29 janeiro 2011

é por isto que estamos como estamos...

A teoria do pós-imperialismo fala de uma emergente burguesia de executivos, uma nova classe social saída das relações entre o sector administrativo do Estado e as grandes empresas privadas ou privatizadas. Esta nova classe é composta por um ramo local e por um ramo internacional. O ramo local, a burguesia nacional, é uma categoria socialmente ampla que envolve a elite empresarial, os directores de empresas, os altos funcionários do Estado, lideres políticos e profissionais influentes. Apesar de toda a heterogeneidade, estes diferentes grupos constituem uma classe, "porque os seus membros, apesar da diversidade dos seus interesses sectoriais, partilham uma situação comum de privilégio socioeconómico e um interesse comum de classse nas relações do poder político e do controlo social que são intrínsecas ao modo de produção capitalista". O ramo internacional, a burguesia internacional, é composta pelos gestores das empresas multinacionais e pelos dirigentes das instituições financeiras internacionais. As novas desigualdades sociais produzidas por esta estrutura de classe têm vindo a ser amplamente reconhecidas mesmo pelas agências multilaterais que têm liderado este modelo de globalização, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. (Becket e Sklar, 1987, in Boaventura de Sousa Santos, 2005)
(negritos meus...)

28 janeiro 2011

de feiras e afins

- Edfeldt, Chatarina e Couto, Anabela Galhardo (org.), 2008, Mulheres que escrevem, mulheres que lêem, Lisboa, 101 noites;
- Silva, Rui Pedro, 2003, Contigo torno-me real, Porto, Edições Afrontamento;
- Menget, Patrick, 2001, Em Nome dos Outros, Lisboa, Museu Nacional de Etnologia e Assírio & Alvim;
- Revista da FCSH, 2006, Ciências Sociais (nº 18), Lisboa, Universidade Nova de Lisboa e Edições Colibri;
- Martins, Maria de Fátima da Silva Vieira, 2007, Mitos e Crenças na Gravidez, Lisboa, Edições Colibri;

25 janeiro 2011

especialidade da casa

Conhecido por estar aberto 24 horas por dia e durante praticamente todo o ano, tem fama de ser um templo para os invertebrados do jogo e para os rastejantes do álcool. O Dom Mário, localizado bem no centro de Macedo de Cavaleiros, é também famoso pelo seu ambiente acolhedor e pela qualidade e eficiência no atendimento a clientes e fregueses. Desconhecendo esta realidade, numa recente deslocação a Macedo, precisamente num dia em que toda a cidade descansava, entrei neste café para reconfortar o estômago. Mal encostado ao balcão fui de imediato atendido pelo, presumivelmente, "Dom" Mário. Tive apenas tempo de olhar para a pequena vitrine onde estavam expostos meia-dúzia de rissóis com aspecto razoavelmente apetitoso. Pedi então um rissol e uma cerveja. Solícito e comigo a apreciar saca de uma Superbock da arca, pegou num prato onde colocou um guardanapo e aproximou-o da vitrine. Acto contínuo, puxou do palito que trazia entre os dentes e com a extremidade humedecida por suas cáries dentárias, espetou com afinco um dos rissóis e colocou-o no prato, fazendo regressar ao aconchego da boca o dito palito, enquanto comenta:
- Ora aqui está! Estão muito bons...
- Ora pois. Quanto é?
- perguntei eu, sabendo que jamais iria comer tal petisco.

24 janeiro 2011

quatro anos de viagem

No dia do quarto aniversário deste blogue, resolvi inventar e tentar alterar a sua imagem. Não pretendia nada radicalmente diferentes. Maldita hora em que tive estapafurdia ideia, pois ao actualizar o layout perdi todas as formatações anteriores. Fiquei apurriado!.. De qualquer forma, consegui manter o essencial e todos os amigos e todas amigas que por aqui continuarem a passar não vão, com certeza, estranhar. Aproveitei para fazer uma limpeza geral, pois é sempre muito o pó inutil que se vai juntando com o passar do tempo. Assim, espero que possam continuar a partilhar comigo o meu e o vosso tempo. Obrigado. 

