29 dezembro 2019

the goal

I can't leave my house
or answer the phone
I'm going down again
but I'm not alone
settling at last
accounts of the soul
this for the trash
that paid in full
as for the fall - it began long ago
can't stop the rain
can't stop the snow
I sit in my chair
I look at the street
the neighbor returns my smile of defeat
I move with the leaves
I shine with the chrome
I'm almost alive
I'm almost at home
no one to follow
and nothing to teach
except that the goal
fall short of the reach.

(Leonard Cohen, in "Thanks for the dance", 2019)

26 dezembro 2019

gosto

Chegou-me através da minha filha que, estando apaixonada pela Alemanha e sua língua, descobriu este jovem de voz rouca a cantar, normalmente, em alemão. Não percebo uma palavra, mas o rapaz canta bem e a música dele é agradável. Neste vídeo, um cover de Kylie Minogue. Gosto do original e gosto deste cover.


23 dezembro 2019

de tão óbvio...

O problema da esquerda contemporânea é o das particulares formas de identidade que têm crescentemente escolhido celebrar. Em vez de construir solidariedade em torno de grandes colectividades como a classe operária ou os explorados economicamente, tem-se focado em grupos cada vez mais pequenos que são marginalizados de maneiras específicas. Isto é parte de uma história mais ampla do destino do progressivo moderno, em que o princípio do reconhecimento universal e igual se transformou no especial reconhecimento de certos grupos.
(Francis Fukuyama, in IDENTIDADES, 2018:114)

rica metáfora

Tantos capadores há no mundo e quanta porca fica por capar...

mal regresse, vou comprar

pré-Natal

Todos os anos é a mesma conversa, o mesmo ritual. Já não adianta repetir o enfado em que se transformou o Natal. Por estes dias de pré-coiso, numa das frenéticas visitas a um espaço comercial, ouviu-se o seguinte diálogo entre duas lojistas:
- Eu não entendo. As pessoas andam todas agitadas, stressadas e carrancudas, em vez de andarem alegres e descontraídas por ser Natal.
- Pois é. Mesmo. Não sei porquê.
(silêncio)
Pois bem. Eu entendo. Retirem a obrigatoriedade de comprar presentes no Natal e a agitação e o stress terminariam. A disposição das pessoas seria logo outra. Não tenho dúvidas.
Um dia hei-de conseguir.

entre paredes

- Porque não sais comigo?
- Eu não saio com ninguém.
- Em cinco anos, só te conheço entre estas paredes...
- São as minhas paredes, não há mais para conhecer.

inundados ou submersos

Esteve, ainda está, o país debaixo de um dilúvio de água e vento. A Comunicação Social não fala de outra coisa e o circo é o mesmo de sempre, o de uma catástrofe nacional. Eu estarei sempre solidário com os cidadãos que sofrem directamente com estas intempéries, mas não percebo este alarido todo por causa da água. Então não estávamos (estamos?) a sofrer com uma seca severa há vários meses ou anos? Agora que veio a água e com abundância, já estamos a reclamar porque há água a mais... nunca estamos satisfeito com o que temos.
Depois, ainda levamos com este frenesim (des)informativo, parecendo que o país se vai afundar. Não, não vai e para além disso, as populações que sempre viveram em zonas ribeirinhas estão habituadas a este tipo de fenómenos. Eu, que apesar de ainda não ser propriamente sénior, lembro-me de, ciclicamente, ver os rios transbordarem e inundarem as lezírias e zonas baixas. Onde está o espanto agora?
Mais, ainda alguém me irá explicar o(s) critério(s) para se afirmar que um dia de Sol e de calor corresponde a "bom tempo" e um dia de chuva e de vento significa "mau tempo". É que para a minha amígdala o bom tempo é este, o de frio, chuva, nevoeiro, gelo ou neve. Portanto, onde e quando se instituiu esses parâmetros de qualidade do clima? Eu contesto-os.
Por fim, "a bem da nação" como se dizia no velho tempo, e já agora, para bem de todos nós, deixem chover, deixem a terra ficar coberta de água. Mais tarde, todos agradeceremos.

11 dezembro 2019

ainda e sempre, a luta

Eu já tinha feito referência ao livro, já o comprei, mas só hoje conheci este momento. Agradeço ao mano mais novo ter-me feito chegar este par de horas de verdade e saber.

PIRRALHA

Certo, justo e pedagógico.

a fábrica do braço de prata

Já tinha ouvido falar dela, do espaço eclético e multicultural que ocupa este edifício onde esteve instalada a fábrica de material de guerra, depois esteve meio abandonado e agora é ocupado por uma associação cultural... a fábrica é uma história que se faz com pessoas, atitudes, projectos e muitos sonhos.
Estive lá no Domingo, dia 8 de Dezembro, e o deslumbre foi total. Lugar bonito, desarrumado e anárquico, mas com sentido, ou melhor, apelando aos sentidos. Ainda que a razão de lá ter ido esteja a léguas da essência do espaço, foi um prazer respirar o ambiente e percorrer devagar e com atenção cada prateleira recheada de velhos e gastos livros. Pena não ter encontrado nada do meu interesse. Adorei. Com toda a certeza irei regressar.

(enquanto deambulava por algumas das salas, fiz este pequeno vídeo)

congresso de estudos rurais


Participei, de 5 a 7 deste mês de Dezembro, no VIII Congresso de Estudos Rurais, organizado pela SPER (Sociedade de Estudos Rurais) e pelo RuralReport, que se realizou na Escola Superior Agrária do Politécnico de Viana do Castelo, em Refóios do Lima. Esta escola está instalada no antigo Convento de Santa Maria, inicialmente Beneditino e depois da Ordem do Cónegos Regrantes de Santo Agostinho até à extinção das ordens religiosas em Portugal, no século XIX. A Escola foi aí instalada depois de uma remodelação assinada pelo arquitecto Fernando Távora.
Depois de alguns anos ausente destes encontros, nomeadamente, da RuralReport, regresso para conhecer novos investigadores e rever algumas caras já conhecidas. Com um conjunto de intervenções - painéis e sessões plenárias - diversificadas, percebe-se a preponderância das engenharias agrárias e da produção, assim como da abordagem histórica. Em todo o caso, é bom perceber como o olhar, a atenção e a preocupação com o espaço rural continua a motivar e a reunir tanta gente. Se dúvidas houvesse, este é um momento de afirmação desse universo e suas dimensões. Eu, tal como já aqui tinha referido, levei comigo as Nomeadas em Trás-os-Montes, enquanto metáforas de identidade, alteridade e tradução cultural.
De lá e desses dias trouxe uma gripe que, com custo, ainda tento debelar.






(fotografias de alguns pormenores do edifício onde está instalada a ESA)

a sabedoria

A sabedoria é a única ciência livre pois a sabedoria não está voltada para um tema em particular, mas para si mesma e para a forma mais perfeita de se existir. A sabedoria quer simplesmente saber, de uma forma livre; o conhecimento é o seu objecto; um conhecimento sem disciplina; indisciplinado, mas em forma de curva, regressa para si mesmo.
(Gonçalo M. Tavares, in Jornal de Letras nº 1283, Dezembro 2019)

03 dezembro 2019

mediascape: patavina

A propósito do jornal Público noticiar o seu abandono da plataforma Nónio, li o seguinte parágrafo e não percebi nadinha. Raio de linguagem! Complexa-hermética-estupidificante. Traduzam-ma p.f., pois sinto-me o mais analfabeto que possa existir. Ainda assim uma boa notícia.

"Até ao final deste ano, de acordo com a Plataforma de Media Privados, o Nónio entrará numa nova fase em que adopta uma plataforma tecnológica comum, a AppNexus, que permitirá disponibilizar um novo marketplace com segmentações de audiências transversais e simplificar o processo de compra para anunciantes e agências."

29 novembro 2019

a cultura da arrogância

A cultura de trabalho de Joacine Katar Moreira é uma cultura de descanso, no sentido intelectual do termo...

A propósito de mais um lamentável episódio protagonizado pela deputada do Livre na Assembleia da República, foram estas as palavras do seu assessor para justificar o pedido de segurança para a proteger dos jornalistas dentro da própria Assembleia da República. Inacreditável o episódio e palerma o comentário do assessor, armado em intelectual - o que raio é uma cultura de descanso?... qual é o sentido intelectual do termo?... Pela santa amígdala!
Passaram poucas semanas desde que foi eleita, mas desde o primeiro momento se percebeu o seu perfil e a atitude, que coadjuvada pelo seu peculiar assessor, mais parecem duas avantesmas pelos passos perdidos da Assembleia. Joacine Katar Moreira é arrogante, vaidosa e racista. E não é no sentido intelectual dos termos, mas sim nos sentidos literais dos vocábulos. Digo-o de boca cheia e sem pudor.

