente paga pelos seus utentes e não é suportada pelo orçamento de Estado, ou seja, por todos os portugueses. Portanto, e ao contrário daquilo que os seus detractores afirmam, a ADSE não é um privilégio de alguns. Se qualquer cidadão português pode adquirir sistema complementar de saúde, ou subscrever um seguro de saúde, porque é que os funcionários públicos não hão-de poder ter, pagando do seu bolso, o seu sistema complementar de saúde?
Aquilo que estes prestadores privados agora estão a fazer não tem outra qualificação que não seja chantagem negocial, ameaçando privar os utentes da ADSE e com isso empurrá-los para o SNS, sabendo que este não tem capacidade para absorver e dar resposta a tal solicitação. Com esta atitude esses privados demonstram, igualmente, que o lucro, o seu lucro, é o fim que justificará sempre qualquer procedimento ou acção e que "vender" saúde não é diferente de "vender" qualquer outro bem ou serviço.
É, pois, em momentos como este que rejubilo, apesar de todas as suas carências e defeitos, pela existência de um Serviço Nacional de Saúde em Portugal, de acesso universal e, preferencialmente, gratuito. O que aconteceria se não existisse um SNS, ou se este fosse privatizado e ficasse nas mãos destes especuladores privados?... Bem podemos imaginar.
Não quero saber de ideologias ou de partidos, aqui como noutras dimensões sociais, quero é uma sociedade mais justa e civilizada, na qual a saúde não pode ser um negócio e na qual os utentes, pacientes ou doentes não sejam convertidos em clientes.

solilóquio

As salas de espera dos dentistas (esses sacerdotes da sádica arte de tortura humana) são verdadeiros cadafalsos e onde as dores que nos mortificam, fazem-nos desejar que a morte chegue breve.

insegurança existência

Apareceu na minha timeline do Twitter, o seguinte texto de alguém que não conheço, nem sigo nessa rede:

Vocês também olham para outras pessoas da vossa idade e acham que parecem todos bué mais adultos e maturos que vocês?

Num impulso, respondi-lhe à dúvida existência...

Isso acontece-me desde puto. Os outros é que sabem, é que são bons e superiores. Insegurança talvez?! Não sei, mas desconfio que assim será até ao fim.

Mas fiquei a reflectir sobre o assunto e a verdade é que recordo ser miúdo e admirar a capacidade de afirmação, de personalidade, que alguns e algumas, entre pares, evidenciavam. De igual forma, em relação aos adultos, condição que entendia como longínqua e quase incansável para mim. Depois, já mais crescido, enquanto estudante e até enquanto jovem adulto, trabalhador e emancipado (ou quase), senti sempre alguma insegurança naquilo que eram as minhas convicções, as minhas opiniões e até as minhas capacidades. O sentimento permanente de alguma inferioridade acompanhou-me até hoje. Claro que, no entretanto, fui aprendendo a lidar e a gerir esses sentimentos. A própria vida se encarrega de nos contrariar e de nos presentear com momentos que vão reforçando a auto-estima e a confiança.
Contudo, ainda hoje, em plena segunda idade, reconheço em mim, e em determinados momentos, essa pueril insegurança. Por outro lado, e chegados aqui, também considero que esse facto é indissociável de uma dada humildade que, em mim e para mim, será sempre uma qualidade existêncial.

a sério?

A aproximação da falência traz aos grupos financeiros uma consciência intensa da nação a que pertencem.
(André Malraux, 1933)

01 fevereiro 2019

cultura

É muito difícil, senão impossível, explicar a um néscio a importância da cultura, pois ele não tem cultura para perceber a falta dela.
(Afonso Cruz, in Jornal de Letras nº 1261)

31 janeiro 2019

baron noir

Inspirada na vida política francesa dos últimos anos, esta série que, actualmente, a RTP2 transmite, tem-me obrigado a ligar a TV por volta das 22 horas (um pouco mais cedo do que o habitual). Dizem que as suas personagens representam cada um dos políticos reais da República Francesa. Como não conheço com esse detalhe a actualidade política gaulesa, apenas consigo identificar os principais intervenientes. Excelente enredo, actores magníficos. Enfim, é uma produção francesa. Muito bom.

30 janeiro 2019

mediascape:incompreensão

Circula por aí, nesse fascinante universo das redes sociais, uma indignação por João Miguel Tavares ter sido convidado para presidir às próximas comemorações do dia 10 de Junho. Não entendo porquê tanto alarido e indignação por causa disto. Independentemente de concordar ou não com as posições, com as opiniões ou com a mundivisão do referido jornalista, parece-me descabida a reacção de alguns sectores da sociedade. Seria interessante perceber as verdadeiras razões deste incómodo. Eu até desconfio saber a verdade, mas prefiro guardá-la para mim.