20 janeiro 2011

"Às vezes interrogo-me se não estarei a escrever romances só para me dar ao luxo destas referências apenas compreensíveis para mim mesmo, mas sinto-me como um pintor que retrate um pano adamascado e no meio das volutas, flores e corimbos, ponha - quase invisíveis - as iniciais da sua amada. Não importa se nem ela própria as note, os actos de amor são gratuitos." (Umberto Eco, 2003)

17 janeiro 2011

protagonismos

“A mudança pode começar aqui”
É lugar-comum dizer-se que vivemos um tempo de enormes dificuldades sociais e económicas, verdade indesmentível e dramaticamente sentida por milhares e milhares de portugueses, mas permitam-me que reajuste esse lugar-comum, dizendo que em Bragança vivemos um espaço de enormes dificuldades sociais e económicas, verdade indesmentível pelo abandono e desprezo geracional e crónico de Lisboa para com esta região, pelas estatísticas do desemprego regional e local, pela falta de investimento no sector agrícola, pecuário e florestal, pela falta de equipamentos e infra-estruturas e, principalmente, pela indiferença face ao drama humano e nacional que são os novos movimentos de emigração, que nos levam as novas gerações, criadas e formadas com o esforço colectivo, mas que agora não perspectivam qualquer hipótese de futuro em Portugal, tão-pouco em Bragança.
Deste lugar, distanciado do Terreiro do Paço, é por demais evidente e sentido este drama. É a tristeza de um presente precário. Sabermos que um dia teremos que partir porque pouco mais que nada deixaremos para trás. É triste. Mas estarmos aqui reunidos é sinónimo da nossa perseverança; nós não desistimos, continuamos a acreditar na nossa gente, na nossa cidade, no nosso concelho, na nossa região e no nosso país. Acreditamos num futuro…
Dr. Manuel Alegre,
Estamos aqui reunidos consigo porque se comprometeu com o Estado Social e nós defendemos o Estado Social e não aceitamos, nem sequer toleramos o ataque que alguns lhe pretendem infligir. Lutaremos sem fim pela sua manutenção ou existência;
Estamos aqui reunidos consigo porque partilhamos da visão de um país regionalizado e da necessidade de uma reforma administrativa;
Estamos aqui reunidos consigo porque queremos um Serviço Nacional de Saúde que garanta a universalidade e a qualidade dos serviços a prestar aos portugueses e às portuguesas;
Estamos aqui reunidos consigo porque acreditamos na Escola Pública com diversidade e propriedade, na qual o ensino é entendido e praticado com exigência e como garantia de justiça social e de igualdade de oportunidades para as novas gerações de todo Portugal;
Estamos aqui reunidos consigo porque é o único candidato que tem declarado com clareza e sem qualquer subterfúgio e sem ambiguidades o seu entendimento do que é ser Presidente da República no Portugal actual; Estamos aqui reunidos consigo porque sabemos que é necessário unir as esquerdas para conseguirmos uma segunda volta nestas eleições e assim derrotarmos a direita e o seu programa para o País – é que temos a memória e a consciência de que o nosso adversário da direita é o político português que mais contribuiu para termos chegado ao estado actual. Cavaco Silva é responsável, é político e tem escrito nas suas mãos o declínio social e económico do país nas últimas três décadas;
Estamos aqui reunidos consigo, acima de tudo, porque é necessário inverter o actual estado de total falta de credibilidade institucional com que as instituições nacionais, em geral, e os órgãos de soberania, em particular, são vistos e sentidos pelas ruas e seus cidadãos.
Precisamos de uma urgente e profunda alteração de paradigma nas ideias, nas políticas e na gestão da coisa pública. É tempo de relativizar e afastar dos centros de poder e de decisão a tecnocracia, a especulação e seus mercados - uma soberania nacional não pode, não deve estar manietada por tais lógicas e interesses; É tempo de recolocar no seu lugar, por direito e pela democracia republicana, a política, a ética, a cidadania, enfim as pessoas.
Para nós, Manuel Alegre é o cidadão, mais do que indicado, talhado para personificar esse desafio, essa vontade. Tal como diz o nosso candidato: “A grande arma de um Presidente é a palavra. As palavras ajudam a mudar a vida, ajudam a criar confiança e esperança.” É nosso dever, já no próximo dia 23, dar a essa arma um verdadeiro Presidente, dar a essa palavra a devida importância, a sua verdadeira dimensão. Vamos então, todos, elegê-la para a Presidência da República Portuguesa.
(intervenção no almoço de campanha de Manuel Alegre - Bragança, 17 de Janeiro de 2011)