[eu ensino aos meus alunos a diferença entre as atitudes etnocêntricas e relativistas em cultura (faz parte do programa de uma das cadeiras que lecciono) e costumo apresentar vários exemplos ou situações para que percebam as diferenças e consigam identificar no quotidiano essas atitudes. Quando explico que o relativismo levado a um extremo se pode transformar num certo etnocentrismo invertido, procuro exemplos actuais. Este ano já tenho um excelente exemplo para esta situação: a deputada Joacine Katar Moreira e o seu comportamento fundamentalista e racista]

Lamento que o Livre esteja nesta circunstância, refém de uma agenda pessoal da sua única deputada, sem sentido e sem enquadramento político no programa do seu partido. Não será por acaso que vários dos seus membros fundadores e militantes têm abandonado o projecto.
Enfim, esperemos pelas próximas pérolas de suas excelências.

27 novembro 2019

mediascape: o seguro morreu de velho?

Este é o título da notícia no Jornal de Notícias online que eu não pude ler porque o "nónio" não me deixa. E como eu me recuso a aderir a essa coisa, fico impossibilitado de conhecer a notícia em pormenor. Em todo o caso, esse facto não me impede de reflectir sobre o noticiado.
Num primeiro momento seremos tentados a estranhar tal situação, como é que são os cidadãos que menor capacidade financeira têm, quem contratualiza mais seguros de saúde privados? Pois bem, parte da resposta estará na insuficiência declarada e atestada do Serviço Nacional de Saúde e as pessoas, fartas desse sistema e da sua incapacidade crónica, fazem o esforço financeiro para garantirem algum conforto e segurança na sua saúde. De imediato surge nova questão: Então e os cidadãos das chamadas classes altas, como garantem a sua saúde? Pagam do seu bolso a totalidade da factura, ou têm acesso privilegiado (vá-se lá saber por que meios) aos cuidados do Serviço Nacional de Saúde?
Eu, que nesta topologia imposta de hierarquização social, só a custo me consigo auto-considerar de uma classe média (daquela baixa, baixinha), possuo seguro de saúde privado há muitos anos e só quando, por ter dado aulas na escola pública tive acesso à ADSE, interrompi esse seguro. Portanto, se por um lado, o meu caso confirma a notícia, por outro lado, fico preocupado pela falência do serviço público e fico muito curioso para saber como fazem esses, os tais privilegiados deste país...

vamos LER

23 novembro 2019

mediascape: isto, isto e isto

Sascha Baron Cohen faz o discurso da sua, da nossa, vida! Ouçam.


22 novembro 2019

beautiful day


Dia de compras.
Horas felizes se adivinham.

21 novembro 2019

o mito, o símbolo e o trabalho inútil


Os deuses condenaram Sísifo a rolar incessantemente uma rocha até o alto de uma montanha, de onde tornava a cair por seu próprio peso. Pensaram, com certa razão, que não há castigo mais terrível que o trabalho inútil e sem esperança. (Camus, in O Mito de Sísifo)

Através desta metáfora, Albert Camus desenvolve neste seu livro uma reflexão sobre o absurdo e a negação da morte. Através de Sísifo, que nega os Deuses e aceita o seu destino, vivendo até à exaustão, Camus escreve sobre o desejo de esgotamento da vida, de conhecimento profundo da existência humana, consciente de todos os riscos, liberdade suprema de encarar o absurdo (morte) sem nostalgia e sem reservas.
A leitura deste ensaio filosófico não é fácil e obriga a uma atenção suplementar. Depois de alguma resistência inicial, consegui terminar a sua leitura. A determinado momento a reflexão dedica-se ao símbolo, enquanto elemento existêncial. Sem qualquer conhecimento prévio, eu diria até com alguma surpresa, essa sua reflexão encaixa na perfeição naquilo que ando a maturar, há algum tempo, sobre estas questões simbólicas. Transcrevo duas passagens em particular, cuja leitura me vai obrigar a reflectir e a reescrever, ou seja, trabalho acrescido para os próximos dias...

Um símbolo pertence sempre ao domínio do gerado, por mais precisa que seja a sua tradução, nenhum artista é capaz de lhe restituir mais do que o movimento: nunca pode ser traduzido palavra por palavra. De resto, não é mais difícil de compreender do que uma obra simbólica.
(...)
Um símbolo, com efeito, supõe dois planos, dois mundos de ideais e de sensações, e um dicionário de correspondências entre um e outro. É o léxico mais difícil de estabelecer. Mas tomarmos consciência desses dois mundos postos em contacto é situarmos-nos no caminho das suas relações secretas.
(Albert Camus, 2016:119 e 121)

19 novembro 2019

José Mário Branco


Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei p'ra'qui chegar
Eu vou p'ra longe
P'ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos p'ra nos dar.


No fim de uma vida, a homenagem simples ao Homem, ao Cidadão e ao Músico que tanto nos deu.

13 novembro 2019

o frio

Dizem-me, com a voz tremente, que vem aí o frio. Muito nos próximos dias. Indiferente e sereno, comento: - Deixem-no chegar, depois então tenham frio.

09 novembro 2019

democratas, dizem-se eles...

Parece mentira, deveria ser mentira, mas não é. A propósito da distribuição dos tempos a atribuir a cada bancada parlamentar, a conferência de líderes parlamentares decidiu não dar tempo aos três novos partidos com representação parlamentar, com um único deputado e, portanto, sem grupo parlamentar, no próximo debate quinzenal com o Governo. Isto aconteceu porque essa decisão teria que ser tomada por concordância de todos, só que o PS, BE, PCP e PEV rejeitaram essa possibilidade, obrigando o Presidente da Assembleia da República a remeter essa decisão para uma Comissão. Acontece ainda o facto de em 2015 ter sido decidido, em regime excepcional, dar esse tempo ao então único deputado do PAN. Portanto, não se percebe esta decisão dos referidos partidos. Estamos a falar da casa da democracia nacional, onde habitam aqueles que os portugueses escolheram como seus representantes. Pelos vistos, alguns desses eleitos acham-se no direito de silenciar e coactar outros eleitos. Inadmissível, e não adianta refugiarem-se no regimento da Assembleia. Vergonha.

08 novembro 2019

se o ridículo matasse...


- Lisboa e Portugal tornaram-se na cidade e país chave da revolução tecnológica.
- Não temos medo do futuro. Somos imparáveis. Ninguém nos vai parar.

Marcelo Rebelo de Sousa, PRESIDENTE da REPÚBLICA, no encerramento da WebSummit.

ainda a luta

Sempre oportuno, acertivo e com razão, Nuno Pacheco - o grande defensor da língua portuguesa no jornal Público - regressou ontem (7/11) à luta contra o novo Acordo Ortográfico. Aqui fica na íntegra o seu texto, onde, com razoabilidade e bom senso, demonstra a cagada em três actos que foi este Acordo. Leiam, pela vossa saúde, senhoras e senhores!

06 novembro 2019

a quem interessar


Vai acontecer de 5 a 7 de Dezembro de 2019, em Ponte de Lima e Sistelo e eu vou lá estar para falar sobre as Nomeadas em Trás-os-Montes enquanto metáforas de identidade, alteridade e tradução cultural

03 novembro 2019

viver

Estamos o dia todo no Facebook, o dia todo no Twitter. Devíamos era estar o dia todo a viver paixões, paixões de verdade: viajar, amar, comer, tomar banho no mar. Desfrutar da vida. O Twitter não é vida. A vida é o mar, o vento, o Sol, a luz, as ruas, os caminhos, abraçar as pessoas - isso é a vida.
Manuel Vilas, in LER nº 154, Verão 2019.

02 novembro 2019

bucolidades

Ainda as nozes não estão bem secas e a azáfama colectiva se concentra na apanha da castanha. Os Soutos, sacudidos pelas chuvas e ventos deste Outono, libertam os Ouriços sem resistência e os Castanheiros são, assim, despojados das suas vestes. Os chãos, caminhos e carreiros revestem-se deste verde-castanho bonito e fofo, transformando a paisagem para quem passa como eu. Pelos Soutos, durante dias e dias, pessoas curvadas e de mãos calejadas, já insensíveis à dor dos picos dos Ouriços, buscam e rebuscam a castanha. Dizem-me que há muita e boa. Eu já as provei, mas só daqui a uns dias ou semanas é que vou poder verificar a sua qualidade.
A aldeia fica sempre bonita nesta altura. O ar bucólico do seu abandono, o fumo que se eleva dos chupões e lareiras e os cheiros que viajam com os ventos, agradam-me e atraem-me. Ir à aldeia, percorrendo as estradas nacionais e municipais, através dos tons quentes outonais é um prazer que, com alegria, repito ano após ano.
Gosto sempre de cá vir.