mediascape:extasiado

Só hoje tive oportunidade de ler e reflectir sobre as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa a propósito da sua possível recandidatura à Presidência da República. Recordo bem quando, ainda em campanha para o seu primeiro mandato, afirmava para quem o ouvia que era apologista de mandatos únicos e que não tencionava recandidatar-se a um segundo mandato. Pois bem, o Presidente da República Portuguesa mudou de opinião e afirmou recentemente, extasiado pelo anúncio da realização das jornadas mundiais da juventude em Lisboa, que existiam dois pressupostos para se recandidatar: 1º ter saúde (a sério?!...) e, 2º, (pasmem-se) saber que não há ninguém em melhores condições para receber o Papa; Bem, nem sei como adjectivar este segundo termo da equação, mas trazer para o plano político, numa república laica, um evento da cariz religioso, ainda por cima promovendo-o a critério de ponderação e decisão política é, no mínimo, ofensivo aos valores da República e demonstra, de uma vez por todas, o quão populista é o nosso Presidente da República.

23 janeiro 2019

imparidades, dizem!

Foi divulgada recentemente, e pelo que tudo indica ao luso jeito de "fuga de informação", a lista com as empresas e indivíduos com maiores dívidas à Caixa Geral de Depósitos, resultantes de empréstimos bancários concedidos e que significaram avultadas perdas por incumprimento no pagamento desses empréstimos. Um vergonha nacional! Um crime que lesa a pátria e cada um de nós, portugueses. Tendo em conta alguns dos nomes que aqui encontramos, agora se percebe porque é que o Banco de Portugal não queria divulgar a lista, nem sequer entregá-la à Assembleia da República. Tem que haver imediatas consequências políticas e criminais do conhecimento destes factos. Já foi alguém detido? Linchado em praça pública? Claro que não. Não podemos continuar a aceitar que, alguns espertos, nos inflijam esta sodomização colectiva. Eu, pelo menos, não aprecio.
Lembram-se agora do mote: "andamos a viver acima das nossas possibilidades, agora temos que pagar"? Pois bem, onde estão esses senhores? É aqui, nesta lista, que está a dívida privada e pública, é aqui que estiveram a viver acima das suas (e nossas) possibilidades, é aqui que está parte da culpa por ter existido um resgate internacional ao nosso país.

22 janeiro 2019

a escola

Sem ser propriamente inédito, aqui está um texto que deveria ser de leitura obrigatória para todos os alunos do ensino básico e secundário em Portugal. Mas mais do que consciencializar as gerações mais novas, as que estão agora na escola, para a importância da Escola e sua ontogenia, importava que os mais velhos, aqueles que decidem as políticas do ensino em Portugal para o presente e para o futuro, fossem também obrigados a lê-lo.
Porque não está ainda disponível na página do Jornal de Letras, digitalizei-o para aqui o partilhar.

(Valter Hugo Mãe, in Jornal de Letras nº 1260, Janeiro 2019)

16 janeiro 2019

solilóquio

A espaços regresso a esta mesa de trabalho que, apesar de vermelha, está, ainda, encostada a uma enorme janela. A imensa luz do dia que a alcança ilumina-me e permite-me respirar para além das herméticas paredes dos lugares que habito.

conversar

A leitura é exactamente uma conversa com homens muito mais sensatos e mais interessantes do que os que podemos ter ocasião de conhecer à nossa volta.
Marcel Proust in "O Prazer da Leitura", (1997).

10 janeiro 2019

curiosidade


Curioso, a Antropologia não é tida nem achada por nenhuma das suas "parentes", nem ela se cita a si mesma...

09 janeiro 2019

solilóquio

incomoda sentir-me inconveniente;
desconcerta a arrogância da ignorância alheia;
desarma, por completo, a má educação;
eu, hoje, em particular.

nem de propósito

Rui Nunes, em entrevista ao Jornal de Letras, diz-se farto da literatura... (negritos meus)

Não gosto do que se escreve hoje, particularmente no domínio da ficção. Acho que se separou completamente da realidade. (...) a realidade não está lá. (...) falta-lhes abertura ao mundo. (...) O eco de outras leituras está demasiado presente e o eco do mundo cada vez mais distante. É uma literatura que trabalha sobre a literatura, livros que se escrevem sobre livros.
(...)
Vemos que essas ideias (nazismo) têm uma presença cada vez mais forte. E parece que estamos esquecidos. (...) E parece que não se vê que essa luz maligna está a inundar e estranhamente a iluminar o mundo actual. E a seduzir muita gente, tal como nos anos 20 e 30.
(...)
É que quando se fala desse horror (nazismo) tão próximo, assim como da escalada a que se assiste hoje, fala-se de uma maneira normalizada E a normalização do discurso impede o seu funcionamento. As pessoas lêem e esquecem. É mais uma história. É preciso uma escrita que não seja normalizada para que as pessoas se interroguem acerca do que diz. Uma escrita normalizada é rápida e leva a um esquecimento muito rápido. Se perguntarmos a muita gente o que leu ontem no jornal, veremos que já não se lembra. O presente tem um poder muito forte e faz esquecer o passado de que é produto. Penso que é preciso reinventar, embora não goste muito deste termo, a escrita.
(...)
É preciso criar na própria escrita um atrito, uma violência que seja de certo modo homóloga à que temos presente na realidade. Uma linguagem normalizada não permite que se pare, enquanto o atrito obriga a parar.