(alguns desses momentos - em actualização)

R.I.P. Gaspar

As palavras ficam para depois.

solilóquio

O cachimbo é o símbolo da solidariedade social. Bem dizem que devemos ser solidários, portanto há que fazer uso do cachimbo. Eu uso-o, sou solidário.

16 janeiro 2011

instante urbano XIII

Pára-Arranca-Pára
Num qualquer parque de estacionamento presenciei o seguinte: dois automóveis estacionados frente um do outro prestam-se para sair dos seus lugares. Arrancam com toda a vontade, mas de imediato, apercebem-se do outro veículo e param repentinamente. Educadamente ambos dão prioridade, passe a redondância, um ao outro e voltam a arrancar os dois ao mesmo tempo, ficando, desta feita, praticamente encostados. Com um outro semblante voltam a dar-se prioridade um ao outro através de veementes sinaléticas. Ambos recuam uns centímetros e, a julgar pelo peso em cima dos aceleradores, já irritados e pela última vez, arrancam violentamente um contra o outro. Os danos não terão sido significativos, mas digno de registo foram as palavras que ouvi da boca das magníficas condutoras:
- Ó meu Deus!
- Meu Deus!? Não! Ó minha Senhora!...

14 janeiro 2011

"O desfecho histórico de qualquer choque entre deuses foi determinado por aqueles que empunhavam as melhores armas e não por aqueles que possuíam os melhores argumentos." (Peter L. Berger e Thomas Luckmann)

13 janeiro 2011

solilóquio

(algures na cidade de Barcelona e neste preciso momento)

- já chega. Tenho que ir embora...
- espera. Só mais um pouquinho...
- vou-me embora...
- ok, mas antes passemos numa loja qualquer que tenha um espelho...
- porquê e para quê?..
- para poderes ver como ficamos bem um ao lado do outro...
E foram.

11 janeiro 2011

solilóquio

chega-te para cá, dizes tu.
por que lado falta eu chegar-me a ti?
diz-me que eu vou, eu chego já...
a um  milimetro de ti, estarei perto?
qual a distância para podermos dizer aos outros?

09 janeiro 2011

solilóquio

- até já a minha mãe pergunta por ti...
- manda-lhe um beijinho meu e diz-lhe que eu adoro o filho dela...

07 janeiro 2011

solilóquio

o telefone que não toca... és tu (sou eu)
a mensagem que não chega... és tu (sou eu)
tu és

06 janeiro 2011

depressões

De tempos a tempos e por vezes regularmente sou informado ou dão-me ao conhecimento que fulano está com depressão ou que cicrana está num estado de profunda depressão, e eu não compreendo. O que é isso de estar com ou em depressão!? Será frustração, será trauma, será pessísmismo exacerbado, será falta de amor próprio, ou o seu excesso!? Será desiquilíbrio hormonal, mental ou libidinal!? Será esquizofrenia relacional, serão egos retorcidos, ou serão desestruturações!? Ou será um pouco de tudo isto!? Ou não será nada disto!?
É que segundo percebo daquilo que acontece com esses e essas que por perto vão caindo nesses estados existênciais, eu e a minha condição seríamos perfís ideais para essas experiências, que o pessoal tanto vai experimentando alternadamente com a sua mais-que-pouca lucidez. Feliz ou infelizmente nunca tal experimentei. O que me terá faltado, ou o que me faltará para o vir a experimentar, desconheço.
Aquilo que sou não é facilmente acessível, até para mim próprio. Para tal é preciso que eu pare, detenha a contínua espontaneidade da minha experiência e, de modo deliberado, faça incidir a minha atenção sobre mim próprio - nem sempre fácil. Sei, porque sinto, que há dias bons e outros menos bons e que assim será para o meu sempre, mas daí até poder dizer que estou em depressão...
Cá para mim (desculpem-me os demais...), grande parte desses casos não passam de estratégias para reclamar determinadas atenções. São meros subterfúgios, uns mais outros menos públicos, de egoísmos que à solta, por aí andam. Disse.