Distraído, só por acaso reparei nesta tabuleta pendurada à porta do cabanal do Tio Malguinhas. De boa memória, velho e rijo amigo que trabalhou toda a vida na lavoura e só a morte, traiçoeira quando regressava a casa montado no seu macho, o impediu de fazer mais quando já contava para cima de nove dezenas de anos.

01 novembro 2019

o dinheiro, sempre o dinheiro

Eu quero lá saber se vão construir o novo aeroporto de Lisboa na Ota, na Costa ou no Barreiro. É-me indiferente e se não o construírem também não me importuna. Hoje, no jornal Público, o Miguel Esteves Cardoso escreve sobre esse "aero-aborto", mas não é por isso que o trago para aqui. Copio-o apenas porque se refere ao dinheiro da forma com a qual concordo e me revejo.


30 outubro 2019

a era dos colectivos de solidão

O novo modelo civilizatório assenta na produção aparentemente ilimitada de informação e na confusão entre informação e conhecimento. (...) Informação não é conhecimento (qualquer que seja o tipo de conhecimento). A informação fornece dados enquanto o conhecimento visa compreender ou explicar a origem, o significado e as implicações dos dados. A informação é o presente simultaneamente eterno e efémero, enquanto o conhecimento é a ponte entre o passado, o presente e o futuro.
(Boaventura Sousa Santos, in Jornal de Letras n. 1280, Outubro 2019)

25 outubro 2019

mediascape:pentelhices


Imagem roubada do Twitter e trazida para aqui porque me incomodou a amígdala. Que caramba!, porque raio é notícia a preferência sexual destes ou daqueles. Só porque estão na moda, os do feno processado, têm que vir para a praça pública escarrapachar a sua intimidade? Irrita-me solenemente esta permanente necessidade de afirmação pública de todos os seus pentelhos. Se eu gosto de entalar a pila na porta do guarda-vestidos, ninguém tem que saber. Certo?
Porra! Comam carne que isso passa!

18 outubro 2019

desespero e preocupação

A persistência da dor, com a qual aprendi a viver; o mal estar permanente; o pavor de estar na hora de ir à cama e saber que não se vai descansar, que não se vai encontrar posição e que só se vai adormecer derrotado pelo cansaço; acordar ainda pior do que quando me deitei, mais cansado, com a cervical, os ombros e o pescoço rígidos, quase sem articulação e a pouco que resta, dolorosa; a dor crescente que se vai instalando na cabeça à medida que as horas do dia avançam, impedindo-me de ter vontade e disposição para o que seja e roubando-me horas e dias úteis de vida; a fisioterapia que, apesar de ir aliviando, não consegue extinguir a dor aguda, nem corrigir a mecânica; a piscina que, por preguiça e por inadaptação ao habitat, quase não frequento; a vida sedentária e as obrigatórias posições ergonómicas erradas que, cada vez mais, me forçam a suspender ideias, raciocínios ou tarefas; é assim que chego a uma condição de exaustão física e psicológica como jamais experimentei.
É já num estado de algum desespero e, principalmente, preocupação em relação ao futuro e a que futuro (que qualidade de vida poderei ambicionar assim?), que decidi experimentar a acupuntura. Fiz apenas uma sessão, mas saí de lá como quase-novo, o peso do mundo que carregava aliviou e o pescoço ficou com maior amplitude de rotação. Não sei, não quero deitar os foguetes antes da hora, mas, às tantas, esta terapia poderá mesmo ajudar-me. Vou regressar.

e se

No dia 16 deste mês, Rui Tavares escreveu este artigo no jornal Público. Leiam e reflictam um pouco sobre esta questão e ponderem a vossa opinião sobre o que se passa na Catalunha.

17 outubro 2019

mediascape: novilíngua


Para além do facto em si, que representa mais do mesmo, ou seja, a mesma rotação, num movimento perpétuo, de políticos para lugares de chefia ou direcção no sector privado, atente-se à construção linguística da notícia apresentada pelo jornal Público de ontem, dia 16... No título da é utilizada a palavra "eleito", como se ele tivesse sido candidatado a um qualquer lugar; depois no corpo da notícia, afinal ele foi "escolhido" porque, e cito, "Pedro Mota Soares foi membro da Comissão de Economia do Parlamento, onde se debatem temas das telecomunicações". A sério?!... mas não havia lá mais deputados que debateram esses temas?!... Foram também candidatos a esse lugar, mas perderam a eleição?!... Palhaçada. O regime está podre e não é só um problema das elites e de política, é também um problema do jornalismo que temos e alimentamos.

mediascape: moral e crime

A notícia tem já alguns dias, mas só agora me apercebi do facto e do discurso de Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, que, ao arrepio dos esforços das últimas décadas na informação e na pedagogia sobre o consumo de drogas e sobre os seus consumidores, quer criminalizar o consumo nos espaços públicos, criando para isso uma narrativa de alarme social e escândalo moral. Punir, sob qualquer pretexto moral, como está mais do que comprovado empírica e cientificamente, nunca será a solução para combater o consumo e o tráfico de drogas. Trata-se de um problema de saúde pública que se resolve com pedagogia, com a dignificação dos indivíduos e sua qualidade de vida, com assistência técnica e especializada, com a abertura de salas de chuto e nunca com a sua humilhação e exposição.
Errado, muito errado, Sr. Presidente.

"we have no more beginnings"


Agora que foi conhecida a constituição do Governo resultante das eleições legislativas de 6 de Outubro e depois de toda a confusão com as negociações entre os partidos para a constituição da "geringonça 2.0" e respectiva especulação jornalística e opinativa, venho a terreiro para manifestar o meu agrado, primeiro, com o resultado das eleições e, segundo, a não constituição de qualquer geringonça que excluísse algum dos partidos da esquerda. Não percebi a dúvida e o espanto por o PS não ter querido um compromisso apenas com o BE. Se o fizesse iria deixar com toda a liberdade o PC e PEV para a oposição e, principalmente, para a contestação dos sindicatos e nas ruas. Certo? Elementar, como diria o outro...
Entretanto, esperemos para ver como pretende governar António Costa, sendo que não tenho qualquer dúvida de que a influência das esquerdas não se fará sentir como anteriormente e que para alguns sectores, em particular para os patrões, para os banqueiros e para os grandes grupos de interesses privados, este é o melhor governo que poderia ter acontecido depois do resultado das legislativas, assim como para os partidos de direita, feridos que estão, este novo governo do PS, dependente de acordos ad hoc, poderá ser a sua tábua de salvação, que é como quem diz, a hipótese de poderem ter um papel de algum relevo nesta legislatura. A ver vamos.
Por fim, uma palavra para o chinfrim que se fez e permanece com a entrada na Assembleia da República de um partido de extrema-direita, populista, fascista e racista. Sim, é um facto lamentável, mas inevitável. André Ventura ocupou um espaço sem dono, sem pudor e demagógico foi dizendo aquilo que é fácil ouvir nas ruas e em determinados media - o estigma popular em relação a determinadas comunidades étnicas, económicas e sociais existe e encontrou neste oportunista um espelho. O desafio para qualquer democrata será, com inteligência, com sarcasmo e com ironia, desconstruir o seu discurso e assim desmascarar o seu projecto político e, a termo, impedir que vingue e cresça.
Certo é que, recorrendo às sábias palavras de George Steiner, não teremos novos começos.

15 outubro 2019

ontem, na caixa do correio...

mediascape: beco sem saída

Ontem, dia 14 de Outubro, no jornal Público, António Carlos Cortez escreve sobre o livro de Nuno Pacheco "Acordo Ortográfico - um beco sem saída", publicado este ano pela Gradiva. De leitura obrigatória reproduzo o artigo. O livro, sim também vou comprar.


10 outubro 2019

LER


Já em pleno Outono, mas sabe sempre bem LER. Desta vez, dois em um...

04 outubro 2019

o poder da gente

Neste último dia de campanha eleitoral importa repetir até à exaustão a importância e o valor do voto de cada um dos portugueses. Não há como não ir votar. O futuro é nosso e dependerá sempre das nossas opções. Independentemente do sentido desse voto, o importante é no Domingo irmos votar. Eu vou e sei em quem irei votar, pois a sociedade mais justa e mais solidária que ambiciono só a encontro nas propostas de alguns partidos de esquerda e, de entre eles, o Bloco de Esquerda continua a ser aquele em quem eu mais me revejo. Apesar de algo afastado continuo a ser um bloquista.
Hoje, aqui, quero é reforçar o valor e o poder de cada voto. Não encontraria melhor forma de o manifestar do que este bonito momento.