08 janeiro 2019

a democracia, o politicamente correcto e a coragem

Vi, em directo, o Eixo do Mal do último Sábado e assisti à intervenção corajosa de Daniel Oliveira. Quis logo partilhá-la aqui, mas só agora consegui encontrar esse segmento. Um exemplo daquilo que todos nós, cidadãos de um Estado de Direito democrático deveríamos fazer, valorizar e defender. Aquilo que estamos a assistir em Portugal, embalado pelo que tem vindo a acontecer em vários países da Europa e mundo, e pelos órgãos de comunicação social e seus actores - jornalistas, comentadores e colunistas, é a uma preocupante normalização dos discursos e práticas de extrema-direita que, a vingarem, representarão o fim da própria democracia.

Nota: O ridículo daquilo que Luís Goucha fez ao levar Mário Machado ao seu programa televisivo, sob o pretexto da liberdade de expressão, é não se ter apercebido que esse senhor, caso as suas ideias saiam vencedoras, não só não hesitará em lhe retirar toda a sua liberdade de expressão, como não descansará enquanto não o exterminar.


07 janeiro 2019

terra da maçã

O programa Share retirou-me do aconchego da lareira no dia de ontem, Domingo, ainda por cima dia de festa familiar, para me levar até terras de Armamar, na margem esquerda do Douro. Apesar do dia soalheiro, estava um frio de rachar e foi num estado de quase hipotermia que cheguei a casa por volta das vinte e uma horas. A razão que me levou até à terra das maçãs foi a conversa com senhora que já participa neste estudo há vários anos e que agora vive nessa pequena aldeia de Armamar. Quase no final da nossa conversa, a senhora levantou-se e saiu da cozinha, espaço onde conversávamos, e quando regressou trazia um enorme saco cheio de maças, couves e dióspiros para me oferecer. Ainda tentei resistir, pois não era suposto eu receber nada em troca, a não ser a informação que procurava, mas a simpatia e insistência da minha interlocutora foi mais forte. Só quando cheguei ao Porto e restabeleci a temperatura corporal, fui abrir o saco. Que espectáculo de maçãs - bonitas, grandes e saborosas. Bem se podem auto-denominar e projectar como a terra da maçã...

05 janeiro 2019

pensamento

Curioso como o pensamento e os grandes pensadores estão desvalorizados no século XXI. Para quê pensar se todos estão precisamente, agora mesmo, ocupados a ter uma opinião?
Gonçalo M. Tavares, in Jornal de Letras.

02 janeiro 2019

ler

Apenas hoje a encontrei nas bancas. É o número de Outono, mas só agora saiu. Enfim.


abstinência natalícia

Na última visita ao médico, quando faltavam duas ou três semanas para o Natal, fui alertado, por ele, para ter algum cuidado com a alimentação nessa quadra tão propícia a consumos exagerados. Logo na altura sosseguei-o, dizendo-lhe que, normalmente, nesta altura do ano, são dias de fome para mim, pois não sou, de todo, apreciador das iguarias natalícias e afins.
Agora que esse tempo de voluptuosidade e faustosidade gastronómica terminou, posso reafirmar essa minha (pré)disposição para a abstinência alimentar. Para além do vinho que ingeri, de um ou outro whisky, não cometi qualquer pecado de gula. E doçarias, apesar da variada oferta, nem lhes toquei.
A balança confirma e é testemunha do que digo.

com parcimónia

Ao contrário do que esperava, foi com muita facilidade que, hoje, bem cedo, cheguei ao centro da cidade. Talvez por inexperiência ou pela longa ausência, sempre pensei que o segundo dia do ano fosse já pleno de actividade e confusão na Invicta e seus arredores. Não. Sente-se a cidade a espreguiçar da ressaca dos dias de nomeada e folia passados. Pelos vistos, reiniciar a labuta custa e é com parcimónia que regressamos ao ritmo habitual, às andanças dos dias ordinários. Com certeza, amanhã, com o regresso em força dos estudantes e professores às escolas, a realidade será outra e o reboliço matinal estará de volta.

01 janeiro 2019

primeiro de Janeiro

Novo ano, vida nova, costumam dizer. Não sei, tenho dúvidas quanto a essa "novidade", mas aquilo que acontece logo neste primeiro dia do novo ano, não pode deixar de me preocupar e de me alertar os sentidos. A vida nova do Brasil começa hoje com a tomada de posse de Bolsonaro. Um mau presságio para o resto do ano e dos tempos que hão-de vir.
Também por isto, a palavra escolhida como lema para 2019 é a mais adequada: resistência. Há que resistir, temos e vamos resistir. Bom ano.