05 janeiro 2011

instantes urbanos XII

Verborreia Masculina
Neste final de tarde, agora princípio de noite, aguardo pacientemente o resto da família num cafézito bem perto do antigo campo do Vilanovense, em Gaia. Quando entrei no café este estava vazio, mas logo depois de mim entrou um outro indivíduo que, ainda na rua, em alta voz e num tom jucoso, começa a falar para cá para dentro. A conversa com o dono do café prossegue sem sequer se preocuparem com a minha presença. Eu, na minha insignificância, vou lendo, ou pelo menos tentando... Distraído daquilo a que me propus inicialmente, logo percebo que o indivíduo que entrou é médico, pois queixa-se da crise que também já afecta as consultas de pediatria. Os dois interlocutores demonstram significativa intimidade e cumplicidade. A conversa, à boca cheia, quase à desgarrada, era acerca das aventuras sexuais de cada um deles (não estranharia nada que nalgumas situações em simultâneo...) com mulheres brasileiras. O médico, pelo discurso, era daqueles cuja líbido não cabe nos poucos centímetros de pénis que possui, pois para além da cagança no timbre de voz, dizia-se até preocupado com o seu enorme charme e sucesso junto do sexo oposto e com o permanente assédio que sente da parte, principalmente, das mães dos seus pequenos pacientes. É que lhe têm causado enormes trantornos e situações desagradáveis. Inclusivé, diz-se farto de avisar a sua própria mulher que se sente uma vítima da enorme exposição pública e que não pode impedir as mães de se apaixonarem por ele. Será portanto natural ter tantas mensagens amorosas no seu telemóvel... O outro vai-se rindo, e ainda por cima de boca aberta, néscio, concordando com tudo aquilo que ouve. Ficámos todos a saber os seus (do médico) gostos e desejos: tipo de mulher, estatura, étnia e geografia de proveniência, pois tudo isto será fundamental para este doutor que garante que o desempenho das fêmeas é diferenciado. E nada como ir ao Brasil e experimentar in loco uma verdadeira picanha, uma maminha e respectiva caipirinha... Confesso que toda esta verborreia, encharcada de líbido, me incomodou e por momentos hesitei se deveria ou não levantar-me e sair, mas acabei por ficar a escrevinhar estas linhas e, em definitivo, esquecer o texto que trouxera para ler. A conversa só se dignificou no momento em que uma senhora assomou à porta, ameaçando entrar. Aí, um deles adevertiu: "Cuidado!"

''Habitación en Roma''

Vi este filme ontem à noite e fiquei arrebatado. Duas mulheres e um quarto de hotel. Bonito. Pela história, pelas mulheres, pela realização e principalmente pela banda sonora, do qual se destaca este "Loving Strangers". Procurem-no e vejam. Atenção mentes mais sensíveis...

04 janeiro 2011

refúgio de mim

Cada vez mais e com maior intensidade. Só ela me permite alhear de toda a circunstância existêncial. Envolvente, implica-me e leva-me para um outro estado mental e essa ausência de mim faz-me sentir muito bem num qualquer nirvana. Simultaneamente, esse abraço que me dá, obriga-me a um esforço e um desgaste suplementar que, nalguns momentos é pura dor e, quase sempre, sofrimento. Como custa chegar até ela!.. Apesar de tudo é terapêutica e serve-me ao segundo para não desencantar definitivamente o meu tempo. Por isso digo, preciso e quero sempre mais. Ela é o meu refúgio, ela é a escrita.