03 outubro 2019

Diogo Freitas do Amaral


Morreu hoje, aos 78 anos, o fundador do CDS e um dos rostos mais marcantes dos primeiros anos da vida política depois do 25 de Abril de 1974. Independentemente de concordar ou (maioritariamente) não concordar com o seu pensamento, com as suas ideias e ideais, Freitas do Amaral sempre me mereceu o maior respeito e simpatia. Era um homem sério, sóbrio e correcto, transmitia confiança e serenidade, manifestando sempre a sua opinião sem necessitar das habituais parangonas e amplificadores da política corrente.
Recordo agora ter sido na campanha de 1986, se não estou em erro, na segunda volta dessas presidenciais contra Mário Soares, a minha primeira experiência em comícios. Foi na Praceta 25 de Abril, bem no centro de Vila Nova de Gaia e numa tarde soalheira. Na altura teria eu 11 ou 12 anos e claro que não tinha qualquer consciência política, nem sequer sabia o que era a esquerda e a direita. Fui levado por uns vizinhos mais velhos que não sei se já votariam, mas com certeza eram seus apoiantes. Recordo ter regressado a casa perto da hora de jantar e da reacção sorridente do meu pai, ao ouvir o relato da minha primeira aventura política.

mediascape:imbatíveis



Ora aqui está! Andaram estes anos escondidos, calados e sem espaço nas TVs. Agora que novo ciclo se aproxima e que, desejam eles, alguma coisa poderá mudar, regressam em força e não omitem as suas expectativas, nem sequer os seus mais fantasiosos desejos.
Hoje no jornal Público, e enquanto presidente da SEDES, João Duque manifesta a sua utopia política, a possibilidade de se constituir um bloco central em Portugal. Eu diria, ou melhor, eu sei que o que ele, e outros como ele, sempre quiseram nada mais foi do que a manutenção do bloco central de interesses e regalias no Estado e suas dependências. Com a aproximação de eleições legislativas, naturalmente, estes interessados no Estado, não deixam de vir à praça pública fazer a sua quota-parte de lobby contra a possibilidade de os partidos de esquerda se entenderem de novo. Esse será para eles o pior dos cenários possíveis para depois de 6 de Outubro.

18 setembro 2019

orgulhoso

A minha filha entrou na Universidade e não quis participar na praxe. Não a influenciei, apenas lhe disse para estar tranquila com a decisão que tomasse de participar ou não. Ela, pelo menos nestes primeiros dias, nem sequer se aproximou e apenas tem ido às aulas. Orgulhoso da sua atitude, consciente e afirmativa, de contribuir para o fim dessa aberração acéfala nacional.

mediascape: vaca

Eu já aqui escrevi o medo que tenho do PAN. Não é de hoje, nem de ontem, esse sentimento que nutro pelo ideário radical, extremista e estúpido desse agremiado de pessoas que advogam a supremacia dos animais em detrimento dos seres humanos. Estes animalistas, por incrível que me pareça, vão fazendo o seu caminho e colhendo a simpatia e voto de cada vez mais portugueses. Basta ler com atenção o seu programa e estar atento àquilo que vão afirmando e corrigindo, para percebermos que, aí, não mora a razão, que nem eles sabem bem o que defendem e pretendem para a sociedade, só sabem de animaizinhos e veganismo. Como sou um humanista, tentando manter os equilíbrios dos ecossistemas, procurando o respeito pelas outras espécies animais e vegetais, considero que a primazia deve estar no bem estar e qualidade de vida dos seres humanos. Dito isto, é com estupefacção que leio as declarações do reitor da Universidade de Coimbra, a propósito da intenção de proibir a carne de vaca nas cantinas da sua instituição já a partir de 2020. Que raio de medida! Populismo académico, suportado por uma atitude nada democrática e, acima de tudo, radical e proibicionista. Quem diria, num espaço que se pretende democrático e de livre aprendizagem, o seu representante máximo "PROÍBE" algo. Aqui está um exemplo do tal caminho perigoso, sob influência do PAN, que se faz sentir cada vez mais na sociedade.

CAMPANHA ELEITORAL (e para memória futura):
Pelo seu bem estar e dos seus filhos e netos, no próximo dia 6 de Outubro vá votar. Vá votar em quem bem entender, não importa, mas p.f. não vote no PAN. O PAN não reconhece a nossa liberdade individual, nem acredita em democracia.

04 setembro 2019

bem-feito Boris

Boris Johnson é a personificação deste tipo de pensamento contraditório, a que ele próprio chamou “ser a favor de ter o bolo no papo e o bolo no saco em simultâneo”. É por isso muito adequado ao arco narrativo do “Brexit” que agora tenha calhado a Boris Johnson subir ao cargo de primeiro-ministro para encarar de frente com todas as mentiras e contradições do seu discurso até aqui. O resultado é vermos o defensor da soberania parlamentar britânica a suspender a Câmara dos Comuns para não sofrer escrutínio parlamentar, o eterno rebelde conservador a ameaçar expulsar os deputados do Partido Conservador que não votem como ele, o defensor do primeiro referendo a morrer de medo da possibilidade de ser convocado um segundo referendo.
(Rui Tavares, in jornal Público, 4 Setembro 2019)

29 agosto 2019

o mexilhão

Um dos melhores momentos deste Verão, foi a descoberta do restaurante O Mexilhão, em Vila do Bispo. Sem qualquer referência prévia e apenas aconselhados pela senhora de um quiosque no centro da vila, resolvemos procurá-lo, entrar e experimentar. Visto da rua, o seu aspecto - pequeno e escuro - jamais nos convidaria a entrar, mas essa primeira impressão é muito enganadora. Com uma sala pequena de apenas meia-dúzia de mesas e uma decoração simples, mas acolhedora, a carta é variada e os preços não são exagerados. Especialista em peixes e, principalmente, mariscos, foi uma alegre surpresa experimentar algumas dessas iguarias. Para mim, para quem o marisco se resume a camarão e pouco mais, a Fritada de Camarões é um manjar, que espero voltar a degustar. Aconselho vivamente a quem por perto andar ou passar da Rua 1º de Maio, nº 32.
Não gostei de Vila do Bispo - pequena povoação plantada numa paisagem desabrigada, árida, sem sombras, sem verdes, exposta a vento e muito calor, mas adorei o Mexilhão e, por isso, apenas isso, regressarei a Vila do Bispo.

castelejo


Este ano, os dias de praia foram passados na costa ocidental do Algarve, com "acampamento" no concelho de Aljezur. São várias as razões para gostar deste Algarve, pois a costa Vicentina e o seu Parque Natural permitem-me conciliar aquilo que de bom tem a praia e o sossego que tanto aprecio. Das várias praias que conheci por estes dias, gostei particularmente da praia do Castelejo, no concelho de Vila do Bispo. Procurada, maioritariamente, por surfistas e outros desportistas aquáticos, esta praia consegue manter-se isolada e, assim, afastada da cobiça das grandes massas de turistas e veraneantes (nessa manhã de Agosto estaríamos cerca de cinquenta pessoas na praia...). Para além do indispensável Bar/Restaurante que me abasteceu do pouco que preciso sempre, consegui estar sossegado, sem pressões acústicas e demográficas. Depois disto, mesmo não sendo um amante de praia, desconfio não regressar aos atropelos e correrias dos outros Algarves, seja a Sota ou Barlavento.

as humanidades e a estupidez

Os programas de artes e humanidades estão a ser eliminados por toda a parte em prol de um desenvolvimento da formação técnica. (...) Os educadores que defendem o crescimento económico não se limitam a ignorar as artes: eles temem-nas. Porque uma compreensão refinada e desenvolvida representa um inimigo particularmente perigoso para a estupidez, e a estupidez moral é necessária para a concretização de programas de desenvolvimento económico que ignoram a desigualdade. (...) A arte é um inimigo poderoso dessa imbecilidade, e os artistas não são fiéis servidores de nenhuma ideologia, mesmo uma fundamentalmente boa. (...) Assim, os educadores que defendem o crescimento económico fazem campanha contra as humanidades e as artes como ingredientes da educação básica. Este ataque está hoje a ser levado a cabo em todo o mundo.
(Martha C. Nussbaum, in Sem Fins Lucrativos, 2019:63)

24 agosto 2019

nas palavras dos outros...