contra-natura

Consegui ver a imagem no noticiário das 20 horas e aí percebe-se nitidamente e melhor que aqui a estranheza deste momento, em que Cavaco Silva sobe ao tejadilho de um automóvel. Foi estranho, muito estranho...

deriva europeia

No início de mais um ano que se prevê longo e difícil, perscrutando à minha volta, que é como quem diz, olhando para esta imensa europa, não posso deixar de referir aquilo que se percebe estar a acontecer: a deriva à direita que todos, ou quase todos, os estados europeus estão a realizar e que, nalguns casos, poderá levá-los até às reminiscências de fascismos e de totalitarismos. Para além dos já conhecidos e patéticos casos da Itália e da França, outros se preparam para trilhar o mesmo caminho - Holanda, Dinamarca, Inglaterra, Suécia e Hungria, apenas para referir alguns exemplos. Mesmo em Portugal já todos adivinham o que poderá ainda este ano ser um novo governo do PSD, mas também e se olharmos para a Comunicação Social, a tal "Português Suave", não poderemos deixar de reparar que toda ela é tendêncialmente de direita. Mais, tal como nos diz Eduardo Pitta no seu blogue, "A opinião publicada tornou-se um feudo da direita".
Ainda que a custo, assuma-se que a esquerda europeia, enquanto governo e poder, não assumiu as suas responsabilidades e nunca foi além do discurso fácil da integração e do multiculturalismo. Fazer crescer a Europa para limites inatangíveis e inimagináveis até há bem pouco tempo, terá sido uma ambição desmedida e ter acreditado que nesse espaço caberiam todos e mais alguns, terá sido uma quimera, que agora e só agora começamos a perspectivar e em sobressalto a desconstruir.
Ao contrário do que disseram e, pior, dizem muitas dessas esquerdas, as pessoas precisam, desejam e querem segurança para as suas vidas e relativizam, desdramatizando, a origem ou a fonte dessa segurança. Em verdade, preferem perder liberdades, a sua liberdade, assim como grande parte da sua cidadania, mas sentirem-se confortáveis e tranquilas, afastadas das sensações de eminente crime vádio e de latente violência social.
Atenção às tendências europeias, não são casualísticas nem são conjunturais e as esquerdas do que resta desta Europa serão sempre e grandemente responsabilizadas pela história. Veremos.