Nos últimos 20 anos, houve uma espécie de sanitarização do país. Tristezas que são normais na vida foram transformadas em depressões, ansiedades que são normais foram transformadas em perturbações ansiosas. É preciso reflectir sobre esta sanitarização.
(João Marques Teixeira, in jornal Público, 22 Agosto 2019)

a preguiça

Bastaram alguns dias de alheamento às rotinas para submergir num estado de autêntica e completa ausência de estímulos para fazer o que fosse, naquilo que habitualmente conhecemos por preguiça. Confesso que, num primeiro momento, a sensação é prazeroza, só que há medida que essa preguiça vai crescendo e se vai prolongando, esse prazer vai dando lugar a um crescente e irritante tédio, não só pelo vazio das horas, mas também pela consciência da ausência de qualquer estímulo para além da existência em si. Sem qualquer dúvida, a evitar.

mediascape: sobressalto cívico

Depois de alguns dias retirado, sem vontade de fazer o que fosse, nem sequer ler o jornal diário, recupero essas leituras e dou de caras com este editorial de Manuel Carvalho, no jornal Público de 22 de Agosto. Não tinha conhecimento desta tristíssima notícia, reveladora da nossa pobreza e miséria colectiva. Manuel Carvalho fala em sobressalto cívico, mas não creio que tal aconteça; aliás, não me apercebi de qualquer consequência para além da habitual espuma dos dias. A história destas tristes crianças irá rapidamente desaparecer do nosso conhecimento. Mais do que sobressaltado, sinto-me triste e indignado - que existência tão triste -, pois para além de todas as falhas e omissões dos organismos do Estado, aquilo que é imperativo fazer é impedir determinados indivíduos de constituirem família. Bem sei que uma afirmação destas soa mal e poderá ser entendida como uma qualquer forma de eugenia, mas numa sociedade digna e perante situações como esta, não podemos mais tolerar tais comportamentos.

14 agosto 2019

os perros de Carção

Regressemos a Carção, no concelho de Vimioso. Carção é um dos melhores exemplos da prática das nomeadas colectivas, pois é objecto de várias e diferentes nomeadas, naquilo que já denominamos de polinomeação, resultantes não só das suas actividades económicas, como também da sua condição étnico-religiosa. Se já nos referimos às suas nomeadas relacionadas com o seu ofício de almocreves - surradores,peliqueirosou curtidores, assim como ao seu gosto pelo jogo (batoteiros), destacaremos agora as nomeadas relacionadas com a sua condição étnico-religiosa. Carção é terra de judeus, e uma das comunidades transmontanas de referência do universo de Cristãos-Novos em Portugal. Ainda hoje é possível encontrar nesta comunidade várias sobrevivências materiais e imateriais desse ambiente étnico e/ou religioso.

Estes descendentes de cristãos-novos são os guardiães de vestígios históricos herdados em silêncio e a expressão social de uma alteridade que remete os seus protagonistas para uma condição de Outro no seio da comunidade local. (…) A herança do segredo confere-lhes uma consciência de grupo distintiva no meio social em que se inserem, e hoje suscita processos de construção ou reinvenção da identidade que conduzem à tentativa de recuperar sentidos históricos longínquos. (Lechner, 2007:2)

Os de Carção são, por isso, reconhecidos pelas comunidades vizinhas como os marranos. O termo marrano, diz-nos Elsa Lechner e segundo um estudo de Arturo Farinelli (1925), encontra-se no vocabulário espanhol de quinhentos e corresponde a um termo ofensivo - significando porco, em português - adaptado para denegrir, na época, os cristãos-novos de Espanha e Portugal. Ainda segundo a mesma autora, o seu significado de origem parece não se referir à relutância dos judeus em comer carne de porco, mas antes exprimir um sentimento de desprezo. (Lechner, 2007:3)

Foi ainda com a leitura deste texto de Elsa Lechner que conhecemos a nomeada de perro associada à comunidade de marranos em Carção…

Em Trás-os-Montes, e mais especificamente no Distrito de Bragança, os descendentes de judeus convertidos são apelidados de perro (cão, em português), ilustrando um facto antropológico identificado por Edmund Leach (1964) segundo o qual o uso recorrente de nomes de animais como injúria, cumpre uma função social de imposição de distância entre pessoas próximas. (…) Eles são o Outro mais diferente dos outros, ou seja, uma figura de alteridade extrema, remetida para um limiar de aceitação na fronteira com o animal. (Lechner, 2007:3 e 4)

Em Carção, mas também noutras comunidades vizinhas, tal como Argozelo, reconhecem-se como “da raça dos judeus”, aceitam as várias e diferentes nomeadas pelas quais são conhecidos na região. Contudo, quando confrontados com a nomeada de perros, a reacção é diferente, havendo não só resistência como também alguma indignação. Primeiro, porque muitos a desconhecem e, segundo, porque os poucos que sabem da sua existência não a compreendem, rejeitando-a por ofensiva à sua dignidade humana.

13 agosto 2019

dizer "sim"

A vontade explicita da palavra sim, conota e denota todas as intenções, valores e sentimentos. Ao longo da vida utilizamo-la sem fim, só que nem sempre é honesta ou sincera. Será o vocábulo mais exposto ao uso de ironias e mais disponível para o hipócrita fel humano.

sem fins lucrativos


Em véspera de partir para os tais dias de descanso, encontro este livro da filósofa Martha C. Nussbaum e não consigo deixar de pegar nele para espreitar e perceber de que se trata. Conheço esta autora desde o tempo do meu mestrado, tendo sido referência recorrente em vários módulos. O sub-título do livro foi o que me chamou mais a atenção, na medida em que também considero que a maior lacuna das actuais democracias capitalistas é o esquecimento da dimensão humanista nessas sociedades. Acredito, honestamente, que a qualidade das sociedades está relacionada com a dimensão humanista das mesmas, nos seus ambientes educacionais e formativos, na cidadania e no conhecimento.
Ainda que a lista de livros para ler nestes dias seja ambiciosa, não posso deixar de acrescentar este pequeno quase-manifesto por um mundo melhor, mais justo e mais solidário.

Na contra-capa, está escrito o seguinte:

Neste livro tão breve quanto poderoso, Martha C. Nussbaum, filósofa norte-americana, revela a importância central das humanidades em todos os níveis da educação e discorre sobre as razões pelas quais devem ser considerados inconformáveis para a criação de cidadãos democráticos competentes. Recentemente, a tendência perturbadora, nos Estados Unidos e não só, para tratar a educação como se o objectivo principal fosse ensinar os alunos a serem economicamente produtivos, em vez de lhes fornecer ferramentas para pensarem criticamente enquanto indivíduos conhecedores e empáticos, revela que a crise das ciências humanas está longe de diminuir. A par de uma crescente incapacidade para pensar, vemos também cada vez mais reduzida a solidariedade para com algumas franjas da sociedade, bem como a competência para lidar com problemas globais complexos. A perda destas aptidões elementares, defende Nussbaum, põe em risco a saúde das democracias e a esperança num mundo melhor.
Em resposta a esta situação, Nussbaum propõe que resistamos aos esforços para reduzir a educação a uma ferramenta do Produto Interno Bruto. Em vez disso, é fundamental trabalharmos para associar a educação às humanidades, a fim de proporcionar aos estudantes a possibilidade de se tornarem verdadeiros cidadãos democráticos dos seus países e do mundo. Traduzido em mais de vinte línguas, Sem Fins Lucrativos oferece-nos um cenário preocupante mas esperançoso, e constitui um manifesto que deve ser um grito de guerra para quem se preocupa com os propósitos mais profundos da educação.

Reflexão: o título deste livro daria um bom epitáfio para a história da minha vida...

as capadeiras de Rebordãos

As mulheres de Rebordãos, no concelho de Bragança, ainda hoje são conhecidas por capadeiras. No contacto que mantivemos com os habitantes desta aldeia, por entre sorrisos, reconhecendo essa nomeada, não sabem a sua origem ou fundamento, conseguindo apenas justificar essa adjectivação pela bravura e coragem das suas mulheres. Entre várias expressões e comentários, registámos:

Dizem que somos bravas, que temos pelo na benta…; as nossas mulheres são fodidas, não se metam com elas…; ora, eu bem vejo pela minha, não há quem a ature…; elas são lindas, é que é das mais velhas, até às garotinhas, todas iguais...;

Ainda que exista esta atitude condescendente e até bem-humorada, por parte dos locais, face à nomeada recebida, não conseguimos recolher junto da população nenhuma versão relacionada com aquela que o Abade de Baçal documentou sobre a sua origem. Nas memórias arqueológico-históricas do distrito de Bragança, o Abade remete a sua presumível origem para a segunda metade do século XIX, baseando-se numa carta do juiz de direito da comarca de Bragança ao administrador do concelho, em que se relatava:

«Ill.mo Snr. – Tendosse instaurado hum processo crime contra hûas mulheres de Rebordãos, por causa de hum acontecimento que entre ellas e hum criado do Estafeta de Rebordãos houve; e tendosse espalhado hontem e hoje que o dito criado apareceu morto no Adro da Igreja da Senhora da Serra; e constandome que V. S.a já procedera a varias averiguações a tal respeito, rogo a V. S.a que com a maior brevidade me informe sobre o resultado das suas averiguações, por assim o exigir o andamento do processo...... Bragança 16 de Agosto de 1855. O Juiz de Direito, B.meu Car.al de M.es Th…» (Alves, tomo VII, 2000:649)

O mesmo autor refere um outro episódio posterior que terá contribuído para o reforço dessa mesma nomeada:

Maria Gonçalves do Vale, de Rebordãos, filha de Francisco Gonçalves do Vale e de Teresa de Morais, presa em 1875 por infligir maus tratos a um galego (parece que o queixoso se gabava de proezas cupidíneas que não fazia, donde a irritação das raparigas de Rebordãos que, em legítimo desforço, o castraram. (Alves, tomo VII, 2000:188)

12 agosto 2019

a loucura da arte

Trabalhamos no escuro - fazemos o que podemos - damos o que temos. A nossa dúvida é a nossa paixão, e a nossa paixão é o nosso ofício. O resto é a loucura da arte.
Henry James (the middle years), in O Escritor Fantasma de Philip Roth.

os charros da Mofreita

Um dos casos de nomeada colectiva mais peculiares na região é o da aldeia de Mofreita, concelho de Vinhais, conhecidos e referenciados como charros, vulgo charrelos, ou ainda de beócios da terra de Bragança, numa alusiva comparação com os habitantes da Beócia, antiga região da Grécia, que tinham fama de ser rudes e grosseiros. Esta nomeada tem por fundamento ou razão um conjunto de histórias que se contam sobre as gentes da Mofreita, que vão sobrevivendo na memória das pessoas e são transmitidas de geração em geração, com o intuito de os remeter a uma condição de simplórios e analfabetos. Escreveu sobre eles o Abade de Baçal:

É enorme a lista de lhonas e pachouchadas que se atribuem aos charros de Mofreita, todas pelo teor das antecedentes, de onde fazermos ponto, pois para já basta para se julgarem as demais. Mas isto são lendas idênticas a outras respeitantes a diversos povos desde a mais remota antiguidade, como vemos pelos gregos através dos beócios. (Alves, vol. IX - 2000:268)

Uma das história que se contam e que contribui para o reforço dessa nomeada diz que os da Mofreita fazem as presas no rio com presuntos e tapam os buracos com salpicões. Diz-nos António Gonçalves (2008:121) que os da Mofreita replicavam: - Lá isso é verdade, mas só até enquanto não deram neles os cães da vila… Segundo o mesmo autor, a origem desta história poderá estar relacionada e ser contemporânea das invasões francesa.

Por ocasião da segunda invasão francesa, em Abril de 1809, as tropas francesas entraram em Portugal pela fronteira norte, junto a Chaves, tendo rapidamente dominado a região, invadindo e saqueando todas as terras por onde passava. A notícia espalhou-se por todas as povoações da região e, então, os habitantes da Mofreita, com receio que os invasores lhes saqueassem os haveres, lembraram-se de transferir para a povoação espanhola de Ermisende o seu fumeiro - presuntos, salpicões e restante fumeiro, contando que ali estaria a salvo. Carregaram carros-de-bois e puseram-se a caminho. Chegados ao rio Pequeno, um afluente do Tuela, já próximo do destino, depararam com um enorme caudal no rio, mas ainda assim tentaram passar o rio a vau. Logo o primeiro carro-de-bois, não aguentando a corrente, voltou-se, fazendo com que todo o fumeiro fosse levado pela corrente do rio, indo parar à represa mais próxima desse local. (adaptado de Gonçalves, 2008:122)

Uma outra história, contada pelo mesmo autor...

...um dia, quatro homens de Mofreita foram à pesca com as redes para o rio Tuela, para junto dos pontões de Fresulfe. Fez-se noite, mas estava uma clara noite de lua cheia. Enquanto esperavam que os peixes malhassem nas redes, foram para cima do pontão e viram a lua reflectida na água do rio. Pensando que era um queijo de ouro no fundo do poço, logo idealizaram a melhor maneira de o tirar. Como não sabiam mergulhar, pensaram: um de nós agarra-se com as mãos a uma trave do pontão e os outros vão-se pendurando sucessivamente, agarrando-se, uns aos pés dos outros, até o último chegar ao fundo do poço e tirar o queijo. Assim fizeram. Quando já estavam quase todos pendurados, o que estava agarrado à trave do pontão, de cansado que estava, já se lhe começavam a escorregar as mãos. Então gritou para os outros: - Segurai-vos bem, que eu vou cuspir nas mãos. Ao largar as mãos da trave, caíram todos ao rio. (Gonçalves, 2008:124)

Conhecemos uma outra versão desta história do Queijo de Ouro. Ouvida na região, diz-se que depois de todos os homens estarem pendurados uns nos outros, o último verificou que não chegava ao queijo e então terá gritado: - Não chego lá. É preciso mais um homem.Quem lhe respondeu foi o primeiro, aquele que estava agarrado ao pontão, que disse: - Deixa estar que vou aí eu...

Estes são dois exemplos das inúmeras histórias que se contam sobre os da Mofreita e que contribuem para a sua nomeação e perpetuação da sua fama. Contudo, também é perceptível determinado incómodo e incompreensão face a esta nomeação, não só da parte dos naturais da Mofreita, como também junto dos estudiosos que, ao longo do tempo, nomeadamente durante o século XX, tiveram contacto com esta comunidade:

É aos habitantes deste pequenino rincão da região vinhaense que os outros povos chamam «charros» como sinónimo de parvos e papalvos. E porque será? Se eles são trabalhadores, honestos, de bons costumes? O apodo perde-se na noite dos tempos. E, por isso, qualquer historieta relativa a parvoíce é aplicada aos laboriosos filhos da Mofreita. (Martins, vol. I - 1997:287)

Povo honrado, trabalhador e crente como o das outras povoações da região. Ali ouve pessoas notáveis e de valor, como refere o douto abade de Baçal, lembrando ainda que da Beócia eram alguns dos maiores homens que teve a Grécia: Pindaro, Hesioso e Plutarco. (Martins, vol. II - 1997:478)

A Mofreita é uma povoação laboriosa e morigerada, a que não é, evidentemente, estranha a benéfica influência moral do convento que semeia a paz, o conforto e a caridade na alma dos seus habitantes. A vida ali, é simples e rudimentar; vive-se do que produz a terra e o rio. (F.J.A no Jornal Mensageiro de Bragança de 18/05/1962 in Gonçalves, 2008:26)

Mas seriam os mofreitenses tão simplórios ou papalvos que merecessem aquela alcunha? – Não me parece, pois os mofreitenses não seriam (nem são), nem mais simplórios, nem mais rudes, nem mais grosseiros do que os habitantes de outras terras, vizinhas ou não. Todavia, desconhece-se desde quando e qual a origem deste apodo… (…)Não levam a mal que lhes chamem “charrelos”, pois são bastante orgulhosos dos seus antepassados, das suas tradições e da sua cultura. (Gonçalves, 2008:28)

05 agosto 2019

igreja dos Congregados

Sentado em frente ao altar-mor, ocupado pelo Santíssimo Sacramento, observo o movimento das pessoas que aqui entram. Bem no coração da cidade do Porto, e apesar do quase silêncio que se consegue, é impossível não perceber a agitação exterior. Por entre os muitos turistas que deambulam pela igreja, procurando junto dos diferentes altares informações escritas, são também muitos aqueles que aqui vêm, percebe-se, para rezar. Continua a impressionar-me a fé que as pessoas têm nos especialistas intermediários da entidade suprema e divina. A Igreja soube, desde há muito tempo, satisfazer a todos, ou quase, naquilo que são as aflições, as necessidades e as carências da razão.
Para além dessa essência religiosa, não há como negar a qualidade destes autênticos refúgios urbanos - tranquilidade, temperatura, silêncio e paz - para a meditação e para isto que acabo de fazer. Escrever.

03 agosto 2019

a censura

Um Bailarino na Batalha, de Hélia Correia, foi distinguido com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Na cerimónia de entrega do prémio, que aconteceu no dia 22 de Julho, na Fundação Calouste Gulbenkian, a autora fez uma intervenção que, agora, o Jornal de Letras publicou na íntegra. Dessa intervenção, sublinho as suas palavras sobre o ambiente censório que actualmente experimentamos...