02 janeiro 2011

LER de Janeiro

Aproveitando o não-dia que foi ontem, li com todo o vagar a revista LER de Janeiro que se dedica quase exclusivamente à tão badalada "crise". Está bem preenchida, apesar do tema central e numa primeira abordagem me afastar os sentidos. Gostei deste número, especialmente da Diacrónica, do Diário de Ocasião, do Folhetim de Polémicas Literárias assinado por Fernando Venâncio, do texto de José Mário Silva e da excelente entrevista de Carlos Vaz Marques a Manuel Villaverde Cabral.
Notáveis passagens e alguns excertos:
“Crise é o momento da decisão, momento de a tomar ou de ser ela tomada: em que se promete a solução, e enfim o sofrimento duma maneira ou de outra acaba. Eis por que motivo a crise é afinal um estado de ânimo propenso à acção e consequentemente à… felicidade. As pessoas, como se sabe, ficam mais felizes quando se mexem.” (Abel Barros Baptista)
“Tenho dúvidas. Gosto de ter livros ao pé de mim; não sei se isto se passa consigo, mas eu conservo esse pecado, o egoísmo dos livros. Frequento bibliotecas, mas, mesmo nessas circunstâncias, torno-me «proprietário» ficcional dessas bibliotecas e desses livros. Não estou a ver-me proprietário de uma «nuvem» (a propósito do serviço GoogleBooks, lançado em Dezembro nos EUA) que, ainda por cima, não existe fisicamente. Onde é que vou deixar bilhetes e rasuras? Um mistério, outro mistério. A nossa vida está a mudar muito rapidamente e sinto-me um reaccionário tremendo.” (Francisco José Viegas)
Excertos da excelente entrevista de Carlos Vaz Marques a Manuel Villaverde Cabral:
“A crise que estamos a atravessar tem uma dimensão para além da económica e política – quer dizer, vê-a também já numa dimensão cultural, em sentido lato?
Mesmo fora de Portugal vejo pouco discurso alternativo credível. Os discursos alternativos que eu vejo não são credíveis. O meu colega Boaventura Sousa Santos é, aliás, a nível internacional, uma voz que propõe uma globalização alternativa.
A chamada «altermundialização».
Uma globalização contra-hegemónica e outro tipo de terminologia do género. É algo que admito que tenha ressonâncias na América Latina – onde ele realmente pratica essa influência – mas muito sinceramente não creio que aquele discurso se aplique à Europa.
Não há portanto, do seu ponto de vista, um modelo cultural que possa suceder àquele em que vivemos.
Eu não o vejo. O que emergiu imediatamente foi – até ao nível daquilo a que se chama agora a «nova economia política», portanto dos economistas que se pretendem alternativos – um discurso que tem tanto menos êxito quanto menos prospectivo é. Manifesta-se sobretudo pela defensiva, pela preservação dos adquiridos. Houve uma ideia – aliás, o nosso primeiro-ministro, que é esperto, chegou a falar nisso – que era a de um regresso ao keynesianismo.
Com a intervenção do Estado para segurar a economia.
Exactamente. Uma intervenção legitimada a nível ideológico – e o aspecto ideológico tem sempre uma âncora, uma referência ou quanto mais não seja um auditório sociocultural. Em Portugal, a audiência mais interessante, mais dinâmica, mais prospectiva desse discurso, que durante um certo momento pareceu poder funcionar como alternativo, será o povo do Bloco de Esquerda. É sem dúvida, sociologicamente, o partido com o mais alto grau de instrução; e se calhar também de rendimento. Ou seja, se há elites alternativas, no melhor sentido da palavra, não só em termos políticos mas também culturais, estão aí.
(…)
…podemos regressar a um discurso artístico mais interveniente em termos sociais?
Nunca mais vamos regressar nem ao surrealismo quanto mais ao neo-realismo. Não voltaremos a ter grandes movimentos. A nossa época não consente isso. A nossa sociedade é demasiado complexa. Danilo Zolo diz: «a nossa sociedade é demasiado complexa para ser gerida por um sistema tão tosco como o voto.» Não quer dizer que seja mau, é grosseiro. Nem os governantes, quanto mais os eleitores, têm consciência de toda a complexidade dos problemas.
(…)
a cultura baseada no livro parece-lhe ameaçada.
A leitura de livros acrescenta. (…) As pessoas que lêem vão sempre distinguir-se das outras e terão sempre o seu nicho de mercado. Uma coisa lhe digo: nada activa mais o neurónio do que a leitura.
(…)
O que parece de facto é que é consagrado muito pouco tempo ao esforço da leitura. Temos um grande problema: repare, o nosso atraso em relação aos países escandinavos é de mais de cem anos.
Um atraso em termos culturais?
Em termos educativos. Nós ainda estamos a ensinar a ler a crianças cujos pais não sabem ler. A pretensão da escola de fazer tudo – o que as famílias faziam, o que a sociedade deveria fazer – é que está a matar a escola."
“Na verdade, espero que o romance do século XXI não seja escrito só no século XXII. Porque gostava mesmo de o ler – seja em papel, a partir da «nuvem» ou noutro sistema qualquer que ainda esteja por inventar.” (José Mário Silva)

“Recuso-me a balanços. Dão-me enjoos. São ridículos. Papel que podia ser gasto para se pensar em alguma coisa.” (Inês Pedrosa)
Sugestão para adquirir e ler: o mais recente título de Onésimo Teotónio Almeida “O Peso do Hífen – ensaios sobre a experiência Luso-Americana”, editado pela Imprensa de Ciências Sociais.

Báu da Memória IV

encontrada no fundo de uma gaveta amiga

espelho