Conheci a censura. Mas, não tendo gosto pelas memórias ressentidas, só muito raramente falo dela. (...) E, no entanto, está a acontecer. Não pela força de um poder instituído e frequentemente muito estúpido, mas pela força de um poder massificado, igualmente estúpido, igualmente autorizado por um puritanismo executório. É uma polícia de opinião que não parece imposta e que se aloja no interior de cada um para desencorajar a ousadia, sendo que a ousadia não está hoje na infantil libertinagem sexual e sim no dar palavra e dar figura ao que o homem e a natureza têm de terrível, de necessário, de indomesticável. Dar a palavra ao que é inominável, afrontar o tabu, eis a tarefa. Não podemos deixar que uma cruzada de higienização se estenda à arte. (...) A ameaça da ignorância muda de face mas não muda de maldade. A maldade benzida que extermina, essa maldade medieval que ainda opera noutros países da contemporaneidade, pouco difere desta maldade nova e aparentemente redentora que visa erradicar das histórias infantis tudo o que possa criar medo ou erros de julgamento. (...) Tal como o outro, este censor é um verme que passa para dentro da pele e decompõe a nossa liberdade natural. Mas, quanto a este, cabe a cada corpo social, ao indivíduo e ao grupo defenderem-se, num estado que não é de resistência, a nobre resistência da clandestinidade - mas de guerra. Guerra de rosto descoberto, guerra altiva. Porque ela, a ignorância, já calçou as botas para a parada.
(Hélia Correia, in Jornal de Letras nº 1274, Julho/Agosto 2019)

02 agosto 2019

e a Burra?...

A aldeia de Aveleda, no concelho de Bragança, situa-se junto à fronteira norte com Espanha e dentro do actual território do Parque Natural de Montesinho. A sua gente, para além da tradicional agricultura, dedicava-se a produzir carvão, proveniente das espécies vegetais abundantes no seu território, para abastecer as necessidades energéticas da cidade de Bragança e com isso obter um rendimento extra. Com regularidade deslocavam-se à cidade para, no mercado municipal e, principalmente, nos dias de feira, venderem o seu produto, que era transportado em burras, mulas ou machos. A distância entre a Aveleda e Bragança era grande e, por norma, entravam na cidade pelo lado nascente, sendo comum, nesses dias de feira, encontrar na Avenida do Sabor um grande número de animais em fila, à espera da sua vez de entrar no espaço do mercado ou da feira. Como a espera poderia ser longa, muitos dos carvoeiros deixavam os seus animais presos e iam até às tabernas comer e beber, ou aos outros comércios tratar da sua vida. Quem os recebia, em jeito de cumprimento, indagava sempre: - Então, e a burra?… Para além da evidente provocação, a questão demonstraria a relação próxima, quase familiar, entre esses indivíduos e os seus animais e, também, significaria que não existiria ninguém na Aveleda que não possuísse um animal e que não o utilizasse para chegar à cidade. Certo é que, ainda hoje, quando a actividade já desapareceu há muitas décadas, os naturais de Aveleda são conhecidos por esse género de cumprimento, que os relaciona com a a sua condição pretérita de produtores e comerciantes de carvão.

leituras para os dias sossegados

Ainda que em modo descontraído, a leitura é, e será sempre, parte significativa dos dias. Assim, a escolha daquilo que há que ler e para ler é importante. Para os dias deste Agosto e primeiros de Setembro, além das leituras imprevistas e esporádicas, a literatura que me espera é:
- Escritor fantasma, de Philip Roth;
- Identidades, de Francis Fukuyama;
- Serotonina, de Michel Houellebecq;
- Quem disser o contrário é porque tem razão, de Mário de Carvalho;
Boas leituras.

01 agosto 2019

ex-querido mês

Com a chegada do mês de Agosto, chegam também os dias de maior preguiça e descontração. Não por falta de trabalho, ou pelo menos, do ter o que fazer, mas por um imperativo pessoal, catártico e terapêutico, veraneio apenas. Apesar de já estar aliviado das obrigações burocráticas da Faculdade e outras desde 2ª feira, só hoje me sinto de férias. Por muito que a vida nos tenha obrigado a prescindir do hábito das férias em Agosto, a verdade é que fica sempre uma vontade de lá regressar, como que uma nostalgia desse tempo fora do tempo, em que toda a vida se alterava e ajustava ao ritmo do tal querido mês de Agosto, com lugares, espaços-tempo e rituais próprios, cronologicamente organizados e ordenados. Era um mês pleno de momentos únicos que, apesar de anualmente cíclicos, eram esperados e vividos como experiências únicas e irrepetíveis. Neste momento de revisitação, a memória consegue regressar aos tempos de menino e alcançar momentos singulares de uma existência aldeã; recordar a aldeia rejuvenescida com o regresso dos filhos emigrantes, adornados com os seus “ricos” Francos e “portentosos” automóveis; reviver a cor e a alegria de todas as festas, romarias, arraiais e respectivos bailaricos; relembrar cheiros e sabores para sempre perdidos; evocar amigos e amigas, alguns já desaparecidos.
Claro que esta nostalgia, possível porque um dia se experimentou, se conheceu, se esteve lá, não passará nunca disso mesmo, ou seja, de uma memória. Por mais que lá regressemos ao longo da vida, esse ambiente e essa gente já lá não estão. O mês mudou e nós com ele. Ainda assim, é mês de Agosto.

30 julho 2019

sapatilhas: um paradigma dominante

Hoje em dia toda a gente anda com sapatilhas nos pés. Olhemos à nossa volta e só vemos pés calçados com sapatilhas, de todas as cores, feitios e materiais. Sapatilhas a rodos. Sapatilhas, sapatilhas e mais sapatilhas. É impressionante! Quer dizer, para mim é impressionante a forma como esses sapatos inventados para praticar desporto, migraram para um uso indiscriminado, extensivo e, também, intensivo, no caminhar ordinário de todos os dias e horas. A nossa sociedade desfez-se de todas as outras alternativas e adoptou-as, definitivamente, como parte imprescindível do seu “dress-code”. Não importa se estamos a passear à beira-mar, se vamos às compras, ou se vamos trabalhar. Neste último caso, importa também fazer nota da indiferença perceptível e a falta de noção (eu diria, do ridículo…) ao se apresentarem nos seus postos de trabalho assim calçados. Dou alguns exemplos: parece-me bem que a minha fisioterapeuta use sapatilhas no seu trabalho, tal como um professor de educação física, ou um empregado de mesa numa esplanada, ou ainda um atleta ou treinador de um qualquer desporto; mas já me parece mal, até desrespeitoso, que um professor, um médico, um advogado, um juíz, um vendedor, um bancário, entre tantos outros, se apresente nesses preparos. Hoje, nos mais variados ramos, aceita-se esse calçado. Não entendo, nem aceito. Aliás, eu jamais o permitiria.
Para além desse desajuste, há que referir outros dois aspectos relacionados com este novo paradigma - o da sapatilha calçada - que tem dominado a nossa sociedade, digamos, nas duas últimas décadas. O primeiro está relacionado com o preço, pois já não basta estarem em todo o lado, como também são caras e, numa sociedade consumista e possidónia, é ver o sucesso comercial das marcas de prestígio e tradição, com modelos a custar nunca menos de uma centena de euros; o segundo aspecto, sem querer ser ofensivo, é a questão estética, pois a variedade da oferta inclui modelos e, principalmente, cores e padrões inimagináveis para o bom-senso e perigosos para a saúde pública. Quero eu dizer, posso até comprar sapatilhas de cores florescentes, rendilhadas, com purpurinas, laços e luzes para crianças e, quando muito, adolescentes, mas ver passar adultos, alguns já maduros, com esses enfeites decorativos nos pés, é, será sempre, aos meus olhos, apenas ridículo.
Se eu fosse parte interessada no sector do calçado estaria muito preocupado, pois ao olhar para os pés das nossas crianças e jovens, só posso antever a extinção de todo um sector de mercado (calçado de peles e couros). Até quando?
Atenção: Eu também tenho um par de sapatilhas, quase sempre tive sapatilhas, e sempre brancas. Apesar de raramente as usar, farão sempre jeito para as poucas vezes em que me decido fazer caminhadas, andar de bicicleta, ou acompanhar a minha criança numa qualquer aventura.
Enfim. Parabéns às sapatilhas e às respectivas marcas, que não só se conseguiram impor, como conseguiram, sem lógica ou razão, valorizar-se exponencialmente e monopolizar o mercado.
Viva a sapatilha.

29 julho 2019

das coisas da Loisa

Carlos Alberto d’Abreu, num artigo de 2011, escreve sobre a nomeada colectiva dos naturais da sua aldeia, a Loisa, no concelho de Torre de Moncorvo, tentando esclarecer a origem e motivação para esse epíteto que, apesar de não ofender, pelo menos incomoda os seus habitantes...
Nós somos os labregos. Alcunho que assumimos com a maior das naturalidades, porquanto labrego significa rural, campesino, rústico, lavrador. O que ama o agros e dele retira o sustento, com muito esforço e dedicação, acrescente-se.
Para além de labregos, os da Loisa tinham, e têm, má fama. O autor tenta perceber de onde poderá provir esse sentimento de terceiros sobre os loiseiros e encontra a seguinte história:
Ainda há poucos anos, com relativa frequência, encontrávamos gente pela região, mesmo noutros distritos, que quando dizíamos que éramos loiseiros, vinham com a história da (má) fama de que os da Loisa puseram a Guarda a lavrar. (…) Alguns, e essa era/é a versão mais vulgar, verdadeira ou construída (como meio de defesa), diziam que não era verdade. Que chegaram a ir buscar a canga (e o arado) mas que não lha puseram ao cachaço. Dois guardas - já republicanos, pois pelas nossas contas o episódio terá ocorrido por finais da década de 1920, nos primeiros da Ditadura Nacional -, em patrulha pela Loisa, entraram à taberna do Varela, existente na Carreira, para matarem a sede, ou talvez até a fome, e repararam num labrego com dois coelhos à cintura, isto no tempo do defeso. O que não era de estranhar, pois os loiseiros, mercê talvez da distância (distância física e distância-tempo) que os separava da vila (de Moncorvo) - terra onde se concentravam todas as (in)justiças-, sempre abusaram neste aspecto, diga-se em abono da verdade. Os homens fardados intervieram, por obrigação profissional. Mas os loiseiros, que na sua terra se sentiam livres e donos dos seus recursos (incluindo os cinegéticos, está bom de ver), não podiam submeter-se a tal vexame. Poderiam lá consentir que um dos seus fosse preso por dois bichos-caretos, apenas por haver caçado uns laparotos como complemento à pobre dieta, láparos esses nados e criados no seu país? Ora essa… Vai daí, arma-se um tumulto que desarmou os guardas. E o pior vexame veio da mulher do Carocha, qual Brites de Almeida. Quitou os coelhos ao caçador e com eles esbofeteou a autoridade, que já o não era. Foram buscar a dita canga e o arado e apenas os ameaçaram que os poriam a lavrar. E com isto os deixaram ir em paz. Desarmados, claro está. As autoridades administrativo-judiciais é que não estiveram pelos ajustes. Apresentaram-se na aldeia com uma aparatosa força militar, não sabendo nós se no dia seguinte, se nos dias subsequentes, pois os caminhos eram ruins. Entrou a força a cavalo e, no meio do povo, encontraram uma barreira humana, constituída por mulheres e raparigos. Umas prinhadas, outras paridas. O comandante da força, questionou-as sobre o paradeiro dos homens. E elas responderam que não tinham homem. O que levou o servidor da ordem a voltar a perguntar: se não tendes homem, quem vos emprenhou? (…) Ora os homens, andavam a monte, acaçapados nas lorgas dos bichos, porque baterem-se com uma força daquelas, já não estava ao seu alcance. A verdade, ou pelo menos aquela que ouvimos contar, é que da dita “brincadeira”, vários foram os degradados para o Ultramar. E pelos vistos alguns, sem culpa nenhuma.
(Abreu, Carlos Alberto, 2011)

25 julho 2019

cerveja: do macaco à civilização


Foi um prazer ler este pequeno ensaio de Afonso Cruz sobre a importância histórica da cerveja. Divertido, descontraído e descomprometido, o autor coloca o álcool, em geral, e a cerveja, em particular, como principal catalisador de toda a evolução da nossa espécie. Existem muitas teorias e perspectivas sobre essa grande aventura filogenética humana, mas nunca tinha encontrado esta da relevância da fermentação etílica. Em jeito de aperitivo, deixo-vos um resumo do autor.

livros e escola, escola e livros

Ontem, no jornal Público, António Carlos Cortez, reflecte sobre essa coisa estranha que é, hoje em dia, e nas escolas, a capacidade de ler, de escrever e de raciocinar. Questiona a desvalorização do objecto livro, assim como questiona o paradigma vigente na Educação nacional. Rejeita os modelos actuais - de facilitismo, de desresponsabilização, de desconhecimento - que estruturam a Escola em Portugal. De tão óbvio, não entendo como pode alguém não concordar com o que o autor escreve. Pena é que o Ministério da Educação não esteja povoado por estas ideias e estes ideais. Talvez um dia.
Porque teria que citar quase o artigo todo, deixo-o na íntegra para quem interessar. Considero que deveria ser do interesse (leitura obrigatória) de todo e qualquer pai e/ou mãe.

saber fazer

No reduzido número das coisas que me agradaram, e que soube fazer bem, aquilo que por certo fiz melhor foi beber. Embora tenha lido muito, bebi mais. Escrevi muito menos do que a maior parte das pessoas que escrevem; mas bebi muito mais que a maioria das pessoas que bebem.
Guy Debord, in Panegírico.

23 julho 2019

devoção


Este foi o serão em que li o mais recente livro de Patti Smith. Continuo a gostar da sua escrita, biográfica e até confessional, que nos leva por viagens, lugares e pessoas que habitam a nossa memória colectiva. Continuarei atento ao que for escrevendo, pois é ela quem, retórica, questiona e, de imediato, responde: - Porque escrevemos? - Porque não nos podemos limitar a viver.

what the fuck is this Patti Smith?

Enquanto vagueio por ali, sou dominada por uma tontura inesperada, ainda que familiar, na qual uma intensificação do abstrato se conjuga com a refração da disposição mental.
Patti Smith, in Devoção, 2019:32

22 julho 2019

ainda as raças humanas...

Hoje, no P2 do jornal Público, David Marçal explica porque é errado falar em raças humanas...

O conceito de raça foi desacreditado ao longo do século XX, primeiro pela antropologia e logo depois pela biologia. No século XXI, a genética entrou em campo a sério e não só triturou qualquer vestígio do conceito de raça, como trouxe uma perspectiva muito mais rica acerca da história das populações humanas. (…) Uma palavra para a cor da pele: é um caso invulgar, pois as diferenças médias entre populações noutras características são tipicamente muito mais pequenas. (…) Todas as actuais populações são o resultado de misturas de populações altamente divergentes (muito diferentes entre si) e que já não existem na forma não misturada. (…) A história das populações é de grandes misturas e migrações de longa distância — a maioria das populações actuais não descende exclusivamente das pessoas que viviam nos mesmos locais há 10.000 anos. Somos todos o resultado de misturas, em grande parte ocorridas nos últimos 5000 anos. O conceito de raça tem subjacente a ideia de uma homogeneidade de longo prazo, populações relativamente uniformes que viveram no mesmo local durante muito tempo. E isso sabemos que não é verdade. Num passado relativamente recente, as populações humanas eram tão diferentes entre si como são hoje, mas as linhas de separação entre elas seriam para nós irreconhecíveis. As actuais populações são misturas de populações do passado, que eram misturas elas mesmas. Os agrupamentos que hoje podemos reconhecer são um retrato instantâneo de misturas em curso. E isso arrasa os mitos nacionalistas apoiados em preconceitos raciais. (…) Mas estudar diferenças genéticas entre agrupamentos populacionais é um assunto delicado. Uma das vozes críticas é a antropóloga Duana Fullwiley, da Universidade de Stanford (EUA), para quem estes estudos de genética médica reabilitam a ideia da raça, sob a capa de uma suposta neutralidade do ADN. Mas o investigador em genética David Reich, no seu livro Who We Are and How We Got Here (Quem Somos e como Chegámos Aqui), argumenta: “Como sociedade, deveríamos comprometer-nos com a igualdade de direitos para todos, apesar das diferenças que possam existir entre indivíduos. Se aspiramos a tratar todos os indivíduos com respeito, independentemente das diferenças extraordinárias que existem entre indivíduos dentro de uma população, não deve ser muito mais difícil acomodar as diferenças médias mais pequenas, mas ainda significativas, entre populações.” Não se pode assim abrir espaço para que os avanços da genética sejam distorcidos de modo a reabilitar ideias racistas (há quem procure fazê-lo, é certo) e para isso é necessário discuti-los. Até porque possivelmente os argumentos que demonstram a não existência de raças humanas não têm sido suficientemente difundidos. Afinal, várias décadas depois, a ideia de uma classificação racial ainda parece fazer sentido para muitas pessoas.